sábado, 7 de novembro de 2026

Fidel Castro – Uma revolução só pode ser filha da cultura e das ideias

 



Sinopse


O livro Fidel Castro – Uma revolução só pode ser filha da cultura e das ideias reúne uma seleção de seis discursos de Fidel Castro, proferidos entre 1960 e 1999, que sintetizam a estratégia cubana de colocar a cultura no centro do processo revolucionário. A obra percorre momentos cruciais, como a Campanha de Alfabetização de 1961, a análise da influência cultural do imperialismo e a defesa das ideias como armas superiores às militares. Fidel argumenta que uma revolução não é apenas trabalho criativo, mas a constante defesa do que se cria através da consciência política das massas.


Trata-se de uma homenagem ao centenário de Fidel Castro. A obra oferece uma perspectiva histórica fundamental sobre como a educação e a cultura foram utilizadas como ferramentas de emancipação social e soberania nacional. O livro detalha a experiência cubana de transformar quartéis em escolas e erradicar o analfabetismo em apenas um ano, servindo de inspiração para o Sul Global no combate à ignorância como forma de dominação. Ele demonstra que a verdadeira liberdade de um povo está indissociavelmente ligada ao conhecimento e à capacidade de pensar criticamente.


“Para o líder histórico da Revolução Cubana, comandante-chefe Fidel Castro Ruz, a verdadeira liberdade do ser humano estava indissociavelmente ligada à fórmula estratégica e inseparável de educação e cultura. Seguindo o ensinamento de Martí de que ‘ser culto é a única maneira de ser livre’, Fidel afirmou: ‘Sem cultura, não há liberdade possível’.”


(“Educação, cultura e ideias: pilares da Revolução Cubana”, René González Barrios, p. 7)


“Quero que vocês saibam que as batalhas mais belas não são aquelas travadas nas montanhas. As batalhas mais belas são estas, porque, quando havia aquelas outras batalhas, sempre havia companheiros mortos, sempre havia companheiros feridos, sempre havia cadáveres, sempre havia tristeza, sempre havia luto quando se ganhavam aquelas batalhas. Já nestas batalhas que vencemos hoje, tudo é alegria, todo mundo está contente, não há luto, não há tristeza, não há cadáveres, só há alegria por toda parte. Essas batalhas são realmente bonitas, e nós gostaríamos de sempre vencer essas batalhas, mais do que vencer as outras.”


(“Estamos transformando todas as fortalezas em escolas”, Fidel Castro, p. 18)


“Uma revolução só pode ser filha da cultura e das ideias. Nenhum povo se torna revolucionário à força. Quem semeia ideias não precisa nunca reprimir o povo. As armas, nas mãos desse mesmo povo, servem para lutar contra aqueles que, do exterior, tentam arrebatar-lhe suas conquistas.”


(“Uma revolução só pode ser filha da cultura e das ideias”, Fidel Castro, p. 87)


René González Barrios

René González Barrios, nascido em Pinar del Río, no oeste de Cuba, em 1961, é coronel reformado das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e bacharel em Ciências Jurídicas. É membro da Academia de História de Cuba e atualmente dirige o Centro Fidel Castro Ruz, em Havana, dedicando-se à preservação e estudo do pensamento do líder cubano.


Fidel Castro

Fidel Castro Ruz (Birán, Cuba, 13 de agosto de 1926 – 25 de novembro de 2016, Havana, Cuba) – Graduado em Direito, participou da organização do povo cubano no Movimento 26 de julho de 1953 contra a ditadura de Fulgencio Batista, apoiado pelo governo estadunidense. Líder histórico da Revolução Cubana, impulsionou e dirigiu, por meio século, a luta do povo cubano pela consolidação do processo revolucionário, seu avanço para o socialismo, a unidade das forças revolucionárias, de todo o povo cubano e do movimento socialista internacionalista.


Categorias CIÊNCIAS HUMANAS, HISTÓRIA DAS REVOLUÇÕES, POLÍTICAS EDUCACIONAIS


FONTE:

Editora Expressão Popular


segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A guerra do neofascismo contra a educação

                          

Prabhat Patnaik [*]



   

A única área da vida social que o neofascismo procura destruir de forma específica, obstinada e descarada é a educação. Não se trata apenas de ignorar a educação, ou de a privatizar e privá-la de fundos públicos; trata-se de uma destruição deliberada e intencional.


A atitude do neofascismo a este respeito é diametralmente oposta à da Esquerda, especialmente dos comunistas. O país está repleto de inúmeras instituições de ensino fundadas originalmente por líderes comunistas. Havia uma crença sincera entre os comunistas pioneiros de que, se as pessoas fossem educadas, seriam quase naturalmente atraídas para o comunismo, que era visto como a expressão máxima da consciência social. Esta crença, aliada à convicção de que, para apreciar o comunismo, era necessário compreender não só a sociedade burguesa, mas também a teoria burguesa, traduziu-se numa paixão geral pela educação (e não apenas numa promoção sectária da própria ideologia). Esta paixão pela educação em geral distinguiu os comunistas da maioria dos outros durante a luta anticolonial.


A atitude fascista e neofascista é exatamente o oposto disto. O fascismo e o neofascismo diferem de outros movimentos de direita por possuírem uma "teoria" própria. Esta "teoria", que serve de base para a "alterização" ("othering") de alguma minoria infeliz e para o fomento do ódio contra ela por parte da maioria, deriva das declarações de alguns dos seus próprios precursores, mas não é sustentada por qualquer evidência. Na verdade, os fascistas e neofascistas abominam qualquer tipo de evidência. Agarram-se à sua "teoria" perniciosa precisamente ao rejeitar todas as provas e ao fecharem as suas mentes a qualquer investigação científica autêntica, que deve basear-se na procura e interpretação de provas. As instituições de ensino, cuja razão de ser consiste em serem espaços de investigação científica, representam, portanto, um perigo para a "teoria" dos fascistas e, consequentemente, uma ameaça à ideologia do fascismo e do neofascismo; são vistas pelos fascistas não apenas com desconfiança, mas com hostilidade declarada.


O ataque à educação no período atual provém, portanto, de duas fontes:   há o já conhecido ataque neoliberal, que, ao impor "austeridade" ao governo e forçar a privatização e, consequentemente, a mercantilização da educação, a transforma de uma atividade de investigação crítica em, na melhor das hipóteses, uma mera aquisição de competências. Depois, há o ataque dos neofascistas, que também consideram qualquer investigação crítica como perigosa e que, além de negarem a educação a grandes massas da população, aceitam de bom grado a transformação da educação numa mera aquisição de certas competências, na melhor das hipóteses. A educação, ao invés de ser um meio de esclarecimento é, assim convertida numa atividade de aquisição de competências reservada apenas aos filhos da elite. Isto, como sabemos, constitui o eixo central da Nova Política Educativa do governo liderado pelo [partido] BJP.


Existe, no entanto, um estímulo subterrâneo adicional por trás da tentativa neofascista de destruir a educação, que é particularmente relevante no caso da Índia. Os neofascistas não são apenas indivíduos obstinados, mas também crédulos, que por acaso se agarram teimosamente a uma "teoria" vazia com implicações sinistras. O que é notável é que os próprios líderes neofascistas estão, em geral, cientes da vacuidade da sua "teoria"; no entanto, continuam a promovê-la como um meio de manipular os seus próprios seguidores, bem como as massas em geral, para que a aceitem. Por outras palavras, o neofascismo caracteriza-se não apenas por uma narrativa sinistra e falsa; caracteriza-se, acima de tudo, pela má-fé, pelo desejo por parte das principais lideranças neofascistas de manipular as pessoas para que aceitem essa narrativa falsa. O neofascismo não é apenas sinistro; está eternamente empenhado em "vender" essa narrativa falsa e sinistra às pessoas, sabendo que é falsa.


O segmento instruído da população não cai facilmente nesta manipulação. Muitos deles alinham-se com os neofascistas porque são coagidos a fazê-lo; muitos outros apoiam-nos devido às promessas que lhes são feitas pelos neofascistas. Outros ainda apoiam-nos por motivos de classe, devido à perspetiva e às posições de classe que os neofascistas propagam e que lhes são do agrado. Mas o sentimento geral entre eles no que diz respeito à "teoria" dos neofascistas varia entre o ceticismo absoluto e a hostilidade declarada. Mais importante ainda, a maioria deles, incluindo aqueles que apoiam as posições de classe dos neofascistas, tem consciência da sua "má-fé" e da sua condição manipulativa.


Essa "má-fé" e manipulação suscitam, entre grandes segmentos da população instruída, um sentimento de repulsa em relação aos neofascistas, quer isso seja explicitamente articulado ou não; e os neofascistas estão bem conscientes disso. Por outras palavras, os segmentos instruídos da população estão conscientes da elaborada farsa encenada pelos neofascistas, uma farsa que não tem qualquer pretensão de verosimilhança; e os principais líderes neofascistas estão cientes de que esses segmentos instruídos percebem a sua má-fé. Isto faz com que os neofascistas tenham um complexo de inferioridade em relação aos segmentos instruídos da população.


A insegurança pessoal, o complexo de inferioridade, da liderança do Hindutva face aos elementos instruídos é um fenómeno palpável, mas significativo, na Índia. O contraste que isto apresenta com a adulação geral ao "líder" entre outros segmentos da população torna-se particularmente irritante para os escalões neofascistas de topo.


A imensa hostilidade dos principais elementos do Hindutva para com os segmentos instruídos surge porque estes últimos percebem a sua má-fé e a sua manipulação. A raiva dos escalões dirigentes do Hindutva, especialmente do "líder", em relação a estes segmentos instruídos encontra expressão em zombarias como "bando do Khan Market" ou "bando Tukde Tukde", que utilizam para se referir aos intelectuais e aos segmentos instruídos em geral.


Há ainda outro ponto a assinalar aqui. Quanto mais distinta for a instituição de ensino, quanto mais notáveis forem os seus formandos, tanto maior é a probabilidade de estes formandos perceberem as artimanhas, a vacuidade, a "má-fé" e a manipulação dos elementos neofascistas do Hindutva. Por conseguinte, quanto mais hostis são os próprios elementos do Hindutva em relação a tais instituições, mais empenhados estão em atacá-las, pois vêem-nas como obstáculos à sua ascensão. É por isso que, paradoxalmente e de forma extremamente irónica, os neofascistas — e o governo por eles dominado — têm sido os mais assíduos a atacar precisamente as melhores instituições de ensino do país. A Universidade Jawaharlal Nehru, a Universidade de Jadavpur, a Universidade Central de Hyderabad, a Universidade de Deli, a Viswa Bharati e a Jamia Milia Islamia estão, sem dúvida, entre as melhores instituições de ensino do país, instituições das quais o país se pode orgulhar genuinamente; e são precisamente estas instituições que têm estado na linha da frente do ataque do Hindutva. Não satisfeitos com isto, os elementos do Hindutva também alargaram o seu ataque a outras instituições de destaque, que não são instituições académicas, mas onde mentes criativas também estão empenhadas no processo de análise crítica da sociedade, tais como o Instituto de Cinema de Pune e o Instituto de Estudos Cinematográficos Satyajit Ray. O caso da última instituição mencionada é particularmente chocante, uma vez que capangas do Hindutva afiliados à RSS [organização paramilitar do Hindutva] simplesmente invadiram o seu campus e começaram a espancar estudantes!


Pode pensar-se que, embora o governo do Hindutva possa estar a atacar instituições de ensino modernas, na realidade é a favor da promoção de instituições de ensino tradicionais indianas, pelo que rotulá-lo de "anti-educação" como tal é tanto incorreto como injusto. É significativo, no entanto, que durante os doze anos de governo do Hindutva, mesmo com instituições de ensino modernas e consolidadas como a JNU, a JU e a HCU a serem alvo de ataques implacáveis, nenhuma instituição que ministrasse ensino em estudos tradicionais indianos (ou disciplinas afins) e que aspirasse a destacar-se nesta área tenha sido criada ou apoiada até alcançar proeminência. Não demora muito para que uma instituição de excelência se torne conhecida:   a JNU ganhou reputação internacional numa década após a sua criação. Se tivesse surgido uma instituição que promovesse os estudos tradicionais indianos, a sua reputação já se teria espalhado. Isto não aconteceu pela simples razão de que nenhuma instituição desse tipo surgiu durante o período de governo do Hindutva.


O exposto tem uma implicação importante. Cada dia que o governo do Hindutva permanecer no poder, haverá uma tentativa de levar o sistema educativo à extinção. Não se trata de "dar mais algum tempo ao governo do BJP a fim de que possa fazer algo para melhorar o sistema educativo"; o que quer que façam em relação ao sistema educativo apenas o empurrará para uma destruição ainda maior. Um indício da sua atitude em relação ao mundo das letras é o apoio condenável dado pelo Ministro-Presidente de Bengala Ocidental aos vândalos que destruíram livrarias criadas pela Frente de Esquerda perto das tendas (pandals) de Puja em todo o estado.


01/Novembro/2026

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/1101_pd/neofascism’s-war-against-education.

Este artigo encontra-se em resistir.info


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Como “desmascarar” os algoritmos das Big Techs

 POR Tarcizio Silva,   Jacobina                     

Buscando atender interesses das Big Techs, o Senado brasileiro e o governo Trump geraram as condições para que elas pudessem deixar de lado o verniz de civilidade, colocando a esquerda e pessoas marginalizadas numa situação perigosa. Novo livro revela como funciona o lobby das empresas de tecnologia para poder explorar e concentrar mais poder e o que podemos fazer para nos defender e revidar.


Extraído do livro Desmascarando a IA: minha missão para proteger o que é humano em um mundo de máquinas, de Joy Buolamwini (Autonomia Literária, 2026).


LEIA AQUI


Tarcizio Silva
é pesquisador sênior de Políticas de Tecnologia, Fundação Mozilla. Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA e doutorando em Ciências Humanas e Sociais na UFABC, onde estuda racismo algorítmico e imaginários sociotécnicos de resistência. Autor do livro Racismo Algorítmico: mídia, inteligência artificial e discriminação nas redes digitais (2022).



sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Novo livro da historiadora Anita Prestes combate falsificações sobre Luiz Carlos Prestes que atravessam décadas

Entrevista ao Programa do Farol Brasil  




Trecho do livro
"Entre outras falsas versões a respeito da Coluna Prestes, a adoção por seu comando da tática da chamada ‘guerra de movimento’ é deturpada ou silenciada. Devido à inferioridade numérica e de armamento dos rebeldes, Prestes inovou ao executar uma tática conhecida como ‘guerra de movimento’ – deslocar-se com grande rapidez, mantendo contato com o inimigo para assim conhecer seus movimentos e persegui-lo com eficácia. As ‘potreadas’ – pequenos grupos de soldados que se afastavam da tropa rebelde para obter informações levadas aos comandantes – cumpriam essa missão. Mobilidade e surpresa, dois aspectos da ‘guerra de movimento’, garantiram aos rebeldes o rompimento do cerco de São Luiz Gonzaga, a formação da Coluna Prestes e a marcha exitosa rumo ao Paraná e posteriormente através de treze estados do Brasil, derrotando dezoito generais do Exército brasileiro, aferrados à tática da ‘guerra de posição’, que lhes fora transmitida pela Missão Militar Francesa, chegada ao Brasil em 1919. Da mesma forma, a acusação de um suposto banditismo das tropas rebeldes é usada por vezes como argumento para desmerecer e desqualificar o papel de Luiz Carlos Prestes à frente da Marcha”.