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domingo, 9 de julho de 2023

"INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER"

"IA não é inteligência, nem artificial"

Vídeo muito interessante e útil do neurocientista e cientista brasileiro Miguel Nicolelis no Programa 20 Minutos, do Opera Mundi, com apresentação do jornalista Breno Altman.

Nicolelis foi o primeiro cientista a receber no mesmo ano dois prêmios dos Institutos Nacionais de Saúde estadunidenses e o primeiro brasileiro a ter um artigo publicado na capa da revista Science.

Formado e pós-graduado em fisiologia pela Universidade de São Paulo, Nicolélis é Professor Emérito da Universidade Duke, onde lecionou por 27 anos, e lidera o projeto do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN).



00:00 Abertura 01:30 Miguel Nicolelis explica o que é Inteligência Artificial 01:45 Miguel Nicolelis: "IA não é inteligência, nem artificial" 07:00 Miguel Nicolelis: "Chat GPT faz plágio" 09:50 Quais as vantagens do uso de Inteligência Artificial? 12:00 O maior problema é eliminar o trabalho humano ou a concentração dos lucros das ferramentas? 22:10 Computação quântica pode eliminar as limitações atuais da IA? 23:30 Miguel Nicolelis: "Sou poster boy anti-Elon Musk" 24:20 Robôs não podem se tornar humanos. Humanos podem se tornar robôs? 25:40 Miguel Nicolelis: "Vivemos a robotização da mente" 36:20 Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens” e “Homo Deus”, escreveu artigo afirmando que “a inteligência artificial hackeou o sistema operacional da nossa civilização”. Essa afirmação faz sentido? 47:50 Miguel Nicolelis responde perguntas da audiência 50:15 O momento que estamos vivendo é parecido com o filme “Jogos de Guerra”, do início dos anos 1980, no qual um garoto tem a inglória tarefa de “ensinar” a IA que comanda a defesa norte-americana de que uma guerra nuclear total seria destrutiva para a própria IA? 52:30 Na educação, a questão da IA se coloca como um problema para além do plágio dos alunos no método agora antigo, o do copia e cola. Os professores devem temer a IA? Ou ela é, como foi o uso de planilhas e calculadoras, uma ferramenta que vai aprimorar a produção dos alunos, se bem usada? Ela não é uma espécie de “excel” para a escrita de textos? 56:00 Miguel Nicolelis: "Chat GPT não é Carlos Drummond, nem Manuel Bandeira" 56:35 Quais são os maiores riscos da inteligência artificial? 59:10 Miguel Nicolelis: "Inteligência artificial precisa ser regulada" 1:00:10 Qual deve ser a posição de esquerda sobre a inteligência artificial? 1:10:10 Qual seria o papel do Ministério da Ciência e Tecnologia no desenvolvimento e acompanhamento dessas tecnologias? 1:12:00 Miguel Nicolelis: "Ciência virou economia" 1:13:40 Miguel Nicolelis responde mais perguntas da audiência 1:14:00 Miguel Nicolelis: "Vivemos a ditadura do algoritmo" 1:15:30 Indicações culturais de Miguel Nicolelis


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Sobre "O CAPITAL PARA EDUCADORES OU APRENDER E ENSINAR COM GOSTO A TEORIA CIENTÍFICA DO VALOR"

Livro de Vitor Henrique Paro, lançamento 2022 da Editora Expressão Popular.

Segundo o "Manual de instruções" no início da obra, afirma-se que "este não foi escrito apenas para ser lido, mas para ser estudado e permanentemente consultado e manuseado, no processo de leitura e compreensão da teoria científi ca do valor, cuja obra magna é O capital, de Karl Marx". O livro se destina não somente "para educadores profissionais, mas para todos aqueles que queiram ter acesso a uma porta que leva ao conhecimento da realidade social de nosso tempo". Sobre o título da obra, o "Manual de instruções" informa: "É verdade que seu títuloprocura destacar educadores, pela importância sem limites do papel destes na formação dos mais jovens, ao propiciar a apropriação de conteúdos científi cos e de valores humanitários. Mas o título decorre também do fato de O capital ser uma obra autenticamente pedagógica". Prossegue esclarecendo: 

A educação, objeto da Pedagogia, é a apropriação da cultura, ou seja, de tudo aquilo que é produzido a partir da vontade e ação do homem. Educação é, assim, autêntica atualização histórico-cultural do indivíduo, objetivando sua formação humano-histórica. Por isso, uma obra como O capital, que leva a compreender e conscientizar os leitores acerca da realidade econômica, pode e deve ter realçado seu caráter pedagógico. A leitura deste livro é, pois, para todos aqueles que queiram atualizar seu caráter humano-histórico, tornando mais fácil a apropriação de uma das obras mais importantes da humanidade.

Para ler o "Manual de instruções" na íntegra, que faz a abertura do livro O capital para educadores ou aprender e ensinar com gosto a teoria científica do valor, clique AQUI.

Para adquirir o livro, visite o site da Expressão Popular.



Paro, Vitor Henrique. O capital para educadores ou aprender e ensinar com gosto a teoria científica do valor. 1. ed.-- São Paulo: Expressão Popular, 2022.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Da utopia à ciência

Por Ana Pato  


Se o movimento revolucionário muito deve a Marx e a Engels, é igualmente verdadeira a afirmação de que, com eles, a filosofia e a teoria do conhecimento científico se enriqueceram de forma indelével. E o interessante é que estas são duas faces da mesma moeda.




Há duzentos anos nascia Friedrich Engels. Estudou o mundo, elaborou teoria, interveio nele na prática. Foi um revolucionário.

Engels foi um dos fundadores do comunismo científico. Juntamente com Marx, muniu o proletariado da arma teórica para a transformação do mundo. Apesar de o nome Karl Marx ser popularmente mais conhecido, o facto é que a obra (e a vida) de Marx é inseparável da de Engels. Comentava Lénine que: «As lendas da Antiguidade contam exemplos comoventes de amizade. O proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada por dois sábios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos». A afinidade de ambos era completa. A obra é comum.

Mas o que faz o adjectivo científico à frente de comunismo?

Um dos grandes contributos de Engels e de Marx foi a elevação do sonho a projecto. As concepções utopistas que dominaram as ideias socialistas do século XIX, nota Engels, queriam descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem social. Mas pretendiam implantá-lo na sociedade vindo de fora, por meio da propaganda. Nessas concepções, caracteriza Engels, “o socialismo é a expressão da verdade, da razão e da justiça absolutas, e basta que seja descoberto para que, pela sua própria força, conquiste o mundo”. Contudo, esses novos sistemas sociais, constata, “estavam de antemão condenados à utopia; quanto mais elaborados nos seus pormenores, mais tinham de se perder na pura fantasmagoria”.

Mas, aquilo que inicialmente era um desejo, pleno de ideias de justiça e boas intenções, ganhava agora a força da possibilidade real. O ponto é este: “Para fazer do socialismo uma ciência ele tinha primeiro de ser colocado sobre um terreno real”. Para transformar o mundo, importava explicar o mundo através do próprio mundo. Isto é uma concepção materialista.

Contudo, o materialismo também se revelava limitado, como mostrou Engels. Fruto da sua época, este era um materialismo mecanicista – o facto de a ciência da natureza mais desenvolvida ser a mecânica conduziu à aplicação do seu padrão a domínios como a química ou a biologia, onde as leis mecânicas valem certamente, mas não são determinantes – e anti-dialéctico – isto é, incapaz de apreender a natureza e a história no seu desenvolvimento, enquanto processo. Era, pois, necessário elevar este materialismo a um materialismo dialéctico. E aplicá-lo aos domínios da natureza, da sociedade e do pensar. Marx e Engels abriram essa porta.

Se Marx desenvolveu sobretudo a teoria económica, Engels analisa e desenvolve questões fundamentais da filosofia e das ciências naturais e sociais. A Engels devemos a aplicação da dialéctica materialista ao conhecimento das leis da natureza. Se não é estranho dizer que o movimento revolucionário muito deve a Marx e a Engels, não é certamente mentira a afirmação de que, com eles, a filosofia e a teoria do conhecimento científico se enriqueceram de forma indelével. E o interessante é que estas são duas faces da mesma moeda.

Ora, foi precisamente porque partiram dessa posição materialista e dialéctica que puderam mostrar como o socialismo é o resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas e, consequentemente, fazer a crítica do socialismo utópico demonstrando que (usando as palavras de Lénine) “não são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado”. Foi Engels, aliás, quem assinalou, pela primeira vez, o papel de vanguarda do proletariado, a partir do estudo da situação da classe operária em Inglaterra. Como resume Lénine, “Engels foi o primeiro a declarar que o proletariado não é só uma classe que sofre, mas que a miserável situação económica em que se encontra empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar pela sua emancipação definitiva. E o proletariado em luta ajudar-se-á a si mesmo. O movimento político da classe operária levará, inevitavelmente, os operários à consciência de que não há para eles outra saída senão o socialismo. Por seu lado, o socialismo só será uma força quando se tornar o objectivo da luta política da classe operária”.

Sucede que, para descobrir as vias reais para o socialismo, era necessário estudar a sociedade – naquilo que ela é – e descobrir as suas leis de desenvolvimento – prevendo, nos traços gerais, aquilo que ela devirá – para que, identificando as contradições e as forças motrizes, estas últimas melhor saibam conduzir a luta em que estão inseridas, quer queiram, quer não. Recorrendo a uma ideia hegeliana, trata-se de conhecer a necessidade. A liberdade, escreve Engels, “não reside na independência sonhada relativamente às leis da Natureza, mas no conhecimento dessas leis, e na possibilidade, com ele dada, de planificadamente as fazer operar para determinadas finalidades. Isto vale tanto por referência às leis da Natureza exterior, como àquelas que regulam a existência corpórea e espiritual do próprio ser humano: duas classes de leis que nós, no máximo, podemos separar, uma da outra, na representação, mas não na realidade [efectiva]”. Isto é, pois, válido quer para o domínio da natureza, quer para o domínio da sociedade.

Ora, uma penetração científica nos domínios do ser natural ou social requer uma transposição do nível fenoménico da realidade, bem distinta de uma abordagem positivista ou empirista, marcada pelo mero registo e ordenação do que aparece imediata e positivamente. Pois, como diz Marx, a ciência “seria supérflua se a forma fenoménica e a essência das coisas coincidissem imediatamente”. A questão está em captar a “conexão interna” dos fenómenos, o seu “vínculo interior”. Trata-se de captar o processo (no qual o fenómeno corresponde apenas a uma etapa) cujo movimento se determina na resolução de contradições. Como diz Engels: “uma exposição exacta do sistema do mundo, do desenvolvimento dele e do [desenvolvimento] da humanidade – bem como da imagem especular deste desenvolvimento nas cabeças dos seres humanos –, apenas pode, portanto, ser posta de pé por um caminho dialéctico”, o que significa atender às “universais acções recíprocas”. A ciência é tributária de uma filosofia materialista dialéctica.

Assim, tomando o ser social, uma correcta acção política dirigida à transformação revolucionária não pode ser correctamente dirigida se não partir de uma abordagem materialista e dialéctica com a qual se compreenda e domine os processos objectivos nas quais as diferentes forças estão inseridas. Aqui reside a unidade de teoria e prática. Isto é muito diferente de navegar à vista, tomando apenas o imediato. Também é muito diferente de substituir possibilidades objectivas por desejos e utopias bem intencionadas. Escusado será dizer que uma teoria que parta de tal abordagem necessariamente se actualiza e transforma com o próprio mundo em transformação e o com o desenvolvimento da ciência da época em que se insere. Por aqui se vê como um movimento que se queira revolucionário, de facto, reclama uma abordagem científica. Trabalhosa é certo. Como diz Marx: “Não há estrada real para a ciência e só têm possibilidade de chegar aos seus cumes luminosos aqueles que não temem fatigar-se a escalar as suas veredas escarpadas”.


Fonte: https://vozoperario.pt/jornal/2020/11/28/da-utopia-a-ciencia/


FONTE: ODiario.info


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Disponibilizado online o mapa interativo que permite viajar no tempo e ver "sua cidade" há 600 milhões de anos

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53979085


Um mapa interativo feito por paleontólogos permite ver o desenvolvimento do planeta ao longo de diversas eras geológicas. Há 600 milhões de anos, todos os continentes do planeta formavam uma massa única de terra, que depois começou a se separar. Com o mapa interativo é possível colocar o nome da cidade onde você na barra de busca e acompanhar o desenvolvimento geológico da região onde hoje fica a cidade ao longo de milhares e milhares de anos, conforme os continentes foram se separando.

Uma barra de opções permite que você veja como era a Terra em diversos momentos do seu desenvolvimento geológico a partir de 750 milhões de anos atrás até os dias de hoje. E, ao colocar o nome de sua cidade, você consegue ver o ponto onde ela se encontrava ao longo dessas enormes mudanças do planeta.


Clique aqui para ir ao site (em inglês):

https://dinosaurpictures.org/ancient-earth#600


FONTE: BBC Brasil; 31/08

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Tempos de pandemia: “Novos-velhos” projetos de política pública para a educação da classe trabalhadora

Colóquio online da Escola Politécnica em Saúde Joaquim Venânio (EPSJV/Fiocruz)


Os debates propostos no Tempos de pandemia: “Novos-velhos” projetos de política pública para a educação da classe trabalhadora foram realizados nos dias 26 de junho, 1º e 8 de julho de 2020. 

As palestras foram transmitidas ao vivo no canal da Escola Politécnica em Saúde Joaquim Venânio (EPSJV/Fiocruz) no youtube. O evento faz parte das celebrações de 35 anos da Escola. 


24 de junho

Educação em tempos de pandemia: disputas na educação da classe trabalhadora no Brasil

Convidados:
Marcela Pronko (EPSJV/Fiocruz)
Sonia Maria Rummert (UFF)

Moderação:
Rafael de Lima Bilio (EPSJV/Fiocruz)



1º de julho

A intensificação e a desintelectualização do trabalho docente no contexto da pandemia de Covid-19

Convidados:
Roberto Leher (UFRJ)
Rodrigo Lamosa (UFRJ)

Moderação:
Ingrid D’avilla (EPSJV/Fiocruz)



8 de julho 

Políticas para a educação e a saúde no pós-pandemia: é possível pensar o amanhã?

Convidados:
Elaine Bhering (Uerj)
André Dantas (EPSJV/Fiocruz)

Moderação:
Letícia Batista (EPSJV/Fiocruz)


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Más de 500 libros del Fondo de Cultura Económica para descargar

Compendio con más de 500 libros (PDF y EPUB) con varias colecciones del Fondo de Cultura Económica de su acervo.



El Fondo de Cultura Económica (FCE) es un grupo editorial en lengua española, con se en México, presente en en la mayoría de los países hispanohablantes como Argentina, Chile, Colombia, Ecuador, España, Estados Unidos, Guatemala y Perú.

Entre sus distintas colecciones se encuentran las agrupan obras fundamentales de diversas áreas del conocimiento, algunas como Psicología, Psiquiatría y Psicoanálisis, colección que difunde las teorías más influyentes en el campo de la conducta y la personalidad; Poesía, la cual reúne prácticamente todos los poemarios que llevan el sello del Fondo; Lengua y Estudios Literarios, que contiene obras que abordan las diversas facetas de la literatura y el lenguaje y las colecciones de Historia, Filosofía, Economía, Antropología por mencionar algunas.

Link para descargar: 

sábado, 28 de setembro de 2019

Cientistas descobrem continente perdido debaixo da Europa

Representação gráfica criada para o estudo sobre o continente Grande Adria. Imagem: Divulgação


Colaboração para o UOL 28/09/2019

RESUMO DA NOTÍCIA
  • Análise geológica aponta enorme território submerso
  • Estudo levou 10 anos para ser concluído
  • Continente se separou há cerca de 240 milhões de anos

Pesquisadores encontraram um continente escondido enterrado ao sul da Europa. É a Grande Adria, um território que já teve o tamanho da Groenlândia. 

O achado geográfico foi publicado neste mês na revista científica Gondwana Research e é resultado de mais de dez anos de pesquisa.

"Esqueçam Atlântida", disse Douwe van Hinsbergen, um dos principais autores do estudo, professor de placas tectônicas globais e paleontologia na Universidade de Utrecht, na Holanda, à CNN. "Sem perceber, muitos turistas passaram as suas férias no continente perdido de Adria", brincou. 

"A maioria das cadeias montanhosas que investigamos teve origem num único continente, que se separou do norte de África há mais de 200 milhões de anos", contou Van Hinsbergen. "A única parte que restou deste continente foi uma faixa que vai desde Turim, via mar Adriático, até a ponta da bota que forma a Itália." 

Esta região é chamada pelos geólogos de Adria. Por isso, os pesquisadores deste estudo chamam o continente perdido de Grande Adria.

Ele se separou da chamada Gondwana —o supercontinente que incluía África, América do Sul, Austrália, Antártida, parte da Índia e da Península Arábica— e, há cerca de 240 milhões de anos, começou a se mover para o norte.

No entanto, a Grande Adria acabou se chocando com a Europa, há cerca de 100 milhões de anos, se quebrou e afundou.

Todo esse processo foi lento. A colisão se deu em uma velocidade de 3 a 4 quilômetros por ano, o suficiente para quebrar uma placa tectônica de mais de 100 quilômetros de espessura e mandá-la para debaixo do manto terrestre.

Durante a colisão, uma parte das rochas da Grande Adria se lascou e permaneceu na superfície. É exatamente isso que temos de resquícios do continente perdido. São rochas e calcário que foram achados nas cordilheiras do sul da Europa.

Vista das montanhas Taurus, na Turquia. Imagem: Zeynel Cebec/Wikimedia.


Mais de 30 países possuem vestígios da Grande Adria, inclusive locais longínquos como o Irã. Por isso, o processo de juntar toda a informação sobre o continente foi trabalhoso e demorado.

Os pesquisadores levaram mais de dez anos para coletar informação sobre a idade geológica das rochas que presumiam ser da Grande Adria. Eles também recolheram dados sobre a direção de seus campos magnéticos, para quando e onde se formaram.

Com a ajuda de um software, os cientistas fizeram uma viagem no tempo para quando os continentes era muito diferentes de hoje em dia. Eles descobriram uma verdadeira "confusão geológica".

A zona do Mediterrâneo se difere daquilo que os pesquisadores tinham como consenso sobre placas tectônicas. Elas não deveriam se deformar quando se movem em áreas com grandes falhas, mas é exatamente o que aconteceu com a Grande Adria.

"Aqui tudo é curvado, partido ou empilhado", disse Van Hinsbergen para a CNN. "Comparado a isso, os Himalaias, por exemplo, representam um sistema bastante simples. Lá é possível seguir várias falhas por mais de 2.000 quilômetros."

Partes do continente perdido podem ser vistas nas montanhas Taurus, na Turquia. 

"Nossa pesquisa forneceu um grande número de informações, também sobre vulcanismo e terremotos, que já estamos aplicando em outros lugares. Você pode até prever, em certa medida, como será uma determinada área no futuro distante", afirmou Van Hinsbergen.


quarta-feira, 25 de julho de 2018

Descoberta de ferramentas antigas pode mudar história da evolução do homem.

Por Carl Zimmer 
The New York Times


Achado sugere que espécies de hominídeos deixaram a África muito antes do que se acreditava

Segundo relatos científicos recentes, as ferramentas de pedra mais antigas fora da África foram descobertas no oeste da China. Feitas por antigos membros da linhagem humana, os chamados hominídeos, estima-se que tenham cerca de 2,1 milhões de anos.

O achado pode adicionar um novo capítulo à história da evolução hominídea, sugerindo que algumas dessas espécies deixaram a África muito antes do que se acreditava, conseguindo viajar quase 13 mil quilômetros a leste de seu local de origem.

A idade das ferramentas chinesas sugere que os hominídeos que as fizeram não eram altos e não tinham o cérebro grande. Em vez disso, podem ter sido pequenos macacos bípedes, com cérebro do tamanho do de um chimpanzé.

"As implicações disso são enormes. Temos que reavaliar nossa compreensão da pré-história humana na Eurásia", disse Michael Petraglia, paleoantropólogo do Instituto Max Planck de Ciência da História Humana, que não estava envolvido no novo estudo.

A linhagem humana surgiu na África; nossos ancestrais modernos se separaram dos chimpanzés há mais de 7 milhões de anos, mas há tempos os cientistas sabem que a Ásia tem uma longa história humana.

Em 1891, o explorador holandês Eugene Dubois descobriu um crânio humanoide na Indonésia, cuja idade foi avaliada em 500 mil anos. Mais tarde, os paleoantropólogos chamaram o crânio de Dubois de Homo erectus, uma espécie encontrada posteriormente em muitos outros locais em toda a Ásia; alguns espécimes chegavam a ter 1,6 milhão de anos.

Os fósseis asiáticos mostraram que esses hominídeos tinham a altura de seres humanos vivos e cérebros razoavelmente grandes. O cérebro dos chimpanzés tem um terço do tamanho do nosso, mas o do Homo erectus tinha cerca de dois terços.

Na África, os paleoantropólogos descobriam um registro fóssil ainda mais distante de hominídeos; o mais antigo data de mais de 6 milhões de anos.

Os primeiros hominídeos talvez andassem sobre duas pernas, mas eram baixos e tinham o cérebro do tamanho do dos chimpanzés. Há 1,9 milhão de anos, o Homo erectus, ou algum parente próximo, caminhava pela África Oriental.

Muitos paleoantropólogos chegaram a supor que o Homo erectus foi o primeiro migrante a deixar a África, mas dúvidas começaram a surgir na década de 1990, quando ossos de hominídeos mais antigos foram descobertos em outras partes da Ásia.



Em Dmanisi, Geórgia, os cientistas descobriram fósseis notavelmente antigos, alguns com até 1,7 milhão de anos. Ferramentas de pedra encontradas lá pareciam ser ainda mais velhas: 1,8 milhão de anos.

Os Dmanisi hominins não se pareciam muito com o Homo erectus: eram baixos e tinham cérebros minúsculos.

Na China, os pesquisadores também encontraram evidências da ocupação hominídea precoce. Em 1964, desenterraram um crânio de Homo erectus na região ocidental chamada Lantian, e cujas estimativas iniciais determinaram sua idade: 1,15 milhão de anos.

Mas, em 2001, Zhaoyu Zhu, geólogo da Academia Chinesa de Ciências em Guangzhou, e seus colegas iniciaram uma nova análise do local do fóssil, determinando que o crânio de Lantian era de fato muito mais velho: 1,6 milhão de anos.

Nas pesquisas na região em torno do fóssil, Zhu e seu grupo também se depararam com o que pareciam ser antigas ferramentas de pedra enterradas a 200 metros de profundidade, ao lado de uma ravina.

Os pesquisadores decidiram fazer uma busca minuciosa no local, escalando a encosta íngreme para procurar mais artefatos. "O sobe e desce lá às vezes dava medo", disse Robin Dennell, paleoantropólogo na Universidade de Exeter que se juntou à equipe de Zhu em 2010.

Mas o risco valeu a pena: os pesquisadores encontraram mais de cem ferramentas de pedra enterradas em 17 camadas geológicas da encosta.

O trabalho foi extremamente lento porque os pesquisadores queriam ter certeza de que escavavam ferramentas feitas por hominídeos, e que eram realmente antigas.

"Queríamos que não houvesse sombra de dúvida", disse Dennell.

No novo estudo, ele e seus colegas argumentam que as pedras não poderiam ter sido naturalmente moldadas. As rochas circundantes se formaram a partir do solo fofo, que não contém pedras do tamanho e da forma das ferramentas.

Em vez disso, argumentam que os hominídeos de Lantian devem ter viajado longas distâncias, buscando córregos de montanhas para encontrar as pedras certas para fazer ferramentas. Eles carregavam as ferramentas para usá-las na coleta de alimentos, talvez utilizando as mais afiadas para retirar a carne das carcaças.

Para determinar a idade das ferramentas, os pesquisadores se aproveitaram do campo magnético do planeta.

De vez em quando ele se inverte, transformando o norte em sul. Os minerais magnéticos no solo e no oceano se alinham com o campo, ou seja, mesmo quando estão presos em rochas, apontam na direção certa.

Os geofísicos determinaram com precisão os momentos dessas alterações, que ocorreram ao mesmo tempo em todo o planeta, pois é uma maneira útil de datar o material encontrado em camadas de rocha.

As camadas da encosta se formaram ao longo de centenas de milhares de anos, e as ferramentas mais antigas foram cuidadosamente prensadas entre as rochas formadas entre duas alterações do campo magnético – uma há 2,1 milhões de anos e a segunda há cerca de 1,8 milhão.

Dennell e seus colegas estimam que as ferramentas estejam próximas do limite dessa janela: 2,1 milhões de anos. Isso as transformaria na evidência mais antiga de hominídeos já encontrada fora da África.

E faz com que seja improvável que o primeiro hominídeo a deixar a África tenha sido o Homo erectus. Dennell especula que o fenômeno tenha ocorrido com um ramo muito antigo da árvore humana.

O que originou essa migração? Talvez a necessidade de descobrir como fazer ferramentas afiadas de pedra.

"De repente você tem um primata que conseguia retirar a carne de uma carcaça, e isso abriu um novo mundo para eles. Essa tecnologia simples foi suficiente para que saíssem da África e atravessassem a Ásia", disse Dennell.

Rick Potts, chefe do Programa de Origens Humanas do Instituto Smithsonian, achou o novo estudo convincente, oferecendo fortes evidências de que as pedras eram de fato ferramentas e que eram extremamente antigas. "Acho que eles conseguiram", afirmou.

Porém, Potts não acredita que os hominídeos de Lantian fossem baixos e com um cérebro pequeno, sugerindo que haja fósseis de Homo erectus com mais de 2,1 milhões de anos esperando para serem descobertos na África.

Mas John J. Shea, paleoantropólogo na Universidade Stony Brook, ainda não se convenceu de que alguém tenha trabalhado as pedras. "No mínimo, Dennell e seus colegas precisam fazer uma comparação estatística entre essas supostas ferramentas e rochas naturalmente danificadas", argumentou.

Ele prefere não depender apenas das ferramentas para ter evidências de que hominídeos chegaram à Ásia há mais de 2 milhões de anos.

"Basicamente, a ideia é a seguinte: se não há fósseis, não há hominídeos", disse.

Como os paleoantropólogos já encontraram um crânio de 1,6 milhão de anos na província de Lantian, Dennell disse que era possível que um fóssil muito mais antigo seja encontrado na área onde as ferramentas foram achadas.

"Sabemos que vai levar algum tempo, mas vale a pena procurar", disse ele.


sábado, 26 de maio de 2018

Você sabe qual foi a primeira foto da história?

Atualmente, é possível clicar centenas de imagens por minuto com um celular, mas as primeiras fotografias demoravam aproximadamente oito horas para serem concluídas e eram "impressas" numa placa metálica
Por Thiago L

A primeira foto da história foi capturada da janela do 2º andar da casa de Niépce - Foto: Joseph Nicéphore Niépce

A imagem acima não é em full HD e sua resolução é muito baixa para os padrões atuais, mas ela é dona de uma marca única. Clicado em 1826, o retrato é considerado a primeira fotografia da história da humanidade e marcou o início de uma nova Era.

A imagem foi eternizada pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, em Borgonha, na França.

O primitivo processo de captação da imagem demorou aproximadamente oito horas e registrou o quintal de sua casa.

A foto foi obtida através de uma câmera escura, fabricada pelo ótico parisiense Chevalier, e "impressa" numa placa de estanho com betume da Judeia. Ao contrário dos dias atuais, que as imagens são reveladas em papel, nos primórdios da fotografia eram usadas placas metálicas.

Apelidada de "View from the Window at Le Gras" (Vista da janela em Le Gras, em português), a imagem foi capturada da janela de um quarto do segundo andar da casa de campo da família de Niépce. Ele posicionou sua câmera escura no parapeito da janela e aguardou por horas até a imagem fixar na placa. Niépce eternizou o jardim da residência e algumas casas vizinhas. O processo ficou conhecido como "heliografia".

Primeiras tentativas

Niépce precisou de alguns anos de trabalho até conseguir a primeira fotografia com duração infinita. Seus primeiros experimentos falharam porquê ele não conseguia uma técnica que preservasse a imagem no papel, que era mergulhado numa solução de cloreto de prata. Após alguns minutos, a foto gravada começava a desaparecer até ficar totalmente escura. Dois anos antes, em 1824, ele havia registrado a primeira fotografia da história, mas não conseguiu fixá-la permanentemente. 

A reconstituição digital mostra em cores e com nitidez o cenário que foi eternizado na fotografia de Niépce - Foto: Reprodução



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Visto como vilão, é um guardião: macaco não transmite febre amarela e matá-lo põe humanos em risco

'Se matarem macacos, mosquitos vão atrás de sangue humano': como massacre de primatas é tiro no pé contra febre amarela


Nathalia Passarinho  
Da BBC Brasil em Londres

'O macaco é quase um mártir (...) Eles nos indicam onde há infecção', diz pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz


Fotos de corpos de macacos têm se espalhado pela internet desde o aumento, nos últimos meses, dos casos de febre amarela em regiões dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal. E muitos desses animais não morreram por causa do vírus: foram executados com pedras, pauladas ou envenenamento. Além de cruel, a medida tem efeito contrário ao imaginado por muitas pessoas: prejudica o combate à doença.

Classificados por pesquisadores ouvidos pela BBC Brasil como "sentinelas" e "mártires", os macacos são o alvo preferido dos mosquitos silvestres que transmitem a febre amarela, que costumam voar na altura da copa das árvores.

Muitos primatas acabam desenvolvendo a doença e morrem. Ao verificar um volume expressivo de corpos deles em determinada região, autoridades sanitárias e pesquisadores conseguem identificar a presença da febre amarela, traçar o possível trajeto do vírus - conforme os corredores da floresta existente - e planejar ações de imunização das pessoas. 

A doença tem tido um impacto tão expressivo na população de macacos da Mata Atlântica que existe o temor, por exemplo, de que todos os bugios desapareçam das florestas do Rio de Janeiro.

Para piorar, os poucos macacos que sobreviveram à febre amarela ou escaparam do vírus estão sendo vítimas da desinformação. Muitas pessoas matam esses animais por acharem que eles são responsáveis pela propagação da doença.

o contrário de evitar a propagação da febre amarela, matar macacos pode expor mais os seres humanos à doença


Só este ano, dos 144 macacos mortos recolhidos pela Vigilância Sanitária e Controle de Zoonoses do Rio de Janeiro para testes de febre amarela, 69% foram executados - apresentavam várias fraturas ou veneno no organismo.

Em todo o ano passado, dos 602 animais mortos, 42% foram assassinados, segundo dados do órgão.
Nem o mico-leão-dourado escapou. Corpos de animais dessa espécie, ameaçada de extinção, também foram localizados com sinais de execução.

Morte de macacos traz risco para humanos

Mas o que os "caçadores" de macacos não sabem é que, ao contrário de evitar a propagação da febre amarela, matar os bichos expõe os seres humanos a riscos maiores de contrair esse mal grave, que pode matar.

A febre amarela é uma doença infecciosa que é transmitida, no Brasil, principalmente por mosquitos silvestres dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que moram na copa das árvores e têm predileção pelo sangue de primatas.

O Aedes aegypti, que vive em áreas urbanas, também é capaz de transmitir febre amarela, mas até agora não houve contaminação e transmissão por essa espécie de mosquito - desde 1942 que não há epidemia urbana de febre amarela. As pessoas infectadas até o momento teriam contraído a doença em alguma região com mata.

Febre amarela é transmitida no Brasil principalmente por mosquitos silvestres dos gêneros Haemagogus e Sabethes


Segundo o pesquisador Ricardo Lourenço, do Instituto Oswaldo Cruz, tanto o homem quanto o macaco, quando picados, só carregam o vírus da febre amarela em quantidades suficientes para infectar outros mosquitos por cerca de três dias.

Depois disso, o organismo passa a produzir anticorpos e a concentração do vírus diminui. Em cerca de dez dias, macacos e seres humanos terão morrido ou se curado da doença, ficando imunes a ela.

Já o mosquito permanece com as moléculas da febre amarela para sempre. Eles podem até passar o vírus para os ovos e, consequentemente, para os filhotes que nascerem.

Até mico-leão-dourado, espécie ameaçada de extinção no Brasil, tem sido alvo de violência por causa do pânico e desinformação sobre a febre amarela


Se muitos macacos começarem a morrer, a tendência é aumentar a chance de contaminação de humanos. Sem ter primatas para picar na copa das árvores, os mosquitos buscarão alimento em outras localidades - e o homem vira a próxima opção como fonte de sangue.

"Mesmo que acabem todos os macacos de uma aérea, durante algumas gerações o vírus vai ficar ali. E o mosquito vai procurar o ser humano para se alimentar", diz Lourenço, autor de pesquisas sobre mosquitos transmissores.

O médico epidemiologista Eduardo Massad, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da britânica London School of Tropical Diseases, reforça esse argumento.

"Suponha que desaparecessem todos os macacos da serra da Cantareira. O mosquito picaria pessoas. Se você diminui a população de macacos, mais gente será picada", disse à BBC Brasil.

Dos 144 macacos mortos recolhidos pela Vigilância Sanitária e Controle de Zoonoses do Rio de Janeiro, cerca de 100 foram executados


'Sentinelas' da doença

Além de servirem de isca para mosquitos, evitando com isso que mais humanos sejam picados, os macacos alertam para o "trajeto" do vírus pelo país.

Após campanhas de erradicação do Aedes aegypti, o Brasil se livrou da febre amarela urbana na década de 1942 - a doença acabou se concentrando na região amazônica. Nos anos 2000, porém, o vírus começou a "descer" para o leste, alcançado regiões de mata de Minas Gerais, Espírito Santo e, mais recentemente, São Paulo e Rio de Janeiro.

Sem ter macaco para picar na copa das árvores, os mosquitos buscarão alimento nos humanos


O pesquisador Aloisio Falqueto, professor do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) acredita que o vírus migrou para a Mata Atlântica por meio do ser humano.

"A minha teoria é o elemento urbano. Muitas pessoas migram para a Amazônia sem tomar vacina. Uma pessoa pegou o vírus na Amazônia e entrou na Mata Atlântica depois, na altura de Montes Claros (MG), e aqui é um barril de pólvora, pela presença de macacos sem anticorpos e seres humanos. A força de transmissão é muito maior", diz.

Já Ricardo Lourenço acredita que os mosquitos acabaram migrando naturalmente para o Sudeste, por corredores de mata e rios. Conforme foram picando macacos e esses animais morreram, teriam descido cada vez mais para o sul do país em busca de alimento.

Além de servirem de isca para mosquitos, evitando com isso que mais humanos sejam picados, os macacos alertam para o 'trajeto' do vírus pelo país


"Mosquitos se dispersam por dois motivos: para achar lugar para colocar ovo e para achar fonte de alimentação sanguínea. Se começa a morrer macaco, ele começa a buscar sangue em outro lugar", diz o pesquisador, que explica que o mosquito pode voar 3 km por dia.

A única forma de perceber a chegada de mosquitos infectados é pela morte dos macacos. Desde o início dos anos 2000 que pesquisadores alertam o governo federal e governos estaduais para a necessidade de ampliar ações de imunização em cidades com mata onde foram localizados animais mortos.

"Os macacos nos avisam da iminência do vírus. Quando começam a morrer, sabemos da existência e intensidade do vírus naquela região. Podemos calcular por onde ele vai se alastrar e quem devemos imunizar", afirma Aloísio Falqueto.

"A morte do macaco é um aviso de que devemos imunizar as populações nas áreas de risco", explica.
Ricardo Lourenço compara o animal a um "soldado" que atua como vigia da chegada da febre amarela. "O macaco é quase um mártir. É uma vítima e um instrumento de vigilância e de alerta. É uma sentinela do quartel. Eles nos indicam onde há infecção."


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Relatório mostra que universidade particular no Brasil não produz conhecimento

By Carta Campinas / in Economia e Política, Manchete 



O relatório Research in Brazil, disponibilizado pela Clarivate Analytics à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e divulgado no último dia 17 de janeiro, mostra que as universidades particulares não produzem absolutamente nada de conhecimento relevante no Brasil.

A produção científica no país é dependente exclusivamente das universidades públicas. Recente relatório do Banco Mundial não levou em conta essa produção. A destruição das universidades públicas no Brasil, como está acontecendo com a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), pode ser a destruição de todo o conhecimento científico que o país produz.

O relatório traz também um ranking das universidades públicas que mais produzem conhecimento científico relevante. A Unicamp ficou em terceiro lugar, atrás apenas da USP e da Unesp. A UERJ, por sinal, é a décima universidade que mais produz conhecimento científico. (Veja quadro.)

Um outro fator relevante é que os grandes empresários brasileiros não investem em pesquisa. Nas parcerias de pesquisa com empresas, a única grande empresa que investe de forma relevante em desenvolvimento tecnológico no Brasil é uma estatal, a Petrobras. Exceto o setor farmacêutico, que é o único setor apontado com investimento em ciência e tecnologia, a iniciativa privada no Brasil não produz conhecimento.

O documento traz o desempenho da pesquisa brasileira em um contexto global entre os anos 2011 e 2016. Os dados foram obtidos do InCites, plataforma baseada nos documentos (artigos, trabalhos de eventos, livros, patentes, sites e estruturas químicas, compostos e reações) indexados na base de dados multidisciplinar Web of Science – editada pela Clarivate Analytics (anteriormente produzida pela Thomson Reuters).

O relatório mostra que as as universidades públicas produzem artigos científicos altamente citados e alcançou boas taxas entre 1% dos papers mais citados do mundo.  Os critérios analisados foram: a quantidade de documentos produzidos, o impacto da citação, artigos no top 1% e 10% dos mais citados do mundo, colaboração com a indústria e colaborações internacionais.

O número de citações que uma publicação de pesquisa recebe reflete o impacto que teve em pesquisas posteriores. As publicações científicas citam documentos anteriores para validar uma contribuição intelectual. Portanto, pode-se dizer que uma publicação (ou uma coleção de publicações) com uma contagem de citações mais elevada teve um impacto maior no campo de conhecimento ao qual se relacionou. (Carta Campinas com informações de divulgação)


domingo, 5 de novembro de 2017

Eugenia: como movimento para criar seres humanos "melhores" nos EUA influenciou Hitler

Milhares de pessoas foram esterilizadas em programa promovido por cientistas americanos, uma história que caiu no esquecimento. 

Peter Lang-Stanton e Steven Jackson
Da BBC
23 abril 2017

A logomarca do programa de eugenia dizia: 'Eugenia é a direção própria da evolução humana. Como uma árvore, retira seus materiais de muitas fontes e os organiza em uma unidade harmoniosa'

A uma hora de Nova York, no vilarejo de Cold Spring Harbour, há um laboratório de investigação genética que foi fundado em 1890, pouco depois de Charles Darwin publicar a teoria de evolução e seleção natural.

O guia do local explica que, "entre o final do século 19 e o começo do século 20, havia uma tendência de reprodução seletiva. Se um humano era considerado indigno de transmitir sua hereditariedade a gerações futuras, era esterilizado contra sua vontade".

"Felizmente, essa prática já não é aceitável, mas nós somos muito honestos sobre essa parte da nossa história. Falando sobre os erros do passado se pode aprender a adotar práticas melhores no futuro", afirma. Essa é a história da eugenia nos Estados Unidos.

"Muita gente associa a palavra 'eugenia' aos nazistas e ao Holocausto. Mas isso está errado. Na verdade, Hitler aprendeu com o que os EUA haviam feito", afirma Daniel Kevles, historiador da ciência da Universidade de Yale, aposentado recentemente.

Segundo Kevles, para entender a eugenia, é preciso voltar à Inglaterra vitoriana, em meados de 1800. "Tudo começou com as ideias de Francis Galton, cientista que era primo de Darwin. Ele era antropólogo, geógrafo, explorador, inventor, meteorologista, estatístico, psicólogo. Mas o que lhe fascinava acima de tudo era a genialidade e a herança biológica."

Galton acreditava que, se conseguíssemos encontrar a maneira de quantificar essa hereditariedade, poderíamos controlá-la e produzir humanos melhores, como fazemos com o gado e com as plantas. A esse novo programa de reprodução seletiva que permitiria tomar as rédeas da nossa evolução, se deu o nome de eugenia.

"Não era irracional que biólogos como Galton pensassem que, se as ciências físicas estavam mudando o mundo tão dramaticamente - as ferrovias, a luz elétrica, o telefone -, as ciências da vida poderiam fazer o mesmo."

Contexto americano

Local onde se realizavam esterilizações agora se chama Centro de Treinamento Central da Virgínia
Até a virada do século, a ideia de Galton estava se disseminando pelo mundo. Começou a enraizar-se nos Estados Unidos em parte porque nessa época as pessoas estavam preocupadas com o que estava acontecendo com suas cidades. Seus apoiadores tinham uma tendência de ser "da classe média, brancos e bem educados, que se sentiam perturbadas com as favelas industriais".

Desde a Revolução Industrial, a partir de meados do século 19, os camponeses começaram a ir para as cidades em busca de trabalho nas fábricas. Foi uma das primeiras vezes na história que os Estados Unidos tiveram de enfrentar problemas sociais urbanos.

"Crime, prostituição, alcoolismo, pobreza. Além dos camponeses, os imigrantes também estavam chegando em grandes ondas vindos do sul e do leste da Europa. Houve uma confluência de fatores nos primeiros 15 anos do século 20 nos Estados Unidos que criou um público para a eugenia", explica o historiador.

A teoria deu àqueles que estavam aterrorizados com o que viam nas ruas uma estrutura biológica para a compreensão da situação: tudo se resumia a problemas hereditários. No entanto, não era precisamente a isso que Galton se referia: para o vitoriano, a eugenia tratava de fomentar a reprodução de gênios.

Foi nos Estados Unidos que a eugenia ganhou contornos mais negativos: o controle de quem se reproduziria e quem não teria esse direito. "Isso acontecia porque os Estados Unidos pareciam estar se 'degenerando' - essa era a palavra usada na época", disse Kevles.

"A eugenia é normalmente tratada como uma pseudociência. Mas, no meu ponto de vista, ciência é o que os cientistas fazem. E nessa época, muitos cientistas estavam interessados na eugenia."

Mãos à obra

Uma revista do começo do século 20 exibe a manchete: 'Devemos reproduzir ou esterilizar os defeituosos?'
A eugenia não interessou somente a cientistas maus, mas também àqueles que queriam saber como herdávamos certas características. Em 1910, foi criado um laboratório perto da cidade de Nova York, citado no começo dessa reportagem, que se chamava "Oficina de Registro de Eugenia".

Lá, as informações eram coletadas, processadas e arquivadas. Eles estavam interessados em todo tipo de característica: desde a cor dos cabelos e olhos até o daltonismo e a epilepsia, além de curiosidades como "o amor pelo mar", algo que chamavam de "ciganismo", "genes de guerreiros", até outros menos exóticos, como a promiscuidade, controle moral, "vagabundagem" e sobriedade.

Apesar disso, a eugenia se converteu em uma palavra familiar nos Estados Unidos: aparecia nos jornais, no rádio, nos filmes. Nas feiras agrícolas, começaram a aparecer alguns "concursos de famílias mais aptas" - eram como os de gado, só que as famílias se submetiam a provas médicas, psicológicas e de inteligência, além de entregarem um histórico familiar. Os ganhadores recebiam uma medalha com a seguinte frase bíblica: "Tenho uma bela herança" (Salmo 16:6).

Além desses, também havia concursos nas universidades, e os jovens mais privilegiados eram incentivados sobre o "dever de se reproduzir". "Todo mundo era eugenista, porque não sabiam dos crimes que seriam cometidos por causa dessa palavra", afirmou Kevles.

'Três gerações de imbecis são suficientes'

Em meados de 1920, esterilizar pessoas era legal em alguns Estados americanos. Mas ainda não havia uma lei federal para a esterilização compulsiva nos EUA. Muitas das leis estaduais foram levadas às cortes e anuladas, porque os juízes não aprovavam esterilização sem consentimento.

Mas em 1927 foi emitida uma decisão sobre a constitucionalidade da esterilização por eugenia. O caso Bucks versus Bell ficou famoso na Suprema Corte e representou um ponto de inflexão na história da eugenia nos Estados Unidos.

Carrie Buck era uma jovem interna na Colônia Estatal de Virginia para Epiléticos e Débeis Mentais. O superintendente era John Bell, que queria impedir que ela tivesse filhos. O caso chegou à Suprema Corte, e os juízes, depois de aceitarem que tanto ela como a mãe era "débeis mentais e promíscuas", votaram 8 a favor e 1 contra por sua esterelização.

Além de determinarem que isso era constitucional, os juízes ainda afirmaram que seria "irresponsável" não fazê-lo. O veredito escrito pelo juiz Oliver Wendell Holmes Junior em 2 de maio de 1927 dizia:

"É melhor para todo mundo se, em vez de esperar para executar os descendentes degenerados por algum crime ou deixar que morram de fome por causa da imbecilidade, a sociedade possa prevenir aqueles que são manifestadamente inaptos de se reproduzirem. O princípio que sustenta a vacinação obrigatória é suficientemente amplo para cobrir o corte das trompas de Falópio. (...) Três gerações de imbecis são suficientes."

Se a eugenia era popular antes desse veredito, a partir desse momento, era lei. "Nos anos 30 a esterilização disparou", lembra Kevles. Os surdos, cegos, epiléticos, "débeis mentais" e até pobres eram esterilizados, já que a pobreza tinha seu próprio diagnóstico médico: o pauperismo. Qualquer pessoa considerada um obstáculo para a sociedade estava em risco.

Cerca de 60 a 70 mil indivíduos foram esterilizados nos Estados Unidos. E o mais surpreendente é que, em alguns Estados, como a Virginia, a esterilização continuou até 1979.

Esquecimento

Alguns dos participantes do concurso "família mais apta" no estado do Kansas, nos anos 1920

Quando o advogado Mark Bold, da cidade de Lynchburg, na Virginia, estava cursando a universidade, uma de suas aulas era dedicada a "sentenças lamentáveis'. Entre elas, ele ficou obcecado pelo caso Bucks vs. Bell. "Eu me dei conta de que a maioria das pessoas não sabia do que tinha acontecido."

Depois da 2ª Guerra Mundial, a eugenia foi associada aos nazistas, e, quase ao mesmo tempo, nossa compreensão sobre a genética começou a se expandir e ideias como a da teoria caíram em descrença. Por isso, a lembrança da eugenia não relacionada ao Terceiro Reich foi se apagando.

E. Lewis Reynolds recebeu indenização, mas nunca pôde ter filhos
Bold sentiu que "tinha que fazer algo", por isso estudou a história, conversou com a maior quantidade de pessoas que conseguiu e até encontrou alguns dos útimos sobreviventes. Um deles, E. Lewis Reynolds, tem 88 anos de idade. Quando criança, seu primo jogou uma pedra na sua cabeça, o que lhe causou convulsões.

Pelo menos, essa é uma versão do que pode ter acontecido, já que não se recorda muito bem. O que ele sabe, e está registrado, é que o levaram à Colônia Estatal da Virgínia para Epilépticos e Débeis Mentais.

Somente anos mais tarde, depois de fazer um exame médico para se alistar no Exército dos Estados Unidos, é que ele foi saber do que havia acontecido. "O médico me disse que eu poderia dormir com quantas mulheres eu quisesse, porque eu 'disparava cartuchos vazios' - foi isso que ele me disse", contou ele à BBC.

"Contei para minha noiva, mas ela disse que gostava muito de mim para me abandonar. Casamos e ficamos juntos muitos anos. Ela morreu há oito. Acho que me fizeram mal. Não deveriam ter me operado. Tiraram meu direito de ter uma família", lamenta Reynolds.

Perguntas perigosas

Cartazes afirmava que tanto a epilepsia quanto a pobreza são herdadas e que no 'triângulo da vida' se pode melhorar a educação, o ambiente, mas não se pode fazer nada para melhorar a hereditariedade


Já há alguns anos, Mark Bold pressionava os legisladores de Virgínia para que compensem as vítimas. "Não podemos esperar, elas vão morrer", disse.

Finalmente, seu trabalho surtiu efeito: o Estado aceitou pagar US$ 25 mil (R$ 77mil) para cada uma. "Não sei como colocar um preço quando te tiram o direito de ter filhos, por isso é arbitrário. Mas é um gesto: declara que o Estado se portou mal", afirmou Kevles.

Mas não há dúvida de que o Estado não foi o único culpado - a ciência também foi. "A ciência é um processo, sempre está em mudança constante. O que hoje é verdade absoluta, não será amanhã. É especialmente importante prestar atenção quando o que está em jogo é a liberdade, a dignidade, e os direitos humanos", acrescentou.

Ao nos esforçarmos para entender e melhorar a condição humana, Kevles pede que não nos esqueçamos da eugenia porque, ainda que muito tenha mudado desde que Francis Galton concebeu a ideia, há algo que segue igual: os cientistas seguem sendo seres sociais.

As perguntas que eles fazem podem ser produtos de seus preconceitos sociais.

"'As meninas são melhores em matemática do que os meninos' ou 'as pessoas de cor são menos inteligentes do que as outras'... por que fazemos essas perguntas? Também há perguntas sobre as características genéticas da violência, ou do vício. E fazemos essas perguntas porque elas têm uma importância social, política e econômica, não porque sejam inerentemente interessantes", explica.

E conclui: "Devemos ter muito mais cuidado e não 'genetizar' ou 'medicalizar' as condições humanas que nos assustam, nos incomodam e nos custam".

FONTE: BBC