domingo, 22 de julho de 2012

Olimpíadas Londres 2012: segurança máxima para garantir os bons negócios


Marxismo e Ciências Humanas: leituras sobre o capitalismo num contexto de crise

Coletânea de textos apresentados no evento realizado em Curitiba em Homenagem aos 15 anos da revista CRÍTICA MARXISTA


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SUMÁRIO

Apresentação (Os organizadores)

Caio Navarro de Toledo: Desafios e problemas de uma publicação marxista no Brasil: Crítica Marxista faz 15 anos.

Armando Boito & Luiz Eduardo Motta: Karl Marx no Brasil.

João Quartim de Moraes: O marxismo e os impasses do capitalismo contemporâneo.

Isabel Loureiro: A recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil.

Robespierre de Oliveira: A teoria crítica como teoria da mudança social: o marxismo de Marcuse.

Anita Helena Schlesener: Gramsci e a cultura de seu tempo: observações sobre arte e literatura

Marcos Vinícius Pansardi: Gramsci e as Relações Internacionais: hegemonia, dependência e imperialismo.

Francisco Paulo Cipolla: A evolução da teoria da crise em Marx. 

Claus Germer: As tendências de longo prazo da economia capitalista e a transição para o socialismo.

Sérgio Braga: Nicos Poulantzas, as elites e a sociologia política norte-americana.

Adriano Codato: Política, ciência e ideologia: sobre o "teoricismo" de Nicos Poulantzas.

Pedro Leão da Costa Neto: Notas introdutórias sobre o desenvolvimento do marxismo no Leste Europeu.

Ligia Regina Klein: A luta pelas leis fabris do século XIX e a definição das idades do trabalho: um estudo sobre a constituição das noções de infância e adolescência.
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sexta-feira, 20 de julho de 2012

JUVENTUDE COMUNISTA GREGA INTERVÉM NO VI CONGRESSO DA UJC – UNIÃO DA JUVENTUDE COMUNISTA




Intervenção do KNE no Seminário Internacional de Solidariedade entre os Povos
VI Congresso da União da Juventude Comunista

Texto: Georgio Eltachir Almarnti – membro da Direção Nacional do KNE
Tradução: Pedro Bras – UJC-RJ

A cada dia que passa temos mais provas e mais elementos que indiquem claramente que a crise capitalista, uma crise de super-acumulação do capital, está se agravando mais e mais na Zona do Euro e na União Européia.

(Não acho que seja necessário fazer um resgate da eclosão da crise capitalista de 4 anos atrás até hoje; Tenho certeza que vocês já leram muito a respeito todos esses anos).

Apenas para apresentar alguns exemplos característicos segundo dados mais atuais: de acordo com as previsões mais correntes a economia italiana irá regredir 2,4% em 2012, enquanto a previsão inicial falava em 1,6%. A Espanha solicitou sua entrada no chamado “Mecanismo de Suporte” da União Européia, seguida pelo Chipre e já há outros a fazer o mesmo (hoje os jornais já especulam que a Croácia está pretendendo o mesmo). Podemos ver muito claramente que o que acontece nos diversos elos da corrente (como Espanha, Itália, França etc.) tem reflexos na corrente como um todo, tem marcante influência em toda Zona do Euro e União Européia.

Também é um fato de que não diz respeito apenas aos países europeus: por exemplo, o que acontece agora na Espanha irá impactar vários países latinoamericanos, que possuem grandes investimentos espanhóis.

Na era do imperialismo, que é a era do capitalismo monopolista, da dominação dos monopólios capitalistas; a ampliada socialização da produção e internacionalização capitalista são fatores para o desenvolvimento de fortes relações de co-dependência dos países capitalistas, muito mais fortes do que costumavam ser há 50 ou 100 anos atrás. Essas relações criam o mundo das contradições intra-capitalistas. O mundo do antagonismo intra-imperialista.

Nos dias 28 e 29 de junho, o resultado do Encontro da União Européia foi um acordo temporário entre as classes burguesas da Europa, com decisões que buscaram reafirmar a posição dos monopólios europeus no quadro do antagonismo global (dando 130 bilhões de euros como um “pacote de desenvolvimento”) e de reafirmar o euro como uma moeda de reserva global.

Mas, esse acordo é apenas temporário:
- (1) porque ele não desfaz (e não pode desfazer) as causas da crise capitalista, o inconstante desenvolvimento capitalista dentro da Zona do Euro e da União Européia.
- (2) porque ele não desfaz a intensificação das contradições intra-imperialistas as quais o capital irá trazer para um dos lados o ônus das perdas e dos danos da crise capitalista.

Os povos da Europa não devem ter nada o que esperar desta briga intra-imperialista. Enquanto a mistura final da política capitalista é “austeridade com desenvolvimento”, ou se é “desenvolvimento com austeridade”, a política dos capitalistas contra a classe trabalhadora e o povo não será nada melhor, nada menos tênue. De um jeito ou de outro, o desenvolvimento capitalista que eles estão dizendo, uma vez mais, será baseado nas ruínas dos direitos e das vidas da classe trabalhadora; na posterior redução do valor da força de trabalho.

Os imperialistas podem brigar entre si. Podem criar novas alianças e contra-alianças, como a chamada “Coalizão do Sul” que se fala hoje na Europa. Mas, eles estão unidos e coordenados quando o assunto é eliminar direitos populares e reprimir movimentos sociais. E quando dizemos que a classe trabalhadora e o povo não têm nada de positivo a esperar desta luta intra-imperialista, não nos esqueçamos que as duas Guerras Mundiais sucederam grandes crises econômicas do capitalismo.

Na Grécia, a profunda crise de super-acumulação do capital, a qual chegou a seu quarto ano combinada com a crise entre os Estados-membros da União Européia, provocou intensa agressividade dos monopólios e de seus representantes políticos, e é expressa pela estrátégia anti-popular como um todo. O acordo que foi assinado entre o governo grego, a União Européia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) são parte dessa estratégia.

Os capitalistas gregos, em conjunto com seus aliados das organizações internacionais capitalistas, planejaram um coordenado programa de maneira a garantir o máximo possível os lucros dos monopólios. As medidas desse programa atacaram os direitos da classe trabalhadora, o valor da força de trabalho: cortes de pensões e salários, cortes nos setores da saúde pública e no sistema de seguridade social, surgimento de todo tipo de relações de trabalho flexíveis, abolição dos contratos coletivos de trabalho, aumento da idade mínima para pensões aos 67 ou até 70 anos de idade.

Ademais, promoveram diversas ações pró-capitalistas, como a redução de impostos para as grandes empresas, estabelecimento de gigantescos subsídios estatais aos monopólios capitalistas com o pretexto de salvar empregos, etc. Especialmente para os jovens trabalhadores, para os filhos da classe trabalhadora, a situação é ainda pior, apenas para citar alguns exemplos: nós temos mais de 1,5 milhão de trabalhadores desempregados em um total de 11 milhões de trabalhadores e a maioria desses desempregados e até mesmo dos sub-empregados são jovens. Seguindo o espírito do “acordo” e do corte geral do salário mínimo de 22%, os salários dos jovens trabalhadores que têm menos de 25 anos de idade foram cortados em 32%.

As duas eleições nacionais na Grécia ocorreram com um mês de diferença (em maio e em junho) sem abrir mão do seguinte contexto: sob as condições de uma crise capitalista prolongada que levou a um imenso aumento da dívida pública, sob condições de um violento ataque contra o valor da força de trabalho. Ao mesmo tempo, segundo fontes oficiais, foi chamada a atenção da possibilidade de uma nova controlada ou incontrolada bancarrota sob condições de um novo aprofundamento da crise capitalista na Europa. Todos esses fatores, em conjunto com a agressividade dos capitalistas e o desemprego em massa, influenciaram o comportamento eleitoral. A luta popular e dos trabalhadores que se desenvolveu durante a crise cultivou uma raiva pública contra os dois maiores partidos da burguesia grega.

Na primeira eleição, o PASOK, o partido social-democrata que enquanto estava como partido da situação implementou a cruel linha política contra os trabalhadores de todos esses anos, sofreu uma grande perda de seu poder eleitoral, de 43% para 13%. O Nea Dimokratia (ND), o partido liberal, também sofreu uma perda de seu poder eleitoral e podemos dizer que o sistema bipartidário como um todo perdeu sua capacidade de enganar as forças populares como fazia no passado.

Isso se mostrou um balanço positivo, mas ao mesmo tempo o sistema capitalista não fica apenas observando, ele intervém com todos os meios possíveis de maneira a colocar obstáculos à resistência popular, precavendo-a de demandas radicais, cultivando a desorientação.

Nenhum governo foi formado após a primeira eleição (e isso foi parte do esforço capitalista de renovar a aparência de seu sistema político. Eles poderiam ter formado um novo governo sem novas eleições, mas eles não queriam que fosse dessa maneira).

Na segunda batalha eleitoral, o critério básico de votação se tornou a necessidade de formar um governo (eles ameaçaram o povo de que a falta de um governo levaria a bancarrota nacional) e a escolha ficou entre o ND e o SYRIZA, o partido oportunista que emergiu como a nova social-democracia na Grécia. Enquanto na primeira eleição expressou-se um positivo aumento de uma tendência a condenar os maiores partidos da burguesia, com uma clara marca contra os acordos com a União Européia e suas políticas, na segunda eleição nós testemunhamos um retrocesso, sob a pressão dos aterrorizantes dilemas e das desilusões em uma solução imediata em favor do povo pelos governos que se conclamam de “esquerda” ou de “centro-esquerda”.

O Partido Comunista da Grécia (KKE) fez um enorme esforço em ambas as eleições, tendo recebido 8,5% dos votos nas eleições de Maio. Na difícil segunda eleição, lutamos com todas as nossas armas contra essa tendência de terrorismo e desilusão. Perdemos boa parte de nosso poder eleitoral, tendo recebido 4,5% dos votos e elegendo 12 membros para o Parlamento, mas nós permanecemos firmes perante nossas convicções, não concedendo ao inimigo ao menos um passo atrás na luta pela causa dos direitos dos trabalhadores, pela causa do socialismo e do comunismo.

As significantes perdas do KKE não refletem o impacto de suas posições e de sua militância. Estas aconteceram sob a pressão das ilusões corriqueiras e da falsa e perigosa “análise racional” do chamado “menos pior”, o doloroso e fácil caminho que defende que é possível formar um governo que administre a crise enquanto permanece dentro do capitalismo e dentro da União Européia e de que tal governo faria por onde para frear a deteriorização das condições de vida do povo.

Ao mesmo tempo, houve o impacto da atmosfera do medo e intimidação sobre a expulsão da Grécia da Zona do Euro. Isso ocorreu em condições de uma sistemática ofensiva “por debaixo dos panos” de mecanismos político-ideológicos do sistema, e até mesmo pelo uso sistemático da internet. O principal objetivo foi o enfraquecimento do KKE de maneira a prevenir o fortalecimento do movimento revindicativo dos trabalhadores sob condições de uma deteriorização das condições populares de vida.

Durante essas eleições foi novamente confirmado a análise que nosso partido vem fazendo desde estopim da crise capitalista: a intensificação dos problemas dos trabalhadores e do povo durante a crise, como o desemprego em massa e a pobreza, não levarão automaticamente a radicalização de sua consciência e de suas ações. Nas condições da crise capitalista sempre há duas possibilidades para o movimento popular: ou ele irá retroceder ante a pressão dos problemas, a diminuição das demandas e expectativas populares, ou ele irá contra-atacar na direção de uma ruptura política com os monopólios e com os partidos da burguesia. Essa batalha entre estas duas possibilidades ainda não cessou. Ainda lutamos contra ela na Grécia e em todo o mundo.

A principal conclusão das batalhas eleitorias ocorridas na Grécia é de que seu resultado como um todo reflete a tendência do retrocesso do radicalismo da classe trabalhadora, que se desenvolveu durante o período de crise, perante a pressão do crescente radicalismo pequeno-burguês, guiado pela ideologia e propaganda burguesas.

Apesar do fato de que nós tivemos várias e importantes batalhas se desenrolando na Grécia após a ecolsão da crise (tivemos mais de 30 greves gerais nacionais nos últimos dois anos e meio, massivas passeatas, ocupações de prédios públicos, denúncia popular massiva do pagamento da dívida etc.), é óbvio que essas batalhas não têm a capacidade suficiente de de aprofundar suficientemente o orientado radicalismo-de-classe, por não levarem a organização popular para a mudança na correlação de forças para além do sindicalismo clientelista, rumo a orientação política que a conjuntura requere.

Essas batalhas foram fortemente influenciadas pelas massas pequeno-burguesas que possuem a tendência de não lutar pela superação do sistema capitalista, mas de lutar para retomar a sua posição histórica no mesmo. Os novos setores da classe trabalhadora que se juntaram a essas batalhas não têm a experiência política necessária para entender a atual conjuntura e procuram por uma maneira diferente de administrar seus ganhos dentro do capitalismo, colocando um fim aos ataques contra si, dando-lhes uma solução imediata.

As políticas governamentais contra o povo foram entendidas pela maioria como um resultado da incapacidade e da corrupção dos políticos, como um resultado de uma posição anti-patriótica dos partidos gregos e não como uma necessidade estratégica da classe burguesa grega e de seus aliados europeus.

Os diferentes setores da burguesia grega tentaram renovar o cenário político do capitalismo (sem mudar obviamente sua essência), bem como previram que os dois partidos burgueses não poderiam controlar a fúria e o descontentamento popular, pois o perigo de manter um sistema político instável era condição necessária para o aprofundamento da crise capitalista.
Ao mesmo tempo nós testemunhamos a direta, provocativa e imprecedente intervenção da Comissão da União Européia na campanha eleitoral através de suas figuras de liderança da Alemanha, França, Itália, FMI, EUA e da mídia internacional.

Apesar da participação da Grécia ser muito pequena dentro do arcabouço da União Européia, sua profunda assimilação à Zona do Euro, sua profunda e prolongada crise combinada com a recessão da Zona do Euro trouxe à tona a intervenção das alianças internacionais por dentro e por fora das ações diretas da União Européia, de maneira a impedir qualquer tendência de radicalização do movimento dos trabalhadores na Grécia, bem como seu impacto internacional.

Um elemento básico da reforma do cenário político é a criação de dois pólos: a “centro-direita” baseada no ND e a “centro-esquerda” com o SYRIZA em participação conjunta de largas seções de quadros do PASOK, os quais preocupam-se com suas responsabilidades criminais a respeito da implementação de uma linha política anti-popular adotada nos anos anteriores.

A burguesia grega prestou bastante atenção à reconstrução da social-democracia grega, pois sabiam muito bem que ela respresenta uma ferramenta básica para o controle dos trabalhadores e dos movimentos populares. Isso é porque, após a falência do tradicional partido da social-democracia, importantes setores dos capitalistas gregos apoiaram o partido SYRIZA, a auto-conclamada “Coalisão da Esquerda Radical”, um partido oportunista que rapidamente se transformou no partido da nova social-democracia da Grécia. É um partido que apoia veementemente a União Européia e a possibilidade de estabelecer mudanças nesta por dentro das próprias instâncias políticas da mesma. Um partido que continua falando sobre sobre os “novos ares” que chegaram a Europa com a eleição de François Hollande na França. Um partido que apresenta as políticas de Barack Obama nos EUA como um exemplo de uma administração política realista da crise em favor do povo!

Esse partido ainda entre as duas eleições abandonou até mesmo seus slogans que pareciam ser mais radicais (como o cancelamento do acordo entre a Grécia, o BCE e o FMI) e ajustou seu programa para as necessidades da administração burguesa. É característico o fato de que a apenas poucos dias antes do segundo pleito eleitoral, o presidente do SYRIZA se reuniu com embaixadores dos países do G-20 em Atenas, de maneira a tentar estabelecer um “clima de confiança” como ele disse!

Ontem estava lendo uma entrevista do presidente do SYRIZA, na qual ele disse estar bastante orgulhoso do fato de seu partido “ser um obstáculo para o conflito incontrolável que estava chegando a Grécia, porque havia se tornado a última esperança do sistema político retomar sua credibilidade”!!!

Com o apoio dos capitalistas para este partido, pela primeira vez na Grécia, antes da decisão do povo grego foi colocada a possibilidade de um chamado “governo de esquerda” dentro do capitalismo, por dentro da União Européia, na medida em que eles aumentaram a pressão para que o KKE participasse em tal governo.

Apesar do fato de que sabemos que haveria um custo eleitoral, nós resistimos a essa proposta, nós revelamos a verdade para o povo. Nós revelamos que a estratégia que promete um futuro melhor para a classe trabalhadora e para os desempregados pelo chamado “de esquerda” ou “governo progressista”, através da manutenção intacta do poder do capital e da propriedade capitalista dos meios de produção, é extremamente perigosa. Essa estratégia vem sendo testada na Europa e em outras partes do mundo e vem se provando extramente falha. Ela levou partidos comunistas a dissolução e ao peleguismo.

Essa estratégia esconde a questão fundamental. Ela esconde que o problema do desemprego e todos os outros principais problemas da classe trabalhadora, não podem ser resolvidos enquanto o poder e a riqueza que a classe trabalhadora produz permanecer nas mãos dos capitalistas, enquanto a anarquia capitalista existir.

As necessidades contemporâneas do povo não podem ser satisfeitas no capitalismo em seu estágio superior, a fase imperialista, e seu total reacionarismo, marcado pelas dificuldades da reprodução do capital, pela competição dos monopólios por sua dominação, pelo reforço do ataque direcionado à redução do valor pago pela força de trabalho e pela crescente taxa de exploração. Mesmo os menores ganhos requerem conflitos muito específicos contra as forças do capital como a heróica greve de sete meses dos mineiros de Aspropigos nos demonstra, qual foi consistentemente apoiada pelo KKE e pelo PAME em conjunto com milhares de trabalhadores na Grécia e no exterior que expressaram sua solidariedade. A batalha diária pelo direito ao trabalho, pela proteção aos desempregados, pelos salários e pensões, pelo sistema público e gratuito de saúde, pela riqueza nacional e pela educação; a luta diária contra as guerras imperialistas, pelo desmantelamento das organizações imperialistas, pela soberania popular e pelos direitos democráticos estão inexoravelmente ligados à luta pela superação do capitalismo.

O KKE remou contra à maré, como havia feito outras vezes sobre questões políticas cruciais, quando ele expôs, entre outras coisas, o caráter contra-revolucionário dos antigos partidos socialistas, o caráter imperialista da União Européia, quando ele se opôs ao Tratado de Maastricht, quando ele condenou as intervenções imperialistas e os pretextos que as justificaram etc. Ele explanou para o povo o caráter da crise e de suas pré-condições para uma saída em favor dos trabalhadores, pré-condições estas que estão conectadas com o desmantelamento da União Européia e da OTAN, com o cancelamento unilateral da dívida pública, com a socialisação dos monopólios. Ele colocou o governo dos trabalhadores e do poder popular contra o governo da administração burguesa.

O KKE está concentrando todos os seus esforços na criação de uma poderosa aliança sócio-política entre a classe trabalhadora urbana e as camadas populares rurais, as quais lutarão contra todos os problemas do povo; uma aliança que entrará em conflito com os monopólios e o imperialismo e direcionará sua luta pela superação da barbárie capitalista, pela conquista do poder pela classe trabalhadora, com o estabelecimento do poder popular.

A estratégia do KKE está se mostrando acertada pelo desenrolar de todos os dias que passam. Mas, nós não estamos satisfeitos com apenas isto: não é suficiente ter a estratégia correta e o espírito militante apenas. Nós estudamos nossas fraquezas e exercemos a auto-crítica, nos tornando mais efetivos nas questões de vanguarda política, de formação político-ideológica, de aceleração da presença massiva do partido nas fábricas, locais de trabalho, bairros populares, fortalecendo o movimento popular com orientação de classe, promovendo a estratégia socialista sob quaisquer circunstâncias.

O KKE continua sua luta contra todos os problemas que assolam o povo, com um senso cada vez maior de responsabilidade e de decisibilidade. Está focado na luta contra políticas tributárias de caráter anti-popular, contra os acordos coletivos de barganha, a favor dos salários e das pensões, a favor da proteção aos desempregados, pelo sistema público e gratuito de saúde, pela distribuição da riqueza e pela educação popular. Ao mesmo tempo ele prepara suas forças face ao perigo que hoje representa uma guerra imperialista contra a Síria e o Irã.

Especialmente a Juventude Comunista da Grécia (KNE) está concentrando seus esforços para o sucesso das atividades de nossa 38ª edição do Festival da Juventude. Com o slogan “Dê sua mão para quem se levantar... Vocês devem deter o poder!”, nós vamos nos comunicar com centenas de milhares de jovens trabalhadores, desempregados e estudantes por todo o país, e com toda a certeza nós ficariamos muito felizes com a participação da União da Juventude Comunista (UJC) e de todas as organizações que estão aqui presentes no Brasil em nosso festival na cidade de Atenas, em meados de setembro próximo.

Muito obrigado pela atenção!

FONTE: PCB


O Fórum de São Paulo e seus desafios: resposta a Valter Pomar



Por Atilio A. Boron
O Secretário Executivo do Fórum de São Paulo, Valter Pomar, escreveu uma resposta sarcástica ao meu artigo “Fórum de São Paulo: balanço a partir de Caracas”. Uma leitura mais cuidadosa do texto não faz outra coisa que confirmar o acerto contido nas teses centrais de meu artigo, como tratarei de fundamentar mais a frente. Chamo a atenção para que, enquanto em meu artigo falo de política, Pomar, no seu, fala de psicologia. No lugar de discutir os argumentos acerca do “ecletismo ideológico” do fórum ou das debilidades da Declaração final (onde, ao longo de oito páginas, não diz uma palavra sobre as maciças manifestações estudantis contra a privatização das universidades que estão comovendo a política do Chile, Colômbia, México, República Dominicana e, inclusive, Quebec. Apenas fala das bases militares dos Estados Unidos na região, sendo que Pomar é militante de um partido cujo país é o mais completamente cercado por esse tipo de instalações mortíferas), o que sobressai em sua pretensa réplica são supostas caracterizações de minha pessoa e de meu comportamento.
Assim, diz que é “aterrador” escrever o que escrevi; qualifica-me como suposto “mensageiro” de Chávez; ou de “pontificar” em lugar de investigar; “meio descontente” e, mais adiante, “mal humorado” com o êxito do fórum; de dizer “absurdos” ao fazer uma crítica teórica à Declaração do FSP; de elaborar “ridículas caricaturas”; ou pecar pela falta de “tolerância”; de “simplificar” a situação ao comparar o FSP com o Fórum Social Mundial (FSM); de atuar com “má fé” ao insinuar uma possível relação entre o esquecimento do golpe contra Aristides com a presença da MINUSTAH, no Haiti; e de “não saber” que as declarações finais do FSP “são consensuais” nas reuniões de Grupo de Trabalho. Primam pela ausência de categorias de análises políticas ou econômicas, enquanto sobram as de tipo psicológico. Algum motivo deve ter.
A verdade é que sua atitude não faz senão confirmar a escassa vontade do Secretário Executivo do FSP de aceitar dissidências e habilitar uma discussão sobre temas candentes. Tudo, absolutamente tudo, deveria estar aberto à discussão e revisão, especialmente numa organização que pretender representar a esquerda na América Latina e que, supostamente, não admite a infalibilidade dos dirigentes como princípio organizativo. Atitude intolerante que se reflete no fato de que, ao menos até o dia 14 de julho, no site do FSP, só aparecia a nota crítica que Pomar dedicara ao meu artigo – em castelhano e também numa tradução para o inglês –, sem que os visitantes do site pudessem ler a minha. [1] Em meu blog, no entanto, desde o primeiro momento incluí junto ao meu próprio texto a Declaração final do FSP e a nota de Pomar. [2] Censurar ou ocultar opiniões adversas sempre é uma prática malévola e, nas organizações de esquerda, suas consequências são nefastas. É hora de alguém instruir o Secretário do FSP para que acabe com as mesmas, pelo bem do próprio fórum.
Pomar disse que existem “equívocos de fato” em minha nota. Em primeiro lugar, questiona minha afirmação em relação à atitude não solidária e até desrespeitosa com que Piedad Córdoba, representante da Marcha Patriótica da Colômbia, fora tratada nas sessões do FSP. Lamentavelmente para ele, me foi dirigida uma Carta Aberta da ex-senadora Piedad Córdoba e Carlos Lozano Guillén, porta-voz da Marcha Patriótica, onde ratificam minhas palavras e refutam as explicações de Pomar. [3] O mesmo vale sobre a atitude, igualmente prejudicial e indiferente, em relação aos companheiros hondurenhos de LIBRE, cuja heroica resistência durante seis meses nas ruas contra o golpe não foi suficiente para permitir-lhes explicar aos presentes no XVIII Encontro quais eram os desafios que enfrentava este partido frente às eleições do próximo ano. Uma mensagem enviada a mim, em 13 de julho, por Gilberto Ríos Munguía, Coordenador da Comissão Internacional do Partido Liberdade e Refundação (LIBRE), põe fim a qualquer especulação. Nela, diz textualmente que o “Advogado Enrique Flores Lanza solicitou o uso da palavra para dirigir-se aos presentes no Fórum e a mesma foi negada. Não entendemos bem porque não nos foi permitido falar ao plenário. Agradecemos a seu artigo por fazer referência ao que parece ser uma arbitrariedade por parte do companheiro Valter, ainda que tenhamos certeza que tenha ligação com a agenda e os regulamentos. O certo é que um minuto numa saudação não deve ser negado”. Conclusão: o que Pomar caracteriza como “equívoco de fato” são fatos irrefutáveis, corroborados pelos atores diretamente envolvidos ou por testemunhos qualificados. [4] Quem está errado é Pomar. Assunto encerrado.
O Secretário do FSP me reprova por ter escrito que “Chávez apresenta uma nova agenda”. Recomendo que veja o vídeo e tome nota das palavras do Comandante, de uma clareza meridiana e que, em síntese, dizem o seguinte: “Quando nos despedimos hoje e amanhã regressarmos aos nossos países, onde estará a organização, o comando, o plano de batalha, o plano científico, como diria Karl Marx? ... E Lula nos disse uma vez, em Manaus, ‘Chávez, se não vencermos a burocracia será impossível a integração’. A burocracia de nossos governos é uma coisa terrível”. Pois é, e se fazia falta alguma prova mais a forma burocrática como o FSP processou as questões acima mencionadas apontaria uma nova evidência confirmatória dos temores expressos por Lula. [5] Nesse vídeo é possível ver Chávez perguntando onde está Piedad Córdoba e logo expondo uma agenda que não se encontra na Declaração do FSP. Também em relação a este discurso, Pomar disse que “concordo com algumas coisas e difiro de outras que disse Chávez no discurso final”. Dado que detém a Secretaria Executiva do FSP não seria má ideia expressar quais são seus pontos de coincidência e de discrepância com o dito pelo líder da Revolução Bolivariana. Parece-me que não é um assunto menor, dado que Chávez não é apenas um ativista que passou ocasionalmente pelo fórum, mas está investido de uma representação e uma gravitação internacional que seria absurdo não levar em conta. E no caso em que haja desacordos com suas palavras, seria bom conhecê-los e não guardá-los em segredo e, é claro, submeter ambas as posturas a uma discussão aberta e democrática.
Por último, a comparação entre o FSP e o FSM não obedece a nenhuma simplificação, mas leva em conta precisamente a comum ausência em ambos os fóruns de um pensamento estratégico acerca de como avançar para um horizonte pós-capitalista. Basta chegar ao governo para construir o socialismo? Claro que não! Os dificílimos avanços registrados na Venezuela, Bolívia e Equador, além da demora na colocação em marcha deste projeto no Brasil, Uruguai e El Salvador – três países onde governam partidos ou coligações fundadoras do FSP – são claros sintomas das enormes dificuldades em que tropeça a construção do socialismo em Nossa América, uma área que, como recordava Che, constitui a “reserva estratégica do império”.
É preciso debater sobre os espinhosos temas da organização do campo popular, a imprescindível articulação internacional de suas lutas e a estratégica e tática da transição, assuntos sobre quais não se falam nem no FSM nem o FSP. No primeiro, devido a que predominou nele uma absurda atitude de repúdio à política e a qualquer tentativa de organizar as energias canalizadas no fórum para a conquista do poder, o que terminou por esterilizar e debilitar irreparavelmente uma iniciativa que perdeu a oportunidade de consolidar-se como uma força de positiva gravitação universal na cena contemporânea. Podem os povos do mundo lutarem sem organização nem articulação internacional alguma, confiando tão só na eficácia da resistência instintiva contra sua exploração, frente a uma burguesia imperial que aperfeiçoou ao máximo sua capacidade organizativa e executiva no plano mundial?
As resistências no FSP têm origem distinta, toda vez que se privilegia de maneira excludente uma só forma de organização, o partido político, e uma só estratégia derivada dessa forma organizacional: a eleitoral. No entanto, os grandes avanços democráticos dos últimos tempos foram resultados de esmagadoras insurreições populares e não do funcionamento do sistema de partidos. Tal foi o caso da criação de uma ordem democrática na Nicarágua e em El Salvador, nos anos setenta e oitenta do século passado, e no Equador e na Bolívia, na primeira década deste século. E, há apenas um ano, na Tunísia e no Egito.
Em ambos os casos, a silenciosa premissa que se oculta atrás destas equivocadas posturas é ou bem a ingênua crença de que o socialismo surgirá como a queda de uma fruta madura, o qual vem sendo desmentido pela história, ou, pior ainda, a cínica convicção de que o socialismo é um projeto fracassado, que se afogou com a União Soviética ou com o metabolismo do capital que impera na China, como diria István Mészáros. O certo é que não existirá socialismo sem uma revolução anticapitalista. Como recordou uma centena de vezes Lênin, “o capitalismo não cai só; somente cairá se o fizerem cair”, e para fazê-lo cair se requer a presença de um sujeito plural e multifacetado, porém organizado, consciente e capaz de implantar estratégias e táticas adequadas para liberar a longa batalha pelo socialismo. E se mencionei a advertência de Chávez sobre este tema não foi para amparar-me em sua autoridade (como assinala Pomar), mas para destacar com suas palavras a atualidade da crítica do marxismo clássico – e, especialmente, de Lênin e Rosa Luxemburgo – ao evolucionismo socialdemocrata de Bernstein e sua inexorável conclusão: o reformismo burguês.
O FSP cumpriu um papel positivo nas suas mais de duas décadas de existência, porém os tempos mudaram; enfrentamos a pior crise do capitalismo em toda sua história, uma crise cuja resolução é impossível dentro do capitalismo. Vivemos numa época onde as contradições desse modo de produção, aquelas que contrapõem o capital ao trabalho e à natureza, se potencializaram exponencialmente, criando as condições objetivas para um salto revolucionário. Os multimilionários “resgates” com que se beneficia aos causadores da crise desnudam o caráter de classe das democracias capitalistas, cuja legitimidade se derrubou irreparavelmente. E o império, diante de sua lenta, porém inexorável decadência, se lança a uma contraofensiva brutal para recuperar o controle absoluto da América Latina, procurando em vão retroceder a história ao período prévio à Revolução Cubana quando os Estados Unidos prevaleciam sem contrapeso nesta parte do mundo. Ante esta situação não podemos permanecer pensando ou fazendo o mesmo que antes.
Tenho a esperança que na próxima edição do FSP estes temas possam ser encarados e discutidos com a profundidade que merecem. Caso contrário, o risco que se corre é que o destino deste espaço latino-americano seja o mesmo de tantas outras bem intencionadas instituições internacionais: primeiro, o rigor mortis de sua burocratização e, finalmente, seu desaparecimento, devido a sua incapacidade de responder aos desafios da época.
[3] Ver “Austeridad, entereza y compromiso”, em  Página/12, Quinta-feira, 12 de julho de 2012: http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-198471-2012-07-12.html
[4] Ver as observações sobre o tema feitas por Narciso Isa Conde: “XVIII Foro de Sao Paulo: examen microscópico”, em http://www.alainet.org/active/56452&lang=es
[5] O discurso de Chávez está disponível em http://www.youtube.com/watch?v=_7U0j4MVAxU&feature=relmfu, (ir à marca 3:27:00)

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)




LEIA TAMBÉM:

Foro de São Paulo: um balanço de Caracas




quinta-feira, 19 de julho de 2012

Clementina, cadê você???

25 anos sem Clementina de Jesus

O elo entre a música popular brasileira e a nossa ancestralidade africana


"Clementina, cadê você? Cadê você? Cadê você? Cadê você?" O coro foi puxado em seu velório no Teatro João Caetano, onde a cantora empolgara grandes platéias do Show das Seis e Meia. Clementina de Jesus faleceu no dia 19 de julho de 1987, com aproximadamente 85 anos de idade (ela teria nascido entre 1900 e 1902).








Assista ao documentário "Clementina de Jesus"do Programa "De lá pra cá".



Depois ouça Clementina de Jesus interpretando o belíssimo Canto II, do Álbum O Canto dos Escravos, LP prensado em 1982, contendo cantos ancestrais dos negros benguelas, de São João da Chapada, Diamantina, Minas Gerais.



Canto II (Canto dos Escravos)


Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente,
De quissamba na cacunda.


Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente,
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)


Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente de quiçamba na cacunda.


Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente, 
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)


Ê, chora, chora Gongo,ê dévera, chora Gongo chora,
ê, chora, chora Gongo, ê cambada, chora Gongo chora.


Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente de quissamba na cacunda.


Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente, 
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)


Ê, chora, chora Gongo,ê dévera, chora Gongo chora,
ê, chora, chora Gongo, ê cambada, chora Gongo chora.



Próximo lançamento na Livraria Expressão Popular


Aniversário da Revolução Sandinista

Em 19 de julho de 1979, a Frente Sandinista de Libertação Nacional entra em Manágua, capital da Nicarágua, pondo fim à ditadura da família Somoza.


"Os países sem memória são anêmicos e conformistas"


Em entrevista à Carta Maior feita no dia 8 de junho, Patrício Guzmán, documentarista chileno, contou sobre as relações entre a direita e a esquerda no periodo do golpe à Salvador Allende em 1973 e as medidas de Pinochet para tentar apagar da história o presidente deposto. Durante a exibição de seu filme "Nostalgia da Luz" que fechou o evento "Memória e Transformação", promovido pelo Instituto Vladimir Herzog e Cinemateca Brasileira, discorreu sobre a importância e necessidade da memória, como instrumento politico de identidade do país e de seus individuos. Sua obra, segundo ele, é permeada pela tensão entre memória e esquecimento. 

Conhecido por seus filmes sobre o Chile, os anos Allende e o golpe militar de Pinochet, o documentarista, além de comentar sobre o movimento estudantil chileno, que em suas palavras, "quer não só melhor educação, mas uma sociedade mais humana". Guzmán ainda falou sobre a mídia e o papel vital do documentário na história de uma nação, "um país sem documentário é como uma família sem álbum de fotografias".



Veja acima vídeo com a entrevista e, abaixo, a transcrição da fala de Guzmán.

"Eu cheguei muito tarde na política, quero dizer, que quando fui para Espanha para estudar Cinema não tinha uma posição clara. Eu queria mudança, não a mudança radical. Era, se preferir, uma pessoa neutra. Eu me conscientizei estando em Madri, porque a ditadura franquista estava vivendo seus últimos momentos e a Escola del Cine estava no meio da faculdade de Ciências Políticas, de História e Filosofia para chegar até a faculdade tinha que atravessar o campus e via os policiais em confronto com os estudantes, digamos que estávamos em meio um campo de guerra urbana, portanto, foi dentro da faculdade que comecei a entender o que estava passando na América Latina.

Nesse espaço de cultura efervescente que comecei a ter uma consciência mais forte. E quando Allende saiu, eu disse a mim mesmo “tenho que voltar imediatamente, não posso ficar aqui”. Cheguei tarde, cheguei tarde. 4 meses depois que Allende já tinha tomado o poder. Então, os postos já estavam todos ocupados e como não era militante tinha menos possibilidade. Então fui até a escola de Cinema onde tinha estudado no Chile, e disse ao diretor : “O que está passando é tão bonito, tão extraordinário, há uma efervescência tão grande, uma participação massiva enorme que temos que filmar. Imediatamente”

Tratava-se que Allende tinha que renovar o parlamento e a direita queria destituí-lo. A direita pensava que ao obter 60% dos votos e com isso podiam destituir o presidente… Então saímos às ruas e filmamos imediatamente, porque não podíamos não filmá-lo. Bom, Allende conseguiu 43, 44%, ou seja, conseguiu a mais alta votação depois de dois anos de desgastes de um governo chileno. E não puderam destituí-lo, a partir daí a direita entende que precisa dar um golpe de estado, que já não se pode tirar pela via legal um governo popular. E aí eu parei, deixei de filmar e nos reunímos. 

Fizemos uma semana de reunião para estabelecer um método de trabalho. Pusemos, fizemos um esquema em cartolinas com os principais problemas, divididos em políticos, ideológicos e econômicos, que é uma análise marxista elementar, então colocamos muitas chaves com tudo o que derivava dali. Se era economia, era a nacionalização das riquezas básicas, a fábrica, a produção, a batalha da produção. Se era ideologia: as rádios, as televisões, os novos partidos da direita etc. E no outro lado, outro esquema íamos colocando o que filmávamos e comparando uma coisa com a outra. O resultado foi um filme com muitos contra-pontos, digo, a uma ação da esquerda uma resposta da direita. A um contra ataque da direito outra resposta da esquerda, o qual era um documentário ideal. Digamos… que haja um diálogo de contrários, se não há diálogo de contrários não existe linha de desenvolvimento. O filme fica monótono.

Era tal a aceleração da história que Allende produziu, e tal a quantidade de acontecimentos que passava que você acreditava que estava vivendo em um caos total.

Digamos que tínhamos que filmar dois rolos (de filme) diários, essa era minha divisão, se de repente sobrava, então teríamos 3 para o próximo dia. E se no terceiro dia havia outro dia ruim, teríamos 4 para uma boa sequência. E assim fomos equilibrando a tal ponto que quando veio o Golpe de Estado só nos sobraram dois rolos, ou seja, quando se acabou o filme, acabou-se o projeto político. Isso foi muito curioso.

O Chile dos anos 70, o Chile Allende é um dos países mais cultos politicamente que existiu na América Latina, com um desenvolvimento, um amadurecimento da esquerda insólito, com um partido comunista de quase cem anos, partido socialista igualmente velho, uma social-democracia avançada,uma esquerda radical interessante e uma leitura política entre os trabalhadores e estudantes alta.

Depois da repressão de Pinochet não ficou nada.

E os dezoito anos de completa amnésia, Pinochet quis fazer tábula-rasa, apagou a história, apagou Allende da história e transformou comunismo, demonizou o comunismo a graus grotescos. Insultou Allende de todas as maneira que quis, disse tudo o que lhe passou na cabeça contra Allende. Quase tudo falso. E deixou o país, portanto, como que em uma espécie de deserto de memória, de recordações políticas até hoje. De tal maneira que a única coisa que temos é um movimento estudantil magnífico, é a quarta geração que já não tem medo, são inteligentes, querem ir adiante, são contestadores e querem não só melhor educação, mas também querem melhor saúde, melhor moradia, melhores condições de trabalho, melhor vida, uma sociedade mais humana. Não lutam só pelos seus.

Mas só dependemos deles, digamos que não há nenhum outro grupo da sociedade que esteja em plano de luta frontal contra a amnésia, contra os torturadores que andam soltos, contra uma justiça lenta, contra uma Constituição que todavia tenha inimigos internos que é um conceito que causa divisão e ódio, contra uma constituição que fala que os mapuches (etnia indígena) são terroristas. Então, há muito coisa a fazer.

A televisão nasceu como o meio mais importante e pedagógico do século XX e foi convertido em um terrorismo áudio-visual espantoso, nossa televisão latino-americana é imoral e insuportável.

Acredito que a memória não é um conceito intelectual, não é um conceito universitário, não é um conceito acadêmico. A memória é completamente dinâmica, digamos, está dentro do nosso corpo. Os países que praticam a memória são mais vívidos, mais criativos, fazem melhores negócios, melhor turismo, são mais distintos, são melhores. Os países sem memória são anêmicos, não se movem, são conformistas, e caem numa espécie de cultura de sofá, gente que está sentada no sofá assistindo a televisão… E não se movem. Acredito que a memória é um conceito tão importante quanto a circulação do sangue.

Existe uma historiografia científica na América Latina que se pode chamar de moderna? Não. Foi a classe alta que escreveu a história a seu próprio gosto, como no Chile. Eu não acredito em nenhum herói chileno. Não acredito em nenhum deles. Tenho certeza que nos mentiram sistematicamente. Como nos mentiram sobre Allende, sobre Balmaceda, sobre tantos outros heróis que tivemos no Chile. 

Tem que se começar apoiando uma nova geração de historiadores que revisem o que passou de um ponto de vista moderno… para estabelecer as bases onde nos apoiaremos e ter um plano de fundo de verdadeiros heróis para seguir adiante. Assim como a ecologia não se conhecia há 30 anos, os direitos das mulheres não eram conhecidos, ou não eram respeitados, há 70 anos… Assim como os direitos dos indígenas ou a liberdade sexual não eram reconhecidos.. Hoje em dia a memória chegou ao mundo contemporâneo para ficar. Não é passageira, já está instalada. E vai ficar até que nós mesmos a desenvolvamos. É fundamental.

O documentário é um direito do cidadão. Assim como há um dever público em prover saneamento básico, tem que haver documentários, por lei, por obrigação. É o registro de um país, é o álbum de fotos de um país.

Tradução: Caio Sarack


FONTE: CARTA MAIOR

"Brasil forjado na ditadura representa Estado de exceção permanente"


Para professores, filósofos e defensores de direitos humanos, o golpe de 64 moldou um país de estruturas autoritárias, que garante direitos apenas para as classes proprietárias e que transformou a exceção em consenso. Em seminário realizado em São Paulo, eles afirmaram que a exceção é o novo modo de governo do capital e que o povo brasileiro vive um momento perigosíssimo de letargia. A reportagem é de Bia Barbosa.
SÃO PAULO - Qual a idéia de "Estado de exceção"? Na interpretação tradicional do termo, trata-se de um momento de suspensão temporária de direitos e garantias constitucionais, decretado pelas autoridades em situações de emergência nacional, ou mediante a instituição de regimes autoritários. Seu oposto seria o Estado de Direito, conduzido por um regime democrático. Na avaliação de professores, filósofos e defensores de direitos humanos, no entanto, a existência de um Estado de exceção dentro do Estado de Direito seria exatamente a característica do Brasil atual, forjada no período da ditadura militar e que, mesmo após a redemocratização do país, não se alterou. Esta foi uma das conclusões do seminário sobre a herança da ditura brasileira nos dias de hoje, promovido pela Cooperativa Paulista de Teatro e pela Kiwi Companhia de Teatro realizado esta semana, em São Paulo.


Para o filósofo Paulo Arantes, professor aposentado do Departamento de Filosofia da USP, há um país que morreu e renasceu de outra maneira depois da ditadura, e que hoje é indiferente ao abismo que se abriu depois do golpe militar e que nunca mais se fechou.



"Que tipo de Estado e sociedade temos depois do corte feito em 64, do limiar sistêmico construído por coisas que parecem normais numa sociedade de classes, mas que não são? O fato da classe dominante brasileira poder se permitir tudo a partir da ditadura militar é algo análogo à explosão de Hiroshima. Depois que a guerra nuclear começa ela não pode mais ser desinventada. Quando, a partir de 64, a elite brasileira branca se permite molhar a mão de sangue, frequentar e financiar uma câmara de tortura, por mais bárbara que tenha sido a história do Brasil, há uma mudança de qualidade neste momento", avalia Arantes. 



Para o filósofo, o país foi forjado pela ditadura a ponto de hoje nossa sociedade negligenciar tudo aquilo que foi consenso durante o autoritarismo dos militares. "A ditadura não foi imposta. Ela foi desejada. Leiam os jornais publicados logo após 31 de março de 1964. Todos lançaram manifestos de apoio ao golpe, era algo arrebatador. CNBB, ABI, OAB, todo mundo que hoje é advogado do Estado de Direito apoiou. Se criou um mito de que a sociedade foi vítima de um ato de violência, mas a imensa maioria apoiou o golpe", disse Arantes. "E a ditadura se retirou não porque foi derrotada, mas porque conquistou seus objetivos. A abertura de Geisel foi planejada, já tinha dado certo com o milagre econômico. Tanto que seus ideólogos estão aí, como principais conselheiros econômicos da era Lula-Dilma, e que a ordem militar está toda consolidada na Constituição de 88", criticou. 



Na avaliação de Edson Teles, membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos do Brasil e professor de filosofia da Unifesp, a Constituição de 1988 foi apenas uma das formas de lançar o Brasil num Estado de exceção permanente, definido por ele quando a própria norma é usada para suspender a ordem; ou quando aquilo que deveria ser a exceção acaba se tornando ou reafirmando a própria norma. 



Para Teles, além de manter a estrutura autoritária militar, o novo ordenamento democrático foi construído sobre o silenciamento dos familiares de vítimas e de movimentos de defesa dos direitos humanos, que queriam justiça para os crimes da ditadura. O problema, no entanto, vinha de antes.



"Em um Congresso controlado pela ditadura, a Lei de Anistia adotou a suspensão da possibilidade de punição de qualquer crime. Um momento ilícito foi tornado lícito, com o silenciamento dos movimentos sociais e pela anistia, que exigiam esclarecimentos sobre os crimes. O que o Estado montou foi algo que manteve a ideia de impunidade. Depois veio o Colégio Eleitoral, que fez uma opção por uma saída negociada entre as oligarquias que saíam e as novas que chegavam, decidindo manter a anista ao crimes da ditadura. Foi o grande acordo do não-esclarecimento", relatou. 



O julgamento no Supremo Tribunal Federal em 2010 sobre a interpretação da Lei de Anistia foi, segundo Teles, o coroamento desse silêncio e a instauração de um Estado de exceçãono país. "Baseada em ideias fantasmagóricas de que novos golpes que poderiam ser dados, nossa transição foi a criação de um discurso hegemônico de legitimação deste Estado de exceção. Faz-se este discurso como forma de legitimar essa memória do consenso, mas se mantem o Estado de exceção permanente, reconhecendo as vítimas sem nomear os crimes", acrescentou. 



Exceção e consenso hoje

O consenso acerca daquilo que deveria ser visto como exceção não se restringe hoje, no entanto, àquilo que pode ser considerado a herança mais direta da ditadura militar. Foi construído também em torno de uma série de acontecimentos e práticas que deveriam mas não mais despertam reações da população brasileira. 



"A exceção se torna perigosíssima quando deixamos de reconhecê-la como tal e ela se torna consenso", alertou o escritor e professor de jornalismo da PUC-SP, José Arbex Jr. "Ninguém achou um escândalo, por exemplo, no lançamento da Comissão da Verdade, ver os últimos Presidentes do país juntos, sendo que um deles foi presidente da Arena, o partido da ditadura, responsável pela tortura da própria Dilma; e o outros era Collor! Da mesma forma, está em curso em Osasco uma operação chamada Comboio da Morte, que matou nas últimas horas 16 pessoas. Isso não causa um escândalo nacional, é normal, natural, porque estamos "na democracia". Os jornais falam da Síria, mas a média de mortes diária no auge do conflito da Síria não chega ao que temos aqui cotidianamente. Lá é 60 aqui é 120! Então não estamos discutindo algo que aconteceu em 64 e que hoje se apresenta de forma mitigada, atenuada", disse Arbex.



Para o jornalista, o país vive um estado de letargia hipnótica coletiva, fabricado de maneira competente e eficiente pelo aparato midiático, que produz um consenso em torno de uma imagem de país na qual todos acabamos acreditando. "É muito grave quando olhamos para o Brasil e não percebemos essa realidade de consenso: de nenhuma garantia de direito para quem esteja fora da Casa Grande, e uma situação de guerra permanente", acrescentou. 



É o que Paulo Arantes chamou de Estado oligárquico de Direito, um Estado dual, com uma face garantista patrimonial, que funciona para o topo da pirâmide, e uma face punitivista para a base. "Esse Estado bifurcado é uma das "n" consequências da remodelagem do país a partir dos 21 anos de ditadura. Basta pensar no que acontece todos os dias no país. Trata-se de um outro consenso, também sinistro e indiferente, senão hostil, a tudo que nos reúne aqui. Um Estado de exceção que não é o velho golpe de Estado, mas um novo modo de governo do capital na presente conjuntura mundial, que já dura 30 anos", afirmou Arantes.



Ninguém cavalga a história 

O que permitiria dizer da possibilidade de se encontrar uma saída deste Estado de exceção permanente é o caráter imprevisível e incontrolável da história. Arbex lembrou que, em setembro de 1989, quando estava em Berlim, ninguém dizia que o Muro cairia menos de dois meses depois. "O fato é que, felizmente, ninguém cavalga a história. Ainda não encontraram uma maneira de domesticá-la. Há um processo latente de explosão social no Brasil, que se combina com processos semelhantes na América Latina, e que pode produzir uma situação totalmente nova. Ninguém previu a Primavera Árabe. Quando um jovem na Tunísia atirou fogo no próprio corpo, ninguém imaginava que, um mês depois, cairia Mubarak no Egito. Estão, não estamos condenamos para sempre a esta situação. Só posso dizer que estamos vivendo numa época que, em alguns aspectos, é mais trágica, mais cruel e mortífera que a ditadura militar", acredita. 



"Este Estado de exceção só terminará quando a ditadura terminar, quando o último algoz for processado e julgado. Se a Comissão da Verdade encontrar dois ou três bons casos e levantar material para ações cíveis, pode haver uma transmutação disso tudo. E o regime, a sociedade e a economia não vão cair se os perpetradores da ditadura forem processados, como não caíram na Argentina ou no Chile", acredita Paulo Arantes. "Mas devemos pensar no que significaria essa última reparação. Se o último torturador e os últimos desaparecidos forem localizados, em que estágio histórico vamos poder entrar?", questionou. Uma pergunta ainda sem resposta.
FONTE: Carta Maior
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Um "poder" acima dos outros

Artigo de Luiz Carlos Prestes publicado na Tribuna da Imprensa, em 28/07/1988, às vésperas da promulgação da Constituição de 1988, em que é desmascarado o "poder militar", acima dos três poderes da República, consagrado no Artigo 142 da nova Constituição.