domingo, 22 de julho de 2012
Marxismo e Ciências Humanas: leituras sobre o capitalismo num contexto de crise
Coletânea de
textos apresentados no evento realizado em Curitiba em Homenagem aos 15
anos da revista CRÍTICA MARXISTA
http://www.scribd.com/doc/100346935/Marxismo-Ciencias-Humanas-2011

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SUMÁRIO
Apresentação (Os organizadores)
Caio
Navarro de Toledo: Desafios e problemas
de uma publicação marxista no Brasil: Crítica Marxista faz 15 anos.
Armando
Boito & Luiz Eduardo Motta: Karl
Marx no Brasil.
João
Quartim de Moraes: O marxismo e os impasses
do capitalismo contemporâneo.
Isabel
Loureiro: A recepção de Rosa Luxemburgo
no Brasil.
Robespierre
de Oliveira: A teoria crítica como
teoria da mudança social: o marxismo de Marcuse.
Anita
Helena Schlesener: Gramsci e a cultura
de seu tempo: observações sobre arte e literatura.
Marcos
Vinícius Pansardi: Gramsci e as Relações
Internacionais: hegemonia, dependência e imperialismo.
Francisco
Paulo Cipolla: A evolução da teoria da
crise em Marx.
Claus
Germer: As tendências de longo prazo da
economia capitalista e a transição para o socialismo.
Sérgio
Braga: Nicos Poulantzas, as elites e a
sociologia política norte-americana.
Adriano
Codato: Política, ciência e ideologia:
sobre o "teoricismo" de Nicos Poulantzas.
Pedro
Leão da Costa Neto: Notas introdutórias
sobre o desenvolvimento do marxismo no Leste Europeu.
Ligia
Regina Klein: A luta pelas leis fabris
do século XIX e a definição das idades do trabalho: um estudo sobre a
constituição das noções de infância e adolescência.
From Wagner Francesco
sexta-feira, 20 de julho de 2012
JUVENTUDE COMUNISTA GREGA INTERVÉM NO VI CONGRESSO DA UJC – UNIÃO DA JUVENTUDE COMUNISTA
Intervenção do
KNE no Seminário Internacional de Solidariedade entre os Povos
VI Congresso
da União da Juventude Comunista
Texto: Georgio
Eltachir Almarnti – membro da Direção Nacional do KNE
Tradução:
Pedro Bras – UJC-RJ
A cada dia que
passa temos mais provas e mais elementos que indiquem claramente que a crise
capitalista, uma crise de super-acumulação do capital, está se agravando mais e
mais na Zona do Euro e na União Européia.
(Não acho que
seja necessário fazer um resgate da eclosão da crise capitalista de 4 anos atrás
até hoje; Tenho certeza que vocês já leram muito a respeito todos esses
anos).
Apenas para
apresentar alguns exemplos característicos segundo dados mais atuais: de acordo
com as previsões mais correntes a economia italiana irá regredir 2,4% em 2012,
enquanto a previsão inicial falava em 1,6%. A Espanha solicitou sua entrada no
chamado “Mecanismo de Suporte” da União Européia, seguida pelo Chipre e já há
outros a fazer o mesmo (hoje os jornais já especulam que a Croácia está
pretendendo o mesmo). Podemos ver muito claramente que o que acontece nos
diversos elos da corrente (como Espanha, Itália, França etc.) tem reflexos na
corrente como um todo, tem marcante influência em toda Zona do Euro e União
Européia.
Também é um
fato de que não diz respeito apenas aos países europeus: por exemplo, o que
acontece agora na Espanha irá impactar vários países latinoamericanos, que
possuem grandes investimentos espanhóis.
Na era do
imperialismo, que é a era do capitalismo monopolista, da dominação dos
monopólios capitalistas; a ampliada socialização da produção e
internacionalização capitalista são fatores para o desenvolvimento de fortes
relações de co-dependência dos países capitalistas, muito mais fortes do que
costumavam ser há 50 ou 100 anos atrás. Essas relações criam o mundo das
contradições intra-capitalistas. O mundo do antagonismo
intra-imperialista.
Nos dias 28 e
29 de junho, o resultado do Encontro da União Européia foi um acordo temporário
entre as classes burguesas da Europa, com decisões que buscaram reafirmar a
posição dos monopólios europeus no quadro do antagonismo global (dando 130
bilhões de euros como um “pacote de desenvolvimento”) e de reafirmar o euro como
uma moeda de reserva global.
Mas, esse
acordo é apenas temporário:
- (1) porque
ele não desfaz (e não pode desfazer) as causas da crise capitalista, o
inconstante desenvolvimento capitalista dentro da Zona do Euro e da União
Européia.
- (2) porque
ele não desfaz a intensificação das contradições intra-imperialistas as quais o
capital irá trazer para um dos lados o ônus das perdas e dos danos da crise
capitalista.
Os povos da
Europa não devem ter nada o que esperar desta briga intra-imperialista. Enquanto
a mistura final da política capitalista é “austeridade com desenvolvimento”, ou
se é “desenvolvimento com austeridade”, a política dos capitalistas contra a
classe trabalhadora e o povo não será nada melhor, nada menos tênue. De um jeito
ou de outro, o desenvolvimento capitalista que eles estão dizendo, uma vez mais,
será baseado nas ruínas dos direitos e das vidas da classe trabalhadora; na
posterior redução do valor da força de trabalho.
Os
imperialistas podem brigar entre si. Podem criar novas alianças e
contra-alianças, como a chamada “Coalizão do Sul” que se fala hoje na Europa.
Mas, eles estão unidos e coordenados quando o assunto é eliminar direitos
populares e reprimir movimentos sociais. E quando dizemos que a classe
trabalhadora e o povo não têm nada de positivo a esperar desta luta
intra-imperialista, não nos esqueçamos que as duas Guerras Mundiais sucederam
grandes crises econômicas do capitalismo.
Na Grécia, a
profunda crise de super-acumulação do capital, a qual chegou a seu quarto ano
combinada com a crise entre os Estados-membros da União Européia, provocou
intensa agressividade dos monopólios e de seus representantes políticos, e é
expressa pela estrátégia anti-popular como um todo. O acordo que foi assinado
entre o governo grego, a União Européia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo
Monetário Internacional (FMI) são parte dessa estratégia.
Os
capitalistas gregos, em conjunto com seus aliados das organizações
internacionais capitalistas, planejaram um coordenado programa de maneira a
garantir o máximo possível os lucros dos monopólios. As medidas desse programa
atacaram os direitos da classe trabalhadora, o valor da força de trabalho:
cortes de pensões e salários, cortes nos setores da saúde pública e no sistema
de seguridade social, surgimento de todo tipo de relações de trabalho flexíveis,
abolição dos contratos coletivos de trabalho, aumento da idade mínima para
pensões aos 67 ou até 70 anos de idade.
Ademais,
promoveram diversas ações pró-capitalistas, como a redução de impostos para as
grandes empresas, estabelecimento de gigantescos subsídios estatais aos
monopólios capitalistas com o pretexto de salvar empregos, etc. Especialmente
para os jovens trabalhadores, para os filhos da classe trabalhadora, a situação
é ainda pior, apenas para citar alguns exemplos: nós temos mais de 1,5 milhão de
trabalhadores desempregados em um total de 11 milhões de trabalhadores e a
maioria desses desempregados e até mesmo dos sub-empregados são jovens. Seguindo
o espírito do “acordo” e do corte geral do salário mínimo de 22%, os salários
dos jovens trabalhadores que têm menos de 25 anos de idade foram cortados em
32%.
As duas
eleições nacionais na Grécia ocorreram com um mês de diferença (em maio e em
junho) sem abrir mão do seguinte contexto: sob as condições de uma crise
capitalista prolongada que levou a um imenso aumento da dívida pública, sob
condições de um violento ataque contra o valor da força de trabalho. Ao mesmo
tempo, segundo fontes oficiais, foi chamada a atenção da possibilidade de uma
nova controlada ou incontrolada bancarrota sob condições de um novo
aprofundamento da crise capitalista na Europa. Todos esses fatores, em conjunto
com a agressividade dos capitalistas e o desemprego em massa, influenciaram o
comportamento eleitoral. A luta popular e dos trabalhadores que se desenvolveu
durante a crise cultivou uma raiva pública contra os dois maiores partidos da
burguesia grega.
Na primeira
eleição, o PASOK, o partido social-democrata que enquanto estava como partido da
situação implementou a cruel linha política contra os trabalhadores de todos
esses anos, sofreu uma grande perda de seu poder eleitoral, de 43% para 13%. O
Nea Dimokratia (ND), o partido liberal, também sofreu uma perda de seu poder
eleitoral e podemos dizer que o sistema bipartidário como um todo perdeu sua
capacidade de enganar as forças populares como fazia no passado.
Isso se
mostrou um balanço positivo, mas ao mesmo tempo o sistema capitalista não fica
apenas observando, ele intervém com todos os meios possíveis de maneira a
colocar obstáculos à resistência popular, precavendo-a de demandas radicais,
cultivando a desorientação.
Nenhum governo
foi formado após a primeira eleição (e isso foi parte do esforço capitalista de
renovar a aparência de seu sistema político. Eles poderiam ter formado um novo
governo sem novas eleições, mas eles não queriam que fosse dessa
maneira).
Na segunda
batalha eleitoral, o critério básico de votação se tornou a necessidade de
formar um governo (eles ameaçaram o povo de que a falta de um governo levaria a
bancarrota nacional) e a escolha ficou entre o ND e o SYRIZA, o partido
oportunista que emergiu como a nova social-democracia na Grécia. Enquanto na
primeira eleição expressou-se um positivo aumento de uma tendência a condenar os
maiores partidos da burguesia, com uma clara marca contra os acordos com a União
Européia e suas políticas, na segunda eleição nós testemunhamos um retrocesso,
sob a pressão dos aterrorizantes dilemas e das desilusões em uma solução
imediata em favor do povo pelos governos que se conclamam de “esquerda” ou de
“centro-esquerda”.
O Partido
Comunista da Grécia (KKE) fez um enorme esforço em ambas as eleições, tendo
recebido 8,5% dos votos nas eleições de Maio. Na difícil segunda eleição,
lutamos com todas as nossas armas contra essa tendência de terrorismo e
desilusão. Perdemos boa parte de nosso poder eleitoral, tendo recebido 4,5% dos
votos e elegendo 12 membros para o Parlamento, mas nós permanecemos firmes
perante nossas convicções, não concedendo ao inimigo ao menos um passo atrás na
luta pela causa dos direitos dos trabalhadores, pela causa do socialismo e do
comunismo.
As
significantes perdas do KKE não refletem o impacto de suas posições e de sua
militância. Estas aconteceram sob a pressão das ilusões corriqueiras e da falsa
e perigosa “análise racional” do chamado “menos pior”, o doloroso e fácil
caminho que defende que é possível formar um governo que administre a crise
enquanto permanece dentro do capitalismo e dentro da União Européia e de que tal
governo faria por onde para frear a deteriorização das condições de vida do
povo.
Ao mesmo
tempo, houve o impacto da atmosfera do medo e intimidação sobre a expulsão da
Grécia da Zona do Euro. Isso ocorreu em condições de uma sistemática ofensiva
“por debaixo dos panos” de mecanismos político-ideológicos do sistema, e até
mesmo pelo uso sistemático da internet. O principal objetivo foi o
enfraquecimento do KKE de maneira a prevenir o fortalecimento do movimento
revindicativo dos trabalhadores sob condições de uma deteriorização das
condições populares de vida.
Durante essas
eleições foi novamente confirmado a análise que nosso partido vem fazendo desde
estopim da crise capitalista: a intensificação dos problemas dos trabalhadores e
do povo durante a crise, como o desemprego em massa e a pobreza, não levarão
automaticamente a radicalização de sua consciência e de suas ações. Nas
condições da crise capitalista sempre há duas possibilidades para o movimento
popular: ou ele irá retroceder ante a pressão dos problemas, a diminuição das
demandas e expectativas populares, ou ele irá contra-atacar na direção de uma
ruptura política com os monopólios e com os partidos da burguesia. Essa batalha
entre estas duas possibilidades ainda não cessou. Ainda lutamos contra ela na
Grécia e em todo o mundo.
A principal
conclusão das batalhas eleitorias ocorridas na Grécia é de que seu resultado
como um todo reflete a tendência do retrocesso do radicalismo da classe
trabalhadora, que se desenvolveu durante o período de crise, perante a pressão
do crescente radicalismo pequeno-burguês, guiado pela ideologia e propaganda
burguesas.
Apesar do fato
de que nós tivemos várias e importantes batalhas se desenrolando na Grécia após
a ecolsão da crise (tivemos mais de 30 greves gerais nacionais nos últimos dois
anos e meio, massivas passeatas, ocupações de prédios públicos, denúncia popular
massiva do pagamento da dívida etc.), é óbvio que essas batalhas não têm a
capacidade suficiente de de aprofundar suficientemente o orientado
radicalismo-de-classe, por não levarem a organização popular para a mudança na
correlação de forças para além do sindicalismo clientelista, rumo a orientação
política que a conjuntura requere.
Essas batalhas
foram fortemente influenciadas pelas massas pequeno-burguesas que possuem a
tendência de não lutar pela superação do sistema capitalista, mas de lutar para
retomar a sua posição histórica no mesmo. Os novos setores da classe
trabalhadora que se juntaram a essas batalhas não têm a experiência política
necessária para entender a atual conjuntura e procuram por uma maneira diferente
de administrar seus ganhos dentro do capitalismo, colocando um fim aos ataques
contra si, dando-lhes uma solução imediata.
As políticas
governamentais contra o povo foram entendidas pela maioria como um resultado da
incapacidade e da corrupção dos políticos, como um resultado de uma posição
anti-patriótica dos partidos gregos e não como uma necessidade estratégica da
classe burguesa grega e de seus aliados europeus.
Os diferentes
setores da burguesia grega tentaram renovar o cenário político do capitalismo
(sem mudar obviamente sua essência), bem como previram que os dois partidos
burgueses não poderiam controlar a fúria e o descontentamento popular, pois o
perigo de manter um sistema político instável era condição necessária para o
aprofundamento da crise capitalista.
Ao mesmo tempo
nós testemunhamos a direta, provocativa e imprecedente intervenção da Comissão
da União Européia na campanha eleitoral através de suas figuras de liderança da
Alemanha, França, Itália, FMI, EUA e da mídia internacional.
Apesar da
participação da Grécia ser muito pequena dentro do arcabouço da União Européia,
sua profunda assimilação à Zona do Euro, sua profunda e prolongada crise
combinada com a recessão da Zona do Euro trouxe à tona a intervenção das
alianças internacionais por dentro e por fora das ações diretas da União
Européia, de maneira a impedir qualquer tendência de radicalização do movimento
dos trabalhadores na Grécia, bem como seu impacto internacional.
Um elemento
básico da reforma do cenário político é a criação de dois pólos: a
“centro-direita” baseada no ND e a “centro-esquerda” com o SYRIZA em
participação conjunta de largas seções de quadros do PASOK, os quais
preocupam-se com suas responsabilidades criminais a respeito da implementação de
uma linha política anti-popular adotada nos anos anteriores.
A burguesia
grega prestou bastante atenção à reconstrução da social-democracia grega, pois
sabiam muito bem que ela respresenta uma ferramenta básica para o controle dos
trabalhadores e dos movimentos populares. Isso é porque, após a falência do
tradicional partido da social-democracia, importantes setores dos capitalistas
gregos apoiaram o partido SYRIZA, a auto-conclamada “Coalisão da Esquerda
Radical”, um partido oportunista que rapidamente se transformou no partido da
nova social-democracia da Grécia. É um partido que apoia veementemente a União
Européia e a possibilidade de estabelecer mudanças nesta por dentro das próprias
instâncias políticas da mesma. Um partido que continua falando sobre sobre os
“novos ares” que chegaram a Europa com a eleição de François Hollande na França.
Um partido que apresenta as políticas de Barack Obama nos EUA como um exemplo de
uma administração política realista da crise em favor do povo!
Esse partido
ainda entre as duas eleições abandonou até mesmo seus slogans que pareciam ser
mais radicais (como o cancelamento do acordo entre a Grécia, o BCE e o FMI) e
ajustou seu programa para as necessidades da administração burguesa. É
característico o fato de que a apenas poucos dias antes do segundo pleito
eleitoral, o presidente do SYRIZA se reuniu com embaixadores dos países do G-20
em Atenas, de maneira a tentar estabelecer um “clima de confiança” como ele
disse!
Ontem estava
lendo uma entrevista do presidente do SYRIZA, na qual ele disse estar bastante
orgulhoso do fato de seu partido “ser um obstáculo para o conflito incontrolável
que estava chegando a Grécia, porque havia se tornado a última esperança do
sistema político retomar sua credibilidade”!!!
Com o apoio
dos capitalistas para este partido, pela primeira vez na Grécia, antes da
decisão do povo grego foi colocada a possibilidade de um chamado “governo de
esquerda” dentro do capitalismo, por dentro da União Européia, na medida em que
eles aumentaram a pressão para que o KKE participasse em tal governo.
Apesar do fato
de que sabemos que haveria um custo eleitoral, nós resistimos a essa proposta,
nós revelamos a verdade para o povo. Nós revelamos que a estratégia que promete
um futuro melhor para a classe trabalhadora e para os desempregados pelo chamado
“de esquerda” ou “governo progressista”, através da manutenção intacta do poder
do capital e da propriedade capitalista dos meios de produção, é extremamente
perigosa. Essa estratégia vem sendo testada na Europa e em outras partes do
mundo e vem se provando extramente falha. Ela levou partidos comunistas a
dissolução e ao peleguismo.
Essa
estratégia esconde a questão fundamental. Ela esconde que o problema do
desemprego e todos os outros principais problemas da classe trabalhadora, não
podem ser resolvidos enquanto o poder e a riqueza que a classe trabalhadora
produz permanecer nas mãos dos capitalistas, enquanto a anarquia capitalista
existir.
As
necessidades contemporâneas do povo não podem ser satisfeitas no capitalismo em
seu estágio superior, a fase imperialista, e seu total reacionarismo, marcado
pelas dificuldades da reprodução do capital, pela competição dos monopólios por
sua dominação, pelo reforço do ataque direcionado à redução do valor pago pela
força de trabalho e pela crescente taxa de exploração. Mesmo os menores ganhos
requerem conflitos muito específicos contra as forças do capital como a heróica
greve de sete meses dos mineiros de Aspropigos nos demonstra, a qual foi
consistentemente apoiada pelo KKE e pelo PAME em conjunto com milhares de
trabalhadores na Grécia e no exterior que expressaram sua solidariedade. A
batalha diária pelo direito ao trabalho, pela proteção aos desempregados, pelos
salários e pensões, pelo sistema público e gratuito de saúde, pela riqueza
nacional e pela educação; a luta diária contra as guerras imperialistas, pelo
desmantelamento das organizações imperialistas, pela soberania popular e pelos
direitos democráticos estão inexoravelmente ligados à luta pela superação do
capitalismo.
O KKE remou
contra à maré, como havia feito outras vezes sobre questões políticas cruciais,
quando ele expôs, entre outras coisas, o caráter contra-revolucionário dos
antigos partidos socialistas, o caráter imperialista da União Européia, quando
ele se opôs ao Tratado de Maastricht, quando ele condenou as intervenções
imperialistas e os pretextos que as justificaram etc. Ele explanou para o povo o
caráter da crise e de suas pré-condições para uma saída em favor dos
trabalhadores, pré-condições estas que estão conectadas com o desmantelamento da
União Européia e da OTAN, com o cancelamento unilateral da dívida pública, com a
socialisação dos monopólios. Ele colocou o governo dos trabalhadores e do poder
popular contra o governo da administração burguesa.
O KKE está
concentrando todos os seus esforços na criação de uma poderosa aliança
sócio-política entre a classe trabalhadora urbana e as camadas populares rurais,
as quais lutarão contra todos os problemas do povo; uma aliança que entrará em
conflito com os monopólios e o imperialismo e direcionará sua luta pela
superação da barbárie capitalista, pela conquista do poder pela classe
trabalhadora, com o estabelecimento do poder popular.
A estratégia
do KKE está se mostrando acertada pelo desenrolar de todos os dias que passam.
Mas, nós não estamos satisfeitos com apenas isto: não é suficiente ter a
estratégia correta e o espírito militante apenas. Nós estudamos nossas fraquezas
e exercemos a auto-crítica, nos tornando mais efetivos nas questões de vanguarda
política, de formação político-ideológica, de aceleração da presença massiva do
partido nas fábricas, locais de trabalho, bairros populares, fortalecendo o
movimento popular com orientação de classe, promovendo a estratégia socialista
sob quaisquer circunstâncias.
O KKE continua
sua luta contra todos os problemas que assolam o povo, com um senso cada vez
maior de responsabilidade e de decisibilidade. Está focado na luta contra
políticas tributárias de caráter anti-popular, contra os acordos coletivos de
barganha, a favor dos salários e das pensões, a favor da proteção aos
desempregados, pelo sistema público e gratuito de saúde, pela distribuição da
riqueza e pela educação popular. Ao mesmo tempo ele prepara suas forças face ao
perigo que hoje representa uma guerra imperialista contra a Síria e o
Irã.
Especialmente
a Juventude Comunista da Grécia (KNE) está concentrando seus esforços para o
sucesso das atividades de nossa 38ª edição do Festival da Juventude. Com o
slogan “Dê sua mão para quem se levantar... Vocês devem deter o poder!”, nós
vamos nos comunicar com centenas de milhares de jovens trabalhadores,
desempregados e estudantes por todo o país, e com toda a certeza nós ficariamos
muito felizes com a participação da União da Juventude Comunista (UJC) e de
todas as organizações que estão aqui presentes no Brasil em nosso festival na
cidade de Atenas, em meados de setembro próximo.
Muito obrigado
pela atenção!
FONTE: PCB
|
O Fórum de São Paulo e seus desafios: resposta a Valter Pomar
Por Atilio A.
Boron
O Secretário
Executivo do Fórum de São Paulo, Valter Pomar, escreveu uma resposta sarcástica
ao meu artigo “Fórum de São Paulo: balanço a partir de Caracas”. Uma leitura
mais cuidadosa do texto não faz outra coisa que confirmar o acerto contido nas
teses centrais de meu artigo, como tratarei de fundamentar mais a frente. Chamo
a atenção para que, enquanto em meu artigo falo de política, Pomar, no seu, fala
de psicologia. No lugar de discutir os argumentos acerca do “ecletismo
ideológico” do fórum ou das debilidades da Declaração final (onde, ao longo de
oito páginas, não diz uma palavra sobre as maciças manifestações estudantis
contra a privatização das universidades que estão comovendo a política do Chile,
Colômbia, México, República Dominicana e, inclusive, Quebec. Apenas fala das
bases militares dos Estados Unidos na região, sendo que Pomar é militante de um
partido cujo país é o mais completamente cercado por esse tipo de instalações
mortíferas), o que sobressai em sua pretensa réplica são supostas
caracterizações de minha pessoa e de meu comportamento.
Assim, diz que é
“aterrador” escrever o que escrevi; qualifica-me como suposto “mensageiro” de
Chávez; ou de “pontificar” em lugar de investigar; “meio descontente” e, mais
adiante, “mal humorado” com o êxito do fórum; de dizer “absurdos” ao fazer uma
crítica teórica à Declaração do FSP; de elaborar “ridículas caricaturas”; ou
pecar pela falta de “tolerância”; de “simplificar” a situação ao comparar o FSP
com o Fórum Social Mundial (FSM); de atuar com “má fé” ao insinuar uma possível
relação entre o esquecimento do golpe contra Aristides com a presença da
MINUSTAH, no Haiti; e de “não saber” que as declarações finais do FSP “são
consensuais” nas reuniões de Grupo de Trabalho. Primam pela ausência de
categorias de análises políticas ou econômicas, enquanto sobram as de tipo
psicológico. Algum motivo deve ter.
A verdade é que
sua atitude não faz senão confirmar a escassa vontade do Secretário Executivo do
FSP de aceitar dissidências e habilitar uma discussão sobre temas candentes.
Tudo, absolutamente tudo, deveria estar aberto à discussão e revisão,
especialmente numa organização que pretender representar a esquerda na América
Latina e que, supostamente, não admite a infalibilidade dos dirigentes como
princípio organizativo. Atitude intolerante que se reflete no fato de que, ao
menos até o dia 14 de julho, no site do FSP, só aparecia a nota crítica que
Pomar dedicara ao meu artigo – em castelhano e também numa tradução para o
inglês –, sem que os visitantes do site pudessem ler a minha. [1] Em meu blog,
no entanto, desde o primeiro momento incluí junto ao meu próprio texto a
Declaração final do FSP e a nota de Pomar. [2] Censurar ou ocultar opiniões
adversas sempre é uma prática malévola e, nas organizações de esquerda, suas
consequências são nefastas. É hora de alguém instruir o Secretário do FSP para
que acabe com as mesmas, pelo bem do próprio fórum.
Pomar disse que
existem “equívocos de fato” em minha nota. Em primeiro lugar, questiona minha
afirmação em relação à atitude não solidária e até desrespeitosa com que Piedad
Córdoba, representante da Marcha Patriótica da Colômbia, fora tratada nas
sessões do FSP. Lamentavelmente para ele, me foi dirigida uma Carta Aberta da
ex-senadora Piedad Córdoba e Carlos Lozano Guillén, porta-voz da Marcha
Patriótica, onde ratificam minhas palavras e refutam as explicações de Pomar.
[3] O mesmo vale sobre a atitude, igualmente prejudicial e indiferente, em
relação aos companheiros hondurenhos de LIBRE, cuja heroica resistência durante
seis meses nas ruas contra o golpe não foi suficiente para permitir-lhes
explicar aos presentes no XVIII Encontro quais eram os desafios que enfrentava
este partido frente às eleições do próximo ano. Uma mensagem enviada a mim, em
13 de julho, por Gilberto Ríos Munguía, Coordenador da Comissão Internacional do
Partido Liberdade e Refundação (LIBRE), põe fim a qualquer especulação. Nela,
diz textualmente que o “Advogado Enrique Flores Lanza solicitou o uso da palavra
para dirigir-se aos presentes no Fórum e a mesma foi negada. Não entendemos bem
porque não nos foi permitido falar ao plenário. Agradecemos a seu artigo por
fazer referência ao que parece ser uma arbitrariedade por parte do companheiro
Valter, ainda que tenhamos certeza que tenha ligação com a agenda e os
regulamentos. O certo é que um minuto numa saudação não deve ser negado”.
Conclusão: o que Pomar caracteriza como “equívoco de fato” são fatos
irrefutáveis, corroborados pelos atores diretamente envolvidos ou por
testemunhos qualificados. [4] Quem está errado é Pomar. Assunto
encerrado.
O Secretário do
FSP me reprova por ter escrito que “Chávez apresenta uma nova agenda”. Recomendo
que veja o vídeo e tome nota das palavras do Comandante, de uma clareza
meridiana e que, em síntese, dizem o seguinte: “Quando nos despedimos hoje e
amanhã regressarmos aos nossos países, onde estará a organização, o comando, o
plano de batalha, o plano científico, como diria Karl Marx? ... E Lula nos disse
uma vez, em Manaus, ‘Chávez, se não vencermos a burocracia será impossível a
integração’. A burocracia de nossos governos é uma coisa terrível”. Pois é, e se
fazia falta alguma prova mais a forma burocrática como o FSP processou as
questões acima mencionadas apontaria uma nova evidência confirmatória dos
temores expressos por Lula. [5] Nesse vídeo é possível ver Chávez perguntando
onde está Piedad Córdoba e logo expondo uma agenda que não se encontra na
Declaração do FSP. Também em relação a este discurso, Pomar disse que “concordo
com algumas coisas e difiro de outras que disse Chávez no discurso final”. Dado
que detém a Secretaria Executiva do FSP não seria má ideia expressar quais são
seus pontos de coincidência e de discrepância com o dito pelo líder da Revolução
Bolivariana. Parece-me que não é um assunto menor, dado que Chávez não é apenas
um ativista que passou ocasionalmente pelo fórum, mas está investido de uma
representação e uma gravitação internacional que seria absurdo não levar em
conta. E no caso em que haja desacordos com suas palavras, seria bom conhecê-los
e não guardá-los em segredo e, é claro, submeter ambas as posturas a uma
discussão aberta e democrática.
Por último, a
comparação entre o FSP e o FSM não obedece a nenhuma simplificação, mas leva em
conta precisamente a comum ausência em ambos os fóruns de um pensamento
estratégico acerca de como avançar para um horizonte pós-capitalista. Basta
chegar ao governo para construir o socialismo? Claro que não! Os dificílimos
avanços registrados na Venezuela, Bolívia e Equador, além da demora na colocação
em marcha deste projeto no Brasil, Uruguai e El Salvador – três países onde
governam partidos ou coligações fundadoras do FSP – são claros sintomas das
enormes dificuldades em que tropeça a construção do socialismo em Nossa América,
uma área que, como recordava Che, constitui a “reserva estratégica do império”.
É preciso
debater sobre os espinhosos temas da organização do campo popular, a
imprescindível articulação internacional de suas lutas e a estratégica e tática
da transição, assuntos sobre quais não se falam nem no FSM nem o FSP. No
primeiro, devido a que predominou nele uma absurda atitude de repúdio à política
e a qualquer tentativa de organizar as energias canalizadas no fórum para a
conquista do poder, o que terminou por esterilizar e debilitar irreparavelmente
uma iniciativa que perdeu a oportunidade de consolidar-se como uma força de
positiva gravitação universal na cena contemporânea. Podem os povos do mundo
lutarem sem organização nem articulação internacional alguma, confiando tão só
na eficácia da resistência instintiva contra sua exploração, frente a uma
burguesia imperial que aperfeiçoou ao máximo sua capacidade organizativa e
executiva no plano mundial?
As resistências
no FSP têm origem distinta, toda vez que se privilegia de maneira excludente uma
só forma de organização, o partido político, e uma só estratégia derivada dessa
forma organizacional: a eleitoral. No entanto, os grandes avanços democráticos
dos últimos tempos foram resultados de esmagadoras insurreições populares e não
do funcionamento do sistema de partidos. Tal foi o caso da criação de uma ordem
democrática na Nicarágua e em El Salvador, nos anos setenta e oitenta do século
passado, e no Equador e na Bolívia, na primeira década deste século. E, há
apenas um ano, na Tunísia e no Egito.
Em ambos os
casos, a silenciosa premissa que se oculta atrás destas equivocadas posturas é
ou bem a ingênua crença de que o socialismo surgirá como a queda de uma fruta
madura, o qual vem sendo desmentido pela história, ou, pior ainda, a cínica
convicção de que o socialismo é um projeto fracassado, que se afogou com a União
Soviética ou com o metabolismo do capital que impera na China, como diria István
Mészáros. O certo é que não existirá socialismo sem uma revolução
anticapitalista. Como recordou uma centena de vezes Lênin, “o capitalismo não
cai só; somente cairá se o fizerem cair”, e para fazê-lo cair se requer a
presença de um sujeito plural e multifacetado, porém organizado, consciente e
capaz de implantar estratégias e táticas adequadas para liberar a longa batalha
pelo socialismo. E se mencionei a advertência de Chávez sobre este tema não foi
para amparar-me em sua autoridade (como assinala Pomar), mas para destacar com
suas palavras a atualidade da crítica do marxismo clássico – e, especialmente,
de Lênin e Rosa Luxemburgo – ao evolucionismo socialdemocrata de Bernstein e sua
inexorável conclusão: o reformismo burguês.
O FSP cumpriu um
papel positivo nas suas mais de duas décadas de existência, porém os tempos
mudaram; enfrentamos a pior crise do capitalismo em toda sua história, uma crise
cuja resolução é impossível dentro do capitalismo. Vivemos numa época onde as
contradições desse modo de produção, aquelas que contrapõem o capital ao
trabalho e à natureza, se potencializaram exponencialmente, criando as condições
objetivas para um salto revolucionário. Os multimilionários “resgates” com que
se beneficia aos causadores da crise desnudam o caráter de classe das
democracias capitalistas, cuja legitimidade se derrubou irreparavelmente. E o
império, diante de sua lenta, porém inexorável decadência, se lança a uma
contraofensiva brutal para recuperar o controle absoluto da América Latina,
procurando em vão retroceder a história ao período prévio à Revolução Cubana
quando os Estados Unidos prevaleciam sem contrapeso nesta parte do mundo. Ante
esta situação não podemos permanecer pensando ou fazendo o mesmo que antes.
Tenho a
esperança que na próxima edição do FSP estes temas possam ser encarados e
discutidos com a profundidade que merecem. Caso contrário, o risco que se corre
é que o destino deste espaço latino-americano seja o mesmo de tantas outras bem
intencionadas instituições internacionais: primeiro, o rigor mortis de
sua burocratização e, finalmente, seu desaparecimento, devido a sua incapacidade
de responder aos desafios da época.
[3] Ver
“Austeridad, entereza y compromiso”, em Página/12, Quinta-feira,
12 de julho de 2012: http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-198471-2012-07-12.html
[4] Ver as
observações sobre o tema feitas por Narciso Isa Conde: “XVIII Foro de Sao Paulo:
examen microscópico”, em http://www.alainet.org/active/56452&lang=es
[5] O discurso de
Chávez está disponível em http://www.youtube.com/watch?v=_7U0j4MVAxU&feature=relmfu,
(ir à marca 3:27:00)
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Clementina, cadê você???
25 anos sem Clementina de Jesus
Canto II (Canto dos Escravos)
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente,
De quissamba na cacunda.
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente,
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente de quiçamba na cacunda.
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente,
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)
Ê, chora, chora Gongo,ê dévera, chora Gongo chora,
ê, chora, chora Gongo, ê cambada, chora Gongo chora.
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente de quissamba na cacunda.
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente,
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)
Ê, chora, chora Gongo,ê dévera, chora Gongo chora,
ê, chora, chora Gongo, ê cambada, chora Gongo chora.
O elo entre a música popular brasileira e a nossa ancestralidade africana
"Clementina, cadê você? Cadê você? Cadê você? Cadê você?" O coro foi puxado em seu velório no Teatro João Caetano, onde a cantora empolgara grandes platéias do Show das Seis e Meia. Clementina de Jesus faleceu no dia 19 de julho de 1987, com aproximadamente 85 anos de idade (ela teria nascido entre 1900 e 1902).
Assista ao documentário "Clementina de Jesus"do Programa "De lá pra cá".
Depois ouça Clementina de Jesus interpretando o belíssimo Canto II, do Álbum O Canto dos Escravos, LP prensado em 1982, contendo cantos ancestrais dos negros benguelas, de São João da Chapada, Diamantina, Minas Gerais.
Canto II (Canto dos Escravos)
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente,
De quissamba na cacunda.
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente,
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente de quiçamba na cacunda.
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente,
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)
Ê, chora, chora Gongo,ê dévera, chora Gongo chora,
ê, chora, chora Gongo, ê cambada, chora Gongo chora.
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino,
Ô parente de quissamba na cacunda.
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai,
Ô parente,
Pro Quilombo do Dumbá. (x2)
Ê, chora, chora Gongo,ê dévera, chora Gongo chora,
ê, chora, chora Gongo, ê cambada, chora Gongo chora.
Aniversário da Revolução Sandinista
Em 19 de julho de 1979, a Frente Sandinista de Libertação Nacional entra em Manágua, capital da Nicarágua, pondo fim à ditadura da família Somoza.
"Os países sem memória são anêmicos e conformistas"
Em entrevista à Carta Maior feita no dia 8 de junho, Patrício Guzmán, documentarista chileno, contou sobre as relações entre a direita e a esquerda no periodo do golpe à Salvador Allende em 1973 e as medidas de Pinochet para tentar apagar da história o presidente deposto. Durante a exibição de seu filme "Nostalgia da Luz" que fechou o evento "Memória e Transformação", promovido pelo Instituto Vladimir Herzog e Cinemateca Brasileira, discorreu sobre a importância e necessidade da memória, como instrumento politico de identidade do país e de seus individuos. Sua obra, segundo ele, é permeada pela tensão entre memória e esquecimento.
Conhecido por seus filmes sobre o Chile, os anos Allende e o golpe militar de Pinochet, o documentarista, além de comentar sobre o movimento estudantil chileno, que em suas palavras, "quer não só melhor educação, mas uma sociedade mais humana". Guzmán ainda falou sobre a mídia e o papel vital do documentário na história de uma nação, "um país sem documentário é como uma família sem álbum de fotografias".
Veja acima vídeo com a entrevista e, abaixo, a transcrição da fala de Guzmán.
"Eu cheguei muito tarde na política, quero dizer, que quando fui para Espanha para estudar Cinema não tinha uma posição clara. Eu queria mudança, não a mudança radical. Era, se preferir, uma pessoa neutra. Eu me conscientizei estando em Madri, porque a ditadura franquista estava vivendo seus últimos momentos e a Escola del Cine estava no meio da faculdade de Ciências Políticas, de História e Filosofia para chegar até a faculdade tinha que atravessar o campus e via os policiais em confronto com os estudantes, digamos que estávamos em meio um campo de guerra urbana, portanto, foi dentro da faculdade que comecei a entender o que estava passando na América Latina.
Nesse espaço de cultura efervescente que comecei a ter uma consciência mais forte. E quando Allende saiu, eu disse a mim mesmo “tenho que voltar imediatamente, não posso ficar aqui”. Cheguei tarde, cheguei tarde. 4 meses depois que Allende já tinha tomado o poder. Então, os postos já estavam todos ocupados e como não era militante tinha menos possibilidade. Então fui até a escola de Cinema onde tinha estudado no Chile, e disse ao diretor : “O que está passando é tão bonito, tão extraordinário, há uma efervescência tão grande, uma participação massiva enorme que temos que filmar. Imediatamente”
Tratava-se que Allende tinha que renovar o parlamento e a direita queria destituí-lo. A direita pensava que ao obter 60% dos votos e com isso podiam destituir o presidente… Então saímos às ruas e filmamos imediatamente, porque não podíamos não filmá-lo. Bom, Allende conseguiu 43, 44%, ou seja, conseguiu a mais alta votação depois de dois anos de desgastes de um governo chileno. E não puderam destituí-lo, a partir daí a direita entende que precisa dar um golpe de estado, que já não se pode tirar pela via legal um governo popular. E aí eu parei, deixei de filmar e nos reunímos.
Fizemos uma semana de reunião para estabelecer um método de trabalho. Pusemos, fizemos um esquema em cartolinas com os principais problemas, divididos em políticos, ideológicos e econômicos, que é uma análise marxista elementar, então colocamos muitas chaves com tudo o que derivava dali. Se era economia, era a nacionalização das riquezas básicas, a fábrica, a produção, a batalha da produção. Se era ideologia: as rádios, as televisões, os novos partidos da direita etc. E no outro lado, outro esquema íamos colocando o que filmávamos e comparando uma coisa com a outra. O resultado foi um filme com muitos contra-pontos, digo, a uma ação da esquerda uma resposta da direita. A um contra ataque da direito outra resposta da esquerda, o qual era um documentário ideal. Digamos… que haja um diálogo de contrários, se não há diálogo de contrários não existe linha de desenvolvimento. O filme fica monótono.
Era tal a aceleração da história que Allende produziu, e tal a quantidade de acontecimentos que passava que você acreditava que estava vivendo em um caos total.
Digamos que tínhamos que filmar dois rolos (de filme) diários, essa era minha divisão, se de repente sobrava, então teríamos 3 para o próximo dia. E se no terceiro dia havia outro dia ruim, teríamos 4 para uma boa sequência. E assim fomos equilibrando a tal ponto que quando veio o Golpe de Estado só nos sobraram dois rolos, ou seja, quando se acabou o filme, acabou-se o projeto político. Isso foi muito curioso.
O Chile dos anos 70, o Chile Allende é um dos países mais cultos politicamente que existiu na América Latina, com um desenvolvimento, um amadurecimento da esquerda insólito, com um partido comunista de quase cem anos, partido socialista igualmente velho, uma social-democracia avançada,uma esquerda radical interessante e uma leitura política entre os trabalhadores e estudantes alta.
Depois da repressão de Pinochet não ficou nada.
E os dezoito anos de completa amnésia, Pinochet quis fazer tábula-rasa, apagou a história, apagou Allende da história e transformou comunismo, demonizou o comunismo a graus grotescos. Insultou Allende de todas as maneira que quis, disse tudo o que lhe passou na cabeça contra Allende. Quase tudo falso. E deixou o país, portanto, como que em uma espécie de deserto de memória, de recordações políticas até hoje. De tal maneira que a única coisa que temos é um movimento estudantil magnífico, é a quarta geração que já não tem medo, são inteligentes, querem ir adiante, são contestadores e querem não só melhor educação, mas também querem melhor saúde, melhor moradia, melhores condições de trabalho, melhor vida, uma sociedade mais humana. Não lutam só pelos seus.
Mas só dependemos deles, digamos que não há nenhum outro grupo da sociedade que esteja em plano de luta frontal contra a amnésia, contra os torturadores que andam soltos, contra uma justiça lenta, contra uma Constituição que todavia tenha inimigos internos que é um conceito que causa divisão e ódio, contra uma constituição que fala que os mapuches (etnia indígena) são terroristas. Então, há muito coisa a fazer.
A televisão nasceu como o meio mais importante e pedagógico do século XX e foi convertido em um terrorismo áudio-visual espantoso, nossa televisão latino-americana é imoral e insuportável.
Acredito que a memória não é um conceito intelectual, não é um conceito universitário, não é um conceito acadêmico. A memória é completamente dinâmica, digamos, está dentro do nosso corpo. Os países que praticam a memória são mais vívidos, mais criativos, fazem melhores negócios, melhor turismo, são mais distintos, são melhores. Os países sem memória são anêmicos, não se movem, são conformistas, e caem numa espécie de cultura de sofá, gente que está sentada no sofá assistindo a televisão… E não se movem. Acredito que a memória é um conceito tão importante quanto a circulação do sangue.
Existe uma historiografia científica na América Latina que se pode chamar de moderna? Não. Foi a classe alta que escreveu a história a seu próprio gosto, como no Chile. Eu não acredito em nenhum herói chileno. Não acredito em nenhum deles. Tenho certeza que nos mentiram sistematicamente. Como nos mentiram sobre Allende, sobre Balmaceda, sobre tantos outros heróis que tivemos no Chile.
Tem que se começar apoiando uma nova geração de historiadores que revisem o que passou de um ponto de vista moderno… para estabelecer as bases onde nos apoiaremos e ter um plano de fundo de verdadeiros heróis para seguir adiante. Assim como a ecologia não se conhecia há 30 anos, os direitos das mulheres não eram conhecidos, ou não eram respeitados, há 70 anos… Assim como os direitos dos indígenas ou a liberdade sexual não eram reconhecidos.. Hoje em dia a memória chegou ao mundo contemporâneo para ficar. Não é passageira, já está instalada. E vai ficar até que nós mesmos a desenvolvamos. É fundamental.
O documentário é um direito do cidadão. Assim como há um dever público em prover saneamento básico, tem que haver documentários, por lei, por obrigação. É o registro de um país, é o álbum de fotos de um país.
Tradução: Caio Sarack
"Eu cheguei muito tarde na política, quero dizer, que quando fui para Espanha para estudar Cinema não tinha uma posição clara. Eu queria mudança, não a mudança radical. Era, se preferir, uma pessoa neutra. Eu me conscientizei estando em Madri, porque a ditadura franquista estava vivendo seus últimos momentos e a Escola del Cine estava no meio da faculdade de Ciências Políticas, de História e Filosofia para chegar até a faculdade tinha que atravessar o campus e via os policiais em confronto com os estudantes, digamos que estávamos em meio um campo de guerra urbana, portanto, foi dentro da faculdade que comecei a entender o que estava passando na América Latina.
Nesse espaço de cultura efervescente que comecei a ter uma consciência mais forte. E quando Allende saiu, eu disse a mim mesmo “tenho que voltar imediatamente, não posso ficar aqui”. Cheguei tarde, cheguei tarde. 4 meses depois que Allende já tinha tomado o poder. Então, os postos já estavam todos ocupados e como não era militante tinha menos possibilidade. Então fui até a escola de Cinema onde tinha estudado no Chile, e disse ao diretor : “O que está passando é tão bonito, tão extraordinário, há uma efervescência tão grande, uma participação massiva enorme que temos que filmar. Imediatamente”
Tratava-se que Allende tinha que renovar o parlamento e a direita queria destituí-lo. A direita pensava que ao obter 60% dos votos e com isso podiam destituir o presidente… Então saímos às ruas e filmamos imediatamente, porque não podíamos não filmá-lo. Bom, Allende conseguiu 43, 44%, ou seja, conseguiu a mais alta votação depois de dois anos de desgastes de um governo chileno. E não puderam destituí-lo, a partir daí a direita entende que precisa dar um golpe de estado, que já não se pode tirar pela via legal um governo popular. E aí eu parei, deixei de filmar e nos reunímos.
Fizemos uma semana de reunião para estabelecer um método de trabalho. Pusemos, fizemos um esquema em cartolinas com os principais problemas, divididos em políticos, ideológicos e econômicos, que é uma análise marxista elementar, então colocamos muitas chaves com tudo o que derivava dali. Se era economia, era a nacionalização das riquezas básicas, a fábrica, a produção, a batalha da produção. Se era ideologia: as rádios, as televisões, os novos partidos da direita etc. E no outro lado, outro esquema íamos colocando o que filmávamos e comparando uma coisa com a outra. O resultado foi um filme com muitos contra-pontos, digo, a uma ação da esquerda uma resposta da direita. A um contra ataque da direito outra resposta da esquerda, o qual era um documentário ideal. Digamos… que haja um diálogo de contrários, se não há diálogo de contrários não existe linha de desenvolvimento. O filme fica monótono.
Era tal a aceleração da história que Allende produziu, e tal a quantidade de acontecimentos que passava que você acreditava que estava vivendo em um caos total.
Digamos que tínhamos que filmar dois rolos (de filme) diários, essa era minha divisão, se de repente sobrava, então teríamos 3 para o próximo dia. E se no terceiro dia havia outro dia ruim, teríamos 4 para uma boa sequência. E assim fomos equilibrando a tal ponto que quando veio o Golpe de Estado só nos sobraram dois rolos, ou seja, quando se acabou o filme, acabou-se o projeto político. Isso foi muito curioso.
O Chile dos anos 70, o Chile Allende é um dos países mais cultos politicamente que existiu na América Latina, com um desenvolvimento, um amadurecimento da esquerda insólito, com um partido comunista de quase cem anos, partido socialista igualmente velho, uma social-democracia avançada,uma esquerda radical interessante e uma leitura política entre os trabalhadores e estudantes alta.
Depois da repressão de Pinochet não ficou nada.
E os dezoito anos de completa amnésia, Pinochet quis fazer tábula-rasa, apagou a história, apagou Allende da história e transformou comunismo, demonizou o comunismo a graus grotescos. Insultou Allende de todas as maneira que quis, disse tudo o que lhe passou na cabeça contra Allende. Quase tudo falso. E deixou o país, portanto, como que em uma espécie de deserto de memória, de recordações políticas até hoje. De tal maneira que a única coisa que temos é um movimento estudantil magnífico, é a quarta geração que já não tem medo, são inteligentes, querem ir adiante, são contestadores e querem não só melhor educação, mas também querem melhor saúde, melhor moradia, melhores condições de trabalho, melhor vida, uma sociedade mais humana. Não lutam só pelos seus.
Mas só dependemos deles, digamos que não há nenhum outro grupo da sociedade que esteja em plano de luta frontal contra a amnésia, contra os torturadores que andam soltos, contra uma justiça lenta, contra uma Constituição que todavia tenha inimigos internos que é um conceito que causa divisão e ódio, contra uma constituição que fala que os mapuches (etnia indígena) são terroristas. Então, há muito coisa a fazer.
A televisão nasceu como o meio mais importante e pedagógico do século XX e foi convertido em um terrorismo áudio-visual espantoso, nossa televisão latino-americana é imoral e insuportável.
Acredito que a memória não é um conceito intelectual, não é um conceito universitário, não é um conceito acadêmico. A memória é completamente dinâmica, digamos, está dentro do nosso corpo. Os países que praticam a memória são mais vívidos, mais criativos, fazem melhores negócios, melhor turismo, são mais distintos, são melhores. Os países sem memória são anêmicos, não se movem, são conformistas, e caem numa espécie de cultura de sofá, gente que está sentada no sofá assistindo a televisão… E não se movem. Acredito que a memória é um conceito tão importante quanto a circulação do sangue.
Existe uma historiografia científica na América Latina que se pode chamar de moderna? Não. Foi a classe alta que escreveu a história a seu próprio gosto, como no Chile. Eu não acredito em nenhum herói chileno. Não acredito em nenhum deles. Tenho certeza que nos mentiram sistematicamente. Como nos mentiram sobre Allende, sobre Balmaceda, sobre tantos outros heróis que tivemos no Chile.
Tem que se começar apoiando uma nova geração de historiadores que revisem o que passou de um ponto de vista moderno… para estabelecer as bases onde nos apoiaremos e ter um plano de fundo de verdadeiros heróis para seguir adiante. Assim como a ecologia não se conhecia há 30 anos, os direitos das mulheres não eram conhecidos, ou não eram respeitados, há 70 anos… Assim como os direitos dos indígenas ou a liberdade sexual não eram reconhecidos.. Hoje em dia a memória chegou ao mundo contemporâneo para ficar. Não é passageira, já está instalada. E vai ficar até que nós mesmos a desenvolvamos. É fundamental.
O documentário é um direito do cidadão. Assim como há um dever público em prover saneamento básico, tem que haver documentários, por lei, por obrigação. É o registro de um país, é o álbum de fotos de um país.
Tradução: Caio Sarack
FONTE: CARTA MAIOR
"Brasil forjado na ditadura representa Estado de exceção permanente"
Para professores, filósofos e defensores de direitos humanos, o golpe de 64 moldou um país de estruturas autoritárias, que garante direitos apenas para as classes proprietárias e que transformou a exceção em consenso. Em seminário realizado em São Paulo, eles afirmaram que a exceção é o novo modo de governo do capital e que o povo brasileiro vive um momento perigosíssimo de letargia. A reportagem é de Bia Barbosa.
Bia Barbosa
SÃO PAULO - Qual a idéia de "Estado de exceção"? Na interpretação tradicional do termo, trata-se de um momento de suspensão temporária de direitos e garantias constitucionais, decretado pelas autoridades em situações de emergência nacional, ou mediante a instituição de regimes autoritários. Seu oposto seria o Estado de Direito, conduzido por um regime democrático. Na avaliação de professores, filósofos e defensores de direitos humanos, no entanto, a existência de um Estado de exceção dentro do Estado de Direito seria exatamente a característica do Brasil atual, forjada no período da ditadura militar e que, mesmo após a redemocratização do país, não se alterou. Esta foi uma das conclusões do seminário sobre a herança da ditura brasileira nos dias de hoje, promovido pela Cooperativa Paulista de Teatro e pela Kiwi Companhia de Teatro realizado esta semana, em São Paulo.
Para o filósofo Paulo Arantes, professor aposentado do Departamento de Filosofia da USP, há um país que morreu e renasceu de outra maneira depois da ditadura, e que hoje é indiferente ao abismo que se abriu depois do golpe militar e que nunca mais se fechou.
"Que tipo de Estado e sociedade temos depois do corte feito em 64, do limiar sistêmico construído por coisas que parecem normais numa sociedade de classes, mas que não são? O fato da classe dominante brasileira poder se permitir tudo a partir da ditadura militar é algo análogo à explosão de Hiroshima. Depois que a guerra nuclear começa ela não pode mais ser desinventada. Quando, a partir de 64, a elite brasileira branca se permite molhar a mão de sangue, frequentar e financiar uma câmara de tortura, por mais bárbara que tenha sido a história do Brasil, há uma mudança de qualidade neste momento", avalia Arantes.
Para o filósofo, o país foi forjado pela ditadura a ponto de hoje nossa sociedade negligenciar tudo aquilo que foi consenso durante o autoritarismo dos militares. "A ditadura não foi imposta. Ela foi desejada. Leiam os jornais publicados logo após 31 de março de 1964. Todos lançaram manifestos de apoio ao golpe, era algo arrebatador. CNBB, ABI, OAB, todo mundo que hoje é advogado do Estado de Direito apoiou. Se criou um mito de que a sociedade foi vítima de um ato de violência, mas a imensa maioria apoiou o golpe", disse Arantes. "E a ditadura se retirou não porque foi derrotada, mas porque conquistou seus objetivos. A abertura de Geisel foi planejada, já tinha dado certo com o milagre econômico. Tanto que seus ideólogos estão aí, como principais conselheiros econômicos da era Lula-Dilma, e que a ordem militar está toda consolidada na Constituição de 88", criticou.
Na avaliação de Edson Teles, membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos do Brasil e professor de filosofia da Unifesp, a Constituição de 1988 foi apenas uma das formas de lançar o Brasil num Estado de exceção permanente, definido por ele quando a própria norma é usada para suspender a ordem; ou quando aquilo que deveria ser a exceção acaba se tornando ou reafirmando a própria norma.
Para Teles, além de manter a estrutura autoritária militar, o novo ordenamento democrático foi construído sobre o silenciamento dos familiares de vítimas e de movimentos de defesa dos direitos humanos, que queriam justiça para os crimes da ditadura. O problema, no entanto, vinha de antes.
"Em um Congresso controlado pela ditadura, a Lei de Anistia adotou a suspensão da possibilidade de punição de qualquer crime. Um momento ilícito foi tornado lícito, com o silenciamento dos movimentos sociais e pela anistia, que exigiam esclarecimentos sobre os crimes. O que o Estado montou foi algo que manteve a ideia de impunidade. Depois veio o Colégio Eleitoral, que fez uma opção por uma saída negociada entre as oligarquias que saíam e as novas que chegavam, decidindo manter a anista ao crimes da ditadura. Foi o grande acordo do não-esclarecimento", relatou.
O julgamento no Supremo Tribunal Federal em 2010 sobre a interpretação da Lei de Anistia foi, segundo Teles, o coroamento desse silêncio e a instauração de um Estado de exceçãono país. "Baseada em ideias fantasmagóricas de que novos golpes que poderiam ser dados, nossa transição foi a criação de um discurso hegemônico de legitimação deste Estado de exceção. Faz-se este discurso como forma de legitimar essa memória do consenso, mas se mantem o Estado de exceção permanente, reconhecendo as vítimas sem nomear os crimes", acrescentou.
Exceção e consenso hoje
O consenso acerca daquilo que deveria ser visto como exceção não se restringe hoje, no entanto, àquilo que pode ser considerado a herança mais direta da ditadura militar. Foi construído também em torno de uma série de acontecimentos e práticas que deveriam mas não mais despertam reações da população brasileira.
"A exceção se torna perigosíssima quando deixamos de reconhecê-la como tal e ela se torna consenso", alertou o escritor e professor de jornalismo da PUC-SP, José Arbex Jr. "Ninguém achou um escândalo, por exemplo, no lançamento da Comissão da Verdade, ver os últimos Presidentes do país juntos, sendo que um deles foi presidente da Arena, o partido da ditadura, responsável pela tortura da própria Dilma; e o outros era Collor! Da mesma forma, está em curso em Osasco uma operação chamada Comboio da Morte, que matou nas últimas horas 16 pessoas. Isso não causa um escândalo nacional, é normal, natural, porque estamos "na democracia". Os jornais falam da Síria, mas a média de mortes diária no auge do conflito da Síria não chega ao que temos aqui cotidianamente. Lá é 60 aqui é 120! Então não estamos discutindo algo que aconteceu em 64 e que hoje se apresenta de forma mitigada, atenuada", disse Arbex.
Para o jornalista, o país vive um estado de letargia hipnótica coletiva, fabricado de maneira competente e eficiente pelo aparato midiático, que produz um consenso em torno de uma imagem de país na qual todos acabamos acreditando. "É muito grave quando olhamos para o Brasil e não percebemos essa realidade de consenso: de nenhuma garantia de direito para quem esteja fora da Casa Grande, e uma situação de guerra permanente", acrescentou.
É o que Paulo Arantes chamou de Estado oligárquico de Direito, um Estado dual, com uma face garantista patrimonial, que funciona para o topo da pirâmide, e uma face punitivista para a base. "Esse Estado bifurcado é uma das "n" consequências da remodelagem do país a partir dos 21 anos de ditadura. Basta pensar no que acontece todos os dias no país. Trata-se de um outro consenso, também sinistro e indiferente, senão hostil, a tudo que nos reúne aqui. Um Estado de exceção que não é o velho golpe de Estado, mas um novo modo de governo do capital na presente conjuntura mundial, que já dura 30 anos", afirmou Arantes.
Ninguém cavalga a história
O que permitiria dizer da possibilidade de se encontrar uma saída deste Estado de exceção permanente é o caráter imprevisível e incontrolável da história. Arbex lembrou que, em setembro de 1989, quando estava em Berlim, ninguém dizia que o Muro cairia menos de dois meses depois. "O fato é que, felizmente, ninguém cavalga a história. Ainda não encontraram uma maneira de domesticá-la. Há um processo latente de explosão social no Brasil, que se combina com processos semelhantes na América Latina, e que pode produzir uma situação totalmente nova. Ninguém previu a Primavera Árabe. Quando um jovem na Tunísia atirou fogo no próprio corpo, ninguém imaginava que, um mês depois, cairia Mubarak no Egito. Estão, não estamos condenamos para sempre a esta situação. Só posso dizer que estamos vivendo numa época que, em alguns aspectos, é mais trágica, mais cruel e mortífera que a ditadura militar", acredita.
"Este Estado de exceção só terminará quando a ditadura terminar, quando o último algoz for processado e julgado. Se a Comissão da Verdade encontrar dois ou três bons casos e levantar material para ações cíveis, pode haver uma transmutação disso tudo. E o regime, a sociedade e a economia não vão cair se os perpetradores da ditadura forem processados, como não caíram na Argentina ou no Chile", acredita Paulo Arantes. "Mas devemos pensar no que significaria essa última reparação. Se o último torturador e os últimos desaparecidos forem localizados, em que estágio histórico vamos poder entrar?", questionou. Uma pergunta ainda sem resposta.
FONTE: Carta Maior
LEIA TAMBÉM:
Um "poder" acima dos outros
Artigo de Luiz Carlos Prestes publicado na Tribuna da Imprensa, em 28/07/1988, às vésperas da promulgação da Constituição de 1988, em que é desmascarado o "poder militar", acima dos três poderes da República, consagrado no Artigo 142 da nova Constituição.
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