segunda-feira, 26 de agosto de 2013

"Eu tenho um Sonho": 50 anos da Marcha sobre Washington



Nesta quarta-feira, 28/8, os EUA celebram os 50 anos da Marcha sobre Washington, quando o jovem pastor Martin Luther King (1929-68) fez seu mais famoso discurso, "Eu tenho um sonho", diante de 250 mil pessoas.

A marcha de Luther King foi a maior cobrança por direitos civis --dez meses depois, o presidente Lyndon Johnson assinou lei que, na prática, proibiria segregação em locais públicos e privados e, em 1965, a lei de direito ao voto, que derrubou artimanhas que dificultavam registro de negros como eleitores.

Em 1964, Luther King, aos 35 anos, seria o mais jovem premiado com o Nobel da Paz.

No ano de 1955, a costureira Rosa Parks se negou a ceder seu lugar a um passageiro branco em um ônibus segregado em Montgomery, Alabama, e foi presa --o que detonou a luta dos movimentos civis.

Leia íntegra do discurso feito por Martin Luther King na Marcha sobre Washington, em 1963

MARTIN LUTHER KINGWASHINGTON, 28 DE AGOSTO DE 1963
Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a história como a maior manifestação pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a proclamação da emancipação [dos escravos]. Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro.

Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana, como exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda.

Em certo sentido, viemos à capital de nossa nação para sacar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república redigiram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, assinaram uma nota promissória de que todo americano seria herdeiro. Essa nota era a promessa de que todos os homens, negros ou brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade.

É evidente hoje que a América não pagou esta nota promissória no que diz respeito a seus cidadãos de cor. Em lugar de honrar essa obrigação sagrada, a América deu ao povo negro um cheque que voltou marcado "sem fundos".

Mas nós nos recusamos a acreditar que o Banco da Justiça esteja falido. Nos recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes depósitos de oportunidade desta nação. Por isso voltamos aqui para cobrar este cheque --um cheque que nos garantirá, a pedido, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.

Também viemos para este lugar santificado para lembrar à América da urgência ferrenha do agora. Não é hora de se dar ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo. Agora é a hora de fazermos promessas reais de democracia. Agora é a hora de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o caminho ensolarado da justiça racial. É hora de arrancar nossa nação da areia movediça da injustiça racial e levá-la para a rocha sólida da fraternidade. Agora é a hora de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação passar por cima da urgência do momento e subestimar a determinação do negro. Este verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará enquanto não chegar um outono revigorante de liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo.

Os que esperam que o negro precisasse apenas extravasar e agora ficará contente terão um despertar rude se a nação voltar à normalidade de sempre. Não haverá descanso nem tranquilidade na América até que o negro receba seus direitos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a abalar as fundações de nossa nação até raiar o dia iluminado da justiça.

Mas há algo que preciso dizer a meu povo posicionado no morno limiar que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso lugar de direito, não devemos ser culpados de atos errados. Não tentemos saciar nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura e do ódio.

Temos de conduzir nossa luta para sempre no alto plano da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar nosso protesto criativo degenerar em violência física. Precisamos nos erguer sempre e mais uma vez à altura majestosa de combater a força física com a força da alma.

A nova e maravilhosa militância que tomou conta da comunidade negra não deve nos levar a suspeitar de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos, conforme evidenciado por sua presença aqui hoje, acabaram por entender que seu destino está vinculado ao nosso destino e que a liberdade deles está vinculada indissociavelmente à nossa liberdade.

Não poderemos caminhar sozinhos.

E, enquanto caminhamos, precisamos fazer a promessa de que caminharemos para frente. Não poderemos retroceder. Há quem esteja perguntando aos devotos dos direitos civis: Quando vocês ficarão satisfeitos?'. Jamais estaremos satisfeitos enquanto o negro continuar sendo vítima dos desprezíveis horrores da brutalidade policial.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados da fadiga de viagem, não puderem hospedar-se nos hotéis de beira de estrada e nos hotéis das cidades. Não estaremos satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for apenas de um gueto menor para um maior. Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossas crianças tiverem suas individualidades e dignidades roubadas por cartazes que dizem exclusivo para brancos'.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova York acreditar que não tem nada em que votar.
Não, não estamos satisfeitos e só ficaremos satisfeitos quando a justiça rolar como água e a retidão correr como um rio poderoso.

Sei que alguns de vocês aqui estão, vindos de grandes provações e atribulações. Alguns vieram diretamente de celas estreitas. Alguns vieram de áreas onde sua busca pela liberdade os deixou feridos pelas tempestades da perseguição e marcados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês têm sido os veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor.

Voltem ao Mississippi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à Louisiana, voltem aos guetos e favelas de nossas cidades do norte, cientes de que de alguma maneira a situação pode ser mudada e o será. Não nos deixemos atolar no vale do desespero.

Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho.

É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá em realidade o verdadeiro significado de seu credo: Consideramos essas verdades manifestas: que todos os homens são criados iguais'.

Tenho um sonho de que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade.

Tenho um sonho de que um dia até o Estado do Mississippi, um Estado desértico que sufoca no calor da injustiça e da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e de justiça.

Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter.

Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho de que um dia o Estado do Alabama, cujo governador hoje tem os lábios pingando palavras de rejeição e anulação, será transformado numa situação em que meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas e caminharem juntos, como irmãs e irmãos.

Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho de que um dia cada vale será elevado, cada colina e montanha será nivelada, os lugares acidentados serão aplainados, os lugares tortos serão endireitados, a glória do Senhor será revelada e todos os seres a enxergarão juntos.

Essa é nossa esperança. Essa é a fé com a qual retorno ao Sul. Com esta fé poderemos talhar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar os acordes dissonantes de nossa nação numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé podemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, ir à cadeia juntos, defender a liberdade juntos, conscientes de que seremos livres um dia.

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com novo significado:"["Meu país, é de ti, doce terra da liberdade, é de ti que canto. Terra em que morreram meus pais, terra do orgulho do peregrino, que a liberdade ressoe de cada encosta de montanha".

E, se quisermos que a América seja uma grande nação, isso precisa se tornar realidade.

Então que a liberdade ressoe dos prodigiosos picos de New Hampshire.

Que a liberdade ecoe das majestosas montanhas de Nova York!

Que a liberdade ecoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!

Que a liberdade ecoe das Nevadas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ecoe das suaves encostas da Califórnia!

Mas não só isso --que a liberdade ecoe da Montanha de Pedra da Geórgia!

Que a liberdade ecoe da Montanha Sentinela do Tennessee!

Que a liberdade ecoe de cada monte e montículo do Mississippi. De cada encosta de montanha, que a liberdade ecoe.

E quando isso acontecer, quando deixarmos a liberdade ecoar, quando a deixarmos ressoar em cada vila e vilarejo, em cada Estado e cada cidade, poderemos trazer para mais perto o dia que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestante e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, "livres, enfim! Livres, enfim! "Louvado seja Deus Todo-Poderoso. Estamos livres, enfim!"


FONTE: Folha de São Paulo, 25 de agosto de 2013.

sábado, 24 de agosto de 2013

A atualidade de Marx - Ricardo Antunes

Palestra proferida na UNESP de Marília dia 16 de agosto de 2013, no período da noite, durante a mesa redonda: "A atualidade de Marx", realizada no encerramento do V Seminário Internacional Teoria Política do Socialismo que teve como tema "Marx: Crise do Capitalismo e Transição".





CIA assume envolvimento no golpe de Estado no Irã em 1953

Os serviços secretos americanos reconheceram publicamente que estiveram diretamente envolvidos no golpe de Estado que derrubou o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh, democraticamente eleito em 1951. O ex-primeiro-ministro queria o controle público dos recursos naturais do país, como o petróleo, o que lhe valeu muitas inimizades no Ocidente.

A CIA reconheceu explicitamente que esteve por detrás do golpe de Estado que derrubou o primeiro-ministro iraniano Mohamed Mossadegh em 1953, segundo documentos publicados no passado domingo pelo Arquivo da Segurança Nacional.

Ainda que a agência tenha já difundido uma versão da sua intervenção nesses acontecimentos em 1981, esta é a primeira vez que se faz referência concreta ao seu envolvimento no planejamento e na execução do golpe.

O nome de código da operação da CIA era TPAJAX e nunca tinha sido mencionada nos documentos revelados pela agência em 1981. “As participações do Reino Unido e dos Estados Unidos sempre foram do domínio público e está bem documentada, mas esta é a primeira vez que a CIA reconhece que ajudou a criar e a levar a cabo o golpe de Estado”, assinala o Arquivo.

A operação TPAJAX incluía o uso de propaganda para minar a credibilidade política de Mossadegh, com a colaboração do Xá, o suborno a vários membros do Parlamento, a organização de forças de segurança e a incitação a manifestações e protestos.

A iniciativa prevista em TPAJAX falhou, mas finalmente todos que de alguma maneira compartilhavam o interesse em derrubar o primeiro-ministro, conseguiram coordenar e juntar as suas forças com sucesso a 19 de agosto.

“A nova propaganda acusa o primeiro-ministro de se fazer passar pelo “salvador do Irã” e admite que em vez disso construiu um amplo aparelho de espionagem para o qual capturou todos os setores da sociedade, desde o Exército à imprensa, passando por políticos e líderes religiosos. Mostram-se imagens da sua suposta aliança com os bolcheviques sob o lema: “É esta a maneira como pretendes salvar o Irã, Mossadegh? Sabemos o que queres salvar, queres salvar a ditadura de Mossadegh!”, lê-se nos documentos revelados sobre as operações de propaganda previstas no TPAJAX.

O novo papel da agência no golpe deu-se a conhecer na véspera do 60º aniversário da expulsão do poder de Mossadegh, eleito democraticamente como primeiro-ministro do Irã em 1951. O seu sucessor, o general Fazlollah Zahedi, foi imposto através de uma decisão conjunta dos serviços secretos britânicos MEU6 e da CIA.

“Aplaudimos a decisão da CIA em tornar acessível ao público estes documentos. A nova informação demonstra claramente que este material poderia se ter desclassificado perfeitamente há muitos anos sem nenhum perigo para a segurança nacional”, defende o Arquivo.

Durante muitos anos, membros da CIA asseguravam que os relatórios relativos ao sucedido no Irão nessa data tinham sido destruídos e extraviados em 1960. No entanto, nos últimos anos, várias publicações provaram o envolvimento da CIA e inclusive dois presidentes, Bill Clinton e Barack Obama, reconheceram a intervenção dos Estados Unidos da América no derrube de Mossadegh.

Violência contra a mulher: o perigo em casa

A socióloga Fátima Pacheco Jordão fala sobre estudo inédito que revela percepção de que mulheres sofrem mais violência no lar do que em espaços públicos



Patrícia Benvenuti
da Redação do Brasil de Fato

Para muitas mulheres, o lar não representa segurança nem conforto. Significa, em vez disso, medo e a possibilidade de violências. Uma das questões mais graves para as mulheres, a violência doméstica foi tema de uma pesquisa inédita realizada este ano. 

De acordo com o estudo “Percepção da Sociedade sobre Violência e Assassinatos de Mulheres”, feito pelo Data Popular e pelo Instituto Patrícia Galvão, sete em cada dez entrevistados consideram que as brasileiras sofrem mais violência dentro de casa do que em espaços públicos. 

A pesquisa, que ouviu 1,5 mil homens e mulheres em cem municípios, revelou que 54% dos entrevistados conhecem uma mulher que foi agredida pelo companheiro e 56% conhecem um homem que já agrediu a parceira. 

Já 57% acreditam que, apesar de atualmente haver mais punição para os agressores e assassinos, a forma como a Justiça pune não reduz a violência contra a mulher. 

Um dos aspectos mais preocupantes da pesquisa, de acordo com a socióloga Fátima Pacheco Jordão, conselheira do Instituto Patrícia Galvão, é o medo de represálias em caso de denúncia. Para 85% dos entrevistados, as mulheres que denunciam seus maridos correm mais risco de serem assassinadas. “Não é apenas uma ameaça do mais forte em relação ao mais fraco, é uma ameaça extrema”, afirma. 

A pesquisa foi lançada em agosto, mês em que se completaram sete anos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), que prevê medidas de proteção à mulher vítima de violência. Sobre a lei, o estudo revelou que 98% conhecem a Lei Maria da Penha. Entretanto, 32% afirmam terem apenas ouvido falar da lei, sem conhecer detalhes da legislação. 

Para Fátima, o índice é preocupante e evidencia uma falha do Estado. “É responsabilidade do Estado, dos governos federal, estaduais e municipais darem transparência a essa lei. Não adianta ter lei se ela não é exercitada”, ressalta. Em entrevista ao Brasil de Fato, a socióloga repercute os resultados da pesquisa e os desafios para pôr fim à violência doméstica no país. 

Brasil de Fato – Quais as principais conclusões desse estudo, na sua opinião? 
Fátima Pacheco Jordão – Já foram feitas muitas pesquisas mostrando a preocupação da população com a violência. Esse estudo retoma esse panorama com uma diferença: mostra uma contundência do fenômeno de agressão contra as mulheres. Para se ter uma ideia, a questão do homicídio e da morte é vista como uma consequência quase provável dentre as mulheres que passam a denunciar. 
Essa pesquisa escancara um quadro muito preocupante: mais da metade das pessoas, homens e mulheres, conhecem mulheres agredidas e homens agressores, portanto a incidência do fenômeno é muito alta. Além disso, a pesquisa mostra que essa violência, percebida pelos entrevistados, atinge a todas as camadas da população, tanto as mais ricas como as mais pobres, famílias com chefes mais ou menos escolarizados. 
Em consequência disso, desse quadro de uma epidemia de violência contra as mulheres, há a percepção de que o Estado, sobretudo a Justiça, não tem estado à altura para coibir. As denúncias têm aumentado, é verdade que as mulheres estão mais autônomas e mais confiantes em denunciar, mas a resposta do Estado é mínima. Você vê que delegacias da mulher, que são consideradas a porta mais utilizada, lembrada e conhecida por 90% das pessoas, no Brasil inteiro existem 500. A grande maioria, dois terços delas, no estado de São Paulo, onde foram criadas na década de 1980. E nem sempre ou quase nunca as delegacias são bem equipadas. 
A Lei Maria da Penha prevê serviços de apoio, psicológico e jurídico, que acolham de uma maneira mais detalhada as necessidades das mulheres. Portanto, você percebe que as mulheres estão bastante desamparadas. Apesar de, nos últimos anos, [terem sido criados] equipamentos como telefones de assistência governamental e de as legislações terem melhorado muito, isso não chegou para sustar o fenômeno. 

O que mais chamou a atenção dos pesquisadores? 
O mais surpreendente é a questão dos homicídios, o medo da mulher de ser assassinada, ou seja, existe uma lógica de apreensão no sentido de que elas se sentem aterrorizadas. Não é apenas uma ameaça do mais forte em relação ao mais fraco, é uma ameaça extrema. Naturalizou-se essa ideia de que ela [mulher] pode ser assassinada. A pesquisa pode ser sintetizada em que as mulheres têm medo de morrer e vergonha de declarar, o que põe a violência contra a mulher em um patamar mais complexo, mais complicado, mais sério e que perdura mais. Não é mais percebido como incidente de passagem, uma coisa que ocorre no processo doméstico, do casamento ou da relação entre as pessoas. É uma coisa que se exercita sob o domínio do medo. 

Como você avalia o grau de consciência da sociedade hoje em relação à violência de gênero? 
Houve um avanço nos últimos anos, obviamente, e a questão dessa violência mais doméstica tem a ver justamente com esses avanços. A mulher saiu de casa, entrou no mercado de trabalho, está mais aberta, se relacionando com a sociedade, e a sociedade de uma maneira geral evoluiu para uma posição de demanda por mais equidade, igualdade em todos os aspectos, social, salarial, escolar etc. É sempre importante lembrar que os aspectos da escolaridade e da educação são dos mais equânimes da cultura brasileira. Há tantos analfabetos homens e mulheres. 
No conjunto de anos estudados, as mulheres estudam mais do que os homens, a diferença salarial, que ainda existe entre homens e mulheres, vem diminuindo. São aspectos sociais e culturais que mostram uma forte evolução das mulheres. 

De acordo com a pesquisa apenas 2% dos entrevistados nunca ouviram falar da Lei Maria da Penha. Entretanto, para 32% a lei é conhecida, mas sem qualquer tipo de detalhamento. Esse desconhecimento, na sua avaliação, prejudica a aplicação da lei? 
Ela é muito conhecida como nome de lei, porém as especificações dela são pouco conhecidas porque a própria lei tem sido aperfeiçoada e nós achamos que essa também é uma falha do Estado. É responsabilidade do Estado, dos governos federal, estaduais e municipais darem transparência a essa lei. Não adianta ter lei se ela não é exercitada. A conquista da denúncia não basta. A denúncia tem que ser qualificada. 
A mulher tem que saber que envolve um processo e que nem sempre ela pode recuar. Tem vários aspectos que é necessário que ela conheça, e o conhecimento maior da Lei Maria da Penha é um dos fatores que, para nós, pode inibir essa barbárie. 

Quais motivos levam a mulher a não denunciar? 
Elas têm basicamente medo de serem assassinadas e de serem ainda mais brutalizadas. Elas têm vergonha de, socialmente, perceberem que estão sendo agredidas e humilhadas. Além de outras questões ligadas ao cuidado com os filhos, dependência econômica em relação ao marido. Esse é um fator forte que inibe as mulheres, os filhos. Sabemos, por meio de outras pesquisas, que quando há atritos ou problemas nas famílias e elas se rompem, são as mulheres que ficam com as crianças. Essa relação mais forte e essa responsabilidade têm a ver com as mulheres. 
Além, disso há o fator psicológico da reincidência, em que depois da agressão a maioria dos homens pede desculpas, atribui a um fator externo, sobretudo bebida. As mulheres vão reiterando isso e se forma um círculo vicioso do qual elas não conseguem sair. 

A que se pode atribuir a continuidade da violência contra a mulher no Brasil? 
Basicamente é uma questão cultural. Há dois lados, de um está uma cultura patriarcal, machista, que está em xeque, e obviamente de outro, o avanço das mulheres em termos sociais e culturais, maior escolaridade, maior autonomia econômica, maior denúncia, ou seja, são todos aspectos ligados à cultura. A cultura machista fazia com que, anos atrás esse assunto fosse colocado debaixo do tapete. Uma violência que era vista no passado como uma violência doméstica, uma coisa entre marido e mulher. Mais ainda, se dizia ‘nesse cenário não se pode meter a colher porque é uma coisa privada’. 
Agora a sociedade tem noção de que essa é uma questão grave, ou seja, no conjunto da percepção de todas as violências da sociedade, a violência contra a mulher é um aspecto predominante para homens e mulheres. 

Como vocês avaliam a cobertura da imprensa em casos de crime contra as mulheres? Há alguns anos os noticiários abordaram fortemente o caso de Eliza Samúdio, ex-companheira do goleiro bruno Fernandes, e com frequência episódios do tipo são divulgados. 
Sim, e dos mais macabros possíveis. Na semana passada, teve um marido que assassinou e emparedou a mulher no muro da casa [caso ocorrido em São Paulo no início de agosto]. Essa questão é muito importante porque a mídia tem dado cada vez mais informações sobre isso, as mortes das mulheres são apontadas nessa direção – marido, namorado –, há casos famosos como esse do Bruno. 
No entanto, a mídia tende a definir esses casos como desvios de rota de homens ou malucos ou ciumentos ou paranoicos, e na verdade é um fenômeno social, que tem a ver com o machismo, com uma sociedade patriarcal e desigual em relação a gênero. A mídia divulga os casos, particulariza e não dá o passo a frente que é explicar o porquê. E muitas vezes, se fossem aprofundadas as razões, poderia ficar mais claro para a sociedade que essa mulher foi desamparada, não teve apoio de família, de vizinhos, da segurança pública. 

A partir do resultado da pesquisa o que o Instituto recomenda como ações prioritárias não só para os governos mas para a sociedade em geral? 
Estamos lutando por melhores e mais equipamentos de apoio às mulheres. Se esses equipamentos se multiplicarem, se as 500 delegacias passarem a ser 5 mil, e assim por diante, mais casas de assistência específica à mulher, coisa que está acontecendo em um ritmo aquém do necessário, isso em si vai apoiar as mulheres. E vai ajudar a sociedade a ver outro referencial para esse problema, que é cultural, além dos problemas pontuais de cada família, de cada mulher e de cada homem.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA EM HOMENAGEM A LUIZ CARLOS PRESTES E OLGA BENÁRIO PRESTES


O Museu Ciência e Vida em Duque de Caxias - Convida a todos para participar da Exposição Fotográfica em Homenagem a Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes, que será inaugurada no dia 28 de agosto às 10 h. NÃO PERCA – ENTRADA GRATUITA!!!


A exposição é constituída de dois segmentos:
• A Trajetória de Vida de Luiz Carlos Prestes, cujo 115º aniversário natalício está sendo comemorado este ano. Consta de 70 fotos com as respectivas legendas e de textos explicativos elaborados pela historiadora Anita Leocádia Prestes.
• Trajetória de Olga Benário Prestes, comunista alemã, companheira de Prestes, extraditada para a Alemanha nazista pelo governo Vargas, em 1936, e assassinada numa câmara de gás, em abril de 1942. Consta de 12 fotos com as respectivas legendas e de textos explicativos elaborados pela historiadora Anita Leocádia Prestes. 

Contato do Museu - tel.: (21) 2671-7797 - Facebook: museucienciaevida
Endereço: Rua Aílton da Costa, s/n - 25 de Agosto - Duque de Caxias - RJ


"De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?"


"Talvez dês esmolas. Mas, de onde as tiras, senão de suas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbulo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo. Ele te diria estas palavras corajosas: não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve a teu semelhante aquilo que reclamaste e eu te serei muito grato. De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?"
(São Gregório de Nissa, Sermão contra os Usurários, ano 330)

Citação extraída de FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 37 ed. Rio de Janeiro, 2003, p. 31, nota 2.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

“Aldeia Maracanã deve ser pensada e gerida por índios”

Urutau Guajajara defende que o Centro de Cultura Indígena, proposto pelo governo do Estado, seja administrado por índios


Vivian Virissimo,
do Rio de Janeiro (RJ)

Desde que o prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral publicaram decretos que tombam o prédio do antigo Museu do Índio, os rumos e o futuro da Aldeia Maracanã estão em disputa.
De um lado, está a proposta do governo de criar um “Centro Estadual de Estudos e Difusão da Cultura Indígena”. De outro, está o projeto, defendido por algumas etnias, de fundar as bases de uma Universidade Popular Indígena.
Nesta entrevista ao Brasil de Fato, a liderança Urutau Guajajara defende que o espaço não tenha intervenção do Estado e conta como funcionaria a Universidade Popular Indígena.

Brasil de Fato – Paes e Cabral voltaram atrás e resolveram tombar o Museu do Índio. Agora a proposta é viabilizar um Centro Estadual de Estudos e Difusão da Cultura Indígena. Qual é a sua opinião sobre este Centro?

Urutau Guajajara - Foto: Pablo Vergara

Urutau Guajajara – O Centro não pode ser estadual porque questões indígenas são questões federais. Primeiro, porque o patrimônio está no nome da União. Segundo, porque é uma questão indígena fundiária e de demarcação de um território. De qualquer forma, estamos encaminhando essa discussão em grupos de trabalho que estão debatendo o assunto. Mas é problemático um centro “estadual”.

Você defende que o Centro Indígena não tenha intervenção do Estado. Por que a autonomia dos índios é importante?
Porque essa é a chance da Aldeia Maracanã ser o primeiro patrimônio verdadeiramente indígena, pensado e gerido por índios. Nossa posição é que o Estado, prefeitura ou governo federal, venham apenas como parceiros. Reivindicamos isso porque, nesses 513 anos, nós nunca saímos da tutela do Estado. Queremos que o Estado tutele apenas nossos direitos e não o ser humano. Isto está garantido na Constituição e em várias convenções internacionais. Nós queremos administrar nosso patrimônio. Este é o início de uma reparação de danos históricos.

A Aldeia Maracanã sempre foi referência para índios de diferentes etnias e estados que se hospedavam no prédio. Porém, o governo rejeita a possibilidade de que o prédio continue servindo como moradia. Como vocês avaliam isso?
Provavelmente não será como antes, mas queremos que exista um espaço para moradia, sim. Estamos planejando viabilizar uma Universidade Popular Indígena e, com certeza, teremos alunos residentes de outros estados e vamos precisar garantir residências provisórias para estas pessoas. Não seriam moradias permanentes e esta seria uma forma de contornar a situação. De qualquer forma, já temos uma série de reuniões marcadas para debater este e outros temas.

Vocês também travam negociações com o governo federal?
Nós também negociamos com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Isto acontece porque o município pode tombar e destombar no dia seguinte. Esse tombamento aconteceu por um milagre e achamos tudo muito estranho porque o Eduardo Paes e o Sérgio Cabral nunca foram simpáticos com a gente. Na angústia de preservar a Aldeia Maracanã e evitar que o prédio fosse colocado a baixo, descobrimos que qualquer prédio anterior a 1937 automaticamente tem que ser tombado. E simplesmente o Eduardo Paes sempre rejeitou isso, mesmo existindo lei. Agora ele e Cabral mudaram de ideia. Pelo visto, milagres acontecem.

Que tipo de tombamento vocês defendem?
No Iphan estamos discutindo o tipo de tombamento que queremos: com Universidade Popular Indígena, centro indígena e, principalmente, índios. Um tombamento em que caiba o ser humano desenvolvendo atividades culturais. Na universidade teremos cursos de tupi guarani e legislação indígena, por exemplo. O nosso caso, sem dúvida, é uma situação totalmente nova para o Iphan que só está acostumado a tombar igreja. Infelizmente, o processo no Iphan está sendo muito lento.