sábado, 15 de agosto de 2015

Basil Davidson e «O Fardo do Homem Negro»

Por Miguel Urbano Rodrigues 

A África foi até muito recentemente um continente sem História escrita. Cabe a Basil Davidson o mérito de nos seus livros ter iluminado o passado esquecido da África que em plena Idade Media construiu estados multinacionais organizados, mais extensos do que as grandes potências da época.


Fui amigo de Basil Davidson (1914-2010) e li quase todos os seus livros. 

Desconhecia a existência de O Fardo do Homem Negro, cuja tradução em português foi publicada em Luanda no ano 2000*.

Creio ser dos mais importantes. O título é uma réplica irónica ao Fardo do Homem Branco, do escritor inglês Rudyard Kipling, epígono do imperialismo.

Davidson combateu na segunda guerra mundial como oficial do exército britânico. Bateu-se na Jugoslávia e na Itália ao lado dos guerrilheiros que enfrentavam os ocupantes alemães.

Foi uma personagem fascinante sobre a qual escrevi muitas páginas. Trocamos correspondência durante o meu exílio brasileiro, mas só o conheci em Lisboa, após o 25 de Abril. A admiração que me inspirava foi prólogo de uma grande amizade.

A sua paixão pela África nasceu tarde, mas cresceu torrencialmente. Fez dele, como assinalou a New York Review of Books, «o mais ilustre conhecedor da África Negra».

A leitura da sua obra de historiador é hoje indispensável ao conhecimento do doloroso processo de descolonização da África Subsaariana.

Não assumiu uma posição de distanciamento. Como escritor, historiador e professor (em Universidades da Inglaterra, dos EUA e da África) tomou partido pelos que lutavam no Continente pela liberdade e pela independência dos seus povos.

Que eu saiba foi o único europeu a ser guindado pelos governos de antigas colónias portuguesas a herói da Guiné Bissau, de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique.

Nas páginas de O Fardo do Homem Negro sintetiza uma parcela do saber que adquiriu no estudo de um continente humilhado e saqueado.

O Fardo do Homem Negro empurra o leitor para uma reflexão profunda sobre a tragédia de um Continente que durante séculos exportou escravos para a América. 

Não há estatísticas credíveis, mas os demógrafos admitem que 19 milhões de homens e mulheres foram arrancados das suas aldeias africanas e transportados como mercadoria para o outro lado do Atlântico. Mais de um terço pereceu durante a travessia nos porões infectos dos navios negreiros.

Terminado o tráfico infamante, a África foi partilhada em l884 na Conferência de Berlim como se fosse um gigantesco parque zoológico. Disraeli e Bismark, ao atribuírem territórios densamente povoados a países europeus, retalharam o Continente quase a régua e compasso, traçando fronteiras que separaram povos com origens, tradições e línguas comuns.

Essas fronteiras, artificiais, não refletem regiões naturais nem os limites de diferentes grupos étnicos.

Os capítulos do Fardo do Homem Negro sobre a descolonização, o nacionalismo e o tribalismo contribuem para desmentir a historiografia africana dos colonizadores europeus, iluminando uma África desconhecida, muito diferente da apresentada por aqueles que a oprimiram e devastaram.

Foi inesperado no após guerra o vendaval da descolonização, iniciado com a independência de Gana em 1957 e da Guiné Conakry em 1958.

A resistência das burocracias britânica e francesa aos movimentos independentistas foi forte. Em l959,o secretário do Colonial Office declarava em Londres: «não é ainda possível perspectivar uma época em que seja possível a um governo britânico transferir as suas responsabilidades finais pelo destino e pelo bem-estar do Quénia”. O governador da colónia, sir Philips Mitchell, escreveu então: “Como é primitivo o estado destas pessoas (…) como é deplorável o caos espiritual, moral e social em que se encontram». 

Mas os quenianos conquistaram a independência em 1963 após a insurreição armada dos Mau Mau cujo chefe, Jomo Kenniatta, foi o primeiro presidente da Republica.

Em l957,o governador do Tanganika, sir Edward Twining, definiu como agitador «um tal Julius Nyerere», sugerindo aos funcionários superiores da administração que evitassem contactos com ele e «não o recebessem». Essa a opinião que formara do homem que seria um dos maiores dirigentes africanos da segunda metade do século XX.

A Historia desmentiu esses admiradores de Rudyard Kipling.

O Tanganica proclamou a independência em 1961, Uganda em l962,o Malawi e Zâmbia em 1964.

A França, envolvida em guerras coloniais no Magreb, acreditou que poderia resistir no Sul à vaga independentista. Projetou criar duas grandes federações que agrupariam as doze colónias da África Ocidental e Equatorial no âmbito da União Francesa. Esse sonho utópico logo se desvaneceu. Todas essas colónias e Madagáscar proclamaram a independência em l960.

A independência económica não acompanhou, porem, a política. 

Ao colonialismo tradicional sucedeu nas jovens repúblicas africanas um neocolonialismo cujos mecanismos de exploração, menos transparentes, não são menos cruéis.

Atualmente a África Subsaariana continua a ser exportadora da riqueza produzida. O volume de capitais saído é muito superior ao total da ajuda recebida, como Davidson lembra no seu livro, apoiado em documentação oficial.

Os governantes africanos que sucederam aos procônsules do colonialismo foram inicialmente, com raras exceções, dirigentes formados em universidades europeias. Essa elite tudo fez para implantar nos seus países os modelos da «democracia representativa» britânica e francesa. Ora nas sociedades africanas inexistiam as classes sociais que na Europa são teoricamente a fonte dos partidos políticos. 

Essa opção pelos dirigentes «instruídos e civilizados» ignorou as chefias tradicionais e a riqueza das culturas étnicas africanas, definidas pelos políticos educados em Londres e Paris como tribalistas e retrógradas, incompatíveis com o progresso.
Tremendo erro esse.

A África foi até muito recentemente um continente sem História escrita. Cabe a Basil Davidson o mérito de nos seus livros ter iluminado o passado esquecido da África**que em plena Idade Media construiu estados multinacionais organizados, mais extensos do que as grandes potências da época. Entre outros, Gana, Mali, Songhay e Kanem.

É conhecido o desfecho das fracassadas caricaturas de democracias de modelo ocidental: guerras civis como as da Libéria e Serra Leoa e a de Biafra na Nigéria, e ditaduras sanguinárias lideradas por tiranos como Mobutu, Bokassa e Idi Amin.

A tentativa de implantar em África o socialismo, esboçada pelos movimentos revolucionários do MPLA, da FRELIMO e do PAIGCV, também fracassou. Quando os guerrilheiros que haviam combatido com heroísmo o colonialismo português e o imperialismo saíram do mato para as cidades ficou transparente que o projeto programático de partidos que pretendiam aplicar o marxismo na transformação de sociedades arcaicas era utópico. Hoje, a Guiné-Bissau, Angola e Moçambique estão plenamente integrados no sistema capitalista. Com uma peculiaridade: nos três o capitalismo implantado justifica o qualificativo de «selvagem», diferenciado das fontes que o inspiraram.

Faço minha a opinião do historiador britânico Eric Hobsbawm: O Fardo do Homem Negro «é um livro de importância maior (…) não é só da África que fala, mas também de etnicidade, de nações e de problemas da vida em sociedade em qualquer parte do mundo.»

*Basil Davidson, O Fardo do Homem Negro, Editora Caxinde, Luanda, 2000.
* *Basil Davidson, A Descoberta do Passado da África, Sá da Costa, Lisboa,1981.


 
Basil Davidson: Bristol, 9 de Novembro de 1914 – Londres, 9 de Julho de 2010

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Fidel y sus grandes aportes sobre el tema de la Unidad

Carta al líder cubano en sus 90 años de vida 

Por Marta Harnecker

El 12 agosto 2015 

Querido Fidel, 

Siendo Cuba mi segunda patria, que me acogió con los brazos abiertos cuando era perseguida en Chile por estar luchando por construir una sociedad humanista y solidaria que ponía en cuestión los intereses de las élites dominantes, y siendo tú el inspirador inicial de esos combates, he sentido la necesidad de mandarte este mensaje en el momento en que vas a empezar a recorrer tus 90 años de vida. 

Me excuso por tratar de ver tú, pero me eres tan cercano que he sentido la necesidad de hacerlo. 

Pienso que al iniciar un año más de tu vida, debes sentirte feliz y realizado porque, con tu ejemplo de dignidad, resistencia y solidaridad, has servido de aliento e inspiración de todos los que en Nuestra América y en el mundo luchan por un mundo mejor. 

Nadie como tú luchó por la unidad de las fuerzas revolucionarias y del pueblo, transformando esta unidad en el pilar de tu estrategia política antes y después de la victoria. Tomando en cuenta la realidad político-ideológica de Cuba, preferiste evitar las discusiones teóricas para centrar tu energía en la aplicación de una estrategia correcta porque estabas convencido de que, en ese contexto, sería la práctica la que lograría resolver con menos desgaste interno las diferencias ideológicas y políticas de los distintos grupos revolucionarios. Y así fue. 

Quisiera reproducir aquí las cosas que tú dijiste sobre este tema en distintos momentos de la lucha y que fueron recogidos por mí en un pequeño libro titulado: La estrategia política de Fidel. Del Moncada a la victoria [1] escrito en 1985, hace ya 30 años, publicado en Cuba por Ciencias Sociales y reproducido en muchos países de América Latina y Estados Unidos. 

Pienso que te sentirás feliz al recordar estas ideas que expusiste hace muchos años pero que tienen una actualidad extraordinaria en la situación actual de nuestros países. Y ese será mi mejor regalo, y será un regalo compartido, como todo lo tuyo, porque haré circular este mensaje a través de diferentes redes para que ojalá contribuya de alguna manera a construir esa unidad que es tan necesaria para que podamos concentrar todos nuestros esfuerzos contra quienes impiden el avance de nuestros pueblos.

Paso entonces a citar lo que entonces escribí. 

Criterios acerca de la unidad de las fuerzas revolucionarias En relación a la conformación de la unidad de las fuerzas revolucionarias Fidel proporciona algunos criterios de gran interés en una conversación con estudiantes chilenos en 197l: “Lo ideal en política es la unidad de criterios, la unidad de doctrina, la unidad de fuerzas, la unidad de mando como en una guerra. Porque una revolución es eso: es como una guerra. Es difícil concebir la batalla cuando se está en el medio de la batalla con diez mandos diferentes, diez criterios diferentes, diez doctrinas militares diferentes y diez tácticas. Lo ideal es la unidad. Ahora, eso es lo ideal. Otra cosa es lo real. Y creo que cada país tiene que acostumbrarse a ir librando su batalla en las condiciones en que se encuentre. ¿No puede haber una unidad total? Bueno, vamos a buscar la unidad en este criterio, en este otro y en este otro. Hay que buscar la unidad de objetivos, unidad en determinadas cuestiones. Puesto que no se puede lograr el ideal de una unidad absoluta en todo, ponerse de acuerdo en una serie de objetivos. “El mando único —si se quiere—, el estado mayor único, es lo ideal, pero no es lo real. Y por lo tanto, habrá que adaptarse a la necesidad de trabajar con lo que hay, con lo real.” [2]

En relación al proceso de unificación de las fuerzas revolucionarias podemos extraer tres grandes lecciones de la experiencia cubana:

La primera , expresada ya en las palabras de Fidel anteriormente citadas: es necesario que los dirigentes revolucionarios tengan como preocupación central avanzar en el proceso de unidad de las fuerzas revolucionarias y para ello no hay que partir de las metas máximas sino de las metas mínimas. Un ejemplo de ello es el Pacto de México entre el Movimiento 26 de Julio y el Directorio Revolucionario.

La segunda: lo que más ayuda a la unificación de las fuerzas revolucionarias es la puesta en práctica de una estrategia que demuestre ser la más correcta en la lucha contra el enemigo principal. Si produce frutos satisfactorios, se irán plegando a ella durante la lucha, en el momento del triunfo o en los meses o años posteriores, el resto de las fuerzas verdaderamente revolucionarias. Si la unidad a todo nivel se gesta prematuramente, antes de que estén suficientemente maduras todas las condiciones para ello, lo que puede ocurrir es que, o se llegue a conformar una unidad puramente formal que tiende a caer hecha trizas ante el primer obstáculo que aparezca en el camino, o puede producir la inhibición de estrategias correctas representadas por grupos minoritarios que, en pro de la unidad, se deciden a renunciar a ellas para someterse al criterio de la mayoría, con las consecuencias negativas que ello tendrá para el proceso revolucionario en su conjunto.

Y, tercero, algo muy importante para lograr la unidad perdurable de las fuerzas revolucionarias —y de lo que Fidel fue siempre el máximo promotor—, valorar en forma correcta el aporte de todas las fuerzas revolucionarias sin fijar cuotas de poder ni en relación a su grado de participación en el triunfo de la revolución, ni en relación a la cantidad de militantes que tenga cada organización. Es decir, establecer la igualdad de derechos de todos los participantes, combatiendo cualquier “complejo de superioridad” que pudiese presentarse en alguna de las organizaciones que conforman la unidad. Los más ricos aportes de Fidel sobre este tema se producen en su lucha contra el sectarismo, especialmente en el llamado primer proceso a Escalante, en marzo de 1962, cuando Aníbal Escalante, secretario de organización de las ORI —primer esfuerzo por institucionalizar la unidad de las fuerzas revolucionarias después del triunfo de la revolución— empieza a copar todos los puestos y funciones con “viejos militantes marxistas”, lo que en Cuba no quería decir otra cosa que ser militante del PSP, único partido marxista antes de la revolución. En lugar de promoverse una organización libre de revolucionarios se estaba creando una “coyunda”, una “camisa de fuerzas”, un “yugo”, “un ejército de revolucionarios domesticados y amaestrados”. Fidel insiste, en ese momento, en que es necesario combatir tanto el sectarismo “de la Sierra” como el sectarismo “de los viejos militantes comunistas marxistas”. Y al respecto sostiene: “La revolución está por encima de todo lo que habíamos hecho cada uno de nosotros: está por encima y es más importante que cada una de las organizaciones que había aquí, Veintiséis, Partido Socialista Popular, Directorio, todo. La revolución en sí misma es mucho más importante que todo eso. “¿Qué es la revolución? La revolución es un gran tronco que tiene sus raíces. Esas raíces, partiendo de diferentes puntos, se unieron en un tronco; el tronco empieza a crecer. Las raíces tienen importancia, pero lo que crece es el tronco de un gran árbol, de un árbol muy alto, cuyas raíces vinieron y se juntaron en el tronco. El tronco es todo lo que hemos hecho juntos ya, desde que nos juntamos; el tronco que crece es todo lo que nos falta por hacer y seguiremos haciendo juntos. [...] “Lo importante no es lo que hayamos hecho cada uno separado, compañeros; lo importante es lo que vamos a hacer juntos, lo que hace rato ya estamos haciendo juntos: y lo que estamos haciendo juntos nos interesa a todos, compañeros, por igual [...]” [3]

Ese mismo día dirá en otro discurso refiriéndose a su caso personal: “Yo también pertenecí a una organización. Pero las glorias de esa organización son las glorias de Cuba, son las glorias del pueblo, son las glorias de todos. Y yo un día —agrega— dejé de pertenecer a aquella organización. ¿Qué día fue? El día [en] que nosotros habíamos hecho una revolución más grande que nuestra organización; el día en que nosotros teníamos un pueblo, un movimiento mucho más grande que nuestra organización; hacia el final de la guerra, cuando teníamos ya un ejército victorioso que habría de ser el ejército de la revolución y de todo el pueblo; al triunfo, cuando el pueblo entero se sumó y mostró su apoyo, su simpatía, su fuerza. Y al marchar a través de pueblos y ciudades, vi muchos hombres y muchas mujeres; cientos, miles de hombres y mujeres tenían sus uniformes rojo y negro del Movimiento 26 de Julio; pero más y más miles tenían uniformes que no eran rojos ni negros, sino camisas de trabajadores y de campesinos y de hombres humildes del pueblo. Y desde aquel día, sinceramente, en lo más profundo de mi corazón me pasé, de aquel movimiento al que queríamos, bajo cuyas banderas lucharon los compañeros, me pasé al pueblo; pertenecí al pueblo, a la revolución, porque realmente habíamos hecho algo superior a nosotros mismos.” [4]  

Deseándote muchos años más de vida y de aportes a nuestras luchas se despide de ti esta chilena, cubana, venezolana, latinoamericana, enviándote un abrazo lleno de sueños y esperanzas.



[1] . Fue publicado en Cuba bajo el título: Fidel: La estrategia política de la victoria, Editorial de Ciencias Sociales, 2001. Se puede encontrar en formato digital en: http://www.rebelion.org/docs/89864.pdf
[2] . Fidel Castro, Conversación con los estudiantes de la Universidad de Concepción, en Cuba—Chile, Chile, 18 noviembre, 1971,
[3] . Fidel Castro, Discurso del 26 de marzo de 1962, en Obra revolucionaria Nº 10, p.29—30; La revolución cubana..., op.citp. p.539.
[4] . Fidel Castro, Discurso del 26 de mayo de 1962, en Obra revolucionaria Nº11, 27 marzo, 1962, pp.36—37; La revolución cubana..., ob.cit. pp.545—546. 

FUENTE: Rebelión 

Assim nasce o conservador

Um poema brechtiano de Mauro Iasi


“Nada mais parecido com um fascista que um pequeno burguês assustado”
– Brecht


Assim nasce o conservador
 Por Mauro Iasi

De todos os invernos
De todas as noites sangrentas
De todos os infernos
De todos os céus desterrados de perdão.


De toda obediência burra
Ao oficial, burocrata,
À coroa, ao cetro,
Ao papa, ao cura.


De todo medo
“Agora não, ainda é cedo”,
de todo gesto invertido para dentro,
de toda palavra que morre na boca.


Do obscurantismo, de todo preconceito,
de tudo que te cega, de tudo que te cala,
de tudo que lhe tolhe, de tudo que recolhes,
de tudo que abdicas, de tudo que te falta.


Um beijo o assusta,
um abraço o enfurece,
a dúvida o enlouquece,
a razão se esvanece no vácuo.


Germina, assim, uma impotência tão grande,
que deforma as feições e torna tenso o corpo,
o dedo em riste, a veia que salta no pescoço,
a boca transformada em latrina.


Assim nasce o conservador.
Ele teme tudo que é novo e se move.
É um ser frágil, arrogante, assustado…
e violento.


FONTE: Blog da Boitempo

"O legado de Florestan está na sua inesgotável defesa de uma causa justa e socialista", afirma Pizetta

Em entrevista, Adelar Pizetta fala sobre o legado e a atualidade do pensamento de Florestan Fernandes, após 20 anos de seu falecimento.

Por Maura Silva
Da Página do MST

No último dia 10 de agosto, completou-se 20 anos da morte do sociólogo Florestan Fernandes.

Décadas após seus escritos, a contribuição de Florestan Fernandes para o desenvolvimento de um olhar sobre o Brasil permanece na ordem do dia para o debate da sociedade brasileira. 

Em entrevista à Página do MST, João Avelar Pizetta, do MST e um dos principais entusiastas da criação da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), fala sobre o legado do sociólogo paulista e a sua influência nos dias de hoje.

Para Pizetta, nã há dúvida de que “o maior legado do Mestre Florestan é a sua própria vida”.

Florestan começou a trabalhar aos seis anos como engraxate e passou por diversas outras ocupações para auxiliar no sustento próprio e da família. 

Filho de uma migrante portuguesa que prestava serviços domésticos, seu nome de batismo foi inspirado no personagem principal da ópera Fidélio, única escrita por Beethoven. 

Viveu entre a "grande casa" de sua madrinha e cortiços. Estudou até o terceiro ano do primeiro grau, e só mais tarde, voltaria a estudar, formando-se em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo em 1951. Foi assistente catedrático, livre-docente e professor titular na cadeira de Sociologia da USP.

Após a promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), o governo militar o aposentou compulsoriamente. Florestan se exilou nos Estados Unidos e no Canadá, onde lecionou nas universidades de Yale, Columbia e Toronto. 

Voltou ao Brasil em 1972. Em 1986 ingressou no Partido dos Trabalhadores (PT) e foi eleito deputado constituinte pelo partido. Em 1990, foi reeleito para a Câmara. Faleceu em 1995, devido a complicações no fígado.

Adelar Pizetta
Qual o maior legado do pensamento de Florestan Fernandes? 

Sem nenhuma dúvida, o maior legado do Mestre Florestan é a sua própria Vida. Uma vida repleta de ensinamentos, exemplos de superação e, acima de tudo, uma vida de coerência extrema com os problemas, as causas e os sonhos dos “de baixo”, isto é, da classe explorada. 

Essa condição e opção não foi para com eles ficar, mas para construir instrumentos de organização e luta capazes de levar adiante processos de transformação social radical, que somente se daria por intermédio de uma Revolução.

Dessa maneira, pensamento/palavra/discurso/elaboração teórica e ação concreta estão intimamente ligados numa proposição verdadeiramente revolucionária. 

Para Florestan, a revolução não é um momento, ela é um processo de ruptura radical com a ordem (portanto, “contra a ordem”) do capital e a construção de uma nova racionalidade, de uma nova sociedade alicerçada nos princípios e valores humanistas e socialistas. 

Ele explicitou que a educação é o “mais grave dilema da sociedade brasileira”, pois, sem uma educação crítica e de qualidade, os explorados não conseguem adquirir “os meios que os possibilitem a tomar consciência da sua condição” e, acima de tudo, de resistir e lutar para transformar tal realidade. 

Parafraseando o Florestan, a magnitude de um ser humano depende da sua capacidade de imaginar, e sem uma educação de qualidade a imaginação é paupérrima, e se torna incapaz de fornecer instrumentos capazes de transformar o mundo.

Lega-nos, na prática, que a clareza e a firmeza ideológica não abrem e admite espaços para negociação de princípios e valores morais e posturas éticas com os poderosos, não pode haver cooptação, nem postura fácil e superficial. 

E mesmo adentrando para a academia, Florestan nunca abandou sua classe social...

Sem sombra de dúvidas, foi um homem de princípios morais e éticos provenientes da sua condição de classe, mas, acima de tudo, decorrentes da sua posição de classe e da perspectiva socialista. 

Aliás, é a chama do socialismo que o manteve e o manterá sempre vivo e atual. Florestan nos ensinou que a classe trabalhadora deve construir seus instrumentos teóricos, organizativos e de lutas de forma autônoma, independente das influências da ideologia burguesa, isto é, não pode ser “cauda da burguesia”, ser “apêndice” da classe que historicamente domina e controla as mudanças políticas para manter o status quo.

A teoria por ele abraçada e produzida nos permite compreender melhor o Brasil, a sua formação, as suas incompletudes, deficiências, principalmente a maneira como a classe dominante organiza e exerce o poder de forma autocrática, dando a impressão de que o povo participa das instâncias governamentais democraticamente, mas, que no fundo a elite não permite, em hipótese alguma, que essa participação popular se efetive. 

Florestan em manifestação em frente ao Congresso Nacional durante a Constituinte de 1988.
Dai a característica da “intolerância” da classe dominante, impedindo que o povo participe dos rumos e destinos da sociedade brasileira. De maneira geral, podemos dizer que o legado do Florestan está na sua energia inesgotável em defesa de uma causa justa/socialista; na solidariedade humana, de classe e a na dignidade ética e moral; na sensibilidade e o olhar terno dos/com os que sofrem exploração, injustiças, discriminação; na determinação e na força dos grandes lutadores que estão sempre preparados e dispostos para enfrentar as batalhas; está no rigor científico e na seriedade diante dos problemas reais que precisam ser resolvidos não com medidas e programa paliativos, mas por intermédio de uma ruptura radical com nosso passado e com o nosso presente. 

Qual a importância da formação política na luta de classes e quais seriam seus principais desafios na atualidade?

Sabemos que todos os partidos, movimentos e instrumentos políticos da classe trabalhadora que se descuidaram da formação política na luta de classes não triunfaram, e se triunfaram, acabaram se desviando dos objetivos estratégicos da revolução. 

Isso não significa dizer que a formação é que vai resolver todos os problemas e gerar as transformações necessárias. No fundo, as ideais não possuem força alguma a não ser se materializando nas ações das massas. As lutas são as parteiras das rupturas, mas elas devem estar sustentadas em uma teoria verdadeiramente revolucionária. 

É preciso entender que a formação da consciência socialista, em todos os níveis, é uma das tarefas da revolução.

E como você avaliaria o atual processo de luta de classe?

O atual estágio da luta de classes é altamente complexo; setores da classe trabalhadora estão dispersos e fragmentados, para não dizer “perdidos”; a “crise” teórica e organizativa dificulta embates mais frontais com o capital e a burguesia. 

Parece-me que o principal desafio na atualidade está em elaborar uma teoria que permite a classe compreender profundamente as contradições da realidade (que é histórica) e ajude a construir instrumentos de organização e de lutas capazes de canalizar as forças populares rumo às transformações profundas e radicais da sociedade. 

Não basta estudar o que os teóricos já elaboraram. Isso é fundamental. O que se trata agora é produzir conhecimentos que permitam avançar na luta de classes. O terreno fértil para essa produção são as lutas políticas que superem as lutas corporativas e reivindicativas apenas, pois para o desenvolvimento da consciência política é fundamental mobilizar os trabalhadores para participarem dessas lutas que se abrem na sociedade brasileira. 

Formar, formar, formar, mas vinculado a um Projeto de Emancipação Humana que vislumbre novos seres sociais e políticos dispostos e assumir tarefas históricas de amplitude maior das até aqui pensadas e desenvolvidas.

Um dos grandes desafios é formar nessa perspectiva da luta política, da luta pela superação da ordem do capital. Assim, não será uma formação da ilustração, mas uma formação de consciências que mantenham e assumam como horizonte histórico a continuidade da revolução brasileira. 

Estamos vivendo um período conturbado no Brasil, com uma grave crise social, econômica e política. Não sabemos quais os rumos dessa crise, mas é certo que vivemos num período de transformações. O que Florestan poderia nos ensinar neste momento? 

É certo que vivemos um momento político extremamente complexo e difícil, de enormes contradições e conflitos de vários matizes. Mas também um momento em que se forjam novas possibilidades, e por isso alimentamos a esperança e acreditamos nas iniciativas de superação desse período histórico. 

Os períodos de crise são portadores dessas duas dimensões: uma que busca destruir o que está estabelecido pela ordem atual, e a outra busca construir o novo, inventar novos caminhos. 

De acordo com Florestan, essas duas dimensões não são sucessivas, mas se entrelaçam no tempo e no espaço, por intermédio da ação dos homens e do confronto entre os interesses de classes. 

O novo não nasce do nada, o novo nasce do velho, mas, para que vigore é necessário suplantar o velho, do contrário, ele não o supera dialeticamente, e esses embates não respondem às necessidades da nova ordem que se deseja construir.

Somente esse novo será capaz de tirar o País dessa situação. Do contrário, voltaremos a índices e situações cada vez mais alarmantes e piores do ponto de vista das conquistas da classe trabalhadora. 

Ai podemos retomar algumas ideias aqui já abordadas: a questão da clareza nas análises e interpretações dessas contradições; a necessidade de construir força social, isto é, organizar e formar o povo, que se organizando, em processo permanente de formação da consciência e participando ativamente das lutas imediatas e estratégicas será capaz de levar adiante os processos de transformação. 

No fundo, o ensinamento está na tese: “Não se deixar cooptar, não se deixar esmagar, lutar sempre!” Organizar e travar a luta de classes, em suas diferentes dimensões, é a condição essencial para manter vivo e continuar desenvolvendo com vigor o legado combativo e revolucionário do Florestan.

Este ano a ENFF está completando 10 anos.
No mesmo ano em que se recorda os 20 anos do falecimento de Florestan Fernandes, também se comemoram os 10 anos da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Qual o papel que a ENFF cumpre dentro destas perspectivas?

A ENFF é resultado do acúmulo das experiências de formação desenvolvida no interior do MST desde a sua origem, mas também incorporando outras exercitadas no Brasil e na América Latina. 

Também é fruto das demandas apresentadas pela realidade das lutas nas últimas décadas. A Escola transcende os limites do âmbito específico do MST e se coloca como um espaço de formação do conjunto da classe trabalhadora em nível continental. 

Ela surge com o propósito de organizar e desenvolver a formação em um nível superior, isto é, na perspectiva da formação de quadros políticos para e na luta de classes. Pretende também ser um espaço de debates de ideias, de problemas orgânicos e metodológicos, de integração e fortalecimento de alianças, de produção de novos saberes e conhecimentos teóricos que fortaleçam os processos de lutas nos diferentes lugares de atuação dos militantes.

Possibilitar oportunidades de estudos e de aprofundamento teórico é fundamental nesse contexto histórico em que muitos movimentos e organizações não necessitam da formação política para desenvolver seus processos orgânicos e de lutas. Penso que Florestan nos convoca a estudar e pesquisar com rigor e profundidade os dilemas da atualidade para decifrá-los, e a partir desse entendimento fortalecer as lutas e processos de ruptura com a ordem vigente. 

Como já afirmado, a formação só tem sentido se estiver vinculada a um projeto de transformação radical e profundo da sociedade, da economia, da cultura, da política, dos valores. 

Desse modo que a ENFF pode cumprir esse papel no atual contexto sócio-histórico, inovando e ampliando suas políticas formativas para além das categorias específicas, permitindo processos de integração e articulação em nível nacional e internacional. 

Não basta repetir, é preciso criar, inventar, construir novas metodologias, novas possibilidades de acesso e produção de conhecimentos.



 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Colóquio Internacional Marx e o marxismo 2015: Insurreições, passado e presente

Dias 24 a 28 de agosto de 2015  
Local: Universidade Federal Fluminense – Campus do Gragoatá

 Ver programação completa:
 http://www.niepmarx.com.br/MM2015/programa2015.htm#MC1

TERÇA-FEIRA, DIA 25 DE AGOSTO, 10:00 – 13:00
Mesa Coordenada 3. Anos 1930 no Brasil: educação e luta

Local: Campus do Gragoatá (UFF), BLOCO G, Sala 207
31. A atualidade da Aliança Nacional Libertadora (ANL) – 80 anos depois
Anita Leocadia Prestes (Doutora / Professora, PPGHC, UFRJ)
32. Agências e agentes na profissionalização do magistério de ensino secundário (1931-1945)
Amália Dias (Doutora / Professora, FEBF, UERJ)
33. Perspectivas em confronto no campo da educação: o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932) e o Manifesto dos Inspetores de Ensino do Estado do Rio de Janeiro (1934)
Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro (Doutor / Professor Rede Municipal, Rio das Ostras, RJ)
34. A influência do “estilo de vida americana” nos educadores brasileiros pós 1930 e alguns de seus críticos: Florestan Fernandes e a Federação Internacional Sindical de Ensino
Gilcilene de Oliveira Damasceno Barão (Doutor / Professora, FEBF, UERJ)




terça-feira, 11 de agosto de 2015

Arqueólogo diz ter encontrado a tumba da rainha Nefertiti

Busto da rainha Nefertiti, durante exposição na Alemanha
O arqueólogo britânico Nicholas Reeves, da Universidade do Arizona, diz ter desvendado um dos grandes mistérios do Egito: a localização tumba da rainha Nefertiti. 

De acordo com o cientista, haveria uma espécie de câmara oculta, ao lado da tumba do faraó Tutancâmon, que abrigaria os restos mortais da governante. 

Descoberta em 1922 pelo explorador Howard Carter, a tumba de Tutancâmon foi, até agora, a única de um faraó a ser encontrada intacta. Os mais de 5.000 artefatos catalogados, além do sarcófago e da própria múmia, lançaram luz sobre vários aspectos do Antigo Egito. 

Mas como um sítio arqueológico conhecido há quase cem anos poderia guardar um segredo tão grande quanto o paradeiro de uma das mais famosas rainhas do Egito? 

Para Reeves, faltou explorar o que está atrás das paredes do complexo. 

Ele decidiu fazer essa tarefa a partir de seu próprio laboratório. 

O arqueólogo analisou a tumba de Tutancâmon a partir de imagens 3D detalhadas e de altíssima resolução liberadas pela empresa Factum Arte, especializada em fazer reconstruções de obras de arte. O material está disponível gratuitamente na internet desde o início de 2014. 

Ao analisar as fotos, que de tão detalhadas mostram até a textura das paredes, Reeves diz ter identificado duas passagens secretas por trás das paredes da tumba de Tutancâmon. Elas teriam sido rebocadas e seladas por fora para esconder a sua existência. 

Apesar do esforço para ocultar os anexos, Reeves afirma que é possível notá-los através de rachadura e marcas nas paredes das paredes. 

A hipótese de Reeves, apresentada em um artigo recém-publicado, é que a menor das passagens leve a uma sala de armazenamento e a outra, bem maior, ao túmulo da rainha Nefertiti. 

Em entrevista à revista "The Economist", o arqueólogo afirmou: "Se eu estiver errado, estou errado. Mas se eu estiver certo, esta é potencialmente a maior descoberta arqueológica já feita." 

Embora os outros arqueólogos ainda tenham ressalvas ao trabalho de Reeves, nomes importantes, como o americano Kent Weeks, famoso por ter mapeado várias tumbas egípcias, receberam com otimismo o trabalho. "É um argumento fascinante e um primeiro passo impressionante", disse Weeks. 

Para o arqueólogo, a hipótese de Reeves não deve ser difícil de se testar utilizando técnicas não invasivas.

EVIDÊNCIAS
 
Nefertiti, considerada um grande símbolo de beleza, especialmente em função o do busto com sua imagem encontrado em 1912, foi casada com o pai de Tutancâmon, o faraó Aquenáton, e viveu entre 1380 a.C e 1345 a.C. 

Tutancâmon assumiu o trono por volta dos nove anos e morreu ainda jovem, aos 19 anos e sem herdeiros.
Acredita-se que, devido à sua morte precoce, o túmulo de Tutancâmon não foi feito especialmente para ele e, por isso, seria menos suntuoso do que o de outros faraós. 

Mas, segundo Reeves, o jeitão "simples" da tumba desse faraó pode ter uma explicação mais ampla. Fora as dimensões mais modestas, há outras coisas incomuns na tumba. 

A começar pela inclinação à direita do eixo principal da tumba, que era típico para rainhas, e não reis, do Egito. Além disso, os artefatos encontrados com ele no local foram descritos pelos arqueólogos como sendo "de segunda mão". 

A máscara mortuária com que ele foi sepultado, que tinha orelhas furadas, também não era comum para homens. 

Reeves afirma que isso pode indicar que o faraó ficou com as "sobras" do que era para a rainha. 

Segundo o cientista, a tumba de Nefertiti deve ser ainda mais luxuosa do que a de Tutancâmon. 

Em entrevistas à imprensa britânica, o arqueólogo disse estar confiante de que as autoridades egípcias irão analisar com cuidado as informações que ele propõe agora em seu trabalho. 


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

“O que ocorreu na Grécia demonstra que outro capitalismo é impossível”

Insurgente entrevista Ángeles Maestro, militante de Red Roja

 “Há algum tempo que a Red Roja vem formulando a questão: romper com a extorsão da Dívida tem carácter de linha de demarcação. Clarifica perante o povo o eixo político principal que neste momento sustenta toda engrenagem do poder e do qual este não pode prescindir. Nesse sentido, Não pagar a Dívida equivale à exigência de Paz, Pão e Terra dos bolcheviques.”


¿O que ocorreu na Grécia é um golpe duro para os que defendem o “Sim é possível” dentro do marco capitalista?
É uma demostração mais de que outro capitalismo é impossível [1]. Dentro da estrutura de poder e das relações sociais capitalistas não há qualquer espaço, não já para recuperar o perdido e regressar Estado de Bem-estar como defendem tanto Podemos, como IU e seus satélites de “Ahora en común”, mas nem sequer para deter os intermináveis apertos de garrote em direcção ao abismo, como ficou demonstrado na Grécia.
O pagamento da Dívida, como sucedeu na América Latina, África e Asia, é o mecanismo de extorsão por excelência para impor aos governos as políticas que as classes dominantes requerem; máxime em uma situação de profunda crise geral do capitalismo sem saída previsível.
Sem assumir a anulação unilateral do pagamento da Dívida e a consequente saída do Euro e da UE, não há outra opção senão o espectáculo lamentável do Syriza: ajoelhar perante as imposições ilimitadas da troika e levar o país ao descalabro garantido.
A Red Roja vem a dizê-lo desde há dois anos: o pagamento da Dívida é o fim de qualquer soberania e dos direitos sociais e laborais [2]. Não é que tivéssemos uma bola de cristal que nos permitisse saber o que finalmente veio a suceder na Grécia, simplesmente fizemos análises rigorosas sem os antolhos do oportunismo eleitoralista.

¿Por que fracassa o reformismo “bem-intencionado” de Syriza?
Em primeiro lugar, como já disse, porque propõe políticas impossíveis. O reformismo é um delírio de ilusões que muita gente aceita - contra toda a evidência – porque é mais cómodo e menos perigoso conseguir o que se necessita introduzindo um voto numa urna e sem tocar nos interesses das classes dominantes….se isso fosse possível.
Que pessoas mais ou menos ignorantes acreditem nisso não é estranho. A vigarice vem dos que proclamam opções irrealizáveis sabendo que o são. O critério mínimo imprescindível de legitimidade deveria ser dizer a verdade ao povo. E tanto IU, como Podemos, como qualquer das novas coligações sabem-no e calam.
Em segundo lugar, Tsipras, em nome de Syriza, levou à prática pela enésima vez a função histórica da social-democracia. Em momentos cruciais, de grande debilidade das classes dominantes, trai o povo trabalhador - cujos interesses devia representar - para assegurar o poder da burguesia. Os exemplos são inumeráveis; desde a votação dos orçamentos de guerra na Alemanha em 1914 até à sua participação directa no assassínio de Rosa Luxemburg e de Karl Liebnecht em 1918, ao papel de Kerenski desde Março a Outubro de 1917 ou ao do PSOE e do PCE na Transição.
O que Tsipras fez é o que eu vi na direcção de IU sucessivas vezes. Enquanto não há pressões, mantém-se a coerência; mas quando o poder exerce a sua capacidade de chantagem e de ameaça – quando de verdade há que demonstrar onde se está, engole-se o que for preciso. O “politicamente correcto” impõe-se a velocidade vertiginosa, ou seja, impõe-se o que as classes dominantes exigem.
E não é só IU, obviamente [3].
A questão é que o dilema “reforma ou revolução”, que em outras épocas poderia ser apenas um debate mais ou menos interessante, hoje é crucial. E o problema de fundo, que hoje como em outros períodos históricos de crise delimita campos irreconciliáveis, é se se  “vende” (nunca a palavra foi melhor utilizada) perante o povo la ideia de que a democracia burguesa permite opções políticas que questionem o direito à propriedade privada dos meios de produção, ou se prepara o povo para enfrentar esse poder.
E quem não fale disso, como fez o Syriza de Tsipras, ou como fazem Podemos ou IU, o que prepara é a encenação da próxima traição.

¿O que sucedeu confirma o que os comunistas gregos do KKE vinham afirmando?
No fundamental, sim.
Ante o grande sobressalto que foi a convocatória do Referendo – e os ataques da UE ao governo de Syriza por ter chamado o povo a opinar – era difícil entender que o KKE apelasse ao voto nulo. Poucos se detiveram a analisar o conteúdo concreto da pergunta, que em nenhum momento questionava a participação da Grécia na Eurozona e na UE. Enquanto o povo construía o seu grande NÃO, Tsipras tirava o coelho da cartola e dizia que o inquestionável era a permanência da Grécia no Euro e na UE, custasse o que custasse.
As lágrimas de crocodilo ante a brutal imposição da troika não valem. ¿Acaso não sabiam os Syrizas dali e daqui quem tinham pela frente? ¿Acreditavam que era um confronto entre democratas e não uma extorsão de criminosos? É inaceitável alegar ignorância, depois de todos os ensinamentos da história, quando do que se trata é de  justificar uma descomunal cobardia e um crime contra o povo.
É evidente que o KKE tinha razão. Muitos analistas, James Petras entre eles, o reconheceram. Não seria aceitável que em momentos tão críticos como os actuais, prevalecesse – pelo menos entre as pessoas de boa-fé - um anticomunismo primário face à evidente necessidade de unir forças de esquerda frente a uma calamidade como a que a classe operária e o povo grego enfrentam.
O que sucede na Grécia é um grande laboratório, tanto para o capital, como para o resto dos povos da Europa. O Syriza é uma experiência arrumada. Após ela está a erguer-se a grande confrontação que delimitará os campos no futuro e que não oferecerá muitas opções.
Uma das mais importantes para a classe operária e para todos os povos do sul da Europa é confluir, coordenar políticas e apresentar alternativas políticas, económicas e sociais convergentes capazes de enfrentar o inimigo comum.

¿Que outra saída tinha o povo grego após o referendo?
A única possibilidade de evitar o que sucedeu era ter deposto o Syriza com  a luta operária e popular. Obviamente, não estavam ainda reunidas as condições.
O único caminho sério que se abre é o da resistência face a todas e cada uma das medidas que a aliança de Syriza com os partidos da burguesia pretenda impor ao povo trabalhador grego e que acentuarão o empobrecimento massivo em que já vive. É preciso fortalecer o poder da classe operária e construir uma alternativa ao Syriza a partir da esquerda, que inevitavelmente terá como pilar o Partido Comunista e como programa suspender o pagamento da Dívida, nacionalizar a banca e as grandes empresas monopolistas e sair do Euro e da UE.
Essa única opção de futuro a partir da esquerda deve construir-se também no resto dos países da UE, mas sobretudo nos do sul. Como o vêm dizendo muitas vozes, é preciso aproveitar as contradições internas no seio da UE e entre Alemanha e EUA, mas sobretudo definir um rumo claro e firme.
A Red Roja tem-no formulado há algum tempo: romper com a extorsão da Dívida tem carácter de linha de demarcação. Clarifica perante o povo o eixo político principal que neste momento sustenta toda engrenagem do poder e do qual este não pode prescindir. Nesse sentido, Não pagar a Dívida equivale à exigência de Paz, Pão e Terra dos bolcheviques.

Transpondo o sucedido para Espanha recordemos que IU, Podemos e inclusivamente Amaiur foram a Atenas apoiar o Syriza nas eleições….
O panorama com que os novos governos eleitos se depararam após as eleições é pavoroso. Onze Comunidades Autónomas (CC.AA.) estão a incumprir os objectivos de défice e de dívida. E a ameaça de intervenção nelas e em centenas de ayuntamientos está sobre a mesa. Por exemplo no País Valenciá, onde já se fala abertamente de Valenexit, o novo Consell encontrou-se ante “uma Generalitat Valenciana sob intervenção de facto, que antes de ser concretizada já correspondia a todos os parâmetros que deveriam ter conduzido à intervenção de jure que a Europa pode exigir a qualquer momento”[4]. O curioso é que não só ninguém fala de não pagara Dívida, como na passada reunião do Conselho de Política Fiscal e Financeira a única coisa que as autonomias não governadas pelo PP questionaram foram os números concretos propostos por Montoro relativos à diminuição do défice e à % de redução da dívida, não a necessidade de reduzir ambos os indicadores.
O que surpreende nesse espesso muro de silêncio dos novos governos de esquerdas. Se não se está a explicar ao povo que têm as mãos atadas se aceitam os objectivos do Tratado de Estabilidade da Zona Euro e das leis que aqui o aplicam, como a Lei 2/2012, é porque não se colocam outro horizonte senão acatar esse quadro normativo. Por outras palavras, desempenhar o mesmo papel de esbirro que Tsipras está desempenhando.

¿Como resolver a dicotomia reforma/revolução neste momento, neste país?
 O esgotamento, a inutilidade das opções reformistas, vai verificar-se a curto prazo. Rajoy mente como um miserável, mas também enganam aqueles que ocultam que após as eleições gerais – a mesma troika, os mesmos “homens de negro” da Grécia vão exigir novas contra-reformas laborais e das pensões, mais privatizações e maiores reduções da despesa pública. E vão fazê-lo, como na Grécia, com mais ferocidade se há um governo de “esquerdas”, precisamente para demonstrar que não há qualquer esperança de soberania e de democracia, que apenas resta baixar a cabeça para encaixar a canga.
A esperança depositada nas eleições gerais vai estalar como uma bola de sabão. Muito rapidamente. Por isso o trabalho obscuro de organização a partir de cada bairro, de cada povoação, as explicações pacientes acerca da necessidade de se preparar para o que se avizinha e de não confiar em ilusões sem fundamento algum.
Para o caso de ainda existir alguma dúvida acerca da vacuidade abismal dos discursos dos novos “referentes”, leia-se o artigo de Pablo Iglesias que tem um título tão sugestivo como “Podemos: Uma nova Transição”[5]. Se não estivessem a brincar com as vidas de tanta gente, poderia falar-se de uma antologia do absurdo.

¿Como se encontra de saúde a esquerda não reformista?
A confirmação da justeza das análises – tendo como último exemplo o que sucedeu na Grécia com Syriza – é muito importante. Tanto como o silêncio actual dos que se acotovelavam em Atenas para aparecer ao lado de Tsipras.
A realidade é teimosa e impõe-se sobre o nevoeiro dos sonhos ou dos delírios. Por muito sugestivos que sejam. E o povo vê-a.
A construção da ponte entre o descrédito das falsas ilusões – que como na Grécia pode ser rápido e brutal – exige confluências que partam do trabalho ombro a ombro com aqueles que mais estão compreendendo a necessidade de organização e de luta: os sectores mais explorados do movimento operário e os bairros populares.
A esquerda revolucionaria é a única capaz de oferecer uma alternativa ao beco sem saída das novas miragens eleitorais. Com a condição de que saiba estar bem próxima do povo trabalhador, para que a sua mensagem seja escutada quando se veja que “o rei vai nu”.
Esse trabalho de explicação paciente, que desespera alguns impacientes, é o único fecundo. Como dizia Red Roja no seu último Comunicado [6], “a ambiguidade apenas serve para a desmoralização e a derrota. Está a confirmar-se que é muito menos útil do que falar claro e que nos faz perder um tempo precioso. A vitória só poderá decorrer da conjugação de uma linha revolucionaria com a máxima solidariedade internacionalista. E há que prepará-la desde já. ¿Acaso Ítaca não é tanto aquela ilha “longínqua” como o objectivo de lá chegar?”

[1] http://redroja.net/index.php/comunicados/831-el-mito-de-la-vuelta-al-estado-del-bienestar-otro-capitalismo-es-imposible
[2] http://redroja.net/in dex.php/noticias-red-roja/noticias-cercanas/1910-informe-de-red-roja-sobre-la-ley-organica-22012-el-final-de-cualquier-soberania-y-el-arma-de-destruccion-masiva-de-los-servicios-publicos
[3]  No caso da alemã Die Linke (A Esquerda) as pressões recrudesceram face à possibilidade de o seu ascenso eleitoral lhe permitir governar em determinados länder com o SPD, e concretizaram-se na necessidade de eliminar o seu apoio à causa palestina para passar a  apoiar o “direito de Israel a defender-se” e evitar assim ser acusada de “anti-semita”. Num comunicado de 2011 a organização citada afirmava: “Não participaremos em iniciativas sobre o conflito do Médio Oriente que façam apelo à solução de um Estado para Palestina e Israel, ou à implementação de boicotes contra produtos israelitas, ou inclusivamente na Flotilha deste ano para Gaza”. http://redroja.net/index.php/noticias-red-roja/opinion/2789-las-tareas-de-la-izquierda-revolucionaria-ante-podemos-y-otras-opciones-electorales
[4] http://www.annanoticies.com/wp-content/uploads/valenexit2.gif
[5] http://elpais.com/elpais/2015/07/18/opinion/1437241765_050702.html
[6] http://redroja.net/index.php/comunicados/3539-el-pueblo-griego-necesita-un-no-pero-doble

 

domingo, 9 de agosto de 2015

DOSSIÊ VINTE ANOS SEM FLORESTAN FERNANDES (artigos, trabalhos acadêmicos, entrevistas e vídeos)

Homenageando FLORESTAN FERNANDES - falecido em 10 de agosto de 1995 - marxismo21 publica um novo e extenso dossiê sobre a produção teórica e a trajetória deste pensador.

Acesse o dossiê clicando no link abaixo:

Florestan Fernandes figura entre os mais destacados marxistas brasileiros, não só por seu rigor teórico e pela abrangência e originalidade de sua obra, mas também por seu compromisso militante com uma ciência social crítica. Ao longo de cinco décadas Florestan Fernandes buscou articular, direta e indiretamente, pesquisa, reflexão e consciência crítica com engajamento politico e social, estabelecendo um diálogo rico e inovador entre o marxismo e outras contribuições teóricas. Como professor, pesquisador, militante e politico profissional Florestan foi um intelectual socialista vinculado às lutas sociais e aos interesses dos “de baixo”, resgatando historicamente a organização social das sociedades indígenas, denunciando a situação social dos negros e despossuídos, analisando a dinâmica, os limites e as contradições do Estado e do capitalismo no Brasil, apontando os desafios e os impasses das lutas sociais em favor de profundas transformações sociais.

sábado, 8 de agosto de 2015

“Vargas foi o principal responsável pela extradição de Olga”, afirma Anita Prestes

No aniversário de oito décadas do levante antifascista no Brasil, filha de Luís Carlos e Olga revisita o episódio que levou à extradição de sua mãe


Por Michelle de Mello,
Colaboração para o Brasil de Fato

Há exatos 80 anos, Luís Carlos Prestes, líder tenentista ingresso no Partido Comunista, comandou uma tentativa de levante contra o governo de Getúlio Vargas. O episódio foi batizado pela História como Intentona Comunista, ou Revolta Vermelha de 35.

A mobilização fazia parte de um movimento amplo, a Aliança Nacional Libertadora, que buscava enfrentar o fascismo crescente em território brasileiro. O não sucesso da Intentona trouxe suas consequências: a prisão de Prestes e Olga Benário, sua companheira. Em 1936, Olga seria extraditada para a Alemanha nazista. Sua história seria retratada em livro e no cinema.

Filha de Olga e Luís Carlos, nascida em 1936, no campo de concentração de Barninmstrasse, Anita Leocádia Prestes, professora de história aposentada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), traz sua versão dos levantes populares brasileiros de 1935, que resultaram na extradição e morte de sua mãe.

Anita Leocádia Prestes | Foto: Juliana Bublitz/Zero Hora
Brasil de Fato - Alguns pesquisadores afirmam que a deportação de Olga aconteceu apenas por pressão de Filinto Müller, que Vargas não teria influenciado nessa decisão. Qual sua opinião?

Anita Leocádia Prestes - Minha opinião é a mesma do meu pai. Filinto Müller era um chefe de polícia subordinado a Getúlio Vargas, então ele não faria isso sem o seu aval. Além disso, o que aconteceu foi uma extradição totalmente ilegal, pois ela era esposa de um brasileiro e esperava um filho dele. Sabemos que também que foi uma operação clandestina, não há nenhum decreto de extradição. Então fica claro que Vargas foi o principal responsável pela operação. Meu pai sempre dizia que essa foi a maneira que ele teve de torturá-lo, já que após a Coluna ele tinha muito prestígio no Brasil e internacionalmente, portanto agredi-lo fisicamente seria muito escandaloso para o governo.

Muitos livros afirmam que a vinda de Prestes e Olga para o Brasil foi uma tarefa do Comitê Central do Partido Comunista Soviético para construir a Revolução na América Latina, iniciando pelo nosso país. Você concorda com essa interpretação?

Prestes e Olga não vieram construir a revolução socialista no Brasil. Ele veio por vontade própria, por perceber que havia um avanço do fascismo no país. Dmitri Manuilski tentou convencê-lo de permanecer em Moscou, por prezar pela sua vida e segurança, mas ele quis ir mesmo assim. Por isso, o secretário-geral da III Internacional deu a importante tarefa técnica a Olga: fazer a segurança de Prestes. Aqui, como presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora (ANL), mesmo na clandestinidade, ele defendia as bandeiras: contra o monópolio, latifúndio, fascismo e o integralismo. Fica claro que Prestes veio ao Brasil para tentar derrotar a Ação Integralista Brasileira, criada em 1932, e instaurar um governo democrático, através da ANL.

A partir da obra Olga de Fernando Morais foi criado um filme, indicado ao Oscar em 2005. Você concorda com a narrativa e os dados abordados? Você acredita que o filme e o livro contribuíram para difundir a história de Olga e dos comunistas no Brasil?

Há uma grande diferença entre o livro e o filme, embora a película seja baseada na obra escrita. O livro era considerado muito bom pelo meu pai. Morais apesar de ser jornalista fez um trabalho de historiador. Pesquisou em todas as fontes possíveis, comparou documentos. Foi aos principais arquivos sobre a vida dela, na Alemanha, União Soviética, Israel, Inglaterra, Estados Unidos e no Brasil. Ele também foi o primeiro pesquisador que teve acesso aos processos do Tribunal de Segurança Nacional, que hoje são abertos ao público, mas na época eles eram confidenciais. Ele transmite uma imagem verdadeira de Olga. Já o filme, o próprio diretor, Jayme Monjardim afirmou em entrevistas que ele não estava interessado na história, nem na política ou em Prestes. O que ele queria era retratar uma história de amor que achou muito bonita. O filme não aborda pontos fundamentais, como a campanha Prestes. Dirigida por minha avó, Leocádia, para a libertação dos presos políticos brasileiros, como também a minha e de Olga. Além disso, o filme acaba com Olga sendo morta na câmara de gás, não mostra que apesar de tudo, as forças democráticas e em particular, a União Soviética, venceram o fascismo. Mesmo com as críticas, acredito que ele desempenhou um papel positivo, afinal foi visto por cerca de 4 milhões de pessoas no Brasil, que antes não poderiam ter contato com a história de Olga e Prestes.

Como você analisa o episódio que mais tarde foi chamado por muitos pesquisadores como Intentona Comunista?

Eu repudio o termo Intentona Comunista. Esse é um estereótipo criado pela direita no Brasil, um ano depois dos acontecimentos, para produzir uma imagem ruim do movimento. A terminologia correta seria Levantes Anti-fascistas. À época existiam várias ações contra o fascismo, que desembocaram na criação da ANL, a maior frente ampla que existiu no Brasil, chegou a ter 100 mil membros, entre eles sindicalistas, estudantes e militares, além de ser um movimento em que Prestes era a grande liderança. Os comunistas fizeram uma avaliação, que hoje, podemos analisar como totalmente falsa da realidade brasileira. Com o prestígio do Prestes nos quartéis, os dirigentes do PC realmente acreditavam que um chamado dele faria os militares se levantarem em revolta. Por outro lado, a direção do PCB estava na mão de pessoas muito aventureiras, como o famoso Miranda, que contava várias mentiras sobre a inserção do Partido no país. Uma coisa é o povo ir para a rua aplaudir Prestes, outra coisa é ele participar de um levante revolucionário. 

Além disso, mais tarde se descobriu que o agente Gruber era infiltrado da inteligência inglesa, então Getúlio sabia dos levantes. Na verdade, o que eles fizeram foi um gesto heroico.  


“El marxismo es una crítica de lo existente y un proyecto de sociedad más justa y libre”

Entrevista a Adolfo Sánchez Vázquez por Diana Fuentes

La presente entrevista formó parte del proyecto de investigación de mi tesis de licenciatura y me fue amablemente concedida por el Doctor Adolfo Sánchez Vázquez el 31 de marzo de 2004, quien además revisó y corrigió personalmente su transcripción.


1- Cuando escribe su Filosofía de la Praxis, ¿cuáles son las influencias teóricas que se expresan ella?

La influencia primera y determinante es la de Marx, particularmente sus trabajos de juventud, de los que obtengo, sobretodo, la concepción del hombre como ser práctico y creador1. Esta es la fuente fundamental. Otras que pudieran influirme son de dos tipos: unas fuentes, anteriores, son las del marxismo de los años veintes, representado por el joven Lukács de Historia y conciencia de clase2, obra que me impresionó extraordinariamente; al igual que otra obra también importante de la época que me influyó bastante: la de Karl Korsch Marxismo y Filosofía3. Pero, además, de estas influencias o motivaciones teóricas, está también la de una corriente, que ya se daba en la Europa occidental e incluso dentro del propio movimiento comunista mundial, y que ponía en crisis, en cuestión, todo el marxismo ortodoxo tradicional. Me refiero particularmente a los trabajos de Henri Lefebvre en Francia4, y a los de los marxistas italianos5. Todo este material me sirvió de base, y, en cierto modo, influyó en la elaboración de mi Filosofía de la Praxis6

2- Me interesa saber si hubo alguna influencia en particular de la obra de Antonio Gramsci.

 Había, en verdad, una influencia un tanto general, un tanto vaga, dado que yo tenía cierta idea del pensamiento de Gramsci; pero en realidad cuando empecé a elaborar mi Filosofía de la Praxis no tenía un contacto directo con su obra; así, pues, no pude beneficiarme de la aportación que ya representaba Gramsci, en la elaboración de mi obra, sobre todo en la primera edición.

3- En este sentido, otra influencia con la que se le pudiera vincular es la del grupo yugoslavo “Praxis”7, ¿usted ya lo conocía?
 
No, con el grupo “Praxis” me ocurrió algo parecido a lo que me sucedió con Gramsci. Aunque íbamos por un camino teórico un tanto paralelo, al elaborar mi Tesis de doctorado, que sirvió de base para la primera edición de 1967, yo no tenía contacto alguno con el grupo, aunque de él tenía un conocimiento lejano y algunas referencias de su actividad. Fue posteriormente, cuando ya se había publicado la primera edición de mi libro, que entré en contacto con el grupo y llegué a tener una relación bastante directa con él, hasta el punto de asistir a varias de las reuniones que llevaban a cabo en la isla de Korçula cada año. Aunque el grupo “Praxis” compartía con el marxismo oficial dominante en Yugoslavia una actitud crítica ante el marxismo soviético; este grupo representaba una posición más crítica, más radical, que la de la filosofía que dominaba en las universidades yugoslavas. Por ello, tuvo problemas e incluso los representantes más destacados del grupo fueron expulsados de las universidades. Tuve, pues, una relación bastante directa con ellos. Hasta el punto de que por iniciativa de Gajo Petrovich, se tradujo al serbocroata mi Filosofía de la Praxis, en su segunda edición. 

4- Entonces, ¿podemos afirmar que se trata de desarrollos autónomos?

 Sí, autónomos. Incluso en la segunda edición de la Filosofía de la Praxis de 1980, al referirme al grupo, marco ya cierta distancia desde mi concepción de la Filosofía de la Praxis.

5- Cuando usted establece en su obra Filosofía de la Praxis esta relación entre teoría y práctica, ¿podríamos decir que la práctica sirve a la teoría como criterio epistemológico?

 Sí, creo que hay que darle un estatus importante y central, pero sin considerarla como autónoma con respecto a la teoría; es decir, no podemos concebir la práctica sin estar fecundada por la teoría. Y la fecunda en cuanto que establece sus fines y objetivos y fundamenta la su razón; y en cuanto que sirve de criterio de verificación de la práctica. De manera que se trata de una relación indisoluble. La teoría, ciertamente, la teoría que a nosotros nos interesa para una práctica revolucionaria, es inseparable de la práctica, pero, a su vez esta práctica es inseparable de la teoría. Lo cual no ignora, naturalmente, que cierto tipo de teorías, las teoría idealistas, tienden justamente a autonomizarse o independizarse de la práctica.

6- Usted plantea en la Filosofía de la Praxis que la teoría mantiene una relación de autonomía relativa con la práctica, creándose así una autonomía positiva. Pero, cuando la teoría no tiene como objetivo un fin práctico, ¿se trata entonces de una teoría negativa?
 
 Ciertamente, una teoría que se desliga de la práctica, cae justamente en el abstraccionismo, en el universalismo abstracto. Y, si se trata de una teoría que postula también la necesidad de una transformación social, puede caer en la utopía o en el diseño de una práctica impotente. Tales serían los efectos negativos de una teoría que se desliga de la práctica. En este sentido, podríamos hablar de una teoría en un sentido negativo, pero, claro está, la teoría que a nosotros nos interesa es la teoría en sentido positivo.

 La teoría es tan importante que sin ella, como decía Lenin, no puede haber una práctica revolucionaria. Y esto se desprende claramente de la Tesis XI de Marx sobre Feuerbach. Marx nunca ha subestimado el papel de la teoría; por el contrario, la teoría es importantísima, pero, desligada de la práctica, se convierte en un factor

7- Algunos autores han afirmado que su Filosofía de la Praxis hace de la práctica política y de la unión entre teoría y práctica, algo que en los hechos resulta imposible de concretar, ¿qué respondería a estas críticas?

 En primer lugar, esta unión entre la teoría y la práctica es siempre relativa, nunca puede ser absoluta, ya que tiene que estar mediada por determinadas condiciones y circunstancias. Por tanto, nunca puede darse una armonía totalmente satisfactoria entre la teoría y la práctica. Unas veces la teoría va a la zaga de la práctica, y otras veces es la práctica la que va a la zaga e incluso hay prácticas negativas. De manera que, establecida la necesidad de la unidad entre teoría y práctica, esta unidad no puede absolutizarse.

8- A partir de sus estudios sobre sus Manuscritos del 44 de Karl Marx, usted afirma que el marxismo –el marxismo que se desprende de Marx–, se integra por dos aspectos: uno ideológico y otro científico. ¿Cuáles son los aspectos ideológicos en Marx?

He señalado no dos sino cuatro aspectos. Uno de ellos, el de la crítica de la realidad existente, fundamentalmente la del capitalismo. La crítica de esta sociedad expresa una inconformidad con ella y, por tanto, la necesidad de una alternativa para resolver o superar los males sociales que se critican. Así, pues, el marxismo es, en primer lugar, una crítica de lo existente, y, en segundo término, un proyecto de sociedad más justa, más libre, etc. Como alternativa a la sociedad criticada, este proyecto implica una concepción de la sociedad futura regida por ciertos fines y valores. En ese sentido podemos hablar de un aspecto que por los valores y los fines que se propone, constituye el aspecto propiamente ideológico o valorativo del marxismo. Es justamente su proyecto de transformación donde aparece sobre todo el contenido ideológico del marxismo. En tercer lugar el marxismo es un conocimiento de la realidad que se pretende transformar, pues de no serlo estaríamos en el terreno de los socialistas utópicos: en el de buenos proyectos que no se fundamentan racionalmente. Y, en cuarto lugar, está la vocación práctica necesaria para llevar a cabo el proyecto de transformación. Si bien lo que llamo el aspecto ideológico o valorativo es consustancial con el marxismo, éste no puede reducirse, obviamente, a trazar ese proyecto cargado de ideología, sino que necesita conocer la realidad a transformar y de ahí la necesidad del aspecto científico del marxismo. 

9- ¿Podríamos hablar, entonces, de ideologías positivas e ideologías negativas?

  Esta es una cuestión de la que me he ocupado ya ampliamente en una polémica con el Doctor Luis Villoro. A mi modo de ver, la ideología puede concebirse en dos sentidos: uno que es el más propiamente abordado por Marx, la ideología en un sentido limitado; como conciencia falsa, como una visión deformada de la realidad, deformada por los intereses de la clase social correspondiente. En este sentido maneja Marx el concepto de ideología, refiriéndose naturalmente a la ideología dominante en su época: la ideología burguesa. Y con respecto a ella, Marx caracteriza la ideología como conciencia falsa, pervertida, deformada, etc. Tal es el concepto estrecho o limitado de ideología, un concepto que considero válido. Ahora bien, pienso también que en toda lucha emancipatoria hay un contenido ideológico constituido justamente por los ideales, los valores y principios que se pretenden realizar. Si nos quedáramos con el concepto estrecho de ideología como el único aceptable, carecería de sentido hablar de ideología proletaria, socialista, pues sería un contrasentido decir que la ideología, en esos casos, es una visión deformada, limitada, perturbada de la realidad. Creo, por ello, que se hace necesario ampliar el concepto limitado de ideología y darle un sentido amplio. Este sentido amplio ya lo manejó Lenin y, en cierto modo, también se podría documentar en algunos textos de Marx. 

10- Sobre sus lecturas de la obra de Antonio Gramsci, ¿qué opinión le merece su concepto de hegemonía y la idea de que el consenso, la hegemonía ideológica, es previo inclusive a la toma del poder?

 Es una idea muy importante, que, en cierto modo, rompe con la teoría tradicional que vincula el proceso radical de transformación con una ruptura radical en un momento determinado. Me parece una aportación importante, muy digna de tener en cuenta, entendida en el sentido de que el dominio que ha de llevar a un cambio del poder es incluso previo a la toma o al acceso al mismo. De ahí la importancia que da Gramsci a los factores culturales o ideológicos. Por ello, pienso que el concepto de hegemonía es muy fructífero y que, en cierto modo, representa una valiosa aportación con respecto a la concepción del marxismo tradicional sobre este punto.

11- Y, sin embargo, usted ha señalado también que Gramsci carga con demasiada subjetividad y que elimina este aspecto que usted considera muy importante: el científico del marxismo.

 Sí, sin suscribir totalmente la crítica de Althusser creo que hay que reconocer que Gramsci carga el acento, demasiado, en el factor subjetivo, y que hay en él una cierta subestimación de los factores objetivos que requieren naturalmente, un conocimiento de la realidad, y por tanto, del aspecto científico del marxismo.

12- Por último, en una entrevista que usted concedió en el año de 1984, publicada posteriormente Cuadernos Políticos en 1985, se le preguntaba, en ese momento, qué elementos del marxismo consideraba vigentes y qué otros consideraba caducos o inadecuados. Me interesa formular nuevamente esta pregunta a veinte años de dicha entrevista, en el contexto mundial de los cambios históricos que se han sufrido de 1984 a la fecha. ¿Qué le parece vigente y caduco en el marxismo, hoy día?

Bueno, no recuerdo exactamente los puntos que señalaba en ese terreno, pero recuerdo que yo ya señalaba, y creo que la realidad no ha hecho mas que confirmar, que la tesis de Marx del proletariado como sujeto exclusivo y central de transformación radical de la sociedad, no se ha verificado en la realidad, que, a medida que avanzamos históricamente, vemos el papel que desempeñan otros sujetos sociales, contradiciendo precisamente la tesis marxiana de la exclusividad y centralidad del proletariado.

Otro aspecto que habría que subrayar y superar, es el reduccionismo de clase que encontramos en Marx. Aunque sigue siendo válida, a mi juicio la Tesis marxiana de que las contradicciones esenciales del capitalismo son contradicciones de clase, y, reconocido el importante papel de esa contradicciones y de la lucha de clases, vemos que todo el proceso histórico posterior nos muestra la existencia de otras contradicciones de carácter nacional, racial, de género, religioso, generacional, étnico, etc. Justamente con base en esta pluralidad de contradicciones, podemos tener también, en nuestros días, una visión del sujeto histórico que deje atrás el exclusivismo con el que lo pensaba Marx. Ciertamente, hoy vemos toda una serie de sujetos interviniendo en los movimientos sociales contra el capitalismo globalizador. Esto corresponde a la realidad objetiva actual. Para Marx el problema fundamental era atender a las aspiraciones de la clase más explotada y más oprimida: el proletariado; los males que engendraba el capitalismo se veían casi exclusivamente con relación a esta clase. Hoy vemos que el capitalismo al agravar, con su propio desarrollo, todos sus males y crear otros nuevos, amenaza no solamente los intereses y aspiraciones de la clase en la que Marx fijaba entonces su atención, sino los de los más diversos sectores sociales: mujeres, jóvenes, etnias, clases medias, etc. Y no solamente los de ellos, pues el desarrollo tecnológico orientado por el lucro, la ganancia, la rentabilidad, amenaza a la supervivencia misma de la humanidad. Hoy es posible lo que Marx ni siquiera podía imaginar: la posibilidad de un cataclismo ecológico, de un holocausto nuclear, de un desarrollo caótico o incontrolado de la ingeniería genética. Justamente, porque hoy están en juego los intereses y aspiraciones de la mayoría de la sociedad, de los más amplios sectores sociales e incluso de toda la humanidad; la lucha contra el capitalismo no es patrimonio de una clase determinada sino de toda la humanidad. Este carácter anticapitalista es el que se pone de manifiesto en el movimiento antiglobalizador y contra la guerra de nuestros días, aunque en estos movimientos todavía no se defina, o no haya una conciencia en la alternativa social al capitalismo. Pero lo que sí está claro con estos movimientos es que ya no es sólo una clase la que se enfrenta al capitalismo, sino todo un conglomerado o conjunto de clases y sectores sociales, justamente porque el capitalismo depredador amenaza a todos. 
 
13- Y, ¿esto significa que el sujeto histórico de Marx, el proletariado, se disuelve en este conglomerado?

 Creo que a la clase obrera le corresponde un papel importante, aunque no lo desempeñe hoy, justamente por el peso que tiene en la vida económica de la sociedad, y, por tanto, en la transformación de ella; pero obviamente sin excluir, ni rebajar el papel activo de otros sectores, clases y fuerzas sociales.

 NOTAS
1 En el texto El joven Marx. Los manuscritos económico filosóficos de 1844, reeditado por última ocasión en 2003, Sánchez Vázquez delimita con claridad cuáles son las obras fundamentales del periodo de juventud de Marx sobre las que desarrolla su trabajo. Éstas son los Manuscritos económico-filosóficos de 1844, los Cuadernos de París y las Tesis sobre Feuerbach; lo que no significa, por supuesto, que no tuviera en consideración obras muy importantes, relacionadas con el mismo periodo, como son la Crítica a la filosofía del derecho o la Ideología alemana.
2 Historia y consciencia de clase se publica en 1923. La obra reúne textos que Lukács había elaborado desde 1919, entre ellos destaca el ensayo titulado La cosificación y la consciencia del proletariado. Tal como reconoció después el autor, la influencia de Simmel, de Weber, de Dilthey, de Sorel, de Luxembug, pero fundamentalmente de Hegel marcan el sentido general de esta obra. En sus palabras, Historia y consciencia de clase significó el intento acaso más radical de reactualizar lo revolucionario de Marx mediante una renovación y continuación de la dialéctica hegeliana. La disposición central de la subjetividad en la configuración de la teoría revolucionaria y la categorización de la cosificación capitalista fueron las consecuencias más profundas de la explosiva publicación de este texto en la década de los años veinte.
3 Marxismo y filosofía, también publicado en 1923, es –a decir del propio Sánchez Vázquez en el prólogo que preparó para la edición de ERA en 1971– “El intento de Korsch de restablecer las relaciones entre marxismo y filosofía y, con ellas, de la teoría y la praxis, desembocaba así en una oposición irreductible entre su interpretación del marxismo, como unidad indisoluble de teoría y praxis, y el marxismo científico-positivista o materialista predialéctico que negaba esa unidad”.
4 Lefebvre fue el traductor y editor de los Manuscritos econonómicos-filosóficos de 1844 al francés –primera edición del texto a una lengua distinta al ruso y el alemán–. Su magna obra Materialismo dialéctico, fue escrita entre 1934-35 .
5 Entre los maristas italianos destacan: Antonio Labriola que conceptualizó como filosofía de la praxis al núcleo vital y epistémico del marxismo en su Dilucidaciones preliminares sobre el materialismo histórico, 1897, y Giovanni Gentile que escribió La filosofía de Marx en 1899, texto en el que, desde las Tesis sobre Feuerbach, se sostenía que la praxis humana es el agente último de la historia.
6 En1967 se publicó la primera edición del texto Filosofía de la praxis, que era resultado del trabajo de la tesis doctoral de Sánchez Vázquez, y, más de una década después, 1980, se publicó una segunda edición con algunos cambios que buscaban actualizar el texto. En el prólogo a la edición de 1980, Sánchez Vázquez señala sobre la primera edición de la obra que sus objetivos fueron: primero, deslindar el marxismo del que filosóficamente lo reducía a una interpretación más del mundo; segundo, marcar distancias respecto de un marxismo cientificista; y, por último, revalorizar el contenido humanista del marxismo.
7 En la todavía Yugoslavia, un grupo de filósofos –Gajo Petrovic, Mihailo Mardovik, Milan Kangrga, Rudi Supek, entre otros– se articularon en torno a la revista Praxis desde mediados de la década de los sesenta. Su postulado central, reconoce el propio Sánchez Vázquez, fue que el hombre es esencialmente el “ser de la praxis”, capaz de desplegar una actividad libre, creadora, para transformar el mundo.