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sábado, 4 de novembro de 2023

Sobre anões e genocidas

Neste texto, publicado nas páginas da Fundação Maurício Grabois e do Blog A Terra é Redonda, o professor João Quartim de Moraes escreve sobre o genocídio na Palestina.


“'Quantas vidas serão perdidas até passarmos à ação?'. Se depender de Menachem Biden, protetor de Benjamin Netanyahu, quantas forem necessárias para esvaziar o ghetto de Gaza."


Sobre anões e genocidas


Por JOÃO QUARTIM DE MORAES*


Argumentar com genocidas é perder tempo: eles só acreditam no “argumento” da força


Em 24 de julho de 2014, furibundo porque o governo brasileiro condenara “energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza”, convocando para consultas o embaixador em Tel Aviv, o ministério israelense das Relações Exteriores replicou classificando o Brasil de “anão diplomático”. Além de insolente, a réplica cometeu a baixa grosseria de usar uma contingência biológica (nanismo e distúrbio de crescimento infantil) como insulto.

Não obstante, houve e segue havendo por aqui sicofantas da extrema direita que aplaudiram a “diplomacia” do país do “apartheid” e atacaram a nossa… O mais conhecido é o abominável Sérgio Moro, que segue grasnando seu apoio ao aniquilamento dos palestinos de Gaza pelos criminosos de guerra israelenses.

O comunicado de Tel Aviv continha um enfático apelo: “Israel espera o apoio de seus amigos na luta contra o Hamas, que é reconhecido como uma organização terrorista por muitos países ao redor do mundo”. Por “muitos países” entendem, obviamente, o império estadunidense e seus vassalos, dos quais o próprio Israel é vassalo-mor. O comunicado omite, cinicamente, o apoio dos serviços secretos de seu país à formação do Hamas para dividir a resistência palestina, debilitar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), reconhecida pela Liga Árabe em outubro de 1964 como “única representante legítima do povo palestino” e eliminar Yasser Arafat, seu principal dirigente histórico.





Haaretz, o mais importante jornal israelense, publicou provas confirmando que Benjamin Netanyahu, decidido a impedir por todos os meios a viabilização do Estado palestino, admitiu em reunião reservada de seu partido Likud, em 2019, que “quem quiser impedir o estabelecimento de um estado palestino tem de apoiar o fortalecimento do Hamas e a transferência de dinheiro para o Hamas. Isso faz parte da nossa estratégia”. (cf. Intercept Brasil, 11/10/2023).


Os palestinos enfrentam simultaneamente dois genocídios. O primeiro teve início em 1948, quando a ONU criou o estado de Israel e deixou para depois o estado palestino. Um depois que, até agora, transcorridos 75 anos, não aconteceu. O segundo, tão terrível quanto privar um povo de espaço para viver, é tentar transformá-lo em “inimigo”, “sanguinário”, “terrorista” e “perigo para a humanidade”, como tem sido feito pela mídia corporativa internacional e brasileira desde então, com o clímax sendo alcançado após os ataques do Hamas a Israel.

O frio descaramento de Benjamin Netanyahu e de seu entorno na execução dessa estratégia se inscreve numa longa sequência de morticínios que pavimentaram a formação e a expansão do Estado de Israel. Um dos primeiros ocorreu em 22 de julho de 1946, antes mesmo da malfadada partilha da Palestina. O grupo terrorista Irgun, comandado por Menachem Begin, introduziu pesada carga de explosivos na cozinha do hotel King David, em Jerusalém, onde residiam com suas famílias os funcionários do Mandato Britânico da Palestina (estabelecido pela Sociedade das Nações em 1923, após o colapso do Império Otomano).

A explosão estremeceu a velha Jerusalém: 91 mortos, entre os quais 28 britânicos, 41 árabes e 17 judeus e mais de uma centena de feridos. O objetivo imediato era destruir os arquivos britânicos, que continham ampla documentação sobre o terror sionista, mas eles queriam também apavorar a população palestina, constrangendo-a a fugir de suas casas. Comemorando, em julho de 2006, este feito que de que o facho sionismo se orgulha, Benjamin Netanyahu e seus asseclas colocaram no hotel King David uma placa comemorativa em homenagem aos terroristas do Irgun.

É longa e tenebrosa a lista de atentados sionistas contra os palestinos. Alguns dos mais atrozes ocorreram durante os meses que precederam o final do mandato britânico, fixado pela ONU para o dia 15 de maio de 1948. Decididos a conquistar o máximo de terreno para o Estado israelense que pretendiam proclamar naquela data, os sionistas, utilizando a fundo a superioridade de sua organização militar, ampliaram a escala de sua ofensiva. Entre dezembro de 1947 e março de 1948, muitas aldeias árabes (Beld Shaikh, Sasa, Karf etc.) foram varridas do mapa pela Haganah, a principal organização armada clandestina sionista e pelos agrupamentos Stern e Yrgun, dois esquadrões da morte especializados nas formas mais sórdidas e covardes de ação terrorista, nos quais os futuros primeiros-ministros Begin e Shamir aprimoraram suas peculiares carreiras militantes.

Decididos a ultrapassar a Haganah na caça ao árabe, eles atacaram de surpresa na madrugada de sexta-feira 9 de abril de 1948 a aldeia de Deir Yassin, cuja população indefesa foi chacinada numa orgia de bestialidade que sequer poupou mulheres grávidas, cujo ventre foi aberto a facadas. Duzentos e cinquenta e quatro palestinos foram trucidados; dezenas de meninas foram estupradas.[1]

Em dezembro de 1948, quando Menachem Begin, chefe máximo do Irgun, foi recebido por seus correligionários de Nova Iorque, membros eminentes da comunidade judaica, entre os quais Albert Einstein, lançaram um manifesto em que se dissociavam firmemente dos algozes de Deir Yassine: “[…]os terroristas [dos grupos Stern e Irgun] atacaram esta aldeia tranquila (Deir Yassin).[…] Massacraram […]a quase totalidade dos habitantes, deixando alguns vivos para exibi-los como prisioneiros nas ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com este ato. […] Mas os terroristas […] mostraram-se orgulhosos do massacre, convidando todos os correspondentes estrangeiros[…] para ver os cadáveres amontoados[…]”.

Anos depois, em carta a seu amigo Haim Ghori, datada de 15 de maio de 1963, Ben-Gurion, patriarca do sionismo social-democrata e principal fundador do Estado de Israel, assim caracterizou Menachem Begin: “[…] é um personagem talhado da cabeça à planta dos pés à imagem do modelo hitleriano. Está disposto a eliminar todos os árabes para completar as fronteiras do país. […]. Considero-o um grande perigo para Israel[…]”. Se chegar ao poder, prossegue Ben-Gurion, colocará “criminosos de sua espécie à frente da polícia e do exército”. E concluiu: “Não duvido de que Begin deteste Hitler, mas este ódio não prova que ele seja diferente de Hitler”. Sessenta anos depois, é certamente o caso de dizer de Benjamin Netanyahu o que Ben-Gurion disse de Menachem Begin.


Nunca mais. Outra vez!



Sob nossos olhos desfilam os insuportáveis horrores da “diplomacia” facho sionista em Gaza, aquela mesma que chamou o Brasil de “anão diplomático”. Argumentar com genocidas é perder tempo: eles só acreditam no “argumento” da força. Em vez disso, em 30 de outubro, exercendo a presidência do Conselho de Segurança, o ministro Mauro Vieira honrou a diplomacia brasileira ao expressar o consenso majoritário dos 120 países membros da ONU que votaram a favor de um cessar fogo imediato na faixa de Gaza, perguntando: “Quantas vidas serão perdidas até passarmos à ação?”. Se depender de Menachem Biden, protetor de Benjamin Netanyahu, quantas forem necessárias para esvaziar o ghetto de Gaza.

*João Quartim de Moraes é professor titular aposentado do Departamento de Filosofia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A esquerda militar no Brasil (Expressão Popular) (https://amzn.to/3snSrKg).

Nota

[1] Um dos relatos mais objetivos da chacina de Deir Yassin, está no livro Ô Jerusalém, escrito pelos jornalistas Dominique Lapierre e Larry Collins, na edição francesa, Paris: Laffont, 1971, pp.363-369.

Os depoimentos dos poucos sobreviventes e os relatórios de policiais ingleses com mandato da ONU foram reunidos por Sir R. C. Catling, diretor-geral adjunto do Criminal Investigation Department na pasta “secreta e urgente” nº 179/11017/65.


FONTE: Blog A Terra é Redonda




sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

¿ES ISRAEL UN ESTADO TÓXICO?

Por Alejo Brignole *

Cualquier verdadero humanista estará de acuerdo en que el pueblo hebreo, esa entidad sociocultural y étnica llamada Israel, debe gozar de un territorio propio y vivir bajo un Estado-Nación que sirva de cobijo y referencia geográfica a un pueblo perseguido, segregado y aniquilado durante milenios.

Fue la Shoá u Holocausto perpetrado por Alemania durante el nazismo el que sirvió para concretar el viejo proyecto sionista de poseer una tierra, un espacio que diera cohesión territorial a un pueblo en la diáspora.

A partir de entonces, Israel tuvo la gran oportunidad de erigirse en un anhelado ejemplo de tolerancia entre los pueblos, de respeto a la dignidad humana y de la concordia como base fundamental para el progreso humano. Sin embargo Israel —sus políticos, gobernantes y los sectores religiosos más radicales— decidió perder para el mundo esta ocasión inmensa, bella y perdurable: decir nunca más a los genocidios, al odio racial y a la persecución de unos pueblos contra otros. 

Incluso haciendo un muy sencillo análisis histórico-político desde su fundación en 1948, el Estado de Israel no solamente reiteró con sus vecinos palestinos los crímenes aberrantes que padeció en los últimos dos mil años, sino que además copió algunas metodologías de sus verdugos alemanes. La terrible paradoja reside además en que muchos de aquellos judíos sionistas impulsores del nuevo Estado fueron los que padecieron en sus carnes los rigores del Auschwitz, Sobibor o Treblinka.

Tristemente, ello no bastó para abrazar con fuerza un humanismo a ultranza. Por el contrario, Israel fue perfilándose como una nación agresora, promotora de la tortura y del terrorismo de Estado. Con los años, Israel fue mutando en un Estado peligrosamente militarista que abandonó el concepto de su legítima defensa y puso su aparato bélico al servicio de su propio lebensraum, aquel espacio vital que los nazis buscaban hacia el Este europeo y que concluyó con el Holocausto de 6 millones de judíos polacos, alemanes, checoslovacos y de muchas otras nacionalidades.

Esa ambición expansionista alemana que Israel supo replicar en su ideología y en sus métodos hoy la padece el pueblo palestino, obligado a una convivencia atroz con un Estado que margina y arrasa a sus vecinos. Que los reduce a ghettos como la Franja de Gaza y los presiona instalando asentamientos de colonos ilegales que avanzan sobre un territorio palestino establecido y reconocido por la Resolución 181 de la ONU de 1947, entre otros protocolos.

Curiosamente, aquellos que critican los crímenes contra la humanidad que Israel perpetra casi a diario son inmediatamente acusados de antisemitismo. Acusación aplicada también a los defienden la idea de un Estado de Israel autónomo y soberano. Bajo este endeble escudo dialéctico, Israel justifica sus horrores y renueva así el pathos que el mundo debe erradicar y cuyo epítome fue aquel Holocausto de la II Guerra Mundial.

En 2002, el premio Nobel de Literatura el portugués José Saramago fue considerado persona non grata en Israel, por comparar la política israelí contra los palestinos con el campo de exterminio de Auschwitz. En respuesta a la reflexión del escritor, el Estado de Israel decidió censurarlo retirando todos sus libros a la venta en el país.

Teniendo en cuenta el ideario político y moral del autor portugués fallecido en 2010, reflejado además en toda su obra y en su pensamiento escrito (siempre en defensa de un humanismo a ultranza), difícilmente podemos acusar a Saramago de antisemita o con vestigios de cualquier postura racista o contraria a los valores humanos más universales.

Mucho antes de este episodio, el escritor italiano Primo Levi —sobreviviente de la Shoá y en cuya obra narra todo aquel horror— se fue distanciando política y emocionalmente del nuevo Estado de Israel por considerar que su deriva filosófica y política contradecía todo lo que él defendía: la tolerancia y el diálogo como punto de partida para una construcción civilizatoria.

La creciente brutalidad del terrorismo de Estado aplicado contra los palestinos produjo también severas grietas internas en el propio Ejército israelí. Muchos objetores de conciencia (también patriotas y amantes de un Israel soberano) comprendieron que algunas prácticas eran claramente genocidas y de lesa humanidad. Este movimiento denominado Omat LeSarev (Valor Para Negarse), también conocido como Refúsenik, aglutina a oficiales, pilotos militares y efectivos varios, que rehúsan ser parte de una guerra de expansión colonial, de matanzas sistemáticas y vulneraciones metodológicas de la dignidad humana. Al respecto, resulta imprescindible la lectura del libro Rompiendo Filas - Negarse a Servir en Gaza y Cisjordania, escrito por la periodista israelí Ronit Chacham, en el que reúne testimonios de soldados y oficiales de rango que repudian el giro fascista de su país.

Pero también en el campo diplomático Israel avanza por fuera del derecho internacional, siempre con la anuencia y el apoyo de Estados Unidos, al cual le debe su supremacía militar y estratégica (siempre a cambio de defender y sostener los intereses de Washington en Oriente Próximo).

Días pasados, Donald Trump reconoció oficialmente a Jerusalén como capital israelí y aseguró que EEUU trasladaría allí su Embajada. Acto seguido, el primer ministro israelí, Benjamín Netanyahu, propuso unilateralmente trasladar las embajadas internacionales a Jerusalén, cuando en realidad la ciudad goza de un estatus tutelado por las Naciones Unidas establecido por la Resolución 181 ya señalada y los Acuerdos de Camp David de 1978, bajo el auspicio de la Administración Carter (1977-1981), por ser una ciudad santa para las tres grandes religiones monoteístas. Al igual que la comunidad judía, el Islam y la fe católica tienen allí sus lugares más sagrados.

Con esta maniobra, Washington intenta legitimar lo que aún está en disputa diplomática y sujeto a resoluciones de la ONU, que no reconoce la soberanía de ningún Estado sobre la parte Oriental de la ciudad. Cuando Israel se anexionó formalmente en 1980 la parte Este de la Ciudad Santa después de haberla ocupado en la guerra de 1967, las representaciones diplomáticas establecidas en Jerusalén  —de las cuales 12 eran latinoamericanas— obedecieron la Resolución 478 del Consejo de Seguridad de la ONU y se fueron de allí. Hoy Washington promueve el camino contrario e incurre en una de sus muchas violaciones a los mandatos de la ONU.

Apenas siete países votaron a favor de la irresponsable propuesta de Trump el jueves 21 de diciembre en la Asamblea General de la ONU. Hubo en cambio 128 naciones que repudiaron la invitación de Trump, mientras que 35 se abstuvieron y otras 21 no ejercieron su voto. Y todo ello bajo las amenazas de Donald Trump de castigar a los que se pronunciaran en contra de las intenciones de Washington. Al respecto, el presidente Evo Morales escribió en Twitter: “Trump quisiera tener Estados sumisos, sin embargo, con los resultados de esta votación sobre Palestina en Naciones Unidas, tenemos Estados soberanos que representan a sus pueblos con dignidad e identidad. ¡Que viva la liberación de los pueblos del mundo!”.

Por fortuna, esas 128 naciones demostraron que el peso de la hegemonía estadounidense se encuentra en clara decadencia y que Israel es identificado, cada vez más, como un Estado tóxico para la convivencia internacional.

* Escritor y periodista

FUENTE: Cambio 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

"Manda Quem Pode, Obedece Quem Tem Prejuízo"

Trump ameaça cortar ajuda de quem votar contra EUA sobre Jerusalém

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou nesta quarta-feira (20) cortar a ajuda financeira a países que votarem a favor de uma resolução condenando o reconhecimento por Washington de Jerusalém como a capital de Israel, na ONU.

"Tomaremos nota dessa votação", declarou Trump, denunciando "todos esses países que pegam nosso dinheiro e depois votam contra nós no Conselho de Segurança e na Assembleia das Nações Unidas".

"Deixe que votem contra nós. Vamos economizar um bocado. Não nos importa", acrescentou a repórteres na Casa Branca.

Antes, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley,havia alertado que iria "anotar os nomes" da sessão emergencial da Assembleia Geral das Nações Unidas desta quinta-feira (21) que vai votar uma resolução não vinculante criticando a decisão sobre Jerusalém.

"Sempre nos pedem para fazer mais e dar mais", disse Haley num post no Twitter. "Então, quando tomamos uma decisão, sob a vontade do povo americano, sobre onde localizar NOSSA embaixada, não esperamos que aqueles a quem ajudamos agora nos ataquem."

Haley acrescentou que a votação iminente "critica nossa escolha" e que "os EUA vão anotar nomes".

Sessões emergenciais da Assembleia Geral são raras. Esta foi marcada a pedido da Autoridade Nacional Palestina após a votação de uma resolução pelo Conselho de Segurança terminou com 14 votos a favor e o veto dos EUA.

A resolução, redigida pelo Egito, não citava especificamente os EUA ou Trump, mas expressava "profundo desgosto por recentes decisões sobre o status de Jerusalém".

Foi o primeiro veto dos EUA em mais de seis anos, segundo Haley, que qualificou a situação de um "insulto" que "não será esquecido".

Miroslav Lajcak, presidente da Assembleia Geral da ONU, não quis comentar a fala de Trump, mas disse que "está no direito e na responsabilidade dos Estados membros expressar suas opiniões".

Um porta-voz do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, também não quis comentar.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

"Lo que no está bajo control de EE.UU. pasa a ser una amenaza"

Entrevista a Theotonio dos Santos, cientista social brasileño y uno de los intelectuales más influyentes de América Latina



Por Alberto López Girondo

Theotonio dos Santos, a los 79 años puede decir que vivió los grandes procesos políticos regionales en carne propia, desde su exilio en Chile tras el golpe de 1964 en Brasil y su nuevo destino en México desde 1973 hasta el regreso a su patria con la vuelta de la democracia, en 1985. Es uno de los pilares de la Teoría de la Dependencia y luego del concepto de Sistema Mundial. Ahora, de paso por Buenos Aires invitado por el Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, del que fue uno de los fundadores, le toca explicar las razones para que el gobierno de Dilma Rousseff esté en sus últimos estertores y la región sufra un retorno al neoliberalismo que parecía ya alejado de la región.

Foto: Mariano Martino


"Yo veo a la situación en Latinoamérica como parte de una ofensiva más general a nivel mundial", dice desde las oficinas de CLACSO, donde el elemento determinante es una pérdida de control económico y político por parte del centro hegemónico del sistema mundial, que es Estados Unidos.

–¿Cómo se manifiesta esta ofensiva?

–Hay una postura muy desesperada de recuperación de poder y si bien no tuvo el resultado que pretendían, tuvo efectos locales bastante destructivos. Es el caso de Oriente Medio, donde ha quedado una crisis profunda y Rusia, que integró un proyecto de colaboración, termina volviendo a su condición de gran enemiga de Europa.

–¿Este nuevo enfrentamiento comienza en Siria?

–Ven a Rusia como una amenaza sobre todo por su alianza con China, que la pone otra vez dentro de un esquema de disputa mundial. Por ahora sólo han conseguido crear unas condiciones realmente difíciles en el antiguo mundo soviético pero EE UU no tiene control de la situación.

–¿El ataque contra el gobierno de Dilma se explicaría entonces por el acercamiento a los países del BRICS?

–Todo lo que no está bajo control de EE UU pasa a ser una amenaza y los BRICS son una amenaza estratégica para EE UU. Y en cierto sentido tiene razón, porque ocupa un espacio que antes ocupaban ellos. En el caso latinoamericano su preocupación pasa por el petróleo y básicamente Venezuela, que tiene las reservas más grandes del mundo y Brasil, tras el descubrimiento del Presal, que tiene comprometido parte de las rentas a salud, educación, ciencia y tecnología.

–Al gobierno de Dilma lo frenaron, lo boicotearon, llenaron el Congreso de impresentables...

–No es difícil eso (risas).

–La pregunta es por qué el PT no pudo hacer nada contra eso.

–El PT jugó siempre una carta de negociación y una de las consecuencias de esta política era bajar la intensidad de la movilización social y política.

–¿Ese fue su gran error?

–Yo siempre que pude hablar con Lula de estas cosas le dije que había que tener una unidad de izquierda aunque se negociara con quien fuera, pero había que tener una base bien fuerte para la negociación. Si te restringes a ti mismo, el resultado es que empiezas a depender de la negociación cada vez más. Lula tenía una capacidad muy alta de negociación y había una expectativa de que el PT y el PSDB gobernasen en alternancia. Este era el planteo de Fernando Henrique Cardozo luego de que rompió con la Teoría de la Dependencia. Pero hubo muchas concesiones innecesarias y muy negativas. Porque un país no puede darse el lujo de patrocinar la creación y el fortalecimiento de una minoría financiera que vive de la improductividad y de la especulación.

–Pero el PT nunca atacó a esos grupos financieros.

–Al contrario, el presidente del Banco Central de Lula, Henrique Meirelles, ahora es ministro de Economía (de Michel Temer) y venía de la época de Fernando Henrique. Es una figura de la banca internacional. Eso ayudó a consolidar la relación de Lula con el sistema financiero, pero el resultado es catastrófico.

–¿Que pasó después? ¿Dilma no tiene la misma capacidad de negociación?

–Hay un par de cuestiones, primero la baja en el precio del petróleo por el aumento en la producción en EE UU a través del fracking, que tuvo un impacto grande, pero por un período localizado. Se formó en torno de Dilma un grupo muy crítico a que el PT intentara enfrentar esas situaciones negativas y dijeron que había que hacer un ajuste. Todo esto en un cuadro en que decían que estábamos viviendo una crisis muy peligrosa y una inflación en expansión, que no existía –era del 4 y poco por ciento– pero pasó a existir con la suba de la tasa de interés.

–Eso fue en enero del 14 cuando asumió su segundo mandato.

–Ya en 2013 ella empezó a aceptar la idea, forzada por el Banco Central, de subir de la tasa. Estaba abriendo el camino de la contención del crecimiento y no de la paralización de la inflación. Por el contrario, una cosa que yo discuto hace años con distintas corrientes del pensamiento económico burgués, es esa historia de que la inflación es el resultado de un exceso económico que sólo puede ser contenido a través de un aumento de tasas de interés.

–Una receta clásica monetarista.

–El resultado dramático es que aumenta la inflación. ¿Qué conclusión sacas? Que está mal la teoría y la aplicación, pero no, ellos dicen que subió muy poco la tasa de interés. Se hizo un clima para todo eso y ya estábamos con un 14% de interés, y un crecimiento cada vez menor.

–¿Cómo va a ser este futuro, Dilma vuelve o no?

–La sensación es que no había condiciones para volver porque la campaña ha sido tan fuerte, pero el gobierno de transición ha hecho muchas cosas detestables y además paradójicas, porque un líder sindical que apoya un gobierno tan anti–sindicalista y anti–trabajadores tiene un costo no sólo electoral sino dentro de su propia clase. Los líderes sindicales, incluso los que estuvieron con la derecha y el impeachment, están retrocediendo para no aparecer en favor de un aumento en la edad jubilatoria y cosas así. Es muy violento que se proponga aumentar las horas semanales trabajadas y se afecte el propio sueldo mínimo, que Lula había aumentado casi el 200 por ciento. Eso tiene una dimensión muy grande en la vida de la gente. Si tú empiezas a creer que puedes proponer esto en un régimen de excepción, imagínate lo que podrías hacer si te confirmas en el poder. Esto está creando una situación difícil que aún no tuvo una fórmula de apoyo a Dilma pero me dicen en el PT que hay posibilidad de volver, es muy pequeña la diferencia, son seis votos de senadores. Claro, cada senador es un mundo y Dilma no es sencilla. Ella difícilmente negociará en términos de compra–venta de votos, viene del movimiento revolucionario, tiene aún una cierta fidelidad a eso, aunque al mismo tiempo sabe que es necesario hacer estas cosas…

–Pero no le gusta.

–No le gusta, esa es la cuestión.

–Da la impresión de que Brasil renuncia a un destino histórico de liderazgo que Itamaraty veía cumplido tras el ingreso en los BRICS.

–Son 200 años de lucha por la independencia de América Latina. Los pro-hispánicos y pro-portugueses han luchado años por mantenerse en el poder cuando ya España y Portugal eran sólo un instrumento de Inglaterra. Estos tipos aún creen que su supervivencia como clase dominante depende de esa alianza histórica. Y ellos creen que EE UU está arriba de todo y no ven mucho cómo manejarse con la potencialidad que, por ejemplo, trae China como demandante mundial. Y eso es grave porque los chinos negocian en forma colectiva, en grandes proyectos y, por lo tanto, de estado a estado. Los empresarios cuentan pero como auxiliares de un planeamiento estatal. Nuestra burguesía no cree en eso. Esta gente es como la anti-independencia de América Latina.

¿Cómo ve el futuro de la región? Porque el triunfo de Mauricio Macri seguramente aceleró el golpe en Brasil y la avanzada contra Venezuela.

–Parece que hay una fase muy favorable para ellos. Pero cuando surja una resistencia efectiva dudo mucho de su capacidad para controlar la situación. Porque todo eso está arriba de un mundo creado por los medios de comunicación, por una negación de realidades, por la creación de situaciones psicológicas con gente muy especializada y que sabe muy bien transmitirlo a las masas. Realmente la idea de manejar el mundo como si el libre mercado fuera la fuente del crecimiento económico, del desarrollo, es una cosa absurda. No puede mostrar ningún sector económico que no sea dirigido por la inversión estatal y ningún proceso de enriquecimiento que no pase por la transferencia de recursos del Estado. Lo que nos lleva a una falsa cuestión que la izquierda también debe aprender, de que hay que cortar gastos para transferir hacia esa minoría que está básicamente en el sector financiero. En Brasil pagamos un 40% más del gasto público para una deuda creada explícitamente por razones macroeconómicas.

Este escenario implica que en algún momento puede haber grandes levantamientos. ¿Eso no podría implicar situaciones como las de Medio Oriente?

–En último caso sí, pero no creo que Estados Unidos lo quiera porque el costo es muy elevado en un momento en que ellos están sacando tropas para hacer una cosa que suena increíble, y lo dicen claramente: cercar a China. En Medio Oriente los resultados fueron desastrosos. Puede ser que la estrategia fuera la del caos creativo. Si es así, ya lo consiguieron. «


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Golpe militar abortado na Turquia e o seu significado geopolítico

As nove vidas de Erdogan e o golpe de Gulen

por M K Bhadrakumar [*]

Autoridades turcas estão à beira de alegar que o golpe militar abortado na noite passada tem significado geopolítico. As sugestões nesse sentido estão a vir a conta-gotas. 

O presidente Recep Erdogan disse que o golpe foi planeado pelos seguidores de Fetullah Gulen, o pregador islamista que opera a partir dos EUA. A seguir, o ministro da Justiça repetiu esta alegação. 

A agência de notícias estatal Anadolu depois disso classificou o coronel Moharrem Kose como líder do golpe. Kose era um oficial das forças armadas turcas que em Março de 2006 foi desonrosamente despedido por ligações com a sombria organização de Gulen. 

Entretanto, Ibrahim Melih Gokcek, presidente da municipalidade de Ancara e colaborador próximo de Erdogan, saiu-se com uma revelação espantosa: que os participantes do golpe incluíam um oficial pertencente à organização de Gulen que também estava envolvido na morte do piloto russo na Síria, em Novembro último. Gokcek disse:

Foi um "estado paralelo" que deteriorou nossas relações com a Rússia. Foi um incidente, no qual um dos pilotos destas estruturas participou, garanto. Ele foi um dos participantes do golpe. Não divulgámos isto até agora. Mas eu, Melih Gokcek, digo que nossas relações foram deterioradas por estes vilões.

Naturalmente, é preciso ligar os pontos. Gulen fugiu para os EUA em 1998 quando a inteligência turca começou a investigar seus seguidores que se haviam infiltrado em agências de segurança do estado turco, nas forças armadas e no judiciário. 

Em 2008, Gulen obteve a permissão de residência ("green card"), aparentemente por recomendação de altos responsáveis da CIA. Ele desde então tem vivido solitário na Pennsylvania e nunca saiu dos EUA em visita ao exterior. 

Um antigo chefe da inteligência turca, Osman Nuri Gundes, em 2011 escreveu nas suas memórias que a rede de Gulen proporcionou uma cobertura para as operações clandestinas da CIA nas antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, como parte da estratégia estado-unidense para utilizar o Islão político como um instrumento de políticas regionais. 

Na verdade, a partir da sua vasta e luxuosa propriedade em Saylosberg, numa parte remota do leste da Pennsylvania, fortemente guardada e afastada de visitantes, Gulen lançou uma rede de mesquitas e madraças nos países da Ásia Central. (Curiosamente, a Rússia e o Uzbequistão proibiram "escolas" de Gulen.) 

Agora, a tentativa de golpe na Turquia ocorre na sequência da reaproximação turco-russa e de sinais nascentes de uma mudança nas políticas intervencionistas de Erdogan na Síria. Naturalmente, a Turquia é um "estado chave" nas estratégias regionais dos EUA e a reaproximação turco-russa chega no momento mais inoportuno para Washington, pois:

  • É um "multiplicador de força" para os esforços de Moscovo no sentido de fortalecer o regime sírio;
  • Promete ressuscitar o projecto encalhado do gasoduto Turkish Stream (o projecto de US$15 mil milhões para transportar gás russo através da Turquia para o sul da Europa), bem como a construção na Turquia das centrais nucleares de US$20 mil milhões com reactores russos;
  • Bloqueia os planos dos EUA para estabelecer presença permanente da NATO no Mar Negro (a qual exige a cooperação da Turquia nos termos da Convenção de Montreux de 1936 pela qual países não ribeirinhos do Mar Negro não podem manter permanentemente navios de guerra naquelas águas);
  • Pode por em perigo operações dos EUA no Iraque e na Síria, as quais dependem fortemente da base Incirlik na Turquia;
  • Actua contra a balcanização da Síria;
  • Muda como um todo a orientação da política externa da Turquia; e
  • Actua contra os interesses israelenses, sauditas e qataris na Síria.


Erdogan é também um político astuto e manterá os americanos na dúvida. Mas o sultão sabe que deus lhe deu um novo período de vida – e sem dúvida permanecerá desconfiado das intenções estado-unidenses. 

Um golpe é sempre uma artimanha (gambit). Os que tramaram o golpe julgaram erradamente que o grosso dos militares turcos apoiaria o derrube do presidente autoritário que impôs supremacia civil sobre os pashas. Mas a ideia brilhante de Erdogan de fazer entrar o "poder do povo" nas ruas apanhou-os de surpresa – recordando o acto de Boris Yeltsin ao sufocar a tentativa de golpe de 1990. 

Erdogan é um político carismático e tem sobrevivido graças à sua grande popularidade. Na eleição de 2014 ele assegurou um mandato inequívoco com 51% de apoio do eleitorado. Agora, os laicos, "kemalistas" e nacionalistas de extrema-direita também se alinham contra o golpe. Isto dá-lhe um apoio de base maciço. 

Gulen tornou-se agora uma questão grave entre Washington e Ancara. Não há probabilidade de Washington concordar com a extradição de Gulen, o qual é um "activo estratégico". (Ler o artigo fascinante sobre Gulen no Open Democracy, intitulado What is Fetullah Gulen's real mission?

16/Julho/2016

[*] Diplomata indiano. Foi embaixador no Uzbequistão (1995-1998) e na Turquia (1998-2001). 

O original encontra-se em blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/... 


quarta-feira, 15 de junho de 2016

A estratégia dos EUA

por Jorge Beinstein [*] 
entrevistado por Hemisfério Izquierdo

 
"Tanto Clinton como Trump oscilarão entre o belicismo, cada vez mais enlouquecido, e a procura de acordos provisórios com seus rivais". Jorge Beinstein.

HI: Quando Obama ganhou em 2008 construiu-se uma narrativa que quase assinalava o fim das pretensões hegemónicas e belicistas dos Estados Unidos, a ponto de que no ano 2009 deram-lhe o Nobel da Paz. Que balanço faria destes oito anos de gestão Obama? Modificaram-se em algo seus objectivos e sua estratégia em relação à gestão Bush? 

JB: Em relação à América Latina, a gestão de Obama começou com o golpe de estado nas Honduras e continuou com uma ofensiva geral tendente à recolonização da região. A seguir aos recuos imperiais, da perda de influência que caracterizou a presidência Bush (recordemos o fracasso do ALCA), a presidência Obama lançou uma vasta operação de conquista que se desdobrou de maneira complexa, flexível mas sistemática. 

A nível global a estratégia belicista de Bush foi enriquecida com um vasto leque de intervenções imperialistas como o golpe de estado na Ucrânia, a destruição da Líbia e a guerra contra a Síria, incluída a criação e colocação em andamento do chamado "Estado Islâmico". Tudo isso num contexto de decadência económica, social e institucional dos Estados Unidos que se havia iniciado muito antes mas que se foi agravando durante a era Obama. 

HI: Tudo indica que os EUA rumam para uma escolha entre Trump e Clinton. Para além da pirotecnia e das declarações altissonantes será de esperar alguma diferença entre ambos os candidatos em relação à estratégia dos Estados Unidos para com o mundo? 

A LUMPEN-BURGUESIA 

JB: Em primeiro lugar considero que acima dos candidatos existe o que se costuma chamar "política de Estado", ou seja, as estratégia e decisões do poder real que no caso dos Estados Unidos é constituído por uma cúpula reduzida que articula, ou tentar articular, uma rede parasitária de interesses financeiros e militares que operam como uma massa instável de camarilhas mafiosas. É o que defino como lumpen-burguesia [1] imperial ou, conforme definiu Isa Conde: lumpen-imperialismo. 

Em segundo lugar é necessário ter em conta que actualmente os Estados Unidos atravessam uma forte crise de representatividade da sua estrutura política que coincide com a degradação geral do sistema social. A vitória de Trump é a expressão do declínio do Partido Republicano, um energúmeno completamente inescrupuloso conseguiu deslocar os quadros tradicionais desse partido. A candidatura de Clinton, ao contrário do caso republicano, mostra os partidos políticos tradicionais a bloquearem toda possibilidade de renovação, como aconteceu no momento da candidatura de Obama que permitiu rejuvenescer o rosto do Partido Democrata. 

Em terceiro lugar há que prestar atenção ao facto de que a economia norte-americana se encontra à beira da recessão após vários anos de crescimento anémico. Se a recessão chegar durante a presidência Trump ou Clinton agravar-se-ão as tendências entrópicas, o descontentamento social, a perda de legitimidade das instituições, etc. A referida recessão, altamente possível, faz parte de um processo recessivo global que actualmente abrange a Europa, Japão e boa parte da América Latina, a começar pelo Brasil e seguindo-se a Argentina. 

Nos últimos anos os EUA acentuaram o seu perfil militarista, empurrando a NATO contra a Rússia, tentando criar um cerco agressivo contra a China, multiplicando suas intervenções directas e indirectas em numerosos países. Isso não lhe serviu para resolver a sua crise e sim, ao contrário, agravou-a. Se continuar a avançar pelo caminho belicista traçado por Bill Clinton, Bush (filho) e Obama cedo ou tarde chegará a um ponto de inflexão extremamente grave. Isso não exclui o facto de que a elite dominante norte-americana em certo momento poderia tentar chegar a algum tipo de acordo de coexistência com a Rússia e a China, ainda que pareça difícil que o tente (mas não impossível). Além disso não é fácil prever quanto tempo poderia durar esse apaziguamento. O problema central é que a sobrevivência da casta parasitária estado-unidense é impossível sem a extensão do saqueio imperialista sobre o resto do mundo e que ao mesmo tempo esse esforço saqueador, político-militar-financeiro, agrava a sua desordem interna. 

Considero que tanto Clinton como Trump oscilarão entre o belicismo, cada vez mais ensandecido, e a busca de acordo provisórios com seus rivais. Cada um deles o fará de acordo com o seu estilo. Trump aos gritos e Clinton com bons modos. 

HI: Depois da chamada "primavera árabe" [2] iniciou-se uma espécie de guerra permanente no Médio Oriente com foco na Síria mas que afecta toda a região. Quais são as chaves para entender esta guerra? Que interesses perseguem os EUA neste conflito e como podermos interpretar a reaparição da Rússia como "global player" neste contexto? 

OS AUTO-ATENTADOS DO 11/SET 

JB: A guerra contra a Síria é a continuidade da ofensiva militar estado-unidense no Médio Oriente e na Ásia Central que começou com os auto-atentados do 11 de Setembro de 2001 [3] e as invasões do Afeganistão e Iraque e da tentativa fracassada de liquidar o Irão. 

Fracassou a estratégia norte-americana para apoderar-se dessa vasta região e assim tomar o controle de 70% dos recursos petrolíferos do planeta e a seguir estrangular a Rússia e a China. Nesse sentido a tentativa de liquidar a Síria, transformá-la numa não-sociedade (como fizeram com a Líbia), num "vespeiro" desestabilizador (como a chamaram seus estrategas) pode ser entendida como uma tentativa desesperada, altamente irracional, para se contrapor à sucessão de fracassos que vão desde a interminável guerra no Afeganistão (eles acreditavam que ia ser fácil uma "limpeza" desse território) até a sua incapacidade para destruir um Irão que ampliou sua influência na zona. Os estrategas do Império estavam certamente convencidos de que a caotização da Síria, somada à conquista com êxito da Ucrânia, agravaria o cerco em torno da Rússia e Irão o que lhe teria permitido desenvolver uma ofensiva esmagadora nessa zona. Mas depararam-se com um exército sírio com um grande potencial de combate e forte apoio popular, com a intervenção russa e a do Irão. Sobretudo a intervenção da Rússia com uma capacidade militar e uma audácia política inesperadas. 

Esse foi o enésimo erro, a enésima subestimação da Rússia por parte dos Estados Unidos, demonstração da decadência intelectual dos seus dirigentes. Eles acreditavam que, a partir de Yeltsin, a Rússia sofreria uma deslocação irreversível, prolongamento da derrocada soviética. Pelo contrário, verificou-se uma reacção da identidade russa recompondo seu Estado, o centro histórico da referida identidade apoiado em raízes culturais muito profundas, na sua economia e naturalmente do seu complexo industrial-científico-militar. Isso favorecido pelo aumento do preço do petróleo e do gás (baluarte do comércio externo russo), pela aliança estratégica com a China e pelo atolamento estado-unidense na Ásia Central. 

UCRÂNIA, O FILHO IDIOTA DOS PADRINHOS OCIDENTAIS 

Os estrategas norte-americanos também se equivocaram ao acreditarem que com o golpe de estado na Ucrânia atrairiam a Rússia para um pântano de guerra prolongada (como havia ocorrido com a URSS no Afeganistão), mas os russos responderam de maneira inteligente esquivando-se à provocação e ajudando a converter a Ucrânia numa espécie de filho idiota dos seus padrinhos ocidentais, submersa numa interminável guerra étnica. 

E tornaram a equivocar-se quando acreditaram que a Síria seria uma espécie de Líbia-bis, que a Rússia não se atreveria a intervir, que os bandos de mercenários "islâmicos" (?) se apossariam completamente desse país. A Rússia interveio e os que não foram capazes de intervir contra a Rússia foram os ocidentais. O que está agora a ocorrer é que a aliança estratégica entre Rússia e China emerge como o maior desafio à supremacia ocidental. 

HI: Passando à América Latina, quais foram os eixos da estratégia dos Estados Unidos para com o nosso continente durante estes mais de 15 anos de progressismo? Estamos perante uma perda de hegemonia ou diante de uma mudança de estratégia? 

GUERRA DE QUARTA GERAÇÃO 

JB: Podemos falar das duas estratégias sucessivas mais recentes. A primeira delas tentou conduzir a região rumo à integração económica e em consequência geopolítica com os Estados Unidos. Foi o prolongamento (finalmente anacrónico) das manobras desenvolvidas a partir do chamado Consenso de Washington. Mas a América Latina havia mudado, caíam os regimes neoliberais e emergiam as experiências progressistas. O fracasso da imposição do ALCA [Acordo de Livre Comércio das Américas] foi um golpe muito duro para a diplomacia imperial. A partir da presidência de Obama os Estados Unidos implementaram uma nova estratégia de reconquista que desenvolveu toda a arte da Guerra de Quarta Geração, desde os golpes suaves com êxito nas Honduras, no Paraguai, na Argentina e no Brasil até o cocktail intervencionista contra a Venezuela e outras operações de controle. Para isso utilizam entre outras coisas as lumpen-burguesias locais e seus prolongamentos sociais internos. 

HI: Considerando três elementos recentes que estão a reconfigurar o cenário – as negociações de paz na Colômbia, o descongelamento das relações Cuba-EUA e a profunda crise que os governos progressistas estão a atravessar – o que podemos esperar das políticas dos Estados Unidos em relação à região? Quais seriam hoje seus principais objectivos? 

JB: Os governos progressistas chegaram ao seu limite histórico. Pretendiam reformar o capitalismo colonial tornando-o produtivo, autónomo e socialmente inclusivo sem liquidar os fundamentos do sistema. Mas esses fundamentos económicos, mediáticos, culturais puderam reproduzir-se para finalmente arremeter e em vários casos derrubar esses governos. Desde já o qualificativo "progressista" é ambíguo e por vezes confuso, abrange desde experiências neoliberais rosadas como a de Bachelet no Chile até outras com pretensões "socialistas" como na Venezuela ou na Bolívia. Os Estados Unidos aproveitaram as debilidades do progressismo agravadas pelo desenvolvimento da crise global para avançar na sua estratégia de reconquista da região. 

Os diálogos de paz na Colômbia fazem parte da estratégia imperial. Não puderam derrotar militarmente a insurgência, tentam então destruí-la mediante um complexo emaranhado que inclui pressões e concessões, agressões descaradas e gestos amistosos, tudo isso destinado a aprisioná-la numa rede gelatinosa que a iria arrastando a um beco sem saída. 

A partir do golpe suave na Argentina os Estados Unidos apontaram a três objectivos prioritários. O primeiro acaba de ser conseguido: a reconquista do Brasil. Nos próximos meses tentarão liquidar os obstáculos venezuelano e colombiano. 

Finalmente, o descongelamento das relações dos Estados Unidos com Cuba procura realizar um grande abraço-de-urso que submerja a ilha numa onda empresarial-mediática destinada a conseguir uma "mudança de regime". Mas esses jogo não é jogado por um só protagonista, o Império, e sim vários, especialmente Cuba que tenta aproveitar o referido degelo para fortalecer a sua economia em plena transição entre modelos e que obviamente tenta preservar sua autonomia. 

ESTADOS MAFIOSOS E SOCIEDADES CAÓTICAS 

O objectivo final da estratégia imperial é converter a região num espaço desarticulado, com estados mafiosos e sociedades caóticas, o que é necessário para a realização de grandes saqueios financeiros e de recursos naturais. 

HI: Aqui no Hemisferio Izquierdo nos propomos a contribuir para o debate sobre as perspectivas estratégicas na América Latina, considerando o cenário que nos colocas. Existe hoje um esboço estratégico claro para orientar a luta? Quais deveriam ser os eixos centrais de uma estratégia socialista hoje? 

JB:  Existem esboços, reflexões, práticas sociais promissoras, resistências de diverso tipo, grandes movimentos populares... Está a terminar a "era progressista" mas a sua substituição reaccionária não abre uma etapa de governabilidade direitista, elitista, e sim um horizonte caótico de saqueios, de regimes instáveis, hiper-corruptos. Que outra coisa podemos esperar dos novos "governos" do Brasil e da Argentina ou do que poderia chegar a ser um regime pós-chavista na Venezuela? De qualquer modo a onda progressista não foi uma experiência inútil, ela irrompeu na base do desgaste e em certos casos do desmoronamento neoliberal mas também graças à impotência popular para converter esses fenómenos em disparadores de revoluções populares que eliminassem pela raiz as estruturas coloniais e seus complementos mediáticos e institucionais. Não se produziram revoluções e sim processos de recomposição com inclusão social ao sistema mais ou menos reformado. Isso naturalmente permitiu a sobrevivência das elites mas também despertou a auto-estima de massas populares submersas. Multiplicaram-se as organizações de base, conquistaram-se direitos, melhorias sociais que os governos direitistas tentam agora ou tentarão eliminar. Sua actuação retrógrada gera, gerará, anticorpos, resistências, militâncias, ou seja, uma contra-cultura dos de baixo que graças ao atordoamento dos de cima tem a possibilidade de converter suas lutas, suas práticas variadas, numa conscientização profunda, na percepção das causas da tragédia. Existe um provérbio na Índia que diz que quanto mais alto subir o macaco mais fácil será ver-lhe o cú. Bem, o revanchismo, as tropelias, os roubos descarados das elites dominantes a dançarem no alto do poder permitem ver a sua verdadeira natureza, seus mecanismos de opressão. Em suma, a estrutura do capitalismo colonial, transnacionalizado, perceber claramente sua decadência, seu corpo repugnante. 

Estas elites não são os motores de reconversões capitalistas e sim a expressão da degradação do sistema global. Isto significa que na América Latina a rebelião contra o sistema está na ordem do dia e que "a estratégia" é a da construção de avalanches populares, de movimentos insurgentes de amplo espectro social, respondendo às culturas específicas de cada povo, a sua identidades, suas memórias, suas potencialidades criativas. Certamente se cruzarão no caminho dirigentes manipuladores de diferentes categorias a tentarem domesticar as massas, a oferecerem alternativas aparentemente "possíveis". Haverá que passar-lhes por cima. O aprofundamento da crise deixará aberta a porta para as revoluções populares. 

08/Junho/2016

[3] Ver o vídeo   11 Septembre, Anatomy of a Great Deception (legendado em francês). 

[*] Doutorado de Estado em Ciências Económicas (Universidade do Franche Comté, Besançon, França), especialista em prognósticos económicos. Foi consultor de organismos internacionais e de governos, dirigiu numerosos programas de investigação e foi titular de cátedras de economia internacional e prospectiva tanto na Europa como na América Latina. É professor titular das cátedras libres "Globalização e Crise" nas Universidades de Buenos Aires e Córdoba (Argentina) e de Havana (Cuba) e director do Centro de Prospectiva y Gestión de Sistemas (Cepros). Sua página web é http://beinstein.lahaine.org/ 

O original encontra-se em www.hemisferioizquierdo.uy/... 


terça-feira, 14 de junho de 2016

Não houve primaveras nem foram árabes

Entrevista com Ahmed Bensaada
Por Nordine Azzouz*

Esta importante entrevista com Ahmed Bensaada, académico argelino radicado no Canadá, conhecedor profundo da realidade, desmascara o caráter democrático das chamadas «Primaveras Árabes», a sua origem e verdadeiros objetivos. E pergunta: por que razão as chamadas Primaveras árabes deixaram intocadas as antidemocráticas monarquias árabes?
Autor de dois livros sobre este tema, «Arabesco americano», em 2011, e Arabesco$, em 2015, Ahmed Bensaada defende e prova que as chamadas «Primaveras árabes», nada tiveram de primaveril e muito menos de árabe…

Ahmed Bensaada**, universitário argelino vivendo no Canadá há vários anos, segue atentamente as mudanças e perturbações no Magrebe e no Médio Oriente, às quais consagrou vários artigos, colóquios e conferências. Sobre as “primaveras” árabes assumiu desde o início um olhar muito crítico, tendo mesmo escrito um livro, Arabesco americano, a que se seguiu há pouco Arabesco$, uma nova edição, corrigida e enriquecida, de uma actualidade gritante. Cinco anos depois das “primaveras árabes!

– Cinco anos são passados desde as chamadas “primaveras árabes”. O balanço é não muito satisfatório, em muitos dos países envolvidos é mesmo catastrófico. Porquê, em sua opinião?

– “Não muito satisfatório”, diz? Estas perturbações maiores que o pensamento ocidental precipitada e falaciosamente baptizou como “primaveras” não geraram senão o caos, a morte, a raiva, o exílio e a desolação em vários países árabes. Seria necessário talvez perguntar aos cidadãos dos países árabes “primaverados” se a situação desastrosa em que eles hoje vivem pode ser qualificada de primaveril.

Os dados são eloquentes. Um estudo recente mostrou que esta funesta estação causou, em cinco anos, mais de 1 milhão e 400 mil vítimas (mortos e feridos), às quais é preciso ajuntar mais de 14 milhões de refugiados. Esta “primavera” custou aos países árabes mais de 833 mil milhões de dólares, dos quais 461 mil milhões em infra-estruturas destruídas e em locais históricos devastados. Por outro lado, a região MENA (Middle East and North Africa) perdeu mais de 103 milhões de turistas, uma verdadeira calamidade para a sua economia.

Na primeira versão do meu livro, “Arabesco americano” (Abril de 2011), pus em evidência a ingerência estrangeira nestas revoltas que tocaram a rua árabe, assim como a falta de espontaneidade desses movimentos. Antes destes acontecimentos os países árabes estavam num estado efectiva de decrepitude: ausência de alternativa política, desemprego elevado, democracia embrionária, uma vida má, direitos fundamentais não respeitados, falta de liberdade de expressão, corrupção a todos os níveis, nepotismo, fuga de cérebros, etc.. Tudo “terreno fértil” para a desestabilização. Mas embora as reivindicações da rua árabe sejam reais, as pesquisas realizadas mostraram que os jovens manifestantes e ciberactivistas árabes eram formados e financiados por organismos americanos especializados na “exportação” da democracia, tais como a USAID, a NED, a Freedom House ou a Open Society do multimilionário George Soros. E tudo isso antes da imolação pelo fogo de Mohamed Bouazizi.

Esses manifestantes, que paralisaram as cidades árabes e que expulsaram os velhos autocratas árabes instalados no poder há decénios, representavam uma juventude cheia de arrebatamento e de promessas.

Uma juventude instruída, manejando com brio as técnicas da resistência não-violenta e com slogans incisivos. Essas mesmas técnicas que foram teorizadas pelo filósofo americano Gene Sharp e postas em prática pelos activistas sérvios do Otpor nas revoluções coloridas do Leste da Europa. Técnicas ensinadas aos jovens manifestantes árabes pelos fundadores do Otpor, no seu centro CANVAS (Center for Applied Non Violent Action and Strategies), especialmente concebido para formação de dissidentes.

Uma juventude viciada em novas tecnologias, cujos líderes foram seleccionados, formados, organizados em rede, e apoiados pelos gigantes americanos da Net por intermédio de organismos americanos como a AYM (Alliance of Youth Movements).

Mas, tal como os activistas das “revoluções coloridas” [1], os ciberdissidentes árabes foram treinados apenas para decapitar os regimes. Eles são “comandados” – provavelmente sem o saberem – para levar a cabo a queda do topo da pirâmide do poder. Mas não têm nenhuma interferência na marcha dos acontecimentos que se seguem depois de os autocratas serem expulsos e provocarem o vazio no poder. Não têm nenhuma aptidão política para concretizar a transição democrática que deveria seguir-se a essa mudança maior.

Num artigo sobre as “revoluções coloridas”, escrito em 2007 pelo jornalista Hernando Calvo Ospina nas colunas do Le Monde Diplomatique, pode ler-se: “A distância entre governantes e governados facilita a tarefa da NED [2] e da sua rede de organizações, que fabricam milhares de ‘dissidentes’ graças aos dólares e à propaganda. Uma vez alcançada a mudança, a maior parte desses ‘dissidentes’ e das suas organizações de todo o género, desaparecem da circulação, sem honra nem glória”.

Assim, quando o papel atribuído aos ciberactivistas termina, são as forças políticas locais, contrárias a qualquer mudança profunda, que ocupam o vazio criado pelo desaparecimento do antigo poder. No caso da Tunísia e do Egipto, foram os movimentos islamistas que, num primeiro momento, aproveitaram a situação, evidentemente ajudados pelos seus aliados, como os Estados Unidos, certos países ocidentais e árabes e a Turquia, que devia servir de modelo.

É claro que esta “primavera” não tem nada a ver com os slogans corajosamente entoados pelos jovens ciberactivistas nas ruas árabes e o abuso da palavra democracia não passa de uma armadilha. De facto, como não colocar sérias interrogações sobre esta “primavera” quando se sabe que os únicos países que sofreram esta estação foram repúblicas? Será por mero acaso que nenhuma monarquia árabe tenha sido atingida por este tsunami “primaveril”, como se esses países fossem santuários da democracia, da liberdade e dos direitos humanos?

A única tentativa de sublevação anti-monárquica, a do Bahrein, foi violentamente sufocada pela colaboração militar do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), o silêncio cúmplice dos media dominantes e a conivência de certos políticos, sempre tão loquazes quando acontecimentos análogos tocaram certas repúblicas árabes.

Estas “primaveras” visam desestabilizar países árabes bem identificados num quadro geopolítico muito mais vasto, certamente o “Grande Médio Oriente”. Esta doutrina preconiza a reformulação das fronteiras de uma região geográfica reagrupando os países árabes e certos países da vizinhança, pondo assim fim às fronteiras herdadas dos acordos Sykes-Picot. Embora lançado sob a liderança do presidente G. W. Bush e dos seus falcões neoconservadores, este projecto inspira-se numa ideia teorizada em 1982 por Oded Yinon, um alto funcionário do ministério dos Negócios Estrangeiros israelita. O “Plano Yinon”, como é originalmente chamado, tinha o objectivo de “desfazer todos os estados árabes existentes e reorganizar o conjunto da região em pequenas entidades frágeis, maleáveis e incapazes de enfrentar os israelitas”.

E essa divisão está infelizmente em curso…

– Neste quadro, ainda assim a Tunísia é uma excepção. Como explica isso?

– Comparativamente com a Líbia, a Síria ou o Iémen, a situação na Tunísia pode parecer interessante. Mas de facto a Tunísia não representa um modelo conseguido como nos querem fazer crer os media dominantes. E não é o Prémio Nobel da Paz recentemente outorgado à Tunísia que muda o que quer que seja. Quando se vê a quem foi atribuído nestes últimos anos, pergunta-se para que serve este prémio. E os tunisinos, que vivem há cinco anos a “primaverização” do seu país, conhecem bem este assunto. Comentando este quinto aniversário, alguns bloggers não estiveram com meias medidas. “Único país democrático do Magrebe+Prémio Nobel, tudo o resto é pior do que o período ZABA (Zine el-Abidine Ben Ali)”. Ou então, com uma ponta de humor: “Injustiça social, tortura, impunidade, estamos nas tintas, temos o Prémio Nobel”.

Numa recente entrevista ao Figaro, um meu amigo tunisino, o filósofo Mezri Haddad, declarou: “Em toda a parte – incluindo na Tunísia, que se apresenta como o paradigma revolucionário bom, e o país a que se atribuiu o Prémio Nobel da Paz em vez de perdoar a dívida externa que se tornou vertiginosa em menos de cinco anos e apoiar a sua economia hoje agonizante – a ‘Primavera árabe’ destruiu mais do que construiu”. Antes de acrescentar: “Depois de 2011, a Tunísia tornou-se o primeiro país exportador de mão-de-obra islâmica-terrorista tanto para a Líbia como para a Síria. Os relatórios das Nações Unidas são esmagadores para o tunisino que sou. O autor do último atentado suicida em Zliten, na Líbia, é um tunisino, como o que atacou a mesquita de Valência ou o que acaba de ser abatido diante do comissariado de polícia do 18.º distrito de Paris”.

Com efeito, a Tunísia ainda é, de longe, o maior fornecedor de jihadistas do Estado Islâmico na Síria. Triste recorde para um país que quer passar pela excepção que justifica a terminologia primaveril. E tudo isso sem contar os assassínios políticos, os atentados terroristas cegos que enlutaram o país e as sórdidas histórias de “jihad al-nikah”, popularizada pelos jovens tunisinos radicalizados.

E também não será a mudança da família do Goncourt para o Museu do Bardo, ainda marcado pelos estigmas do atentado de 18 de Março de 2015, que dará à Tunísia o rótulo de um país que conseguiu a sua transição democrática. Este “empurrão” francês não apagará de maneira nenhuma o lapso da ministra francesa Michèle Alliot-Marie que ofereceu o saber-fazer francês à polícia de Ben Ali para “resolver situações securitárias” e pôr fim à impertinência dos manifestantes que tinham invadido a Avenida Bourguiba.

Estes manifestantes que arvoravam a sua juventude como bandeira de um futuro radioso, o que pensam da idade dos “dinossauros políticos” actuais depois de terem afastado o presidente Ben Ali? Vejam só: Moncef Marzouki (71 anos), Rached Ghannouchi (75 anos) e, sobretudo, o presidente actual, Béji Caid Essebsi (90 anos).

Podem aqueles manifestantes acreditar realmente que uma revolta fundamentalmente jovem, qualificada de “facebookiana”, possa ser representada por gerontocratas, velhos caciques de regimes odiados, islamistas belicosos ou pelos que confundem o interesse do país com o interesse supranacional, da sua confraria?

Pensavam eles que um dia uma lei eleitoral seria aprovada para reabilitar os antigos apoiantes de Ben Ali, contra quem combateram com determinação?

Teriam eles imaginado que, cinco anos depois da partida de Ben Ali, um jovem diplomado tunisino, Ridha Yahyaoui, se mataria em Kasserine para protestar contra o favoritismo na admissão para um emprego, flagelo que eles tinham denunciado e contra o qual se tinham batido? E que os distúrbios que se seguiram a este drama seriam tão duramente reprimidos?

O que houve de tão positivo nesta “Primavera” tunisina se, cinco anos passados, Yahyaoui pelas mesmas razões imita Bouazizi?

– Na sua opinião que diferenças há nas realidades actuais de países como a Síria ou a Líbia, se tivermos em conta que este último país tanto diz à Tunísia, dada a sua proximidade?

– A guerra civil que devasta actualmente a Síria tem curiosas similitudes com a que prevaleceu na Líbia: a) o epicentro inicial da revolta síria não se encontrava na capital mas numa região fronteiriça (contrariamente ao que aconteceu na Tunísia e no Egipto); b) uma “nova antiga” bandeira apareceu com estandarte dos insurrectos; c) a fase não-violenta da revolta foi muito curta; d) a implicação militar estrangeira (directa ou indirecta) rapidamente transformou os tumultos não-violentos numa sangrenta guerra civil. Com efeito, quando a teoria de Gene Sharp [3] não funciona e os ensinamentos da CANVAS não dão frutos, como nos casos da Líbia e da Síria, as manifestações transformam-se muito rapidamente numa guerra civil. Esta metamorfose ocorre graças a uma ostensiva ingerência estrangeira dos países antes referidos, através da NATO no caso da Líbia, ou de coligações heteróclitas como sucedeu na Síria).

Assim, ajudados pelos seus aliados árabes e regionais, os países ocidentais podem passar, sem quaisquer problemas de consciência, duma abordagem não-violenta à Gene Sharp a uma guerra mortífera e sangrenta onde correm rios de sangue árabe.

A efémera fase sharpiana de manifestações populares foi mesmo utilizada para justificar a intervenção militar da NATO na Líbia ou da coligação anti-Bachar na Síria. A resolução 1973 da ONU que permitiu a destruição da Líbia foi justificada pela falsa acusação que as forças leais a Kadhafi tinham feito entre a população civil, pelo menos 6.000 mortos. Na verdade, numerosos países entenderam que os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha e seus aliados deturparam e abusaram desta resolução permitindo à NATO violar o mandato do Conselho de Segurança. Tendo em conta «a lição da Resolução 1973» países como a Rússia e a China opõem-se hoje a uma resolução das Nações Unidas de condenação da Síria ou do seu presidente, Bachar al-Assad. Se não fosse isso, os media de dominantes de todo o mundo ter-nos-iam mostrado imagens do presidente Bachar com o coração ou a cabeça arrancados pelos especialistas jihadistas no assunto que pululam na Síria graças à activa colaboração dos ocidentais e dos seus aliados.

Acrescente-se que o estudo dos e-mails da senhora Hillary Clinton mostrou que as motivações para eliminar Kadhafi nada tinham a ver com qualquer democratização da Líbia, mas sim com interesses estratégicos, económicos, políticos, e do ouro de um tesouro famoso. O mesmo se pode dizer em relação ao presidente sírio.

É também interessante notar que investigações muito sérias realizadas por especialistas americanos mostraram que a guerra na Líbia não era necessária, que ela podia ter sido evitada se essa fosse a vontade dos Estados Unidos. Mostraram também que a administração americana possibilitou o fornecimento de armas e apoio militar a grupos ligados à Al-Qaida.

Por outro lado, o contra-almirante americano Charles R. Kubic, na reforma, revelou que Kadhafi estava disposto a abandonar a Líbia e permitir o estabelecimento de um governo de transição, sob duas condições: assegurar que após a sua saída permanecesse uma força militar para expulsar a Al-Qaida; e a concessão de um livre-trânsito e o levantamento das sanções contra ele, a sua família e os seus colaboradores mais próximos.

Por seu turno, o antigo presidente da Finlândia (1994-2000) e Prémio Nobel da Paz (2008), Martti Ahtisaari, disse ter sido mandatado pela administração russa, no começo do ano de 2012, para encontrar uma solução pacífica para o conflito sírio.

O plano da resolução do conflito sírio proposto aos representantes dos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas compreendia três pontos:
1) não armar a oposição;

2) organizar o diálogo entre a oposição e Bachar al-Assad;

3) permitir uma retirada digna de Bachar al-Assad.

Segundo Marti Ahtisaari, nada foi feito após a apresentação desta proposta aos representantes americano, britânico e francês.

Parece claro que o objectivo desta “Primavera” não tem nada a ver com a democracia e os direitos humanos na Líbia e na Síria ou Médio Oriente e Norte de África, mas sim com a eliminação física dos presidentes Kadhafi e Bachar al-Assad, que permite destruir estes dois países, liquidar milhares de árabes, e financiar jihadistas comedores de corações e degoladores.

Nos casos líbio e sírio, o que chamam “primaveras” são exemplos pedagógicos de guerras civis fomentadas a partir do estrangeiro sob a capa de direitos humanos e humanismo.

Actualmente, estes dois países são terras de instabilidade geopolítica, covis de jihadistas daechianos abertamente financiados por países ocidentais, países árabes e potências regionais [3].

No quadro desta forte turbulência política e de agressiva ingerência estrangeira, a Argélia foi e continua a ser um dos principais alvos. Lembremos que jovens argelinos também participaram em formações de sérvios da CANVAS e que numerosos países apostaram na “primaverização” (violenta ou não) da Argélia. As más recordações do decénio negro e a efemeridade da CNCD (Coordenação Nacional para a Mudança e a Democracia) forçaram uma decisão diferente.

Hoje, a situação líbia é evidentemente muito preocupante para a segurança e estabilidade da Argélia. Alguns observadores calculam que haja 300 grupos de milícias armadas na Líbia e notam que elas estão fortemente ligadas às suas congéneres tunisinas. De facto, segundo um relatório da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia Nacional Francesa, datado de Novembro de 2015, “o conjunto de atentados recentes na Tunísia foram organizados e planificados a partir da Líbia”.

Contrariamente às declarações belicosas e mal-intencionadas de Nicolas Sarkozy – um dos maiores responsáveis pela destruição da Líbia –, deveria ser a Argélia a lamentar-se da sua localização geográfica fronteiriça com a Tunísia e a Líbia. Isso é tanto mais verdade quanto é certo que a colaboração entre o Daech na Líbia e os movimentos terroristas do Sahel é cada vez mais evidente, o que dá ainda mais razões à Argélia para tornar seguro o sul do país.

Vê-se bemque mesmo que a Argélia não tenha sido tocada directamente por esta lúgubre estação, a “primaverização” a que foram sujeitos os seus vizinhos coloca-lhe enormes desafios.

– No seu livro Arabesque$, de que acaba de aparecer uma nova edição revista e enriquecida, a tese que defende é a de uma grande implicação e de uma grande responsabilidade dos Estados Unidos nas “primaveras árabes”, um envolvimento norte-americano que classifica, nada mais, nada menos, como operações de desestabilização de Estados e de regimes instalados no mundo árabe. Até que ponto continua a defender esta análise?

– Quando a primeira versão do meu livro intitulado Arabesco americano, foi publicada, em Abril de 2011, ela foi acolhida com muito cepticismo porque a tese que ali era desenvolvida opunha-se à euforia “primaveril” dominante e introduzia uma nota discordante no unanimismo inebriante. Esta benevolência face a uma “revolução” árabe imaculada, orquestrada por uma bela juventude instruída e impetuosa, não devia em nenhuma circunstância ser manchada por acusações que, de toda a maneira, não podiam ser senão caluniosas. Este discurso foi repetido pelos media dominantes e por numerosos especialistas “catódicos”, dos quais subsistem ainda alguns espécimes recalcitrantes.

É preciso reconhecer que opor-se ao romantismo revolucionário no seu auge, algumas semanas apenas depois da queda de Ben Ali e de Moubarak, relevava certamente de uma inconsciência temerária.

Contudo, a tese apresentada neste livro – que inclui mais de 260 referências facilmente comprováveis – foi meticulosamente elaborada graças à análise de numerosos livros, documentos oficiais, relatórios de actividades, telegramas Wikileaks, etc..

É claro que não foram os Estados Unidos que provocaram a “Primavera” árabe. Como foi explicado antes, a situação política e sócio-económica dos países árabes é um terreno fértil para a dissidência e a revolta. Contudo, a implicação americana no processo não é inócua, longe disso. Confirmam-no o papel primordial dos organismos especializados na “exportação” da democracia e maioritariamente subvencionados pelo governo americano, as formações teóricas e práticas sobre a resistência não-violenta dadas pela CANVAS, a constituição de uma “liga árabe da Net” dominando as novas tecnologias, a elaboração de ferramentas de navegação anónima distribuídas gratuitamente aos ciberactivistas, a estreita colaboração entre os ciberdissidentes e as embaixadas norte-americanas nos países árabes, as enormes somas investidas, o envolvimento militar e as manobras diplomáticas a alto nível. E como a política externa dos Estados Unidos nunca foi um modelo de filantropia, é preciso reconhecer a evidência de que os americanos influenciaram fortemente o curso dos acontecimentos. Não se pode esquecer que todas estas acções foram empreendidas durante anos, antes do começo da “Primavera” árabe.

À medida que o tempo avançava, a natureza pérfida destas “revoluções” foi revelada, as línguas soltaram-se e novos documentos apareceram. Nada do a partir de então apareceu desmente a minha tese, pelo contrário ela foi amplamente confirmada. Foi isso que justificou a redacção de uma nova versão do livro, intitulada Arabesco$ – Inquérito sobre o papel dos Estados Unidos nas revoltas árabes, editada em Setembro de 2015. Em comparação com a obra anterior, o novo livro inclui mais de 600 documentos e o número de páginas quase triplicou. Entre outros documentos explícitos, citemos, por exemplo, o estudo realizado em 2008 pela corporação RAND (gabinete de estudos do Exército dos Estados Unidos), que serviu de fundamento à política americana de “exportação” da democracia para os países árabes, baseada na formação, apoio e organização em rede de activistas provenientes desses países.

Um outro documento merece também ser mencionado. Trata-se de um relatório saído do Departamento de Estado americano, redigido em 2010 e obtido em 2014 graças à lei para a liberdade de informação.

Esse relatório explica claramente “a estrutura elaborada de programas do Departamento de Estado visando criar organizações da ‘sociedade civil’, em particular as organizações não-governamentais (ONG), para modificar a política interna dos países seleccionados a favor da política estrangeira dos Estados Unidos e dos seus objectivos de segurança nacional”. Utilizando uma linguagem diplomática, o documento precisa que o objectivo é “a promoção e a monitorização de mudanças políticas nos países alvos”.

A implicação dos Estados Unidos na “Primavera” árabe não é uma especulação intelectual. A sua existência é abertamente reconhecida pela própria administração americana. É o que explico pormenorizadamente no livro Arabesco$.

– Partilha a ideia de que as “primaveras árabes” acabaram? Que cenários possíveis prevê, sobretudo para a Líbia, país em que os actores não conseguem entender-se sobre uma solução política promovida por uma já prevista intervenção militar europeia?

– Que se diga: a “Primavera” árabe nunca foi uma Primavera, se tivermos em conta as consequências desastrosas para as populações, nem intrinsecamente árabe, porque os movimentos de contestação foram infiltrados decisivamente por organismos estrangeiros, nomeadamente estadounidenses.

O processo de “primaverização” do mundo árabe chega ao fim? Certamente.

Os povos árabes não são cegos. Os exemplos da selvagem destruição da Líbia, da Síria e do Iémen são suficientes para convencer mesmo os mais renitentes.

O mundo árabe tem imperativamente necessidade de fazer enormes transformações em diferentes domínios da sociedade; político, sócio-económico, cultural, de liberdade de expressão, dos direitos humanos, etc.. Mas para realizar estas mudanças é preciso destrui os países e fomentar o ressurgimento de práticas medievais, de semear a morte, o ódio e a desolação? É evidente que não.

Por outro lado, estas mudanças de forma alguma devem obedecer ou beneficiar agendas estrangeiras; os países árabes não devem agir de modo que as suas terras se tornem o campo de jogo das potências, no qual se travem guerras “low cost”, onde só sangue é derramado.

É o caso da Síria, na medida em que este país é actualmente o cenário de confrontos (directos e indirectos) de numerosos beligerantes, cada um tendo as suas próprias agendas e ambições, distantes das dos sírios.

No que diz respeito à Líbia, qualquer nova intervenção militar ocidental neste país corre o risco de provocar consequências indesejáveis no território argelino. É por esta razão que a Argélia se opõe firmemente a tal eventualidade e não exclui nenhum esforço para encontrar uma solução política para o conflito e fazer sentar-se à volta da mesma mesa as diferentes facções.

Apenas permitindo aos cidadãos de um país discutir em conjunto, de boa-fé, tendo em conta os seus interesses nacionais e não os de outros países, o mundo árabe conseguirá sair da situação de decadência para onde foi empurrado.

Notas do tradutor:
[1] Movimentos ocorridos a partir de 2000 em alguns países saídos do desmembramento da União Soviética e que em geral substituíram os regimes pró-russos por governos pró-ocidentais. Como por exemplo a “Revolução Rosa”, na Geórgia (2003), a “Revolução Laranja”, na Ucrânia (2004) ou a “Revolução das Tulipas”, no Quirguistão (2005). Esses e outros golpes de estado, mais contra-revoluções do que revoluções, quer tenham tido êxito ou não, foram apoiados pelos Estados Unidos e seus aliados locais.
[2] NED – National Endowment for Democracy, organização privada norte-americana, criada em 1983 (entre outros, pelo presidente Ronald Reagan), com o apoio financeiro do Congresso dos EUA e de agências governamentais como a USAID, com o objectivo de “fortalecer as instituições democráticas em todo o mundo”. A NED é suspeita de ser um instrumento da CIA, não de promoção mas de subversão da democracia, e para tal financia organizações não-governamentais (ONG) e grupos “pró-democracia” em mais de 90 países.
[3] Sharp, importa recordar, é um académico norte-americano, acusado de estar ligado à CIA, autor de um muito difundido livro (Da ditadura à democracia) sobre as técnicas e os meios “pacíficos” de se chegar à “democracia”, um autêntico manual de golpes de estado suaves, cujas recomendações foram seguidas, com êxito, em várias “revoluções coloridas”, e com menos sucesso noutros casos, como, recentemente, em Hong Kong ou em Angola…
[4] Quando insiste nas “potências regionais”, o autor refere-se provavelmente a Israel, que ocupa território sírio desde 1967 e é o grande aliado dos Estados Unidos no Médio Oriente, e ao Irão, país que, não sendo árabe, é de maioria muçulmana xiita e que apoia política e militarmente o regime sírio.

* Nordine Azzouz é director do diário argelino Reporters

** odiario.info publicou já um texto de Ahmed Bensaada em:

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FONTE: ODiario.Info