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quarta-feira, 1 de março de 2023

José Martí - Obras Completas (edición crítica) - 29 volúmenes en acceso abierto y gratuito

CLACSO (Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales) presenta ​la Edición Crítica de las Obras ​C​ompletas​ ​de José Martí (1853-1895)​, una iniciativa del Centro de Estudios Martianos y del Ministerio de Cultura de la República de Cuba.

2023 - año del aniversario 170 de su natalicio

(28 de enero de 1853)



La colección, compuesta de 29 volúmenes en acceso abierto y gratuito,​ recoge los manuscritos e impresos de José Martí conocidos hasta hoy: proclamas, discursos, manifiestos, comunicaciones, dedicatorias, cartas, correspondencias periodísticas, crónicas, artículos, ensayos, narraciones, obras de teatro, poemas, semblanzas biográficas, traducciones, dibujos, borradores, fragmentos de escritos y cuadernos de apuntes.


El contenido de los tomos se ha ordenado y combinado por fechas, temas y géneros, apreciando la evolución y línea del pensamiento martiano, y el paralelismo de su accionar político, periodístico y literario, simultaneidad que empieza a manifestarse a partir de los años 1875-1876, para intensificarse posteriormente. Organizar cronológicamente los textos nos permite observar esa evolución del pensamiento martiano, pero a su vez, separa en diferentes tomos, grupos de textos que habitualmente (y por deseo expreso del autor en su carta devenida testamento literario) se han presentado juntos, como ocurre con las Escenas norteamericanas y las Escenas europeas.

La confrontación de los textos con sus originales o variantes de estos, ha conllevado a la natural rectificación de erratas, así como la fijación del texto más permisible. Los escritos de época han suscitado convenciones editoriales, atendiendo a los modernismos en la ortografía y el lenguaje. La peculiar puntuación martiana ha sufrido modificaciones imprescindibles, pero siempre respetando la intencionalidad del autor.

En términos generales, cada tomo contiene: textos martianos, notas al pie, notas finales, índice de notas finales, índice de nombres, índice geográfico, índice de materias, índice cronológico e índice general del tomo.

La Edición Crítica de las Obras completas es fruto de la colaboración de investigadores y editores del Centro de Estudios Martianos, expertos conocedores de la obra y de la caligrafía de Martí, estudiosos de la obra martiana en el mundo y numerosas instituciones, que han convertido esta “obra” en reflejo de la sentencia que incluyó Juan Marinello, en 1963, en su prólogo a la edición de las Obras completas de la Editorial Nacional de Cuba: “Una edición crítica es el hombre y su tiempo -todo el tiempo y todo el hombre-, o es un intento fallido”.

Descargue desde aquí las Obras Completas en acceso abierto:




quarta-feira, 1 de julho de 2020

Más de 500 libros del Fondo de Cultura Económica para descargar

Compendio con más de 500 libros (PDF y EPUB) con varias colecciones del Fondo de Cultura Económica de su acervo.



El Fondo de Cultura Económica (FCE) es un grupo editorial en lengua española, con se en México, presente en en la mayoría de los países hispanohablantes como Argentina, Chile, Colombia, Ecuador, España, Estados Unidos, Guatemala y Perú.

Entre sus distintas colecciones se encuentran las agrupan obras fundamentales de diversas áreas del conocimiento, algunas como Psicología, Psiquiatría y Psicoanálisis, colección que difunde las teorías más influyentes en el campo de la conducta y la personalidad; Poesía, la cual reúne prácticamente todos los poemarios que llevan el sello del Fondo; Lengua y Estudios Literarios, que contiene obras que abordan las diversas facetas de la literatura y el lenguaje y las colecciones de Historia, Filosofía, Economía, Antropología por mencionar algunas.

Link para descargar: 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

BAIXAR LIVRO EM PDF: "A Rosa do Povo", de Carlos Drummond de Andrade

Publicado em 1945, A Rosa do Povo é o livro politicamente mais explícito de Carlos Drummond de Andrade, reunindo cinquenta e cinco poemas.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. 21ª Ed- Rio de Janeiro: Record, 2000.

LINK PARA DOWNLOAD:



quinta-feira, 20 de junho de 2019

Lançamento de livro e exposição: Poemas de Portinari

Convite de exposição de quadros de Portinari no Museu Nacional de Belas Artes - MNBA. Estará exposto o retrato de OLGA BENARIO PRETES de autoria de C. PORTINARI.

Retrato de OLGA BENARIO PRETES


A Fundação Nacional de Artes – Funarte lança no dia 25 de junho, terça-feira, às 18h, no Museu Nacional de Belas Artes, o livro Poemas de Portinari, em nova edição ilustrada. Entrada grátis.



Para o evento, o Museu Nacional de Belas Artes prepara exposição de Portinari para inaugurar no dia do lançamento, 25 que também celebra os 40 anos do Projeto Portinari, criado
para difundir a obra de um dos grandes nomes da nossa pintura.

:: Gerência de Edições da Funarte ::

A iniciativa é mais uma ação da Gerência de Edições do Centro de Programas Integrados da Funarte, dessa vez, em parceria com o Museu Nacional de Belas Artes e com o Projeto Portinari.

:: SERVIÇO ::

Lançamento de livro e exposição: Poemas de Portinari

25 de junho, terça-feira, às 18h
Museu Nacional de Belas Artes
Avenida Rio Branco 199, Cinelândia, Centro
Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 3299-0600

Organização de Letícia Ferro, Patrícia Porto e Suely Avellar
Edições Funarte
Preço de capa: R$ 50,00
192 páginas
Formato: 21cm X 28cm
ISBN: 978-85-7507-198-4

:: Mais informações ::
Assessoria de Comunicação Funarte
(21) 2279 8056 / 2279 8065
ascomfunarte@funarte.gov.br

Página do evento no Facebook:
https://www.facebook.com/events/1169798953207725/


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

TEM GENTE COM FOME (Solano Trindade)


Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome 
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

Solano Trindade (Recife, 24 de julho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 1974) foi um poeta brasileiro, folclorista, pintor, ator, teatrólogo, cineasta e militante comunista.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

POR QUE CANTAMOS

Por Mario Benedetti



Se cada hora nos brinda sua morte
Se o tempo é um covil de ladrões
Se os Ventosa não são os bons
E a vida não passa de um alvo incerto

Você perguntará por que cantamos

Se a nossos valentes faltam abraços
A nossa pátria morre de tristeza
E o coração do homem cai em cacos
Ainda antes que a vergonha expluda

Você perguntará por que cantamos

Se estamos distanciados como um horizonte
Se muito longe ficaram as árvores e o céu
Se cada noite nunca passa de uma ausência
E o despertar é só um desencontro

Você perguntará por que cantamos

Cantamos porque o rio ressoa
E quando o rio ressoa / ressoa o rio
Cantamos porque quem é cruel não tem nome
Mas sim o seu destino tem um nome

Cantamos pela criança e porque tudo
E porque algum futuro e porque o povo
Cantamos porque os sobreviventes
E nossos mortos querem que cantemos

Cantamos porque o grito não nos basta
E não basta nem o pranto nem o mau humor
Cantamos porque acreditamos nas gentes
E porque venceremos a derrota

Cantamos porque o sol nos reconhece
E porque o campo cheira a primavera
E porque neste tronco naquele fruto
Cada pergunta encontra sua resposta

Cantamos porque chove sobre o sulco
E somos militantes da vida
E porque não podemos nem queremos
Deixar que a canção se desfaça em cinzas.

Traduzido por Flavio Wolf de Aguiar, este poema, mais do que necessário neste momento, está publicado no recém-lançado número 31 da revista "Margem Esquerda", da Boitempo Editorial .

domingo, 19 de agosto de 2018

Poesia para celebrar o Dia do Historiador

19 de agosto - Dia do Historiador
 Data criada pela Lei nº 12.130/2009.



Há historiador que gosta 
De bolor, de papel.
Amador de arquivo
De construir outro juízo
Sem valor.
Valor mesmo só
O do livro
Lançado a rigor.

Há historiador que não gosta 
De samba e de rua
Nem poesia e nem lua.
Prefere o trabalho manual
Da conserva ao bolor.

Acreditem: 
Existe até historiador
Que não gosta
De (ser) trabalhador.

Pra ser bom historiador
Tem que gostar de flanar
Andar por aí
Observar as ruas
Estreitas e os bares
As ruas cheias e os mares
Se emocionar.
Vibrar.
Beber.
Se indignar.

Pra ser bom historiador
É bom tirar lições do passado
Percorrer outros caminhos
Que não seja das Índias
E não cansar de caminhar
Indagar
Ousar
Responder
Sugerir
Farejar
Caçar. 
O caminho é longo, viu?

Pra ser bom historiador
Condição primordial
É gostar de lutas
E de mentes 
É gostar de rua
E de gentes.

Matéria-prima 
Método
Teoria
História nunca de cima
Ciência, samba & poesia

Pra ser bom historiador
É preciso lembrar
O que a academia
Nos faz esquecer.

Juliana Meato

FONTE: Tarcísio Motta de Carvalhovia Facebook 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

COLECCIÓN HISTORIAS DESDE ABAJO - DESCARGAR GRATIS

Ocean Sur
Una editorial latinoamericana

COLECCIÓN HISTORIAS DESDE ABAJO
Coordinador: Néstor Kohan

Los monopolios de la (in)comunicación recrean día a día la hegemonía de la historia oficial. Hartos de esos discursos globalizados y apologéticos, necesitamos nadar contra la corriente y recuperar la tradición revolucionaria. ¡Basta ya de aplaudir a los vencedores! ¡Basta ya de legitimar lo injustificable! Frente a la historia oficial de las clases dominantes, oponemos una historia radical y desde abajo, una historia desde el ángulo de los masacrados, humillados y desaparecidos.

En cada acontecimiento de la historia contemporánea se esconden la guerra de clases, la lucha entre la dominación y la rebelión; entre el poder, la resistencia y la revolución. Cada documento de cultura es un documento de barbarie. Debajo de la superficie, laten y palpitan las rebeldías de los pueblos sometidos, la voz insurrecta de las clases subalternas, los gritos de guerra de las explotadas y los condenados de la tierra.

Esta colección, de autores jóvenes para un público también joven, pensada para las nuevas generaciones de militantes y activistas, se propone reconstruir esas luchas pasándole a la historia el cepillo a contrapelo. La contrahegemonía es la gran tarea del siglo XXI.



LUCIANA LARTIGUE
2011

La Revolución mexicana ha trascendido como una gesta heroica que marcó el inicio de las grandes conmociones sociales del siglo XX. Este proceso, que ejerció una profunda influencia en las luchas de América Latina, potenció la creación de organizaciones campesinas y obreras, de partidos políticos socialistas, de movimientos nacionalistas, antiimperialistas, anarquistas e indigenistas e inspiró a los precursores del pensamiento marxista latinoamericano.

Al calor de los combates militares que condujeron Emiliano Zapata y Pancho Villa, los campesinos mexicanos acumularon el poder necesario para emprender transformaciones de carácter social y político sin precedentes en nuestro continente. Sin embargo, aunque la Revolución mexicana ocurrió hace ya un siglo, las causas esenciales de su estallido continúan vigentes.









25 poetas con la España revolucionaria en la Guerra Civil
Selección y prólogo: MARIANO GARRIDO

Es esta una antología de 25 poetas revolucionarios españoles y latinoamericanos que lucharon por la causa republicana durante la Guerra Civil española. Poetas que pusieron su pluma al servicio de la vida: contra el fascismo, por la defensa de la causa popular, y en muchos casos, por la revolución.

En esta selección hay poesías que exaltan la batalla por la libertad, que apuestan al triunfo, que lloran a los caídos o que lamentan el destierro. Poetas que escribieron y que tomaron las armas. Poesía que se escribe con la pluma; poesía que se escribe con el plomo.  

Sus páginas incluyen un texto introductorio que defiende a la poesía militante y de denuncia como un arma en las luchas de los pueblos frente a la poesía como «arte puro» al margen del devenir histórico.

Reúne obras de notables intelectuales como Miguel Hernández, Pedro Garfias, León Felipe, Antonio Machado, César Vallejo, Pablo Neruda, Vicente Huidobro, María Luisa Carnelli y Nicolás Guillén, entre otros.



La otra cara del capitalismo
PATRICIA AGOSTO
2008

Una breve historia del ascenso y caída del nazismo, el mayor régimen criminal y genocida que ha conocido la humanidad.

Un examen de las causas internas e internacionales de la consolidación del nazismo, así como una radiografía de los sectores que acumularon capital y se enriquecieron en medio de los campos de concentración y exterminio. 

Enfatiza también en aquellas fuerzas sociales y de resistencia que se opusieron al atroz régimen. Las experiencias históricas muestran que siempre frente a regímenes totalitarios han surgido voces de resistencia a pesar del silencio cómplice de muchos. Son las mismas voces que hoy siguen resistiendo frente a las imposiciones de un sistema, del que el nazismo formó parte, que tiene mucho de totalitario, aunque se disfrace de defensor de la democracia y de los derechos humanos.






AGUSTÍN PRINA
2008 

Una breve narración de la epopeya de Vietnam y sus combatientes. Relata las victorias sobre Japón, Francia y los Estados Unidos; la lucha armada y política de esta pequeña nación y su indoblegable espíritu. Rescata las enseñanzas políticas de Ho Chi Minh y el general Giap, así como la repercusión de la causa vietnamita en las juventudes occidentales, el movimiento antibelicista norteamericano e internacional, y la cultura toda.

El autor emprende un ilustrativo análisis del escenario internacional en el  momento en que ocurre la intervención militar de los Estados Unidos en Vietnam. La naturaleza expansionista del imperialismo se inscribe así en el contexto de la guerra fría y el intento de aniquilación de los focos comunistas en el Tercer Mundo. Sin embargo, ante esta arremetida el pueblo vietnamita supo organizarse y derrotar a un inmenso poder militarista, poseedor de la más avanzada tecnología de guerra.

La guerra de Vietnam integra en sus páginas un amplio recorrido histórico por el país asiático, una minuciosa cronología, y diversos anexos que incluyen manifiestos, discursos, poemas y canciones.

domingo, 17 de julho de 2016

A morte de Ferreira Gullar

O poeta morreu. Mas segue insepulto esbravejando contra a esperança

Por João Batista Damasceno

Folheando livro presenteado pelo historiador Rubin Aquino por ocasião dos 80 anos de fundação do PCB, na contracapa encontrei poema de Ferreira Gullar, onde dizia que “eles eram poucos e nem puderam cantar alto a Internacional naquela casa de Niterói em 1922. Mas cantaram e fundaram o partido. O PCB não foi o maior partido do Ocidente, nem mesmo do Brasil. Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele. Ou estará mentindo”. No rádio, Adriana Calcanhotto cantava ‘Vambora’ e falava da noite veloz. Fui à estante procurar Ferreira Gullar, poeta que a inspirara. Ele estava lá, dentro do livro.

Fui apresentado à história por Aquino. Estive no seu funeral. Tenho saudade tanto dele quanto do poeta Ferreira Gullar, para quem “se morro, o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto, se apago a lâmpada”, e que no poema ‘Não há vagas’disse que o preço do feijão não cabe num poema, nem o funcionário público com seu salário de fome e sua vida fechada em arquivos, nem o operário que esmerilha seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras.

Mas no mundo há muitas armadilhas capazes de matar até um poeta. E o que é armadilha pode ser refúgio, e o que é refúgio pode ser armadilha. E o poeta, que era homem comum de carne e memória, de osso e esquecimento, que andava a pé, de ônibus, de taxi, de avião e tinha a vida soprando dentro de si, pânica, feito a chama de um maçarico, perdeu a memória e morreu. Ele escrevera que o açúcar branco adoça o café e Ipanema, sem ser fabricado por quem o consume, vende ou pelo dono da usina. Mas, em instalações escuras, por homens escuros de vida amarga, que não sabem ler e morrem de fome nos canaviais aos 27 anos.

O poeta morreu. Mas segue insepulto esbravejando contra a esperança. Talvez porque não lhe avisaram do seu falecimento. A noite nos trópicos não lhe tem sido veloz, e ele se arrasta pela escuridão ao lado do passado, também insepulto, que insiste ser presente. O assassinato de índios, de sem-terra e de seus advogados, pelo latifúndio, e a morte de homens analfabetos e negros de vida curta não o sensibilizam mais. O poeta morreu! Um clone seu passeia entre crônicas e colunas, sem querer saber de onde vem a farinha com a qual são feitas coxinhas ou o óleo na qual são fritas.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política e juiz de Direito

FONTE: O Dia

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Livros epub e pdf para downlod: 7 pastas com Literatura Africana

Escritores africanos contemporâneos   https://drive.google.com/folderview?id=0B2wgRfGVtk5HWUxHVDMtRi1VcUU&usp=sharing   livros epub e pdf
para baixar clique na capa, e depois na pequena flecha no alto da página mostrada



Abaixo, um poema para ser pensado e discutido:

Do Povo Buscamos a Força

Por Agostinho Neto

Não basta que seja pura e justa
a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

Dos que vieram
e conosco se aliaram
muitos traziam sombras no olhar
intenções estranhas.

Para alguns deles a razão da luta
era só ódio: um ódio antigo
centrado e surdo
como uma lança.

Para alguns outros era uma bolsa
bolsa vazia (queriam enchê-la)
queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis.

Outros viemos.
Lutar pra nós é ver aquilo
que o Povo quer
realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É sermos livres pra trabalhar.
É ter pra nós o que criamos
Lutar pra nós é um destino -
é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.

Na mesma barca nos encontramos.
Todos concordam - vamos lutar.

Lutar pra quê?
Pra dar vazão ao ódio antigo?
ou pra ganharmos a liberdade
e ter pra nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontramos
Quem há-de ser o timoneiro?
Ah as tramas que eles teceram!
Ah as lutas que aí travamos!

Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão

Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos.
O Povo tomou a direção da barca.

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós


sábado, 11 de junho de 2016

Bibliófilo encontra versão inédita de poema de Fernando Pessoa

MAURÍCIO MEIRELES
COLUNISTA DA FOLHA

Pessoa, em 1929, em foto do livro 'Fernando Pessoa. Uma Fotobiografia', de Maria José de Lancastre

A crise econômica em Portugal, que começou em 2008, fez surgir nos alfarrabistas –os sebos lusitanos– raridades de um tempo perdido. Documentos e livros raros de colecionadores, quase sempre anônimos e precisando de dinheiro, brotaram da poeira dos séculos.

Quem pode faz a festa nessas horas. Foi o caso do bibliófilo e advogado brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho. No ano passado, ele recebeu a ligação de um alfarrabista português, que queria vender um "livro de autógrafos" com um manuscrito de Fernando Pessoa na última página.

Alfarrabista é bicho esperto, mas às vezes se engana. É verdade que nem Cavalcanti se deu conta, mas a poesia no caderno, que começa com "Cada palavra dita é a voz de um morto" –aparentemente conhecida–, é uma versão inédita de texto do qual até hoje só se conheciam rascunhos.

Um dos rascunhos do poema no acervo de Pessoa


Também é a única versão íntegra e clara do poema. Para se ter ideia, mesmo quem não é especialista na caligrafia de Pessoa –que escrevia garranchos, às vezes bêbado– consegue lê-la. Conclui-se, do documento, que o escritor registrou ali a versão final do texto. Nem o acervo do autor, guardado na Biblioteca Nacional de Portugal, tem a poesia.

O caderno ainda guarda uma história inusitada. Ele pertenceu a o intelectual português José Osório de Castro e Oliveira. Aos 13 anos, em 1913, viajando do Rio a Lisboa, ele pedia para os passageiros escreverem o que quisessem.

O navio König Wilhelm 2º, no qual estava Osório, era o mesmo em que Fernando Pessoa foi da África do Sul para Lisboa em 1901.

Jeca, como sua mãe lhe chamava, cresceu e continuou a usar o caderno. Em 1918, pediu a Pessoa para escrever algo –e ganhou o poema.

"Nem o dono do caderno nem o alfarrabista sabiam que o poema era inédito. Senão, teria custado três vezes mais", conta Cavalcanti, que não revela o valor pago. Antes disso, ele –que tem uma das maiores coleções privadas de Pessoa do mundo – já havia comprado a mesa e a escrivaninha do poeta por 95 mil euros (hoje R$ 365 mil).

O poema inédito encontrado agora
Nem o bibliófilo se deu conta do que tinha em mãos. Ele diz que foi depois de uma conversa com Richard Zenith, um dos principais estudiosos da obra pessoana no mundo, que resolveu checar.

A fonte de consulta nessas horas são as edições críticas com a obra de Pessoa que a Casa da Moeda lusitana tem publicado nas últimas décadas. Quem olha o volume organizado por João Dionísio, em 2005, com poemas de 1915 a 1920, pode atestar que a versão no documento é inédita –e sem lacunas, como as conhecidas até hoje.

Por via das dúvidas, a Folha pediu a Jerónimo Pizarro, pesquisador da Universidade de Los Andes, na Colômbia, e líder de uma nova geração de estudiosos da obra do poeta, para avaliar uma imagem do documento.

"É a caligrafia de Pessoa sim. Ele devia ter dois ou três rascunhos e, como tinha que deixar uma lembrança nesse caderno, pegou os papéis e registrou uma versão mais limpa. A descoberta esclarece muito a situação do poema", afirma Pizarro.

*

O poema

Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.


A primeira página do caderno de autógrafos do colecionador José Paulo Cavalcanti

domingo, 8 de maio de 2016

Metamorfose de Mãe


Quando ele nasceu

Ela só queria ser mãe.

Quando ele deu seu primeiro passo

Ela só queria ampará-lo

Quando ele falou

Ela só queria escutá-lo.

Quando ele cresceu

Abriu-se nela um abismo.

Quando ele se tornou comunista

Ela só queria persuadi-lo

Quando a ditadura o levou

Ela só queria morrer.

Quando ele desapareceu

Ela só queria encontrá-lo.

Quando a noite engoliu seu corpo

Ela só queria reinventar o dia

E acreditar que tudo era mentira.

Passou a gritar luzes

Nos necrotérios e nos quartéis

Nos tribunais e nas repartições

Nos comitês e nas reuniões

Nas praças e nas ruas.

E quando comia o pão da amargura

E bebia o vinho da ausência,

Enquanto aprendia a dura pedagogia

Da militar prepotência,

Nem percebeu a metamorfose

Que acontece naqueles que buscando os outros

Encontram a si mesmos:

Hoje ela não quer mais

Nem a bandeira da tristeza

Nem a impossibilidade da alegria,

Ela só quer

Aquilo que seu filho queria.


(Mauro Iasi)

domingo, 29 de novembro de 2015

A poesia que o Brasil não (re)conhece

Pesquisadora resgata importância da obra de Carolina de Jesus, a"poeta da favela".


 Por Nina Fideles 

Carolina Maria de Jesus tinha 43 anos quando foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, em 1958, na favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo. Na ocasião, ele escrevia uma reportagem sobre a expansão da favela, que mais tarde seria removida para a construção da Marginal Tietê. Mineira, negra, semianalfabeta, mudou-se para a capital aos 17 anos, trabalhou como empregada doméstica, teve três filhos, manteve-se solteira, tornou-se catadora e em cadernos encontrados no lixo, relatava seu cotidiano em forma de contos, romances, poesias e até peças de teatro. Um diário iniciado em 1955 deu origem ao primeiro livro de Carolina de Jesus, publicado em 1960. Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada tornou-se um best-seller com mais de um milhão de cópias vendidas em todo o mundo, traduzido em 13 idiomas, em mais de quarenta países. Apenas no Brasil, o livro vendeu mais de 80 mil exemplares.
 
Ao se mudar para um bairro de classe média, Carolina de Jesus lançou o Casa de Alvenaria (1961), mas não obteve o mesmo sucesso que o anterior, e o mesmo ocorreu com as outras duas publicações que se seguiram, que ela própria custeou. O interesse pela ‘mulher da favela que escrevia’, a curiosidade da classe média durou pouco tempo. Além de ter sido vista com certo receio pela crítica literária que desacreditava de sua capacidade. Mas por mais contraditório que possa parecer, o livro Quarto de Despejo, ou Child of the Dark, na tradução para o inglês, é utilizado nas escolas e estudado nas faculdades dos EUA, apenas como simples objeto de estudo, por ser pobre e relatar suas mazelas, sem a intenção de conhecer a fundo seus escritos.

No Brasil, Carolina de Jesus ainda não tem o devido mérito reconhecido. Morreu pobre e praticamente esquecida, em 1977. O centenário de nascimento de uma das mais importantes precursoras da literatura marginal, da favela, foi celebrado no dia 14 de março deste ano e trouxe à tona sua história novamente. Mas a data passará e a luta dos pesquisadores e estudiosos de sua obra, para o reconhecimento e tratamento adequado aos seus manuscritos, permanecerá. Para entender um pouco mais sobre a atualidade da obra de Carolina de Jesus, conversamos com Raffaella Andréa Fernandez, que desenvolve pesquisa de doutorado no Departamento de Teoria e História Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) baseada nos manuscritos inéditos da autora e intitulada Narrativas de Carolina Maria de Jesus: Processo de Criação de uma Poética de Resíduos.

Raffaella aponta que existe uma grande lacuna de preservação de nossa memória, textual principalmente, e os escritos originais de Carolina de Jesus, uma escritora fadada à exclusão, seja em vida ou em morte, ainda se encontram em condições precárias. E afirma que “o posicionamento deva ser também político no sentido de não estar limitado à análise desses textos, mas de solicitar um tratamento especial do material que se encontra em estado de deterioração, sobretudo, porque parte dele havia sido ‘lançado sobre a lama’, junto à família e aos arquivos”.

A contemporaneidade de Carolina de Jesus vai além da data de seu centenário. As histórias que a “poetisa da favela”, como se autodenominava, relatou e viveu se repetem nos dias atuais. E sua própria história representa milhares de mulheres negras, faveladas, mães solteiras, que ainda encontram poesia no dia a dia.

Caros Amigos – Como foi que o seu caminho cruzou com os escritos de Carolina de Jesus?

Raffaella Andréa Fernandez - Tudo começou numa tarde de domingo, na moradia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, quando meu amigo poeta Milton Mello, então aluno de Filosofia e residente na mesma instituição, foi até meu quarto e me disse: “Toma Raffa, você que gosta de literatura da periferia, acredito que vai gostar desse livro”. Naquela semana estava lendo Cidade de Deus, de Paulo Lins, e hesitando em pesquisar esse livro ou Queda para o Alto, de Sandra Mara Hezer. Mas quando comecei a ler Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, o livro tomou conta de mim e nunca esqueci, apenas deixei aquele outro pequeno quarto quando terminei o livro. Na mesma semana fui procurar a professora Célia Tolentino, minha futura orientadora, que topou na hora me auxiliar no arranjo daqueles rabiscos de projeto que mais tarde seria contemplado com uma bolsa pelo CNPq. Na ocasião, relacionei o best-seller de Carolina de Jesus ao relato de uma ex-menina-de-rua, Esmeralda, Porque não Dancei, com o objetivo de realizar uma análise sociológica para pensar quais as mudanças ou continuidades no lugar social da mulher pobre e negra no Brasil no lapso de 50 anos que separavam os dois testemunhos. No entanto, ao ler Carolina de Jesus notei a força literária que marcava suas narrativas de vida como Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada, Meu Estranho Diário, Diário de Bitita, seu romance Pedaços da Fome, e seus poemas publicados em Antologia Pessoal com um belíssimo e esclarecedor prefácio de Marisa Lajolo. A partir daí, tive a certeza de que precisaria migrar para o curso de Letras para dar continuidade às minhas reflexões sobre esses intrigantes escritos que me diziam algo além do caráter autobiográfico. Assim, em 2006, defendi a dissertação que intitulei Carolina Maria de Jesus, uma Poética de Resíduos, na qual tracei alguns desses percursos literários na obra de Carolina de Jesus até chegar ao doutorado, hoje desenvolvido junto ao Departamento de Teoria e História Literária da Unicamp, sob orientação de Vera Chalmers.

Qual é o objetivo inicial do seu trabalho? E o que mudou durante os anos da sua pesquisa?

Inicialmente procurei os aspectos sociais da obra de Carolina de Jesus com o objetivo de, a partir dos estudos sociológicos, compreender a condição da mulher negra e pobre no Brasil, realizando uma reflexão sobre as ambiguidades, observações e contestações presentes no “testemunho”, inerentes à voz do oprimido. No entanto a força literária de seus escritos encaminhou a pesquisa para outros rumos e implicações de análise na área da crítica e da história da literatura. Entretanto, tal foi o arrebatamento das incertezas geradas diante de seus manuscritos inéditos de características refratadas que tornou obrigatória a abertura para uma nova fresta na área da crítica genética de tradição francesa, de modo a pensar o processo criativo da autora como um todo em sua funcionalidade orgânica e imaterial a partir de seus originais.

Para você, qual a responsabilidade, a missão, de estar estudando manuscritos nunca antes publicados?

Em primeiro lugar há uma grande lacuna na própria cultura brasileira de preservação de nossa memória (textual), o que dificulta todo o processo de acesso e resguardo de documentos em arquivos. Em se tratando de Carolina de Jesus, a problemática é acentuada, pois como uma escritora relegada ao esquecimento (sendo somente agora vista com mais atenção devido a seu centenário), e por não pertencer ao glorioso “cânone” literário, a maior parte de seus originais não tem um lugar de destaque, de modo que ainda se encontram em condições precárias, podendo inclusive serem perdidos pela corrosão do tempo, destruindo folhas de raras tessituras do outro lado da história de nossa literatura. Assim, penso que, tanto no meu caso quanto em relação aos demais pesquisadores dos manuscritos da autora, o posicionamento deva ser também político no sentido de não estar limitado à análise desses textos, mas de solicitar um tratamento especial do material que se encontra em estado de deterioração, sobretudo, porque parte dele havia sido “lançado sobre a lama”, junto à família e aos arquivos.

E quais as influências diretas que você recebeu ao longo dos seus estudos? O que mudou?

Observei que seria impossível pensar os textos de Carolina de Jesus a partir de teorias literárias que privilegiam os “clássicos”, pois a obra da autora não responde aos enquadramentos e regras que em geral essas linhagens de pensamento privilegiam. Assim, parti para a pesquisa de autores na linha dos estudos culturais, bem como os pós-estruturalistas que procuram levar em consideração o centro de outras histórias...

Você utiliza o termo “poética de resíduos”. O que caracteriza essa poética?

A ideia de uma poética de resíduos vem tanto da materialidade desses escritos quanto de seu conteúdo, pois Carolina de Jesus mesclava diversos discursos e recursos literários na criação de seus textos, escritos em boa parte em cadernos reutilizados, os quais ela recolhia das lixeiras enquanto exercia seu ofício de catadora de lixo.

Tem algum objetivo com este material estudado? Qual será o futuro dos manuscritos?

Felizmente neste ano conseguimos publicar uma pequenina parte desse material com o apoio da Fundação Palmares. Espero que este seja apenas o início de uma longa jornada, permitindo não só a realização do sonho da própria Carolina de Jesus de ter seus escritos literários publicados, como também dos leitores que esperam ter acesso à sua literatura. Quanto à preservação da obra tudo ainda permanece incerto, não há previsão para um trabalho de digitalização completa do material, única “certeza” de que poderíamos resguardar esses originais, pois apenas uma parte foi microfilmada e mesmo assim, como sabemos, os microfilmes também têm uma validade. Além disso, as máquinas leitoras de microfilmes são ultrapassadas e dificultam a leitura do material, em especial aqueles que já se encontram quase que totalmente degradados. Estes precisariam passar por um trabalho sério de restauro e em seguida de digitalização, mas esses cuidados demandam um alto custo que as instituições não podem e/ou não estão dispostas a pagar. Segundo opinião de alguns pesquisadores e professores de arquivos, somente o Instituto Moreira Salles estaria apto para realizar esse importante trabalho.

É possível perceber quais as referências que Carolina tem e que aparecem em seus escritos?

Não somente é possível perceber a marcante influência dos românticos, do modo como podemos ler em duas teses publicadas sobre os escritos da autora: Carolina Maria de Jesus; o Estranho Diário da Escritora Vira-Lata, de Germana de Sousa, e o recém-lançado A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus, de Elzira Perpétua; e como podemos acompanhar ao longo de alguns cadernos que desenvolvem um processo de escrita típico do Journal de Gênese, nos quais a autora faz referências a seus textos e aos dos autores que estava lendo ou teria lido: Maupassant, Edgar Allan Poe, Victor Hugo, Chesmman, Saint-Exupéry, dentre outros. Assim podemos conhecer outras Carolinas, principalmente esta que vai além do Quarto de Despejo, quero dizer, a que não pode ser reconhecida apenas sob o martelo do estigma de favelada.

Hoje temos uma cena mais fortalecida intitulada de Literatura Marginal. Você acompanha? E o quê em sua opinião tem de Carolina de Jesus neste cenário atual?

Sim, a dita Literatura Marginal Periférica tem se fortalecido a cada dia e segue seus propósitos de criar uma “cena literária” que gire em torno da favela. Carolina de Jesus, assim como Solano Trindade, podem ser considerados precursores dessa literatura produzida pela voz dos oprimidos, isto é, uma literatura mais autêntica do ponto de vista da fala marginal, uma escrita de dentro para fora com vistas a celebrar a palavra como emancipação política e espiritual no sentido fi losófi co das fomes humanas.

O que, em termos sociais e históricos, é possível perceber ao ler a obra de Carolina de Jesus?

Carolina de Jesus revela uma outra história, a “história menor” que precisa e quer ser ouvida, uma vivência tanto mais palpável quanto corrosiva, para além dos majestosos livros de supostos feitos heróicos dos livros de História do Brasil repleta de falácias, engodos, que sempre visam a interesses políticos. Os problemas sociais delineados por Carolina estão na sua temática, na materialidade do papel escrito em seus cadernos reutilizados, encardidos, tirados das latas de lixo, a escrita “defi ciente” que não corresponde aos intentos da gramática institucional de uma sociedade que não lhe deu a oportunidade de avançar e, mesmo com todas essas defasagens, essa grande autora nos mostra que aquele que se inquieta diante das “atrocidades sociais” jamais se manterá calado.

Contraditoriamente, a obra de Carolina é mais reconhecida nos EUA do que aqui. Por que, em sua opinião, isso ocorre?

Carolina de Jesus é bastante lida nas universidades norte-americanas em cursos de história de graduação e pós-graduação com o objetivo de mostrar para seus alunos um exemplo de uma vida paupérrima, uma mulher negra, pobre e favelada que narra suas mazelas. Não havendo, necessariamente, uma preocupação em conhecer a Carolina escritora.

Os termos “favelada” e “poetisa” são constantes nos escritos dela, mas quando e como ela se reconhece em cada um?

Carolina de Jesus se autodenominava a “poetisa da favela” ou uma “idealista do lixo”. Veja que ela se valia dessas máximas nos momentos de revolta quando desejava afirmar que somente ela poderia ser a porta-voz dos favelados, pois segundo a autora era preciso conhecer as adversidades humanas para falar sobre elas, seja através do discurso poético seja do político.

Como você descreveria a passagem de Carolina de Jesus neste mundo? E como terminou a sua vida?

Infelizmente, após uma nuvem de sucesso, Carolina de Jesus morre pobre e esquecida com insuficiência respiratória. Termina seus dias no Sítio de Parelheiros, entregue aos afazeres domésticos e dedicando-se à correção de alguns de seus textos que haviam sido datilografados por seus filhos. Chegou a entregar dois cadernos para duas jornalistas: a francesa Lapouge e a brasileira Clélia Pisa, que mais tarde editaram e publicaram sua obra póstuma Journal de Bitita, mais tarde traduzido para o português como Diário de Bitita. Em entrevista com estas jornalistas, foi-me relatado que Carolina de Jesus estava muito “velhinha” e “desiludida” e apenas disse: “Vejam o que podem fazer com isso aí”, no momento da entrega dos cadernos. Espero, portanto, com toda força, que muitos trabalhos sejam realizadas com todos os “isso(s) aí” dispersos e fraturados “por aí”, e sobretudo que seja publicada sua obra completa e que assim possamos ter acesso às multiplicidades que emanam do devir-artista, inaudito e envolvente criado por Carolina Maria de Jesus.