quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Morre Santiago Carrillo, histórico líder comunista espanhol




Confira o vídeo de entrevista feita com o ex-dirigente do PCE em 2011:






O líder histórico do Partido Comunista da Espanha (PCE), Santiago Carrillo, morreu aos 97 anos, anunciou nesta terça-feira (18/09) à Rádio Nacional um fonte do partido. Carrillo, secretário-geral do PCE entre 1960 e 1982, foi uma importante ator da história espanhola, da Guerra Civil (1936-1939) até a transição democrática, iniciada depois da morte do ditador Francisco Franco, em 1975.



O ex-dirigente do PCE havia sofrido na semana passada uma piora em seu estado de saúde. Nos últimos meses, ele foi internado em diversas ocasiões. O atual secretário-geral do PCE, José Luis Centella, saudou a memória do dirigente ao anunciar seu falecimento. Carrillo, um jovem dirigente republicano durante a Guerra Civil, ficou exilado na França por quase 40 anos por causa da ditadura franquista.




Nascido em 18 de março de 1915, na região das Astúrias, no norte da Espanha, e filho de um dirigente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), começou muito jovem na política e no jornalismo. Durante a Guerra Civil espanhola, foi delegado de Ordem Pública em Madri, e em 1939, no final do conflito, começou um longo exílio que o levou à extinta União Soviética, EUA, Argentina, México, Argélia e França.



Ele retornou clandestinamente à Espanha em 1976, um ano antes da legalização do PCE, ao qual tinha se filiado em julho de 1936 e pelo qual foi eleito deputado em 1977, nas primeiras eleições do período democrático, e depois reeleito em 1979 e 1982.



Durante sua etapa como delegado de Ordem Pública e membro da Junta de Defesa de Madri (1936), foi responsabilizado pelo massacre de militares sublevados na cidade de Paracuellos del Jarama, embora sempre tenha negado a autoria.



Carrillo viveu a tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981 e foi um dos três políticos, junto com o então presidente do Governo, Adolfo Suárez, e o vice-presidente, general Gutiérrez Mellado, a permanecer em seu posto. O histórico dirigente comunista, que abandonou o PCE em 1985, dedicou seus últimos anos a escrever livros e artigos e a dar palestras.




* Com informações das agências Efe e France Presse


FONTE: Opera Mundi


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Transições - das ditaduras às democracias na América Latina


O Núcleo de Preservação da Memória Política compartilha a exposição virtual "Transições - das ditaduras as democracias na América Latina". A exposição reune imagens consideradas representativas das transições dos governos autoritários para as democracias de dez países, que são: Argentina, Brasil, Chile, El Salvador, Guatemala, México, Paraguai, Peru, República Domicana e Uruguai. A preocupação ao montar a exposição foi escolher momentos emblemáticos da luta pelo retorno à democracia.
A proposta da organização de uma exposição fotográfica virtual foi feita pela representação regional da Coalizão Internacional dos Lugares de Memória e Consciência, órgão que reúne entidades que lutam pela preservação das memórias políticas de seus países, no ano de 2010, com a intenção de demonstrar a história política recente dos países da América Latina.
O Núcleo de Preservação da Memória Política, entidade de São Paulo, criada em maio de 2009 e primeiro membro brasileiro da Coalizão, se dispôs a ajudar a elaborar a parte referente ao Brasil , em conjunto com o Memorial da Resistência em SP, que também faz parte da Coalizão, como primeiro Lugar de Memória e de Consciência no Brasil . Foram escolhidas 3 fotos que, ao entender das duas entidades, possuem uma importância significativa na transição do nosso país de um regime ditatorial, ilegal e ilegítimo, para o caminho da Democracia que vivemos hoje
Acreditamos que a importância de se conhecer o passado, é para que violações aos direitos humanos como as praticadas no período ditatorial nunca mais se repitam. E compreendendo o passado, possamos entender o presente e construir um futuro de mais respeito aos direitos humanos e a dignidade humana.

A exposição foi traduzida para o português por Maria Carolina Bissoto, integrante do Núcleo de Preservação da Memória Política e está disponível em 
http://www.flickr.com/photos/transicoes/sets/72157631309432024/ 

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Transições – das ditaduras às democracias na América Latina

Introdução

A presença majoritária de regimes democráticos na América Latina é uma realidade inevitável. Mas a combinação de luzes e sombras no mesmo mapa não permite uma fácil celebração. Ao mesmo tempo que nos parabenizamos pela frequência com que participamos de processos eleitorais não podemos minimizar a persistência de instituições deficitárias em diferentes graus que em alguns casos facilitam a violação de direitos e garantias elementares de amplos setores da população e, em outros casos, mostram uma incapacidade por parte do Estado de proporcionar o direito à vida e à integridade física dos cidadãos.

Em 2010, os membros da Coalização Internacional dos Sítios de Memória e Consciência integrantes da Rede Latinoamericana se propuseram a montar uma mostra de fotografias que abordasse por meio das imagens momentos particularmente relevantes das histórias políticas dos nossos países em seu passado recente.

A preparação da mostra foi uma tarefa grupal realizada pelas instituições de cada país, cada uma com o objetivo de escolher as imagens mais representativas ou emblemáticas das transições dos governos autoritários ou ditaduras para a democracia ou, se fosse o caso, de transições de conflitos armados internos a processos democráticos. A ideia foi reunir nesta exposição virtual os principais momentos considerados marcantes, rupturas e/ou momentos de decisiva inflexão na história social e política das últimas décadas.

As fotografias de cada painel possuem identidade própria, mas os três paineis fotográficos que mostram os principais acontecimentos em cada um dos nove países que compõem a mostra estabelecem uma sequência possível de evidenciar um importante vínculo entre si.
Como toda tarefa coletiva, a elaboração da mostra que hoje publicamos não foi um trabalho simples, devido a fatores de ordem prática relacionados não somente ao fato de ter sido esta preparação realizada à distância, mas também porque esta atividade significou o acréscimo de mais uma tarefa nas agendas e programas de nossas instituições. Mas significou também – e agora num claro sentido positivo – o esforço para encontrar a concordância entre visões distintas dentro de cada país para construir uma seleção de fotos que fossem realmente representativas.

Ao organizar a atividade nos propusemos a um duplo objetivo. Em primeiro lugar, quisemos ensaiar a possibilidade de gerar uma exposição itinerante que por meio de mecanismos muito simples, pudesse ser impressa e exibida pelos membros da Rede e em outras instituições. O segundo objetivo foi provocar um debate sobre as formas pelas quais representamos – nas mostras e exposições em museus de nossas instituições – as transições ou rupturas que marcaram etapas na história recente que pretendemos contar.

A mostra virtual pode ser acessada em: 

Seus autores são as seguintes instituições: Archivo Provincial de la Memoria, Casa por la Memoria y la Cultura Popular, Centro Cultural por la Memoria de Trelew, Museo de la Memoria de Rosario, Dirección de Derechos Humanos de Morón, Memoria Abierta, Memorial da Resistência, Núcleo de Preservação da Memória Política, Agrupación de Familiares de Paine, Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, Corporación Parque por la Paz Villa Grimaldi, Estadio Nacional, Museo de la Palabra y la Imagen, Archivo Histórico de la Policía Nacional, Centro de Investigaciones Regionales de Mesoamérica, Centro Fray Bartolomé de las Casas, Sociedad Civil Las Abejas, Museo de las Memorias: Dictaduras y DDHH, Dirección de Verdad, Justicia y Reparación, Asociación  Paz y Esperanza, Movimiento Ciudadano Para que no se Repita, Asociación Caminos de la Memoria, Museo Memorial de la Resistencia Dominicana, Centro Cultural y Museo de la Memoria. 

A exposição pode ser acessada (em português) em: 



Dossiê: A ditadura de ontem vive na repressão de hoje

E MAIS         Especial: Teatro, luta de classes e ditadura militar no Brasil

Revista Marxista de Teoria, Política e História Contemporânea


Baixe gratuitamente:



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

EFLCP realiza 2° Módulo do curso "Os Comunistas Brasileiros (1922-1990)"


A Escola de Formação Luiz Carlos Prestes é uma iniciativa da CCLCP que tem por objetivo contribuir com a formação teórica, política e ideológica de seus militantes, círculos e aliados, visando a estratégia comunista, a construção do partido revolucionário e do bloco de forças anti-imperialista, anti-monopolista e anti-latifundiário no Brasil. Nos dias 7, 8 e 9 de Setembro a EFLCP deu continuidade ao curso “Os Comunistas Brasileiros (1922-1990)”, realizando seu 2° Módulo com a professora e camarada Anita Leocádia Prestes.


O 2° Módulo do curso teve o seguinte tema: “Da derrota do movimento antifascista (novembro de 1935) à crise de 1956/58 e à ‘Declaração de Março’ de 1958” e foi dividido em três partes: 1) “Da insurreição armada (1935) à ‘União Nacional’ (1938-1945): a virada tática na política do PCB”; 2) “Os comunistas e a conjuntura do imediato pós-guerra (1945-1947)”; e 3) “Da virada ‘esquerdista’ (1948) à virada para a ‘direita’ (1958) na política do PCB”. Para estudo dos temas tratados foram utilizados como leituras prévias os livros da Anita Leocádia Prestes, textos de Marcos César de Oliveira Pinheiro, além de documentos do próprio partido.

Na primeira parte do curso é analisado um período de intensa perseguição aos comunistas, momento em que o PCB esteve na ilegalidade. Saindo da derrota dos levantes de 35 em que se defendia a derrubada de Getúlio Vargas através das armas, passou-se a defender em 1938, três anos depois, a “União Nacional” com Vargas. Nesta parte, pode-se constatar que a tese de que o PCB simplesmente executava as ordens da Internacional Comunista (IC) é na verdade falsa. Muitos dos elementos internos foram determinantes para a postura assumida pelos comunistas, como um forte sentimento nacional anti-fascista que lutava também contra o integralismo, variante nacional da política fascista pró-eixo na época. Além disso, os comunistas viam na movimentação de setores do governo – liderados por Osvaldo Aranha, que era pró-EUA – bem como nos acontecimentos internacionais – principalmente após a vitória da URSS em Stalingrado – uma tendência do governo Vargas pender para os Aliados, já que o próprio governo e setores da burguesia tinham interesses econômicos, como o da implementação da siderurgia no país, interesses estes que não poderiam ser atendidos por uma burguesia enfraquecida como era o caso da Alemanha, que começava a perder a guerra. No entanto, é possível hoje analisar que o PCB manteve uma postura excessivamente acrítica ao governo, ficando a reboque da burguesia que proclamava uma espécie de “nacional-estatismo” com tendências industrializantes.

Também foi estudado as consequências da Conferência da Mantiqueira (1943) que elegeu o núcleo que dirigiria o Partido nos anos seguintes. É neste momento também que Luiz Carlos Prestes é eleito Secretário-Geral do Partido, mesmo estando ainda na prisão. Prestes criticaria depois a posição acrítica em relação à Vargas, pois defendia que a luta contra o nazi-fascismo deveria andar junto à luta pela democratização do país, pois somente assim a “União Nacional” seria alcançada.

De 1945 à 1947, tema da segunda parte do Módulo, o PCB e seus dirigentes já gozavam de um grande prestígio. Além disso, o Partido entra em curto período de legalidade, com a decadência do Estado Novo após a vitória dos aliados, conforme já previam alguns de seus dirigentes durante a Guerra. Prestes é eleito o Senador mais votado da República, junto a uma bancada de 14 deputados comunistas. Muito embora sendo minoria, os comunistas tiveram uma atuação importante na Constituinte, garantindo por exemplo o direito à greve. Contraditoriamente, num momento de democratização acelerada, o PCB defende a política de “ordem e tranquilidade e apertar os cintos”, o que significava evitar tensões internas excessivas. Todavia, é um momento de efervescência política e o PCB passa a dirigir importantes greves pelo país. Neste período, também passa-se a defender a construção de Comitês Democrático-populares, processo hoje ainda pouco conhecido.

Acontece que internacionalmente as tensões voltam a se acirrar, começam a se criar as bases para a Guerra Fria. Internamente, os comunistas voltam a sofrer represálias e os mandatos dos parlamentares comunistas são cassados em Janeiro de 1948. O PCB também volta a ilegalidade. Reagindo à essa situação, a direção do PCB lidera uma nova virada tática na sua política, que irá resultar no “Manifesto de 50”, que defendia a luta armada contra Dutra e a construção de uma Frente de Libertação Nacional sem aliança com a burguesia nacional. Esse é o momento em que se pode considerar como uma virada “esquerdista” na política do PCB. Estamos aqui na terceira parte do 2° Módulo do curso.

Na prática então, a virada “esquerdista”, resultou na defesa do voto nulo nas eleições, no momento em que Vargas volta ao Catete com amplo apoio popular. No entanto, o PCB passa a considerar o Governo Vargas, um governo de “traição nacional” e, numa mudança completa em relação à política de “ordem e tranquilidade” defende agora a construção de sindicatos paralelos e greves a qualquer custo. Outra contradição é que, mesmo mantida a política “esquerdista”, em pouco mais de 2 anos, volta-se a defender a aliança com a burguesia nacional para o combate a Vargas.

Com o suicídio de Vargas, o PCB tem que rapidamente mudar a sua política. Com a posição de combate frontal a Vargas, o Partido se afastara completamente das bases populares. Exemplo disso é que, após o suicídio do presidente, sedes da Imprensa Popular (Jornal do PCB) são atacadas pelo próprio povo que desaprovava a política do Partido. O PCB, numa mudança rápida da política passa a apoiar a campanha de JK/Jango, recompondo parcialmente sua legitimidade com o movimento.

Acontece que os anos que seguiriam seriam muito duros para o Movimento Comunista Internacional. É apresentado por Nikita Kruschev, 1956, no marco do XX Congresso do PCUS, o “Relatório Secreto” sobre Stalin. Os desdobramentos do Relatório foram variadas, em alguns casos beiravam o antissovietismo, como também haviam manifestações no sentido de não abrir nenhum espaço para a crítica. Prestes se encontrava na completa clandestinidade, não lhe sendo permitido participar das reuniões do Comitê Central. Nessa situação, sua intervenção fica claramente limitada, embora tivesse peso nas cartas endereçadas às reuniões.

Na necessidade de manter a unidade do Partido, é redigido a “Declaração de Março de 1958”, marco de uma nova virada tática na política do Partido, desta vez com a predominância dos elementos “direitistas”. Isso significou uma grande ilusão na via eleitoral/legal e gradual de revolução. As ilusões com a democracia burguesa se afirmaram no momento. A “Declaração” marcou também o prelúdio do racha de 62, que daria origem ao PCdoB.

De todo esse período uma conclusão é clara: a estratégia equivocada de revolução nacional-democrática como primeira etapa para o desenvolvimento de um capitalismo autônomo, para só depois se pensar em revolução socialista, abria espaço para oscilações na tática, que iam da esquerda para a direita, em que o Partido não teria capacidade de manter uma estabilidade viável para um caminho que acumulasse forças sociais e políticas na luta de classes a favor do proletariado e seus aliados históricos. As ilusões e alianças com a burguesia nacional são também consequência desse período: o PCB não se forjou como um partido marxista-leninista de fato, ou seja, como um partido do proletariado. A predominância dos elementos nacionalistas fizeram com que o PCB não fosse capaz de manter uma autonomia ideológica, ficando a reboque da política de frações da burguesia e da pequena-burguesia.

Desde já, a CCLCP e as organizações a ela ligada, JCA e MAS, começam a se preparar para o 3° Módulo do curso que terá como tema “Da ‘Declaração de Março’ de 1958 a 1990 (falecimento de Prestes e crise final do PCB)”. O último Módulo do curso terá como base a leitura do novo livro de Anita Leocádia Prestes que será lançado em breve: Luiz Carlos Prestes: o combate por um partido revolucionário (1958-1990). 

FONTE: CCLCP


Em memória aos 90 anos de Agostinho Neto

HERÓI DA INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA



António Agostino Neto (Kaxicane, freguesia de S. José, conselho de Icolo e Bengo, Distrito de Luanda, 17 de setembro de 1922 — Moscou, 10 de setembro de 1979)

Assista ao vídeo produzido pela Fundação António Agostinho Neto sobre a vida e a obra desta figura destacada da história das lutas sociais do povo angolano




NOITE
Por Agostinho Neto


Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambulhoes
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.

domingo, 16 de setembro de 2012

Alckmin usa a mesma retórica dos matadores da ditadura



O veredicto de Geraldo Alckmin

O governador de SP usa a mesma retórica dos matadores da ditadura


RESUMO Integrante da Comissão da Verdade, a psicanalista Maria Rita Kehl traça paralelo entre a violência de Estado da ditadura (1964-85) e a da PM paulista, que alegou "resistência seguida de morte" após matar nove pessoas no dia 12. A justificativa, típica dos anos de chumbo, foi endossada pelo governador Alckmin.

Por MARIA RITA KEHL

"Quem não reagiu está vivo", disse o governador de São Paulo ao defender a ação da Rota na chacina que matou nove supostos bandidos numa chácara em Várzea Paulista, na última quarta-feira, dia 12. Em seguida, tentando aparentar firmeza de estadista, garantiu que a ocorrência será rigorosamente apurada.

Eu me pergunto se é possível confiar na lisura do inquérito, quando o próprio governador já se apressou em legitimar o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele.

"Resistência seguida de morte": assim agentes das Polícias Militares, integrantes do Exército e diversos matadores free-lancer justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985.

Suprimida a liberdade de imprensa, criminalizadas quaisquer manifestações públicas de protesto, o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dos quais 141 permanecem até hoje desaparecidos e outros 44 nunca tiveram seus corpos devolvidos às famílias -tema atual de investigação pela Comissão Nacional da Verdade).

Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios, em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes cujos corpos eram entregues às famílias totalmente desfigurados, foram os laudos que atestavam os inúmeros falsos "suicídios".

HERZOG A impunidade dos matadores era tão garantida que eles não se preocupavam em justificar as marcas de tiros pelas costas, as pancadas na cabeça e os hematomas em várias partes do corpo de prisioneiros "suicidados" sob sua guarda. Assim como não hesitaram em atestar o suicídio por enforcamento com "suspensão incompleta", na expressão do legista Harry Shibata, em depoimento à Comissão da Verdade, do jornalista Vladimir Herzog numa cela do DOI-Codi, em São Paulo.

Quando o Estado, que deveria proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais, investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes, ninguém mais está seguro. Engana-se a parcela das pessoas de bem que imaginam que a suposta "mão de ferro" do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora.

Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer. A falta de transparência das instituições democráticas -qualificação que deveria valer para todas as polícias, mesmo que no Brasil ainda permaneçam como polícias militares- compromete a segurança de todos os cidadãos.

Vejamos o caso da última chacina cometida pela PM paulista, cujos responsáveis o governador de São Paulo se apressou em defender. Não é preciso comentar a bestialidade da prática, já corriqueira no Brasil, de invariavelmente só atirar para matar -frequentemente com mais de um tiro.

Além disso, a justificativa apresentada pelo governador tem pelo menos uma óbvia exceção. Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo "tribunal do crime" do PCC na chácara de Várzea Paulista. Ora, não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva, que foi assassinado junto com os outros supostos resistentes.

Aliás, o "tribunal do crime" acabara de inocentar o acusado: o senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado. E apesar da ausência total de marcas de tiros nos carros da PM, assim como de mortos e feridos do outro lado, o governador não se vexa de utilizar a mesma retórica covarde dos matadores da ditadura -"resistência seguida de morte", em versão atualizada: "Quem não reagiu está vivo".

CAMORRA Ora, do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública do governo do Estado de São Paulo? Sabemos que, depois da onda de assassinatos de policiais a mando do PCC, em maio de 2006, 1.684 jovens foram executados na rua pela polícia, entre chacinas não justificadas e casos de "resistência seguida de morte", numa ação de vendeta que não faria vergonha à Camorra. Muitos corpos não foram até hoje entregues às famílias e jazem insepultos por aí, tal como aconteceu com jovens militantes de direitos humanos assassinados e desaparecidos no período militar.

Resistência seguida de morte, não: tortura seguida de ocultação do cadáver. O grupo das Mães de Maio, que há seis anos luta para saber o paradeiro de seus filhos, não tem com quem contar para se proteger das ameaças da própria polícia que deveria ajudá-las a investigar supostos abusos cometidos por uma suposta minoria de maus policiais. No total, a polícia matou 495 pessoas em 2006.

Desde janeiro deste ano, escreveu Rogério Gentile na Folha de 13/9, a PM da capital matou 170 pessoas, número 33% maior do que os assassinatos da mesma ordem em 2011. O crime organizado, por sua vez, executou 68 policiais. Quem está seguro nessa guerra onde as duas partes agem fora da lei?

ASSASSINATOS A pesquisadora norte-americana Kathry Sikkink revelou que o Brasil foi o único país da América Latina em que o número de assassinatos cometidos pelas polícias militares aumentou, em vez de diminuir, depois do fim da ditadura civil-militar.

Mudou o perfil socioeconômico dos mortos, torturados e desaparecidos; diminuiu o poder das famílias em mobilizar autoridades para conseguir justiça. Mas a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia.

Hoje os supostos maus policiais talvez sejam minoria, e não seria difícil apurar suas responsabilidades se houvesse vontade política do governo. No caso do terrorismo de Estado praticado no período investigado pela Comissão da Verdade, mais importante do que revelar os já conhecidos nomes de agentes policiais que se entregaram à barbárie de torturar e assassinar prisioneiros indefesos, é fundamental que se consiga nomear toda a cadeia de mando acima deles.

Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando?

Como confiar na seriedade da atual investigação, conduzida depois do veredicto do governador Alckmin, desde logo favorável à ação da polícia? Qual é a lisura que se pode esperar das investigações de graves violações de Direitos Humanos cometidas hoje por agentes do Estado, quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes?

Não há grande diferença entre a crueldade praticada pelo tráfico contra seis meninos inocentes, no último domingo, no Rio, e a execução de nove homens na quarta, em São Paulo. O inquietante paralelismo entre as ações da polícia e dos bandidos põe a nu o desamparo de toda a população civil diante da violência que tanto pode vir dos bandidos quanto da polícia.

"Chame o ladrão", cantava o samba que Chico Buarque compôs sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Hoje "os homens" não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores "suspeitos" das favelas e das periferias para fora dos barracos ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades.

PELA CULATRA Do ponto de vista da segurança pública, este tiro sai pela culatra. "Combater a violência com mais violência é como tentar emagrecer comendo açúcar", teria dito o grande psicanalista Hélio Pellegrino, morto em 1987.

E o que é mais grave: hoje, como antes, o Estado deixa de apurar tais crimes e, para evitar aborrecimentos, mente para a população. O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário. O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação -portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar.

O Estado, ao mentir, perde legitimidade -quem acredita nas "rigorosas apurações" do governador de São Paulo? Quem já viu algum resultado confiável de uma delas? Pensem no abuso da violência policial durante a ação de despejo dos moradores do Pinheirinho... O Estado mente -e desampara os cidadãos, tornando a vida social mais insegura ao desmoralizar a lei. A quem recorrer, então?

A lei é simbólica e deve valer para todos, mas o papel das autoridades deveria ser o de sustentar, com sua transparência, a validade da lei. O Estado que pratica vendetas como uma Camorra destrói as condições de sua própria autoridade, que em consequência disso passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.


FONTE: Folha de São Paulo, 16 de setembro de 2012.

A possibilidade do multiverso


Será o nosso Universo só um entre uma multidão de outros, todos parte de um multiverso eterno?


PoR MARCELO GLEISER


É bom começar explicando esse título que, sem dúvida, deve parecer estranho aos não especialistas.

A ideia é que nosso Universo (com "U" maiúsculo) é só um entre uma multidão de outros universos, todos parte de um multiverso que pode ter existido por toda a eternidade.

Com isso, o que chamamos de Big Bang seria apenas o evento que marcou o início da nossa narrativa cósmica. Outros universos teriam os seus big bangs e as suas histórias.

Existem vários tipo de multiverso, mas todos têm essa característica em comum, de serem genitores de universos. Por exemplo, algumas teorias sugerem que as leis da natureza podem variar de região a região no multiverso. Nesse caso, diferentes universos poderiam ter diferentes leis da física. No momento, essas teorias são mais metafísicas do que físicas.

Em outras teorias, os diferentes universos têm as mesmas leis, mas as constantes da natureza (a massa e a carga do elétron, a massa do próton, a constante que determina a intensidade da força da gravidade etc.) é que variam.

Esta última hipótese vem da teoria de supercordas, a tentativa de construir uma teoria de todas as forças da natureza (são quatro ao todo), a chamada "Teoria de Tudo".

No momento, não temos qualquer indicação de que o multiverso possa existir. Ou, se existir, se poderemos determinar sua existência. É possível que exista apenas o nosso Universo e ponto final. Porém, se for este o caso, temos o problema de explicar por que esse Universo e não outro. Especialmente se levarmos as previsões da teoria de supercordas a sério e concluirmos que o multiverso é inevitável e que um número enorme de universos existe, cada qual com suas constantes físicas e, portanto, com uma física diferente.

Universos como o nosso são comuns entre eles ou raros? Como determinar isso?

Uma resposta óbvia é que, se nosso Universo não existisse, não estaríamos aqui nos perguntando sobre sua existência. Ele existe e pronto. Mas essa resposta não é muito satisfatória, pois estamos programados para buscar explicações finais, narrativas que justifiquem o começo, o meio e o fim de uma história.

É difícil imaginar algo que não tenha tido um início, como o temos nós e todas as formas de vida. Mais difícil ainda é imaginar que algo possa surgir sem uma causa inicial.

A existência ou não do multiverso, para que seja uma questão científica e não filosófica ou teológica, precisa ser determinada experimentalmente, por alguma observação.

No momento, existem tentativas de fazer isso, estudando o efeito sobre dois universos vizinhos que tivessem sofrido uma colisão no passado. Infelizmente, esses modelos ainda são bem simples, e está faltando muita coisa.

Um dos problemas que a ciência enfrenta com esse debate é a questão do infinito. Se teorias afirmam que o multiverso existiu e existirá para sempre, como comprovar isso? Mesmo com o nosso Universo e seu futuro: para determinar se ele existirá para sempre, precisaríamos de um experimento que durasse também para sempre.

A crise aqui vem da colisão entre conceitos como o infinito e as limitações concretas da passagem do tempo da qual a ciência, enquanto obra humana, prescinde.



MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook:goo.gl/93dHI


FONTE: Folha de São Paulo, 16 de setembro de 2012.


sábado, 15 de setembro de 2012

Galeano constrói calendário crítico sobre fatos históricos



Livro de uruguaio é mordaz ao tratar de política, sexo, ciência e religião


ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO


"Quinze de setembro. Adote um banqueirinho! No ano de 2008 a Bolsa de Nova York foi a pique. Os magos de Wall Street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos. Imploraram uma ajudinha pelo amor de Deus e receberam a maior recompensa jamais concedida na história humana. Essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. Ninguém pensou nisso."

Esse é o resumo do agudo verbete que o uruguaio Eduardo Galeano preparou para o dia de hoje em "Os Filhos dos Dias". O livro mistura história, política, humor, economia, religião, sexo, ciência e futebol. É um surpreendente calendário heterodoxo.

Autor do famoso "As Veias Abertas da América Latina" (1971), o premiado Galeano, 72, é conhecido pela visão crítica e aguda de seus ensaios.

Como em suas outras obras, nesta mais recente a política é o ponto forte. Mas não só. Lá estão coletados casos de denúncias de discriminação contra mulheres e homossexuais, ataques ao ambiente e descalabros contra pobres e indefesos.

Tudo é editado em 366 pílulas -uma para cada dia de um ano bissexto- em textos curtos ou curtíssimos.

Às vezes as notas têm estilo de almanaque; em outras parecem relatos jornalísticos. De vez em quando saltam poesias e manifestos. É dinâmico e gostoso de ler.

Pelas páginas passeiam Einstein, Picasso, Caruso, Tarzan, Noel Rosa, Tupac Amaru, Rockefeller, Sherlock Holmes, Drácula, Fernando Pessoa, Mark Twain. E informações variadas.

Galeano conta que a soma dos sem-casa chega a um bilhão em pleno século 21. Que até 16 de maio de 1990 a homossexualidade fazia parte da lista de doenças mentais da Organização Mundial da Saúde. Que só em 2008 os EUA tiraram Mandela da lista dos "terroristas perigosos".

O verbete de 13 de fevereiro narra que em 2008 o menino Miguel López Rocha, 8, brincava nos arredores de Guadalajara, no México, quando caiu no rio Santiago.

"Não morreu afogado. Morreu envenenado. O rio contém arsênico, ácido sulfúrico, mercúrio, cromo, chumbo e furano, jogados em suas águas pela Aventis, Bayer, Nestlé, IBM, Dupont, Xerox, United Plastics, Celanese e outras empresas, que em seus países estão proibidas de fazer esse tipo de doação", escreve Galeano.

BRASIL
Há historinhas brasileiras, como a da inusitada manifestação que ocorreu em Sorocaba (SP) em 8 de fevereiro de 1980. Era tempo de ditadura, e uma ordem judicial proibia beijos que "atentavam contra a moral pública" -como os "no pescoço" e os em que "as mucosas labiais se unem numa insofismável expansão de sensualidade". Em protesto, a cidade se transformou em um enorme beijódromo.

Muitos verbetes tratam das tragédias das guerras. Lembram da destruição das bibliotecas de Alexandria (em 47 aC, por Júlio César) e de Bagdá, quando os EUA invadiram o Iraque. E o autor recorda a incrível "biblioteca andante" de um grão-vizir da Pérsia no final do século 10. Para escapar de guerras e incêndios, Abdul Ismael fez quatrocentos camelos carregarem seus 117 mil livros.

No dia internacional do direito à informação (28 de setembro), Galeano relata que logo após o lançamento das bombas atômicas no Japão, em 1945, o "New York Times" publicou artigo de William Laurence, um redator especializado em ciência, afirmando que não havia radiação em Hiroshima e Nagasaki; que a radioatividade era uma "mentira da propaganda japonesa".

Laurence ganhou o Pulitzer. Mais tarde se descobriu que ele estava na folha de pagamento do orçamento militar dos EUA.

OS FILHOS DOS DIAS

AUTOR Eduardo Galeano
EDITORA L&PM
TRADUÇÃO Eric Nepomuceno


FONTE: Folha de São Paulo, 15 de setembro de 2012.


Eduardo Galeano lança novo livro na forma de um calendário

A cada dia, nasce uma história em “Os filhos dos dias”; trata-se de 366 textos que, segundo Galeano, são histórias de invisíveis que merecem ser contadas
28/03/2012
de Ana María Mizrah
"LA REPÚBLICA", de Montevidéu (Uruguai)

Por que este título: Os filhos dos dias?
Segundo os maias, nós somos filhos dos dias, ou seja, o tempo é que estabelece o espaço. O tempo é nosso pai e nossa mãe e, como somos filhos dos dias, o mais natural é que a cada dia nasça uma história. Somos feitos de átomos, mas também de histórias.

Dentro dessas histórias há muitas vinculadas à nossa vida cotidiana. Você assinala: “vivemos em um mundo inseguro”. A particularidade é que projeta que existem diferentes concepções sobre a insegurança. A que se refere?

Muitos políticos no mundo inteiro, não é algo que passa somente em nosso país, exploram um tipo de histeria coletiva a respeito do tema da insegurança. Te ensinam a ver ao próximo como uma ameaça e te proíbem vê-lo como uma promessa, ou seja, o próximo, esse senhor, essa senhora que anda por aí, pode roubar-te, sequestrar-te, enganar-te, mentir para você, raramente oferecer-te algo que valha a pena receber. Creio que essa forma parte de uma ditadura universal do medo. Fomos treinados para ter medo de tudo e de todos e este é o álibi que necessita a estrutura militar do mundo. Este é um mundo que destina metade de seus recursos à arte de matar o próximo. Os gastos militares, que são o nome artístico dos gastos criminais, necessitam de um álibi. As armas necessitam da guerra, como os abrigos necessitam do inverno.

Quando fala dos medos, você joga com essa palavra para assim mencionar os meios e tem uma história que é “os meios de comunicação”. A que lugar você atribui aos meios em nossos medos?
Às vezes, os meios atuam como medos de comunicação, então, se convertem em medos de incomunicação. Isto não é verdade para todos, mas sim para alguns meios que no mundo inteiro exploram esse tipo de histeria coletiva desatada com o tema da insegurança. Mentem, porque a insegurança não se reduz à insegurança que se pode sofrer nas ruas. Inseguro é este mundo e a primeira é a insegurança no trabalho, que é a mais grave de todas e da qual nunca falam os políticos que exploram o tema da insegurança. Não há nada mais inseguro que o trabalho. Todos nos perguntamos: e amanhã, haverá quem me contrate? Voltarei ao lugar de trabalho onde estive hoje? Terá alguém ocupado meu lugar?
Esse medo real de perder o trabalho ou de não encontrá-lo é a fonte de insegurança mais importante. Tão inseguro é o mundo, a quantidade de pessoas que matam os carros nisso que chamamos acidentes de trânsito, na realidade são atos criminosos por conta dos condutores que tendo permissão de dirigir, tem permissão para matar, ou a insegurança da maioria das crianças que nascem no mundo condenados a morrer muito cedo de fome ou de enfermidade incurável.

Aparecem as histórias dos desaparecidos, mas lhe menciono uma em particular, chamada Plano Condor, onde a história que se conta pertence a Macarena Gelma. Como foi para você conhecer Macarena Gelman?
Comecei conhecendo ao pai de Macarena (Marcelo) e ao avô Juan (Gelman) com quem trabalhei junto na revista Crisis em Buenos Aires e que é meu amigo de toda a vida. São muitos anos de amizade, ou melhor, de irmandade. Juan (Gelman) teve que sair da Argentina para continuar vivo, naqueles dias que se viviam em Buenos Aires, onde tinha que ir ou esconder-se. Então, eu recebia com muita frequência a seu filho Marcelo e me fiz de pai por algum tempo, depois o mataram, e a outra história é bastante conhecida.
A mulher de Marcelo (María Claudia) foi sequestrada na Argentina. Eram acusados do crime de protestar, delitos de dignidade que tem a ver com o direito estudantil ao protesto. Esses eram os crimes dos meninos, como eles foram assassinados muito cedo. A María Claudia assassinaram no Uruguai, onde já funcionava o mercado comum da morte, que foi o melhor em funcionamento, porque o Mercosul ainda tinha dificuldades graves. O mercado da morte funcionou muito bem naquelas horas do terror onde as ditaduras trocavam favores. Mandaram María Claudia grávida para o Uruguai e aqui os militares uruguaios se encarregaram do trabalho. Esperaram ela dar à luz, ela passou seus últimos dias, ou talvez seus últimos meses, na sede do Bulevar Artigas e Palmar (SID) onde descobriu-se a placa em memória de María Claudia e todos os que estiveram ali.
Me impressionou o contraste pela beleza exterior do palácio e os horrores que escondia. Depois de dar à luz, a mataram e entregaram seu filho(a) a um policial, troca de favores. A partir de uma busca complicada de Juan (Gelman) e seus amigos, conseguiu encontrá-la e agora chama-se Macarena Gelman. Nós tornamos muito amigos e uma vez jantando em casa, me contou essa história que é parte das histórias de “Os filhos dos dias” (livro). É uma história muito íntima, muito particular e lhe pedi autorização para publicá-la. É uma história rara, mas reveladora. Conta que quando ainda não sabia quem era e vivia em outra casa, com outro nome, nesse período sofria de insônia contínua, que não a deixavam dormir a noite porque a perseguia sempre o mesmo pesadelo. Via uns senhores desconhecidos muito armados que a buscavam no dormitório onde estava dormindo, debaixo da cama, no guarda-roupa e em todas as partes e ela acordava gritando e angustiadíssima.
Durante muitíssimo tempo, toda sua infância teve esse pesadelo que a perseguia e ela não sabia o por quê, de onde vinha. Até que conheceu sua verdadeira história e soube que estava sonhando os pesadelos que sua mãe havia vivido enquanto a formava no ventre. A mãe, uma estudante de apenas 19 anos, era perseguida de verdade por outros senhores armados até os dentes que a encontraram e a mandaram para morrer no Uruguai. Macarena estava no ventre dessa mulher acoada e perseguida. Desde o ventre padecia a perseguição que sua mãe sofria e depois a sonhou e se converteu em seus próprios pesadelos. Ela sonhou o que sua mãe havia vivido. É uma história que parece uma metáfora da transmissão, das penas, dos horrores, e também de outras continuidades que não são todas horríveis.

É um livro que contém muitas histórias de mulheres. Por que?
Também há muitas histórias de mulheres em meus livros anteriores, como “Espelhos e Bocas do Tempo”. Há muitas histórias dos invisíveis, e as mulheres ainda são bastante invisíveis. Há histórias de negros, de índios, das culturas ignoradas, das pessoas ignoradas e que merecem ser redescobertas porque têm algo para dizer e vale a pena escutar.
Neste último livro (Os filhos dos dias) há uma história que me impressionou muito, e que não havia escrito até agora, a de Juana Azurduy. Juana foi uma heroína das guerras de independência. Encabeçou a tomada do Cerro de Potosí que estava nas mãos dos espanhóis. Ela era a chefe de um grupo guerrilheiro que recuperou Potosí das mãos espanholas. Depois seguiu guerreando pela independência, perdeu seus 7 filhos e seu marido nessa guerra. Finalmente, foi enterrada em uma fossa comum e morreu na pobreza mais pobre que se possa imaginar. Antes havia recebido um título militar, foram as forças independentistas as que lhe deram um título que dizia em mérito: “a sua viril coragem”. Precisou-se de muito tempo para que uma presidenta argentina (Cristina Fernández) a outorgasse o título de General por sua feminina valentia.

Um integrante da Real Academia Espanhola assinalou como um erro utilizar expressões que carreguem a linguagem. Era uma crítica à feminização como, por exemplo, quando se utiliza todos e todas. O que você pensa a respeito?
O transcendente é o que está por trás, mas às vezes os conteúdos são refletidos nas palavras que expressam. Me parece ridículo quando uma mulher se apresenta e me diz sou médico, será médica, eu contesto.

Há muitas histórias dos povos originários, da luta pelos recursos naturais, e o rol das multinacionais. Em particular, uma história dedicada à selva amazônica.
Essa história sobre a Amazônia recorda que a Texaco, empresa petroleira que derramou veneno durante muitos anos, arruinou boa parte da solva equatoriana. Foi a juízo, mas perdeu. As vítimas desse atentado à natureza e às pessoas desse lugar não tinham meios econômicos, enquanto a Texaco contava com centenas de advogados. Ao cabo de anos, contudo, o pleito foi ganho, mas ainda não se colocou em prática, porque há muitas maneiras de se apelar, e de tirar a bola para fora e para isso não faltam doutores.

No livro tem um olhar crítico sobre os governos progressistas que ainda não descriminalizaram o aborto.
O livro toca todos os temas sempre a partir de histórias concretas. Não é um livro teórico.

As 366 histórias não são somente latino-americanas, você percorre o mundo.
Há muitas histórias que merecem ser recuperadas. Luana, por exemplo, foi a primeira mulher que firmou seus escritos nas tábuas de barro. Ocorreu há quatro mil anos e dizia que escrever era uma festa. Essa mulher é desconhecida. E vale a pena contar que essa história existiu.

A respeito da crise internacional , você resgata o que ocorreu na Islândia e o movimento dos indignados na Espanha.
Esta crise provém de um círculo muito pequeno de banqueiros onipotentes. Me ocorreu para esta história um título sinistro que foi “adote um banqueiro”. Os responsáveis da crise são os que mais tem se queixado e os que mais dinheiro tem recebido. Eles têm sido recompensados por fundir o planeta. Todo esse dinheiro que destinou aos que causaram o pior desastre na história da humanidade seria suficiente para dar comida aos famintos do mundo com sobra, inclusive.

Você acha uma contradição a existência do movimento dos indignados e que, ao mesmo tempo, tenha ganhado o Partido Popular na Espanha?
A aparição dos indignados é o que de mais lindo ocorreu no mundo nos últimos tempos. Creio que o melhor da vida é sua capacidade de surpresa. O melhor dos meus dias é o que ainda não vivi. Cada vez que uma cigana me cerca para ler a minha mão a peço por favor que a pague mais que não leia. Não quero que me digam o que vai me ocorrer, o melhor que a vida tem é a curiosidade e a curiosidade nasce da ignorância do destino. A explosão dos indignados começou na Espanha, e depois se estendeu em outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro (intelectual brasileiro já falecido) que o mundo se divide entre os indignos e os indignados e que tem-se que tomar partido, há que se eleger.
Pensei muito nele quando surgiu este movimento. Jovens que perderam seus empregos e suas casas por responsabilidade desses malabarismos financeiros que acabaram despojando os inocentes de seus bens. Eles não foram os que pegaram empréstimos impossíveis, não foram eles os culpados da bolha financeira e deste disparate que aconteceu na Espanha de construir e construir e agora está cheia de moradias desabitadas e gente sem casa.
O PP ganhou a eleição, é verdade. A direita ganhou as eleições, e terá que lutar para que isso mude. Isto que aconteceu na Espanha também fala do desprestígio de forças de esquerda que entram na vida política prometendo mudanças radicais, e depois terminam repetindo a história, ao invés de mudá-la. Muitas pessoas, sobretudo os jovens, se sentem desapontadas e abandonam a política.