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sábado, 30 de outubro de 2021

Discurso de L. C. Prestes na solenidade de transladação dos restos mortais de Carlos Marighella

 A homenagem de Luiz Carlos Prestes a Carlos Marighella


Por A Coluna


Este conteúdo é uma reprodução do site A Coluna, do Polo Comunista Luiz Carlos Prestes



Em 1979, já nos chamados anos de distensão da ditadura, foi publicada a lei da anistia que permitiu a volta de muitos dos exilados políticos ao país. Entre eles estava Luiz Carlos Prestes que participou da cerimônia de exumação de transporte dos restos mortais de Carlos Marighella, assassinado pela ditadura em 1969. Na ocasião do novo “funeral” de Marighella, Prestes como antigo camarada, proferiu um discurso demonstrando que embora tenham tido diferentes interpretações da realidade brasileira pós-golpe e, por isso, situado-se em campos políticos distintos, o Velho mantinha uma grande admiração pelo mais importante guerrilheiro do Brasil.


É importante destacar o tom crítico e auto-crítico com que Prestes entende o seu comportamento político e de ambos os dirigentes comunistas na época. Sem titubear, Prestes é firme na consideração de que a luta armada foi um erro tático. Todavia, reconhece que a estratégia etapista de direita adotada pelo PCB durante boa parte da sua existência foi o que levou a erros táticos e criou o fosso separando Marighella, Prestes e tantos outros.


Abaixo a transcrição desse discurso gentilmente cedido por Anita Prestes ao site A Coluna.


Discurso de L. C. Prestes na solenidade de transladação dos restos mortais de Carlos Marighella

Aqui estou para prestar meu testemunho de admiração a um filho do povo, a um revolucionário, a um patriota que foi até o sacrifício extremo da própria vida na luta pelo ideal que defendia, pela felicidade do povo, pela completa emancipação da Pátria e pelo progresso social.


Convivi e lutei com Carlos Marighella por mais de vinte anos. Já conhecia a valentia com que se comportava quando preso, após os acontecimentos de 1935. Mas durante os vinte anos em que atuamos juntos na direção do Partido Comunista Brasileiro pude admirar suas qualidades pessoais de um legítimo filho do povo, que justamente por isso sabia ganhar o apoio do povo – de pessoas das mais variadas classes e camadas da sociedade – para a luta dos comunistas. Pude apreciar sua imensa capacidade de trabalho, seu talento , sua valentia e combatividade, a valentia com que enfrentava a reação policial, sua integral dedicação à causa por que juntos lutávamos.


As vicissitudes ou a dialética da vida nos separou, nos colocou em campos diferentes ou, mesmo, política e ideologicamente opostos. Suas próprias qualidades pessoais, em particular sua valentia e combatividade, não lhe permitiram compreender ou avaliar com acerto o momento político que atravessávamos; que a classe operária, com o golpe militar reacionário e contrarrevolucionário de 1964, fora derrotada e sofrera a pior derrota, uma derrota sem luta. Estava por isso obrigada a recuar para recuperar forças. Entravamos num difícil e duro processo de acumulação de forças , tínhamos como inimigos uma ditadura militar reacionária, a mais cruel e sanguinária e que só poderia ser derrotada por um amplo e vigoroso movimento de massas. E que esse movimento só poderia ser criado através de uma luta demorada e paciente pelo esclarecimento dos trabalhadores, a começar pelo levantamento de suas reivindicações mais elementares. Chamar naquele momento a classe operária a empunhar uma arma era dela nos separar e mal conseguir um minoria combativa, mas desligada das massas. E sem estas não se derrota nenhuma tirania. Acaba-se por dar argumentos à ditadura para tentar justificar uma repressão cada vez maior.


Mas na ocasião do erro de Marighella não foi apenas dele. Também nós, como já o dissemos no VI Congresso do nosso Partido, tínhamos uma linha política que padecia de erros de direita, de ilusões na burguesia e, fundamentalmente, de confundirmos a possibilidade que surgiu no movimento comunista, após a derrota do nazismo e do surgimento do sistema socialista mundial, de se poder chegar ao socialismo sem guerra civil ou insurreição armada, confundíamos isso com passividade. Este nosso erro contribuiu também para fazer surgir entre nós e Marighella o antagonismo que nos separou.


Só a prática da vida poderia revelar com quem estava a razão. O processo de acumulação de forças, a utilização inclusive do voto como arma de protesto, levou à derrota da ditadura em 1974, à evidência de seu isolamento das massas populares, principalmente da classe operária e, consequentemente, às vitórias, ainda pequenas, mas vitórias do povo que não deixariam de alegrar o grande revolucionário que foi Carlos Marighella.


Carlos Marighella! Teu nome e tua memória não serão jamais apagados da história do nosso povo. Teu exemplo de lutador pela felicidade do povo, por uma transformação social profunda, que acabe com a exploração do homem pelo homem, juntamente com a de todos que nestes últimos quinze anos souberam lutar até o fim pela completa emancipação da Pátria do jugo imperialista e pelo processo social, educará as novas gerações da classe operária e as de todos os trabalhadores brasileiros, contribuirá para reforçar a sua organização e unidade, ajudará a educar e formar a juventude que continuará a tua luta, a nossa luta revolucionária de comunistas, democratas e patriotas, elevará a cada dia mais alto as bandeiras do socialismo e as levará à vitória.


O Brasil popular e socialista cultuará para todo o sempre a tua memória!


São Paulo, 11/07/79


 FONTE: Instituto Astrojildo Pereira

sábado, 12 de outubro de 2019

O DISCURSO DE PRESTES NO FUNERAL DE MARIGHELLA

O discurso foi disponibilizado pelo site A Coluna, do Polo Comunista Luiz Carlos Prestes (PCLCP). Trata-se de um importante documento para a história das esquerdas no Brasil. Segue a reprodução da postagem.


Em 1979, já nos chamados anos de distensão da ditadura, foi publicada a lei da anistia que permitiu a volta de muitos dos exilados políticos ao país. Entre eles estava Luiz Carlos Prestes que participou da cerimônia de exumação de transporte dos restos mortais de Carlos Marighella, assassinado pela ditadura em 1969. Na ocasião do novo “funeral” de Marighella, Prestes como antigo camarada, proferiu um discurso demonstrando que embora tenham tido diferentes interpretações da realidade brasileira pós-golpe e, por isso, situado-se em campos políticos distintos, o Velho mantinha uma grande admiração pelo mais importante guerrilheiro do Brasil.

É importante destacar o tom crítico e auto-crítico com que Prestes entende o seu comportamento político e de ambos os dirigentes comunistas na época. Sem titubear, Prestes é firme na consideração de que a luta armada foi um erro tático. Todavia, reconhece que a estratégia etapista de direita adotada pelo PCB durante boa parte da sua existência foi o que levou a erros táticos e criou o fosso separando Marighella, Prestes e tantos outros.

A Coluna disponibiliza abaixo a transcrição desse discurso gentilmente cedido por Anita Prestes, a quem agradecemos pela presteza e receptividade com nosso pedido.

Discurso de L. C. Prestes na solenidade de transladação dos restos mortais de Carlos Marighella

Aqui estou para prestar meu testemunho de admiração a um filho do povo, a um revolucionário, a um patriota que foi até o sacrifício extremo da própria vida na luta pelo ideal que defendia, pela felicidade do povo, pela completa emancipação da Pátria e pelo progresso social.

Convivi e lutei com Carlos Marighella por mais de vinte anos. Já conhecia a valentia com que se comportava quando preso, após os acontecimentos de 1935. Mas durante os vinte anos em que atuamos juntos na direção do Partido Comunista Brasileiro pude admirar suas qualidades pessoais de um legítimo filho do povo, que justamente por isso sabia ganhar o apoio do povo – de pessoas das mais variadas classes e camadas da sociedade – para a luta dos comunistas. Pude apreciar sua imensa capacidade de trabalho, seu talento , sua valentia e combatividade, a valentia com que enfrentava a reação policial, sua integral dedicação à causa por que juntos lutávamos.

As vicissitudes ou a dialética da vida nos separou, nos colocou em campos diferentes ou, mesmo, política e ideologicamente opostos. Suas próprias qualidades pessoais, em particular sua valentia e combatividade, não lhe permitiram compreender ou avaliar com acerto o momento político que atravessávamos; que a classe operária, com o golpe militar reacionário e contrarrevolucionário de 1964, fora derrotada e sofrera a pior derrota, uma derrota sem luta. Estava por isso obrigada a recuar para recuperar forças. Entravamos num difícil e duro processo de acumulação de forças , tínhamos como inimigos uma ditadura militar reacionária, a mais cruel e sanguinária e que só poderia ser derrotada por um amplo e vigoroso movimento de massas. E que esse movimento só poderia ser criado através de uma luta demorada e paciente pelo esclarecimento dos trabalhadores, a começar pelo levantamento de suas reivindicações mais elementares. Chamar naquele momento a classe operária a empunhar uma arma era dela nos separar e mal conseguir um minoria combativa, mas desligada das massas. E sem estas não se derrota nenhuma tirania. Acaba-se por dar argumentos à ditadura para tentar justificar uma repressão cada vez maior.

Mas na ocasião do erro de Marighella não foi apenas dele. Também nós, como já o dissemos no VI Congresso do nosso Partido, tínhamos uma linha política que padecia de erros de direita, de ilusões na burguesia e, fundamentalmente, de confundirmos a possibilidade que surgiu no movimento comunista, após a derrota do nazismo e do surgimento do sistema socialista mundial, de se poder chegar ao socialismo sem guerra civil ou insurreição armada, confundíamos isso com passividade. Este nosso erro contribuiu também para fazer surgir entre nós e Marighella o antagonismo que nos separou.

Só a prática da vida poderia revelar com quem estava a razão. O processo de acumulação de forças, a utilização inclusive do voto como arma de protesto, levou à derrota da ditadura em 1974, à evidência de seu isolamento das massas populares, principalmente da classe operária e, consequentemente, às vitórias, ainda pequenas, mas vitórias do povo que não deixariam de alegrar o grande revolucionário que foi Carlos Marighella.

Carlos Marighella! Teu nome e tua memória não serão jamais apagados da história do nosso povo. Teu exemplo de lutador pela felicidade do povo, por uma transformação social profunda, que acabe com a exploração do homem pelo homem, juntamente com a de todos que nestes últimos quinze anos souberam lutar até o fim pela completa emancipação da Pátria do jugo imperialista e pelo processo social, educará as novas gerações da classe operária e as de todos os trabalhadores brasileiros, contribuirá para reforçar a sua organização e unidade, ajudará a educar e formar a juventude que continuará a tua luta, a nossa luta revolucionária de comunistas, democratas e patriotas, elevará a cada dia mais alto as bandeiras do socialismo e as levará à vitória.

O Brasil popular e socialista cultuará para todo o sempre a tua memória!

São Paulo, 11/07/79.




FONTE: A Coluna

sábado, 1 de junho de 2013

Casa onde viveu Marighella pode virar museu

Memorial da Resistência Carlos Marighella ocupará dois casarões no Pelourinho


Quem passa pela Rua Barão do Desterro, na Baixa dos Sapateiros, não tem ideia de que a casa da esquina, abandonada e com a fachada em ruína, foi  onde o líder comunista Carlos Marighella passou a infância e parte da juventude.

O imóvel  onde o pai de Marighella, o italiano Augusto, criou os sete filhos que teve com a negra Maria Rita e mantinha uma oficina de motores pode ter novo destino: ser transformada em museu.

A ideia é que a antiga casa da família seja integrada ao Memorial da Resistência Carlos Marighella, que vai funcionar em dois imóveis localizados no Pelourinho, cedidos pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) da Bahia.

O memorial é um resgate da história do baiano - morto em São Paulo numa emboscada dos órgãos de repressão, sob o comando do delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, em 1969 - e também daqueles que enfrentaram o golpe militar de 1964.

A instalação da "Casa de Marighella" foi sugerida pelo arquiteto Marcelo Carvalho Ferraz em carta endereçada  ao Ipac,  no mês passado, na qual defende o tombamento do imóvel como patrimônio do Estado da Bahia.

"Humanizar"

O advogado e ex-deputado Carlos Marighella Filho acredita que transformar a casa onde o pai foi criado em um museu vai contribuir para "humanizar" e "aproximar" as pessoas do homem que lutou em defesa da liberdade e da democracia do Brasil.

"A casa tem aquele elemento de emoção, de humanização, de nos tornar próximos daquelas figuras que fizeram história e que admiramos", entende o advogado.

Ele lembra que o pai morou na Baixa dos Sapateiros até por volta dos 25 anos, quando se mudou para São Paulo para comandar o Partido Comunista. Os anos passados na casa da Baixa dos Sapateiros foram marcantes para Marighella.

"Ele falou da casa em seus poemas", informa o filho, lembrando que o pai também era um poeta sensível.
As duas iniciativas - o memorial e a casa - têm por objetivo maior, assinala Marighella Filho, restaurar a verdade sobre a trajetória do líder comunista, apontado pelos órgãos de repressão como "terrorista" e "inimigo público número um".

O primeiro passo neste sentido ocorreu em 5 de dezembro de 2011, data em que se comemorou o centenário de nascimento do ex-deputado federal do Partido Comunista do Brasil [PCB].


Carlos Marighella foi declarado herói nacional ao ser  anistiado "post mortem", em Salvador, pela 53ª Caravana da Anistia do Ministério da Justiça, cujo objetivo é reparar os crimes cometidos pelo último regime militar que governou o Brasil (1964 e 1985).
A implantação do Memorial da Resistência está sendo discutida desde o início do ano por especialistas, para definir os projetos arquitetônico e museológico (documentação, linhas de pesquisa, temáticas expositivas) a serem adaptados nos imóveis.

FONTE: A Tarde

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Não tive tempo para ter medo"


Os 40 anos passados desde sua morte na luta revolucionária de resistência à ditadura, só multiplicaram a imagem de Carlos Marighella, como dirigente revolucionário brasileiro e latinoamericano. Identificado com os projetos revolucionários de libertação da América Latina desde a década de 30, teve um protagonismo central nos momentos mais difíceis vividos pelo PCB depois do golpe de 1964, quando debateu as razões do golpe e os novos horizontes de luta da esquerda brasileira. O artigo é de Emir Sader, de 04/11/2009, publicado em Carta Maior.

Carlos: mulato, baiano, comunista, brasileiro

Carlos é o protótipo do brasileiro. Amado na sua Bahia, com quem o povo baiano se identifica, como se identifica com Caimmy, com a Menininha do Gantuá, com tudo o que é expressão genuína daquelas terras tão brasileiras.
Filho de uma negra escrava, Maria Rita, linda, com pai de origem italiana, Augusto, Carlos é uma das expressões mais genuínas da mestiçagem do povo brasileiro. As conversas com os vizinhos da casa modesta onde nasceu e cresceu, em Salvador, as fotos com os colegas de escola, com os amigos, revelam o mulato sestroso, conversador, gentil, sensível, típico dos bairros populares da velha São Salvador.
Como quem chegou à adolescencia naqueles anos-chave da década de 30, Carlos se identificou profundamente com os projetos revolucionarios da década, antes de tudo com a lideranca de Prestes no PCB, depois da aventura extraordinaria da Coluna. Viveu Carlos aí a primeira grande experiência, que o marcaria pelo resto da vida, consolidando nele a opção revolucionária.
Não protagonizou com sua participação os grandes debates no seio do PC ao longo das décadas seguintes. Seu protagonismo ficou reservado para os momentos mais difíceis vividos pelo Partido, logo depois do golpe de 1964. Já sua resistência à prisao na Cinelândia, no Rio, poucos días depois do golpe, demonstrava a atitude de rebeldia e de resistência que Carlos imprimiria à sua atitude e à que convocava aos brasileiros.
Dessa vez Carlos foi o principal protagonista dos debates internos do PCB, sobre as razões do golpe e os novos horizontes de luta da esquerda brasileira. Ele se identificou de forma direta com a dinâmica proposta pela Revolução Cubana, que aparecia como uma alternativa real para os países em que as elites dominantes apelavam para a ditadura, diante das ameaças dos movimentos populares, optando pelo projeto norteamericano da Doutrina de Segurança Nacional.
Carlos conclamou a resistência a aderir ao projeto da luta armada, sob a forma da guerra de guerrilhas, rompendo assim com o PCB e fundando a ALN. Junto com a VPR, dirigida por Carlos Lamarca, protagonizaram a versão mais radical da resistência clandestina à ditadura militar, de que o espetacular sequestro do embaixador dos EUA – com a libertação de 15 militantes da resistência e a leitura de declaração contra a ditadura em cadeia nacional de rádio e televisão – foi uma de suas mais expressivas manifestações.
Os 40 anos passados desde sua morte na luta revolucionária de resistência à ditadura, só multiplicaram a imagem de Carlos, como dirigente revolucionário brasileiro e latinoamericano. Carlos, mulato, baiano, comunista, brasileiro.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Em memória de Carlos Marighella

Manifesto em memória de Carlos Marighella

Carlos Marighella tombou na noite de 4 de novembro de 1969, em São Paulo, numa emboscada chefiada pelo mais notório torturador do regime militar. Revolucionário destemido, morreu lutando pela democracia, pela soberania nacional e pela justiça social.
Da juventude rebelde, como estudante de Engenharia, em Salvador, às brutais torturas sofridas nos cárceres do Estado Novo; da militância partidária disciplinada, às poesias exaltando a liberdade; da firme intervenção parlamentar como deputado comunista na Constituinte de 1946, à convocação para a resistência armada, toda a sua vida esteve pautada por um compromisso inabalável com as lutas do nosso povo.
Decorridos quarenta anos, deixamos para trás o período do medo e do terror. A Constituição Cidadã de 1988 garantiu a plenitude do sistema representativo, concluindo uma longa luta de resistência ao regime ditatorial. Nesta caminhada histórica, os mais diferentes credos, partidos, movimentos e instituições somaram forças.
O Brasil rompeu o século 21 assumindo novos desafios. Prepara-se para realizar sua vocação histórica para a soberania, para a liberdade e para a superação das inúmeras iniqüidades ainda existentes. Por outros caminhos e novos calendários, abre-se a possibilidade real do nosso País realizar o sonho que custou a vida de Marighella e de inúmeros outros heróis da resistência. Garantida a nossa liberdade institucional, agora precisamos conquistar a igualdade econômica e social, verdadeiros pilares da democracia.
A América Latina está superando um longo e penoso ciclo histórico onde ocupou o lugar de quintal da superpotência imperial. Mais uma vez, estratégias distintas se combinam e se complementam para conquistar um mesmo anseio histórico: independência, soberania, distribuição das riquezas, crescimento econômico, respeito aos direitos indígenas, reforma agrária, ampla participação política da cidadania. Os velhos coronéis do mandonismo, responsáveis pelas chacinas e pelos massacres impunes em cada canto do nosso continente, estão sendo varridos pela história e seu lugar está sendo ocupado por representantes da liberdade, como Bolívar, Martí, Sandino, Guevara e Salvador Allende.
E o nome de Carlos Marighella está inscrito nessa honrosa galeria de libertadores. A passagem dos quarenta anos do seu assassinato coincide com um momento inteiramente novo da vida nacional. A secular submissão está sendo substituída pelos sentimentos revolucionários de esperança, confiança no futuro, determinação para enfrentar todos os privilégios e erradicar todas as formas de dominação.
O novo está emergindo, mas ainda enfrenta tenaz resistência das forças reacionárias e conservadoras que não se deixam alijar do poder. Presentes em todos os níveis dos três poderes da República, estas forças conspiram contra os avanços democráticos. Votam contra os direitos sociais. Criminalizam movimentos populares e garantem impunidade aos criminosos de colarinho branco. Continuam chacinando lideranças indígenas e militantes da luta pela terra. Desqualificam qualquer agenda ambiental. Atacam com virulência os programas de combate à fome. Proferem sentenças eivadas de preconceito contra segmentos sociais vulneráveis. Ressuscitam teses racistas para combater as ações afirmativas. Usam os seus jornais, televisões e rádios para pregar o enfraquecimento do Estado. Querem o retorno dos tempos em que o deus mercado era adorado como o organizador supremo da Nação.
Não admitimos retrocessos. Nem ao passado recente do neoliberalismo e do alinhamento com a política externa norte-americana, nem aos sombrios tempos da ditadura, que a duras penas conseguimos superar.
A homenagem que prestamos a Carlos Marighella soma-se à nossa reivindicação de que sejam apuradas, com rigor, todas as violações dos Direitos Humanos ocorridas nos vinte e um anos de ditadura. Já não é mais possível interditar o debate retardando o necessário ajuste dos brasileiros com a sua história. Exigimos a abertura de todos os arquivos e a divulgação pública de todas as informações sobre os crimes, bem como sobre a identidade dos torturadores e assassinos, seus mandantes e seus financiadores.
Precisamos enfrentar as forças reacionárias e conservadoras que defendem como legítima uma lei de auto-anistia que a ditadura impôs, em 1979, sob chantagens e ameaças. Sustentando a legalidade de leis que foram impostas pela força das baionetas, ignoram que um regime nascido da violação frontal da Constituição padece, desde o nascimento, de qualquer legitimidade. E procuram encobrir que eram ilegais todas as leis de um regime ilegal.
Sentindo-se ameaçadas, estas forças renegam as serenas formulações e sentenças da ONU e da OEA indicando que as torturas constituem crime contra a própria humanidade, não sendo passíveis de anistia, indulto ou prescrição. E se esforçam para encobrir que, no preâmbulo da Declaração Universal que a ONU formulou, em 10 de dezembro de 1948, está reafirmado com todas as letras o direito dos povos recorrerem à rebelião contra a tirania e a opressão.
Por tudo isso, celebrar a memória de Carlos Marighella, nestes quarenta anos que nos separam da sua covarde execução, é reafirmar o compromisso com a marcha do Brasil e da Nuestra America rumo à realização da nossa vocação histórica para a liberdade, para a igualdade social e para a solidariedade entre os povos.
Celebrando a memória de Carlos Marighella, abrimos o diálogo com as novas gerações garantindo-lhes o resgate da verdade histórica. Reverenciando seu nome e sua luta, afirmamos nosso desejo de que nunca mais a violência dos opressores possa se realimentar da impunidade. Carlos Marighella está vivo na nossa memória e nas nossas lutas.




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