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domingo, 2 de março de 2025

Podcast Subsolo #17 - Anita Prestes: Vidas revolucionárias

No 17º episódio, Subsolo recebe a historiadora Anita Prestes. 



Filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes, nascida em 27/11/1936 em uma prisão feminina em Berlim, da Alemanha nazista, separada da mãe aos 14 meses, perseguida pela ditadura, exilada e criada sob o legado da resistência, Anita é uma memória viva da história brasileira. 

Historiadora, doutora em três áreas, é autora de obras essenciais como "A Coluna Prestes", "Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro", "Olga Benário Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo" e "Viver é tomar partido", todas publicadas pela Boitempo Editorial. 

Nesta emocionante entrevista, Anita conta a história de sua família, aborda a epopeia da Coluna Prestes e fala sobre os desafios do mundo atual e o futuro do socialismo. 



Produção

Livraria Leonardo da Vinci

Desenredo Produções

MD Press


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Leocadia Prestes, Mãe Coragem

Por ocasião do 150° aniversário do nascimento de Leocadia Felizardo Prestes (1874-1943), no último dia 11 de maio, o Blog da Boitempo publica texto da historiadora Anita Prestes, neta de Leocadia, em uma importante oportunidade de resgatar a memória dessa mulher brasileira que, como tantas outras suas conterrâneas, revelou, com sua conduta, que “viver é tomar partido”, contribuindo para a luta por um futuro de justiça social e liberdade para nosso povo. 


LEIA O TEXTO COMPLETO CLICANDO NO LINK ABAIXO:

https://blogdaboitempo.com.br/2024/05/11/leocadia-prestes-mae-coragem/


“Señora, hiciste grande, más grande a nuestra América…” (verso do poema Dura Elegia, de autoria do poeta chileno Pablo Neruda, escrito e lido especialmente para o momento do enterro de Leocadia Prestes, em junho de 1943)





sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Conexão Federal: Mulheres da família Prestes, com Anita Prestes


A UFSCar guarda, nas Coleções Especiais de sua Biblioteca Comunitária, a Coleção Luís Carlos Prestes, formada por documentos, recortes de jornais, objetos e outros materiais que contam a história deste que foi uma das principais figuras da história brasileira do Século XX.

Nesta edição de Conexão Federal, a filha de Prestes e Olga Benário - morta pelos nazistas na Alemanha em 1942, onde, em 1936, dera à luz Anita Prestes, separada da mãe aos 14 meses - conversa com a jornalista Mariana Pezzo em meio a cartas, fotografias e objetos de sua infância que fazem parte do acervo, trazendo à tona lembranças e reflexões que, mais que resgatar a memória do passado, nos ajudam a pensar sobre outros futuros possíveis. 

Mais informações sobre a Coleção Luís Carlos Prestes e a produção deste material: https://www.ufscar.br/noticia?codigo=...

Está com pressa? Vá direto ao tópico que te interessa!

14:15 - Anos de formação de Anita Prestes e sua relação com a mãe e o pai, através de correspondência hoje guardada na Coleção Luís Carlos Prestes

27:36 - Saiba mais sobre a Campanha Prestes pela libertação de presos políticos, que levou ao resgate de Anita Prestes, aos 14 meses de idade, pela avó Leocádia e a tia Lygia Prestes, e conheça detalhes da vida dessas mulheres combativas ao longo de toda as suas vidas

42:00 - Anita Prestes fala, de um lado, do comunismo como um ideal de sociedade e, de outro, do socialismo real e os caminhos trilhados, sobretudo, na Antiga União Soviética

52:47 Anita Prestes aborda o anticomunismo, o que classifica como mentiras sobre seu pai e, dentre elas, especialmente a de que teria apoiado Getúlio Vargas e apertado a sua mão


FONTE: Conexão Federal  UFSCar - Universidade Federal de São Carlos -- canal no YouTube


domingo, 5 de novembro de 2023

Documentário "Anita no acervo de Prestes - histórias que viajam no tempo"

O documentário "Anita no acervo de Prestes - histórias que viajam no tempo" traz trechos da entrevista da historiadora Anita Prestes concedida à jornalista Mariana Pezzo, Diretora do Instituto da Cultura Científica da UFSCar, imagens da Coleção Luiz Carlos Prestes da Biblioteca Comunitária (BCo) da UFSCar e, também, depoimentos de gestora e profissionais que vêm trabalhando no acervo, sobre a relevância desses materiais e o impacto que podem ter não somente na melhor compreensão do passado, mas muito especialmente na construção do futuro.



Leia a matéria "Histórias contadas vão de uma infância à transformação social no Brasil", da jornalista Mariana Pezzo, no link: https://www.ufscar.br/noticia?codigo=15768&id=historias-contadas-vao-de-uma-infancia-a-transformacao-social-no-brasil


Contatos das Coleções Especiais-Biblioteca Comunitária da UFSCar, para mais informações sobre a Coleção Prestes: https://www.bco.ufscar.br/acervos/col...


Site do Instituto Luiz Carlos Prestes, para mais informações históricas: https://www.ilcp.org.br/prestes/


Documentário evidencia potencial do acervo (Divulgação)


domingo, 16 de maio de 2021

Neta de Leocádia Prestes critica escola cívico-militar no RS: "Temos que combater"

Prefeito de Porto Alegre (RS) e deputado estadual Tenente-Coronel Zucco indicam escola sem a adesão do conselho escolar

Katia Marko

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 16 de Maio de 2021 às 18:48


Anita Leocádia Prestes, ao lado da foto de sua mãe Olga Benário, lembra que sua avó era professora e antimilitarista e educou os filhos assim também - Arquivo pessoal

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Leocádia Felizardo Prestes, que fica na Cohab Cavalhada, zona sul de Porto Alegre, foi centro de uma polêmica na semana que passou. Na última segunda-feira (10), o deputado Tenente-Coronel Zucco (PSL) lançou um vídeo nas suas redes sociais anunciando que a escola seria a primeira de Porto Alegre a adotar o modelo cívico-militar. O deputado estadual é autor da Lei 15401, de 17/12/2019, que estabelece o Programa Estadual das Escolas Cívico-militares.


Dois dias depois, na tarde de quarta-feira (12), o ministro da Educação, Milton Ribeiro, esteve em Porto Alegre para receber das mãos do deputado a medalha da 55ª Legislatura da Assembleia Legislativa, “uma honraria em reconhecimento ao apoio decisivo do MEC na implementação do modelo de escolas cívico-militar no RS”.


Antes da solenidade, o ministro foi recebido pelo prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, no Paço Municipal. O prefeito, então, encaminhou a indicação da Escola Leocádia Felizardo Prestes, como a primeira a fazer parte do projeto de escolas cívico-militares na Capital gaúcha.


No entanto, a indicação não foi “combinada com os russos”, ou seja, a direção e o conselho escolar não estavam sabendo da indicação. Em uma nota de esclarecimento divulgada na sexta-feira (14), a diretoria da instituição informou que nunca aderiu à proposta. O diretor da escola, Aldemir do Nascimento, disse que recebeu um formulário da Secretaria Municipal de Educação e preencheu. “Minha intenção era oferecer à comunidade escolar a possibilidade de avaliar, entender a proposta e decidir. Não decido nada sem o conselho escolar, por isso manifestei interesse em conhecer as diretrizes.”


Em nota pública, a diretoria da instituição informou que nunca aderiu à proposta / Divulgação



Segundo o diretor, após responder à secretaria, duas representantes da prefeitura visitaram o colégio acompanhadas da vereadora Nádia Gerhard (DEM) e do deputado Tenente-Coronel Zucco (PSL), ambos apoiadores de Bolsonaro. Aldemir sentiu certa pressão – reforçou, então, que precisava dividir a ideia com pais de alunos, professores e estudantes.


A implantação das escolas cívico-militares é uma iniciativa do Ministério da Educação em parceria com o Ministério da Defesa. O critério de escolha das instituições leva em conta regiões de vulnerabilidade social, com extrema violência e indicadores de desempenho abaixo da meta. As escolas devem atender acima de 400 alunos, do 1º ao 9º ano de ensino fundamental, nos turnos da manhã e tarde. Critérios nos quais a EMEF não se enquadra, já que atende a Educação Infantil e EJA.


Em entrevista ao Brasil de Fato, a neta de Leocádia e filha de Luís Carlos Prestes, Anita Leocádia Prestes afirma que a escolha da escola não parece casualidade. “Eu não sei quantas escolas têm em Porto Alegre, mas é uma imensidão de escolas, uma quantidade enorme de escolas públicas. Por que exatamente essa? Parece uma provocação.”


Prestes nasceu em Porto Alegre, no dia 3 de janeiro de 1898. Filho de Antônio Pereira Prestes e de Maria Leocádia Felizardo Prestes, foi militar, político e líder da grande marcha pelo interior do país conhecida como Coluna Prestes. Comandou o Partido Comunista Brasileiro por mais de 50 anos.


Brasil de Fato: Como a senhora vê essa proposta de escolas cívico-militar?


Anita Prestes : A gente tem que combater. Eu sou professora também, e os educadores, especialistas em educação têm se pronunciado, mostrando que isso é uma militarização da escola. É transformar nossas crianças e jovens em robôs para cumprir ordens, uma disciplina militarizada. E não é a disciplina que forma cidadãos. A escola pública deve ter essa missão.


Isso já vem desde os anos 1930, com a escola nova. Essa ideia já foi divulgada e amplamente debatida. Tivemos o educador Paschoal Lemme que teve uma importância muito grande, além de vários outros educadores. A escola pública tem um importante papel, não só de transmitir conhecimento, mas de formar cidadãos brasileiros, pensantes, conscientes.


Essa militarização estilo Bolsonaro é para o pessoal cumprir ordem unida, prestar continência, cantar o hino. Tudo bem que cante o hino, isso eu não tenho nada contra, é bom que saibam o hino nacional, mas isso não pode estar associado a uma ideia de disciplina militar, educar através do castigo, quer dizer, fez alguma coisa que o professor acha que não é correto, vai castigar. Não é assim que se educa as crianças e jovens.


O programa deve ter participação, saber quais são os problemas que essa criança na escola está vivendo, ainda mais escolas de periferia, ter contato com as famílias, para ajudar a criar um ambiente propício justamente pra educar cidadãos. Essa era a mentalidade da minha avó, que foi professora, imagina, lá no início do século passado...


Na sua opinião, como sua avó receberia essa proposta?

Leocádia foi casada com um militar, o meu avô era capitão do Exército, morreu cedo, mas era capitão, serviu em várias unidades, inclusive no Rio Grande do Sul, em Alegrete, Ijuí, vários lugares, e aqui no Rio de Janeiro também.

E ela acompanhando como esposa, ficava indignada, o meu pai conta isso, eu incluí na biografia. Quando eu falo na Leocádia, eu transcrevo um depoimento dele, em que diz que ela era indignada com a forma como ela tinha presenciado os oficiais tratarem os soldados, inclusive com castigos corporais naquela época. Também a corrupção, a roubalheira, a luta por cargos, por promoções dentro do Exército. Então ela era muito antimilitarista.

O meu pai só foi servir no Exército para fazer esse colégio de escola militar por falta de opção. Ele ficou órfão, e a única escola que tinha gratuidade sendo órfão de militar, era o colégio militar e a escola militar. Então por isso que ele foi ser militar, que não era a opção dele de jeito nenhum. E ele sempre contava isso, que tinha sido educado no antimilitarismo, ela era profundamente indignada e contrária ao militarismo.

E minha vó educou os cinco filhos, meu pai e mais quatro irmãs, para serem bons cidadãos brasileiros, participantes da vida política, da vida social, cultural, mesmo na maior dificuldade, que passaram muitas dificuldades, sempre liam os jornais, debatiam os problemas nacionais e internacionais. Ela era uma pessoa participante, e educou os filhos assim também.

Então, é um acinte à memória dela isso, transformar essa escola, que é uma escola bonita... Eu já visitei essa escola três vezes, estive na inauguração que foi em março de 1987, onde meu pai teve presente. Fomos eu e duas das irmãs dele também, a Eloísa e a Lygia. Inclusive tem notícia nos jornais de Porto Alegre, do dia 6 de março de 1987. Foi na gestão do prefeito Alceu Collares. E depois eu voltei duas vezes, a última vez em 1997.

A diretora da época e as professoras faziam um esforço grande no sentido de educação cívica, de cidadãos, daqueles garotos e garotas. Eu me lembro que tinha uma cozinha muito boa, eu até almocei lá com eles, faziam uma comida com muito cuidado, e havia um trabalho interessante. Inclusive eu me lembro que tinha um quadro sobre a vida da Leocádia...

E por que colocaram o nome dela na escola?

A Leocádia foi professora aqui no Rio, na escola pública. Ela veio cedo com o marido doente, veio se tratar aqui no Rio, aí ela ficou aqui. E ela conseguiu ser professora. Inclusive dava aula em escolas em subúrbios distantes aqui do Rio de Janeiro, e pra mulheres donas de casa, empregadas domésticas, comerciárias. Era esse tipo de mulheres que frequentavam as aulas dela que eram noturnas.

O prefeito Alceu Collares e a secretária de Educação na época, que era esposa do prefeito, a dona Neusa, lembraram que ela era uma mulher gaúcha, combativa, e tinha sido professora, então acharam interessante que merecia homenagem. E aí convidaram o Prestes e a família para comparecer, e nós comparecemos.

Livros de Anita Prestes trazem ampla pesquisa sobre a história de seus pais e avós / Divulgação



E a sua vó Leocádia era comunista?

Só com 60 e tantos anos ela se transformou em comunista. E nesse sentido foi muito importante a estada dela na União Soviética. Ela foi acompanhando o meu pai quando ele foi trabalhar como engenheiro em 1931 na União Soviética. Foram ela e as quatro irmãs. Aqui no Brasil e na Argentina não tinha condições de sobreviver.

Lá na União Soviética era extremamente difícil na época, estava no período inicial da revolução, muita dificuldade. No início ela ficou bem chocada, depois ela ficou impressionada com a coragem, a disposição de luta e de trabalho do trabalhador soviético, isso impressionou profundamente, e aí ela resolveu virar comunista. Inclusive aprendeu datilografia, que tinha uma filha que era excelente datilógrafa, para poder ajudar a copiar os documentos do partido.

Então ela era uma mulher muito combativa, você sabe que ela saiu lá da União Soviética acompanhada pela Lygia, a filha mais moça, para dirigir a campanha internacional de solidariedade aqui pela libertação dos presos políticos do Brasil. O resultado dessa campanha é que ela conseguiu me resgatar da prisão, tinha uma pressão internacional muito grande, e para ela isso foi muito difícil, porque embora fosse muito participante, nunca tinha participado diretamente assim da política. Apoiava o filho, mas diretamente participar de uma campanha internacional, dar entrevistas, todas essas atividades foram muito pesadas pra ela, já doente, com idade, mais de 60 anos.

Além disso, estava muito golpeada com a prisão do filho aqui no Brasil. No primeiro ano não tinha notícia nenhuma, não sabia o que estava acontecendo com ele. E logo depois a Olga, minha mãe, foi extraditada para a Alemanha. Eu nasci na Alemanha, e no início foi uma dificuldade muito grande. Eu já tinha mais de um ano quando ela conseguiu me resgatar. Mas isso fruto de uma pressão internacional muito grande.

Eu fiz uma pesquisa para o meu livro “Olga Benário Prestes: uma comunista na Gestapo”. E essa documentação é muito interessante, os alemães são muito organizados, tudo estava lá informado. A quantidade de telegramas, cartas, moções do mundo inteiro que chegavam para as autoridades alemãs, exigindo melhores condições para Olga e a minha libertação e a libertação da Olga. Foi uma pressão muito grande e levou as autoridades alemãs a chegarem a conclusão que era melhor se livrar de mim, já que tinha essa avó que estava lá batendo na porta e querendo me levar. Depois disso, minha mãe ainda viveu quatro anos.

Eu nasci numa prisão em Berlim. Após a minha libertação, ela foi transferida para os campos de concentração. Aí era outra barra muito pior, ela ainda passou quatro anos em campos de concentração até ser assassinada. E eles escreviam nos documentos que ela não podia ser libertada de jeito nenhum, enquanto não delatasse os companheiros, isso ela sempre se recusou. Tem até uma frase lá no depoimento dela, que diz: “se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei”. Ela nunca se submeteu a delatar quem quer que fosse. Com isso, a barra foi muito pesada, acabou sendo assassinada numa câmara de gás. Não foi só ela, teve muitos outros. Eles diziam que ela era uma comunista perigosa, que não tinha jeito, não tinha correção. As informações que trazem essa documentação são muito importantes, por um lado a barbárie do nazismo, por outro lado, a coragem, a honra de outros companheiros também, que resistiram, mesmo nas condições mais terríveis em campos de concentração.

O que lhe pareceu o deputado ir fazer esse vídeo justamente na escola Leocádia Prestes, mesmo sem a confirmação da direção?

Não parece casualidade, né? Eu não sei quantas escolas têm em Porto Alegre, mas é uma imensidão de escolas, uma quantidade enorme de escolas públicas. Por que exatamente essa? Parece uma provocação.

Mas a nota dos diretores da escola é interessante, eles deixam muito claro que não foram convidados, eles não estão sabendo de coisa nenhuma, isso foi uma imposição e muito desagradável. A nota diz que começaram a usar, inclusive vídeo dos professores, sendo que os professores não foram consultados, e a comunidade muito menos.

Aliás, como diz na nota, a escola tem educação infantil e EJA, não podia ser transformada em escola cívico-militar. Parece que uma das normas para transformar a escola em cívico-militar é que não tenha nem educação infantil, nem EJA. Eles alegam isso aí. Então já por isso não poderia ser. Ora, em primeiro lugar não foi consultada a comunidade, em segundo, é uma atitude de capitulação.

Um dos argumentos para esse modelo é acabar com a violência. Na sua visão essa é a melhor forma?

A Cavalhada é um bairro da periferia, parece que tem muita violência lá, aliás como em toda a parte, em todas as periferias. Mas a maneira de combater essa violência não é criando escola cívico-militar. Aqui no Rio teve a experiência dos CIEPs com Leonel Brizola, que realmente revelou isso. Esse modelo de escolas de dia inteiro, onde a criança ia de manhã e passava lá o dia inteiro recebendo não só aula e fazendo o programa escolar, como pesquisas, esportes, várias atividades culturais, alimentação... A criança já chegava em casa de noite de banho tomado, alimentado.

Então isso é o que iria propiciar, se tivesse prosseguido, tirar essas crianças da rua, transformar essas crianças em cidadãos. E a assistência que também era dada pelo CIEP às famílias dessas crianças, isso era muito importante. Tinha no Rio o CIEP Olga Benário, que até o meu pai inaugurou. A gente visitou na inauguração e voltamos um ano depois. A diferença que a gente sentiu naquelas crianças era emocionante, porque as crianças estavam mais bem dispostas, todas com seus uniformes, fazendo pesquisa, tinham microscópios, e todas animadas fazendo pesquisa. Levaram meu pai para ver os laboratórios que eles tinham. Olha, realmente em um ano as crianças eram outras.

Não é a escola cívico-militar que vai tirar essas crianças da rua e do crime. Aqui esses morros do Rio de Janeiro, agora o Jacarezinho, qual é a perspectiva que tem esses garotos, às vezes pequenos, de 10, 11, 12 anos. Escola, não presta, né. Trabalho também não tem. Então, o que sobra para eles é justamente o tráfico, onde eles vão ganhar dinheiro e vão poder comprar coisas que eles aspiram, que a televisão mete na cabeça deles, tênis não sei como, camiseta também de modelo tal...

Depoimentos de garotos de 16, 17, 18 anos, menores de idade, que sabem que vão morrer cedo no crime, mas enquanto estão vivos eles estão aproveitando, compram as coisas que eles querem. É uma coisa trágica. E não é a maneira de resolver o problema da violência. Isso que eu acho que inclusive é importante esclarecer às populações, porque às vezes as pessoas estão mal informadas, e acompanham essa propaganda que através de escolas militarizadas, disciplina rigorosa, que isso é que vai resolver. Não vai resolver. A experiência internacional tem escrito a respeito, não resolve, não é com a violência que se resolve. É com educação, com boa educação.

Na sua campanha eleitoral, o Bolsonaro dizia que ele ia destruir tudo, ia acabar com tudo. É isso que ele está tentando fazer, acabando com a cultura, com a educação, com a saúde, com todos os aspectos importantes da vida do ser humano.


terça-feira, 11 de maio de 2021

As cartas de Luiz Carlos Prestes que iriam a leilão

Por Anita Leocadia Prestes

No artigo são relatados os fatos relacionados com o aparecimento de mais de 300 cartas dirigidas a Luiz Carlos Prestes que iriam a leilão em novembro de 2018. Após dois anos de diligências na Justiça, as cartas foram entregues a quem de direito: Anita Leocadia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes. São destacados aspectos marcantes da personalidade dos personagens envolvidos nessa correspondência: Olga Benario Prestes, Leocadia Prestes, Ermelinda Felizardo, Lygia Prestes.


CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA LER O ARTIGO NA ÍNTEGRA:

  <https://periodicos.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/43191>.


PRESTES, Anita Leocadia. As cartas de Luiz Carlos Prestes que iriam a leilão. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 13, n. 1, p. 653-661, mai. 2021. 


A historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga Benario Prestes e Luiz Carlos Prestes, recebeu as 319 cartas endereçadas ao seu pai por familiares. Depois de 2 anos de luta na Justiça, Anita ganhou o processo. Foto de 22/10/2020.


sábado, 5 de outubro de 2019

Depoimento de Anita Prestes ao programa Digitais Femininas

Anita Prestes revela segredos da Gestapo sobre Olga Benario Prestes, sua mãe, revolucionária comunista alemã, assassinada em 1942.








autor: Anita Leocadia Prestes
orelha: Fernando Morais
selo:Boitempo
páginas:144
publicação:2017
ISBN:9788575595497


Essa breve narrativa biográfica contém não apenas preciosidades históricas e raridades documentais – que, por si sós, já valeriam a leitura –, ela oferece a perfeita dimensão da luta diária de Olga Benario Prestes por seus ideais, mesmo nas condições mais adversas. A resistência da jovem revolucionária diante da gigantesca e cruel máquina do Terceiro Reich, que a considerava uma “comunista perigosa”, parece ainda pulsar nestas páginas, como se seu coração, calado há 75 anos, ainda batesse. Um coração destemido, que, encarcerado, soube conjugar a luta política, o amor pelo grande companheiro e a preocupação com a educação da filha, de quem fora afastada prematuramente.

Após a abertura dos arquivos da Gestapo, essa filha, a historiadora Anita Leocadia Prestes, debruçou-se sobre as cerca de 2 mil páginas a respeito de Olga, recheadas de documentos inéditos, para trazer à tona informações até então desconhecidas. Com base nos documentos, a autora constrói uma narrativa cronológica que vai da  inserção da jovem Olga na luta política até sua morte na câmara de gás do campo de concentração de Bernburg, em abril de 1942, revelando a firmeza inabalável da revolucionária. Enquanto, na prisão, Olga nutria esperanças de conseguir asilo em outro país, e, fora dela, sua sogra e sua cunhada faziam de tudo para que ela fosse libertada, os nazistas nunca consideraram essa hipótese. No entanto, ela jamais se curvou a seus algozes, jamais entregou companheiros e nem sequer revelou suas atividades políticas, ainda que a chantageassem com a perspectiva de voltar a ver a filha. Após o relato biográfico há um caderno de fotos e uma série de anexos com a reprodução de documentos, como o passaporte que Olga se negou a assinar, fotos encontradas no arquivo da Gestapo e a tradução e a reprodução da correspondência inédita de Olga e Prestes, entre outros. Mais do que peças faltantes no quebra-cabeça da história, os documentos reproduzidos nessa obra nos permitem enxergar o presente com outros olhos.


Trechos da orelha, por Fernando Morais

Qualquer pesquisador se sentiria diante de uma mina de ouro ao deparar com o acervo histórico que deu origem a este livro. No coração de Moscou jazia o tesouro composto por nada menos que 2,5 milhões de documentos separados em 28 mil dossiês, estes, por sua vez, organizados em 50 catálogos. Não por acaso essa montanha de informações era conhecida como os Trophäen-dokumente, os “documentos-troféus” acumulados pela Gestapo, a polícia secreta do Reich, o regime nazista alemão que aterrorizou o mundo durante doze anos. Apreendida pelo Exército Vermelho após a derrota da Alemanha, em 1945, a documentação foi preservada pela União Soviética e começou a ser aberta para consulta pública dois anos atrás.

Para Anita Leocadia Prestes, descobridora do filão, porém, a pesquisa nesse rico material envolvia mais que a curiosidade acadêmica de uma historiadora. O objeto de seu olhar e de seu trabalho eram os oito dossiês contendo cerca de 2 mil documentos que a Gestapo arquivou com o título de “Processo Benario” – o acervo da polícia secreta nazista sobre sua mãe, a revolucionária Olga Benario Prestes. Trata-se do mais extenso rol de documentos sobre uma única vítima do nazismo, o que permite medir a importância atribuída pelo Terceiro Reich à então mulher do líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes.

Além de mais de meia centena de cartas inéditas, trocadas entre Olga, o marido, preso no Brasil, a sogra, Leocadia Prestes, e as cunhadas Clotilde, Lygia, Eloiza e Lúcia, o acervo vasculhado pela historiadora Anita Prestes revela minúcias do monitoramento a que Olga era submetida pelas autoridades em todas as prisões e campos de concentração em que esteve entre 1936 e 1942, quando foi executada em uma câmara de gás.

Mais que uma excelente obra de referência, Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo é a pungente, dolorosa história de uma revolucionária exemplar.

sábado, 28 de setembro de 2019

Heroína absoluta e brasileira referencial: Leocadia Prestes nas palavras da atriz Fernanda Montenegro

"Senhora, fizeste grande, tão grande a nossa América/deste-lhe um puro rio, de águas colossais:/deste-lhe uma árvore alta de infinitas raízes:/um  filho teu, digno de sua pátria profunda" (trecho do poema Dura Elegia, escrito pelo poeta chileno Pablo Neruda, especialmente para o triste momento do falecimento de Leocadia Prestes, em junho de 1943)

Leocadia Prestes durante a Campanha Prestes em Londres, na Inglaterra, junho de 1936. Fernanda Montenegro interpretando Leocadia Prestes no filme "Olga" (2004).


Fernanda Montenegro faz 90 anos no próximo dia 16 de outubro. Somando 70 de teatro, ela lança, com a colaboração de Marta Góes, a autobiografia “Prólogo, Ato, Epílogo” (Editora Companhia das Letras, 2019), pontuada por testemunhos da grande atriz do teatro brasileiro, mas também do cinema, da TV e do rádio. Na página 240, Fernanda Montenegro afirma que "às vezes os personagens de uma história são também determinantes para que eu aceite um convite". explicando que foi o que aconteceu ao aceitar participar do filme Olga, de Jayme Monjardim, interpretando a mãe do líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990). Em um parágrafo, Fernanda Montenegro faz uma exaltação à figura de Leocadia Felizardo Prestes (1874-1943), classificando-a como pertencente "à galeria das heroínas absolutas" e "uma brasileira referencial".

Abaixo a imagem do parágrafo na página 240 do livro “Prólogo, Ato, Epílogo”, autobiografia de Fernanda Montenegro.



PRÓLOGO, ATO, EPÍLOGO
 (392 págs.)
Autor Fernanda Montenegro, com a colaboração de Marta Góes
Editora Companhia das Letras



Veja também:



Fotos do funeral de Leocadia Prestes na Cidade do México, junho de 1943.
Fotos do livro "Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro" (Boitempo, 2015)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

TJ mantém decisão de devolver as cartas de Prestes e Olga para a filha do casal

A 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cível negou recurso da leiloeira Soraia Cals; sentença dá 15 dias para devolução, mas a decisão cabe recurso ao STJ e STF

Anita Leocadia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes 


Juliana Dal Piva
O Globo
04/06/2019 

RIO — O Tribunal de Justiça do Rio manteve a decisão sobre a devolução de um conjunto de 319 cartas do comunista Luís Carlos Prestes e de sua primeira mulher Olga Benário, que iria a leilão em novembro, para a filha do casal, Anita Leocádia Prestes. A decisão é da 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cível  e foi unânime. Em março deste ano, o juiz tabelar Fernando Rocha Lovisi, do 6º Juizado Especial Cível, já tinha emitido decisão favorável a filha de Prestes . De acordo com a nova sentença emitida em 29 de maio e publicada nesta terça-feira (4), as cartas devem ser devolvidas em 15 dias após o trânsito em julgado. Novos recursos só podem ser apresentados ao Superior Tribunal de Justiça ou ao Supremo Tribunal Federal.

Postal de Anita Prestes ao pai em 1945 Foto: José Casado / Agência O Globo


Anita entrou com uma ação para impedir que o lote com as correspondências — de Olga Benário (mulher do líder comunista), de Anita e da mãe de Prestes, Leocádia —  fosse à leilão depois que uma reportagem do GLOBO revelou a existência do leilão de cartas e como, de modo ainda desconhecido, elas foram achadas no lixo de Copacabana. Posteriormente o material foi revendido ao comerciante Carlos Otávio Gouvêa Faria, por um valor não divulgado.


Ainda em novembro, o TJ já tinha emitido uma decisão liminar, a pedido de Anita Leocádia Prestes, para impedir que documentação fosse vendida . Soraia Cals, responsável pelo pregão à época, disse que o lance mínimo era de R$ 320 mil no lote.

O relator do caso na 3ª Turma Recursal , juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira, escreveu que “não se nega que a Recorrida é filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário como tal, herdeira de ambos, sendo, em relação à segunda, notoriamente a única herdeira em virtude do falecimento de Olga Benário nas prisões do regime nazista”. O magistrado ressaltou ainda que “a alegação de que existem outros herdeiros de Luiz Carlos Prestes não serve como suporte para a arguição de ilegitimidade”. Segundo ele, “o que está em debate nesta demanda é direito de personalidade dos pais da Recorrida, cujo conteúdo particular foi ressaltado pelos próprios recorrentes ao anunciar o leilão das cartas”.

Anita Prestes disse que está feliz com a decisão porque também foi uma "causa justa".

- Foi uma vitória importante dos advogados - disse ela, ao falar que aguarda para receber o conjunto que ainda não teve possibilidade de ler completamente.

- Eu quero examinar essas cartas. Inclusive, tem um valor emocional grande porque principalmente pareciam ser cartas da minha avó para o meu pai quando nós estavámos no México e eu era criança. O assunto era eu e ele não me conhecia. Tenho interesse de ler - contou ela.

Uma das cartas de Olga Benário para Prestes encontradas no lixo Foto: Jose Casado/ Agência O Globo


Procurada, Soraia Cals disse que não sabe ainda se irá recorrer da decisão, mas que, ao menos,  "o juiz reconhece o direito do Cacá ser recompensado por essa descoberta. Dando incentivo aos catadores de objetos a entregarem seus achados sem sentirem medo".

A historiadora disse que pretende conversar com o Arquivo Público do estado do Rio para disponibilizar o material para digitalização, mas a doação do material físico será para a Universidade Federal de São Carlos - que cuida do acervo pessoal de Prestes.

Na primeira decisão do caso, o juiz tabelar Fernando Rocha Lovisi entendeu que mesmo que a documentação tivesse integrado acervo público em algum período ela não foi extraviada do Arquivo Público do Rio de Janeiro que recebeu a documentação oriunda da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) em 1992.

“Assim, se do Aperj não foram extraviadas, para lá não devem ser enviadas. Mesmo porque, agora, dado ao lapso de tempo decorrido desde 1992 até a descoberta do leilão em 2018, entendo que deve o lote ser entregue à parte autora, historiadora da UFRJ, que, certamente, dará a destinação a que alude nestes autos e que melhor dignificará a história vivida por seus pais. Ademais, entendo que as cartas, muitas delas escritas por Olga Benário, como também asseverado pelo Aperj, possuem caráter estritamente pessoal, pois redigidas por uma mulher ao homem que amava, em momentos de insofismável tristeza e angústia por conta do encarceramento de ambos, e pela filha deles ao pai, dentre outras”, descreveu o juiz Lovisi.

Carta enviada por Olga da prisão a Prestes Foto: Agência O Globo


A sentença também tinha ressaltado o caráter pessoal da documentação. “Não obstante a inegável carga histórica, entendo que o conteúdo das cartas dizem respeito somente à parte autora, única filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, que as trará a público se assim lhe aprouver”, apontou o juiz na decisão.

Para resolver o impasse, o magistrado também descartou o mistério que envolve o lugar onde essas cartas estavam guardadas até o ano passado. Para ele, o importante é que se desconhecia o paradeiro destes documentos anteriormente. “Importante ressaltar que é desinfluente para o deslinde desta controvérsia se o lote de cartas foi extraviado do Partido Comunista por agentes que adentraram o recinto quando do cancelamento de seu registro pelo TSE em 1947, como afirma a parte autora, ou se o próprio Luiz Carlos Prestes ou seus sucessores o abandonou no lixo, conforme tese da defesa, embora não seja crível para este Juízo essa segunda alegação”, decidiu o juiz.

FONTEO Globo

domingo, 2 de dezembro de 2018

Cartas de Olga e Prestes que iam a leilão podem ter sido levadas do PCB

Novo arquivo descoberto mostra chefe de gabinete de Filinto Muller com carta de Leocádia Prestes em 1937

POR JULIANA DAL PIVA
O GLOBO, 02/12/2018


Anita Prestes ao lado do quadro Olga Benario Prestes, pintado por Candido Portinari. Museu Nacional de Belas Artes.
Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2018.


A existência de um lote de 319 cartas endereçadas ao dirigente do Partido Comunista Brasileiro Luís Carlos Prestes criou um mistério sobre quando e como essas cartas se perderam de seus destinatários. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Anita Leocádia Prestes, filha do líder comunista, conta que identificou no lote duas cartas escritas por ela quando o pai já estava fora da prisão e diz que as correspondências foram levadas da sede do partido entre 1945 e 1947. Na última semana, o GLOBO investigou a possível participação de um homem de confiança de Filinto Muller, então chefe da Polícia Política, no desaparecimento das cartas de Prestes.

DO MÉXICO, 7 DE MAIO DE 1945

Anita Prestes na infância - José Casado / Agência O Globo


No dia sete de maio de 1945, a pequena Anita Leocádia, então com oito anos, escreveu ao pai Luís Carlos Prestes. “Querido papá, te mando este pequeno recuerdo. Besitos de Anita Leocádia”. Alfabetizada apenas em espanhol, ela marcou ao final a data: “México, VII-5-1945”. Os dois sequer se conheciam, já que ela nasceu em uma prisão nazista após a deportação de Olga Benário, mulher de Prestes. Essa e uma outra carta dela de 13 de janeiro de 1947 foram recebidas pelo líder do Partido Comunista Brasileiro depois de sua libertação em 18 de abril de 1945 - ambas integram o lote que iria a leilão na semana passada, mas que foi suspenso por decisão liminar do Tribunal de Justiça do Rio.

A constatação veio depois que Anita olhou pela primeira vez ontem as cartas desse lote. Ela diz não ter dúvidas de que os documentos que foram encontrados este ano foram roubados da sede do PCB em dois saques que a legenda sofreu entre 1945 e 1947. O primeiro ataque ocorreu logo depois que Getulio Vargas deixou o governo, no fim do chamado Estado Novo, em outubro de 1945. Já o segundo, quando o partido foi proibido, em maio de 1947.

Postal de Anita Prestes ao pai em 1945 - José Casado / Agência O Globo


— A polícia invadiu e depredou a sede do partido. Até máquinas de escrever foram destruídas, uma fogueira foi feita na porta da sede do partido - contou Anita ao GLOBO. — Depois teve uma segunda invasão (em 1947). Tem uma cartinha minha de criança, eu tinha uns 10 anos à época, de janeiro de 1947, então meu pai já estava solto há muito tempo. Essas cartinhas só podiam estar na sede do partido. Inclusive não tem carimbo da censura.

Anita explica que o pai não tinha casa quando deixou a prisão e, por isso, guardava os documentos na sede do partido - um sobrado na rua da Glória, número 52. Ao sair do cárcere, ele levou cartas de Olga e de outros amigos e parentes que estavam com ele. Mas acabou perdendo os documentos com a perseguição.

O mistério em torno das cartas de Olga e Prestes surgiu depois que o GLOBO revelou a existência dos documentos que iam a leilão há duas semanas. Eles foram comprados há quatro meses em uma feira na Praça XV, no Centro do Rio, por Carlos Otávio Gouvêa Faria, conhecido como Cacá, e teriam sido encontradas por um catador de lixo em Copacabana. O material teria lance mínimo de R$ 320 mil.

HOMEM DE CONFIANÇA DE FILINTO MULLER: ISRAEL SOUTO

Israel Souto, delegado e homem de confiança de Filinto Muller - Reprodução

De um novo lote de documentos descoberto por Cacá, pode surgir uma pista de quem guardou as cartas originais de Olga e Prestes durante décadas. Há 10 dias Cacá disse que foi chamado por conhecidos em um ferro-velho para buscar mais documentos que “poderiam interessá-lo”. Ao chegar no local, recebeu uma sacola de plástico preta com diversas pastas. Dentro inúmeros papéis com cabeçalhos da Delegacia de Ordem Política e Social assinados ou endereçados a Israel Souto.

Em uma pasta de papel azul, a terceira página era uma carta de Leocádia Prestes, mãe do líder comunista, ao advogado Heráclito Sobral Pinto, que defendia Prestes, à época. Na correspondência, em outubro de 1937, ela diz que ficou nervosa ao saber da decretação do estado de guerra em 1º de outubro daquele ano. “Fui assaltada por graves preocupações receando uma séria agravação na vida já tão penosa do meu filho e também que v. excelência, que tantos sacrifícios tem feito pela defesa do meu filho”. Ela agradece os "inestimáveis serviços prestados por v.excelência, à causa de minha netinha" e pede a entrega de “um anel dos cabelos de minha netinha que tomo liberdade de pedir”. No final da pasta, uma foto de Filinto Muller assinada com a seguinte mensagem: “Ao Souto, com amizade.” Assinou F. Muller em 10 de outubro de 1935.

No dia 7 de março de 1936, dois dias após a prisão de Prestes e Olga, o GLOBO e o Correio da Manhã noticiaram que o então ministro da Justiça, Vicente Rao, tinha visitado a chefatura de Polícia para cumprimentar Filinto Muller, então chefe de Polícia, pela operação que prendeu Prestes. Junto com ele neste momento estava Israel Souto, delegado especial e diretor geral do Departamento de Publicidade e Estatística e secretário da chefia.

— Vim aqui especialmente para lhe trazer as felicitações do presidente da República pelo êxito sensacional das diligências — disse Rao, na ocasião. Meses depois, Souto seria chefe de gabinete de Muller e até substituiria o chefe interinamente.

No mesmo arquivo, também descobre-se que Souto guardou fichas de integralistas e peças de inquéritos sobre diferentes pessoas.

— Tudo indica que isso era do Israel. Tem a foto do Filinto oferecendo a ele esse troço todo — afirmou Cacá, ao mostrar o material ao GLOBO. Questionado se as cartas de Olga poderiam fazer parte do material, ele reiterou que os documentos foram encontrados em locais diferentes, mas disse que quando adquiriu as cartas dois cartões que censuravam filmes estavam em cima das cartas e foram comprados por outra pessoa, pouco antes dele.

Em 1944, Souto foi diretor de Cinema e Teatro do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela censura. Ele morreu em 1962.

"ESSA CARTA (DA GRAVIDEZ) NÃO FOI DIVULGADA"

Anita Prestes, filha de Luís Carlos Prestes, encontrou suas cartas no lote que ia para leilão - Guito Moreto / Agência O Globo


Desde que foi divulgada a existência de um lote de cartas que iria a leilão, Anita Leocádia Prestes dedicou-se a pesquisar sobre a procedência das cartas e até pensou que poderiam ter sido levadas do Arquivo Público do Estado do Rio (Aperj). Depois de verificar o material na última semana, ela conversou com O GLOBO e contou que constatou que o material do Aperj está integral. Anita disse que, agora, irá comunicar essas informações ao Judiciário e aguardará a decisão sobre a propriedade das cartas.

Depois de olhar as cartas do leilão e as do arquivo o que você verificou?

Num primeiro momento, quando me foi informado que existia esse lote de cartas, me veio à cabeça o Arquivo Público do Estado do Rio. Porque uma parte das cartas estava conosco, com a minha tia (Lygia Prestes) que eu doei para (Universidade de) São Carlos. E tinha outra parte, muitas são cópias, que estava no arquivo. Depois eu comecei a pensar e, não só isso, eu vi (no lote do leilão) um cartão meu de 1945, no período posterior à soltura do meu pai e também tem uma cartinha inclusive de 1947, aí eu me lembrei, isso era da sede do partido.

Então esse material teria sido levado depois que seu pai foi solto?

Meu pai junto com os outros presos políticos foi libertado no dia 18 de abril de 1945, com a anistia que Getúlio deu. Ele não tinha casa. Ficou hospedado na casa de amigos e a documentação que levou com ele, cartas, livros, botou na sede do Partido Comunista, que já estava legalizado. Rua da Glória, 52. Um sobrado velho que não existe mais. Ele tinha escritório ali, era secretário-geral do partido. Dia 29 de outubro de 1945 houve o golpe que derrubou Getúlio Vargas, só que Getúlio tomou um avião e foi tranquilo para São Borja. Quem foram os perseguidos e atacados? Os comunistas. Os dirigentes inclusive ficaram clandestinos e a polícia invadiu e depredou a sede do partido. Até máquinas de escrever foram destruídas, uma fogueira foi feita na porta da sede do partido. Pedaços de carta da minha vó surgiram dias depois e desapareceram as cartas, isso eu me lembro, tanto meu pai como a minha tia lamentavam que as cartas principalmente da minha avó tinham se perdido. Algumas cópias sobraram. Depois teve uma segunda invasão. Tem uma cartinha minha de criança, eu tinha 10 anos à época, de janeiro de 1947. Então meu pai já estava solto há muito tempo. Essa cartinha só podia estar na sede do partido. Inclusive não tem carimbo da censura.

Quando foi o segundo saque?

Foi em maio de 1947. No dia 7 de maio de 1947, o partido foi proibido e imediatamente a polícia invadiu a sede e depredou de novo e apreendeu novamente coisas. Na mesma sede, na rua da Glória.

A senhora então acredita que a documentação foi levada nessas ocasiões?

Está muito claro que essa documentação foi apreendida nessas duas invasões que houve na sede do partido. Só pode ter sido levada por um policial. O importante é saber que essa documentação foi apreendida no Comitê Central do Partido (Comunista) e me pertence porque sou a única herdeira. Sou a única filha de Olga e Prestes.

E a carta de sua mãe sobre a gravidez?

Essa carta não estava no arquivo. Eu tinha visto esse prontuário lá pelo ano 2000, então já não me lembrava direito. Tanto que num primeiro momento eu imaginei que pudesse ser uma das cartas que estavam lá. Mas não é. As sete cartas que estavam lá (no arquivo) continuam.

Já tinha visto essa?

Não tinha visto essa. Mas tem as outras que são parecidas, tratam da mesma temática. Essa carta não foi divulgada. Eu pensei que fosse uma das que eu já tinha visto porque a temática é parecida. O problema da gravidez, de ser extraditada. Essa problemática da carta, como eu já tinha visto há muito tempo, eu já não lembrava exatamente.

Alguma dúvida de que as cartas são de sua família?

Dúvida nenhuma. As letras estão lá muito claras. A grande maioria das cartas da minha mãe, não sei se você sabe desse detalhe, a Gestapo, a polícia nazista, não permitia que ela recebesse carta ou expedisse cartas em outro idioma que não fosse o alemão. Então, isso era um problema porque a minha família e o meu pai não sabiam alemão. Então a solidariedade internacional funcionou também. Minha tia com a minha avó estavam em Paris. Elas recebiam as cartas e mandavam traduzir. Tinha um grupo de amigos, companheiros, que traduziam para o francês e mandavam para o meu pai. Ele fazia a mesma coisa em caminho inverso. Os originais, minha tia Lygia guardou.

SOUTO E A COLABORAÇÃO DE BRASIL E ARGENTINA

Filinto Muller e a seu lado, à direita, Israel Souto - Reprodução


Entre as missões confiadas por Filinto Muller, Israel Souto recebeu a tarefa de acompanhar como os países vizinhos faziam a repressão a comunistas. Na biografia de Muller, do brasilianista R.S.Rose, está descrita essa função e como Souto esteve em Buenos Aires e Montevideo buscando essas informações.

No seu arquivo, permanecia inédito até agora um relatório no qual é descrito um projeto do governo argentino para que o Brasil se comprometesse a expulsar comunistas argentinos que tentassem ir para o Brasil. Desse modo, os vizinhos fariam o mesmo. O relatório de 13 de janeiro de 1938 submetia a Filinto Muller o acordo.

“Tenho a honra de submeter ao exame e apreciação de vossa excelência o incluso projeto de convenção de prevenção e repressão ao terrorismo, que nos é proposto pelo governo argentino e que nos foi encaminhado pela embaixada do Brasil em Buenos Aires”, descreve o documento. “Convém esclarecer que a expressão terrorismo, empregada pelo governo argentino, corresponde, na verdade, segundo informa nosso encarregado de negócios em Buenos Aires, a de comunismo no Brasil”, completa. Na pasta, não consta resposta de Muller.

Mais tarde, em 1944, quando ele era diretor do DIP, Souto teve destaque nos jornais argentinos ao receber um convite dos Estudios San Miguel e da produtora Artistas Argentinos Asociados para participar de eventos de cinema em Buenos Aires. Em seu arquivo, estavam diversos recortes de jornal com fotos da visita em papeis com cabeçalho do DIP.

FONTE: O Globo

domingo, 12 de agosto de 2018

A personagem Leocadia Prestes nas memórias fotográficas de Fernanda Montenegro

A atriz Fernanda Montenegro, 88 anos, lançou neste ano de 2018, um livro de memórias fotográficas, que relembra a histórias dos seus 75 anos de carreira. Organizada pela própria atriz, a obra  "Fernanda Montenegro: Itinerário fotobiográfico" reúne imagens que contam a sua trajetória pessoal e profissional, que se mistura à memória da dramaturgia nacional. Entre suas memórias, na página 257, está a personagem vivida no filme "Olga", direção de Jayme Monjardim, Leocadia Felizardo Prestes (1874-1943), mãe do líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990), uma mulher forte que liderou, ao lado da filha caçula, Lygia Prestes (1913-2007), uma campanha internacional pela liberdade dos presos políticos no Brasil da Era Vargas, entre eles seu filho, pela liberdade de sua nora Olga Benario Prestes (1908-1942), que fora deportada no sétimo mês de gravidez para a Alemanha nazista, e pela liberdade de sua neta, Anita Leocadia Prestes, nascida em novembro de 1936, em uma prisão feminina da Gestapo, em Berlim.





FERNANDA MONTENEGRO:
Itinerário fotobiográfico
FERNANDA MONTENEGRO (Org.)
Edições Sesc São Paulo, 2018



terça-feira, 20 de março de 2018

Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (BCo) recebe acervo de Luiz Carlos Prestes

Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (BCo) recebe acervo de Luiz Carlos Prestes (03/01/1898–07/03/1990) um ilustre personagem da história brasileira, que foi militar e político comunista, uma das personalidades políticas mais influentes no país durante o século XX.

O acervo é composto de diversos tipos documentais e bibliográficos.

Esta Coleção não contém apenas a biblioteca de livros adquiridos por Luiz Carlos Prestes (LCP), mas também rica documentação de arquivo relativa à vida de LCP e objetos pertencentes a este. 

Roniberto M. Amaral (Diretor do SIBi/UFSCar); Marisa C. Lozano ( Diretora da BCo); Izabel Franco ( Coleções Especiais da BCo); Profa. Dra. Anita Prestes; Luiz Ragon (Instituto Luiz Carlos Prestes); Claudia Oliveira; Lívia Reis; Siomara Prado e Sabrina Sena ( Equipe Coleções Especiais da BCo - DeCORE)


Nesta segunda-feira, dia 19 de março de 2018, a Biblioteca Comunitária da UFSCar (BCo) recebeu a visita de Luiz Ragon (Instituto Luiz Carlos Prestes) e da ilustre historiadora Profa. Dra. Anita Leocadia Prestes, doadora do acervo que agora se intitula “Coleção Luiz Carlos Prestes” e que está localizada no Piso 5 da BCo (em processo de inventário e aguardando processamento técnico). 

A historiadora Anita agradeceu em nome do Instituto Luiz Carlos Prestes pelo interesse da UFSCar no acervo que é de relevância histórica e enfatizou o mérito de sua tia Lygia Prestes que com grande esforço preservou uma pequena parte deste acervo, pois grande parte se perdeu com o exílio de Prestes, perseguições e sua prisão. O acervo doado pela historiadora compõe um conjunto representativo de materiais diversificados tais como: livros da prisão com carimbo da “Casa de Correção, RJ” - 1936-1945, muitos deles com anotações; livros pós - prisão (1948-1958) com dedicatórias, uma vasta documentação e vários objetos entre outros materiais.

Reunião: Profa. Anita, BCo e SIBi/UFSCar


A historiadora citou alguns documentos que estão presentes neste acervo como: recortes de jornais; jornais do golpe de 1964, Campanha Prestes, correspondências originais e cópias, inclusive da prisão; pastas com documentação levantada pela historiadora tanto no Brasil quanto em Moscou, entre outros.

Nesta coleção podemos encontrar várias curiosidades: miniatura (em redoma) de autoria do artista José Mauro de Oliveira – uma tipografia clandestina nos anos 30 – homenagem a L.C. Prestes; terno usado por Prestes no seu julgamento no ano de  1936 fornecido  por sua mãe Leocadia (enviado de Paris); capote (vestuário) que Anita usava com 1 ano e 2 meses ao ser separada da sua mãe Olga Benario na prisão feminina de Barnimstrasse, em Berlim; máquina de escrever do ano 1927; vitrola antiga pertencente a Prestes no exílio em Buenos Aires (1928-1930). 

Em resumo a coleção integra uma pequena mostra de vários objetos que pertenceram a Prestes. Neste acervo vale a pena citar uma raridade: um livro do período pré-prisão (1928), em que Prestes tinha grande apreço por esta obra pois se tratava de “Os Sertões” de Euclides da Cunha e o exemplar havia pertencido ao ministro das relações exteriores da Argentina. Prestes comprou o livro durante o seu exílio em Bueno Aires e a obra contém a dedicatória do grande Euclides da Cunha. A comunidade São Carlense e demais interessados em breve poderão apreciar essas preciosidades em exposições promovidas pela BCo.

A convite do diretor do Sistema Integrado de Bibliotecas da UFSCar (SIBi), Prof. Dr. Roniberto Morato do Amaral e da diretora da BCo, Marisa Cubas Lozano, a historiadora profa Dra. Anita L. Prestes pretende futuramente retornar à UFSCar para inauguração do acervo e da linha do tempo de seu pai.

 Doação de Livros da profa. Anita com dedicatórias.



Acervo LCP

Acervo LCP