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sábado, 5 de fevereiro de 2022

Eu fui Gregório Bezerra



Anita Prestes, Roberto Arrais, Jones Manoel e Diego Miranda em podcast da Revolushow sobre a vida e militância do comunista Gregório Bezerra (1900-1983).

LINK do Podcast:

https://open.spotify.com/episode/0GUy57DnQQ8urpyPXY36mm?si=rOK2NcR0SPaYXZ-ivg-QCg&utm_source=whatsapp&nd=1


Leia no link abaixo o texto "Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil", escrito pela historiadora Anita Prestes como apresentação do livro Memórias (Boitempo, 2011), autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra.

http://prestesaressurgir.blogspot.com/2011/07/gregorio-bezerra-personificou-os.html


sexta-feira, 13 de março de 2020

Camarada Gregório Bezerra, presente!!! Agora e sempre.

No dia 13 de março de 1900, exatamente 120 anos atrás nascia Gregórgio Lourenço Bezerra, dirigente e militante comunista e lendário ícone da resistência à ditadura militar no Brasil.



Assista ao clip da música “Século de Ferro e Flor”, em homenagem ao líder revolucionário Gregório Bezerra, clicando no link: https://www.youtube.com/watch?v=i0TdqWrCaKI

Leio clicando no link abaixo o texto "Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil", escrito pela historiadora Anita Prestes como apresentação do livro Memórias (Boitempo, 2011), autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra.



segunda-feira, 30 de maio de 2016

Assista ao clip da música “Século de Ferro e Flor”, em homenagem ao líder revolucionário Gregório Bezerra

Da banda de punk rock Subversivos. Música "Século de Ferro e Flor", faixa que dá o nome ao álbum lançado em 2010.

CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA ASSISTIR AO CLIP

LEIA CLICANDO NO TÍTULO A SEGUIR: "Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil", apresentação do livro Memórias (Boitempo, 2011), autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra, feita pela historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes.



domingo, 13 de março de 2016

GREGÓRIO BEZERRA, PRESENTE!!!!!

No dia 13 de março de 1900, exatamente 116 anos atrás nascia Gregórgio Lourenço Bezerra, dirigente e militante comunista e lendário ícone da resistência à ditadura militar no Brasil. 

"Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas" — Gregório Bezerra.


"As MEMÓRIAS (http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Titulos/visualizar/memorias) de Gregório Bezerra são desses livros indispensáveis para a compreensão da história contemporânea do Brasil: seu autor é um dos construtores dessa história e escreveu depoimento de inegável importância. Não é possível tentar entender o Brasil dos nossos dias sem ter lido os volumes do líder pernambucano. Por outro lado, as MEMÓRIAS são o retrato de corpo inteiro de um cidadão nascido do povo, em meio à miséria e à opressão, que se levantou contra o atraso, a fome, a colonização, a injustiça, em defesa dos valores que lhe pareceram mais capazes de modificar a fisionomia do Brasil, de possibilitar dias melhores para a nossa gente."— JORGE AMADO

Mais de trinta anos após a publicação das Memórias (1979), de Gregório Bezerra, o lendário ícone da resistência à ditadura militar é homenageado com o lançamento de sua autobiografia pela Boitempo Editorial, acrescida de fotografias e textos inéditos, e em um único volume. Quem assina a apresentação da nova edição, publicada em 2011, é a historiadora Anita Prestes, filha de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes. CLIQUE AQUI PARA LER A APRESENTAÇÃO DE ANITA PRESTES, em que afirma que "Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil"

Sugestões de leitura da Boitempo Editorial:


◫ "Memórias" 
de Gregório Bezerra (http://bit.ly/1LXsVjs)
◫ "Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro" 
de Anita Leocádia Prestes (http://bit.ly/1LhrpIV)
◫ " Caio Prado Jr.: uma biografia política"
de Luiz Bernardo Pericás (http://bit.ly/1REJu0b)
◫ "O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos" 
de Dênis de Moraes (http://bit.ly/1pl9vey)
◫ "Fidel: uma biografia a duas vozes"
de Ignácio Ramonet (http://bit.ly/1REJvkw)



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Videoteca Virtual Gregório Bezerra

Organizada pelo MST, tem como foco vídeos sobre a questão agrária no Brasil.

O Catálogo Geral da Videoteca Virtual Gregório Bezerra está organizado em ordem alfabética do título.

Acesse a Videoteca Virtual Gregório Bezerra clicando no link abaixo:





domingo, 15 de março de 2015

115 anos do nascimento de Gregório Bezerra (13/3/1900): a genuína personificação dos explorados e oprimidos da nossa terra

Para celebrar a data, republicamos neste blog a apresentação do livro Memórias, autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra, feita pela historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga Benario Prestes e Luiz Carlos Prestes.


Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil

Por Anita Leocadia Prestes*

 


É com profunda emoção que escrevo esta apresentação do livro de Memórias de Gregório Bezerra. Quando penso em Gregório, vejo diante de mim o povo brasileiro, os milhões de homens, mulheres e crianças do nosso país, maltratados e sofridos durante séculos de exploração e opressão.

 
Gregório é a legítima expressão desse povo, no que ele tem de mais autêntico e verdadeiro. É a genuína personificação dos explorados e oprimidos da nossa terra – jamais dos poderosos, dos exploradores. Estes sempre lhe dedicaram um indisfarçável ódio de classe, ódio dos opressores, conscientes do perigo, para os interesses dominantes, das “ideias subversivas” difundidas por homens como ele.

 
Na grande trincheira da luta de classes, Gregório sempre esteve do lado dos trabalhadores, dos desvalidos e dos oprimidos. Justamente por isso suportou constantes perseguições policiais, atrozes torturas e um total de 23 anos de cárcere em diversos presídios do Brasil. Teve de suportar a feroz campanha que os meios de comunicação a serviço dos interesses dominantes sempre moveram contra ele e contra os comunistas.

 
Conheci Gregório há muitos anos. Em 1946, eu tinha apenas nove anos de idade quando ele, eleito deputado federal por Pernambuco na legenda do Partido Comunista do Brasil (PCB), foi morar conosco, na casa de meu pai, Luiz Carlos Prestes. O partido havia conquistado a legalidade e elegera para a Assembléia Nacional Constituinte uma bancada comunista composta de um senador, Luiz Carlos Prestes, e catorze deputados, entre os quais Gregório Bezerra. Em nossa casa, além da família, moravam vários camaradas do PCB.

Gregório destacava-se, dentre todos, pela dedicação ao partido e à causa revolucionária que abraçara ainda jovem, mas sobretudo pelo humanismo que irradiava de sua pessoa. Ele sabia compreender os problemas de todos que o cercavam e relacionar-se bem e de maneira afetuosa tanto com as crianças quanto com os idosos, com pessoas importantes ou humildes, com homens ou mulheres. Gregório não incomodava; ao contrário, sempre ajudou em nossa casa e era capaz de manter permanentemente um convívio agradável com todos que o rodeavam. Lembro como minhas tias observavam que, de tantos companheiros que passaram por nossa casa, nenhum deixara tão boas lembranças e tantas saudades quanto ele.

 
Se Gregório sabia conversar com os adultos, também o sabia com as crianças, como era meu caso. Eis a razão por que guardo gratas lembranças dessa convivência que durou apenas dois anos, pois em 1948, após o fechamento do PCB pelo governo Dutra e a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, ele foi sequestrado em pleno centro do Rio de Janeiro e levado clandestinamente para a Paraíba, onde, por meio de grosseira provocação policial, seria acusado de incendiar um quartel.

 
Mais tarde, eu já adulta, nossos caminhos, os meus e os dele, cruzaram-se algumas vezes na vida partidária. Foram, entretanto, encontros fugazes. Mas Gregório continuava sendo o mesmo companheiro atencioso, afável, amigo. Sempre acompanhei sua trajetória de dedicado militante comunista nos mais diversos pontos do país para onde o partido o enviava, seja na legalidade, seja na clandestinidade.

Foi com horror e indignação – como tantos outros brasileiros e também democratas de todo o mundo – que tomei conhecimento de sua prisão em Pernambuco, após o golpe militar de abril de 1964, e das bárbaras torturas a que fora submetido. Sua foto sendo arrastado seminu pelas ruas de Recife chocou a todos. Mas Gregório resistiu, apesar de já contar então com 64 anos de idade. Naquela ocasião, foi condenado a 19 anos de detenção. Mas então, em setembro de 1969, teve lugar no Rio de Janeiro o seqüestro do embaixador norte-americano, promovido por organizações da esquerda armada. Em troca da vida do embaixador, os dirigentes desses grupos exigiram a libertação de quinze prisioneiros políticos que deveriam ser enviados para o exterior – entre eles estava o nome de Gregório Bezerra. Embora discordando desse tipo de ação, ele aceitou a libertação, divulgando, ao mesmo tempo, uma “Declaração ao povo brasileiro”, na qual explicava suas razões. Dizia então:

 
- Por uma questão de princípio, devo esclarecer que, embora aceite a libertação nessas circunstâncias, discordo das ações isoladas, que nada adiantarão para o desenvolvimento do processo revolucionário e somente servirão de pretexto para agravar ainda mais a vida do povo brasileiro e de motivação para maiores crimes contra os patriotas.

E adiante acrescentava:

- Não quero que, nesta hora, minha atitude ponha em risco a vida dos demais presos políticos a serem libertados. Nem desejo, como humanista que sou, o sacrifício desnecessário de qualquer indivíduo, ainda que seja o embaixador da maior potência imperialista de toda a história. Luto, por princípio, contra sistemas de força. Não luto contra pessoas, individualmente. Só acredito na violência das massas contra a violência da reação.
É uma declaração reveladora da personalidade de Gregório Bezerra: militante comunista dedicado e consequente, de firmeza inabalável na defesa de suas convicções revolucionárias e, por isso mesmo, insigne humanista. Reencontrei Gregório em Moscou, em 1973, onde ambos estivemos exilados, juntamente com outros compatriotas. Embora fisicamente alquebrado, como consequência das torturas a que fora submetido nos cárceres da ditadura militar, ele mantinha intacta a postura de profunda dignidade humana e as convicções de revolucionário comunista que sempre marcaram sua personalidade.

 
Forçado a viver no exílio, mesmo cercado do respeito, da admiração e do carinho dos companheiros soviéticos, assim como de exilados brasileiros e de outros países que então residiam na União Soviética, Gregório tinha seu pensamento permanentemente voltado para o Brasil. Sua maior aspiração era regressar à pátria e poder continuar lutando pelos ideais revolucionários a que dedicara toda sua vida.

 
Foram dez anos de exílio, até a conquista da anistia no Brasil, em agosto de 1979. Gregório seria um dos primeiros a regressar à terra natal, onde foi recebido com entusiasmo e carinho pelos trabalhadores, companheiros e amigos.

 
Durante os anos de exílio, Gregório, assim como Prestes, não deixou de contribuir para a luta pela anistia em nosso país. Viajou por diferentes países denunciando os crimes da ditadura militar. Com seu prestígio, tratou de mobilizar os mais diversos setores da opinião pública mundial em campanhas de solidariedade aos presos e perseguidos políticos no Brasil. Participou de congressos, conferências, seminários e entrevistas, sempre empenhado na luta pela democracia, contra o fascismo e por um futuro socialista para toda a humanidade, pois ele era também um militante internacionalista, para quem a luta do nosso povo não poderia jamais estar dissociada da luta dos trabalhadores do mundo inteiro.

 
Ao mesmo tempo, dedicou-se nesses anos a escrever suas Memórias, cuja nova edição em boa hora nos é proporcionada pela editora Boitempo. Sou testemunha de que Gregório escreveu seu livro sozinho e à mão. Companheiros residentes em Moscou naquela época se revezavam na datilografia das páginas já redigidas por nosso talentoso autor.

 
Gregório soube produzir um relato de sua vida, em linguagem simples e direta, sem qualquer afetação literária. Descreveu a vida de um camponês nordestino miserável, que se transformou em operário e soldado e, nesse processo, ingressou no Partido Comunista. Um militante que dedicou sua vida aos ideais comunistas, arcando com todas as consequências de tal escolha, sem jamais perder as características de grande figura humana.

 
Sou também testemunha do espírito de solidariedade e de companheirismo de Gregório durante aqueles difíceis anos de exílio, quando muitos companheiros entravam em desespero ou perdiam a perspectiva revolucionária. Gregório animava a todos que o procuravam, encorajava a quem estava abatido ou angustiado. Mostrava-se solidário com aqueles que precisavam de uma palavra ou de um gesto de amizade e de carinho. Seu apartamento em Moscou era um recanto aconchegante, onde se podia saborear algum prato da cozinha brasileira, por ele muito bem preparado, e de onde se saía reconfortado e confiante num futuro melhor.


Gregório era um otimista e infundia otimismo em todos que o procuravam, incluindo os jovens brasileiros que estudavam na URSS. Aos jovens, ele se esforçava por transmitir sua experiência e seus conhecimentos do Brasil para que, quando regressassem à pátria, estivessem preparados para enfrentar o futuro. A trajetória de vida de Gregório Bezerra é exemplar e deve servir de inspiração para os jovens de hoje, para aqueles que estão empenhados na realização de transformações profundas em nosso país que abram caminho para um futuro de justiça social e liberdade para todos os brasileiros. Futuro que, como nos ensina Gregório Bezerra, da mesma maneira que José Carlos Mariátegui, Fidel Castro, Che Guevara, Luiz Carlos Prestes e tantos outros revolucionários latino-americanos, só poderá ser alcançado com a revolução socialista. Gregório foi um comunista que jamais se dobrou diante das dificuldades e soube “endurecer sem jamais perder a ternura”, na feliz expressão cunhada por Ernesto Guevara.

 
Esperamos que a publicação desta nova edição das Memórias de Gregório Bezerra pela Boitempo constitua um estímulo à formação de jovens revolucionários em nosso país e em nosso sofrido continente latino-americano.

 
* Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.


Título: Memórias

Autor: Gregório Bezerra

Apresentação: Anita Prestes

Orelha: Roberto Arrais

Quarta capa: Ferreira Gullar

Páginas: 648

ISBN: 978-85-7559-160-4 

Editora: Boitempo

segunda-feira, 17 de março de 2014

114 anos de nascimento de Gregório Bezerra

Por Roberto Arrais*

Hoje [13/03] faria ele 114 anos de sua data de nascimento, ele que teve em sua trajetória, por conta de sua luta em defesa dos trabalhadores do campo e da cidade, 23 anos de cadeia, 15 anos de atividades clandestinas, 7 de semi clandestinidade e 10 anos de exílio. Foram 55 anos de luta em condições extremamente adversas, onde 28 anos foram parte de sua infância e adolescência, trabalhando desde os 4 anos de idade, com a enxada no campo, como empregado doméstico, como vendedor de jornais, carregador de fretes, como pedreiro, soldado e sargento do exército, 2 anos como deputado federal constituinte de 1945 a 1947, tendo sido cassado e logo depois preso, sofrendo acusações mentirosas promovidas pelos fascistas da época. Mesmo diante de todas as adversidades, ele nos deixou lições de amor e solidariedade ao povo e aos que lutam, dizendo até em resposta a um repórter sobre o que faria com o seu torturador, caso tivesse oportunidade de tomar e poder para decidir: "Que não desejava mal a ele, porque ele era um instrumento do sistema, deveria responder pelos crimes que cometeu, mas raiva e rancor não guardavam nem dele nem de ninguém individualmente, porque não lutava contra pessoas, mas contra o sistema capitalista que esmagava e oprimia os trabalhadores".

Gregório era extremamente corajoso, um abnegado militante do PCB, onde militou por cerca de 50 anos, era disciplinado, cuidadoso, coerente e cumpria com zelo e responsabilidade as tarefas que lhes eram delegadas. Sua vida foi de uma dedicação extraordinária, até os seus últimos dias de vida, manteve sempre a alegria e a determinação da defesa intransigente dos interesses das lutas dos trabalhadores do Brasil e do mundo, tendo um olhar mais forte sobre a situação dos camponeses, onde estavam fincadas suas raízes, como filho da área rural do município de Panelas em Pernambuco.

Gregório continua inspirando com seu legado a luta por um mundo melhor, mais justo e igual, um mundo socialista. Gregório Bezerra continua presente através das lutas dos revolucionários e comunistas do Brasil e do mundo.

Disse o Poeta Ferreira Gullar sobre Gregório: “Mas existe nesta terra / muito homem de valor / que é bravo sem matar gente / mas não teme matador / que gosta de sua gente / e que luta a seu favor / como Gregório Bezerra / feito de ferro e de flor”.

*PCB de Pernambuco

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

30 anos sem Gregório Bezerra, herói do povo brasileiro

No dia 21 de outubro de 1983, morreu Gregório Bezerra, comunista revolucionário, que, nas palavras de Anita Prestes, personificou os explorados e oprimidos do Brasil.


"Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas"Gregório Bezerra.


Assista a seguir uma entrevista histórica de Gregório Bezerra.




Leia abaixo a apresentação do livro Memórias, autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra, feita pela historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes.


Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil



Por Anita Leocadia Prestes*

É com profunda emoção que escrevo esta apresentação do livro de Memórias de Gregório Bezerra. Quando penso em Gregório, vejo diante de mim o povo brasileiro, os milhões de homens, mulheres e crianças do nosso país, maltratados e sofridos durante séculos de exploração e opressão.

Gregório é a legítima expressão desse povo, no que ele tem de mais autêntico e verdadeiro. É a genuína personificação dos explorados e oprimidos da nossa terra – jamais dos poderosos, dos exploradores. Estes sempre lhe dedicaram um indisfarçável ódio de classe, ódio dos opressores, conscientes do perigo, para os interesses dominantes, das “ideias subversivas” difundidas por homens como ele.

Na grande trincheira da luta de classes, Gregório sempre esteve do lado dos trabalhadores, dos desvalidos e dos oprimidos. Justamente por isso suportou constantes perseguições policiais, atrozes torturas e um total de 23 anos de cárcere em diversos presídios do Brasil. Teve de suportar a feroz campanha que os meios de comunicação a serviço dos interesses dominantes sempre moveram contra ele e contra os comunistas.

Conheci Gregório há muitos anos. Em 1946, eu tinha apenas nove anos de idade quando ele, eleito deputado federal por Pernambuco na legenda do Partido Comunista do Brasil (PCB), foi morar conosco, na casa de meu pai, Luiz Carlos Prestes. O partido havia conquistado a legalidade e elegera para a Assembléia Nacional Constituinte uma bancada comunista composta de um senador, Luiz Carlos Prestes, e catorze deputados, entre os quais Gregório Bezerra. Em nossa casa, além da família, moravam vários camaradas do PCB.

Gregório destacava-se, dentre todos, pela dedicação ao partido e à causa revolucionária que abraçara ainda jovem, mas sobretudo pelo humanismo que irradiava de sua pessoa. Ele sabia compreender os problemas de todos que o cercavam e relacionar-se bem e de maneira afetuosa tanto com as crianças quanto com os idosos, com pessoas importantes ou humildes, com homens ou mulheres. Gregório não incomodava; ao contrário, sempre ajudou em nossa casa e era capaz de manter permanentemente um convívio agradável com todos que o rodeavam. Lembro como minhas tias observavam que, de tantos companheiros que passaram por nossa casa, nenhum deixara tão boas lembranças e tantas saudades quanto ele.

Se Gregório sabia conversar com os adultos, também o sabia com as crianças, como era meu caso. Eis a razão por que guardo gratas lembranças dessa convivência que durou apenas dois anos, pois em 1948, após o fechamento do PCB pelo governo Dutra e a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, ele foi sequestrado em pleno centro do Rio de Janeiro e levado clandestinamente para a Paraíba, onde, por meio de grosseira provocação policial, seria acusado de incendiar um quartel.

Mais tarde, eu já adulta, nossos caminhos, os meus e os dele, cruzaram-se algumas vezes na vida partidária. Foram, entretanto, encontros fugazes. Mas Gregório continuava sendo o mesmo companheiro atencioso, afável, amigo. Sempre acompanhei sua trajetória de dedicado militante comunista nos mais diversos pontos do país para onde o partido o enviava, seja na legalidade, seja na clandestinidade.

Foi com horror e indignação – como tantos outros brasileiros e também democratas de todo o mundo – que tomei conhecimento de sua prisão em Pernambuco, após o golpe militar de abril de 1964, e das bárbaras torturas a que fora submetido. Sua foto sendo arrastado seminu pelas ruas de Recife chocou a todos. Mas Gregório resistiu, apesar de já contar então com 64 anos de idade. Naquela ocasião, foi condenado a 19 anos de detenção. Mas então, em setembro de 1969, teve lugar no Rio de Janeiro o seqüestro do embaixador norte-americano, promovido por organizações da esquerda armada. Em troca da vida do embaixador, os dirigentes desses grupos exigiram a libertação de quinze prisioneiros políticos que deveriam ser enviados para o exterior – entre eles estava o nome de Gregório Bezerra. Embora discordando desse tipo de ação, ele aceitou a libertação, divulgando, ao mesmo tempo, uma “Declaração ao povo brasileiro”, na qual explicava suas razões. Dizia então:



- Por uma questão de princípio, devo esclarecer que, embora aceite a libertação nessas circunstâncias, discordo das ações isoladas, que nada adiantarão para o desenvolvimento do processo revolucionário e somente servirão de pretexto para agravar ainda mais a vida do povo brasileiro e de motivação para maiores crimes contra os patriotas.

E adiante acrescentava:

- Não quero que, nesta hora, minha atitude ponha em risco a vida dos demais presos políticos a serem libertados. Nem desejo, como humanista que sou, o sacrifício desnecessário de qualquer indivíduo, ainda que seja o embaixador da maior potência imperialista de toda a história. Luto, por princípio, contra sistemas de força. Não luto contra pessoas, individualmente. Só acredito na violência das massas contra a violência da reação.
É uma declaração reveladora da personalidade de Gregório Bezerra: militante comunista dedicado e consequente, de firmeza inabalável na defesa de suas convicções revolucionárias e, por isso mesmo, insigne humanista. Reencontrei Gregório em Moscou, em 1973, onde ambos estivemos exilados, juntamente com outros compatriotas. Embora fisicamente alquebrado, como consequência das torturas a que fora submetido nos cárceres da ditadura militar, ele mantinha intacta a postura de profunda dignidade humana e as convicções de revolucionário comunista que sempre marcaram sua personalidade.

 
Forçado a viver no exílio, mesmo cercado do respeito, da admiração e do carinho dos companheiros soviéticos, assim como de exilados brasileiros e de outros países que então residiam na União Soviética, Gregório tinha seu pensamento permanentemente voltado para o Brasil. Sua maior aspiração era regressar à pátria e poder continuar lutando pelos ideais revolucionários a que dedicara toda sua vida.

 
Foram dez anos de exílio, até a conquista da anistia no Brasil, em agosto de 1979. Gregório seria um dos primeiros a regressar à terra natal, onde foi recebido com entusiasmo e carinho pelos trabalhadores, companheiros e amigos.

 
Durante os anos de exílio, Gregório, assim como Prestes, não deixou de contribuir para a luta pela anistia em nosso país. Viajou por diferentes países denunciando os crimes da ditadura militar. Com seu prestígio, tratou de mobilizar os mais diversos setores da opinião pública mundial em campanhas de solidariedade aos presos e perseguidos políticos no Brasil. Participou de congressos, conferências, seminários e entrevistas, sempre empenhado na luta pela democracia, contra o fascismo e por um futuro socialista para toda a humanidade, pois ele era também um militante internacionalista, para quem a luta do nosso povo não poderia jamais estar dissociada da luta dos trabalhadores do mundo inteiro.

 
Ao mesmo tempo, dedicou-se nesses anos a escrever suas Memórias, cuja nova edição em boa hora nos é proporcionada pela editora Boitempo. Sou testemunha de que Gregório escreveu seu livro sozinho e à mão. Companheiros residentes em Moscou naquela época se revezavam na datilografia das páginas já redigidas por nosso talentoso autor.

 
Gregório soube produzir um relato de sua vida, em linguagem simples e direta, sem qualquer afetação literária. Descreveu a vida de um camponês nordestino miserável, que se transformou em operário e soldado e, nesse processo, ingressou no Partido Comunista. Um militante que dedicou sua vida aos ideais comunistas, arcando com todas as consequências de tal escolha, sem jamais perder as características de grande figura humana.

 
Sou também testemunha do espírito de solidariedade e de companheirismo de Gregório durante aqueles difíceis anos de exílio, quando muitos companheiros entravam em desespero ou perdiam a perspectiva revolucionária. Gregório animava a todos que o procuravam, encorajava a quem estava abatido ou angustiado. Mostrava-se solidário com aqueles que precisavam de uma palavra ou de um gesto de amizade e de carinho. Seu apartamento em Moscou era um recanto aconchegante, onde se podia saborear algum prato da cozinha brasileira, por ele muito bem preparado, e de onde se saía reconfortado e confiante num futuro melhor.

 
Gregório era um otimista e infundia otimismo em todos que o procuravam, incluindo os jovens brasileiros que estudavam na URSS. Aos jovens, ele se esforçava por transmitir sua experiência e seus conhecimentos do Brasil para que, quando regressassem à pátria, estivessem preparados para enfrentar o futuro. A trajetória de vida de Gregório Bezerra é exemplar e deve servir de inspiração para os jovens de hoje, para aqueles que estão empenhados na realização de transformações profundas em nosso país que abram caminho para um futuro de justiça social e liberdade para todos os brasileiros. Futuro que, como nos ensina Gregório Bezerra, da mesma maneira que José Carlos Mariátegui, Fidel Castro, Che Guevara, Luiz Carlos Prestes e tantos outros revolucionários latino-americanos, só poderá ser alcançado com a revolução socialista. Gregório foi um comunista que jamais se dobrou diante das dificuldades e soube “endurecer sem jamais perder a ternura”, na feliz expressão cunhada por Ernesto Guevara.

 
Esperamos que a publicação desta nova edição das Memórias de Gregório Bezerra pela Boitempo constitua um estímulo à formação de jovens revolucionários em nosso país e em nosso sofrido continente latino-americano.

 
* Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.


quarta-feira, 13 de março de 2013

113 anos de nascimento de Gregório Bezerra


Por Roberto Arrais

Alguns escritores e poetas definiram a questão da morte relacionada com as pessoas que lideram e lutam por causas justas e coletivas de uma forma muito especial. O poeta e escritor Guimarães Rosa disse que pessoas assim, de fibra, “não morrem, elas se encantam”; para os índios, segundo Antônio Callado disse no Quarup, as pessoas que têm essas características “nunca morrem, pois o seu pensamento entra em outras cabeças”.
Gregório Bezerra nasceu no início do século XX, em 13 de março de 1900, no Município de Panelas. Sofreu todas as dificuldades para sobreviver na infância, começando a trabalhar com 4 anos de idade, ficou órfão aos 6 anos, trabalhou como doméstico aos 10 anos em Recife, carregou frete, foi vendedor de jornais, mesmo sendo analfabeto até os 25 anos. Foi preso quando era ajudante de pedreiro porque apoiava a luta dos trabalhadores da construção civil, quando tinha apenas 16 anos, e cumpriu quase cinco anos de prisão, na Casa de Detenção do Recife.  Não desistiu diante de tudo que enfrentou e que sofreu.
Foi para o exército, viajou para o Rio de Janeiro, aprendeu a ler e a escrever, fez curso de sargento, foi um dos mais destacados do País, andou pelo Brasil e depois veio servir em Pernambuco, como sargento instrutor de educação física e de tiro ao alvo.
Nos anos 30 começou a ter contato com o Partido Comunista (PCB) através de trabalhadores que viajavam com ele de trem, pela literatura dos jornais e livros que destacavam a luta pelo socialismo no Brasil e no mundo.
Em 1935 participou do levante armado contra o fascismo que assolava o mundo e se espalhava pelo Brasil, participando da Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento liderado por Luiz Carlos Prestes, denominado de o Cavaleiro da Esperança. Ficou preso dez anos e só saiu com a Anistia em 1945. Foi eleito deputado federal constituinte, sendo o 2º mais votado de Pernambuco, se integrando a uma das mais expressivas e combativas bancadas da história do parlamento brasileiro, que foi a bancada comunista liderada pelo senador Luiz Carlos Prestes.
Teve cassado seu mandato com nova prisão em 1947. Foi solto, seguiu para a clandestinidade pelos diversos estados da federação, participando de lutas camponesas pela reforma agrária e nos comitês pela paz mundial.
Em 1957, nova prisão, solto, voltou para Pernambuco e participou das campanhas de Cid Sampaio para Governador, de Miguel Arraes para Prefeito e para Governador e de Pelópidas Silveira para Prefeito. Desenvolveu um grandioso trabalho de articulação e organização dos camponeses na fundação dos sindicatos de trabalhadores rurais da zona canavieira de Pernambuco e do Partido Comunista Brasileiro, o PCB.
Em 1964 Gregório foi arrastado com três cordas no pescoço, depois de ter sido submetido a todo tipo de violência e tortura, pelas ruas do Recife, numa das cenas mais hediondas do século XX. Mas não se deu por vencido e continuou lutando pelo soerguimento do PCB, mesmo dentro da prisão, novamente na Casa de Detenção do Recife, hoje transformada na Casa da Cultura. Foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador americano em 1969. Seguiu para o exílio na União Soviética e voltou em 1979, através de nova anistia.
Voltou com 79 anos, mas continuou sua luta, já trazendo na bagagem seu livro de memórias, publicado, à época, em dois volumes, e seguindo sua vida política, agora como membro do Comitê Central do PCB.
Acompanhou Prestes em sua Carta aos Comunistas, participando ativamente da luta pela “Reconstrução Revolucionária do Partido”, apoiando a convocação para “Tomar o Partido em suas mãos”, através das bases, andando pelo País, e especialmente pelo Nordeste, na organização dos “Comitês de Defesa do Partido”.
Gregório Bezerra foi sintetizado pelo poeta Ferreira Gullar, como um homem “Feito de Ferro e de Flor”, porque mesmo diante de todos os problemas, da fome, do analfabetismo na juventude, das diversas prisões, da moradia nas ruas, da clandestinidade, em nenhum momento ele se lamentava, muito pelo contrário, estava sempre de bom humor, disposto a participar dos eventos, da reconstrução revolucionária do Partido, da conquista de novos quadros, corroborando com a força da luta por um ideal revolucionário e socialista, pelo fortalecimento das lutas do povo, pela defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes como prioridade absoluta, tendo a coragem de enfrentar sempre os desafios impostos pelo sistema capitalista, com ética, honestidade, firmeza, e, tudo isso, com muita ternura e carinho com todas as pessoas que estavam presentes em seus caminhos.
Por tudo isso, Gregório “não morreu, se encantou”, como dizia o poeta Guimarães Rosa, se encantou nas lutas dos trabalhadores rurais, dos movimentos sociais de luta pela terra, nas crianças abandonadas pelas ruas, nas pessoas que são exploradas e esmagadas em seus direitos. Como também, Gregório não morreu, como diziam os índios no Quarup de Antonio Callado, porque figuras da dimensão heroica dele, continuam povoando “as cabeças das pessoas com seus pensamentos” de esperança  e luta de construir um outro mundo, um outro modo de vida onde as riquezas, a ciência e tudo que se produza  possa ser compartilhado com todos.
Gregório Bezerra, Presente!

Leia abaixo a apresentação do livro Memórias, autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra, feita pela historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

65 anos da cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas

Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro

Carlos Marighela, Luiz Carlos Prestes e Gregório Bezerra

Naquele ano de 1945, nada poderia ser mais emblemático do que o clima de euforia democrática que se instalou por diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Resultado direto da derrota das potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que contou com o papel decisivo da União Soviética na conquista da vitória alcançada contra o nazifascismo. 

É inegável o impacto da iminente derrota nazista sobre o conjunto dos processos em desenvolvimento, tanto na arena internacional quanto internamente nos diversos países. As mudanças na correlação de forças internacionais tiveram um papel importante na correlação de forças dentro do próprio governo brasileiro. Apesar do seu peso político significativo, o grupo germanófilo, destacando as figuras dos generais Eurico Dutra e Góis Monteiro, foi gradativamente perdendo espaço para os americanófilos do Governo Vargas, pelo menos no que diz respeito ao posicionamento do governo brasileiro frente às nações beligerantes. As novas condições internacionais permitiram pouco a pouco o surgimento de indivíduos ou grupos, de amplos e diversificados segmentos da sociedade brasileira, dispostos a levantar a bandeira democrática e participar da luta contra o nazifascismo.   Como em outras partes do mundo, no Brasil aflorou com grande força uma opinião pública antifascista, diante da ameaça de agressão nazifascista ao país e sob influência de um crescente sentimento patriótico.


Neste contexto, o Partido Comunista emergiu como importante novidade política, transformando-se no partido das ruas, das praças, das festas populares, dos bairros operários, das fábricas. O partido demonstrou considerável capacidade de organização e mobilização dos trabalhadores. Grandes comícios e manifestações foram realizados por todo o Brasil, com a presença de Luiz Carlos Prestes. Entre eles, os comícios do Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro, em 23/5/1945, do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, em 15/7/1945, e do Parque 13 de Maio, em Recife, em 26/11/1945. O Partido conquistou sua legalidade de fato, nas ruas, com a participação do povo. Surgiram inúmeros jornais comunistas em vários estados: Tribuna Popular, fundado em 22 de maio, no Distrito Federal; Hoje, em São Paulo; O Momento, na Bahia; Folha do Povo, em Pernambuco; O Estado de Goiás, em Goiânia  (GO); O Democrata, no Ceará; Tribuna Gaúcha, em Porto Alegre (RS); Folha Capixaba, em Vitória (ES); Tribuna do Povo, em São Luís (MA). Como órgão oficial, reapareceu A Classe Operária, em 9/3/1946.

Além de ser um período de intenso crescimento do PCB, essa fase histórica caracterizou-se também pelo recrudescimento do movimento grevista e sindical, destacando-se a criação do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), embrião da organização da Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), que viria a ser fechada pouco depois pelo governo Dutra. A retomada efetiva das atividades sindicais no período se evidenciou na criação de novos sindicatos e no aumento de trabalhadores sindicalizados. Foram criados 873 sindicatos até 1945, surgiram mais 66 sindicatos no ano seguinte. Os trabalhadores sindicalizados passaram de 474.943 em 1945 para 797.691 no ano posterior.

A atuação do PCB, na conjuntura do imediato pós-guerra, se deu em duas frentes. A primeira dizia respeito à inserção no sistema político brasileiro, definindo-se por uma linha pacifista e de “ordem e tranqüilidade” para solucionar os grandes problemas nacionais, dentro dos quadros da legalidade. Os programas e as formas de luta política foram marcadas pela expectativa extremamente otimista em relação ao cenário mundial: de “pacificação geral” entre as grandes potências (ou seja, entre a União Soviética e os Estados Unidos) e de expansão gradual e pacífica do socialismo e das chamadas “democracias populares”. Essas ilusões do pós-guerra atingiram o movimento comunista internacional e parcelas significativas das forças democráticas e progressistas no mundo todo. A segunda frente de atuação dos comunistas brasileiros referia-se à luta pela hegemonia no movimento operário, enfrentando as crescentes demandas da classe trabalhadora brasileira. Contudo, a direção do Partido teve dificuldade de formular uma orientação política capaz de articular adequadamente as duas frentes. 



O PCB elegeu os sindicatos e as associações legais como o centro de gravidade política da educação e da organização da classe operária, para assumirem, na perspectiva comunista, “sua posição histórica no processo de democratização do país”. Desse modo, os sindicatos unidos seriam a espinha dorsal da democracia brasileira. Porém, para trilhar o caminho de reconquista dos sindicatos, o PCB precisaria primeiramente conquistar os trabalhadores, penetrando nas fábricas, nas empresas, nos bairros, e garantir sua representatividade junto a eles, expandindo-se das fábricas e dos bairros para os sindicatos. A projeção do PCB no meio operário era condição para se tornar uma força política capaz de disputar a liderança da revolução democrática, entendida como uma etapa histórica indispensável para a realização do socialismo. Assim, os organismos do Partido, como o MUT e os Comitês Populares Democráticos, faziam parte da estratégia comunista de revolução democrática, direcionados não apenas no sentido de mobilização, organização e educação do proletariado, mas também no de fortalecimento e ampliação da ligação desse com o Partido Comunista.

Nos sindicatos, locais de trabalho ou nos bairros, através dos comitês populares democráticos, os comunistas desempenharam um papel de considerável relevância na tentativa de articulação entre a pequena política do dia a dia e a grande política da vida política nacional. O PCB procurou capitalizar a capacidade organizativa e mobilizadora dos comitês populares e convertê-la em poder político, constituindo-se como elemento de influência na arena política nacional. Precisou desenvolver o trabalho de organização popular para garantir o potencial de intervenção na grande política, mas, ao mesmo tempo, sua atuação no âmbito da pequena política dependia da continuidade do processo de democratização então em curso.

 A surpreendente votação do PCB nas eleições de 1945, em apenas 15 dias de campanha, foi em grande medida resultado do aparato montado pelos comitês populares democráticos. A mobilização de arregimentação eleitoral foi intensa. Trabalhou-se ativamente para a inscrição de eleitores, com os postos de alistamento eleitoral, e a viabilização para que o maior número possível de pessoas cumprisse o requisito do voto com os cursos de alfabetização.

Em cidades com grande concentração operária, o Partido Comunista conquistou importantes vitórias eleitorais. Em dezembro de 1945, o candidato do PCB à presidência da República, Yedo Fiúza, ficou em terceiro lugar, somando mais de 500 mil votos. O Partido tornou-se a quarta maior força política da Assembléia Constituinte de 1946, constituindo uma bancada de um senador e 14 deputados num total de 338 constituintes. O PCB elegeu parlamentares em seis unidades da Federação. Carlos Marighela foi deputado federal eleito pelo PCB da Bahia. Em Pernambuco, se elegeram Agostinho Dias de Oliveira, Alcedo de Morais Coutinho e Gregório Bezerra. O Distrito Federal foi a unidade da Federação onde o PCB obteve seu melhor desempenho eleitoral, elegendo três deputados, Joaquim Batista Neto, João Amazonas e Maurício Grabois, e um senador, Luiz Carlos Prestes, com a maior votação proporcional da história política brasileira até então. Na bancada do estado do Rio de Janeiro, dois operários foram eleitos, Alcides Rodrigues Sabença e Claudino José da Silva, o único negro dentre os 338 constituintes. Por São Paulo, se elegeram Milton Caires de Brito, Jorge Amado, José Maria Crispim e Osvaldo Pacheco. Representando o Rio Grande do Sul, foi eleito Abílio Fernandes. Trifino Correia (PCB-RS), segundo suplente de deputado, participou dos trabalhos constituintes de março a julho de 1946.

A bancada comunista diferenciava-se das demais com acento na Assembléia Constituinte, tanto do ponto de vista da sua composição social quanto sob o aspecto das propostas que defendeu, refletindo nessas duas dimensões seu compromisso com as lutas operárias e populares. Do ponto de vista de sua composição social, os parlamentares comunistas eram lideranças políticas originárias de movimentos sociais e reivindicatórios das massas populares nas décadas de 1930 e 1940, a maior parte deles tendo militado na ANL e/ou com passagem pela prisão durante o Estado Novo. A bancada comunista se apresentava como um elemento novo no cenário político, pois trazia trabalhadores para a tribuna parlamentar, palco das movimentações das elites. O seu desconforto em ver-se às voltas, tão próxima e em tal grau de igualdade, com membros das classes “subalternas” aparecia constantemente nas páginas dos jornais.

A correlação de forças na Assembléia Constituinte, incluindo os suplentes que tomaram posse, era a seguinte: o Partido Social Democrático (PSD) contava com 159 deputados e 26 senadores; a União Democrática Nacional (UDN) com 78 deputados e 11 senadores; o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) com 22 deputados e 1 senador; como já citado, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) com 15 deputados e 1 senador; o Partido Republicano (PR) com 11 deputados e 1 senador; o Partido Social Progressista (PSP) com 7 deputados e 1 senador; o Partido Democrata Cristão (PDC) com 2 deputados; a Esquerda Democrática (ED) com 2 deputados; e o Partido Libertador (PL) com 1 deputado. Tratava-se de uma assembléia majoritariamente conservadora. Mesmo assim, os parlamentares comunistas lutaram pela imediata revogação da Constituição de 1937, mas seria mantida pela maioria conservadora e serviria para legitimar as medidas repressivas do Governo Dutra durante os trabalhos da Constituinte.

Apesar de minoritária, e sob cerco conservador, a bancada comunista tentou propor projetos alternativos àqueles colocados pelos setores conservadores. Eles foram, na maior parte, rejeitados pelos constituintes ou indeferidos pelo presidente da Assembléia, Fernando Melo Viana (PSD/MG). A atuação dos comunistas na Assembléia Constituinte foi marcada pelo caráter avançado e progressista da luta empreendida naquele parlamento conservador. Os comunistas defenderam, entre outras propostas, a autonomia sindical, o direito de voto aos analfabetos, soldados, marinheiros e sargentos, a implantação do parlamentarismo; a extinção do cargo de Vice-Presidente da República, a laicidade do ensino nas escolas públicas, a ampla liberdade de crença e o livre exercício de cultos, a instituição do divórcio, a reforma agrária, a participação dos trabalhadores no lucro e na gestão das empresas, a proibição do trabalho a menores de 14 anos e do trabalho noturno em indústrias insalubres a menores de 18 anos, a extensão da legislação trabalhista aos trabalhadores do campo, a concessão do direito de greve aos funcionários públicos, a proibição aos parlamentares de aceitarem comissões ou empregos remunerados em empresas privadas estrangeiras logo após o término dos mandatos ou o exercício de cargos governamentais, a supressão da necessidade de censura prévia para a publicação de livros e periódicos, a eleição dos ministros do Supremo Tribunal Federal e do alto comando das Forças Armadas pela Câmara dos Deputados, a assistência do Estado para as mães solteiras.

Embora a maior parte de suas propostas fossem rejeitadas, a bancada do PCB obteve aprovação para algumas delas. A Emenda no 2.277, de Batista Neto (PCB/DF), estipulando que o trabalho noturno teria maior remuneração que o diurno. O item “Higiene e Segurança do Trabalho” foi incorporado ao elenco de recomendações a serem observadas pela legislação trabalhista, segundo proposta apresentada por João Amazonas (PCB/DF). A Emenda no 3.134, de Maurício Grabois (PCB/DF), proibindo a extradição de estrangeiros casados com brasileiros ou que tivessem filhos de brasileiros natos. Aprovado o projeto de Alcedo Coutinho (PCB/PE), determinando a transferência para os municípios de 10% do total do imposto de renda arrecadado pela União. A Emenda no 2.850, de Jorge Amado (PCB/SP), isentando de tributos a importação de livros, periódicos e papel de imprensa, tendo também sido aprovada outra emenda de sua autoria assegurando ampla liberdade religiosa e de culto.

A atuação dos comunistas na Constituinte de 1946 pautou-se pela defesa dos interesses dos trabalhadores e das forças progressistas em geral e pela luta em prol do aprofundamento da democracia e das liberdades políticas. A bancada comunista expressou propostas e reivindicações que só viriam a ser adotadas pela Constituição de 1988.

Nas eleições realizadas em 19 de janeiro de 1947, o PCB obteve novamente um expressivo resultado eleitoral. Os comunistas elegeram fortes bancadas nas assembleias estaduais de São Paulo (onze deputados estaduais), de Pernambuco (nove) e do Rio de Janeiro (seis). Ainda conquistaram representação nas assembleias de Alagoas e do Rio Grande do Sul, com três deputados em cada uma; Bahia, Goiás e Mato Grosso, com dois deputados; Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná e Sergipe, com um deputado. No Distrito Federal, onde não havia Assembléia Legislativa e sim Câmara Municipal com cinqüenta cadeiras, o PCB formou a maior bancada com 18 vereadores, da qual faziam parte Agildo Barata, João Massena Mello, Arcelina Mochel, Odila Schmidt, Otávio Brandão, Aparício Torelly (o “Barão de Itararé”), entre outros. Após a cassação do seu registro eleitoral, o PCB ainda apresentaria desempenho eleitoral considerável em várias cidades brasileiras, utilizando-se de outras legendas.    

Não demoraria a que o processo democrático, instaurado no pós-guerra, mostrasse os seus limites. 

O ativismo da militância comunista nos meios sindicais e nos comitês democráticos populares e o impressionante desempenho eleitoral do PCB nas eleições de 1945 e 1947 transformaram o PCB numa força política em potencial, assustando as classes política e economicamente dominantes, sempre temerosas da participação popular na vida política do país. Diante de tal ameaça e do advento da Guerra Fria, em 7/5/1947, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o registro do PCB, sob a argumentação de tratar-se de um organismo subserviente aos interesses de Stalin e da União Soviética. Em outubro do mesmo ano, o governo brasileiro rompeu relações com diplomáticas com o Estado soviético, assumindo seu alinhamento à política externa norte-americana.

O governo desencadeou uma violenta onda repressiva contra o movimento democrático e popular, em particular os comunistas. Uma vez tornado ilegal, as sedes do PCB foram lacradas, seus bens e documentos apreendidos, os jornais ligados ao Partido foram fechados e entidades ligadas de alguma forma aos comunistas foram banidas ou perseguidas. Por meio do Decreto-lei no 23.046, de 7/5/1947, o governo Dutra fechou a CTB e as uniões sindicais estaduais. Além disso, o governo promoveu intervenções em mais de 400 sindicatos, inaugurando nova fase de repressão aberta ao sindicalismo mais combativo.  

Em 7 de janeiro de 1948, os parlamentares comunistas, em âmbito federal, estadual e municipal, tiveram seus mandatos cassados, sendo jogados na clandestinidade. Os comitês populares democráticos, já no ano anterior, transformaram-se em associações de moradores, medida que visava burlar a repressão policial. Apesar das possibilidades de atuação bastante reduzidas, os militantes comunistas continuaram ativos nas comunidades dos bairros de diversas cidades do país, nas Ligas Camponesas e no movimento operário.  


Referência Bibliográfica

BRAGA, Sérgio Soares. A bancada comunista na Assembléia Constituinte de 1946. Princípios (São Paulo), São Paulo, v. 46, p. 23-29, 1997.

CARONE, Edgard. O Estado Novo (1937-1945). São Paulo: Difel, 1976.

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MATTOS, Marcelo Badaró. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2002.

____ (org.). Greves e repressão policial ao sindicalismo carioca: 1945-1964. Rio de Janeiro: APERJ / FAPERJ, 2003.

PINHEIRO, Marcos César de Oliveira. O MUT e a luta do PCB pela hegemonia no movimento operário: conciliação e conflito. Rio de Janeiro: Departamento de História, UFRJ, 2004. (Monografia de fim de curso para aquisição do grau de bacharel em História)

____ . O PCB e os Comitês Populares Democráticos na cidade do Rio de Janeiro (1945-1947). Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2007. (Dissertação de Mestrado)

PRESTES, Anita Leocadia. Da insurreição armada (1935) à “União Nacional” (1938-1945): a virada tática na política do PCB. São Paulo: Paz e Terra, 2001[a].

____ . “O golpe de 29/10/1945: derrubada do Estado Novo ou tentativa de reverter o processo de democratização da sociedade brasileira?”. In: SILVA, F.C.T. da; MATTOS, H. M. e FRAGOSO, J. Escritos sobre história e educação – Homenagem à Maria Yedda Leite Linhares. Rio de Janeiro: Campus, 2001[b]. 

____ . Luiz Carlos Prestes: patriota, revolucionário, comunista. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

SANTANA, Marco Aurélio. Homens partidos: comunistas e sindicatos no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2001.

Bancada do PCB na Assembleia Constituinte de 1946, composta por Luiz Carlos Prestes, Gregório Bezerra, José Maria Crispim, Maurício Grabois, Claudino José da Silva, Joaquim Batista Neto, Osvaldo Pacheco, Abílio Fernandes, Alcides Sabença, Agostinho Dias de Oliveira, João Amazonas, Carlos Marighela, Milton Caires de Brito, Alcedo Coutinho e Jorge Amado.