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quinta-feira, 27 de maio de 2021

Triunfo da esquerda no Chile: foram abertas “as grandes avenidas”

 Por Atilio Boron   


Nas eleições do passado fim de semana no Chile as forças populares e democráticas obtiveram um grande sucesso. Serão largamente maioritárias na Convenção Constitucional, e a direita nem sequer conseguiu o terço de representantes com que contava para bloquear uma nova constituição que ponha fim ao pinochetismo. As grandes lutas de massas (quase insurreccionais) de Outubro de 2019 tiveram expressão determinante na votação popular.


No seu último discurso, em 11 de Setembro de 1973, e enquanto a aviação bombardeava o La Moneda, Salvador Allende expressou a confiança em que, mais cedo do que tarde, se abririam «as grandes avenidas» pelas quais os chilenos marchassem para construir uma sociedade melhor. Decorreu mais tempo do que todos esperávamos, mas finalmente no domingo elas começaram a abrir-se e a sua consequência foi uma vitória categórica da esquerda e uma derrota esmagadora da direita. Naquilo que todos consideravam como “a mãe de todas as batalhas”, a eleição da Convenção Constitucional, os “Outubristas”, filhas e filhos das grandes jornadas insurreccionais que se iniciaram em 18 de Outubro de 2019, alcançaram maioria que fez ir pelos ares o ferrolho da cláusula armadilhada do “terço de bloqueio”.

Como condição para aceitar a convocação para a Convenção Constituinte, a direita tinha imposto a regra dos dois terços para o quórum e para aprovar os conteúdos da nova constituição. Piñera e seus comparsas estavam seguros de que as urnas renderiam um resultado que lhes garantiria esse poder de veto, ao obter uns 35 ou 40 por cento do voto popular. Mas os cidadãos decidiram o contrário.

Castigaram o seu governo e seus aliados por três razões: a gestão desastrosa da crise da Covid-19 (tão admirada pelos sicários mediáticos da Argentina e pelos dirigentes do Juntos por el Cambio), a brutalidade da repressão aos protestos populares e a súbita tomada de consciência do saque a que o povo chileno fora submetido durante décadas pelo neoliberalismo governante, principalmente por obra de um perverso regime orçamental e do endividamento exorbitante a que foram condenadas milhões de famílias caídas abaixo do limiar da pobreza. Resultado: a pior eleição da direita desde 1965. Particularmente desastroso foi o resultado da outrora poderosa Democracia Cristã, que apenas contará com três dos 155 convencionalistas que compõem esse corpo.

A derrocada da direita também se verificou para além dos resultados da Convenção Constitucional.

Houve outras derrotas igualmente emblemáticas, como a experimentada num bastião tradicional (e estratégico) como a Prefeitura de Santiago, nada menos, que consagrou para o cargo Irací Hassler, uma jovem comunista que derrotou o anterior titular Felipe Alessandri, neto do ex-presidente conservador Jorge Alessandri, que se havia candidatado à reeleição. Ou a vitória esmagadora de Daniel Jadue, prefeito comunista da comuna da Recoleta, ao norte de Santiago, que venceu com 65 por cento dos votos e se perfila como um dos candidatos melhor posicionados para as eleições presidenciais que terão lugar em Novembro do corrente ano.

Em Valparaíso, Jorge Sharp, da Revolución Democrática/Frente Amplio, foi reeleito. Mas os seus companheiros arrebataram nada menos que a aristocrática Viña del Mar às forças conservadoras mais reaccionárias e conquistaram também as comunas de Ñuñoa, Maipú e Valdivia, na região de Los Lagos, onde foi eleita uma ex-dirigente estudantil e membro da Revolución Democrática, Carla Amtmann.

Foram também disputados cargos de Governadores das dezasseis regiões, uma novidade no Chile. Não têm muitas atribuições num país historicamente unitário, mas ainda assim houve situações ilustrativas dessa mudança no clima político transandino. O Frente Amplio venceu o governo de Valparaíso na primeira volta, e outras forças de oposição fizeram o mesmo no extremo sul: Aysén e Magallanes. Nas outras 13 regiões haverá segunda volta e as estimativas anteriores indicam que será muito improvável que a direita consiga mais de duas governações.

Em Santiago, travar-se-á uma grande batalha entre o democrata cristão Claudio Orrego, filho de um dirigente histórico dessa força (e encarniçado opositor do governo de Salvador Allende, estreitamente ligado à embaixada dos Estados Unidos, como demonstram documentos desclassificados da CIA) e Karina Oliva, do Partido Comunes, uma nova agrupação popular que conta com o apoio de outras forças de esquerda. Oliva está nos antípodas de Orrego, uma família pertencente à casta política tradicional do Chile, e define-se como “mãe solteira de Emilia, feminista e mulher popular, cientista política, frente-amplista e militante do Partido Comunes”.

Resumindo: a situação político-eleitoral mudou para melhor no Chile e isto alimenta expectativas promissoras não só para aquele país, mas para toda a América Latina. O projecto neoliberal, do qual o Chile era o navio almirante, está esgotado, e na eleição do passado fim de semana, foi carimbado o primeiro registo da sua certidão de óbito oficial. O segundo e último será conhecido no que resta do ano. Entretanto, na Argentina, ainda há alguns que anseiam imitar o “exitoso” modelo chileno e seu exemplar controlo da pandemia e da crise económica.

Também eles terão um rude despertar.

FONTE: ODiario.info

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Estados Unidos: Una crisis de larga gestación

 Por Atilio A. Boron

Página 12

Imagen: AFP


Lo ocurrido no tiene precedentes en la historia de Estados Unidos. Todo un vetusto y enorme entramado institucional concebido por los padres fundadores para evitar los riesgos de la oclocracia –el temido gobierno del populacho- se derrumbó como un castillo de naipes cuando respondiendo a las incesantes arengas de Donald Trump una turba de trumpistas arrolló a las fuerzas de seguridad y tomó por asalto al Capitolio. El resultado: el Senado tuvo que entrar en receso mientras el vicepresidente Mike Pence era prestamente evacuado por el Servicio Secreto mientras una banda de fascinerosos con ropas de fajina y algunos de ellos armados sentaban sus reales en las salas del Senado y la Cámara de Representantes. El objetivo: impedir que el Congreso certificara la victoria de Joe Biden en la elección presidencial del 3 de noviembre.


La responsabilidad de Trump en estos incidentes es indiscutible. Una parte de los republicanos aportaron lo suyo. Más de cien estaban dispuestos a proponer la anulación de la victoria de Biden, y deben también ser considerados como instigadores del tumulto. Pero sería un error creer que lo ocurrido es responsabilidad exclusiva de Trump y sus secuaces. Este episodio marca la gravedad de la crisis de legitimidad que hace mucho tiempo está carcomiendo al sistema político norteamericano. El ausentismo electoral es un lastre crónico para un sistema que se autoproclama como una democracia cuando no lo es. Abraham Lincoln la definió como el “gobierno del pueblo, por el pueblo y para el pueblo”. Hoy no sólo intelectuales de izquierda como Noam Chomsky sino hasta académicos del mainstream como Jeffrey Sachs y, antes que él, Sheldon Wolin sostienen en sus intervenciones orales y escritas que el sistema político de Estados Unidos es una plutocracia y no una democracia en la medida en que es el gobierno de los ricos, por los ricos y para los ricos. Esto es lo que explica la quejumbrosa reflexión que hiciera hace unos meses un editorial colectivo del The New York Times al constatar que el 1% más rico acumula más riqueza que el 80% más pobre del país. Es decir, una pseudo-democracia que aplicando las políticas neoliberales decretó las exequias del “sueño americano” y convirtió a ese país en el más desigual del mundo desarrollado. 


En los gravísimos sucesos del miércoles, propios de las “anarquías populistas” que Washington ve –y vitupera- por doquier en los países de la periferia hay una indudable corresponsabilidad de los dos partidos. 


Los exabruptos de Trump y sus criminales políticas, dentro y fuera de Estados Unidos, se nutrieron durante cuatro años de la falta de voluntad de los demócratas para poner fin a las políticas que beneficiaban al 10% más rico (y sobre todo al 1% de los super-millonarios) del país y para hacer siquiera mínimo esfuerzo para democratizar de verdad al sistema político. No es ocioso recordar ante los violentos incidentes de este miércoles que jamás estuvo en la mente de los padres fundadores crear un sistema democrático: la elección indirecta vía colegios electorales, el carácter optativo del voto, el sufragio en día laborable son las rémoras de un sistema que se constituyó como una república pero no como una democracia


No es casual que la propia Constitución de Estados Unidos no mencione en un solo lugar la palabra mágica: “democracia”. Y ante una sociedad que ha cambiado tanto como Estados Unidos en los últimos cincuenta años, pasando de ser una sociedad bastante homogénea a una multicultural y desigual, y ante la estolidez de un sistema partidario que no refleja para nada estos cambios la aparición de un demagogo como Trump y su incendiaria retórica podía terminar abriendo las puertas del infierno y soltar a todos los demonios. Eso fue lo que ocurrió ahora. Y esto va para largo y no se solucionará sin reformas sociales, económicas y políticas de fondo, cosa que difícilmente Joe Biden estará dispuesto a impulsar. 


FUENTES: Página 12


sábado, 3 de outubro de 2020

Para download: "Bitácora de un navegante: Teoría política y dialéctica de la historia latinoamericana". Autor: Atilio A. Boron. Septiembre de 2020.

Lanzamiento oficial CLACSO de la Antología esencial de Atilio Boron. Reúne artículos y ponencias escritas a lo largo de 50 años. 


Los ensayos escogidos llevan como marca común una obstinación intelectual: ¿cómo construir una reflexión en clave marxista sobre las vías para la emancipación de nuestros pueblos? A partir de un análisis de las realidades de América Latina y el Caribe, de sus historias y de sus luchas -estudiadas con las herramientas de la filosofía y la teoría política-, este libro no solo reúne uno de los más importantes programas intelectuales concebidos entre el siglo XX y el siglo XXI, además -como señala Sabrina González en su introducción- nos presenta la figura de un hacedor de espacios de diálogo con proyección emancipadora entre e intergeneracional.

Descargar en PDF

Boron, Atilio Alberto Bitácora de un navegante : Teoría política y dialéctica de la historia latinoamericana : antología esencial / Atilio Alberto Boron ; prólogo de Sabrina González. - 1a ed . - Ciudad Autónoma de Buenos Aires : CLACSO, 2020.

Libro digital, PDF - (Antologías)


FUENTECLACSO

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Salvador Allende cinquenta anos após a sua vitória

 Por Atilio A. Borón 



Quando passa meio século sobre a eleição de Salvador Allende, há em primeiro lugar que prestar homenagem a um homem de excepcional integridade pessoal e política, inteiramente devotado à causa do seu povo. O breve governo da Unidade Popular no Chile, juntamente com a Revolução cubana, alargou o horizonte de esperança da luta dos povos da América Latina. O seu trágico fim e a criminosa conspiração imperialista que conduziu a ele confirma uma regra que não admite excepções: a emancipação e o progresso exigem, onde quer que seja, o poder do povo, a perspectiva do socialismo, e a combativa mobilização anti-imperialista do povo inteiro.


Com a sua obra de governo e heroico sacrifício, Allende deixou um legado extraordinário aos povos de Nossa América, sem o qual é impossível compreender o caminho que os povos dessas latitudes começariam a percorrer no final do século passado e que culminou com a derrota do principal projecto geopolítico e estratégico dos Estados Unidos para a região, o ALCA, em Mar del Plata em 2005.


Há datas que assinalam marcos indeléveis na história da Nossa América. Hoje, 4 de Setembro, é um desses dias. Como 1 de Janeiro de 1959, triunfo da Revolução Cubana; ou o 13 de Abril de 2002, quando o povo venezuelano saiu às ruas e reinstalou no Palácio Miraflores um Hugo Chávez prisioneiro dos golpistas; ou o 17 de Outubro de 1945, quando as massas populares argentinas conseguiram a libertação do Coronel Perón e começaram a escrever uma nova página na história nacional. A data de hoje, objecto deste escrito, enquadra-se nessa selecta categoria de acontecimentos épicos na América Latina. Em 1970 Salvador Allende impunha-se nas eleições presidenciais chilenas, obtendo a primeira minoria e derrotando o candidato da direita, Jorge Alessandri, e relegando para o terceiro lugar Radomiro Tomic, da Democracia Cristã.

A eleição de 1970 foi a quarta eleição presidencial em que Allende concorreu: em 1952 tinha feito a sua primeira incursão, colhendo pouco mais de 5 por cento dos votos, muito longe do vencedor, Carlos Ibáñez del Campo, que ganhou com quase 47 por cento dos votos. Não desanimou e, em 1958, como candidato da FRAP, a Frente de Acção Popular, uma aliança dos partidos socialista e comunista, recebe 29 por cento dos votos e esteve perto de arrebatar a vitória a Jorge Alessandri, que recebeu 32 por cento dos votos.

Já naquele momento começaram a soar todos os alarmes no Departamento de Estado, como evidenciado pelo crescente tráfego de memorandos e telegramas relacionados com Allende e o futuro do Chile que saturava os canais de comunicação entre Santiago e Washington. O triunfo da Revolução Cubana projetou o FRAP como uma inesperada ameaça não só para o Chile mas para a região, porque Salvador Allende aparecia aos olhos dos altos funcionários em Washington – a Casa Branca, o Departamento de Estado e a CIA - como um “extremista de esquerda” não diferente de Fidel Castro e tão prejudicial para os interesses dos Estados Unidos como o cubano.

À medida que se aproximava a data das cruciais eleições presidenciais de 1964, o envolvimento dos Estados Unidos na política chilena acentuou-se exponencialmente. Relatórios anteriores de várias missões que visitaram aquele país coincidiam em que existia uma ambivalência preocupante na opinião pública: uma certa admiração pelo “estilo de vida americano” e o reconhecimento do papel desempenhado pelas empresas norte-americanas sediadas no Chile. Mas ao mesmo tempo notavam, por trás desta aparente simpatia, uma hostilidade latente que, associada com a marcante popularidade de Fidel Castro e da Revolução Cubana, poderia levar o país sul-americano a um caminho revolucionário que Washington não estava disposto a tolerar. Por isso foi descarado, torrencial e multifacetado o apoio à candidatura da Democracia Cristã. Não só em termos financeiros (para apoiar a campanha de Eduardo Frei), mas também em termos diplomáticos, culturais e comunicacionais, apelando aos piores truques de propaganda para estigmatizar Allende e a FRAP e exaltar o futuro governo democrata-cristão como uma promissora “Revolução em Liberdade”, por contraposição ao tão odiado (por Washington, obviamente) processo revolucionário cubano.

Um memorando enviado por Gordon Chase a Mc.George Bundy, Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Lyndon B. Johnson e datado de 19 de Março de 1964, revela intranquilidade que a próxima eleição presidencial chilena despertava em Washington. [] Chase sugeriu que nessa conjuntura se abriam quatro possíveis cenários: a) uma derrota de Allende; b) uma vitória do candidato da FRAP mas sem obter maioria absoluta, o que permitiria manobrar no Plenário do Congresso para eleger Frei; c) Allende poderia ser derrubado por um golpe militar, mas isso teria que acontecer antes de ele tomar posse porque depois seria muito mais difícil; d) Vitória de Allende. Ante essa infeliz contingência, Chase escrevia: “estaríamos em apuros porque ele nacionalizaria as minas de cobre e juntar-se-ia ao bloco soviético em busca de ajuda financeira” e concluía que “devemos fazer todo o possível para que o povo apoie Frei”. De facto, foi o que fizeram os Estados Unidos e se concretizou a tão esperada vitória de Frei (56 por cento dos votos) sobre Allende, que apesar da “campanha de terror” de que foi vítima obteve 39 por cento dos votos.

A vitória da democracia cristã foi saudada em Washington com grande alívio e como um golpe definitivo não só contra Allende e seus companheiros, mas como a ratificação do isolamento continental da Revolução Cubana. Mas a tão elogiada “Revolução em Liberdade” terminou num fracasso retumbante, deixando o Palácio de La Moneda com um saldo de pouco mais de trinta militantes ou manifestantes populares fuzilados pelas forças de segurança. Fracasso económico, frustração política, retrocesso na batalha cultural a tal ponto que o candidato do partido no poder, Radomiro Tomic, teve que saltar para a arena eleitoral levantando o slogan de um “caminho não capitalista para o desenvolvimento” para conter a adesão crescente que as propostas socialistas da Unidade Popular exerciam sobre o eleitorado chileno, e captar parte daqueles que poderiam voltar-se a favor da Unidade Popular na disputa de 4 de Setembro. Mas nesta quarta tentativa os resultados sorriram a Allende, que apesar da fenomenal campanha de desprestígio e difamações lançada contra ele conseguiu prevalecer, embora de forma muito apertada, sobre o candidato da direita Jorge Alessandri: 36,2 por cento dos votos contra 34,9 do seu contendor. Estava tudo agora nas mãos do Plenário do Congresso porque, não tendo sido alcançada a maioria absoluta, era necessário que fosse decidido entre os dois candidatos que obtiveram o maior número de votos. As alternativas manejadas por Washington foram as que Chase havia concebido para a eleição anterior, e com o triunfo de Allende agora restavam apenas duas cartas na mesa: o golpe militar preventivo, daí o assassínio do general constitucionalista René Schneider, ou a manipulação dos legisladores do Plenário do Congresso (apelando à persuasão e, caso esta não desse bons resultados, ao suborno e à extorsão) para que quebrassem a tradição e nomeassem Alessandri como presidente. Ambos os planos fracassaram e em 4 de Novembro de 1970 o candidato da Unidade Popular assumiu a presidência da república. Consagrava-se assim como o primeiro presidente marxista eleito no quadro da democracia burguesa e o primeiro a tentar avançar na construção do socialismo mediante uma via pacífica, projecto que foi violentamente sabotado e destruído pelo imperialismo e seus peões locais.

Apesar destes enormes obstáculos, o inacabado governo de Allende abriu uma brecha que depois, trinta anos mais tarde, outros começariam a percorrer. Foi um governo sitiado desde antes de entrar em La Moneda, tendo que enfrentar um ataque brutal “da embaixada” e seus infames aliados locais: toda a direita, a velha e a nova (a Democracia Cristã), as corporações empresariais, as grandes empresas e seus meios de comunicação, a hierarquia eclesiástica e um sector das camadas médias, vítimas indefesas de um terrorismo mediático sem precedentes na América Latina. Apesar disso, conseguiu avançar significativamente no fortalecimento da intervenção do Estado e na planificação da economia. Conseguiu nacionalizar o cobre por meio de uma lei aprovada quase sem oposição no Congresso, pondo fim ao fenomenal saque praticado pelas empresas norte-americanas com o consentimento dos governos anteriores. Por exemplo, com um investimento inicial de cerca de 30 milhões de dólares ao cabo de 42 anos, a Anaconda e a Kennecott enviaram para o exterior lucros de mais de 4.000 milhões de dólares. Um escândalo! Também colocou o carvão, o salitre e o ferro sob controlo estatal, recuperando a estratégica siderurgia de Huachipato; acelerou a reforma agrária concedendo terras a cerca de 200.000 camponeses em quase 4.500 propriedades e nacionalizou quase todo o sistema financeiro, a banca privada e os seguros, adquirindo em condições vantajosas para seu país a maioria das acções dos seus principais componentes. Também nacionalizou a corrupta International Telegraph and Telephone (IT&T), que detinha o monopólio das comunicações e que antes da eleição de Allende tinha organizado e financiado, juntamente com a CIA, uma campanha terrorista para frustrar a tomada de posse do presidente socialista []. Estas políticas resultaram na criação de uma “área de propriedade social” onde as principais empresas que condicionavam o desenvolvimento económico e social do Chile (como o comércio externo; a produção e distribuição de energia eléctrica; o transporte ferroviário, aéreo e marítimo; as comunicações; a produção, refinação e distribuição de petróleo e seus derivados; a siderurgia, o cimento, a petroquímica e química pesada, a celulose e o papel) passaram a estar controladas ou, pelo menos, fortemente reguladas pelo Estado. Todas essas impressionantes conquistas foram realizadas em simultâneo com um programa alimentar, onde se destacava a distribuição de meio litro de leite para as crianças. Promoveu a saúde e a educação em todos os níveis, democratizou o acesso à universidade e lançou um ambicioso programa cultural por meio de uma editora estatal, Quimantú, que resultou, entre outras coisas, na publicação de milhões de livros que foram distribuídos gratuitamente ou a preços irrisórios.

Com a sua obra de governo e heroico sacrifício, Allende deixou um legado extraordinário aos povos de Nossa América, sem o qual é impossível compreender o caminho que os povos dessas latitudes começariam a percorrer no final do século passado e que culminou com a derrota do principal projecto geopolítico e estratégico dos Estados Unidos para a região, o ALCA, em Mar del Plata em 2005. Allende foi, portanto, o grande precursor do ciclo progressista e de esquerda que sacudiu a América Latina no início deste século.

Ele também foi um anti-imperialista sem falhas e um amigo incondicional de Fidel, do Che e da Revolução Cubana quando tal coisa equivalia a um suicídio político e o convertia em carne de canhão para os sicário mediáticos teleguiados a partir dos EUA. Mas Allende, um homem de uma integridade pessoal e política exemplares, superou tão adversas condições e abriu essa brecha que levaria às “grandes alamedas” onde as mulheres e homens livres da Nossa América marchariam, pagando com a vida a sua lealdade às grandes bandeiras do socialismo, da democracia e do anti-imperialismo. Hoje, comemorando o 50º aniversário daquela vitória, merece que o recordemos com a gratidão devida aos Pais fundadores da Pátria Grande e a quantos inauguraram a nova etapa que conduz à Segunda e definitiva Independência dos nossos povos.


FONTE: ODiario.info

domingo, 26 de abril de 2020

Lenin, a 150 años de su nacimiento

Por Atilio A. Boron 

Fuentes: Rebelión
Vladimir Illich Ulianov nació en un día como hoy [22/04], de 1870, en Simbirsk, Rusia. Fue el fundador del Partido Comunista Ruso (Bolchevique), el líder indiscutido de la primera insurrección obrero-campesina triunfante a escala nacional en la historia de la humanidad: la Revolución de Octubre en Rusia (que llevó a su término lo que la heroica Comuna de París no pudo hacer) y arquitecto y constructor del Estado Soviético.

Como si lo anterior no bastase fue también un notable intelectual, autor de numerosos y medulares escritos sobre temas tan variados como filosofía, teoría económica, ciencia política, sociología y relaciones internacionales.[1] “Práctico de la teoría y teórico de la práctica” según la brillante definición que de él propusiera György Lukács, Lenin introdujo tres aportaciones decisivas a la renovación de una teoría viviente, el marxismo, que siempre la entendió como una “guía para la acción” y no como un dogma o un conjunto esclerotizado de preceptos abstractos. Gracias a Lenin  los cimientos teóricos establecidos por Karl Marx y Friedrich Engels se enriquecieron con una teoría del imperialismo que arrojaba luz sobre los desarrollos más recientes del capitalismo en la primera década del siglo veinte; con una concepción acerca de la estrategia y táctica de la conquista del poder o, dicho en otros términos, con una renovada teoría de la revolución basada en la alianza “obrero-campesina” y el papel de los intelectuales; y con sus distintas teorizaciones sobre el partido político y sus tareas en distintos momentos de la lucha social. Una herencia teórica extraordinaria, como brota de la precedente enumeración. 

En este breve recordatorio del nacimiento de un personaje excepcional como el que nos ocupa quisiera llamar la atención sobre una de esas tres aportaciones: la cuestión del partido. En efecto, preocupa la nociva persistencia de un lugar común -y profundamente erróneo- consistente en hablar de “la teoría” del partido en Lenin como si éste hubiera forjado una, absolutamente imperturbable ante los cambios y los desafíos del proceso histórico. Como lo hemos demostrado en nuestro estudio introductorio en una nueva edición del ¿Qué Hacer? Lenin modificó su concepción del partido en correspondencia con las variaciones en las condiciones que caracterizaban los distintos momentos del desarrollo de la lucha revolucionaria en Rusia.[2] Es una obviedad subrayar que su sensibilidad histórica y teórica era incompatible con cualquier dogmatismo, lo que hizo que tomara rápidamente nota de las enseñanzas que dejara la revolución de 1905 y el marginal papel que en ella jugara la organización política a la que pertenecía,  el Partido Obrero Social Demócrata de Rusia. Su reflexión autocrítica se volcó  en el prólogo a un frustrado libro –iba a llamarse En Doce Años – que recopilaría los  libros y artículos que escribiera entre 1895 y 1907. Pese a la módica  liberalización que el zarismo había consentido luego del ensayo revolucionario de 1905 y la derrota que las tropas del zar habían sufrido en la guerra ruso-japonesa, lo cierto es que aquellos materiales fueron confiscados por la censura y nunca vieron la luz pública. No obstante, el prólogo quedó a salvo y deja importantes claves para comprender la evolución  del pensamiento de Lenin.[3]  En esa reflexión  de 1907 Lenin explica que el modelo de partido propuesto en el  ¿Qué Hacer? se explicaba por las durísimas condiciones impuestas por la lucha clandestina contra el zarismo y su impresionante aparato represivo. Ahora bien, una vez triunfante la Revolución de 1905 Lenin modifica su concepción del partido -que sigue siendo revolucionario pero que ya no debe actuar en la clandestinidad- y se acerca a una postura en cierto sentido similar a la de la socialdemocracia alemana (recordar que Lenin recién repudia la teorización de Karl Kautsky en 1909) que, en ese momento, era el “partido guía” de la Segunda Internacional. Dado que el partido no es una entelequia que sobrevuela las contingencias y los azares de la historia el cambio en la correlación de fuerzas entre el zarismo y las fuerzas sociales de la revolución, amén de las mutaciones operadas en el marco institucional en el que se daba la lucha política- modificaron profundamente la visión de Lenin sobre el carácter del partido, su estructura organizativa, sus tácticas y su actividad organizativa en las nuevas circunstancias históricas. La lucha por la revolución, sobre la cual Lenin jamás hizo ninguna concesión, debía apelar a un nuevo formato partidario. Y lo hizo.

No obstante, el triunfo de la revolución en Febrero de 1917 precipitó la gestación de una tercera teorización en donde la centralidad del partido en la vanguardia del proceso revolucionario fue desplazada por el arrollador protagonismo de los soviets. Con su proverbial sagacidad Lenin advirtió esta mutación, una suerte de revolución copernicana en la esfera de la política, antes que ningún otro dirigente del partido Bolchevique y la dejó impresa para la historia en su asombrosa (y para muchos camaradas, escandalosa) consigna de “¡Todo el poder a los Soviets!” Esto significó, en los hechos, una extraordinaria revalorización del poderío insurreccional de estas inéditas formaciones políticas y un cierto –y transitorio- relegamiento del partido en la “fase más caliente” de la conquista del poder, antes y poco después del triunfo de Octubre. Como veremos más abajo de ninguna manera podría argüirse que Lenin había devaluado definitivamente la importancia del partido. Pero fino observador como era no podía dejar de corroborar su transitorio eclipse en el horno incandescente de la revolución, donde la  arrolladora potencia plebeya de los soviets y su condición de actores imprescindibles a la hora de lograr el triunfo definitivo de la revolución eran incuestionables. La historia se encargó de demostrar que aquella sorprendente consigna, tan discutida en su tiempo por sus propios camaradas bolcheviques, a la larga demostró ser acertada pues en el complejísimo tránsito entre la revolución democrático-burguesa de Febrero y la consumación de la revolución socialista de Octubre, el protagonismo excluyente recayó sobre los soviets y no sobre el partido. Lenin fue uno de los muy pocos que supo comprender este cambio y, también, en darse cuenta que este desplazamiento estaba lejos de ser definitivo y que más pronto que tarde el partido volvería a ocupar un lugar de preponderancia en las luchas políticas. Cosa que efectivamente ocurrió.

En efecto, la estabilización del poder soviético y los enormes desafíos de la construcción del socialismo -en un país devastado por la Primera Guerra Mundial y por la guerra civil declarada por la aristocracia terrateniente, los capitalistas y sus aliados en los gobiernos europeos- dio lugar al nacimiento de una nueva teorización sobre el partido, la cuarta. En esta nueva concepción el partido revolucionario es redefinido (y permítaseme abusar de un didáctico anacronismo) “en clave gramsciana”; es decir, el partido como el gran organizador de la dirección intelectual y moral de la revolución, como educador y concientizador de las masas y especialmente de la juventud; como el forjador de una nueva conciencia civilizatoria e instrumento imprescindible para asegurar la perdurabilidad del triunfo revolucionario. Los últimos escritos de su vida, ya consolidada la victoria de las masas obreras y campesinas rusas, marcan precisamente ese retorno del partido al centro de la escena política, resaltando su centralidad estratégica ante la inmensa tarea de dar comienzo a la construcción de la nueva sociedad comunista y de una nueva estatalidad revolucionaria que, inspirada en las enseñanzas de la Comuna de París, no debía ser remedo del estado capitalista. Y eso no sólo en el plano nacional: la creación de la Internacional Comunista en 1919 proyectó sobre el escenario mundial el papel del partido en momentos en que parecía que el capitalismo se enfrentaba a un callejón sin salida y que el triunfo de la revolución proletaria mundial parecía inminente.   

Concluyo esta breve reflexión diciendo que la habitual caracterización del revolucionario ruso como un atento lector y discípulo de Marx no le hace justicia a la inmensidad de su legado. Como constructor del primer estado obrero mundial, uno de cuyos más perdurables logros civilizatorios fue su decisiva contribución a la derrota del nazismo, y como refinado pensador que aportó valiosos y necesarios desarrollos al corpus teórico del marxismo la obra de Lenin alcanza una estatura teórica que no pasó desapercibida para un atento observador de la derecha. Hablamos, claro está, de Samuel P. Huntington, quien en uno de sus más importantes libros sentencia que “Lenin no fue el discípulo de Marx; más bien, éste fue el precursor de aquél. Lenin convirtió al marxismo en una teoría política,”[4] Tesis que sin duda debe ser tomada con pinzas y abre numerosas e inquietantes preguntas, pero que contiene algunos elementos de verdad que no pueden ser simplemente desdeñados. Y hoy, cuando se cumplen 150 años del nacimiento de Lenin, el desafío que nos propone la heterodoxa tesis del estadounidense es una buena ocasión para invitar a la militancia anticapitalista a retomar el estudio de la vasta producción teórica del fundador de la Unión Soviética.

Notas:


[1] Las Obras Completas de Lenin, que reúne los libros, artículos, ensayos, intervenciones periodísticas, discursos y mensajes de diversos tipo, fueron publicadas por primera vez en lengua castellana por la Editorial Cartago del Partido Comunista Argentino entre 1957 y 1973. Consta de 50 tomos y dos más conteniendo los índices de la obra. Cabe recordar que Lenin muere a los 54 años, lo cual pone de relieve el extraordinario caudal de su talento como escritor, publicista y dirigente  político.

[2] Para un análisis más detallado de estas cuestiones ver nuestra introducción en: V. I. Lenin, ¿Qué Hacer? Problemas candentes de nuestro movimiento (Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2004), pp. 13-73.


[3] Lenin se refiere a este escrito suyo  en su ¿Qué Hacer?  (op. cit), pp. 75-83.


[4] Ver su  Political Order in Changing Societies  (New Haven: Yale University Press, 1968), p. 336.

FUENTE: Rebelión


quarta-feira, 8 de abril de 2020

A pandemia e o fim da era neoliberal

Por Atílio Boron  


Falta ainda saber quase tudo da actual crise. Instalou-se a ideia de que “nada poderá voltar a ser como dantes”. Alguns pensadores avançam uma perspectiva talvez demasiado optimista, porque nenhuma pandemia pode constituir um factor de transformação radical da sociedade. Que o capitalismo pode sofrer um forte abalo, é previsível. O que virá depois não depende de nenhuma especulação filosófica, depende - como afirmou Lénine - da existência, ou não, «de forças sociais e políticas que o façam cair».



O coronavírus desencadeou uma torrente de reflexões e análises que têm como denominador comum a intenção de traçar os contornos (difusos) do tipo de sociedade e economia que ressurgirão uma vez que o flagelo tenha sido controlado. Sobram razões para se aventurar nesse tipo de especulação, oxalá bem informado e controlado, porque se de alguma coisa estamos completamente seguros é que a primeira fatalidade que a pandemia cobrou foi a versão neoliberal do capitalismo. E digo a “versão” porque tenho sérias dúvidas de que o vírus em questão tenha operado o milagre de acabar não só com o neoliberalismo como também com a estrutura que o sustenta: o capitalismo como modo de produção e como sistema internacional. Mas a era neoliberal é um cadáver ainda insepulto mas impossível de ressuscitar. Que acontecerá com o capitalismo? Bem, é disso que trata esta coluna.

Simpatizo muito com a obra e a pessoa de Slavoj Zizek, mas isso não é suficiente para concordar com ele quando sentencia que a pandemia assestou um “golpe tipo Kill Bill no sistema capitalista” após o qual, seguindo a metáfora cinematográfica, este deveria cair morto dentro de cinco segundos. Isso não aconteceu e não acontecerá porque, como Lénine lembrou em mais de uma ocasião, “o capitalismo não cairá se não existem as forças sociais e políticas que o façam cair”. O capitalismo sobreviveu à mal designada “gripe espanhola”, que agora sabemos ter surgido no Kansas em Março de 1918, na base militar de Fort Riley, e que depois as tropas norte-americanas que marcharam para combater na Primeira Guerra Mundial disseminaram incontrolavelmente o vírus.

Os muito imprecisos cálculos da sua letalidade oscilam entre 20, 50 e 100 milhões de pessoas, pelo não é necessário ser um obcecado pelas estatísticas para desconfiar do rigor dessas estimativas amplamente difundidas por muitas organizações, incluindo a National Geographic Magazine. O capitalismo também sobreviveu ao tremendo colapso global produzido pela Grande Depressão, demonstrando uma resiliência incomum - já observada pelos clássicos do marxismo - para processar crises e inclusivamente sair delas mais forte. Pensar que, na ausência daquelas forças sociais e políticas indicadas pelo revolucionário russo (que de momento não são perceptíveis nem nos Estados Unidos nem nos países europeus), se produzirá agora a tão esperada morte de um sistema imoral, injusto e predatório, inimigo mortal da humanidade e a natureza, é mais uma expressão de desejos do que produto de uma análise concreta.

Zizek confia que, para se salvar na sequência desta crise, a humanidade terá a possibilidade de recorrer a “alguma forma de comunismo reinventado” (https://lahaine.org/fR3B). É possível e desejável, sem dúvida. Mas, como quase tudo na vida social, dependerá do resultado da luta de classes; mais concretamente de se, voltando a Lénine, “os de baixo não querem e os de cima não podem continuar a viver como antes”, coisa que até ao momento não sabemos. Mas a bifurcação da saída desta conjuntura apresenta outro resultado possível, que Zizek identifica muito claramente: “a barbárie”. Ou seja, a reafirmação da dominação do capital recorrendo às formas mais brutais de exploração económica, coerção político-estatal e manipulação de consciências e corações por meio de sua até agora intacta ditadura mediática. “Barbárie”, costumava István Mészarós dizer com uma dose de amarga ironia, “se tivermos sorte”.

Mas por que não pensar em alguma saída intermediária, nem a tão temida “barbárie” (da qual há muito tempo nos vêm sendo administradas doses crescentes nos capitalismos realmente existentes) nem a tão desejada opção de um “comunismo reinventado”? Por que não pensar que uma transição para o pós-capitalismo será inevitavelmente “desigual e combinada”, com avanços profundos em alguns terrenos: a desfinanceirização da economia, a desmercantilização da saúde e da segurança social, por exemplo, e outros mais vacilantes, tropeçando com maiores resistências por parte da burguesia, em áreas tais como o rigoroso controlo do casino financeiro mundial, a nacionalização da indústria farmacêutica (para que os medicamentos deixem de ser uma mercadoria produzida em função da sua rentabilidade), das indústrias estratégicas e dos meios de comunicação, além da recuperação pública dos chamados “recursos naturais” (bens comuns, na verdade)? Por que não pensar nos “muitos socialismos” dos quais falava premonitoriamente o grande marxista inglês Raymond Williams em meados dos anos oitenta do século passado?

Ante a proposta de um “comunismo reinventado”, o filósofo sul-coreano de Byung-Chul Han entra na arena para refutar a tese do esloveno e arrisca-se a dizer que “depois da pandemia, o capitalismo continuará com mais pujança”. É uma afirmação temerária, porque se algo se vem desenhando no horizonte é a reivindicação generalizada de toda a sociedade em favor de uma intervenção estatal muito mais activa para controlar os tresloucados efeitos dos mercados na prestação de serviços básicos de saúde, habitação, segurança social, transporte, etc. e para acabar com o escândalo da hiperconcentração de metade de toda a riqueza do planeta nas mãos dos 1% mais ricos da população mundial.

Esse mundo pós-pandemia terá muito mais Estado e muito menos mercado, com populações “conscientizadas” e politizadas pelo flagelo a que foram sujeitas e propensas a buscar soluções solidárias, colectivas e até “socialistas” em países como os Estados Unidos, lembra-nos Judith Butler, repudiando o desenfreio individualista e privatista exaltado durante quarenta anos pelo neoliberalismo e que nos levou à situação trágica que estamos a viver. E também um mundo em que o sistema internacional já adoptou, definitivamente, um formato diferente ante a presença de uma nova tríade dominante, embora o peso específico de cada um dos seus actores não seja igual.

Se Samir Amin estava certo no final do século passado, quando falava da tríade formada pelos Estados Unidos, Europa e Japão, hoje ela constituída pelos Estados Unidos, China e Rússia. E, ao contrário da ordem tripolar anterior, onde a Europa e o Japão eram junior partners (para não dizer peões ou lacaios, o que soa um tanto depreciativo, mas é a caracterização que merecem) de Washington, hoje este tem que lidar com a formidável potência económica chinesa, sem dúvida o actual motor da economia mundial relegando os EUA para um segundo lugar e que, além disso, assumiu a liderança na tecnologia 5G e na Inteligência Artificial.

Ao anteriormente dito junta-se a não menos ameaçadora presença de uma Rússia que voltou ao primeiro plano da política mundial: rica em petróleo, energia e água; dona de um imenso território (quase o dobro da extensão dos Estados Unidos) e de um poderoso complexo industrial que produziu uma tecnologia militar de ponta que em algumas áreas decisivas supera a dos Estados Unidos, a Rússia complementa com a sua força no campo militar a que a China ostenta no terreno da economia. É difícil para o capitalismo, como Han diz, adquirir força renovada neste cenário internacional tão pouco promissor. Se teve a gravitação e a penetração global que soube ter foi porque, como disse Samuel P. Huntington, havia um “xerife solitário” que sustentava a ordem capitalista mundial com sua inapelável primazia económica, militar, política e ideológica. Hoje, a primeira está nas mãos da China e os enormes gastos militares dos EUA não podem com um pequeno país como a Coreia do Norte nem para vencer uma guerra contra uma das nações mais pobres do planeta como o Afeganistão.

A ascendência política de Washington permanece apenas, presa por alfinetes, no seu “pátio traseiro”: América Latina e Caribe, mas por entre grandes convulsões. E o seu prestígio internacional viu-se muito debilitado: a China conseguiu controlar a pandemia e os Estados Unidos não; China, Rússia e Cuba ajudam a combatê-la na Europa, e Cuba, exemplo mundial de solidariedade, envia médicos e medicamentos para os cinco continentes, enquanto a única coisa que ocorre aos que transitam pela Casa Branca é enviar 30.000 soldados para um exercício militar com a NATO e intensificar as sanções contra Cuba, Venezuela e Irão, no que constitui um evidente crime de guerra. A sua antiga hegemonia já é coisa do passado.

O que hoje é discutido nos corredores das agências governamentais dos EUA não é se o país está em declínio ou não, mas a inclinação e o ritmo do declínio. E a pandemia está a acelerar este processo hora a hora.

O sul-coreano Han tem razão, por outro lado, quando afirma que “nenhum vírus é capaz de fazer a revolução”, mas cai em redundância quando escreve que “não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus”. Claro que não! Vejamos o registo histórico: a Revolução Russa estalou antes da pandemia da “gripe espanhola”, e a vitória dos processos revolucionários na China, Vietnam e Cuba não foi precedida por nenhuma pandemia.

A revolução fazem-na as classes subalternas quando tomam consciência da exploração e opressão a que estão sujeitas; quando vislumbram que longe de ser uma ilusão inatingível, é possível um mundo pós-capitalista e, finalmente, quando conseguem obter uma organização à escala nacional e internacional eficaz para lutar contra uma “burguesia imperial” que outrora entrelaçava fortemente os interesses dos capitalistas nos países desenvolvidos. Hoje, graças a Donald Trump, essa unidade de ferro no topo do sistema imperialista foi irreparavelmente quebrada e a luta lá em cima é de todos contra todos, enquanto China e Rússia continuam pacientemente e sem ruído a construir alianças que sustentarão uma nova ordem mundial.

Uma última reflexão. Creio que há que calibrar a extraordinária severidade dos efeitos económicos desta pandemia, que tornarão o retorno ao passado uma missão impossível. Os diferentes governos do mundo foram forçados a enfrentar um cruel dilema: a saúde da população ou o vigor da economia. Declarações recentes de Donald Trump (e de outros responsáveis como Angela Merkel e Boris Johnson), no sentido de que não vão adoptar uma estratégia para conter o contágio colocando em quarentena grandes sectores da população, porque isso paralisaria a economia destaca a contradição básica do capitalismo. Porque, convém recordá-lo, se a população não vai trabalhar o processo de criação de valor é interrompido e não há nem extracção nem realização de mais-valia. O vírus salta das pessoas para a economia, e isso provoca o pavor dos governos capitalistas que estão renitentes em impor ou manter a quarentena porque a comunidade empresarial precisa que as pessoas saiam às ruas e trabalhem, mesmo sabendo que põem em risco a sua saúde.

Segundo Mike Davis nos EUA 45% da força de trabalho “não tem acesso a licença remunerada devido a doença e é praticamente obrigado a ir trabalhar e transmitir a infecção ou ficar com o prato vazio”. A situação é insustentável do lado do capital, que precisa de explorar sua força de trabalho e para quem é intolerável que esta fique em casa; e do lado dos trabalhadores que, se forem trabalhar ou se infectam ou fazem o mesmo com os outros, e se ficam em casa não têm dinheiro para atender às suas necessidades mais básicas. Essa encruzilhada crítica explica a crescente beligerância de Trump contra Cuba, Venezuela e Irão e a sua insistência em atribuir a origem da pandemia aos chineses. Tem que criar uma cortina de fumo para ocultar as nefastas consequências de largas décadas de subfinanciamento do sistema público de saúde e a cumplicidade com as vigarices estruturais da medicina privada e da indústria farmacêutica no seu país. Ou atribuir a causa da recessão económica a quem aconselha as pessoas a ficar em casa.

Em qualquer caso, e para além de se a saída desta crise será um “comunismo renovado”, como Zizek quer, ou uma experiência híbrida mas claramente apontando na direção do pós-capitalismo, esta pandemia (como claramente explicam Mike Davis, Mike Davis, David Harvey, Iñaki Gil de San Vicente, Juanlu González, Vicenç Navarro, Alain Badiou, Fernando Buen Abad, Pablo Guadarrama, Rocco Carbone, Ernesto López, Wim Dierckxsens e Walter Formento em diversos artigos que circulam profusamente na web) moveu as placas tectónicas do capitalismo global e nada poderá voltar a ser como antes. Além disso ninguém quer, salvo o punhado de magnatas que enriqueceram com a selvagem rapina perpetrada durante a era neoliberal, que o mundo volte a ser como antes.

Tremendo desafio para os que queremos construir um mundo pós-capitalista porque, sem dúvida, a pandemia e os seus devastadores efeitos oferecem uma oportunidade única, inesperada, que seria imperdoável não aproveitar. Portanto, a palavra de ordem do momento para todas as forças anticapitalistas do planeta é: conscientizar, organizar e lutar; luta até ao fim, como queria Fidel quando, numa memorável reunião com intelectuais realizada no âmbito da Feira Internacional do Livro de Havana, em Fevereiro de 2012, se despediu de nós dizendo: “Se vos disserem: pode estar seguro que o planeta vai acabar e se acaba esta espécie pensante, o que vão fazer, pôr-se a chorar? Creio que há que lutar, é o que sempre fizemos.” Mãos à obra!


FONTE: ODiario.info

domingo, 22 de setembro de 2019

¿Quién es Mario Vargas Llosa? Atilio Boron lo explica en “El hechicero de la tribu”

By Redacción - Maremoto (Maristain) - marzo 28, 2019

Mario Vargas Llosa en la FIL Guadalajara. Foto: Fil en Guadalajara
Con autorización de Akal publicamos un fragmento del libro El hechicero de la tribu. Vargas Llosa y el liberalismo en América Latina, de Atilio Borón. Hoy Mario Vargas Llosa cumple 83 años y aquí está su desmantelamiento político.

Ciudad de México, 29 de marzo (MaremotoM).- Para ser fecunda, la crítica no debe arremeter contra un hombre, sino trabajar en las ideas. La fuerza del presente análisis surge del ejemplo que Atilio Borón (Buenos Aires, 1943) aporta a sus lectores: la belleza en el discurso no debe distraernos del planteamiento ni de los argumentos (si es que existen). Es bajo esta convicción que ante nosotros —y sin anestesia— se practica un desmantelamiento político con rigor y demanda, a la altura de una leyenda.

Así, con la intención de entrar en el núcleo de Mario Vargas Llosa (Arequipa, Perú, 1936), partimos de su elogio al sistema neoliberal —del que se ha convertido en gran defensor público— para descubrir a un prolijo allegado al poder y su ideología, a un divulgador oculto tras las ramas de la literatura y del boom latinoamericano.

El propio Boron lo señala: “Pese a su elemental y tendencioso manejo de las categorías y las teorías del análisis político o tal vez debido a la maestría con que maneja los sofismas y las ‘posverdades’, Vargas Llosa es una pieza fundamental en el masivo dispositivo de ‘lavado de cerebros’ y de propaganda conservadora que con tanto esmero practican las clases dominantes de las metrópolis y sus secuaces en la periferia”.

FRAGMENTO DE EL HECHICERO DE LA TRIBU. VARGAS LLOSA Y EL LIBERALISMO EN AMÉRICA LATINA, DE ATILIO BORON, CON AUTORIZACIÓN DE AKAL EDITORES.

A MANERA DE PRÓLOGO

Ana María Ramb


El hechicero de la tribu. Vargas Llosa y el liberalismo en América Latina es un libro absolutamente válido, incluso sorprendente y, sobre todo, necesario. Se trata de una clase magistral sobre la cuestión del compromiso y la responsabilidad de los intelectuales, a través del estudio de la personalidad y trayectoria de una figura paradigmática.

Su autor, Atilio Boron, no eligió como eje a un dreyfusiano, es decir, a un intelectual que, más allá de sus trabajos literarios, es capaz de dejar la pluma para tomar partido en la arena pública y así ejercer el pensamiento crítico y levantar los valores de la justicia, como en su tiempo lo hizo Émile Zola al defender la inocencia del capitán Dreyfus, en contradicción con la “razón de Estado”. Tampoco es Federico García Lorca o Raúl González Tuñón, ambos —como muchos otros notables—, involucrados con sus semejantes, con su comunidad nacional e internacional, así como con el género humano en su conjunto, a través de su adhesión a la causa republicana durante la Guerra Civil española.

Eso sí, el protagonista es un grande, surgido del llamado Boom de la literatura latinoamericana. Pero no es Julio Cortázar, para quien conocer de cerca la causa de la Revolución cubana resultó una vivencia determinante, que lo llevaría a asistir a la inauguración de la presidencia de Salvador Allende en el Chile del 70 y, tres años más tarde, a ceder los derechos de autor de El libro de Manuel, en solidaridad con los presos políticos de la dictadura argentina; o también a apoyar, con todos los medios a su alcance, la Revolución sandinista.

Ustedes, estimados lectores y lectoras, a partir del título de este libro de Atilio Boron, ya saben quién será objeto de sus análisis. Nada menos que Mario Vargas Llosa, hoy por hoy, Jorge Mario Pedro, marqués de Vargas Llosa, según título nobiliario concedido por Juan Carlos I, rey de España. VLl —para nombrarlo en forma breve— es, por propio derecho, uno de los más importantes escritores contemporáneos, con una larga obra que ha cosechado numerosos premios, entre los que destacan el Nobel de Literatura, el Cervantes, el Rómulo Gallegos, el Príncipe de Asturias de las Letras y el Planeta, entre otros. Fue candidato a la presidencia de Perú en 1990 por la coalición política Frente Democrático (Fredemo), del “centro-derecha”. Desde hace años preside la Fundación Internacional para la Libertad. Y en esa función visita con frecuencia Argentina. En abril de 2018, como alternativa de agenda a la cena anual de la Fundación Libertad, VLl ofició de moderador con preguntas dirigidas a los presidentes Mauricio Macri (Argentina) y Sebastián Piñera (Chile). Tema principal: “La crisis en Venezuela”.

A quien le inquiete saber cómo VLl se presenta a sí mismo, podrá leer El pez en el agua, relato autobiográfico donde el “ilustrísimo señor marqués” pinta dos retratos: el del adolescente que se impuso la literatura como mayor pasión de vida y el del adulto que ejerció su vocación política hasta quedar “exhausto”. Sin embargo, las noticias donde a VLl se lo ve hoy en la prensa del establishment muestran lo contrario. Lejos de parecer extenuado, VLl sigue nadando en aguas políticas, pero no en un océano proceloso, sino en las enrarecidas aguas de un acuario con algas de plástico, cuidado por guardianes del sistema. Como nota de color, las cámaras de las revistas del corazón y el canal ¡Hola! tv lo enfocan también con cierta frecuencia.

En sus comienzos como escritor, visitaba la Casa de las Américas, institución cubana que tuvo mucho que ver con el espaldarazo que recibieron los primeros títulos de VLl y que lo consagró con La ciudad y los perros como uno de los cuatro pioneros de lo que sería el citado Boom —los otros tres eran Julio Cortázar (Los premios), Gabriel García Márquez (El coronel no tiene quien le escriba) y Carlos Fuentes (La muerte de Artemio Cruz)—. La adhesión de VLl a la causa de la Revolución estaba presente cuando en 1962 viajó a la Isla para cubrir como reportero los efectos de la Crisis de los misiles.

¿Cómo fue que ese muchacho tan talentoso y crítico de la realidad de Nuestra América, militante del pc de su país, derrapó para convertirse en el más descollante intelectual orgánico y paradigmático del neoliberalismo, sistema que se pretende a sí mismo universalmente hegemónico y triunfante? ¿Cómo fue que VLl, adulto, se transformó en paladín de la ideología capitalista y responde actualmente a las estructuras tradicionales y a los intereses constituidos?

En tal sentido, Adolfo Sánchez Vázquez advierte que, por su contenido en ideas, por la acogida que la sociedad le da a la obra de un intelectual de relieve y por el uso que de ella hace, el producto tiene efectos prácticos en la realidad, al criticarla, apoyarla o transformarla. Nadie puede afirmar hoy que VLl intente siquiera criticarla ni, muchos menos, transformarla. Al contrario, la apoya e intenta fundamentarla en sus ensayos, entrevistas, paneles y conferencias.

Con autorización de Akal publicamos un fragmento de este libro. Foto: Cortesía
A éstas y a otras más complejas cuestiones encontraremos respuesta en El hechicero de la tribu. Vargas Llosa y el liberalismo en América Latina. Es una fortuna contar con un intelectual como Boron para desmontar las ficciones que se incrustan sobre la sociedad y generan un pensamiento, una manera de existir adoptados, al principio, por el campo de la comunicación y de la cultura y, después, por algunas mayorías. Porque Atilio Boron, cuya espléndida obra y brillante itinerario podrían asegurarle una dorada y confortable torre de marfil, no es un intelectual que se debate entre la lucidez de sus análisis de la realidad y la imposibilidad de actuar sobre ella —contradicción que a no pocos desespera y hace languidecer—, sino que trasciende su actividad académica, ensayística y, desde ya, la filosófica, y, mediante un compromiso docente y político cotidiano, la convierte en práctica concreta. ¿Hace falta decir que Atilio pertenece a la Rayuela cortazariana? Decía Julio:

Sé muy bien que mis lectores no se contentan con leerme como escritor, sino que miran más allá de mis libros y buscan mi cara, buscan encontrarme entre ellos, física o espiritualmente, buscan saber que mi participación en la lucha por América Latina no se detiene en la página final de mis novelas o de mis cuentos […].

Creo que la responsabilidad de nuestro compromiso tiene que mostrarse en todos los casos en un doble terreno: el de nuestra creación, que tiene que ser un enriquecimiento y no una limitación de la realidad y el de la conducta personal frente a la opresión, la explotación, la dictadura y el fascismo, que continúan su espantosa tarea en tantos pueblos de América Latina.


CAPíTULO I Introducción.

¿Por qué Vargas Llosa? El más reciente libro de Vargas Llosa, La llamada de la tribu, es un racconto de la aventura —o si se prefiere, del extravío— intelectual y política de su autor desde los remotos días en que era un joven comunista peruano que devoraba con pasión los ejemplares de Les Temps Modernes y que leía a Jean-Paul Sartre “devotamente” hasta la consumación de su apostasía y la execración de todo lo que alguna vez admirara. Con el paso del tiempo, todo aquello que en su juventud le otorgara sentido a su vida años después se convertiría en objeto de una incesante, inagotable y enfermiza animosidad. Como lo asegura uno de los más importantes estudiosos de su obra, “Vargas Llosa no sólo dejó de ser un marxista, según su criterio y convicción, sino que al convertirse en un converso confeso y apasionado por su nueva verdad se transformó en implacable enemigo de las luchas sociales de los pueblos que tratan de liberarse de las cadenas de la colonialidad que ha impuesto el liberalismo”.

Nuestro autor comenzó su vida política en el Partido Comunista Peruano. Nos asegura que “participó primero como simpatizante y después como militante” en Cahuide, una célula clandestina del pcp en la Universidad de San Marcos. Ya como militante y con el pseudónimo de “Camarada Alberto”, VLl asumió otras responsabilidades y “además de escribir en el periódico partidario (tuvo que) representar públicamente al Partido”. Pero en 1954 se aleja del PCP y en un espectacular giro pasa a militar en la Democracia Cristiana. Como afirma un estudioso de su vida y obra, “el novelista se desenvuelve con facilitad en los extremos”.

Prueba de ello es su veloz abandono del espiritualismo y la “democracia cristiana” y, ya instalado en París, su ardiente adhesión a la Revolución cubana poco después de la entrada de Fidel y sus barbudos a La Habana. Pocos años más tarde, VLl emprendería un camino sin retorno hacia un liberalismo radical, con el que, a través del tiempo, no haría sino agriarse y, en lugar de intentar ser con los años algo más sabio, más noble, más leal, honrado y generoso, derrapó hasta convertirse en un desembozado apologista de la monarquía española, el imperialismo norteamericano y toda la derecha mundial.

Vargas Llosa explica en la primera página de su nuevo libro que la inspiración para escribirlo provino de la lectura de un texto notable: Hacia la estación de Finlandia, del norteamericano Edmund Wilson. En esta obra se reconstruye el itinerario de la idea socialista hasta su culminación —y según Wilson y el propio Vargas Llosa, su definitiva degeneración— con el triunfo de la Revolución bolchevique en octubre de 1917. Pero hay una diferencia fundamental que separa la obra de Wilson de la del escritor peruano: mientras que aquél procura trazar el recorrido de la presunta descomposición del ideario socialista, en el caso de VLl se trata, aunque no lo parezca según él, “de un libro autobiográfico”. Más concretamente asegura que esta obra describe mi propia historia intelectual y política, el recorrido que me fue llevando, desde mi juventud impregnada de marxismo y existencialismo sartreano, al liberalismo de mi madurez, pasando por la revalorización de la democracia a la que me ayudaron las lecturas de escritores como Albert Camus, George Orwell y Arthur Koestler (p. 11).

Alguien podría de buena fe objetar por qué razones el autor de este libro, volcado durante largos años a la enseñanza de la teoría y la filosofía políticas y al estudio del imperialismo debería dedicar su escaso tiempo a criticar la obra de un notable novelista, pero, a su vez, un tosco aficionado si de examinar los grandes temas de la tradición filosófico-política se trata. Como escritor se dedica, según lo dijera más de una vez, a “escribir mentiras que parezcan verdades”. ¿Para qué perder tiempo en un libro que, como veremos, está también saturado por mentiras que parecen verdades? ¿Para qué criticar un libro que es un inmenso océano de sofisterías y artimañas retóricas salpicado con unos pocos y pequeños islotes en donde asoma un gramo de verdad?

La respuesta es simple y contundente. Nos guste o no, VLl es hoy por hoy el más importante intelectual público de la derecha en el mundo hispanoparlante y tal vez uno de los de mayor gravitación a nivel mundial. Su incansable labor como propagandista de las ideas liberales a lo largo de casi medio siglo y la formidable difusión de sus escritos —reproducidos ad nauseam en toda la prensa iberoamericana y en los grandes medios de comunicación de Estados Unidos y Europa— convirtieron al peruano en el profeta mayor del neoliberalismo contemporáneo. Ninguno de los autores que examina en su libro tiene —o tuvo— una llegada al gran público ni siquiera remotamente similar a la del autor de La casa verde o la capacidad de reclutar una legión de divulgadores que a través de los medios de comunicación hegemónicos disemina sus ideas por todo el mundo hispanoparlante. Ninguno, tampoco, tuvo la posibilidad de VLl de alternar con gobernantes y monarcas con la frecuencia y familiaridad que posee el arequipeño.

Su cruzada en contra de toda forma de colectivismo: el socialismo, el comunismo, el estatismo, y el “populismo” (concepto etéreo y confuso si los hay) ha ejercido una influencia social y política sin precedentes en América Latina y también en España, su patria de adopción. Pese a su elemental y tendencioso manejo de las categorías y las teorías del análisis político o tal vez debido a la maestría con que maneja los sofismas y las “posverdades”, VLl es una pieza fundamental en el masivo dispositivo de “lavado de cerebros” y de propaganda conservadora que con tanto esmero practican las clases dominantes de las metrópolis y sus secuaces en la periferia. El daño que ha hecho al atacar con su elegante prosa a cuanto gobierno o fuerza política se aparte de los cánones establecidos por el neoliberalismo o rechace los mandatos emanados de la Casa Blanca ha sido enorme. Lo mismo el perjuicio ocasionado con sus arremetidas en contra de la tradición del pensamiento crítico en todas sus variantes; o la confusión que ha creado entre las legiones de gentes que ansían y necesitan construir un mundo mejor; o el desánimo que ha sembrado en millones de personas y la resignación que ha promovido ante las atrocidades del capitalismo y la farsa democrática que éste escenifica tanto en los países centrales como en la periferia. Todo este cúmulo de razones torna imprescindible poner al desnudo las falacias, sofismas y argucias de su labor como propagandista de un orden social insanablemente injusto, develando las trampas argumentativas ocultas en sus seductores escritos.

De ahí el título de nuestro libro. Una de las acepciones de la palabra “hechicero” dice que es la “persona que realiza actos de magia o hechicería para dominar la voluntad de las personas o modificar los acontecimientos, especialmente si provoca una influencia dañina o maléfica sobre las personas o sobre su destino”. La magia de una prosa elegante y bien definida, la hechicería de la palabra justa, de agradable sonoridad, y una especial aptitud para el arte de fabular y mentir con la perversa habilidad del flautista de Hamelin no sólo en sus novelas, sino en sus ensayos políticos, le otorgaron a VLl la capacidad de ejercer una influencia perniciosa sobre el común de la gente, y altamente beneficiosa para los dueños del mundo, que recompensaron sus servicios colmándolo de honores y todo tipo de premios y distinciones. Su palabra es la del partido del orden; los sucesivos ocupantes de la Casa Blanca hablan por su voz; la derecha europea lo ha colmado de premios y reconocimientos de todo tipo; sus escritos se leen en buena parte del mundo, comenzando por el hispanoparlante. Si tuviéramos que nombrar a un escritor, un intelectual, un personaje público que ha trabajado incansable y eficazmente para introducir en las sociedades latinoamericanas el engañoso sopor mental del liberalismo, o para perpetuar la sumisión de las grandes masas, la desinformación programada, el atraso cultural de sujetos que no pueden percibir alternativa alguna a un mundo cruel que los victimiza y embrutece, esa persona es, precisamente, VLl. Por eso nadie podría arrebatarle el título de hechicero que, con sus malas artes, perpetúa el sometimiento y la resignación de una enorme tribu formada por millones de personas, ofuscando su entendimiento, y que, al hacerlo, presta con el embrujo de sus palabras un servicio invaluable para las clases dominantes del mundo capitalista y para un imperio que, según sus más lúcidos voceros, comenzó a transitar la ruta de su irreversible decadencia.

Unas breves palabras antes de poner fin a esta sección acerca de una —¿sólo casual?— coincidencia de esta inesperada aparición de la palabra “tribu” en el pensamiento de la derecha latinoamericana. Pocos meses antes de la publicación del libro de VLl, aparecía en México La tribu. Retratos de Cuba (Sexto Piso, 2017), de Carlos Manuel Álvarez, un joven escritor y periodista cubano que fue presentado en Argentina como una de las nuevas voces críticas de la Revolución. Álvarez es frecuente colaborador en medios como el New York Times, BBC Mundo, Aljazeera y la cadena Univisión. La editorial mexicana definió su libro como “un volumen de crónicas sobre la Cuba post revolucionaria”, con lo cual está todo dicho: la Revolución cubana ha muerto y Álvarez emitió su certificado de defunción. Su libro fue presentado en Buenos Aires en la Universidad Nacional de San Martín, con el auspicio de CADAL, una muy activa organización anticastrista radicada en la Argentina. ¡Otra vez “la tribu”!, que ahora es Cuba. No creemos que haya sorpresa alguna en cuanto a la futura carrera de este escritor, ya integrado al Olimpo de los autores “consagrados” por el mandarinato imperial. Y este reconocimiento, como en el caso de VLl, no es gratis. Es la generosa recompensa del imperio a una activa militancia contrarrevolucionaria.

La “batalla de ideas” a la que convocaran Martí y Fidel exige recoger el guante que arroja el peruano con sus escritos. Callarnos ante sus argucias y patrañas sólo servirá para prolongar la victoria ideológica del neoliberalismo y obturar las vías de escape ante los horrores causados por las políticas que publicita VLl en sus intervenciones públicas.

RADIOGRAFÍA EN MOVIMIENTO

A la luz de lo planteado, vemos que hay razones suficientes para enfrascarnos en una lectura crítica del libro que nos ocupa. Nuestra labor, digámoslo de entrada, no tiene pretensión alguna de ser una biografía de VLl, sino de ofrecer una radiografía en movimiento de su metamorfosis política y de las teorías y doctrinas de los autores que, según él, lo indujeron a dar su (mal)paso. Un aliciente complementario para nuestra empresa es que VLl representa uno de los casos más espectaculares de apostasía y conversión al neoliberalismo de un intelectual de izquierda. Obvio, está lejos de ser el único que se embarcó en esta travesía regresiva, pero sin duda es el más notable de todos, al menos en el ámbito latinoamericano y caribeño, por la gravitación mundial del personaje y por la amplitud del recorrido en un extenso arco que va desde un “marxismo sartreano” hipersectario hasta un neoliberalismo puro y duro, ambos condimentados con el mismo fanatismo que con tanto ardor y desde sus vísceras pretende combatir en su libro.

El Nobel hispano-peruano abjuró de sus ideas, pero mantuvo con tenacidad el celo incandescente con que defiende sus convicciones, algo que los psicoanalistas calificarían como una “formación reactiva” que lo lleva a sobreactuar su repudio a todo lo que en otros tiempos adoraba. Con algunas reservas, podríamos identificar un itinerario similar en la obra de otro gran escritor, Octavio Paz, aunque no sean casos estrictamente comparables. El mexicano también sufrió una involución política igualmente deplorable. En la década de los setenta ya nada tenía que ver con aquel joven poeta que viajara a España en 1937, en plena Guerra Civil, para participar en el II Congreso Internacional de Escritores para la Defensa de la Cultura, convocado desde París por Pablo Neruda en solidaridad con el Gobierno de la República Española. Su tránsito hacia la ignominia llega a su apogeo cuando, en el México de los noventa, se convirtió en el principal vocero de la reacción neoliberal, hipnotizado por el derrumbe del Muro de Berlín y la inminente desintegración de la Unión de Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A pedido del multimedios Televisa y del Gobierno de México, Paz organizó, en 1990 un gran —y costosísimo— evento académico e intelectual denominado “Encuentro Internacional – La experiencia de la libertad”, convocado poco después de la caída del Muro en medio de la euforia del supuesto “advenimiento de la libertad” en Europa del Este y del beneplácito de los poderes dominantes con la gestión presidencial de Carlos Salinas de Gortari en México. La reunión fue una fastuosa celebración y, simultáneamente, un canto a los Estados Unidos como nave insignia de la lucha por la libertad, la justicia, la democracia y los derechos humanos en el mundo. Uno de los héroes que VLl examina en su libro, Jean-François Revel, estuvo en ese encuentro y fue uno de los más rabiosos críticos de la experiencia soviética y, más generalmente, del proyecto socialista. Vargas Llosa también participó en ese cónclave y, como veremos más adelante, fue el centro de una áspera polémica. Un dato que apunta hacia el carácter poco académico y muy propagandístico del torneo fue un hecho insólito: contrariando toda la tradición de los seminarios académicos, fue televisado en directo durante toda su duración, entre el 27 de agosto y el 2 de septiembre de 1990. Y no es un dato menor que Adolfo Sánchez Vázquez, uno de los más notables marxistas del mundo de habla hispana, hubiera sido invitado a asistir al evento pero no a presentar una ponencia. Indignado ante la andanada de calumnias e infamias que impunemente proferían los invitados, a cual más macarthista, el profesor de la UNAM exigió con insistencia su derecho a réplica. Paz, quien en principio le había negado la palabra, finalmente le autorizó a dirigirse al público (y los televidentes).

Hasta ese aciago momento, ya veremos por qué decimos esto, Paz compartía junto a Vargas Llosa el podio donde se empinaban los dos más grandes hechiceros del neoliberalismo en Nuestra América. Si bien estaban hermanados por su deshonroso sometimiento a los poderes fácticos del mundo actual, un inesperado y profundo desacuerdo surgió entre ambos cuando, de modo imprevisto, en un debate sostenido en un programa especial de Televisa en horario prime time, el peruano emitió una sentencia categórica e inapelable sobre la naturaleza del sistema político mexicano, misma que lo pinta de cuerpo entero: es una “dictadura perfecta”, dijo. “México es la dictadura perfecta”, prosiguió, porque “la dictadura perfecta no es el comunismo. No es la URSS. No es Fidel Castro. La dictadura perfecta es México […] es la dictadura camuflada […] Tiene las características de la dictadura: la permanencia, no de un hombre, pero sí de un partido. Y de un partido que es inamovible”. Y remató su diatriba con un comentario cargado de veneno pero cierto: “Yo no creo que haya en América Latina ningún caso de sistema de dictadura que haya reclutado tan eficientemente al medio intelectual, sobornándole de una manera muy sutil”.

Muchos intelectuales que vivimos largos años en México, como quien esto escribe, compartíamos la definición del novelista peruano. Pero eran comentarios que circulaban con el mayor sigilo entre los exiliados y nuestros amigos mexicanos. Sin embargo, ninguno hubiera jamás tenido la osadía de decir en público lo que, años después —y con la impunidad que le otorgaba su condición de ser una celebridad internacional y, sobre todo, el lenguaraz del imperio— dijo muy suelto de cuerpo Vargas Llosa. Es que la reglamentación del famoso y temido artículo 33 de la Constitución de los Estados Unidos Mexicanos facultaba al Gobierno a expulsar del país en 24 horas a quienquiera que emitiese una opinión crítica sobre México, su política, su economía, su inserción internacional. Para muchos de los exiliados, si no para todos, dicha expulsión y el retorno a nuestros países de origen equivalían a cárcel, tortura y muerte. Por lo tanto, lo que VLl dijo años después eran verdades inocultables pero que circulaban como cuchicheos de pequeños grupos en los pasillos de la UNAM o de cualquiera de las grandes instituciones educativas de México, mirando siempre de reojo para asegurarnos de que no hubiera en las inmediaciones algún sospechoso que fuese informante de la…


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Atilio Borón. Foto: Wikipedia
Atilio Boron (Buenos Aires, 1 de julio de 1943) es una de las figuras más relevantes de las ciencias sociales en Latinoamérica. Doctor en Ciencia Política por la Universidad de

Harvard, es profesor en la Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad de Buenos Aires, investigador del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet) y director del Pled (Programa Latinoamericano de Educación a Distancia en Ciencias Sociales).

Columnista en diversos medios, también ha sido secretario ejecutivo del Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Clacso) de 1997 a 2006. Entre sus reconocimientos, cabe mencionar el Premio de Ensayo Ezequiel Martínez Estrada de Casa de las Américas 2004, por su libro Imperio e imperialismo y el Premio Internacional José Martí por su contribución a la unidad e integración de los países de América Latina y el Caribe, otorgado por la Organización de las Naciones Unidas para la Educación, la Ciencia y la Cultura (Unesco) en 2009.



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

“Rosa Luxemburgo y la crítica al reformismo socialdemócrata”



Trecho del estudio introductorio  de Atilio A. Boron a la edición de ¿Reforma social o revolución?, de Rosa Luxemburgo (Ediciones Luxemburg, 2010)

¿Reforma social o revolución? de Rosa Luxemburgo, junto con el ¿Qué hacer? de Lenin, son los dos escritos donde se plasman sus críticas frontales al revisionismo. Si en el libro de Lenin, el eje excluyente de la argumentación es el problema de la organización de las clases y capas explotadas –una cuestión esencialmente política, por supuesto, y no meramente instrumental o burocrática–, la obra de Rosa incluye un amplio abanico de temas de importancia fundamental relacionadas con el curso del desarrollo capitalista, el papel y los límites de las reformas sociales y la misión del Partido Socialista. El autor de estas líneas cree sinceramente que, más allá de algunos lugares comunes –como, por ejemplo, la acusación de “espontaneísmo” dirigida en contra de la revolucionaria polaca, o de “aparatismo” con que se suele (mal)interpretar el libro de Lenin– ambos textos expresan un contrapunto susceptible de conjugarse en una armoniosa síntesis. Tarea tanto más urgente en tiempos como los actuales, cuando una reflexión sobre las perspectivas del socialismo a comienzos del siglo XXI está signada por una temeraria subestimación de la centralidad de la problemática de la organización. En cierto sentido, podría decirse que las reflexiones contemporáneas sobre el porvenir del socialismo tienen, al menos en América Latina, todavía mucho que ver con ambos autores.
Por la relevancia de los temas que aborda, por el modo como los resuelve, por la sorprendente actualidad de sus análisis sobre la articulación entre capitalismo, reformismo, democracia y revolución, este pequeño gran libro, un legítimo clásico del pensamiento marxista, ofrece una contribución invalorable para las luchas emancipadoras de nuestra época.

Atilio Boron

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

60 anos do triunfo da Revolução Cubana






Por Atilio Boron

Comienza un año muy particular: se cumplen 60 años del triunfo de la Revolución Cubana. Para mí es una fecha muy especial y la conmemoración de esa gran victoria popular y la derrota del imperialismo norteamericano eclipsan cualquier otro tipo de consideración, sea personal, institucional o colectiva. Esa victoria convierte, en este caso, las salutaciones tradicionales de fin de año en una tontería. Con la Revolución Cubana Nuestra América salió de la prehistoria y comenzó a escribir su propia historia. La luz irradiada aquel 1° de Enero de 1959  llega potente y vibrante hasta nuestros días gracias al internacionalismo, la solidaridad y la porfiada y difícil construcción del socialismo aún bajo las peores condiciones posibles. 

Si la historia lo absolvió a Fidel, como premonitoriamente lo había anunciado,  la tenaz resistencia de la Revolución Cubana ante las agresiones del mayor imperio de la historia, del más poderoso ejército jamás conocido, convirtieron a esa isla heroica en un  luminoso ejemplo para todo el mundo. Pese a sesenta años de agresiones y de un criminal bloqueo integral en su contra, ejemplo único en la historia universal, Cuba sigue siendo una fuente de inspiración para todos los que luchan contra la injusticia , la confirmación de que no estamos irremisiblemente condenados a ser colonias de un imperio que ha perpetrado las mayores atrocidades de las que se tenga noticia. Hiroshima y Nagasaki son crímenes sin parangón pese a lo cual ningún presidente estadounidense tuvo la entereza moral de asumir y, por lo menos, enviar una nota al pueblo japonés diciendo aunque sea una sola palabra:  “perdón”.  ¡Nada! 


Contra esa monstruosa impunidad ha luchado Cuba, para honor de los pueblos de Nuestra América y para eterna deshonra de tantos malos gobiernos que optaron, y todavía optan, por arrastrarse ante el Goliat vencido que echar su suerte, como diría Martí, con el David valeroso e inteligente que de la mano de Fidel, del Che, de Raúl, de Camilo, de Haydé, de Vilma, de tantos y tantas revolucionarios y revolucionarias de Cuba, brindaron a la humanidad un ejemplo que, en este año que comienza brilla con renovada fuerza moral. Por eso esta breve recordación y este poco convencional mensaje de fin de año, y una invitación para ver este corto video de Fidel con sabias palabras dichas cuando, desintegrada la Unión Soviética, la isla rebelde quedó sola frente al imperio, y salió airosa de tan crucial desafío.
 Feliz Año Nuevo, ni un paso atrás en nuestras luchas  y … ¡Hasta la victoria siempre!