quinta-feira, 21 de março de 2013

Anita Prestes em Fortaleza: palestra, lançamento de livro e inauguração de exposição



Exposição Prestes no Ceará
Onde: Associação 64/68 - Anistia: Rua Instituto do Ceará, 164 – ao lado da FEAAC-UFC
Quando: 22 de março, às 17h
Outras informações: 3223 6468

Lançamento do livro Luiz Carlos Prestes – o combate por um partido revolucionário (1958 - 1990)
Ano: 2012
N° de páginas: 335
Preço: R$ 25
Local: Câmara Municipal de Fortaleza: Rua Dr. Thompson Bulcão, 830 - Patriolino Ribeiro
Data: 22 de março, às 19h30
Outras informações: 3444-8361 (Gabinete do ver. João Alfredo)

Palestra com Anita Leocádia Prestes
Tema: "A Carta aos Comunistas de Luiz Carlos Prestes: antecedentes e desdobramentos".
Local: Centro de Formação Frei Humberto – Rua Paulo Firmeza, 445 – São João do Tauape.
Data: 23 de março
Hora: 8h30 às 12h
Outras informações: 3472-5572


A vinda de Anita ao Ceará é uma iniciativa de um grupo de diversas entidades e instituições: Aparecidos Políticos, Associação 64 / 68 – Anistia, Centro de Formação Frei Humberto, Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou, Desarma Brasil, Editora Expressão Popular, Instituto Caio Prado Jr., Mandato Ecos da Cidade - Ver. João Alfredo (PSOL), MST, PCB-CE, Projeto Marcas da Memória (Comissão de Anistia-Ministério da Justiça), Rede Nacional dos Advogados Populares, Sociedade dos Poetas Vivos.

Anita esteve por toda a vida dedicada à luta política, principalmente, através de sua formação como historiadora. É autora de diversos livros – entre eles Anos Tormentosos, de 2002, Os Comunistas Brasileiros (1945-1956/58), de 2010, e La Columna Prestes (em espanhol), do ano seguinte.
Em setembro de 1979, a Justiça extinguia a punibilidade da sentença que a condenou à prisão, com base na primeira Lei de Anistia no Brasil. Em 2004, recebeu a indenização de R$100 mil pela Lei de Anistia, que doou ao Instituto Nacional de Câncer.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Imagens latinas: entre Deus e o diabo

Entre o popular do Vaticano, representado por Bergoglio, e o popular bolivariano, representado por Chávez, há uma distância colossal


Por Roberta Traspadini

Dois grandes acontecimentos marcaram o sentir e o sentido político da América Latina e do mundo neste mês de março.
Por um lado, a morte de Chávez foi apresentada, pela onipotente mídia burguesa, como o fim da tirania na América Latina, restando a morte de Fidel Castro, para pôr fim ao ciclo comunista no continente.
Por outro lado, a eleição do novo papa Bergoglio é apresentada como uma “nova” relação de poder popular da Igreja Católica, cuja imagem imaculada de São Francisco de Assis aparece como a significativa tônica do que virá na ação do novo líder do Vaticano no mundo, a partir da suposta historia humanista deste sujeito com o povo argentino.
Estamos diante de duas espetaculares imagens-fetiches, midiatizadas de forma antagônica: a construção do processo venezuelano como prisão perpétua comunista, caso Chávez se mantivesse vivo e no poder; a libertação teológica franciscana, a partir da gigantesca aparição do novo Papa, cujo poder é, segundo ele mesmo, humanista e popular.
Chega a ser anedótico, o profético projeto burguês-cristão de sociedade: América Latina figura entre o diabo e o salvador. Imagens cujo sentido é fazer o povo tomar partido entre um projeto que mata (comunismo), e outro que ressuscita (cristianismo).
Dessas imagens, os donos do poder vão reconfigurando, aos poucos, através de seus meios de comunicação, um histórico dever frente a noticia, em que a produção do senso comum atinge altos níveis de perversão, criada pelos formadores críticos hegemônicos.
Por trás da morte de Chávez, encobre-se uma situação concreta de mudança social, política e cultural em que o povo venezuelano, o reelege e legitima como líder, em plena despedida física, renovando os votos políticos de participação popular. Uma constatação que não combina com a fantasia de diabo pintada pela grande mídia. Ante os fatos e o mito, aparece a típica imagem do monstro comedor de criancinhas.
Oculta-se o real e redobra-se a condição de revelar mentiras, como se fossem verdades. É o sentido crítico burguês dando a tessitura da restauração social, a partir de uma velha-nova situação política na região.
Por trás da eleição de Bergoglio, a real situação de crise da Igreja Católica na América Latina e no mundo, há décadas, é encoberta. O crescimento do ateísmo e de outras religiões, além dos fatos cotidianos de abuso de poder de padres, bispos e outros sujeitos da cúpula política do Vaticano, desaparecem enquanto fato social concreto.
O discurso de consolidação de uma política evangelizadora mais humana, representada por um líder religioso latino-americano, cuja centralidade é a de cuidar dos pobres, mostra a perigosa relação de poder manipulador da Igreja no cotidiano do povo latino-americano.
E a reprodução fetichista das imagens continua: a despedida do povo venezuelano e latino a Chávez não apareceu na mídia dominante, mas a imagem da eleição do novo Papa segue cotidianamente presente.
Deveríamos fazer algumas perguntas: Por que o processo eleitoral, democrático e popular de Chávez, quando aparece, figura como despótico? Isto não é bem diferente daquilo que ocorreu na Venezuela? Por que uma eleição, cujo processo é apresentado através da cor da fumaça, é anunciada pela grande mídia, com a maior expectativa de mudança para a humanidade? Qual o cheiro da fumaça?
Estas perguntas exigem um aprofundamento sobre o sentido da ação política no continente e o perigo de discursos que não enveredam para práticas que os legitimam.
Entre o popular do Vaticano, representado por Bergoglio, e o popular bolivariano, representado por Chávez, há uma distância colossal: o popular dos números x o popular do protagonismo social.
O popular do Vaticano está centrado no aumento do número de fieis, há décadas em queda no continente latino e no mundo. Um aumento quantitativo que espelhe a reprodução dos valores cristãos, que estejam em consonância com seu discurso antidemocrático de não participação da mulher na política, de integrar os jovens em missões evangelizadoras, e de consolidação de um projeto de sociedade que não permita questionar o dinheiro, o banco, o poder ditador da forma hierárquica como se consolida a economia e a política na história desta religião.
O popular bolivariano tem como centro retornar ao povo o que historicamente lhe foi tirado pelo domínio burguês sobre suas vidas: a participação popular na política, a retomada das empresas públicas estatais, a melhoria das condições de vida de uma sociedade perversamente desigual, além da principal ferramenta de democratização dos meios de comunicação.
Entre o mito de deuses e diabos, restam apenas seres humanos repletos de contradições. Das contradições manifestas, devemos nos posicionar a favor da historia vivida pelo povo venezuelano que, não só chora, como revigora a luta aberta por Chávez e Fidel, sobre a vital construção do projeto popular na América Latina, contra a continuidade do despótico poder divino projetado há séculos sobre o continente.

Roberta Traspadini é professora da ENFF e da UFVJM, e integrante da Consulta Popular.

terça-feira, 19 de março de 2013

Os ultramultimilionários


A relação de ultramultimilionários do mundo voltou a alcançar máximas históricas, informa a "Forbes": agora essa lista é formada por 1426 nomes com um valor patrimonial líquido de aproximadamente 5,4 trilhões de dólares. É algo inquietante. A pior crise econômica global desde a Depressão de 30 segue sem horizonte de terminar, enquanto aumenta a concentração de riqueza. O artigo é de Alfredo Zaiat, do Página/12.




As economias mais importantes do mundo estão passando pelo sexto ano de estagnação ou recessão. Estados Unidos, Europa e Japão não podem sair do atoleiro com políticas que combinam expansão monetária para resgatar bancos e restrição fiscal no âmbito social e trabalhista. Apesar dos resultados insatisfatórios, as potências persistem nesta estratégia. Existe uma ideia naturalizada no senso comum que postula que nas grandes crises perdem todos. Ricos e pobres, trabalhadores e empresários. Não é assim. Também predomina a noção de que a deterioração geral não convém a ninguém. Para uns poucos, sim, ou é indiferente para eles uma vez que suas riquezas são tão grandes que não são afetadas. Isso é ratificado em um estudo realizado por Wealth-X, empresa que oferece o perfil dos ultra-milionários para profissionais das finanças dedicados à gestão de patrimônios privados.


Em sua página na internet, a empresa informa que trabalha com oito dos principais bancos privados do mundo e se jacta de que sua base de dados oferece dados exclusivos dos ultramultimilionários, incluindo sua riqueza, receitas, paixões, interesses filantrópicos, orientação política, assessores, famílias e biografias. Além disso, apresenta um ranking de países com maior quantidade de “Ultra High Net Worth Individuals” (UHNWI), pessoas com ativos superiores a mais de 1 bilhão de dólares, sem contabilizar as casas e bens de coleções (obras de artes, entre outros) e de consumo (carros, aviões, iates, etc).



A instabilidade econômica nos últimos anos não afetou esse reduzido grupo que concentra patrimônios imensos, superiores em alguns casos ao PIB de países periféricos. A quantidade de ultramilionários aumentou, assim como sua riqueza, apesar da prolongada incerteza global. Wealth-X calculou que essas fortunas aumentaram 760 bilhões de dólares no ano passado e produziu o ranking dos dez países com mais ultramilionários e a riqueza em conjunto registrada por essas pessoas.



1. Estados Unidos (480) – 2,05 trilhões de dólares
Com 333 ultramilionários a mais que seu competidor mais próximo, a China, os Estados Unidos lideram comodamente o ranking. Apesar da estagnação de sua economia, no ano passado surgiram 25 novos muito ricos. Em média, cada um acumula uma fortuna de 4,3 bilhões de dólares. Segundo a última lista da Forbes, Bill Gates (Microsoft), está em primeiro lugar com 67 bilhões de dólares, seguido por Warren Buffett, com 53 bilhões. O estado preferido dos ultra ricos para morar é a Califórnia, seguido por Nova York, Texas, Flórida e Illinois.



2. China (147) – 380 bilhões de dólares
Pela quantidade, a China está em segundo, mas fica atrás da Alemanha e do Reino Unido em termos de riqueza total. Os chineses muito ricos têm 2,6 bilhões de dólares cada um em média. Shangai, Guangzhou, Shenzhen, Beijing e Hangzhou são as cinco cidades com maior presença de ultra ricos. Zong Qinghou, que comanda o Grupo Nahzhou Wahaha, empresa líder de bebidas na China, ocupa a liderança com 11,6 bilhões de dólares, segundo a Forbes.



3. Reino Unido (140) – 430 bilhões de dólares
No Reino Unido, vive a maior quantidade de ultra ricos da Europa, com uma medida de 3,1 bilhões de dólares cada um. Em 2012, apesar da recessão, a quantidade de milionários britânicos cresceu 0,2% e sua riqueza global aumentou cerca de 4%.



4. Alemanha (137) – 550 bilhões de dólares
Está localizada em quarto lugar, mas em termos de riqueza total é a segunda, superando China e Reino Unido. Há menos alemães milionários, mas eles têm mais patrimônio, com uma média de 4 bilhões de dólares cada um. Hamburgo, Munique e Dusseldorf são as três cidades com maior quantidade de ricos. O número um é Karl Albrecht, com 26 bilhões de dólares, dono da Aldi Sud, uma cadeia gigante de supermercados, com 4.600 estabelecimentos em nove países.



5. Índia (109) – 190 bilhões de dólares
Em uma das economias consideradas nova potência, a quantidade de multimilionários destaca a magnitude da riqueza que está se criando neste país, juntamente com o aumento da desigualdade social. A Índica é a terceira maior economia da Ásia, depois de China e Japão. Esse trio representa cerca de 75% dos ultra ricos da região. Cada um dos multimilionários da Índia tem um patrimônio médio de cerca de 1,7 bilhões de dólares, com Mukesh Ambani (petroquímica, petróleo e gás) em primeiro lugar, com 21,5 bilhões.



6. Rússia (109) – 380 bilhões de dólares
São menos, mas em riqueza média se situam muito perto do segundo lugar do ranking: cada um acumula uma média de 3,9 bilhões de dólares. E são cada vez mais: a quantidade de multimilionários russos aumentou 17% no ano passado. O mais rico de todos é Alisher Usmanov, com 17,6 bilhões de dólares.



7. Hong Kong (64) – 190 bilhões de dólares
Hong Kong é o centro financeiro chave da Ásia, onde também se encontram algumas das pessoas mais ricas da região. Ka-shing Li, de 84 anos, é o homem mais rico de Hong Kong, com uma fortuna de 31 bilhões de dólares, segundo a última lista da Forbes.



8. Suíça (57) – 125 bilhões de dólares
Apesar da crise europeia, a fortuna dos ultra ricos suíços aumentou 3% no ano passado em relação ao período anterior, e em quantidade de pessoas subiu 7%. A consultora Wealth-X pergunta-se no informe: Que atração tem a Suíça para os ultra ricos?. E responde: “Seus benefícios tributários e as leis de privacidade, já que podem manter lá seu dinheiro mesmo sem viver permanentemente no país”.



9. Brasil (49) – 300 bilhões de dólares
É o único país latino-americano na lista dos dez mais. No ano passado, com uma economia estagnada, o Brasil mostrou um incremento de 3,5% na quantidade de ultra ricos. Eike Batista é o homem mais rico com uma fortuna estimada em 19,4 bilhões de dólares, segundo a Forbes.



10. Canadá (40) – 105 bilhões de dólares
A relação de ultramultimilionários do mundo voltou a alcançar máximas históricas, informa a Forbes: agora essa lista é formada por 1426 nomes com um valor patrimonial líquido de aproximadamente 5,4 trilhões de dólares. Essa lista, junto com o ranking dos países com maior quantidade de milionários e as suas cifras correspondentes oferecem uma conclusão inquietante. A pior crise econômica global desde a Depressão de 30 do século passado segue sem horizonte de terminar, enquanto aumenta a concentração de riqueza nas mãos de uns poucos ultra ricos.



Tradução: Katarina Peixoto


FONTE: Carta Maior

Os “guardiões” da democracia




Diz a etimologia grega que democracia é o “poder do povo”, mas a leitura burguesa do termo me leva a crer que o povo, para as elites, é literalmente o “demo”

Por Luiz Ricardo Leitão

A morte de Hugo Chávez provocou múltiplas e impetuosas reações na Venezuela e no mundo. Cada uma dessas manifestações, por certo, diz muito da posição de classe e da perspectiva histórica de quem as expressa. As massas populares venezuelanas, por exemplo, que viviam há décadas excluídas da vida pública no país e agora voltam a assumir um papel decisivo na política nacional, já inscreveram o Comandante na galeria de heróis da pátria e se comprometem a levar adiante a Revolução Bolivariana. Os empresários e a chamada “imprensa livre”, porém, saúdam sem nenhum pudor sua passagem para o infinito – e cacarejam, aos quatro ventos, que é hora de ‘restaurar’ a democracia (?) na terra de Bolívar.
Em meio ao seu funeral, esse desconforto da mídia e dos monopólios é a melhor homenagem que se poderia prestar ao presidente que mandou a Alca àquele lugar – e enterrou de vez a espúria “Aliança de Livre Comércio” (?) ianque na Cúpula de 2005. Basta ver as manchetes estampadas pelos veículos mais raivosos de Bruzundanga... Em tom de filme de vampiros, ao estilo adolescente playboy, a Veja, porta-voz da banca transnacional, amaldiçoa “a herança sombria” de Chávez; a Época, subnitrato de O Globo, da mui católica família Marinho, não fica atrás e, reeditando “O Exorcista”, conclama a legião dos democratas (?) a livrar a América Latina da influência maldita do chavismo e do bolivarianismo.
Na TV, vi coisas ainda mais bizarras. Em um programa da Globo News, um suposto acadêmico alertava sobre o risco de um ataque da Venezuela aos EUA (!) e insistia em (des)qualificar Chávez de “ditador”, ainda que o dileto confrade Maringoni, também presente, lembrasse-o civicamente de que o Comandante fora eleito e reeleito pelo voto popular. O argumento de nada serviu: com o aval da entrevistadora, o papagaio da intelligentsia alegou que mais de uma década no poder era um sinal inequívoco de tirania. Uai, sô! E a poderosa Sinhá Margareth Tahtcher, a Dama de Ferro britânica que reinou entre 1979 e 1990, o ioiô professor ousaria tachar de “ditadora”?
Pois é, meu caro e fiel leitor, esses são os “guardiões” da democracia, sempre mui zelosos das regras do livre mercado, ou melhor, do mundo livre ocidental. Ouvindo-os discorrer com enorme pompa e circunstância sobre as mazelas alheias, eu até poderia crer que vivo no melhor regime do planeta... De fato, priva-se cá em Bruzundanga do festival da democracia! Ao contrário do que ocorre na Venezuela, onde o povo insiste em inundar as ruas para afirmar sua soberania, nossa Paideia midiática logrou feito bem maior, tornando-nos o país que mais tempo navega na internet. Para tal proeza, em muito têm contribuído as aulas intensivas de educação política que seres iluminados como Faustão, Silvio Santos, Pedro Bial, Gugu e Ratinho nos brindam diuturnamente nas telas da TV. E o que dizer dos Poderes da República, a começar pelo excelso Congresso Nacional? Sinto-me mui orgulhoso, sem dúvida, ao ver o egrégio Renan Calheiros (PMDB), figura ilibada da política nacional, ser eleito o novo (?) presidente do Senado. E o que dizer do pastor-deputado Marco Feliciano (PSC), célebre por sua homofobia e racismo, indicado para presidir a Comissão de Direitos Humanos (!) da Câmara? Será que a bancada bolivariana do parlamento venezuelano igualaria tamanhos feitos?
Não carece de gastar prosa com os próceres do Executivo, carece? Gente do quilate de Alckmin, Cabral, Wagner e outros governadores, sem falar nos maravilhosos alcaides que promovem a festa das empreiteiras e a limpeza étnica para a Copa de 2014, são a dádiva maior da democracia representativa tupiniquim. Basta ver o quanto se aprende nas escolas públicas ou como são bem atendidos os cidadãos nos hospitais para aquilatar o profundo compromisso social dos nossos síndicos.
Diz a etimologia grega que democracia é o “poder do povo”, mas a leitura burguesa do termo me leva a crer que o povo, para as elites, é literalmente o “demo”... E, não por acaso, Chávez, um mestiço igual ao seu povo, por muito tempo ainda será pintado como um demônio que veio ameaçar a ordem e a paz nas Américas. Gracias, Comandante, por desafinar o coro dos contentes. Seguimos em combate!

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor associado da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível.


segunda-feira, 18 de março de 2013

Imperialismo: teoria, história e crítica



O blog Marxismo21 disponibiliza uma série de textos sobre a problemática do imperialismo, noção decisiva da crítica da economia política marxista. Trata-se, em sua quase totalidade, de matérias de autores brasileiros que discutem a teoria do imperialismo na versão dos clássicos do pensamento marxista e que debatem os novos desafios colocados à essa teoria face as transformações do Estado e da sociedade capitalista contemporâneos. Os textos divulgados foram selecionados, como advertem os editores do referido blog, de publicações de esquerda, de simpósios marxistas, de bibliotecas digitais universitárias etc. que os disponibilizam em suas páginas.

Sobre a teoria do imperialismo

A gênese da teoria do imperialismo, Luis Fernandesacesso
Lenin, imperialismo e revoluções, Valério Arcaryacesso
Nota sobre a teoria do imperialismo, Marcos del Roioacesso
Desenvolvimento desigual e combinado e imperialismo, Michael Löwyacesso
Imperialismo e capital financeiro, Larissa Veigaacesso
Imperialismo e capitalismo, Marcos del Roioacesso
Imperialismo e hegemonia, Ana Garciaacesso
O anti-imperialismo de Stalin e a questão chinesa acesso

Imperialismo hoje e sua presença na América Latina
Notas para o estudo do imperialismo tardio, Virgínia Fontesacesso
Notas sobre o imperialismo hoje, Wilson Canoacesso
Teorias do imperialismo e da dependência & a financeirização do capitalismo contemporâneo, Marisa Silva Amaralacesso
Guerra e dominação imperialista, Jorge Beinsteinacesso
Império, guerra e terror, J. Quartim de Moraesacesso
Imperialismo e anti-imperialismo no séc. 21, Lúcio F. deAlmeidaacesso
Teorias do neoimperialismo, Alex Fiuzaacesso
Imperialismo e teoria dos ciclos longos, Gilson Dantasacesso
Acumulação, centralização e imperialismo na AL, Cristiano M. da Silvaacesso
Imperialismo e internacionalização dos mercados latino-americanos nos anos 1950, Fábio A de Camposacesso
Imperialismo, dependência e revolução na AL, João P. Hadleracesso
Imperialismo e democracia na AL anos 90, Eliel Machadoacesso
Imperialismo e subimperialismo brasileiro? C. Bugiato e T. Berringeracesso
Sobre “Brasil: capital-imperialismo”, Iraldo Matiasacesso
Imperialismo na Venezuela, Mariana Lopesacesso




”Globalização” e teoria do imperialismo
Globalização e ultraimperialismo. L.A. Moniz Bandeiraacesso
Globalização e imperialismo, Edmilson Costaacesso
A mundialização imperialista, Marcos Del Roioacesso
Globalização: nova fase do capitalismo? Jorge Miglioliacesso
Globalização e imperialismo, Octavio Ianniacesso
Miragem global e imperialismo, J. Quartim de Moraesacesso
Globalização ou imperialismo? Paulo Tarso Soaresacesso

 Livros sobre a questão do imperialismo
O Brasil e o capital-imperialismo, Virgínia Fontes (texto completo do livro)acesso
Apresentação de “Imperialismo, etapa superior do capitalismo”, V. I. Lenin, por Plínio Arruda Sampaio Jr.acesso
Mais sobre o imperialismo, clique aqui: MARXISMO21




O Capital de Karl Marx: crítica a um modo de produzir riqueza


Por José Arthur Giannotti - O Estado de S. Paulo, 9/3/2013.

Leia a seguir um trecho de Considerações Sobre o Método, estudo de José Arthur Giannotti escrito para a nova edição de O Capital, de Karl Marx, cujo primeiro de três volumes chega às livrarias dia 21, publicado pela Boitempo Editorial.

O primeiro volume d'O Capital - Crítica da Economia Política foi publicado em 1867, na Alemanha. Embora seu autor, Karl Marx, já tivesse emigrado para Londres em 1850, ele continuava a manter profundas relações com os alemães e os líderes dos movimentos operários que participavam das políticas revolucionárias espalhadas por toda a Europa. 

O Capital não foi escrito com intenções meramente teóricas, não pretendia elaborar uma nova visão dos acontecimentos econômicos nem aspirava a ser mais uma notável publicação do mercado editorial: o que a obra pretendia era criticar um modo de produção da riqueza essencialmente ancorado no mercado, isto é, na troca de produtos sob a forma mercantil. Como é possível que uma troca que equalize produtos possa sistematicamente produzir excedente econômico? Criar tanto riqueza como pobreza? Em sua análise, Marx pretende mostrar que esse excedente provém da diferença entre o valor da força de trabalho e o valor que o trabalhador cria ao pô-la em movimento. Espera, assim, provar cientificamente a especificidade da exploração do trabalho pelo capital, inserida num modo de produção que leva ao extremo o tradicional conflito de classes que marca toda a história. No limite, esse conflito não teria condições de ser superado? 


No entanto, se o livro desde logo é arma política, não é por isso que foge dos padrões mais rigorosos que regem as publicações universitárias. O fato de nem sempre ter sido bem acolhido pelos pensadores acadêmicos não quer dizer que sua composição e seus passos analíticos deixem de seguir uma metodologia rigorosa e cuidadosamente traçada, buscando uma nova interpretação que pudesse pôr em xeque o pensamento estabelecido. 

Essa intenção crítica já se evidencia no subtítulo da obra. A economia política foi o primeiro esboço daquela ciência que hoje conhecemos sob o nome de economia. Como veremos, haverá uma ruptura de paradigma entre essa forma antiga e a nova, que a disciplina assume no século 20. Tal ciência nasce estudando como se constrói e se mantém a riqueza das nações, como se desenvolvem o comércio, o crédito, o juro, o sistema bancário, o imposto, o Estado e assim por diante. Lembremos que o Estado, como formação política separada da totalidade da polis, somente se configura de modo pleno no Ocidente a partir do Renascimento. De certo modo, a economia política é a primeira forma de pensar as relações de produção, o metabolismo do homem com a natureza - retomando a linguagem favorita do jovem Marx - que as desliga de intervenções políticas diretas. Note-se que o Estado sempre esteve presente no desenvolvimento capitalista, mas o mercado, principalmente na sua fase adulta, recusa essa interferência acreditando ser mais eficaz do que qualquer intervenção pública. 

Nos meados do século 19, observa o próprio Marx, a nova ciência se apresentava como um bom raciocínio formal: "A produção é a universalidade, a distribuição e a troca, a particularidade, e o consumo, a singularidade na qual o todo se unifica". Encadeamento superficial, porque deixa de lado a história. Esse comentário aparece numa famosa introdução de 1857, que acompanharia o livro Contribuição à Crítica da Economia Política, o qual pretendia estudar à parte o método da nova ciência inspirando-se na lógica hegeliana, cujo debate estava aceso entre os alemães, mas deixou de ser publicado por causa de sua complexidade. Paradoxalmente, porém, se tornou um dos textos clássicos da dialética materialista. Somente veio à luz, de forma definitiva, na coletânea de escritos inéditos conhecida como Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Esboços da Crítica da Economia Política). Ao lê-lo, desde logo percebemos que Marx critica seus pares não apenas porque desenvolvem teorias incompatíveis com os dados empíricos, mas sobretudo porque aceitam uma visão errônea da natureza do próprio fenômeno econômico, tomando como real o que não passa de ilusão criada pelo próprio capital. 

Vamos tentar mostrar os primeiros passos dessa crítica de natureza lógica e ontológica, que, por ser a mais radical, muitas vezes tem sido deixada de lado. Por sua complexidade, por certo exigirá do leitor um esforço suplementar. 

II 

O estudo da produção, distribuição, troca e consumo segue em geral as linhas de um raciocínio correto, mas deixa de lado a íntima conexão das atividades elencadas. Em particular ignora o lado histórico da produção, cuja forma varia ao longo do tempo conforme se moldam seus meios. Além do mais, se a estrutura das atividades econômicas depende de seu tempo, não é por isso que elas seguem uma evolução linear. Depois da quebra do comunismo primitivo, os sistemas produtivos se articularam em modos conforme se configurou a propriedade dos meios de produção. Somente no capitalismo todos os seus fatores assumem a forma de mercadoria, o que logo desafia o pensamento: como um sistema nessas condições, quando as partes são trocadas por seus valores, pode gerar um excedente econômico? A mercadoria não se confunde com um objeto de troca tribal, situação em que, por exemplo, um saco de alimentos não pode ser trocado por uma canoa, embora esta possa ser trocada por uma mulher. Nem se confunde com o escambo. Suas primeiras formas se encontram nas trocas regulares e por dinheiro entre comunidades separadas. Uma análise dos fenômenos econômicos deve capturar as diferentes formas dessas trocas de um ponto de vista histórico. 

Ao dotar os conceitos de historicidade, Marx atenta para as diferentes vias de suas particularizações, assim como para as diversas maneiras pelas quais o universal e o particular se relacionam. "Se não há produção em geral, também não há igualmente produção universal. A produção é sempre um ramo particular da produção - por exemplo, agricultura, pecuária, manufatura, etc. - ou uma totalidade. Mas a economia política não é tecnologia." Essa observação é muito importante para compreender o sentido da totalidade tal como é pensada por Marx. Já lembramos que uma das origens de seu pensamento foi a dialética do idealismo absoluto. É sintomático que durante a redação do primeiro volume d'O Capital ele tenha relido aCiência da Lógica de Hegel. O vocabulário e a inspiração desse livro, que funde lógica e ontologia, provocam nos comentadores de Marx as maiores dores de cabeça e os maiores desatinos. 

Para Hegel, um conceito geral, como mesa, não é apenas o que um olhar captura como propriedades comuns de várias mesas. Também não se particulariza somando determinações, propriedades predicáveis (mesa de escrever, mesa de comer...). O conceito fruta, por exemplo, não é o conjunto das propriedades inscritas em geral nas frutas. O conceito hegeliano já traz em si o princípio de sua diferenciação. Nada tem a ver com o freguês que, ao comprar frutas, recusa laranjas, peras e figos, porque não encontra em cada coisa a universalidade que as engloba. 

Este exemplo - a relação entre o gênero da fruta e suas espécies - se assemelha à relação da produção em geral e suas particularizações. Os gêneros vivos passam a existir mobilizando duas forças contrapostas, o masculino e o feminino, que geram indivíduos igualmente polarizados. Não acontece o mesmo com a produção que se realiza na agricultura, na pecuária, na indústria, cada uma negando a outra de tal modo que se separam na medida em que conformam a unidade geral? Um modo de produção como um todo (produção, distribuição, troca e consumo) não tem suas partes ligadas por essa mesma negatividade produtora? E o mesmo não acontece com os diversos atos de produzir que se diferenciam desde que possam ser igualizados por um padrão tecnológico comum que se expressa no valor? Por sua vez, não forma uma estrutura dotada de temporalidade própria? 

Mas se, ao criticar a economia política positiva, tal como se configurava até o século 19, Marx se inspira na dialética hegeliana, não é por isso que aceita mergulhar nos mares do idealismo. Seria muito estranho que um materialista pudesse acreditar que tudo o que é venha ser manifestação do Espírito Absoluto. Marx, que tinha formação de jurista, também passara pela crítica que os neo-hegelianos de esquerda haviam feito a seu mestre. O desafio era dar peso ao real quando a dialética tudo reduz ao discurso do Espírito. 

III 

No posfácio dos Grundrisse, Marx explicita sua concepção de concreto, o qual, insiste, seria a síntese de várias determinações, isto é, de propriedades atribuídas a algo posto como sujeito de predicações. Não é por isso que o real resultaria do pensamento como se brotasse do cérebro, mas é o pensar, por meio de suas representações, que isola na totalidade do real aspectos que essa própria totalidade diferenciou. O conceito deve, pois, nascer do próprio jogo do real acompanhado pelo olhar do cientista. A mais simples categoria econômica, o valor de troca, pressupõe a população, uma população produzindo em determinadas condições, e também certos tipos de famílias, comunidades ou Estados. O erro dos lógicos formais e dos economistas é duplo. Primeiro, fazer do valor de troca uma propriedade de um objeto trocável em qualquer situação histórica, deixando de diferenciar a troca de presentes entre certas etnias indígenas, a troca de indivíduos por dinheiro num mercado de escravos e assim por diante. Aqui cabe investigar como o valor de troca de cada um desses produtos está ligado ao todo do processo produtivo. É preciso, em contrapartida, sublinhar que somente no modo capitalista de produção todos os seus insumos estão sob a forma de mercadoria. Mas isso somente se torna possível, do ponto de vista da formação histórica, quando aparece no mercado uma força de trabalho desligada de qualquer outro vínculo social. No entanto, do ponto de vista formal, cada objeto conformado para ser mercadoria é posto em comparação com qualquer outro que venha ao mercado em busca de uma medida interna de trocabilidade. Numa situação de mercado, os valores de um escravo trazido de Angola e de outro trazido da China podem ser traduzidos na mesma moeda, mas todo o processo de capturá-los e transportá-los pressiona para que eles tenham medidas diferentes. Não é o que tende a acontecer num modo de produção em que todos os insumos provenham da forma da mercadoria. 

Nesse sistema o valor de uso do produto fica bloqueado enquanto estiver no circuito das trocas, e seu valor de troca passa a ser expresso nos termos de qualquer outro produto que costuma aparecer no mercado. O valor de uso de um pé de alface que produzo para a venda precisa se exprimir numa certa quantidade de valor correspondente a cada um dos objetos que comparecem ao mercado. Todos os produtos se tornam, assim, comparáveis. Note-se que essa abstração que captura a determinação valor de troca é feita pelo próprio processo de troca - o pensamento apenas recolhe a distinção feita. Além do mais, esse valor, assim constituído, contradiz a existência do valor de uso no qual se assenta. O valor de troca depende do valor de uso, mas o nega, bloqueia seu exercício, coloca-o entre parênteses. Para chegar até o consumo, a fruta deixa de ser comida para se consumir como objeto de troca, objeto cuja produção foi financiada em vista de sua comercialização. 

Para Marx, embora o concreto, o real oposto ao pensamento humano, se apresente como síntese de determinações, estas não são aspectos que os observadores encontrariam na realidade sensível para serem, em seguida, alinhavados numa coisa pensada. Por todos os lados assistimos a relações de troca, mas o cientista precisa levar em conta que essa relação depende de produtores que vivem e operam segundo certos costumes, nos quais os indivíduos, sempre socializados, estão ligados a famílias e a outras unidades sociais. Sabemos que antigamente as relações de troca mercantil apareciam entre as comunidades, quando essas relações sociais deixavam de operar. Somente no capitalismo é que elas fazem parte do sistema como um todo e se dão em sua pureza formal.

Ao introduzir a categoria de modo de produção, Marx rompe definitivamente com o paradigma seguido pelos economistas de sua época. Se a economia política pretendia estudar como se gera a riqueza social, acreditava-se que ela deveria começar estudando o ato produtivo mais simples, o ato de trabalho. Mas o homem é um ser eminentemente histórico e social, cada totalidade produtiva situa o ato de trabalho num lugar muito determinado. Esse é um princípio de que Marx não abre mão. Desse modo, imaginar que o processo produtivo pudesse se fundar no ato individual de trabalho equivale a considerar a atividade de Robinson Crusoé, isolado na sua ilha, como a matriz da produção de riqueza social. Mas o próprio Crusoé não trabalha segundo moldes que ele aprendeu na Inglaterra de seu tempo? Não podemos, pois, perder de vista que o ato de trabalho se integra na totalidade do processo produtivo segundo a trama das outras determinações primárias: distribuição, troca e consumo. A trama categorial define a totalidade do processo. Ademais, como veremos, nem todo ato de trabalho numa empresa vem a ser socialmente produtivo do ponto de vista da criação de valor.



Título: O capital
Título Original: Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie
Subtítulo: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital
Autor(a): Karl Marx
Prefácio: Textos introdutórios: Jacob Gorender, Louis Althusser
Posfácio: Orelha: Francisco de Oliveira
Tradutor(a): Rubens Enderle
Páginas: 856
Ano de publicação: 2013
ISBN: 978-85-7559-320-2
Preço: R$ 98,00