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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Centenário do PCB: Luiz Carlos Prestes, Antonio Gramsci e José Carlos Mariátegui – a construção do partido comunista

 Artigo de Anita Prestes no blog da Boitempo

“Ao apreciar as ideias desenvolvidas por três lideranças revolucionárias, Luiz Carlos Prestes, Antonio Gramsci e José Carlos Mariátegui, que viveram e atuaram no século XX empenhadas na criação de um partido revolucionário destinado a dirigir a luta dos trabalhadores pelo socialismo e o comunismo, podemos observar significativas coincidências. Trata-se de ideias que talvez valha a pena levar em consideração por quem busca hoje novos caminhos para a revolução socialista em nosso país.”


Anita Leocadia Prestes no Blog da Boitempo, confira clicando no link abaixo:

https://blogdaboitempo.com.br/2022/02/22/centenario-do-pcb-luiz-carlos-prestes-antonio-gramsci-e-jose-carlos-mariategui-a-construcao-do-partido-comunista/




domingo, 13 de fevereiro de 2022

[Pré-venda] Antonio Gramsci: escritos escolhidos (1915-1920)

Seleção, tradução e introdução de Anita Helena Schlesener e Ana Paula Schlesener

Ano de lançamento: 2022

Editora Lutas Anticapital

Link para adquirir o livro em pré-venda: 

https://lutasanticapital.com.br/products/antonio-gramsci-escritos-escolhidos


Os escritos escolhidos para a tradução, a partir da vasta produção gramsciana efetuada entre 1915 e 1920, foram selecionados a partir de interesses específicos, como o breve reconhecimento do contexto histórico e os objetivos de Gramsci com a formação política e cultural da classe trabalhadora. Neles podemos identificar uma metodologia educativa na repetição do argumento, na crítica sarcástica e irônica aos intelectuais da época, na articulação entre teoria e prática.

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Este livro apresenta um pequeno esboço do que foi a experiência de um novo jornalismo que visava a um esforço contínuo de formação da classe operária, num processo de autoeducação que se constrói na organização política e na valorização dos meios associativos que permitam lançar as bases de um movimento revolucionário.



Sumário

Introdução

Características do Estado Italiano

 Armênia  

A máscara e o rosto  

Labirinto  

Caráter italiano  

Para esclarecer as ideias sobre reformismo burguês  

A política do “Se”  

O regime dos paxás  

A derrota  

Um Programa de Governo  

Giolitti no poder  

O Estado Italiano  


A Censura

A divina língua  

Rabiscos  

O Progresso no Índice de Ruas da Cidade  

A censura (4)  

Sua Majestade, a Segurança Pública  

Se questiona a censura  

A censura  

Consciência censora  

Verboten! (Proibido!)  

A reação italiana  


A Liberdade

 Ano Novo  

Pietro Gavosto  

A senha da liberdade  

Individualismo e coletivismo  

A liberdade de divertir-se  

O critério da liberdade  

A sua herança  


Organização Política

 A Indiferença  

A História  

A ideia territorial  

Três princípios, três ordens  

O relojoeiro  

Uma verdade que parece um paradoxo 

Filantropia, boa vontade e organização  

Elogio da cor vermelha  

A passividade  

A Comuna  


A Revolução Russa

Notas sobre a Revolução Russa  

A revolução contra o “Capital”  

Constituinte e Soviet  

Um ano de história 

Para conhecer a Revolução Russa  

A educação política na Rússia 

A medida da história  


Educação e Cultura

 A luz que se apagou  

A escola do trabalho  

A escola e a oficina  

Simplesmente  

Os jornais e os operários

A máscara que cai  

A Universidade Popular  

Cadáveres e Idiotas 

A primeira pedra  

A escola e o jardim  

O problema da escola (no contexto de uma política socialista) 

Crônicas de L’ordine Nuovo  


Referências

Sobre as autoras e tradutoras

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sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Para download: Hegemonía y cultura en tiempos de contrainsurgencia "soft", de Néstor Kohan (Ocean Sur, 2021)

 DESCARGAR PDF: https://oceansur.com/catalogo/titulos/hegemonia-y-cultura-en-tiempos-de-contrainsurgencia-soft?fbclid=IwAR0el3tyt48tS9OA35m4rguINn69Skgq5tRpNNjxZuDo__kU5r9w-giOVKg

La revista «Contexto Latinoamericano» entrevista a Néstor Kohan sobre su nuevo libro Hegemonía y cultura en tiempos de contrainsurgencia "soft":

- El pensamiento de Gramsci es medular en sus reflexiones. ¿Cuáles son las principales ideas gramscianas que sustentan las tesis del presente libro?

Antonio Gramsci ha sido manipulado al infinito. Desde la socialdemocracia y el liberalismo hasta el autodenominado “posmarxismo” (en realidad…. ex marxismo) y los llamados “estudios poscoloniales”. Se lo ha intentado convertir en un tímido partidario de los acuerdos parlamentarios y en un inofensivo posmoderno que especula en forma diletante sobre “asuntos culturales”, desvinculándolo de todo proyecto revolucionario y estrategia de confrontación. ¡Como si su encarcelamiento y lento asesinato, ejercido con crueldad y a cuentagotas, a manos del fascismo italiano, hubieran sucedido “de casualidad”! Tratando de rescatar su pensamiento revolucionario nos hemos opuesto a los intentos de pasteurizarlo, descafeinarlo y volverlo un ícono “light”, fácilmente domesticable y adaptable para los fines más diversos. Como pensador revolucionario, ardiente admirador de Lenin y la revolución bolchevique, pensador de las periferias y las clases subalternas, militante clandestino durante años de la Internacional Comunista, Gramsci reflexionó a partir de una derrota, la del movimiento de los consejos de fábrica de Turín. 

Leer entrevista completa [PDF]



 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

«Cartas da prisão», a atitude dialógica de um grande clássico

Resenha de Guido Liguori à nova edição italiana das «Cartas da prisão», publicada no jornal  "Il Manifesto: quotidiano comunista". «Lettere dal carcere» é uma nova edição da editora Einaudi  com um rico álbum de documentos e fotografias.


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«Cartas da prisão», a atitude dialógica de um grande clássico

Guido Liguori

Il Manifesto: quotidiano comunista, edição de 17/10/2020

Tradução Google Translate, com ajuste do blog Prestes A Ressurgir



As cartas de Gramsci estão de volta à livraria, numa nova edição da série I millenni (Antonio Gramsci, Cartas da prisão , editado e com introdução de Francesco Giasi, Einaudi, pp. CXIV + 1257, euro 90). Uma valiosa edição para uma “obra-prima da literatura epistolar” - escreve o editor - que a correspondência do autor “e toda a sua correspondência não parecem destinadas a eclipsar”. É a afirmação fundamental a partir da qual começar a compreender a importância do evento. Parecia, há algumas décadas, que as Cartas da prisão como obra em si mesmas estavam destinadas a ficar em segundo plano, em face da correspondência do autor - cuja publicação havia começado com a da cunhada Tatiana, editado por Natoli e Daniele em 1997.

Falsa previsão: porque se a correspondência representa, sem dúvida, uma passagem fundamental para os estudiosos de Gramsci, a coleção de cartas do comunista da Sardenha após sua prisão, ocorrida em 8 de novembro de 1926, retém, e creio que sempre manterá, sua importância autônoma: que de um grande clássico do século XX, literário e ético-político ao mesmo tempo.

COMO VOCÊ SABE, as Cartas saíram em volume pela primeira vez em 1947 e serviram como precursores para a afirmação de seu autor na cultura italiana, mesmo fora das fileiras comunistas. A atribuição do Prémio Viareggio, instituído pela ex-ordinovista Leonida Rèpaci e com dois intelectuais de grande prestígio no júri, a trabalhar com o PCI: Concept Marchesi e Giacomo Debenedetti (não De Benedetti, como infelizmente lemos, com involuntários homenagem aos eventos atuais). Esta edição, reconhecidamente uma "escolha", incluiu 218 cartas. Muitos ainda não foram encontrados, outros não foram publicados por questões de sigilo, contendo delicadas declarações sobre familiares e conhecidos ainda vivos. Algumas passagens também foram omitidas por conveniência política,

APÓS A PRIMEIRA edição de 1947, muitas outras cartas foram encontradas e muitos motivos de prudência humana e política falharam. Nas 2000 páginas de Gramsci, que apareceu em 1964 para Il Saggiatore, fortemente desejada pelo diretor editorial Debenedetti (novamente ele) e editada por Ferrata e Gallo com o apoio ativo de Togliatti, 77 cartas inéditas foram publicadas. No ano seguinte foi a vez do volume Einaudiano de Cartas editado por Caprioglio e Fubini: 428 missivas, das quais 65 inéditas, e com a restauração das passagens (poucas, na verdade) anteriormente apagadas. A obra foi publicada um ano após a morte de Togliatti, mas o secretário do PCI ainda estava vivo (como a edição crítica dos Cadernos): portanto, não é verdade, como ainda lemos, que apenas a sua morte teria permitido a publicação de todos os textos gramscianos. Togliatti foi o principal arquiteto do conhecimento e da difusão da obra de Gramsci, ainda que atento à contingência política e pagando o preço do tempo necessário para trabalhar um corpus literário muito complicado.

SÓ PARA NOS LIMITAR às edições principais, deixando de lado as publicações em revistas e jornais, as coleções temáticas (cartas a Giulia, cartas a seus filhos, cartas a Sraffa ...) e as antologias menores de missivas que eram periodicamente apresentadas, com introduções sempre novas, no âmbito do título genérico de Cartas da prisão, edição reservada aos leitores da Unidade emitida em 1988, que reproduziu a edição Caprioglio-Fubini sem notas, mas com o acréscimo de 28 cartas inéditas e outras publicadas anteriormente aqui e lá em nenhuma ordem particular. Para chegar então à bela edição Sellerio de 1996, editada por Antonio A. Santucci: 478 cartas, cinquenta a mais que em 65. Antes, a maior e mais valiosa edição (com 17 inéditas) era até ... em inglês, editado por Frank Rosengarten para a Columbia University Press em 1994. Um paradoxo óbvio, que também é atribuído à relutância de Einaudi em implementar a atualização necessária e substancial. Afinal, nos anos 90 Gramsci era quase considerado um “cachorro morto”, em uma situação de liberalismo triunfante, mesmo na esquerda italiana.

A QUESTA «PIGRIZIA» A editora de Turim está agora a remediar (embora a um preço de capa não acessível a todos, infelizmente) com uma edição destinada a durar. Não uma edição "definitiva", pois este livro é por definição um work in progress: dezenas de outras cartas, explica o próprio Giasi, foram certamente escritas por Gramsci, nos anos 1926-1937: muitas nunca serão recuperadas, mas quase certamente outras mais cedo ou mais tarde encontrarão o caminho para chegar até nós, para se tornarem públicas: uma nova edição terá que ser preparada. Nesse ínterim, porém, a atual está destinada a representar um ponto fixo e constitui, em relação às edições anteriores meritórias, um passo seguro em frente.

Quais são os principais méritos da edição Giasi, além da nova inédita (nove das 489 cartas, mais três dos 22 documentos do Anexo, com petições e solicitações às autoridades)? A correção de inúmeras imprecisões, graças ao controle preciso dos originais; a datação pela primeira vez de cartas sem data, possibilitado pelo cruzamento com as cartas de Tatiana à família russa. Sem deixar de lado a inserção fotográfica do volume, com fotos pouco conhecidas, como a da própria Tânia em 1938 no cemitério de Testaccio, emblematicamente em segundo plano em relação ao túmulo de Nino, no fundo, como por muito tempo seu papel foi visto, ao invés de fundamental: talvez um adeus, antes de retornar à URSS, onde morreu de tifo em 1943. E, novamente, a cronobiografia precisa editada por Luisa Righi. 

MAS SOBRETUDO é relevante e amplamente novo o aparelho das notas de que cada carta é fornecida. Em comparação com as edições anteriores, hoje sabemos muito mais sobre os acontecimentos de Gramsci nos anos que se seguiram à sua prisão, graças às constatações feitas nos Arquivos de Moscou, às sondagens nos arquivos italianos (com a colaboração de Eleonora Lattanzi e Delia Miceli) e nos jornais de Sraffa. (com a competente ajuda de Nerio Naldi), às numerosas informações agora disponíveis sobre as famílias russas e da Sardenha (para as quais valeram os conselhos de Antonio Gramsci Jr. e Luca Paulesu), à análise aprofundada dos acontecimentos internos do PCI e da Internacional, bem como tentativas de libertá-lo por vias diplomáticas, etc. A isso se soma o uso muito útil que Giasi faz - sempre em notas - de trechos de cartas escritas a Gramsci por seus correspondentes, que ajudam a entender suas afirmações e respostas. Tudo isso, junto com a precisão do layout do texto e do aparato crítico, torna o volume agradável para o leitor e valioso para o estudioso.

As cartas escritas a Gramsci são tanto mais úteis porque ele é - como Giorgio Baratta gostava de lembrar - um autor "dialógico" que, segundo ele próprio, precisava de interlocutores, mesmo e talvez sobretudo polêmicos. Para ele, as cartas são o substituto de um companheiro, de um amigo, de um familiar com quem conversar, mesmo que "à distância", diríamos hoje. Mas também são cartas muitas vezes a serem decifradas, com mensagens ocultas destinadas ao seu partido. Resta voltar e lê-las, as Cartas de Gramsci, nesta nova e valiosa edição, com admiração inalterada pelo comunista da Sardenha e como um novo estímulo para o conhecimento de sua história e de seu pensamento.

FONTE: Il Manifesto: quotidiano comunista

quinta-feira, 16 de julho de 2020

sábado, 23 de maio de 2020

VIVER É TOMAR PARTIDO: ANTONIO GRAMSCI E O ÓDIO CONTRA A INDIFERENÇA

Publicado: Sábado, 23 Maio 2020 08:57, Suplemento Pernambuco
Escrito por Antonio Gramsci (trad. Daniela Mussi e Alvaro Bianchi; Imagem: Reprodução da internet)


Abaixo, um trecho do livro Odeio os indiferentes, seleta de textos políticos escritos por Antonio Gramsci (1891-1937; foto), intelectual polivalente responsável por algumas das obras  (como seus Cadernos do cárcere) e conceitos (como o de "hegemonia") mais importantes obras do século XX. Gramsci entendia a política como a saga das grandes maiorias, e o texto abaixo deixa clara a necessidade de assumirmos uma posição política dentro (e a favor) do coletivo. Esse texto, assim como os demais do livro, foi escrito em 1917 

Com seleção, tradução e aparato crítico de Daniela Mussi e Alvaro Bianchi, Odeio os indiferentes reúne 21 dos mais de 200 artigos de Gramsci escritos no ano da Revolução Russa. 

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INDIFERENTES [nota1]

Odeio os indiferentes. Creio, como Federico Hebbel, que “viver quer dizer tomar partido” [nota 2] . Não podem existir os que são apenas homens, estranhos à idade. Quem vive verdadeiramente não pode não ser cidadão, assumir um lado. Indiferença é apatia, parasitismo, velhacaria, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo dos inovadores, é a matéria inerte na qual afundam rapidamente os entusiasmos mais esplêndidos, é o pântano que cerca a velha cidade e a defende melhor que as mais rígidas muralhas, melhor que o peito dos seus guerreiros, porque envolve em seus vórtices lodosos os agressores, dizimando-os e desencorajando-os até que desistam do empreendimento heroico.

A indiferença opera com força na história. Opera passivamente, mas opera. É a fatalidade; é aquilo com o que não se pode contar; é o que interrompe os programas, subverte os melhores planos; é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca. O que vem em seguida, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heroico (de valor universal) pode desencadear, não se deve tanto à iniciativa operante de poucos, quanto à indiferença, o
absenteísmo dos muitos. O que se passa não resulta tanto dos desejos de alguns como da massa dos homens que abdicam de sua vontade, deixam acontecer, permitem o entrelaçamento de nós que posteriormente apenas a espada pode romper, aceitam a promulgação de leis que depois só a revolta pode revogar, deixam subir ao poder homens que apenas os motins poderão derrubar. A fatalidade que parece dominar a história não é senão aparência ilusória
da indiferença, do absenteísmo. Os fatos amadurecem na sombra, poucas mãos, não submetidas a qualquer controle, tecem a trama da vida coletiva, e a massa ignora pois não se preocupa. Os destinos de uma época são manipulados segundo visões restritas, interesses imediatos, ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora pois não se preocupa. Contudo, os fatos amadurecidos dão seus resultados; a trama tecida na sombra alcança seu limite: então a fatalidade oprime tudo e todos, a história se assemelha a um enorme fenômeno natural, uma erupção, um terremoto que a todos vitima, os desejantes e não desejantes, os que sabiam e os que ignoravam, os ativos e os indiferentes. Estes últimos se irritam, gostariam de poder escapar às consequências, deixando claro que não desejavam os fatos e que não são responsáveis por eles. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos se perguntam: “Tivesse eu cumprido meu dever, buscado fazer valer minha vontade, o meu conselho, o curso das coisas teria sido o mesmo?”. Nenhum ou poucos assumem a culpa pela própria indiferença, pelo ascetismo, por não terem oferecido os próprios braços e atividade aos grupos de cidadãos que combatiam para evitar aquele mal e conquistar o bem ao qual se propunham.

A maioria, ao contrário, prefere falar de fracassos ideais em vez de reconhecer os acontecimentos alcançados, de programas definitivamente arruinados e de outras amenidades similares. Restituem, assim, a ausência de responsabilidade própria. Não é que não possam ver as coisas de maneira clara, e que não sejam às vezes capazes de prospectar soluções belíssimas para os problemas urgentes ou aqueles que, embora exijam tempo e ampla preparação, urgem. Mas essas soluções permanecem belamente infecundas, essa contribuição para a vida coletiva não é impulsionada por alguma luz moral; é produto de curiosidade intelectual, não de um sentido pungente de responsabilidade histórica que deseja ativar a todos para a vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de qualquer tipo.

Odeio os indiferentes também porque me irrita o seu choramingar de eternos inocentes. Pergunto a qualquer um desses como cumpriu a tarefa que a vida propôs e propõe cotidianamente, daquilo que realizou e especialmente daquilo que não realizou. Sinto que posso ser inexorável, que não preciso desperdiçar minha piedade ou compartilhar minhas lágrimas. Sou resistente, vivo, sinto na virilidade da minha consciência pulsar a atividade da cidade futura que estou ajudando a construir. Nela a cadeia social não pesa sobre poucos, cada acontecimento não é devido ao acaso, à fatalidade, mas é obra inteligente dos cidadãos. Não há ninguém na janela contemplando enquanto alguns se sacrificam, se esvaem em sacrifício; aquele que permanece de plantão na janela para aproveitar daquilo que a atividade desses poucos alcança – ou para desafogar a própria desilusão vituperando o sacrificado – desfalece sem conseguir o que pretende.

Vivo, tomo partido. Por isso odeio quem não o faz, odeio os indiferentes.



NOTAS 

* As notas são de autoria de Daniela Mussi e Alvaro Bianchi.

[nota 1] Publicado em La Città Futura, n. único, 11 fev. 1917, p. 1-2.

[nota 2] A frase se encontra no diário do poeta alemão Friedrich Hebbel (1813-1863), traduzido para o italiano em 1912. Ver Friedrich Hebbel, Diario: traduzione e introduzione di Scipio Slataper (Lanciano, R. Carabba, 1912), p. 82. Em 1911, primeiro ano de Gramsci na Universidade de Turim, o professor Arturo Farinelli ministrou um curso sobre Hebbel.

segunda-feira, 23 de março de 2020

"Gramsci y la ciencia histórica", de Josep Fontana

Sección "Nuestros Clásicos" de la Revista Nuestra Historia, Número 6 (segundo semestre de 2018)

Reproducción - traducido al castellano por Cristian Ferrer - de artículo del historiador Josep Fontana sobre "Gramsci y ciencia histórica". El texto, publicado originalmente en la fundamental revista cultural del PSUC Nous Horitzons en 1967, aparece  aquí precedido por una introducción de José Luis Martín Ramos que explica esta aportación gramsciana y, más ampliamente, las colaboraciones de Fontana en aquella revista.

Nuestros Clásicos

  • La aportación gramsciana de Fontana en Nous Horitzons. José Luis Martín Ramos. [pdf]

  • Gramsci y la ciencia histórica. Josep Fontana i Lázaro. [pdf]



quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O fascismo e a sua política (Escritos Políticos)

Por Antonio Gramsci

Resumo

Texto que aborda o fascismo, como movimento de reacção armada que se propõe o objetivo de desagregar e de desorganizar a classe trabalhadora para a imobilizar, enquadra-se no plano da política tradicional das classes dirigentes italianas e na luta do capitalismo contra a classe operária. E por isso favorecido, na sua origem, na sua organização e no seu caminho por todas os velhos grupos dirigentes, indistintamente, com preferência, porém, pelos agrários que sentem mais ameaçadora a pressão das plebes rurais. Socialmente, porém, o fascismo encontra a sua base na pequena burguesia urbana e numa nova burguesia agraria saída de uma transformação da propriedade rural em algumas regiões (fenómenos do capitalismo agrário na Emilia, origem de uma categoria de intermediários rurais.

Palavras-chave

Fascismo, desagregação da classe trabalhadora, política tradicional das classes dirigentes italianas política tradicional

Texto completo:

GRAMSCI, Antonio. O fascismo e a sua política (Escritos Políticos). Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 11, n. 2, p. 253-256, nov. 2019. 


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Gramsci para crianças!

O rato e a montanha, de Antonio Gramsci e ilustração de Laia Domènech.
Lançamento do Boitatá, selo infantil da Boitempo.



Um rato bebe um copo de leite, sem se dar conta que era a única coisa que uma mãe tinha para alimentar seu bebê. O bebê acorda chorando de fome, e a mãe chora porque não tem como alimentá-lo. Arrependido, o rato parte para buscar mais leite com a cabra, mas o que parecia uma tarefa simples revela-se uma longa jornada a fim de reverter os estragos da guerra e da exploração incansável do meio ambiente e dos bens comuns.

Este conto da tradição oral da Sardenha foi originalmente transcrito pelo filósofo marxista Antonio Gramsci em junho de 1931, em uma das inúmeras cartas que enviou da prisão à sua mulher, com o pedido de que ela recontasse aos filhos. Cumprindo o desejo do saudoso pensador sardo, a artista catalã Laia Domènech deu vida à jornada desse incansável ratinho, agora publicada no Brasil pela Boitempo.

Título: O rato e a montanha
Título original: El ratón y la montaña
Autor: Antonio Gramsci
Ilustradora: Laia Domènech
Tradução: Luiz Sérgio Henriques e Thaisa Burani
Letramento: Leitura compartilhada: pré-leitor (até 5 anos) e leitor iniciante (6-7 anos). Leitura autônoma: leitor em processo (8-9 anos)
Número de páginas: 44
Preço: R$ 49,00
Formato: 24,5 cm x 22,5 cm
ISBN: 978-85-7559-617-3
Editora: Boitatá
Apoio: Institut Ramon LLuLL
Disponível a partir de: 16 de setembro de 2019.
[ESTE LIVRO ENCONTRA-SE EM PRÉ-VENDA]


domingo, 24 de fevereiro de 2019

Para download: "MARX, GRAMSCI E VIGOTSKI: aproximações."

MENDONÇA, Sueli Guadalupe de Lima; SILVA, Vandeí Pinto da; MILLER, Stela (Orgs.). Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações.   ed. Araraquara, SP: Junqueira & Marin, 2012.

Área (s) / Assunto (s): Filosofia da educação, Sociologia da educação, Psicologia da educação, Formação de educadores, Formação humana.


MARX, GRAMSCI E VIGOTSKI: APROXIMAÇÕES



Descrição Rápida

A contribuição inédita do presente livro reside na junção de Marx, Gramsci e Vigotski, costumeiramente tidos como independentes entre si. O cenário acadêmico buscou camuflar ou se mostrou incapaz de encontrar o fio condutor das valiosas contribuições teóricas desses autores. [...] "Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações" foi, então, pensado como um tema e um momento que julgamos adequados para pôr em evidência a produção científica desses autores e buscar, por meio dos debates, compreender e aprofundar seus elos de interação, proporcionando ferramentas teórico-práticas capazes de subsidiar aqueles que lutam por uma nova sociedade e uma nova escola.


Apresentação: 

Os textos desta coletânea são artigos referentes a conferências e palestras proferidas durante três jornadas do Núcleo de Ensino da Faculdade de Filosofia e Ciências - UNESP - Campus de Marília, a saber, a IV Jornada, realizada de 09 a 11 de agosto de 2005, com o tema "Releitura de Marx para a educação atual", a V Jornada, realizada de 15 a 17 de agosto de 2006, com o tema "Escola (d)e Gramsci" e a VI Jornada, realizada de 14 a 16 de agosto de 2007, com o tema "Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações", que empresta o título para este livro.

Esses três eventos resultaram de um trabalho coletivo de discussão e organização realizado pelo Grupo de Pesquisa "Implicações pedagógicas da teoria histórico-cultural" e pelo Núcleo de Ensino da Faculdade de Filosofia e Ciências.

Em jornadas anteriores, foram se evidenciando as bases marxistas dos fundamentos epistemológicos da Teoria Histórico-Cultural e, ao mesmo tempo, explicitando a necessidade de recorrer a autores que discutissem a educação escolar e a cultura na perspectiva do marxismo. No Brasil, há diferentes leituras da obra de Gramsci e da Teoria Histórico-Cultural, muitas delas distanciando-se da fundamentação marxista. De uma perspectiva eclética, dentre outras formulações inconsistentes, Gramsci é tido como "escolanovista" e Vigotski como "sócio-interacionista". Desconsiderando-se que a escola nova tem suas bases no pragmatismo de John Dewey e que Piaget concebia a interação com o meio de uma forma naturalizada e não como um ato histórico, o vínculo radical de Gramsci e Vigotski com o materialismo histórico dialético, ou seja, com Marx, é ignorado. 

Recuperar os fundamentos marxistas das concepções de Gramsci e da teoria Histórico-Cultural pressupõe estar aberto ao diálogo com outras teorias, tal como fizeram Gramsci, Vigotski e o próprio Marx. O que aproxima esses autores é o fato de tomarem o materialismo histórico dialético como centro de suas análises.

A contribuição inédita do presente livro reside na junção de Marx, Gramsci e Vigotski, costumeiramente tidos como independentes entre si. O cenário acadêmico buscou camuflar ou se mostrou incapaz de encontrar o fio condutor das valiosas contribuições teóricas desses autores. Assim, foram negados seus princípios fundamentais - a necessidade de transformação e superação da sociedade capitalista e a luta pelo socialismo - que se diluíram em visões fragmentadas e imediatistas, comprometendo o desenvolvimento da trajetória marxista em sua essência, já que Gramsci e Vigotski dão continuidade à produção teórico-prática de Marx. Em momentos históricos diferenciados, os três autores fizeram da teoria um instrumento de reflexão e ação revolucionárias visando ao socialismo.

Marx, no contexto das grandes transformações do século XIX, criou sua teoria fundante, o materialismo histórico dialético, para analisar e transformar o mundo, tal qual expressa a XI Tese sobre Feurbach: "Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo" (MARX; ENGELS, 1977, p. 14). Aliada à ideia de transformação do mundo, a problemática da educação também teve seu espaço nas formulações de Marx que apresentou, naquele momento histórico, uma questão central que até hoje se mantém válida: a formação omnilateral do homem. Por meio dela, questiona o determinismo do processo de produção material e da consciência, e defende um processo que opõe dialeticamente teoria e prática, educação e trabalho, e cuja destinação seja a de preparar o homem para transformar as circunstâncias nas quais vive, transformando-se também ele nesse processo.

A doutrina materialista sobre a alteração das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são alteradas pelos homens e que o próprio educador deve ser educado. [...]
A coincidência da modificação das circunstâncias com a atividade humana ou alteração de si próprio só pode ser apreendida e compreendida racionalmente como práxis revolucionária. (MARX; ENGELS, 1977, p. 12)

Gramsci - em meio à possibilidade de revolução socialista na Europa, numa franca ofensiva político-conservadora do capital, materializada no fascismo - produziu, no cárcere, sua reflexão tendo como pilares centrais a cultura, o papel dos intelectuais e a análise da política. 

No debate presente nesta publicação, o enfoque acerca do papel da escola, da cultura e do intelectual na sociedade contemporânea aponta a importância de uma reflexão mais cuidadosa sobre as consequências da ausência de um projeto político claramente definido em favor das classes subalternas, que lhes dê a condição material para se apropriarem de conhecimentos vitais à constituição de sua subjetividade.
A elaboração unitária de uma consciência coletiva exige condições e iniciativas múltiplas [...] O mesmo raio de luz passa por prismas diversos e produz diferentes refrações luminosas. [...] Encontrar a identidade real sob a aparente diferenciação e contradição e encontrar a diversidade substancial sob a aparente identidade, essa é a qualidade essencial do crítico das idéias e do historiador do desenvolvimento social. (GRAMSCI apud DEL ROIO, 2005, p. 12)

Elaborar um projeto estratégico com vistas à emancipação das classes subalternas implica pensar qual a contribuição da escola na formação de intelectuais críticos, que integrem, na prática, o processo de transformação social. Tal objetivo exige uma nova concepção de intelectual que resulte da superação de processos formativos fragmentários e elitistas, bem como incorpore a nova dimensão da subjetividade humana, possibilitando às classes subalternas a condição de serem dirigentes.
O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloqüência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas numa inserção ativa na vida prática, como construtor, organizador, "persuasor permanentemente", já que não apenas orador puro - mas superior ao espírito matemático abstrato; da técnica-trabalho, chega à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual permanece "especialista" e não se torna "dirigente" (especialista + político). (GRAMSCI, 2004, p. 53)

Vigotski, na construção objetiva do socialismo na União Soviética, dedicou-se a pensar e a trabalhar na formação do novo homem, isto é, de uma nova perspectiva de formação da subjetividade. Suas investigações, na área da Psicologia, denunciam a fragilidade das tendências idealistas e deterministas e enfatizam a importância da história e do meio cultural no processo de formação humana. 
Ser donos da verdade sobre a pessoa e da própria pessoa é impossível enquanto a humanidade não for dona da verdade sobre a sociedade e da própria sociedade. Ao contrário, na nova sociedade nossa ciência se encontrará no centro da vida. O "salto do reino da necessidade ao reino da liberdade" colocará inevitavelmente a questão do domínio de nosso próprio ser, de subordiná-lo a nós mesmos. (VIGOTSKI, 2004, p. 417)

Quanto à base marxista dos trabalhos de Vigotski, Iaroshevski e Gurguenidze (1997) declaram:
Vygotski dominou, como nenhum dos psicólogos soviéticos de sua época, os princípios metodológicos do marxismo em sua aplicação aos problemas de uma das ciências concretas. A psicologia - assinala - requer seu "O Capital". Seu objetivo não consiste em acumular ilustrações psicológicas ao redor de conhecidos princípios da dialética materialista, mas em aplicar esses princípios como instrumentos que permitam transformar, a partir de dentro, o processo de investigação, descobrir na realidade psíquica umas facetas ante as quais são impotentes outros procedimentos de obtenção e organização dos conhecimentos. (IAROSHEVSKI; GURGUENIDZE, 1997, p. 451)

Para Vigotski, o marxismo expressava a verdade acerca da compreensão da sociedade e era, no seu entender, a única expressão do pensamento filosófico universal capaz de fornecer as bases necessárias para pensar novos rumos para uma nova psicologia.

Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações foi, então, pensado como um tema e um momento que julgamos adequados para pôr em evidência a produção científica desses autores e buscar, por meio dos debates, compreender e aprofundar seus elos de interação, proporcionando ferramentas teórico-práticas capazes de subsidiar aqueles que lutam por uma nova sociedade e uma nova escola.

Este livro está organizado em quatro partes. A PRIMEIRA PARTE, "Contribuições de Marx, Gramsci e Vigotski para a compreensão da realidade social", focaliza estudos teóricos acerca de Marx, Gramsci e Vigostki que apresentam um início de diálogo entre esses autores, tendo como referência sua fundamentação teórica mais geral.

Edmundo Fernandes Dias, com o texto "Marx e Gramsci: sua atualidade como educadores", desvela a mentalidade burguesa e suas formas de se manter no comando, ao desqualificar os processos de luta das classes subalternas. Contra a noção de igualdade abstrata, a inteligibilidade do real requer a superação das aparências, a busca da unidade na diversidade e a construção de um discurso crítico a partir do método marxista. O processo educativo deve unificar teoria e prática e intelectuais e trabalhadores na construção de novas individualidades. 

O texto "A mundialização capitalista e o conceito gramsciano de revolução passiva", de Marcos Tadeu Del Roio, parte da questão da possibilidade de se explicar o estágio atual do capitalismo por meio do conceito de revolução passiva, elaborado por Gramsci nos Cadernos do Cárcere. A resposta para esse problema pressupõe, no entanto, um outro que é a discussão do próprio conceito de revolução passiva e outros que lhe são correlatos. Por meio de uma trajetória histórica analítica, o autor problematiza os conceitos centrais gramscianos perpassando pelos principais fatos históricos que constituíram a base da sociedade contemporânea. Apenas feita uma atenta apreensão do conceito é que se pode discutir a sua aplicabilidade para os tempos atuais.

Newton Duarte em "A filosofia da práxis em Gramsci e Vigotski" questiona a pertinência da expressão "filosofia da práxis". Percorrendo diferentes traduções e significações dadas à expressão, Duarte advoga o uso da expressão "filosofia da prática" como o mais adequado para referir-se ao marxismo. Ressalta o marxismo como materialismo histórico, distinguindo "filosofia da práxis" de pragmatismo e teoria vigotskiana de interacionismo. Discute consequências importantes para a educação escolar decorrentes de interpretações indiferenciadas das teorias pedagógicas.

Em "A práxis de Gramsci e o pragmatismo de Dewey", Giovanni Semeraro traça um paralelo entre a filosofia da práxis de Gramsci e o pragmatismo de Dewey, analisando as diferenças conceituais que os situam em campos opostos: o primeiro caminhando "na direção de uma atividade teórico-política para construir a hegemonia das classes subjugadas", visando à superação da ordem existente, e o segundo concentrando-se "sobre o desenvolvimento da atividade inteligente dos indivíduos", visando à validação do pensamento liberal americano.

O texto "Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações?", de Rosemary Dore, elege fundamentos marxistas que aproximam Gramsci e Vigotski e aspectos que os distanciam, tais como a concepção de materialismo histórico dialético. Para Gramsci é no campo das ideologias que os homens tomam consciência dos conflitos sociais. A natureza humana é concebida como conjunto das relações sociais. Os conflitos são superados no processo histórico. Questiona o entendimento de cultural e social em Vigotski, sendo apresentada a hipótese de resquícios de dualidade entre suas concepções de materialismo histórico e dialético.

Em "Educação e escola no marxismo: perspectivas" Vandeí Pinto da Silva discute possibilidades reais dos educadores marxistas atuarem em vista da transformação social. Concepções dogmáticas e idealistas paralisam a atuação dos educadores marxistas. Advoga a construção de uma pedagogia marxista referenciada na formação omnilateral, capaz de unificar teoria e prática e educação e trabalho. Se o trabalho é categoria central no marxismo, mesmo nas condições de trabalho alienado pode emergir o gérmen da transformação social.

Antonio Carlos Mazzeo no texto "Notas sobre ser e existência" discute o trabalho como sociabilidade humana. A dimensão teleológica do trabalho torna possível o rompimento com a produção voltada para a satisfação do meramente biológico, voltando-se esta para a complexidade das necessidades humanas. Nas tensões entre alienação e construção da sociabilidade pode emergir o ápice da individualidade alienada ou um novo processo de humanização, centrado na busca da essência genuinamente humana, dilacerada pelo fetiche da mercadoria.

A SEGUNDA PARTE, "Educação e trabalho", contém análises sobre as políticas educacionais na perspectiva marxista, trazendo elementos importantes para a reflexão. 

No texto "Educação no capitalismo dependente ou exclusão educacional?", Roberto Leher problematiza os fundamentos histórico-sociológicos para a real universalização da educação na sociedade capitalista. Por meio da discussão dos conceitos exclusão e inclusão, bem como dos indicadores sociais e educacionais mais gerais, em especial da juventude, o autor desnaturaliza o discurso hegemônico que preconiza os problemas educacionais como decorrência da gestão pedagógica. Ao mesmo tempo, explicita a falsa polêmica exclusão/inclusão como expressão de saídas políticas para problemas sociais ao demonstrar como essas categorias compõem a lógica do capital com interfaces diretas com a educação. 

Neusa Maria Dal Ri e Candido Giraldez Vieitez com o texto "Trabalho como princípio educativo e práxis político-pedagógica" trazem a origem do debate teórico trabalho como princípio educativo, tema controverso presente na legislação educacional brasileira. Tal debate iniciou-se com Marx e Engels no século XIX, perpassando as experiências educacionais socialistas na União Soviética, por meio de seus principais teóricos e militantes como Lênin, Krupskaya, Pistrak, Makarenko, enriquecido com o aporte de Gramsci, intelectual militante socialista contemporâneo aos soviéticos. Essa trajetória propicia a apreensão da realidade contemporânea sobre o mesmo tema, porém numa conjuntura extremamente complexa do desenvolvimento do capitalismo no século XXI, com suas contradições e possibilidades de mudanças como a experiência educacional do MST no Brasil, que se pauta no trabalho como princípio educativo.

Em "Considerações sobre a (des)politização do debate educacional brasileiro", Eduardo Magrone apresenta interessante discussão referente à despolitização do debate sobre as políticas educacionais no Brasil. Partindo do referencial teórico de Gramsci, trabalho como princípio educativo, analisa o debate acerca do sentido e dos objetivos do ensino médio na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) na década de 1990, bem como aponta os limites da posição conteudística e técnica sobre o tema em detrimento da compreensão das determinações políticas mais amplas, a qual denomina de crítica radical à forma escolar.

A TERCEIRA PARTE, "Educação e cultura", recupera uma dimensão importante e pouco explorada na perspectiva marxista ao trazer a produção da sensibilidade, da arte, como elemento fundamental da subjetividade humana. 

Regina Maria Michelotto, em seu texto "A questão metodológica e a formação do intelectual orgânico em Gramsci", discorre sobre o referencial de Antonio Gramsci, "privilegiado para pesquisadores que buscam utilizar o materialismo histórico e dialético como fundamento de suas investigações", enfatizando "o seu aspecto metodológico, subsídio para a formação dos intelectuais críticos, orgânicos à causa dos dominados, de que a criação da nova sociedade necessita." Busca, desse modo, evidenciar as contribuições do autor para pensar a atividade educativa.

O texto de Sueli Amaral Mello, "Cultura, Mediação e atividade", discute esses três conceitos à luz da Teoria Histórico-Cultural, considerando-os como "a tríade de cuja dinâmica resulta o processo de humanização, ou seja, o [...] processo de reprodução individual das qualidades humanas nas novas gerações e em cada sujeito da sociedade humana". Em sua análise, destaca as implicações pedagógicas decorrentes da apropriação de tais conceitos.

Fátima Cabral, em seu texto "Arte para pensar a vida e educar os sentidos", com base na teoria de Marx, ressalta a natureza social da criação artística, "uma dimensão essencial da vida em geral, uma dimensão do homem total [...]", um processo que resulta do trabalho humano e não da simples intuição ou inspiração. Pedagogicamente, arte e cultura são vistas como "vida pensada". 

Em "Estética musical contemporânea e musicalidade brasileira", a autora Consuelo de Paula focaliza as formas de expressão popular que aparecem na canção brasileira, falando a respeito de seu trabalho como artista - cantora e compositora musical. Sob a forma de um diálogo com o público, o texto explicita as influências da cultura popular que marcam o seu fazer artístico e põe em debate a produção musical ligada à cultura popular no seio da indústria cultural brasileira atual. 

A QUARTE PARTE, "Implicações para a formação de professores", encerra o livro com as reflexões acerca das implicações pedagógicas dos estudos da Teoria Histórico-Cultural e de suas bases teóricas para a formação profissional docente. 

Em seu texto "Educación en valores desde la reflexión grupal y la redimensión del rol del educador", Ana Luisa Segarte Iznaga e Oksana Kraftchenko Beoto consideram que "o grupo é o lugar de intermediação da estrutura social e da subjetividade, [...] da gênese e transformação da subjetividade, de onde, portanto, se realiza a formação e o crescimento pessoal-social do ser humano […]". Nesse contexto, redimensionar o papel do professor implica considerá-lo não mais como transmissor de conhecimentos tão-somente, mas como aquele que dirige a atividade conjunta dos alunos, para que sejam tomadas decisões coletivamente visando a um maior protagonismo do aluno em sua formação pessoal e social.

Lígia Márcia Martins, em seu texto "Formação de professores: desafios contemporâneos e alternativas necessárias", aponta para a "desvalorização e esvaziamento" da função docente no presente momento histórico em que "converte-se a educação em mercadoria e se desqualifica a transmissão de conhecimentos pela via da negação de sua existência objetiva". Propõe um processo formador que forneça tanto os conhecimentos teóricos, metodológicos e técnicos, como aqueles relativos às condições histórico-sociais em que se dá sua atuação profissional, com base em três eixos temáticos: ser Gente (natureza histórico-cultural do desenvolvimento humano), ser Professor (trabalho e alienação) e ser Capaz (apropriação de conhecimentos para a construção do pensamento teórico).

Stela Miller, em seu texto "Reflexões acerca da proposta bakhtiniana para uma metodologia do estudo da língua e implicações sobre a profissão docente", objetiva realizar algumas reflexões sobre a proposta feita por Mikhail Bakhtin, em sua obra "Marxismo e filosofia da linguagem", para o estudo da língua, e, a partir daí, pensar uma metodologia para o ensino da língua materna, bem como trazer à discussão um modo de ser do educador compatível com essa escolha metodológic


Sueli Guadelupe de Lima Mendonça
Vandeí Pinto da Silva
Stela Miller

Referências 

DEL ROIO, M. Os prismas de Gramsci: a fórmula política da frente única (1919-1926). São Paulo: Xamã, 2005.

GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere. 3. ed. Tradução de Carlos Nelson Coutinho; co-edição, Luis Sérgio Henrique e Marcos Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. v. 2.

IAROSHEVSKI, M.; GURGUENIDZE, G. Epílogo. 2. ed. In: VYGOTSKI, L. S. Obras escogidas. Tradução de José María Bravo. Madri: Visor, 1997. v. 1. p. 451-477.

MARX, K., ENGELS, F. A ideologia alemã. Tradução de José Carlos Bruni e Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Grijalbo, 1977.

VIGOTSKI, L.S. Teoria e método em psicologia. 3. ed. Tradução de Cláudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004.


SUMÁRIO 

APRESENTAÇÃO Sueli Guadelupe de Lima Mendonça, Vandeí Pinto da Silva e Stela Miller

PRIMEIRA PARTE: CONTRIBUIÇÕES DE MARX, GRAMSCI E VIGOSTSKI PARA A COMPREENSÃO DA REALIDADE SOCIAL

Marx e Gramsci: sua atualidade como educadores Edmundo Fernandes Dias 
A mundialização capitalista e o conceito gramsciano de revolução passiva Marcos Tadeu Del Roio
A filosofia da práxis em Gramsci e Vigotski  Newton Duarte
A práxis de Gramsci e a experiência de Dewey Giovanni Semeraro
Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações? Rosemary Dore 
Educação e escola no marxismo: perspectivas Vandeí Pinto da Silva
Notas sobre ser e existência Antônio Carlos Mazzeo

SEGUNDA PARTE: EDUCAÇÃO E TRABALHO

Educação no capitalismo dependente ou exclusão educacional? Roberto Leher
Trabalho como princípio educativo e práxis político-pedagógica Neusa Maria Dal Ri e Candido Giraldez Vieitez 
Considerações sobre a (des)politização do debate educacional brasileiro Eduardo Magrone 

TERCEIRA PARTE: EDUCAÇÃO E CULTURA

Os intelectuais e a crítica da cultura Regina Maria Michelotto 
Cultura, mediação e atividade Suely Amaral Mello 
Arte para pensar a vida e educar os sentidos Fátima Cabral 
Estética musical contemporânea e musicalidade brasileira Consuelo de Paula 

QUARTA PARTE: IMPLICAÇÕES PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Educación en valores desde la reflexión grupal y la redimensión del rol del educador Ana Luisa Segarte Iznaga e Oksana Kraftchenko Beoto 
Formação de professores: desafios contemporâneos e alternativas necessárias Lígia Márcia Martins 
Reflexões acerca da proposta bakhtiniana para uma metodologia do estudo da língua e implicações sobre a profissão docente Stela Miller

Autores 



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

DIEZ FRASES DEL FILÓSOFO MARXISTA ANTONIO GRAMSCI A 128 AÑOS DE SU NACIMIENTO


22 ENE 2019

Este martes se cumple un nuevo aniversario del nacimiento del filósofo marxista y activista político italiano Antonio Gramsci (22 de enero de 1891- 27 de abril de 1937).

Conceptos gramscianos como “hegemonía” y “bloque histórico” forman parte de la cultura revolucionaria universal y su vida resulta un ejemplo de consagración a la causa de las transformaciones sociales.

Les compartimos 10 frases célebres del filósofo de Cerdeña:

“Decir la verdad es siempre revolucionario”.


“La realidad está definida con palabras. Por lo tanto, el que controla las palabras controla la realidad”.


“El poder es un centauro: mitad coerción, mitad legitimidad”.


“Todo movimiento revolucionario es romántico, por definición”.


“El reto de la modernidad es vivir sin ilusiones y sin desilusionarse”.


“La conquista del poder cultural es previa a la del poder político, y esto se logra mediante la acción concertada de los intelectuales llamados orgánicos infiltrados en todos los medios de comunicación, expresión y universitarios”.


“No se puede hablar de los no-intelectuales, por que los no-intelectuales no existen…Todos los hombres son intelectuales; pero no todos cumplen la función de intelectuales en la sociedad”.


“El viejo mundo se muere. El nuevo tarda en aparecer. Y en ese claroscuro surgen los monstruos”.


“La indiferencia es el peso muerto de la Historia”.


“El pesimismo es un asunto de la inteligencia; el optimismo, de la voluntad”.

Tomado de Cubadebate

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

“Odeio o Ano Novo”, de Antônio Gramsci

Por Ideias de Esquerda
30 de dezembro de 2018


No dia 1º de janeiro de 1916, Antônio Gramsci escrevia no jornal socialista Avanti! o artigo “Odio il Capodanno”. Nesta obra rara o comunista italiano expressa seu ódio ao imobilismo e ao conformismo pequeno-burgueses. Antes que termine o ano de 2018 compartilhamos com todos inconformados leitores de nosso diário esta tradução ao português baseada em artigo publicado em espanhol na rede internacional de diários Esquerda Diário. 
O texto foi publicado originalmente no dia 1º de janeiro de 2016 [1916] em Turim, no jornal Avanti!, onde Gramsci escrevia a coluna “Sotto la Mole”, dedicada a comentar sobre a vida turinesa sob a sombra da Mole Antonelliana , principal símbolo arquitetônico da cidade.
O “Capodanno” (Ano Novo) de 1916 esteve marcado pela recente entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial, uma carnificina entre as nações imperialista pela dominação mundial como nunca antes a humanidade tinha visto. Este fato gerou um profundo debate na sociedade italiana, entre a classe trabalhadora e dentro do próprio Partido Socialista Italino que se debatia entre posições “social-patriotas” a favor da intervenção militar e posições de “neutralidade”.
Esse debate atravessou o socialismo europeu, e os principais partidos apoiaram a guerra e suas próprias burguesias em “defesa da pátria”, levando a bancarrota da Segunda Internacional. Entre os que se opuseram a esse caminho reformista da Segunda Internacional e dos Partidos Socialistas estavam aqueles que fizeram isto a partir de uma posição revolucionária (encabeçados por Lênin, Trotsky, Liebknecht e Rosa Luxemburgo) e também o próprio Antônio Gramsci. Posteriormente, junto a Amadeo Bordiga, serão alguns dos principais fundadores do Partido Comunista Italiano.
Neste contexto o “Odeio o Ano Novo” é uma diatribe contra essa festa, mas sobretudo, é uma manifestação do ódio de Gramsci ao conformismo das ideias e da vida regulamentada pelo capitalismo e sua ideologia, que nos leva a celebrar, porque sempre se celebrou, uma ocasião especial.
Algo que nos impulsiona a mudar ou a preparar novos planos para alguma mudança mas que logo seremos enfrentados por um pântano de imobilismo até uma nova ocorrência. Contra esta inércia escreve Gramsci:
“Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar--me.”

Odio il Capodanno de Gramsci nos aproxima de seus conhecidos artigos “Ódio aos indiferentes” publicados no mesmo Avanti! um ano depois em 11 de fevereiro de 1917. A luta de Gramsci contra o imobilismo e o conformismo das ideias, próprias de sua personalidade curiosa, inconformista, anticlerical e sobretudo, comunista.

Odio il Capodanno

Toda manhã, ao acordar mais uma vez sob o manto do céu, sinto que para mim é o primeiro dia do ano.
Por isso odeio estes anos novos a prazo fixo, que transformam a vida e o espírito humano em uma empresa comercial, com sua prestação de contas, seu balanço e suas previsões para a nova gestão. Eles fazem com que se perca o sentido de continuidade da vida e do espírito. Termina-se por acreditar a sério que entre um ano e outro exista uma solução de continuidade e comece uma nova história; fazem-se promessas e projetos, as pessoas se arrependem dos erros cometidos, etc. É um equívoco geral que afeta todas as datas.
Dizem que a cronologia é a ossatura da história. Pode-se admitir que sim. Mas também é preciso admitir que há quatro ou cinco datas fundamentais, que toda pessoa conserva gravadas no cérebro, datas que tiveram efeito devastador na história. Também elas são primeiros dias de ano. O Ano Novo da história romana, ou da Idade Média, ou da era moderna. Elas se tornaram tão presentes que nos surpreendemos a pensar algumas vezes que a vida na Itália começou em 752, e que 1490 ou 1492. São como montanhas que a humanidade ultrapassou de um só golpe para entrar em um novo mundo e em uma nova vida.
Com isso, a data converte-se em um fardo, um parapeito que impede que se veja que a história continua a se desenvolver de acordo com uma mesma linha fundamental, sem interrupções bruscas, como quando o filme se rompe no cinema e se abre um intervalo de luz ofuscante.
Por isso odeio o ano novo ano. Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me. Nenhum dia previamente estabelecido para o descanso. As pausas eu escolho sozinho, quando me sinto embriagado de vida intensa e desejo mergulhar na animalidade para extrair um novo vigor.
Nenhum disfarce espiritual. Cada hora da minha vida eu gostaria que fosse nova, ainda que vinculada às horas já passadas. Nenhum dia de júbilo coletivo obrigatório, a ser compartilhado com estranhos que não me interessam. Só porque festejaram os avós dos nossos avós, etc., teremos também nós de sentir a necessidade de festejar? Tudo isso dá náuseas.
Espero o socialismo também por esta razão. Porque mandará para o lixo todas estas datas que já não têm nenhuma ressonância em nosso espírito. E se o socialismo vier a criar novas datas, ao menos serão as nossas e não aquelas que temos de aceitar sem benefício de inventário dos nossos ignorantes antepassados.
Antonio Gramsci, Turín, 1º de janeiro de 1916.
* Tradução ao português tomando por base o texto em Espanhol Tomado do Livro “Bajo la Mole – Fragmentos de Civilización”, de Antonio Gramsci. Editorial Sequitur, Págs. 9-10.
Tradução: Leandro Lanfredi


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Livro explica conceitos de Gramsci que renovaram o marxismo

Obra da Editora da USP reproduz palestras ocorridas em seminário sobre o filósofo italiano

Por Redação - Editorias: Cultura

Retrato de Antonio Gramsci com cerca de 30 anos – Foto: Domínio público via Wikimedia Commons

Em agosto de 2011, a Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília, promoveu o 4º Seminário Internacional sobre Teoria Política do Socialismo. Na ocasião, comemoravam-se os 120 anos do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937). As palestras proferidas naquela ocasião foram transformadas em artigos, que estão agora reunidos no livro Gramsci – Periferia e Subalternidade, lançado recentemente pela Editora da USP (Edusp).

Organizado professor Marcos Del Roio, da Unesp – um dos maiores especialistas brasileiros na obra de Gramsci -, o livro traz 13 artigos de autores ligados a diferentes universidades do Brasil e do exterior. O prefácio é assinado pelo professor Lincoln Secco, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 

Os artigos se dedicam a analisar ideias com que Gramsci renovou e diversificou o marxismo. Entre essas ideias estão os conceitos de periferias e subalternidades no capitalismo, que, como Roio explica na apresentação do livro, são “categorias espaciais e sociais utilizadas por Gramsci para descrever as relações de força existentes no cenário nacional/internacional e que servem para compreender relações de poder entre classes e entre Estados.”

Os termos “hegemônicos” e “subalternos” utilizados por Gramsci são categorias mais abrangentes do que os clássicos conceitos de “burguesia” e “proletariado” cunhados por Karl Marx (1818-1883), o criador do socialismo científico. É o que afirma o professor Guido Liguori, da Universidade da Calábria, na Itália, no artigo que assina no livro. “A categoria de ‘subalterno’ aparece num quadro de enriquecimento das categorias tradicionais do marxismo”, escreve Liguori. “É já em si significativo que, ao falar de classes ou grupos sociais subalternos, Gramsci compreenda tanto grupos mais ou menos desagregados e marginais quanto o proletariado de fábrica: em outras palavras, tanto os camponeses sardos quanto os operários turineses.”

Citando o historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012), Liguori destaca que uma das peculiaridades das quais nasce a originalidade do marxismo de Gramsci está exatamente no fato de ele haver vivido tanto a experiência de uma região extremamente atrasada, marginal e periférica, como a Sardenha, quanto a de uma grande cidade industrial capitalista como Turim. “Também por isso, o comunista sardo nos pôde oferecer uma categoria como aquela de ‘subalterno’, capaz de abordar conjuntamente os explorados e os oprimidos num sentido mais abrangente que as categorias marxistas tradicionais.”

O livro sobre Gramsci lançado pela Edusp – Foto: Reprodução
Outro artigo do livro que trata de subalternidade é “Gramsci e as ideologias subalternas”, escrito pelo organizador da obra, Marcos Del Roio. De acordo com o professor, interpretando o filósofo italiano, as ideologias das classes subalternas têm como característica essencial ser fragmentadas e desconexas, uma vez que estão sob o influxo das classes dominantes. Por isso, ele cita, a história dos grupos sociais subalternos é necessariamente “desagregada e episódica”, pois os grupos subalternos sofrem sempre a iniciativa dos grupos dominantes, mesmo quando se rebelam e se insurgem. “Daí que, para Gramsci, a transformação dos fundamentos materiais da vida ocorre na medida em que as classes subalternas tomam consciência de sua situação e elaboram uma nova visão de mundo em condições de dirigir a luta política e construir uma nova hegemonia”, escreve o professor. “Mas chegar a esse momento da luta pela hegemonia demanda um percurso muito difícil, já que a acumulação do capital, em seu movimento, tende a subordinar todas as formas produtivas que não tenham o lucro como fim, assim como o domínio da burguesia tende a subordinar todas as ideologias precedentes à sua visão de natureza humana e de homo economicus.”

Outros artigos publicados em Gramsci – Periferia e Subalternidade são “Como pode o subalterno falar?”, de Edmundo Fernandes Dias, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), falecido em 2013, “Da subalternidade ao subalternismo: uma crítica gramsciana aos Subaltern Studies”, de Massimo Modonesi, da Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), e “O protagonismo das periferias e dos subalternos na alternativa desenhada por Gramsci”, de Giovanni Semeraro, da Universidade Federal Fluminense.

Gramsci – Periferia e Subalternidade, de Marcos Del Roio (organizador), Edusp, 312 páginas, R$ 60,00.