domingo, 29 de junho de 2014

"A Arca Antes de Noé"

A primeira arca
Livro conta a história de tabuleta de argila contendo a primeira descrição do Dilúvio, escrita séculos antes da versão bíblica no Gênesis
REINALDO JOSÉ LOPESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA



Séculos antes que escribas israelitas anônimos se sentassem para escrever os relatos sobre o Dilúvio que constam do Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, múltiplas versões da história, em mais de uma língua, já circulavam pelo Oriente Médio.

O arqueólogo Irving Finkel, do Museu Britânico, foi responsável por decifrar uma das variantes mais antigas da narrativa, composta por volta do ano 1700 a.C. e contendo um detalhe surpreendente: uma "Arca de Noé" redonda.

As aspas são necessárias porque essa arca redonda não foi construída por Noé, como na história bíblica, mas, sim, por um sujeito chamado Atrahasis, que também é o personagem principal de outras versões antigas da história do Dilúvio.

Finkel é especialista na antiga escrita cuneiforme, inventada na Mesopotâmia (grosso modo, o atual Iraque), e conta os detalhes de sua descoberta no livro "The Ark Before Noah" ("A Arca Antes de Noé"), lançado recentemente no Reino Unido.

Na obra, Finkel explica que a tabuleta de argila com caracteres cuneiformes contendo a versão redescoberta da história chegou às suas mãos por meio de Douglas Simmonds, britânico cujo pai, um colecionador particular de antiguidades, havia adquirido a relíquia no fim dos anos 1940. Nenhum dos Simmonds fazia ideia da importância do texto, escrito em acadiano (língua semita, como o hebraico), provavelmente na Babilônia.

DETALHES

A tabuleta contém apenas um fragmento de 60 linhas da história, mas é excepcional por trazer instruções detalhadas da construção da arca, como matéria-prima, formato, dimensões e até a ideia de que os animais deveriam entrar na Arca em pares (veja infográfico).

O modelo da megaembarcação parece ter sido um tipo de "barco-cesto" tradicional da Mesopotâmia, que aparece em gravuras antigas e ainda era usado na região no fim do século 19.

Em entrevista à Folha, Finkel afirmou que a versão que ele decifrou provavelmente é a mais primitiva da região. "Na minha visão, a história do Dilúvio é extremamente antiga e deriva de uma inundação real que aconteceu muito antes da invenção da escrita, talvez milênios antes", diz. "Provavelmente a versão em acadiano é mais antiga que a versão em sumério [outra língua extinta da região], a qual tem um sabor de tradução."

A trama básica do Dilúvio mesopotâmico é quase idêntica à da história bíblica, mas uma das diferenças mais óbvias é que, na narrativa de Atrahasis, existem vários deuses (em vez do Deus único israelita), e são eles, em conjunto, que decidem exterminar a humanidade com as águas. Entretanto, uma das divindades, Enki, resolve "vazar" o plano de seus companheiros divinos para o humano Atrahasis, instando-o a construir o superbarco de maneira a salvar sua família e os casais de animais.

Outra diferença crucial é que, nas histórias mesopotâmicas, os deuses tomam sua decisão drástica porque não conseguem dormir com o barulho feito pela população humana, ou então porque a Terra ficou superpovoada. Na Bíblia, por outro lado, a maldade humana é que teria motivado o dilúvio.

"Isso provavelmente reflete a ideia de que, naquela época, a humanidade ainda não era afligida pela morte, o que levou à superpopulação", conta Finkel. "Nesse caso, a reação dos deuses é uma reação racional a esse problema, e não um castigo moral."

Tudo indica, portanto, que os autores israelitas da Bíblia transformaram a história para enfatizar o que viam como a preocupação de Deus em punir o mal. Isso não significa, porém, que a religião mesopotâmica fosse alheia à importância da moralidade, diz Finkel. "Eles só não faziam tanto barulho em relação a esse tema quanto as religiões posteriores", afirma.

    FONTE: Folha de São Paulo, 29 de junho de 2014.

sábado, 28 de junho de 2014

"Cinco anos depois do golpe, Honduras está pior que nunca", diz Zelaya

Ex-presidente hondurenho faz balanço da situação política, econômica e social do país desde sua derrubada, arquitetada "pela direita norte-americana"

Giorgio Trucchi | Manágua


Cinco anos atrás, Honduras se viu envolta em uma crise que fez sua história retroceder democraticamente e institucionalmente várias décadas. Às 5 da manhã do dia 28 de junho de 2009, a poucas horas de ser realizada uma consulta popular não vinculante (Quarta Urna), na qual se pretendia escutar a vontade do povo sobre a necessidade ou não de realizar uma reforma constitucional, dezenas de militares armados irromperam na casa do presidente Manuel Zelaya, o retiraram de lá de pijamas, o colocaram em um avião e, depois de uma escala técnica na base militar norte-americana de Palmerola, o deixaram na Costa Rica.

O golpe cívico-militar não apenas gerou uma grave quebra da ordem constitucional, mas também fez com que a economia e institucionalidade do país colapsassem, ilhando-o internacionalmente e fraturando a sociedade hondurenha, talvez de forma irreversível. “Nós perdoamos os executores intelectuais e materiais do golpe, mas não podemos nem queremos esquecê-lo porque isso levaria o país a repetir os mesmos erros. Isso não podemos permitir e os responsáveis devem pedir perdão ao povo”, disse o ex-presidente Manuel Zelaya durante uma entrevista exclusiva para Opera Mundi.

Depois de longas e extenuantes negociações e da assinatura, em maio de 2011, dos Acordos de Cartagena entre Zelaya e Porfirio Lobo, este último ganhador das questionadas eleições de novembro de 2009, o ex-presidente hondurenho pôde regressar livremente ao país. Poucos dias depois de seu retorno, Zelaya promoveu a criação do partido Livre (Liberdade e Refundação), naquele momento considerado o braço político da FNRP (Frente Nacional de Resistência Popular), o movimento popular que, com força e ímpeto, lutou nas ruas contra o golpe.

Esses acordos, promovidos e apoiados pelos então presidentes da Venezuela e da Colômbia, Hugo Chávez e Juan Manuel Santos, permitiram a normalização das relações internacionais de Honduras e abriram caminho para a realização de eleições gerais em novembro de 2013, cujos resultados oficiais favoreceram o candidato governista Juan Orlando Hernádez, em meio a fortes protestos do partidos Livre e de sua candidata Xiomara Castro, esposa do ex-presidente Zelaya, por irregularidade na contagem e transmissão de votos.

O partido Livre se transformou no primeiro partido de oposição, enquanto Hernandéz assumiu o cargo como o presidente de Honduras com o menor respaldo eleitoral (36,8%), em mais de três décadas de governos constitucionais.

Lembrando-se daqueles dias, o agora deputado e chefe da bancada do partido Livre no Congresso Nacional não esconde seu convencimento pleno de que amplos setores da política norte-americana participaram ativamente de sua deposição.

Da mesma forma, ataca com força o que considera um “fracasso total” do presidente Hernández em matéria econômica, social, de institucionalidade, segurança e participação cidadã. “Continuam implementando um modelo que exclui a maioria e beneficia alguns poucos, em meio a uma crescente militarização do país, ao acúmulo e controle de todos os poderes do Estado e ao ataque indiscriminado à oposição. No entanto, não conseguem governar e o país está despedaçado”, acusou Zelaya.

Opera Mundi: Passaram-se cinco anos desde que o tiraram de sua casa e o colocaram em um avião rumo à Costa Rica. Que leitura faz, hoje, daqueles momentos?

Manuel Zelaya: O golpe não foi um evento isolado, mas obedecia a uma estratégia de conspiração da direita norte-americana para todo o continente. Sete bases militares tinham sido instaladas na Colômbia, preparava-se o golpe contra (Rafael) Correa no Equador, a política de Washington em relação à Venezuela se direitizou mais. Nesse contexto, essas forças reacionárias se confabularam com maus dirigentes de nosso país e deram um golpe de Estado.

O objetivo era claro e até o expressaram claramente. “Viemos tirar Chávez de Honduras”, disseram. Queriam frear os avanços que estávamos tendo e anular nossa abertura em direção a um modelo que não excluía a maioria da população.

OM: Como Honduras está hoje?

MZ: Está em condições muito ruins. Honduras se transformou no país mais pobre e mais violento da região, com níveis altíssimos de corrupção, com uma economia quebrada, uma dívida pública e um déficit insustentáveis. Dá muita tristeza ver o próprio presidente Juan Orlando Hernández, que surgiu de uma fraude eleitoral, admitir que o país caiu em uma recessão econômica porque o dinheiro do narcotráfico já não circula mais...

OM: Nestes cinco anos, Honduras conseguiu reconstruir o eixo constitucional partido com o golpe?

MZ: Ainda não foi possível reconstruir a incipiente democracia que tínhamos em 2009. A metade das pessoas que deram o golpe de Estado ainda estão entronizadas no poder. Nem sequer foi possível estabelecer um diálogo para buscar um acordo político com um governo que continua obstinado em desconhecer e reprimir a oposição. Nesses cinco anos, mais de 200 militantes e ativistas da FNRP e do Livre foram assassinados.

OM: Como analisa o governo de Hernandéz?

MZ: É um governo que segue um padrão de conduta imposto pelos organismos internacionais. Promove privatizações, a venda do território e dos recursos naturais do país, com uma visão muito equivocada de desenvolvimento. Além disso, tem promovido um regime militarista que destrói as autoridades civis do país e persegue a oposição, e privilegiou um modelo econômico excludente, abandonando a agenda de participação cidadã e de consulta popular.

Definitivamente, o Partido Nacional caiu em uma armadilha, que é a de entregar todos os benefícios econômicos a pequenos setores que excluem e exploram o restante da população. Isso coloca o país em uma situação de grande prostração, com níveis insustentáveis de pobreza, corrupção e insegurança.

OM: Em seu libro “Decisões Difíceis”, a ex-secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton dedica um capítulo inteiro a Honduras. Diz que o senhor é uma “caricatura do passado, da era dos caudilhos centro-americanos”.

MZ: É a opinião dela… e creio que ela perdeu várias batalhas. Perdeu a batalha da democracia e da reconstrução da paz em Honduras, não pôde deter a decisão de toda América Latina de readmitir Cuba à OEA (Organização dos Estados Americanos) e agora está tentando manipular os fatos.

Entretanto, sabemos perfeitamente que os Estados Unidos têm grandes poderes políticos, econômicos e financeiros que manobram contra a vontade da maioria da população estadunidense. Quando digo que a direita norte-americana apoiou o golpe me refiro ao pensamento desses setores.

OM: Os Acordos de Cartagena permitiram sua volta a Honduras, normalizar as relações internacionais e criar o partido Livre para que participasse das eleições de novembro passado. À luz dos últimos acontecimentos, voltaria a assinar esses acordos?

MZ: Cada época é diferente e o que fizemos naquele momento e naquele contexto foi o melhor porque era o que a sociedade hondurenha precisava. Hoje, precisamos voltar a pensar a consulta popular, a Quarta Urna; que Honduras se abra para o mundo para que venha o investimento e a economia cresça.

OM: O partido Livre surge como um braço político da FNRP, mas o que se viu nos últimos tempos é um movimento de resistência popular desmobilizado e o partido político assumindo a iniciativa política nacional. Atualmente, como são as relações entre essas duas entidades?

MZ: O conceito de “resistência” é uma atitude e uma conduta e é permanente. Todos estamos resistindo, nos opondo às formas cruéis de exploração e de marginalização do sistema, contra o status quo imposto pelo governo nacionalista. Nesses cinco anos, houve uma metamorfose do processo de resistência e nada é igual mais, tudo foi se modificando.

Atualmente, a FNRP segue existindo, mas as organizações que a integram têm sido alvo de ataques repressivos e seus membros têm sido perseguidos e criminalizados. Isso minguou sua capacidade de ação. Nesse sentido, não podemos ver o Livre e a FNRP como um fenômeno separado. Considero que é o mesmo processo e, se há diferenças, são diferenças normais em um processo de organização tão dinâmico como o que vem se estruturando nos últimos anos.

OM: Quais são as mudanças mais urgentes que o Livre propõe e como consegui-las em um Congresso onde o partido é minoria?

MZ: Precisamos reconstruir o sistema republicano e democrático de Honduras, porque está destruído. No país, por exemplo, não há um Congresso, mas uma assembleia administrada por um partido que prepara a agenda, discute e aprova o que quer. O mesmo está acontecendo com os demais poderes do Estado. Queremos que se estabeleça um debate de verdade e o que estamos fazendo é promover a sensação de força, propondo todos os temas que são urgentes para o país.

Nesse sentido, é necessário repensar a questão da segurança, da desmilitarização da sociedade, profissionalizando e promovendo uma política comunitária, para que a comunidade seja a vigilante do processo. É necessário reformar plenamente o aparato judicial para que seja independente e transparente, assim como revisar o modelo econômico, os tratados comerciais que Honduras ratificou.

Também é necessário voltar a envolver a população, reativando um projeto social que vise à participação cidadã e à consulta popular. Tudo isso somente pode ser feito com consenso, reconhecendo, respeitando e dialogando com a oposição.

OM: O que fica daquele 28 de junho de 2009?

MZ: Indubitavelmente foi um evento trágico que deixou feridas abertas e uma sequela de mortos e feridos. Ao mesmo tempo, representou o início de um processo social que hoje se transformou em um processo institucional de reformas e mudanças para nosso país. Temos a esperança de poder chegar logo a uma sociedade mais justa, com mais equidade, onde a população não sofre diariamente a violência, o militarismo e a repressão.

FONTE: Opera Mundi

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Coleção da revista National Geographic Magazine em pdf (de 1888 até 1997)

Ao todo são 11,45 GB em 26 arquivos compactados.



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quinta-feira, 26 de junho de 2014

"As pessoas não podem ser tão felizes assim"

Curta-metragem mostra como a felicidade pode ser forjada no Facebook


Marco de Castro
Do UOL, em São Paulo




Um curta-metragem que faz críticas ao modo como as pessoas usam o Facebook tem chamado atenção justamente nas redes sociais. Intitulado "What's on Your Mind?", o vídeo --que até esta quinta-feira (26) teve cerca de 3,3 milhões de visualizações-- tem pouco mais de dois minutos e meio e mostra um homem que leva uma vida monótona e deprimente, mas se esforça para mostrar o contrário no Facebook.
O curta tem início com o personagem Scott Thomson, vivido pelo ator Espen Alknes, olhando, na tela de seu notebook, posts com fotos de amigos sorridentes, viagens incríveis, um lindo prato de comida e casais felizes. 
Ele então lê a pergunta que aparece no Facebook "what's on your mind?" (que, na versão brasileira da rede social, diz "em que você está pensando?") e decide começar a mentir no site, conseguindo um número cada vez maior de "curtidas" em seus posts.
Dirigido pelo norueguês Shaun Higton, o filme já foi finalista do American Pavilion Emerging Filmmakers, em Cannes, e traz a descrição: "O Facebook pode ser deprimente porque as vidas de todos são melhores do que a sua. Mas elas realmente são?".
O diretor conversou com o UOL por meio de mensagens no próprio Facebook e falou, entre outras coisas, sobre o que o inspirou a fazer o filme. Leia abaixo a entrevista: 
UOL: Como surgiu a ideia de fazer esse filme?
Shaun Higton: Eu estava olhando o meu feed de notícias do Facebook, vendo um status mais incrível do que o outro e disse para mim mesmo: "Wow, as pessoas não podem ser tão felizes assim". Foi assim que a ideia nasceu.
O personagem no filme, Scott Thomson, é baseado em alguém que você conhece? Diga-nos como você o criou.
O Scott é uma pessoa totalmente ficcional. Eu realmente gostaria que não existissem pessoas tão infelizes como ele, mas eu queria criar alguém que eu pudesse colocar em uma situação horrível, para mostrar as consequências extremas. O Scott nasceu dessa ideia. Num contexto em que a história ficaria cada vez pior, Scott teria que se tornar um perdedor. Mas tenho que dizer que eu gosto dele.
O que você pensa das redes sociais?
Eu não tenho nada contra as redes sociais; acho que o filme fala mais sobre como as pessoas as usam do que essas plataformas, propriamente.
Você já fez outros filmes? Fale-nos sobre sua carreira.
Eu trabalho como diretor de comerciais e fiz muitas propagandas para a TV. Meus trabalhos podem ser vistos nesse link.  Atualmente, estou trabalhando em um filme que tem um tópico similar, mas será muito diferente.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Para download: Coleção “Os Pensadores” – Nova Cultural


A coleção “Os Pensadores” foi uma iniciativa única no Brasil de publicação das obras mais influentes do pensamento ocidental. Foi publicada originalmente pela editora Abril Cultural, na década de 1970. Nas últimas décadas, a Abril Cultural separou-se do grupo Abril, passando então a se chamar Nova Cultural. Atualmente, a coleção “Os Pensadores” publica obras de referência obrigatória para a grande maioria dos cursos universitários de ciências humanas no Brasil, especialmente os de filosofia. Ao todo, são mais de 50 volumes publicados, dos quais consegui reunir boa parte em arquivo PDF neste post. Alguns volumes contam apenas com as introduções biográficas sobre o autor, sem os textos clássicos.
Baixe a vontade e bons estudos!
__________
11 - Erasmo de Rotterdam
23 - George Berkeley
28 - Georg Hegel
34 - Gottlob Frege
38 – Sigmund Freud
40 - Maurice Merleau-Ponty
41 - Bertrand Russell
42 - Karl Popper
43 - Jean-Paul Sartre
47 - Jürgen Habermas
48 - Claude Lévi-Strauss

terça-feira, 24 de junho de 2014

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS POSIÇÕES REVISIONISTAS (OPORTUNISTAS) DO MARXISMO NO BRASIL DE HOJE

Por Anita Leocadia Prestes*

V. I. Lenin, em sua época, mostrou que as tendências revisionistas do marxismo, embora reconhecessem formalmente a teoria do socialismo cientifico, na realidade constituíam uma forma da luta da ideologia burguesa contra as ideias revolucionárias. Segundo o grande artífice da Revolução Russa de 1917, isso revelava a força do marxismo. “A dialética da história é tal – escrevia Lenin – que o triunfo teórico do marxismo obriga seus inimigos a disfarçar-se de marxistas. O liberalismo apodrecido internamente, tenta renascer sob a forma de oportunismo socialista”[1].

As palavras de Lenin revelam-se de uma atualidade surpreendente, quando se observa o panorama político da sociedade brasileira de hoje. Uma sociedade, cujas classes dominantes, representadas pelas elites políticas - ou seja, seus “intelectuais orgânicos”, segundo A. Gramsci[2], - tiveram sempre sua atuação marcada pelas soluções de conciliação entre os distintos grupos de interesses dos setores privilegiados. As massas populares, os trabalhadores, os oprimidos e explorados permanecendo alijados dessas soluções de cúpula. Ao referir-se ao “homem cordial”, Sérgio Buarque de Holanda[3] registrou esse traço manifesto das elites brasileiras, herança da nossa formação histórica, caracterizada pela permanência de quatro séculos de escravidão e da grande propriedade territorial.

Tais tradições da vida política brasileira, em que as soluções de compromisso entre grupos e/ou partidos representativos de distintas facções das classes dominantes constituíram uma forma de sobrevivência diante do aguçamento da luta de classes, determinaram um constante afastamento das massas populares de qualquer atuação significativa na resolução dos problemas nacionais. Condicionaram uma permanente impossibilidade de que protagonistas de perfil popular exercessem influência significativa nas decisões políticas adotadas pelos intelectuais orgânicos dos setores dominantes. Nesse sentido, tornou-se emblemática a frase pronunciada em 1930 por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, um dos grandes oligarcas de Minas Gerais: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”.[4]

Os antecedentes apontados, presentes no universo político nacional, formaram o caldo de cultura propício ao advento no meio dos setores de esquerda e dos movimentos populares e dos trabalhadores de tendências oportunistas, ou seja, revisionistas do marxismo – uma teoria revolucionária em sua essência, segundo a qual seus adeptos não devem apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo.[5]

Na medida em que as forças revolucionárias, no Brasil, foram constantemente perseguidas e derrotadas pelo poder do Estado a serviço dos interesses das classes dominantes, na medida em que a debilidade orgânica e ideológica dos setores de esquerda e dos comunistas foi uma constante – em grande parte resultante dessa perseguição implacável –, tornou-se possível o predomínio em larga escala da ideologia burguesa nos movimentos populares e dos trabalhadores. Estava aberto o caminho para o avanço do oportunismo no seio das esquerdas brasileiras, para as dificuldades de enfrentá-lo com êxito.

Se lançarmos um olhar retrospectivo sobre a história do Brasil a partir da independência de Portugal, verificaremos que as situações de crise vividas pelo país foram sempre solucionadas através de compromissos estabelecidos entre facções das classes dominantes. Os setores populares ficaram de fora, reprimidos com violência quando tentaram conquistar posições que lhes fossem propícias dentro dos novos esquemas de poder.

A independência brasileira resultou de um arranjo entre os senhores de escravos e de terras e a Coroa portuguesa, enquanto os radicais da época foram alijados e derrotados. Diferentemente do processo de libertação das colônias espanholas liderado por revolucionários como Simon Bolívar e San Martin, que, ainda no início do século XIX, decretaram a abolição da escravidão negra e da servidão indígena, juntamente com o estabelecimento de regimes republicanos, no Brasil, com a independência, se constituiu uma monarquia, que assegurou a manutenção da escravidão negra até o final desse século e a proclamação da República apenas em 1889. Processos estes conduzidos de maneira a impedir qualquer mudança de caráter revolucionário. No Brasil, não tivemos lutas revolucionárias vitoriosas; pelo contrário, quando ocorreram, foram derrotadas com violência pelas classes dominantes do país. A tão celebrada opção por transições incruentas, proclamada com insistência pelos intelectuais orgânicos a serviço dos interesses dominantes, reflete a debilidade dos movimentos populares no Brasil – fruto das condições históricas a que foram condenados, incapazes de impor suas aspirações aos donos do poder.

Se dirigirmos nosso olhar para as vicissitudes do processo de transição do regime ditatorial implantando no Brasil em 1964 para a democracia hoje existente no país, verificaremos que, mais uma vez em nossa história, tivemos uma solução de compromisso entre facções das classes dominantes, entre os generais então à frente do Poder Executivo e os representantes da burguesia liberal (Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, etc.). Em 1979, mais uma vez em nossa história, os setores populares não tiveram força política para impor uma “anistia ampla, geral e irrestrita”, como também, em 1984, não puderam conquistar as “diretas já”. Do pacto estabelecido entre as elites burguesas resultaram uma anistia restrita, extensiva aos torturadores, e eleições indiretas para a presidência da República. Apenas em 1989, garantidos os interesses do grande capital nacional e internacional pela realização de uma transição “segura”, as eleições diretas para presidente da República foram permitidas.

Também o processo constituinte que se seguiu ficou marcado pela conciliação entre o “poder militar” e os representantes burgueses com acento na Assembleia Constituinte de 1988, cujo resultado foi a tutela militar sobre os três Poderes do Estado, de acordo com o artigo 142 da Constituição então promulgada, conforme denunciado à época por Luiz Carlos Prestes:
Em nome da salvaguarda da lei e da ordem pública, ou de sua “garantia”, estarão as Forças Armadas colocadas acima dos três Poderes do Estado. Com a nova Constituição, prosseguirá, assim, o predomínio das Forças Armadas na direção política da Nação, podendo, constitucionalmente, tanto depor o presidente da República quanto os três Poderes do Estado, como também intervir no movimento sindical, destituindo seus dirigentes, ou intervindo abertamente em qualquer movimento grevista (...)[6]

A fundação do PT, no início dos anos 1980, alimentou a esperança de que afinal fora criada uma organização política capaz de conduzir os trabalhadores pelo caminho da sua emancipação social e política. Sem confiar nas lideranças operárias surgidas das grandes greves de 1978/79 no ABCD paulista, a burguesia mobilizou recursos poderosos para derrotar Luís Inácio da Silva, o Lula, em três eleições presidenciais consecutivas (1989, 1994 e 1998). 

No decorrer desses anos, tornou-se evidente que inexistiam no Brasil forças sociais e políticas - o “bloco histórico” gramsciano[7] -, capazes de respaldar a eleição de um candidato à presidência efetivamente comprometido com os anseios populares e disposto a liderar um processo de transformações profundas da sociedade brasileira.

Ao mesmo tempo, tanto Lula quanto a direção do PT enveredavam pelo caminho da conciliação com setores da burguesia. Sem jamais terem adotado a teoria marxista como orientação ou considerado a realização de reformas sociais como caminho para a revolução, os líderes do PT optaram pelo reformismo. Diante da tradicional alternativa – reforma ou revolução -, a escolha foi clara. Tratou-se de buscar a reforma do capitalismo, de alcançar um capitalismo “sério” e distribuidor de benesses aos desassistidos, abandonando definitivamente qualquer proposta de mudança de caráter revolucionário e anticapitalista.

Contrariando o que haviam imaginado e proposto pensadores marxistas como Florestan Fernandes, o PT transformou-se numa versão brasileira da social-democracia europeia, com a diferença de que os conflitos sociais no Brasil, resultado de desigualdades extremas, não têm solução, mesmo que temporária, nos marcos do capitalismo, como aconteceu com o “estado do bem-estar social”, criação dos partidos social-democratas na Europa. Experiência esta hoje falida, como é do conhecimento geral.

Em 2002, ao candidatar-se pela quarta vez à presidência da República, Lula e as tendências que o apoiavam dentro do PT compreenderam que para assegurar sua eleição seria necessário fazer concessões ao grande capital internacionalizado, ou seja, aos setores da burguesia monopolista brasileira e internacional. A “Carta aos brasileiros” selou esse acordo. Lula e o PT tornaram-se confiáveis para a continuidade do sistema capitalista no Brasil, contribuindo para tal a nomeação de Henrique Meirelles para o Banco Central, o único gerente não estadunidense do então Banco de Boston, homem de confiança das multinacionais.[8] Jamais no país os grandes empresários e banqueiros ficariam tão satisfeitos com um governo quanto com os dois quadriênios de Lula e, logo a seguir, com a eleição de sua “criação”, a presidente Dilma.

Uma vez no governo, os dirigentes do PT incluíram em sua base aliada partidos e agrupamentos políticos comprometidos com a continuidade das políticas neoliberais, que haviam constituído a essência dos compromissos assumidos com a “Carta aos brasileiros”. Estava fora de cogitação qualquer possibilidade de os novos governantes desenvolverem esforços voltados para a organização e a mobilização populares, tendo em vista a implantação de políticas favoráveis aos interesses dos trabalhadores e das grandes massas vitimadas pela exclusão social.

De acordo com a cartilha neoliberal, formulada pelas agências ligadas aos grupos monopolistas internacionais, aos setores populares seria destinada uma parte dos recursos provenientes dos lucros espetaculares desses grupos, através de políticas assistencialistas promovidas pelo Estado brasileiro, cujo objetivo principal nunca deixou de ser a garantia da paz social. Dessa forma, tentava-se evitar as convulsões sociais e garantir o apoio popular aos governos do PT e de seus aliados, assegurando a sucessão tranquila desses governantes a cada eleição. São distribuídas migalhas ao povo, enquanto as multinacionais obtêm lucros fabulosos e os dirigentes do PT e seus aliados garantem a reeleição para os principais cargos dos governos da República. Até agora esse esquema tem funcionado, embora, a partir de junho de 2013, haja começado a ser questionado pelas manifestações populares que se espalharam por todo o Brasil.

Embora o assistencialismo seja bastante eficaz na garantia da continuidade das políticas neoliberais e da manutenção do sistema capitalista, a orientação reformista dos governos de Lula e Dilma não pode prescindir do discurso ideológico para justificar sua atuação. Não basta apelar para a simbologia de um operário metalúrgico e de uma mulher na presidência da República pela primeira vez na história do Brasil.

Torna-se necessário justificar o presente apelando para o passado e falsificando a história. Busca-se no passado a justificativa para o presente. Tenta-se apresentar os atuais governantes como continuadores das grandiosas lutas do passado, como herdeiros dos líderes revolucionários do passado, como paladinos de ideias avançadas e progressistas. Torna-se conveniente disfarçar-se de marxistas para melhor encobrir a orientação antipopular da política dos atuais governantes.

É assim que intelectuais e dirigentes tanto do PT quanto do PCdoB, disfarçados de marxistas, “inventam” uma história das lutas do povo brasileiro conforme seus desígnios inconfessáveis. Segundo a propaganda amplamente difundida pelo PCdoB, estamos diante do “partido do socialismo”, que, entretanto, realiza políticas que favorecem o agronegócio e a entrega do petróleo brasileiro às multinacionais. Um partido que falsifica sua própria história, ao negar seu surgimento, em 1962, resultado de uma cisão do PCB, e datá-lo de 1922, quando foi fundado o Partido Comunista (Seção Brasileira da Internacional Comunista). Em 2012, o PCdoB comemorou os 90 anos de um partido que não é o seu.

Da mesma forma, deputados, senadores, prefeitos e governadores, assim como dirigentes dos partidos governistas, se apropriam da memória de lideranças revolucionárias como Luiz Carlos Prestes, Olga Benario Prestes, Gregório Bezerra, etc, para tentar melhorar sua imagem desgastada e seu crescente desprestígio diante das novas gerações. Para fazê-lo com algum sucesso precisam falsificar a história de luta desses homens e mulheres, admirados por seu heroismo, distorcendo sua atuação e esvaziando-a de qualquer conteúdo revolucionário. Tratam de transformar esses lutadores admiráveis em figuras aceitáveis até mesmo pelas classes dominantes, que eles sempre combateram.

Pudemos assistir recentemente à demagógica devolução do mandato de senador a Luiz Carlos Prestes, promovida pelos parlamentares dos atuais partidos governistas, assim como dos mandatos dos deputados comunistas cassados em 1948. Se Prestes estivesse vivo, jamais aceitaria as homenagens hipócritas desses senhores, cuja atuação política foi por ele combatida severamente até falecer em 1990. Outros exemplos desse tipo poderiam ser citados.

Neste ano, em que se completam 90 anos do início da Coluna Prestes, dirigentes dos partidos governistas “descobriram” nesse episódio glorioso das lutas do nosso povo um valioso filão a ser explorado para melhor se disfarçarem de avançados, de progressistas ou até mesmo de marxistas, como é o caso dos políticos do PCdoB. Organizam homenagens no Congresso Nacional, em assembleias estaduais e câmaras municipais, assim como caravanas pelo país, com o objetivo de manipular a história dessa epopeia brasileira, cujos feitos mal conhecem, difundido versões falsas a seu respeito e retirando desse movimento o seu conteúdo de luta revolucionária contra o poder oligárquico então existente.

A Coluna Invicta, como também ficou conhecida na época, é apresentada como um episódio que merece a unanimidade da aprovação nacional. Fala-se, inclusive, na sua “institucionalização”, o que significa torná-lo mais uma data a ser incluída no calendário de festejos nacionais. Um episódio transformado em celebração, desprovida de qualquer caráter de luta, e aplaudido por todos os brasileiros, indistintamente da posição de classe. Estamos diante de uma nova tentativa da transformar Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, numa liderança de todos os brasileiros, falsificando sua memória de líder dos trabalhadores, dos explorados e dos oprimidos; jamais dos exploradores e dos donos do capital.

Diante da atuação oportunista (revisionista do marxismo), dirigida no sentido de reformar o capitalismo em vez de liquidá-lo, diante da falsificação da história das lutas e da memória das lideranças revolucionárias do passado, com o objetivo de justificar tal política reformista, o legado de Luiz Carlos Prestes adquire indiscutível atualidade.

Para Prestes, a emancipação econômica, social e política dos trabalhadores brasileiros deveria ser obra deles próprios. Para que isso se tornasse possível, considerava que os verdadeiros revolucionários teriam que contribuir para a mobilização, a organização e a conscientização dos diferentes setores populares, assim como para o surgimento de novas lideranças e novas organizações partidárias efetivamente comprometidas com a solução radical dos graves problemas nacionais.

 O legado de Luiz Carlos Prestes, ao apontar para a necessidade de considerar diferentes formas de aproximação da conquista de um poder revolucionário[9], que venha a abrir caminho para a revolução socialista, constitui uma contribuição valiosa para as forças de esquerda que hoje estão empenhadas na luta por transformações profundas da sociedade brasileira, na luta por mudanças que não sirvam aos desígnios dos políticos das classes dominantes e dos seus aliados oportunistas, interessados em que “tudo mude para que tudo permaneça como está”.

A crítica das posições revisionistas do marxismo e das falsificações da história dos revolucionários brasileiros constitui aspecto fundamental da luta geral contra o sistema capitalista e a favor da revolução socialista.

JUNHO DE 2014

*Anita Leocadia Prestes é doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada de UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes www.ilcp.org.br.




[1] LENIN, V. I. “Las vicisitudes históricas de la doctrina de Carlos Marx” (publicado con la firma de V.I. el 1 de marzo de 1913 em el num. 50 de Pravda), in LENIN, V. I. Contra el revisionismo.  Moscu, Ed. en Lenguas Extranjeras, 1959, p. 158; destaques do autor. (Tradução do espanhol para o português de PRESTES, A.L.).
[2] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, Vol. 2, 2001, p.15-25.
[3]  HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 14ª ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1981.
[4] ABREU, Alzira Alves de e BELOCH, Israel et al. (coord). Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. 2ª ed. V. I. Rio de Janeiro, Ed. FGV, 2001, p. 1115
[5] MARX, C. “Tesis sobre Feuerbach”, in C. MARX  & F. ENGELS. Obras Escogidas en tres tomos. T. I, Moscú, Ed. Progreso, 1976, p. 7-10.
[6] PRESTES, Luiz Carlos, “Um ‘poder’ acima dos outros”, Tribuna da Imprensa, RJ, 28/9/1988.
[7] Cf. GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere. 2ª ed. V. 1. Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, 2001, p. 238.
[8] Henrique Meirelles permaneceu à frente do Banco Central durante os dois quadriênios dos governos Lula.
[9] Cf. PRESTES, Anita Leocadia, “O legado de Luiz Carlos Prestes e os caminhos da revolução socialista no Brasil”, in www.ilcp.org.br.

FONTE: PCLCP