quinta-feira, 22 de março de 2012

O socialismo jurídico, de Friedrich Engels e Karl Kautsky

NOVO LANÇAMENTO DA BOITEMPO EDITORIAL

 
Planejado por Friedrich Engels e Karl Kautsky, o artigo “O socialismo jurídico” foi publicado sem assinatura na revista da social-democracia alemã, Neue Zeit, em 1887. O objetivo era dar uma resposta aos ataques à teoria econômica de Karl Marx, assim como elaborar uma crítica ao reformismo jurídico e combater a sua influência no movimento operário.



“À época da escrita deste livro, os reformistas, em combate às idéias revolucionárias de Marx, apontavam para uma transição controlada, objetivando ganhos por meio do aumento de direitos, sem transformar plenamente as contradições da exploração capitalista”, afirma na orelha do livro o professor da Faculdade de Direito da USP, Alysson Leandro Mascaro, para quem O socialismo jurídico é uma das obras clássicas do marxismo sobre a relação entre o direito e o capitalismo.



“Engels e Kautsky dedicam esta obra justamente a combater o socialismo dos juristas – ou o socialismo por meio do direito. O direito é, irremediavelmente, uma forma do capitalismo. Assim sendo, é a revolução – e não a reforma por meio de instituições jurídicas – a única opção realmente transformadora das condições das classes trabalhadoras”, conclui Mascaro.



O texto é também uma crítica ao livro O direito ao produto integral do trabalho historicamente exposto, do sociólogo e jurista burguês austríaco Anton Menger, publicado em 1886, e que vinha obtendo grande repercussão. Em tal obra, Menger tentou provar que a teoria econômica de Marx fora plagiada dos socialistas utópicos ingleses da escola ricardiana, especialmente William Thompson. Essas afirmações, bem como a falsificação da essência da teoria marxiana efetuada por Menger, não poderiam passar desapercebidas a Engels, que decidiu interceder.



Além do artigo que dá título ao livro, este volume agora publicado pela Boitempo – traduzido do alemão por Lívia Cotrim e Márcio Bilharinho Naves, filósofo do direito brasileiro e autor do livro Marxismo e direito: um estudo sobre Pachukanis (Boitempo) – traz ainda duas cartas de Engels a Laura Lafargue (filha de Marx) escritas em Londres, em 1886, que também tratam do tema.



Trecho do prefácio de Marcio Bilharinho Naves



“O texto de Engels e Kautsky tem grande importância teórica e política e é de impressionante atualidade. Nestes tempos, em que se abate sobre o marxismo uma avassaladora ofensiva em nome da democracia, isto é, do direito, e em que a ideologia jurídica penetra profundamente no movimento operário e em suas organizações, vale a pena voltar a atenção para o ataque sem concessões que Engels e Kautsky dirigem contra o núcleo duro da ideologia burguesa, a sua concepção jurídica de mundo. [...] A crítica à visão jurídica aparece, de modo ainda mais expressivo, na análise que Engels e Kautsky realizam da passagem da concepção teológica de mundo feudal à concepção jurídica de mundo burguesa, na qual se revela a natureza especificamente burguesa do direito, como forma social relacionada de maneira íntima com o processo de trocas mercantis: Visto que o desenvolvimento pleno do intercâmbio de mercadorias em escala social – isto é, por meio da concessão de incentivos e créditos – engendra complicadas relações contratuais recíprocas e exige regras universalmente válidas, que só poderiam ser estabelecidas pela comunidade – normas jurídicas estabelecidas pelo Estado –, imaginou-se que tais normas não proviessem dos fatos econômicos, mas dos decretos formais do Estado. Temos aqui alguns elementos que autorizam a formulação de uma ideia crítica do direito, que permita denunciar o “fetichismo da norma” e se oponha à teoria normativista para a qual o direito aparece somente como um conjunto de normas garantido pelo poder coercitivo do Estado.”



Trecho do livro



“O direito jurídico, que apenas reflete as condições econômicas de determinada sociedade, ocupa posição muito secundária nas pesquisas teóricas de Marx; ao contrário, aparecem em primeiro plano a legitimidade histórica, as situações específicas, os modos de apropriação, as classes sociais de determinadas épocas, cujo exame interessa fundamentalmente aos que veem na história um desenvolvimento contínuo, apesar de muitas vezes contraditório, e não simples caos [Wust] de loucura e brutalidade, como a via o século XVIII. Marx compreende a inevitabilidade histórica e, em consequência, a legitimidade dos antigos senhores de escravos, dos senhores feudais medievais etc. como alavancas do desenvolvimento humano em um período histórico delimitado; do mesmo modo, reconhece também a legitimidade histórica temporária da exploração, da apropriação do produto do trabalho por outros; mas demonstra igualmente não apenas que essa legitimidade histórica já desapareceu, mas também que a continuidade da exploração, sob qualquer forma, ao invés de promover o desenvolvimento social, dificulta-o cada vez mais e implica choques crescentemente violentos.”



Sobre a coleção



A publicação de O socialismo jurídico dá continuidade ao ambicioso projeto da Boitempo de traduzir o legado de Karl Marx e Friedrich Engels, contando com o auxílio de especialistas renomados. Com 14 volumes publicados, a coleção Marx-Engels teve início com a edição comemorativa dos 150 anos do Manifesto Comunista, em 1998. Em seguida foi publicada A sagrada família (2003), obra polêmica que assinala o rompimento definitivo de Marx e Engels com a esquerda hegeliana. Os Manuscritos econômico-filosóficos (2004) vieram na sequência, ao qual se seguiram os lançamentos de Crítica da filosofia do direito de Hegel (2005); Sobre o suicídio (2006); A ideologia alemã (2007); A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (2008); Sobre a questão judaica (2010); Lutas de classes na Alemanha (2010); O 18 de brumário de Luís Bonaparte (2011); A guerra civil na França (2011), em comemoração aos 140 anos da Comuna de Paris; os Grundrisse (2011); Crítica do Programa de Gotha (2012); e agora O socialismo jurídico. Ainda neste ano, a editora planeja publicar o primeiro volume de O capital.



Ficha técnica

 
Título: O socialismo jurídico

Título original: Juristen-sozialismus

Autores: Friedrich Engels e Karl Kautsky

Tradução: Lívia Cotrim e Márcio Bilharinho Naves

Prefácio: Márcio Bilharinho Naves

Orelha: Alysson Leandro Mascaro

Páginas: 80

ISBN: 978-85-7559-210-6

Preço: R$ 22,00 [preço ebook: R$ 13,00]

Editora: Boitempo
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Mais Informações:

Ana Yumi Kajiki


55 11 3875 7285

55 11 8777 6210

Boitempo Editorial




quarta-feira, 21 de março de 2012

Surge Associação de Amigos do Centro de Formação e Pesquisa Olga Benário Prestes


Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça


Está em gestação a Associação dos Amigos do Centro de Formação e Pesquisa Olga Benário Prestes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Mato Grosso. O Centro é espaço de referência em formação técnica e política para jovens e adultos camponeses e também movimentos sociais do campo e da cidade. Fica no Assentamento Dorcelina Folador, a menos de 10 quilômetros de Cuiabá, na saída para Jangada. Desde 2008, o espaço vem sendo utilizado, mas a obra ainda não está conclusa. Além disso, precisa de apoio para que de fato seja ativo, dinâmico e atenda às necessidades de um centro dessa natureza.



Já houve uma reunião dia 3 de março deste ano e outra está marcada para 14 de abril, às 9 horas, no auditório do Sintep.



Conforme Lucinéia Freitas, da coordenação do MST em MT, o Centro Olga Benário Prestes é ligado à Escola Nacional Florestan Fernandes do MST que fica em São Paulo. “Seguimos toda a linha política e pedagógica de lá”.



Na reunião do dia 3 de março esteve presente Carlos Duarte, da Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes. Ele deu várias orientações sobre como criar e fazer funcionar uma associação desse tipo. Segundo Duarte, em 2009, um grupo de intelectuais, professore, militantes e outros colaboradores resolveram se juntar com os seguintes objetivos: divulgar as atividades da escola nacional, apoiar e incentivar projetos de educação e escolarização de crianças, jovens e adultos, incentivar o pensamento crítico, estimular intercâmbios de formação ente o Brasil e os países da América Latina e de outros continentes.


A escola nacional é linda, tem 120 mil metros quadrados, com instalações em alvenaria e tijolos fabricados pelos próprios trabalhadores.


Quem chega lá, vê a força dos trabalhadores já na entrada, devido a esse tipo de construção.


 
Mais informações aqui.



No Olga, está havendo aulas do curso de Ensino Médio em parceria com a Escola Estadual Ubaldo, de Várzea Grande, e em breve haverá aulas também do curso de especialização que está sendo articulado com a Universidade Federal de Mato Grosso. No espaço, há ainda uma horta de produtos orgânicos e está sendo elaborado um projeto de criação de galinhas caipiras.



Ainda falta construir no local, conforme Lucinéia Freitas, a Lu, o auditório e a cerca. Entre outros detalhes.



Para cuidar do espaço, moram lá cinco famílias do MST.



 
 

terça-feira, 20 de março de 2012

Respeitar a Lei da Anistia?


Por Vladimir Safatle



Editorial de ontem desta Folha,"Respeito à Anistia", recoloca no debate público questões importantes sobre crimes contra a humanidade ocorridos na ditadura. A posição defendida pelo editorial, embora consistente e bem argumentada, é passível de crítica.



Esta Folha tem um histórico maior na luta contra o fim da ditadura. Por isso, é certo que ela é o melhor espaço para que se realize um debate dessa natureza.



Criticando a decisão do Ministério Público Federal em denunciar o coronel Sebastião Curió por sequestro de membros da guerrilha do Araguaia, o editorialista recorre à decisão do STF sobre os efeitos da Lei da Anistia. Ele ainda critica o "raciocínio tortuoso" dos membros do Ministério Público que alegam que tais sequestros, perpetrados nos anos 70, não prescreveram, já que os corpos nunca foram encontrados.



Isso nada tem de "peça de ficção". Argumento similar foi usado no Chile, obrigando a Justiça a reabrir processos ligados a desaparecidos políticos. Tal argumento consiste em lembrar que militares sabem em que lugares tais corpos foram enterrados, tanto que dificultam sistematicamente toda investigação. Eles continuam, assim, cometendo crime de ocultação de cadáver ou de sequestro, pois tecnicamente tais sujeitos se encontram nas mãos do Exército.



Por outro lado, a decisão do STF é ilegal sob dois aspectos. Primeiro, há um conflito de soberania. O Brasil, ao reconhecer a existência do conceito de "crime contra a humanidade", até aceitando a jurisprudência de um Tribunal Penal Internacional, abriu mão de parte de sua soberania jurídica em prol de uma ideia substantiva de universalidade de direitos.



Os acordos políticos nacionais não podem estar acima da defesa incondicional dos cidadãos contra Estados que torturam, sequestram, assassinam opositores, escondem cadáveres e estupram. Isso vale tanto no Brasil quanto em Cuba, na França ou em quaisquer outros lugares.



Vale ainda lembrar que a redação da Lei da Anistia em seu parágrafo dois é clara: "Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal".



Membros da luta armada envolvidos em sequestros e mortes não foram libertados, mas tiveram diminuição das penas. Os envolvidos em terrorismo de Estado e sequestro nem sequer foram julgados. O que demonstra que a anistia só valeu para um lado -aberração que o STF perpetuou.



É compreensível que o editorialista queira lutar para que o Brasil não vire prisioneiro de seu passado, alegando que tais fatos são "página virada". Mas há aqueles que acreditam que só nos livraremos do passado ao encararmos nossas piores páginas mais uma vez.



FONTE: Folha de São Paulo, 20 de março de 2012.
 
 



Escalada "democrática"

Chanceler boliviano critica exclusão de Cuba da Cúpula das Américas



Segundo David Choquehuanca, os países da Alba ainda estudam a possibilidade de boicotar a VI Cúpula das Américas. A postura é um protesto ao veto imposto pelos Estados Unidos à participação de Cuba. “Estamos em tempos de inclusão, não em tempos de exclusão”, afirmou. Argentina e Brasil também defendem a presença cubana.




Vinicius Mansur

 
Brasília - Em visita ao Brasil, o ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, criticou, nesta segunda-feira (19), a exclusão de Cuba da VI Cúpula das Américas, que ocorrerá na Colômbia nos dias 14 e 15 de abril. “Estamos em tempos de inclusão, não em tempos de exclusão”, afirmou, em um recado direto aos Estados Unidos, único país que se opõe à presença cubana no evento.



De acordo com Choquehuanca, os países que compõe a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) estão em pleno processo de discussão para decidir se comparecerão, ou não, à Cúpula caso Cuba não seja convidada. O ministro boliviano informou também que o presidente Evo Morales foi convidado hoje para o encerramento da Cúpula dos Povos, que ocorrerá em paralelo ao encontro dos chefes de Estado na Colômbia, mas salientou que a participação de Morales no evento das organizações sociais não significa que ele comparecerá à Cúpula das Américas.



Também em visita ao Brasil, na semana passada, o ministro argentino de Relações Exteriores, Héctor Timerman, havia dito que a presença de Cuba era necessária para que "finalmente a Cúpula seja das Américas". "Esta tem que ser a última cúpula da qual Cuba não participa", disse Timerman. O chanceler brasileiro, Antônio Patriota, concordou com a postura argentina e lembrou que na V Cúpula, em Trinidad e Tobago, em 2009, o ex-presidente Lula já havia defendido a participação de Cuba no encontro.



Os Estados Unidos defendem que a reunião na Colômbia seja restrita aos países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), órgão do qual Cuba foi expulsa em 1962 por seu alinhamento aos países comunistas. O veto à participação da ilha caribenha na OEA foi cancelado em 2009, mas até hoje o país não pediu sua readmissão ao organismo.



Em visita à Cuba no último dia 7, o presidente colombiano Juan Manuel Santos afirmou que, apesar do interesse de seu governo em ter a participação cubana na Cúpula, “esse tema requer consenso, consenso que infortunadamente não conseguimos encontrar”.

 
FONTE: Carta Maior
 
 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Situação atual de Cuba e suas perspectivas





Leia na página do Instituto Luiz Carlos Prestes o texto escrito por Fernando Martínez Heredia, pensador revolucionário de Cuba, apresentado em palestra no XVII Encontro Nacional de Solidariedade com Cuba, realizado em Oaxaca, México, março de 2012.


Clique no título abaixo para ler o texto (em espanhol)
Situación actual de Cuba y sus perspectivas
 
 



Percepção acurada

"Nosso dever é lutar": download gratuito do livro de Fidel Castro


CubaDebate oferece aos leitores download gratuito da versão digital em Inglês e Espanhol do livro "Nosso dever é lutar", que inclui a reunião do Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz com mais de cem intelectuais de 22 países, realizada em 10 de Fevereiro de 2012.


O livro constitui um contundente chamado de luta para salvar a humanidade das guerras, das mudanças climáticas e de outros perigos que nos espreitam.
 
 
Descargue en Cubadebate el libro “Nuestro deber es luchar” (+ PDF en español y english)

domingo, 18 de março de 2012

Da utopia à revolta, da indignação à revolução


Por Miguel Urbano Rodrigues


É preciso e possível recusar o pessimismo, que leva a baixar os braços e à inércia, é indispensável reassumir a esperança que empurra para o combate e a vitória.
Não se combate o desemprego, a pobreza, a supressão de conquistas sociais, cedendo ao medo.


Este início do século XXI será recordado como uma das épocas mais trágicas e belas da História da Humanidade.


Mas as atuais gerações, quando comentam os efeitos da crise mundial que hoje atinge a quase totalidade dos povos e meditam sobre a onda de barbárie que varre o planeta, são empurradas para conclusões pessimistas. O que captam do tempo histórico em movimento é sobretudo o lado mais sombrio.


O homem realizou nas últimas décadas conquistas prodigiosas, inimagináveis em vida dos nossos avós. Já viajou até à Lua, lança sondas a planetas distantes milhões de quilometros da Terra, sonha com a fundação de cidades terrestres no Espaço, rompe a cada dia as fronteiras do saber, prolongou a esperança de vida.


Foi entretanto breve o tempo das ilusões quando em l945 se calaram os canhões após o esmagamento da Alemanha nazi. A esperança de que a Humanidade iria entrar numa era de paz com as guerras banidas para sempre era utópica. Desde então morreram mais de 50 milhões de pessoas em guerras criminosas e em fomes cíclicas.


A desigualdade social aumentou, aprofundou-se o fosso entre os países desenvolvidos e os mais pobres. Meio milhar de multibilionários acumulou fortunas colossais, algumas (como as de Carlos Slim e Bill Gates) superiores a metade do PIB português. Gigantescas transnacionais impõem a sua vontade aos governos de Estados da África, da Ásia e da América Latina.


A violência assume hoje caráter endêmico em amplas regiões do planeta. Um imperialismo coletivo hegemonizado pelos EUA promove agressões para se apossar dos recursos naturais de povos do antigo Terceiro Mundo. Isso aconteceu no Iraque, na Líbia, no Afeganistão.


Neste ultima país os EUA cometem crimes que trazem à memória os das SS hitlerianas.


A guerra afegã está perdida. No corpo de oficiais instalou-se uma mentalidade de matizes fascizantes. Mas o Presidente Obama promulga a lei de autorização da Segurança Nacional que permite a prisão de qualquer cidadão suspeito de contatos com «terroristas».


E a escalada da violência prossegue. O governo neofascista de Israel tenta arrastar o seu grande aliado para uma agressão ao Irã. Obama hesita. Mas apenas por estar consciente de que o envolvimento numa nova guerra na Ásia antes de Novembro poderia prejudicar decisivamente a sua reeleição.


Uma grande parte da humanidade, desinformada, não consegue desmontar os mecanismos da mentira.


PORTUGAL


A crise, nascida nos EUA, é uma crise do capitalismo.


Longe de estar superada, agrava-se porque é estrutural e não cíclica.


Alastrou pelo mundo e, como era inevitável, contaminou a União Europeia. As receitas para a enfrentar são aqui diferentes das utilizadas nos Estados Unidos porque o dólar é ainda quase a moeda universal e o Banco Central Europeu não tem a possibilidade de emitir sem controle biliões de euros numa estratégia financeira de combate à crise. Mas aqui, como do outro lado do Atlântico, o objetivo do poder foi acudir aos responsáveis e evitar a falência da grande banca e de gigantescas transnacionais. A fatura dos crimes da Finança é cobrada às vítimas, isto é, aos trabalhadores.


País periférico, subdesenvolvido, semi colonizado, Portugal está há muito desgovernado por forças políticas que se submetem docilmente às medidas impostas pelo imperialismo e as aplaudem.


As sanguessugas do capital, atuando em nome da Comissão Europeia e do FMI, proclamam que o povo trabalhador deve sacrificar-se, apertar o cinto, cumprir todas as exigências da chamada troika para recuperar a confiança dos «mercados».


Um sistema midiático perverso e corrupto entra no jogo. Emite críticas irrelevantes ao funcionamento da engrenagem, simulando urna independência inexistente.


O coro dos epígonos, perante o avolumar da indignação dos trabalhadores, teme que ela assuma proporções torrenciais, e repete que felizmente somos um povo de «brandos costumes», diferente do grego, um povo que compreende a necessidade da «austeridade», consciente de que somente dela pode nascer a superação da crise.


Incutir um sentimento de fatalismo nas massas é objetivo permanente no massacre midiático. Arrogantes, os sacerdotes do capital proclamam que não há alternativa à sua política.


Que fazer?


É pelos caminhos da luta que ela pode ser encontrada.


É necessário combater com firmeza a alienação que atinge uma grande parcela da população. Combater a ideia falsa de que vivemos uma situação democrática, porque o regime parlamentar foi legitimado pelo voto popular é uma exigência histórica, tal como a desmontagem das campanhas que condenam as greves como anti- patrióticas e as manifestações de protesto como iniciativas românticas.


Ajudar milhões de portugueses a compreender como foi possível que 37 anos após uma Revolução tão bela e profunda como a de Abril de 74 o país, de tombo em tombo, voltasse a ser dominado pela classe que o oprimia na época do fascismo tornou-se uma tarefa revolucionária.


Como foi possível o refluxo? A relação de forças que permitiu as grandes conquistas revolucionárias durante os governos do general Vasco Gonçalves não se alterou de um dia para o outro.


A base social do Partido Socialista não deve ser confundida com a do PSD e do CDS. Mas ajudar a compreender que a direção do PS, coletivamente, tem atuado conscientemente ao serviço da direita é muito importante. Na quase glorificação de Sócrates no Congresso daquele partido o PS projetou bem a sua imagem. O secretário-geral tinha conduzido o país à beira do abismo com a sua política neoliberal de vassalagem ao capital, mas foi ali aclamado como herói e salvador.


Renovaram-lhe a confiança e ele afundou mais o país. Depois ocorreu o esperado. O funcionamento dos mecanismos da ditadura da burguesia de fachada democrática colocou a aliança PSD-CDS de novo ao governo.


Uma parcela ponderável do povo acreditou que votava por uma mudança. Na realidade, limitou-se a acionar o rodízio da alternância no governo de partidos que competem na tarefa de servirem os interesses do capital do qual são instrumentos submissos.


Hoje, cabe perguntar: como pode ter chegado a Primeiro-ministro uma criatura como Passos Coelho? As suas palavras e atos suscitam diariamente torrentes de comentários e interpretações dos analistas de serviço na mídia. O homem é um ser de uma indigência mental tão transparente que até intelectuais da direita como Pacheco Pereira reconhecem o óbvio.


O povo acompanha, angustiado, as cenas da farsa dramática. Há dois anos que a sua resposta à política que está a destruir o país não pára de crescer. Mas é ainda muito insuficiente. As grandes manifestações de protesto e as greves (a geral e as setoriais) somente podem abalar o sistema se a luta adquirir um caráter permanente e diversificado, nas fábricas, nos portos, nos transportes, nas escolas, na Administração, em múltiplos locais de trabalho, nas ruas.


E evidente que as condições subjetivas não são em Portugal as da Grécia cujos trabalhadores, caluniados, se batem hoje pela Humanidade.


Que fazer? - insisto.


O esforço do PCP na luta contra o imobilismo e a alienação como contribuição indispensável para o reforço da consciência de classe e o nível ideológico da classe trabalhadora assume hoje – repito- caráter de tarefa revolucionária.


A burguesia tudo faz para estimular o pessimismo. O governo e o patronato sabem que a convicção de que não há alternativa para a «austeridade» os favorece. Proclamam que a luta de massas somente agravaria a crise.


A atitude positiva deve ser a oposta, a otimista, a que fortalece o espírito de luta. Não se combate o desemprego, a pobreza, a supressão de conquistas sociais, cedendo ao medo.


A luta do povo português é inseparável da luta de outros povos que mundo afora que são, como o nosso, vítimas de políticas similares do imperialismo ou ainda mais cruéis e desumanas.


É útil desmascarar a monstruosidade das agressões a países da Ásia e da África e lembrar que nas condições mais adversas os povos do Iraque, do Afeganistão, da Palestina, da Líbia, entre outros, resistem e se batem contra a barbárie imperialista.


É preciso lembrar que a luta dos povos é planetária. A nossa globalização não é a deles. Enquanto a maré desce em algumas zonas da Terra, sobe noutras.


É preciso lembrar que o povo cubano, hostilizado pela mais poderosa potência do mundo, alvo de uma guerra não declarada, defende há meio século a sua revolução com coragem espartana.


É preciso lembrar que na América Latina os povos da Venezuela bolivariana, da Bolívia e do Equador apontam ao Continente o caminho da luta contra o capitalismo predador com o apoio maciço dos trabalhadores e da massa dos excluídos.


É útil lembrar que foram as grandes revoluções que contribuíram decisivamente para o progresso da Humanidade.


A burguesia francesa apunhalou em 1792 a Revolução por ela concebida e dirigida. Uma lenda negra foi forjada para a satanizar e lhe colar a imagem de um tempo de horrores e violência. Mas, transcorridos mais de dois séculos, é impossível negar que a Revolução Francesa ficou a assinalar uma viragem maravilhosa na caminhada da Humanidade para o futuro.


 
É preciso, é útil lembrar que o mesmo ocorreu com a Revolução Russa de Outubro de 1917. O imperialismo festejou como vitoria memorável a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenin. Mas não há calunia nem falsificação da História que possa apagar a realidade: as grandes conquistas sociais dos trabalhadores europeus no século XX surgiram como herança indireta da Revolução Russa, a mais progressista da Historia. Foi o medo do socialismo e do comunismo que forçou a burguesia na Europa a conformar-se com conquistas que, como a jornada de 8 horas, as férias pagas, o 13ºsalario, tudo faz hoje, desaparecida a URSS, para suprimir.


Em Portugal é preciso e possível recusar o pessimismo, que leva a baixar os braços, à inércia, é indispensável reassumir a esperança que empurra para o combate e a vitória.


Em 1383 e em 1640, quando o país estava de rastos e tudo parecia afundar-se, o povo português desafiou o impossível aparente e venceu.


É preciso recordar que, após quase meio século de fascismo, o povo português foi sujeito de uma grande revolução que na Europa Ocidental realizou conquistas sociais mais profundas do que qualquer outra desde a Comuna de Paris.


Vivemos um tempo de pesadelo. No fluxo e refluxo da História, os opressores do povo estão novamente encastelados no poder. Mas é útil lembrar que as sementes de Abril sobreviveram à contrarrevolução. E elas voltarão a germinar nos campos e nas cidades, lançadas pelos trabalhadores em marcha pelas grandes alamedas em lutas vitoriosas.


Transformar no cotidiano em realidade a palavra de ordem «a luta continua» é, mais do que um dever, uma exigência da História.


Vila Nova de Gaia, 15 de Março de 2012


FONTE: ODiario.Info
 

sábado, 17 de março de 2012

Marx, mais vivo e atual do que nunca, 129 anos após sua morte

Por Atilio Boron

 

Em um dia como hoje[14/03], há 129 anos, morria placidamente em Londres, aos 65 anos de idade, Karl Marx. Correu a sorte de todos os grandes gênios, sempre incompreendidos pela mediocridade reinante e o pensamento dominado pelo poder e pelas classes dominantes. Como Copérnico, Galileu, Servet, Darwin, Einstein e Freud, para mencionar apenas alguns poucos, foi menosprezado, perseguido, humilhado. Foi ridicularizado por anões intelectuais e burocratas acadêmicos que não chegavam a seus pés, e por políticos complacentes com os poderosos de turno, a quem causavam repugnância suas concepções revolucionárias.

 

A academia cuidou muito bem de fechar suas portas, e nem ele e nem seu eminente colega, Friedrich Engels, jamais habitaram os claustros universitários. E mais, Engels, que Marx disse ser “o homem mais culto da Europa”, nem sequer estudou em uma universidade. Mesmo assim, Marx e Engels produziram uma autêntica revolução copernicana nas humanidades e nas ciências sociais: depois deles, e ainda que seja difícil separar sua obra, podemos dizer que, depois de Marx, nem as humanidades, nem as ciências sociais voltariam a ser como antes. A amplitude enciclopédica de seus conhecimentos, a profundidade de seu olhar, sua impetuosa busca das evidências que confirmassem suas teorias fizeram de Marx, suas teorias e seu legado filosófico mais atuais do que nunca.


 
O mundo de hoje, surpreendentemente, se parece ao que ele e seu jovem amigo Engels prognosticaram em um texto assombroso: o Manifesto Comunista. Esse sórdido mundo de oligopólios de rapina, predatórios, de guerras de conquista, degradação da natureza e saque dos bens comuns, de desintegração social, de sociedades polarizadas e nações separadas por abismos de riqueza, poder e tecnologia, de plutocracias travestidas de democracia, de uniformização cultural pautada pelo american way of life, é o mundo que antecipou em todos os seus escritos.

 

Por isso são muitos que, já nos capitalismos desenvolvidos, se perguntam se o século 21 não será o século de Marx. Respondo a essa pergunta com um sim, sem hesitação, e já estamos vendo: as revoluções em marcha nos países árabes, as mobilizações dos indignados na Europa, a potência plebéia dos islandeses ao enfrentarem e derrotarem os banqueiros, as lutas dos gregos contra os sádicos burocratas da União Européia, do FMI e do Banco Central Europeu, o rastro de pólvora dos movimentos nascidos a partir do Occupy Wall Street, que abarcou mais de cem cidades estadunidenses, as grandes lutas da América Latina que derrotaram a ALCA e a sobrevivência dos governos de esquerda na região, começando pelo heróico exemplo cubano, dentre muitas outras mostras de que o legado do grande mestre está mais vivo do que nunca.


 
O caráter decisivo da acumulação capitalista, estudada como ninguém mais o fez em O Capital, era negado por todo o pensamento da burguesia e pelos governos dessa classe, que afirmavam que a história era movida pela paixão dos grandes homens, as crenças religiosas, os resultados de heróicas batalhas ou imprevistas contingências da história. Marx tirou a economia das catacumbas e não só assinalou sua centralidade como demonstrou que toda a economia é política, que nenhuma decisão econômica está livre de conotações políticas. E mais, que não há saber mais político e politizado do que a economia, rasgando as teorias dos tecnocratas de ontem e hoje que sustentam que seus planos de ajuste e suas absurdas elucubrações econométricas obedecem a meros cálculos técnicos e são politicamente neutros.


 
Hoje ninguém acredita seriamente nessas falácias, nem sequer os porta-vozes da direita (ainda que se abstenham de confessar). Poderia se dizer, provocando o sorriso debochado de Marx lá do além, que hoje são todos marxistas, mas à lá Monsieur Jordan, personagem de Le Bourgeois gentilhomme (O gentil homem burguês, O Burguês ridículo, dentre outras traduções já feitas da obra), de Molière, que falava em prosa sem saber. Por isso, quando estourou a nova crise geral do capitalismo, todos correram para comprar O Capital, começando pelos governantes dos capitalismos metropolitanos. É que a coisa era, e é, muito grave pra perderem tempo lendo as bobagens de Milton Friedman, Friedrich Von Hayek ou as monumentais sandices dos economistas do FMI, do Banco Mundial ou do Banco Central Europeu, tão ineptos como corruptos e que, por causa de ambas as coisas, não foram capazes de prever a crise que, tal como tsunami, está arrasando os capitalismos metropolitanos.

 
Por isso, por méritos próprios e vícios alheios, Marx está mais vivo do que nunca e o faro de seu pensamento ilumina de forma cada vez mais esclarecedora as tenebrosas realidades do mundo atual.


 
Atilio Boron é doutor em Ciência Política pela Harvard University, professor titular de Filosofia da Política da Universidade de Buenos Aires e ex-secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

Tradução: Gabriel Brito, jornalista do Correio da Cidadania.

 
 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Empresas não estatais na economia cubana: construindo o socialismo?


Por Camila Piñeiro Harnecker*



Neste segundo estudo que publicamos de Camila Piñeiro Harnecker sobre as novas empresas não estatais cubanas, depois de analisar as diversas, e por vezes contraditórias, correntes de opinião na sociedade cubana, a autora conclui:

«Só democratizando ou socializando a economia, materializando a propriedade social sobre ela, poderemos avançar para uma sociedade que tenha como horizonte o desenvolvimento humano e não só a redistribuição da riqueza. Se não, corremos o risco de – com o pretexto de criar benefícios materiais – a lógica do lucro se converter em natural e inevitavelmente chocar com a intenção redistributiva e que assim, um dia, o mais «racional» seja abandonar o horizonte socialista.»

Uma das mudanças mais significativas que se estão a verificar na sociedade cubana, como parte do processo de «actualização» do modelo económico, é a expansão do sector empresarial não estatal. Este termo não se refere apenas a formas de propriedade privada, [1] mas também àquelas formas de propriedade colectivas, como as cooperativas. [2] Com isto também se sugere que uma empresa administrada por pessoas que não sejam representantes de instituições estatais não tem que ser, necessariamente, «privada». Isto é, responder apenas a estreitos interesses individuais ou contraditórios com as necessidades e expectativas da sociedade em geral. O tema chave de uma sociedade comprometida com a construção socialista, onde o crescimento económico não é um fim mas um meio ao serviço da sociedade, é precisamente como fazer que o sector não estatal responda a interesses sociais.


Segundo dados do Departamento Nacional de Estatística (DPE), o emprego não estatal em Cuba, nas últimas três décadas, representou uma média de 15,7% do total. Concentrou-se nas actividades agropecuárias, sobretudo privadas (cerca de 7,3%) do emprego é constituído por camponeses independentes, a maioria associados às Cooperativas de Crédito e Serviços ou CCS), por cooperantes (cerca de 5,7% em Cooperativas de Produção Agropecuária ou CPA e em Unidades Básicas de Produção Cooperativa ou UBPC, ainda que em decréscimo) e, em menor medida (cerca de 2,8%) em auto-emprego em actividades não agrícolas ou por «conta-própria». [3]


No fim de 2010, encontravam-se registados 442 000 privados que não são trabalhadores por conta-própria (8,7% do emprego total), 217 000 cooperantes (4,2%) e 147 400 trabalhadores por conta-própria (2,9%). Segundo o DNE, estes dados não reflectem de modo algum os mais de cem mil novos camponeses privados que surgiram desde que começou o processo de entrega de terras em usufruto (Lei 259 de Julho de 2008), nem os quase oitenta mil novos inscritos como por conta-própria verificados nos últimos meses de 2010. Segundo Idalmys Álvarez, directora de Emprego do Ministério do Trabalho e Segurança Social (MTSS), no final de Janeiro de 2011 tinham-se atribuído 113 618 novas licenças. [4]


Dada a generalizada aceitação da necessidade de optimizar o uso dos recursos nas instituições estatais e de o Estado se libertar da administração – não da propriedade legal – de certas actividades económicas não estratégicas, espera-se que o emprego não estatal aumente consideravelmente nos próximos anos.


De facto, está previsto aumentar o número de licenças de trabalho por conta-própria (incluindo empregadores e empregados) em mais duzentos e cinquenta mil antes de 2012, e outros duzentos mil postos de trabalho seriam criados, sobretudo por novas cooperativas de produção de bens e serviços. [5] A titular do Ministério das Finanças e Preços (MFP), Lina Pedraza calcula que o número de pessoas empregadas no sector não estatal subirá a 1,8 milhões em 2015, [6] o que, tendo em conta um incremento de 5% da força laboral como consequência da Lei de Segurança Social nº 105 de 2008, resultaria em mais de 35% do emprego total.


Prevendo a importância que o sector empresarial não estatal terá na economia cubana, o objectivo deste trabalho é analisar o seu possível desenvolvimento. Dado que se reiterou o compromisso de não renunciar ao socialismo, começa-se a analisar os diferentes critérios existentes sobre a pertinência de formas empresariais não estatais na construção socialista. Argumenta-se a necessidade de combinar empresas com formas de gestão democrática – auto-emprego, cooperativas, co-gestão e outras variantes autogestionárias – e não a prioridade democrática – as tradicionais empresas privadas baseadas no trabalho assalariado – dando prioridade às primeiras porque são mais socializadas ao estarem controladas por grupos de pessoas em igualdade de direitos e deveres. Defende-se, além disso, a necessidade de as empresas não estatais responderem a interesses sociais mais amplos e contribuírem, assim, para uma maior socialização dessas actividades económicas. Ao longo do trabalho sugerem-se algumas medidas gerais imprescindíveis para que a expansão do sector não estatal seja compatível com as necessidades e expectativas dos cubanos. [7]


Diferentes posições sobre a pertinência de empresas não estatais no socialismo cubano


Ainda que existam diversas opiniões entre os membros do governo cubano sobre a pertinência de empresas não estatais no projecto de construção socialista cubano, parece haver consenso em que são uma alternativa que deverá ser experimentada. O conteúdo do Projecto de princípios [8] e as declarações de funcionários públicos sugerem que a visão partilhada pelos fazedores da política é que a empresa administrada pelo Estado não é a forma organizativa mais adequada para actividades não estratégicas ou de pequeno tamanho – talvez também médias, dependendo do critério de classificação – quanto ao número de trabalhadores e a sua intensidade de capital, como os serviços gastronómicos, transportes públicos, reparação de equipamentos electrodomésticos, e inclusive de manufactura e indústria ligeira. Está a considerar-se que estas unidades produtivas, as suas instalações e talvez também os seus equipamentos e marcas sejam arrendados a pessoas registadas como por conta-própria ou cooperativas, transformando-se em formas empresariais não estatais. Sem abordar a pertinência ou não das formas empresariais não estatais no socialismo, o Projecto de lineamentos propõe as empresas de capital misto, o trabalho por conta-própria, as cooperativas, usufrutuários, arrendatários, etc., como componentes de um sistema económico múltiplo ou misto que tem a «empresa estatal socialista» como «a forma principal na economia nacional» (lineamento 2). Sem definir exactamente em que consistem, sugere-se mesmo que quaisquer das formas não estatais que permitam «contribuir para elevar a eficiência do trabalho social» não são contraditórias com o projecto socialista cubano.


Diferentemente da abertura a tais empresas dos anos 90, a actual promove-as como modo de organização do trabalho que, longe de irem contra, contribuem para «aperfeiçoar» o socialismo cubano, e devem ser aceites como permanentes. [9]


Nas sessões da Assembleia Nacional do Poder Popular de Julho e Dezembro de 2010, os deputados debateram as experiências de arrendamento e de por conta-própria, mas as opiniões expendidas sobre isto não apareceram nas reportagens e transmissões realizadas pelos meios de difusão. Não está claro se as empresas não estatais são vistas como um mal necessário, face às deficiências da empresa estatal, ou como seus complementos necessários, que podem permitir uma mais efectiva socialização de algumas actividades económicas.


A forma a tomar pelas novas empresas não estatais (arrendamento de locais a indivíduos, e a contratação de força de trabalho permanente por pessoas inscritas como por conta-própria), juntamente com as declarações de alguns funcionários públicos e uma análise dos artigos e cartas publicadas no jornal Granma demonstram, na minha opinião, a confusão que existe sobre a organização do trabalho numa sociedade comprometida com um projecto socialista entre os criadores de políticas públicas, académicos e população cubana em geral. A contradição entre os conceitos expressos nos manuais de Economia política soviéticos e a influência das teorias económicas liberais dificulta a definição de, pelo menos, alguns dos princípios directores que deveriam guiar o actual redesenho do sistema económico cubano.


Enquanto não se superar a ideia de que a empresa estatal é a forma mais avançada em socialismo, [10] aquelas que não o são serão consideradas só como necessárias, mas indesejáveis, que devem ser mantidas nas margens do sistema económico e eliminadas quando se atingirem fórmulas que torne efectiva a gestão estatal de pequenas e médias empresas. De acordo com esta posição, o que torna uma empresa mais ou menos socialista é a medida em que é administrada e controlada directamente pelo Estado, através dos seus funcionários. Qualquer mudança que leve a uma menor intervenção do Estado significa, portanto um retrocesso no caminho para o socialismo.


No outro extremo da discussão estão os que defendem que as empresas privadas, administradas por indivíduos que contratam trabalho assalariado de forma permanente – e que a teoria marxista chama «capitalistas» – devem predominar, porque podem alcançar os maiores graus de eficiência económica. Desdenha-se dos modelos de gestão democrática que caracterizam as empresas auto-geridas, como as cooperativas, rotulando-os de utópicos. Como os defensores do liberalismo económico, consideram imprescindível que não se ponham peias a que os administradores maximizem os seus benefícios materiais pessoais, visto que se assume que os interesses individuais são irreconciliáveis com os colectivos dos trabalhadores e principalmente com os de carácter social que poderiam exigir os funcionários estatais ou outros representantes da sociedade. De acordo com esta posição, as empresas não estatais, sobretudo as privadas que contratem trabalho assalariado, são indispensáveis para o funcionamento de toda a economia. O importante, sugerem, é que o «gato cace os ratos, pouco importando a forma como os cace», ou que, «há que deixar enriquecer alguns, pois assim há mais para repartir».


Outra posição considera que as empresas não estatais não são necessariamente capitalistas pois existem outras alternativas entre as empresas privadas capitalistas e as estatais. De facto, coloca-se que hoje em dia, em Cuba, o modelo de gestão nestas últimas e o sistema de direcção da economia não cumprem, na generalidade com os postulados marxistas com que se define a sociedade socialista, como o conjunto de trabalhadores livremente associados, unidos por um plano, [11] isto é, onde a relação social predominante seja a de trabalho livremente associado. Para esta posição, qualquer forma empresarial [12] pode contribuir para a construção socialista, desde que a sua gestão seja democrática e responda a interesses sociais expressos nos planos de desenvolvimento local e/ou nacional. Nalguns casos, é mais efectivo socializar a actividade económica através de formas não estatais geridas democraticamente e guiadas por interesses sociais.


No Projecto de lineamentos não está claro se se pensa dar prioridade a que os trabalhadores se organizem em cooperativas. As medidas adoptadas e as preocupações resultantes dos debates parecem indicar que foi menos complicado aceitar a criação de pequenas empresas privadas que a criação de cooperativas. Por outro lado, é compreensível que promover e apoiar o aparecimento de cooperativas não agropecuárias é uma tarefa mais complexa que expandir e flexibilizar o já existente trabalho por conta-própria.


Não obstante, o titular do Ministério da Economia e Planificação (MEP), Marino Murillo e a MFP [Min. Finanças e Preços], Lina Pedraza colocaram que as cooperativas terão um tratamento preferencial porque são formas «mais socializadas», e quer evitar-se a concentração da riqueza; com isto reconhece-se que esta se obtém fundamentalmente através da contratação de força de trabalho. Mas a ênfase não esteve nas diferentes relações de produção, nesta ou naquela forma – trabalho assalariado vs trabalho livremente associado –, mas nas suas capacidades de acumular riqueza. Isto reflecte a preocupação redistributiva e a despreocupação pela natureza das relações sociais dos sujeitos que constroem, ou não, a sociedade pós-capitalista, abordagem que marcou as experiências socialistas.


Além disso, parece supor-se que manter a empresa estatal como a predominante evita o risco de as não administradas pelo Estado obstruírem a planificação ou a concertação dos interesses individuais com os sociais, aspecto essencial do socialismo. Ainda que pareça reconhecer-se que é necessário adoptar um sistema económico com múltiplas formas empresariais, ainda não se definiu – tarefa em que se está a trabalhar, segundo declarações de funcionários do MEP – como as empresas não estatais se relacionariam ou em que medida estariam inseridas no «sistema de panificação socialista [que] continuará a ser a via principal para a direcção da economia nacional» (princípio 1).


O que está claro no discurso oficial é que se procura separar a administração empresarial das funções de controlo e direcção, e que o Estado as deverá manter; e que estas últimas – afortunadamente – não serão cedidas às leis do mercado. É significativo que se proponha dotar os governos provinciais e municipais do controlo das empresas nos seus territórios. Isso permitiria avançar em processos de socialização substantiva dos ciclos de produção, distribuição e consumo que ocorrem a nível local, através da coordenação horizontal entre os agentes económicos locais: produtores, consumidores, fornecedores, financiadores, etc.


Mas, assim como uma maior autonomia empresarial não é equivalente a uma gestão mais democrática que responda aos interesses dos trabalhadores, um maior controlo dos governos locais também não garante uma maior socialização ou controlo democrático da economia pelas pessoas que residem nesses territórios. Isso depende, em primeiro lugar, da medida em que esses órgãos de representação social respondam realmente às necessidades e expectativas dos seus eleitores, para o que é imprescindível que os governos locais possam estabelecer espaços de concertação e articulação de interesses comuns, e quadros institucionais e reguladores que orientem as actividades económicas para a satisfação desses interesses.


Necessidade de dar preferência às empresas de gestão democrática


No primeiro Seminário Nacional do PCC sobre o Projecto de princípios, em meados de Novembro de 2010, Marino Murillo disse:


As cooperativas têm cabimento na pequena indústria, no sector de serviços […] pois há coisas que sob controlo estatal não funcionam. Mas isso deve fazer-se com ordem. [13]


Além disso, acrescentou que o Ministério da Justiça estava a trabalhar numa proposta de Lei e noutras alterações legislativas que permitiriam a criação de cooperativas não agropecuárias. Mas não houve mais informação, e até agora só é possível criar cooperativas agropecuárias, cujo normativo, por outro lado, apresenta significativas limitações.


Ainda que depois do triunfo revolucionário de 1959 se tenha reconhecido publicamente que as cooperativas são uma forma de produção mais socializada, logo mais avançada, que as empresas privadas, não se implementaram políticas para as fomentar depois de algumas tentativas no início da Revolução e posteriormente ao Primeiro Congresso do PCC em 1975 e ao de 1992. Segundo dados do DNE, o número de CPA e UBPC tem vindo paulatinamente a reduzir-se depois de se terem incrementado durante os primeiros anos após a sua criação, respectivamente 1976 e 1993. Desintegraram-se cooperativas sem que tenham sido criadas novas. [14] Não é possível analisar neste trabalho os factores que motivaram a redução do número de cooperativas cubanas de produção agropecuária e dos seus membros, mas é importante assinalar que as faculdades e as obrigações que lhe foram atribuídas não lhes permitiram diferenciarem-se suficientemente das empresas estatais. [15] Além disso, os camponeses privados desfrutaram, em relação às cooperativas, de maiores níveis de autonomia e menos responsabilidades sociais (compromissos de venda ao Estado, serviços e obras sociais nas comunidades), o que lhes permitiu vender a preços mais altos e ter menos custos.


A actual ausência em Cuba de políticas que favoreçam as cooperativas sobre as formas empresariais privadas pode ser, em certa medida, o resultado de não se ter em conta um dos legados mais importantes do marxismo: que as relações entre as pessoas durante o processo produtivo («relações sociais de produção») são as que – em última instância, sem que os seres humanos tenham a menor capacidade de se autodeterminarem e sobreporem às suas circunstâncias – geram os comportamentos e valores que nos caracterizam. De facto, não se reconhece que a contratação de trabalhadores de forma permanente – seja por pessoas em conta-própria, camponeses privados e, inclusive, por cooperativas – estabelece relações de trabalho assalariado, e que, portanto, é uma forma de subordinação e, geralmente, de exploração mesmo quando o empregador trabalhe juntamente com o assalariado. [16] Enquanto não se compreender a diferença substantiva entre a relação de trabalho assalariado e de trabalho livremente associado, não se poderá valorizar a importância dos modelos de gestão democráticos ou autogestionários como vias institucionais para superar as barreiras que o trabalho assalariado estabelece para o pleno desenvolvimento humano dos trabalhadores.


Uma das razões utilizadas para menosprezar a importância das cooperativas e de outras formas autogestionárias, como disse anteriormente, é a crença de que são demasiado utópicas e portanto ineficazes. No entanto, qualquer dúvida sobre a exequibilidade da sua gestão empresarial fica desfeita quando se estudam as experiências das cooperativas que formam o grupo Mondragón, [17] e outras mais ou menos grandes que existem no mundo; assim como os modelos de auto-gestão jugoslavos [18] e da Espanha republicana. [19] As vantagens dos modelos de gestão democrática, como o cooperativo, foram reconhecidas não só por teóricos socialistas [20] mas também por gerentes de empresas capitalistas interessados em pôr em prática métodos efectivos para motivar os seus trabalhadores a aumentar a produtividade, qualidade e inovação. [21] Também se tem que assinalar que os capitalistas limitam a participação dos trabalhadores para que não controlem realmente a tomada de decisões; e, na generalidade, o direito de participar está associado à propriedade de acções da empresa (stock ownership) e não à sua condição de seres humanos.


Os que estão comprometidos com a construção socialista não vêem na gestão democrática apenas uma ferramenta para motivar os trabalhadores a contribuírem com as suas capacidades, esforço e conhecimentos. A participação é entendida como um meio fundamental para que se desenvolvam como homens e mulheres novos, necessários a uma sociedade de justiça plena: com competências técnicas, de gerência e democráticas, sentido de pertença e compromisso com todo o processo de produção, confiança em si próprios, criatividade e solidariedade. Uma gestão empresarial democrática possibilita também um maior controlo dos trabalhadores sobre as decisões que têm um grande impacto sobre as suas vidas e, por isso – ainda que não suficiente – contar com condições objectivas mais propicias a serem solidários.


À medida que o pensamento socioeconómico cubano – como vem acontecendo noutros países latino-americanos – se liberte dos dogmas, tanto do «socialismo estatal» como do liberalismo económico, e retome a essência humanista do socialismo, o seu objectivo não será reduzido à satisfação de necessidades materiais, mas incluirá as do desenvolvimento individual e social que todo o ser humano tem. Só então prestará atenção à natureza das relações entre as pessoas que determinam as suas experiências práticas quotidianas. Este entendimento terá como corolário a preferência por formas de gestão democráticas nas empresas; formas de organização do trabalho que permitem, como Marx e Engels previram, estabelecer relações de trabalho livre associado que superem a injustiça inerente às do trabalho assalariado, sobre as quais se baseiam as sociedades capitalistas. [22]


Para identificar se uma forma empresarial é pertinente ou compatível com uma sociedade socialista, há que ter em conta se as decisões importantes da sua administração são tomadas de forma democrática pelos próprios trabalhadores, directamente em assembleias-gerais, ou através de representantes eleitos por eles. A propriedade legal é separável da gestão empresarial, e a divisão dos lucros é apenas uma das muitas decisões de gestão que tomam os que controlam a gestão. Isto é, para que uma empresa seja realmente útil para a construção socialista – quanto à sua organização interna – o importante é que a autoridade suprema radique no colectivo de trabalhadores: são eles quem participa directamente na tomada de decisões mais importantes, estabelecem as regras de funcionamento da organização, elegem os seus representantes e controlam o seu desempenho.


Para promover a relação de produção socialista – que Marx definiu como a associação de trabalhadores livres unidos por um plano – não é necessário nem aconselhável proibir a contratação de trabalho assalariado. Mas é imprescindível estabelecer políticas que procurem democratizar a gestão das empresas estatais, e que promovam prioritariamente, no sector estatal as autogeridas, através do seu acesso preferencial a financiamento, fornecimentos, assistência técnica e contratos governamentais, entre outras medidas.


O propósito deve ser criar condições para que as pessoas que têm a vantagem de contar com recursos financeiros e iniciativas empreendedoras considerem mais atractivo criar cooperativas ou outro tipo de empresas autogestionárias; e que as pessoas menos afortunadas prefiram incorporar-se nestas em vez de se converterem em trabalhadores assalariados. Trata-se de instaurar um sistema empresarial com múltiplas formas de gestão, mais e menos democráticas, sem perder de vista que o objectivo é generalizar, o mais possível, a adopção de práticas democráticas de administração. A ideia não é, naturalmente, impor ou forçar a sua expansão, mas criar as condições para que elas são vias mais efectivas de organizar o trabalho, de satisfazer as necessidades materiais e espirituais das pessoas.


É necessário que as empresas respondam a interesses sociais


As empresas não estatais – tanto como as estatais – são úteis ou pertinentes para um projecto de construção socialista que procure satisfazer as necessidades materiais e espirituais das pessoas, na medida em que contribuam para isso. Não basta que sejam rentáveis e cumpram com as suas obrigações tributárias. Além de contribuírem com recursos financeiros através do pagamento de impostos, as suas próprias actividades devem estar orientadas para a satisfação da procura real de consumo, e não exclusivamente para vender. Não menos importante é que as «exteriorizações», ou consequências do seu funcionamento sobre terceiros, contribuam para a satisfação de outras necessidades ou interesses sociais. Para atingir esta realidade é necessário que as actividades económicas estejam sob «controlo social» ou «propriedade social»; o que, como veremos, não significa ignorar os seus imprescindíveis níveis de autonomia, e outras exigências da gestão empresarial.


Logicamente, não é preciso que a sociedade se preocupe por assegurar a provisão eficaz daquelas actividades relacionadas com consumo de bens e serviços que não são básicos [23] nem estratégicos, pois a procura de um mercado competitivo para esta classe de produtos em grande medida consegue-o. Não obstante, para todo o tipo de actividade económica, seja ela básica ou não ou mesmo estratégica, é sempre recomendável promover a sua eficiência social, isto é, o equilíbrio entre custos e lucros sociais considerado mais adequado: que as suas exteriorizações se repercutam da forma mais positiva possível – ou pelo menos, não negativamente – sobre os interesses das comunidades em que têm impacto. Não se trata apenas de estabelecer um quadro regulador que proíba ou penalize comportamentos não desejados, mas que, além disso, é necessário motivar comportamentos positivos, responsáveis e sensíveis às necessidades dos outros; e em primeiro lugar definir as necessidades e interesses que se pretendem satisfazer.


A insistência nestes pontos e a não confiança na «mão invisível» do mercado para que a economia responda às nossas necessidades, não é um empecilho ideológico, mas um pragmatismo baseado em evidências irrefutáveis sobre a inadequação das relações de mercado ou mercantis [24] para alcançar esses objectivos. A experiência de Cuba com os trabalhadores registados por conta própria, os camponeses e os intermediários privados, em espaços de «mercado livre», ou de «oferta e procura», confirmou o acerto dos economistas marxistas de que as regras de funcionamento das relações mercantis promovem comportamentos, no mínimo, alheios aos interesses sociais.


Assim, para alguns cubanos é já evidente que um sistema de mercado não só é inadequado para conseguir que as empresas satisfaçam necessidades básicas de consumo, [25] mas que ele também atenta contra outros interesses sociais como o de alcançar certos níveis de igualdade, justiça e solidariedade. Também não permite que as empresas interiorizem custos sociais como a contaminação do meio ambiente e o desemprego e exteriorizem ganhos sociais como seria partilhar conhecimentos, tecnologias ou outros recursos. Nos espaços de mercado que actualmente existem em Cuba observa-se que os vendedores não estão interessados em satisfazer as necessidades das pessoas: eles privilegiam as produções que mais lucros proporcionam, à custa de outras de maior necessidade; concentram a oferta nos sectores populacionais de maior capacidade de compra, ainda que não de maiores urgências; preferem vender poucos volumes a preços elevados que mais mercadorias a preços mais baixos; aproveitam-se de situações como acontecimentos meteorológicos para subir os preços, mesmo que os custos de produção não tenham subido na mesma proporção; fogem aos impostos; utilizam matérias-primas e tecnologias mais baratas que prejudicam a saúde e o meio ambiente, etc. Estes comportamentos «anti-sociais» não são criados – mas sim acentuados – pelas imperfeições desses espaços de mercado (resultado das limitações à entrada de novos vendedores e da sua segmentação pela dualidade monetária e disparidades na capacidade de compra), mas pela própria concorrência do mercado e pelo escasso controlo social sobre eles.


Falta reconhecer que as relações mercantis se tornam desadequadas para orientar as empresas para os interesses sociais, não porque os vendedores e os compradores sejam más pessoas que precisam de lições de humanismo ou inspectores mais exigentes, mas por ser próprio do funcionamento das relações mercantis que os força a priorizar os seus estreitos interesses sobre os outros, e faz com que esses comportamentos pareçam «naturais». Não obstante, habituados a níveis de justiça e racionalidade não comuns nas outras sociedades, nós cubanos não nos resignamos a que os que comercializam ganhem mais dinheiro que os que produzem, que os preços dos mesmos produtos variem abruptamente, que determinados produtos se vendam só nalguns bairros e a preços muito acima dos custos de produção. A ideia de que sempre haverá perdedores e ganhadores não é aceite passivamente, porque é evidente que através do mecanismo de mercado são sempre os desafortunados que perdem, por causas alheias à sua vontade (mulheres, velhos, negros e grupos historicamente marginalizados). Não parece justo que, por norma, os insensíveis triunfem e percam os que assumem os interesses dos outros como interesses próprios.


Não devemos esquecer que, sob a concorrência do mercado, qualquer tentativa genuína de uma empresa actuar de modo socialmente responsável implica, geralmente, um custo de oportunidade que afecta a sua posição no mercado, pois só se premeiam os comportamentos anti-sociais. [26] Além disso, os que administram empresas não contam com um quadro institucional que lhes permita construir os seus interesses individuais de forma menos estreita. O carácter bilateral e atomista das relações mercantis impede os agentes económicos a ter em conta e até a identificar os interesses dos outros. [27]


Também as empresas geridas democraticamente não podem escapar aos efeitos corruptivos de operarem através de relações mercantis; acabarão por se comportar como empresas capitalistas orientadas para a maximização dos lucros, ignorando ou violando os interesses sociais. [28] Alguns, colocam que estas tendem a interiorizar os interesses sociais, mesmo quando actuam através de relações mercantis, porque a lógica ou o objectivo principal do seu funcionamento é a satisfação das necessidades dos seus trabalhadores, ao contrário das empresas capitalistas, onde o que se procura é a maximização do lucro dos donos. [29] No entanto, ainda que as empresas autogeridas possam estar mais inclinadas a aceitar a sua responsabilidade social, a passar de uma lógica de interesses colectivos (do grupo de trabalhadores) a outra de interesses sociais mais amplos, normalmente estes só podem ser articulados através mecanismos de coordenação ou «planificação democrática», onde se construam, e além disso se articulem, acções para a sua satisfação.


Não há dúvida que o sistema de «planificação» que marcou a economia cubana, ainda que tenha tido a preocupação de que todos os cubanos tenham acesso a bens e serviços básicos, não assegurou a satisfação de alguns interesses sociais, sobretudo os relacionados com o consumo individual e a sua heterogeneidade. O sistema de direcção em que trabalharam as empresas estatais cubanas, e em que se encontram integradas as cooperativas agropecuárias, foi ineficaz na utilização de recursos, pelo que não criou condições para a sustentabilidade das conquistas sociais alcançadas.

Num sistema de planificação vertical – só formalmente democrático como o nosso – o controlo social depende de os administradores estatais responderem efectivamente às directivas dos organismos superiores e, principalmente, que essas orientações reflictam os interesses sociais. Numerosos economistas identificaram as limitações de um sistema de planificação autoritário, não democrático e excessivamente centralizado, tanto para distinguir os interesses sociais, como para motivar os administradores estatais a darem a informação necessária a uma efectiva planificação e que depois a cumprirem as orientações recebidas. [30]


Mas isto não nos pode levar a considerar as relações mercantis como a única alternativa a um sistema de planificação autoritário, vertical, nem esperar que um mercado concorrencial e bem regulado resolva todos os problemas económicos e, menos ainda, o de abastecimento dos bens básicos. É possível encontrar sínteses superiores diferentes – adaptadas a diferentes realidades – que combinem as vantagens das actividades descentralizadas com as orientadas por interesses sociais definidos nos territórios e grupos sociais onde elas têm influência.

Assim, visto que a maioria das empresas não estatais, dado o seu tamanho e carácter não estratégico, repercutirão a sua actividade fundamentalmente sobre as comunidades mais imediatas, é possível exercer o controlo social – necessário para garantir a satisfação dessas comunidades – através de instituições e políticas de alcance local, dirigidas pelos governos municipais ou, em municípios muito povoados, pelos conselhos populares. Os governos locais devem assumir a responsabilidade de orientar e apoiar as empresas do seu território em função dos interesses sociais e das actividades que essas empresas realizem.

Para isso, será suficiente a criação de espaços de coordenação ou planificação democrática, que incluam representantes das empresas não estatais – organizadas em associações ou conselhos – e dos residentes – delegados do Poder Popular, associações de consumidores e outras organizações sociais – desses territórios, para que de forma consensual se desenhem estratégias e planos de desenvolvimento, se decidam orçamentos, e algo muito importante: se supervisione o seu cumprimento. Como o demonstram as experiências de alguns governos locais em Cuba e noutros países, os métodos de «diagnóstico participado» e «orçamento participado» permitirão identificar e aproveitar da forma mais efectiva as potencialidades das empresas no território, e para as motivar a uma maior contribuição ao desenvolvimento local.


Uma vez identificados os interesses sociais, é necessário que o quadro regulador da actividade empresarial da área estabeleça uma lógica de compromisso com a satisfação dos ditos interesses: que se premeiem coerentemente os comportamentos socialmente responsáveis, e se penalizem os que atentem contra eles. Assim, as autoridades locais deverão estabelecer políticas de fomento de empresas que complementem necessidades insatisfeitas; expressar nas licenças de operação e nas cláusulas condicionantes dos contratos (de arrendamento, financiamento, compra e venda) os comportamentos que se espera delas; e premiar com contratos de financiamento, de compra e venda ou com níveis de impostos mais favoráveis as que satisfaçam de forma mais efectiva os interesses das suas comunidades. E as empresas cujas actividades estão relacionadas com necessidades básicas, poderá ser-lhes exigido critérios para a definição dos preços, a partir de custos e benefícios sociais, níveis de produção e qualidade requeridos, bem como compromissos de venda a instituições públicas, entre outras obrigações.


Para exercer o controlo social também sobre a comercialização e o consumo, os espaços de intercâmbio, actualmente de mercado (agro-mercados de livre oferta e procura e inclusive mercados estatais tanto em divisa como em pesos cubanos), poderão ser socializados de modo a que os que neles comercializem tomem em conta os interesses dos consumidores e das comunidades em geral. Como ocorre nas cooperativas de consumo, essas lojas poderão ser administradas por pessoas que respondam e prestem contas nos governos locais – como representantes dos interesses dos consumidores do território – para que eles tenham informação transparente e vias concretas para melhorar a relação preço/qualidade, o sortido, etc. Será também recomendável que os governos sejam responsáveis pela fiscalização das lojas de retalho e grossistas onde se irão aprovisionar e vender as novas empresas não estatais, pela disponibilização de financiamento, de assessorias e serviços para a administração empresarial, entre outras acções vitais para o seu êxito.


É importante esclarecer que o estabelecimento de mecanismos de planificação e coordenação democráticos, e outros espaços de controlo social, não implicam a proibição das empresas estabelecerem relações horizontais de intercâmbio. A descentralização é fundamental para que elas possam actuar com flexibilidade e celeridade e ter uma gestão que satisfaça efectivamente as necessidades sociais. Não se trata de lhes proibir que tentem aumentar os seus lucros, pois é evidente que tal não é possível nem conveniente, se se quer que elas sejam auto-financiadas e que os seus trabalhadores recebam uma remuneração adequada. O que se pretende é conseguir, através da planificação democrática e um quadro regulador, que estabeleçam um sistema de incentivos coerente, que a lógica das relações de intercâmbio horizontais que guiará o funcionamento das empresas não seja a maximização dos lucros dos seus colectivos ou administradores, mas que eles interiorizem o interesse social, que tenham em conta as necessidades materiais e espirituais dos grupos sociais em que a sua actividade se repercute.


Na medida em que os governos locais atinjam uma genuína articulação dos interesses sociais nos seus territórios, os representem fidedignamente nas estratégias, planos e orçamentos, e os implementem através de políticas e instituições, o seu controlo sobre as empresas será mais legítimo. Assim, se estas sabem que as suas contribuições serão utilizadas na satisfação de procuras sociais ou, melhor ainda, se os seus representantes puderem participar em decisões como as de utilizar e controlar a sua aplicação, através de uma prestação de contas realmente transparente, entenderão melhor a repercussão das suas actividades e ser-lhes-á mais incómodo fugir aos impostos e a outras responsabilidades sociais.


Considerações finais


O cerne da dificuldade em avaliar a pertinência de empresas não estatais na economia cubana e o papel que elas podem desempenhar na sua relação com o Estado está na necessidade de definir princípios essenciais que deverão caracterizar o socialismo cubano. Deverão encontrar-se respostas para perguntas como as seguintes: compreende a justiça social inerente a todo o projecto socialista que os trabalhadores tenham igualdade de oportunidades de se desenvolverem como seres humanos plenos e não serem reduzidos a factor de produção do processo produtivo? Exige-se ou não que a actividade empresarial seja orientada por interesses sociais? Por outras palavras, o que preocupa a sociedade cubana não é apenas o aumento da oferta de bens e serviços para satisfação da procura do consumo, mas que essa oferta seja acessível à maioria das pessoas, que se priorize as necessidades mais importantes, e que tenha como resultado postos de trabalho dignos, que se permita aos trabalhadores desenvolverem-se até à plenitude e satisfazer as suas necessidades materiais e espirituais?


Se a resposta às perguntas anteriores for afirmativa, a empresa não estatal é útil e conveniente para a construção socialista, sobretudo na medida em que a sua gestão seja controlada não só pelo colectivo de trabalhadores, mas também – de forma mais directa ou indirecta, conforme for mais eficaz – pelos grupos sociais que recebam influência das suas decisões. Só assim, sob controlo social, «unidas e guiadas por um plano», por uma estratégia de desenvolvimento local se lhes garante e facilita a satisfação dos interesses sociais. Isto implica, basicamente, uma gestão democrática da economia local pelas comunidades, através de instituições e procedimentos que elas determinem.


Ainda a nível local, alcançar este controlo social não será de modo algum um empecilho, nem se poderá avançar de forma linear: haverá êxitos e erros, avanços e recuos. É necessária uma forte vontade política e tempo para que os funcionários dos governos locais, os trabalhadores e os cidadãos desenvolvam as capacidades e atitudes da auto-gestão democrática: tomada de decisões por consenso, sistematização para implementar as acções acordadas, responsabilidade pelas decisões e acções realizadas. Será preciso evitar que os funcionários dos governos locais abusem do seu poder através de uma efectiva fiscalização, e sobretudo, através do seu controlo pelos próprios cidadãos e pelos meios de comunicação. Mas estes hábitos e competências só podem desenvolver-se na prática. Será, indubitavelmente, um processo de aprendizagem de novos métodos e de uma considerável mudança cultural.


O mais fácil – numa perspectiva dos que se sabem entre os vencedores – seria «liberalizar», dar rédea solta ao interesse individual, na contratação de trabalho assalariado permanente e das relações mercantis. Mas uma parte não desprezível dos cubanos, educados nos valores éticos da justiça e da solidariedade, e conscientes do nosso direito de viver dignamente – o que implica contribuir com o melhor de nós para a sociedade – estamos dispostos a fazê-lo melhor: a socializar ou democratizar em vez de só liberalizar. Defendemos a oportunidade de auto-gerir as nossas empresas e governos locais para que a actividade económica, e toda a actividade social de uma forma geral, contribuam para a satisfação das nossas necessidades, para o nosso desenvolvimento pleno como seres humanos. Se acontecer o contrário, passaremos a ser apenas instrumentos para a maximização dos lucros de uns poucos.


O actual processo de redução dos encargos salariais do Estado e de expansão de empresas não estatais apresenta enormes perigos. Mas é também uma oportunidade para promover a criação de novas formas de organização do trabalho que não só criem empregos mais produtivos para satisfazerem as necessidades de consumo e proporcionarem receitas tributárias que promovam o desenvolvimento local. É também, se a isso nos propusermos, uma conjuntura propícia à criação de espaços onde se promovam as capacidades e atitudes democráticas, a criatividade e os valores solidários indispensáveis à construção de uma ordem social que gire à volta das pessoas e não da abundância material, e que as novas gerações sintam como sua.


Só democratizando ou socializando a economia, materializando a propriedade social sobre ela, poderemos avançar para uma sociedade que tenha como horizonte o desenvolvimento humano e não só a redistribuição da riqueza. Se não, corremos o risco de – com o pretexto de criar benefícios materiais – a lógica do lucro se converter em natural e inevitavelmente chocar com a intenção redistributiva, e que assim, um dia, o mais «racional» seja abandonar o horizonte socialista.


Notas


[1] Existem formas de propriedade privada simples (auto-emprego ou emprego familiar, sem contratação de força de trabalho assalariado permanente) e não simples (empresas com contratação de força de trabalho assalariado permanente).

[2] A cooperativa é uma forma da propriedade colectiva: nem privada nem estatal. Veja-se Jesús Cruz Reyes y Camila Piñeiro Harnecker, «Una introducción a las cooperativas», em Camila Piñeiro Harnecker, ed., Cooperativas y socialismo: una mirada desde Cuba, Editorial Caminos, La Habana, 2011, p. 34.

[3] Quando surge a possibilidade do trabalho por conta própria em 1993, não se permitia a contratação de trabalhadores que não fossem familiares por quem possuía a licença. Portanto, era — ao menos formalmente — um tipo de auto-emprego, de emprego individual ou familiar: uma forma privada simples de organização do trabalho. Com as regulamentações de Outubro de 2010 (Gaceta Oficial, n. 11 y 12, La Habana, 2010), ao permitir-se e inclusive exigir-se a contratação de trabalhadores de forma permanente para várias actividades, a conta-própria deixa de representar um modo de auto-emprego pois nalguns casos se converte em formas privadas não simples.

[4] José Alejandro Rodríguez, «Casi se duplican los trabajadores por cuenta propia», Juventud Rebelde, La Habana, 4 de Março de 2011.

[5] «Información sobre el reordenamiento de la fuerza de trabajo», La Habana, 2010 citado por Carmelo Mesa-Lago, «El desempleo en Cuba: de oculto a visible», Espacio Laical, a. 6, n. 4, La Habana, Outubro de 2010, pp. 59-66.

[6] Lina Pedraza, «Intervención en el Sexto Período Ordinario de Sesiones de la Séptima Legislatura de la Asamblea del Poder Popular», 15 de Dezembro de 2010.

[7] Ver Camila Piñeiro Harnecker, ed., ob. cit., pp. 26-30; «Riesgos de la expansión de empresas no estatales en la economía cubana y recomendaciones para evitarlos», disponível em www.odiario.info/?p=2350.

[8] El Proyecto de lineamientos de la política económica y social, del Partido Comunista de Cuba (PCC), aparecido en noviembre de 2010, sirviu de base para os debates de preparación para o VI Congreso do PCC que teve lugar em Abril de 2011.

[9] Leticia Martínez Hernández, «Trabajo por cuenta propia: mucho más que una alternativa», Granma, La Habana, 24 de Setembro de 2010.

[10] Delineamento exposto nos manuais de economia política soviéticos, onde se reduziu a propriedade social — identificada pelos clássicos do marxismo como característica essencial da sociedade pós capitalista — a propriedade estatal.

[11] Karl Marx, «La nacionalización de la tierra» [1872], disponível em Marxists Internet Archive, www.marxists.org, p. 308.

[12] Ainda que não seja impossível que os proprietários individuais cedam o controlo da sua gestão mediante arrendamento, isto dependerá das decisões que essas pessoas tomem. Por isso, é recomendável que sejam as instituições que representem interesses sociais (ministérios ou governos locais, regionais) que deverá ter a propriedade legal pelo menos desses meios de produção estratégicos.

[13] Leticia Martínez Hernández y Yaima Puig Meneses, «Sesionó reunión ampliada del Consejo de Ministros», Granma, La Habana, 1 de marzo de 2011.

[14] Según Alcides López, enquanto desapareceram apenas 136 CPA desde a sua criação (uma média de três anuais), dissolveram-se 474 UBPC, uma média de vvinte e quatro anuais. Ver a sua tese de doutoramento «Propuesta de un Sistema Integrado de Gestión para las UBPC», Universidad de La Habana, enero de 2011.

[15] Avelino Fernández Peiso, «Notas características del marco legal del ambiente cooperativo cubano», em Camila Piñeiro Harnecker, ed., ob. cit., p. 366.

[16] Isto verifica-se se se propuser incluir no mesmo sindicato trabalhadores contratados, por conta-própria e cooperativas que os contratam, e em delineamentos como o de Idalmys Álvarez. Directora de Emprego do Ministério do Trabalho e Segurança Social: «[Na] contratação de trabalhadores, autorizada para 83 das opções laborais não estatais […] não se cria uma tradicional relação de subordinação entre empregador e empregado, pois ao serem ambos trabalhadores por conta-própria acordam os termos da contratação» (Ver José Alejandro Rodríguez, ob. cit.). A pesar disso, publicaram-se no Granma cartas que inclusive demonstram que algumas UBPCdeixaram de pagar salários a trabalhadores contratados. A Central de Trabalhadores de Cuba disse estar a zelar pelo respeito dos interesses dos trabalhadores contratados.

[17] Mondragón é uma cooperativa de terceiro grau, com mais de cem cooperativas, cuja actividade a torna no sétimo grupo empresarial mais importante de Espanha. Ver www.mcc.es.

[18] Jaroslav Vanek, The Labor-managed Economy: Essays by Jaroslav Vanek, Cornell University Press, Ithaca, 1977, p. 208; Pat Devine, Democracy and Economic Planning, Polity Press, Cambridge, 1988, pp. 95-6.

[19] Sam Dolgoff, ed., The Anarchists Collectives: Workers’ Self-management in the Spanish Revolution 1936-1939, Free Life Editions, Nueva York, 1974.

[20] Ver Camila Piñeiro Harnecker, ed., ob. cit., pp. 71-190.

[21] Juan Guillermo Espinosa y Andrew Zimbalist, Economic Democracy: Workers’ Participation in Chilean Industry 1970-1973, Academic Press, Nueva York, 1978, p. 171; John Bonin y Louis Putterman, Economics of Cooperation and Labor-Managed Economy, Harwood Academic Publishers, Nueva York, 1987, p. 6; Jaroslav Vanek, ob. cit., p. 167 y Gregory Dow, Governing the Firm, Cambridge University Press, Nueva York, 2003, pp. 8-15, 95-101, 176-8, indicam as principais deficiências da empresa capitalista, e explicam como estas derivam fundamentalmente da sua gestão não democrática em consequência do seu controlo privado. David I. Levine y Laura D. Tyson («Participation, Productivity, and the Firm’s Environment», en Alan S. Blinder, ed., Paying for Productivity: A Look at the Evidence, The Brookings Institution, Washington, DC, 1990, pp. 183-244) demonstram empiricamente que a participação dos trabalhadores na gestão das suas empresas pode dar lugar a aumentos de produtividade.

[22] A injustiça da relação de trabalho assalariado não reside realmente no montante do salário, mas no carácter não democrático da gestão que ela estabelece em que o trabalhador cede a sua capacidade de participação substantiva. Ver Camila Piñeiro Harnecker, «Riesgos de la expansión…», ed. cit.

[23] Como necessidade «básica» inclui-se normalmente a alimentação, educação, saúde, higiene, transporte e roupa, entre outros. No entanto, a definição de um bem ou serviço como «básico» dependerá das aspirações e hábitos culturais das pessoas e das condições de acesso a elas que se tenha.

[24] Por «relações mercantis» não se compreende qualquer forma de intercâmbio horizontal, mas aquelas onde os preços e outras decisões de intercâmbio são tomadas — ao menos em teoria — de forma bilateral entre o vendedor e o comprador e cada parte procura maximizar o seu interesse individual, sem ter em conta o social. É possível, mediante instituições de coordenação ou planificação democrática, alcançar relações de intercâmbio horizontais que não sejam mercantis mas «socializadas».

[25] Inclusive a teoria económica neoclássica reconhece que as leies de oferta e procura não se verificam quando os produtos são dificilmente substituíveis como os de consumo básico.

[26] Camila Piñeiro Harnecker, «Principales desafíos de las cooperativas en Venezuela», Cayapa: Revista de Economía Social Venezolana, a. 8, n. 15, Caracas, enero-junio de 2008, pp. 54-5.

[27] Camila Piñeiro Harnecker, «Conciencia social y planificación democrática en las cooperativas venezolanas», Temas, n. 54, La Habana, abril-junio de 2009, p. 22.

[28] Ver Robin Hahnel, Economic Justice and Democracy: From Competition to Cooperation, Routledge, Nueva York, 2005, p. 355; Pat Devine, ob. cit., p. 13; Ellen T. Comisso, Workers’ Control under Plan and Market, Yale University Press, New Haven, 1979, p. 110.

[29] Para compreender esta diferença é necessário perceber que nem todas as necessidades humanas podem ser satisfeitas de forma individual através de receitas monetárias. Há outras, tanto materiais como espirituais, relacionadas com a realização pessoal e com as relações que se estabelecem com outros seres humanos

[30] Ver Pat Devine, ob. cit., pp. 73-4, 88-91, 220-1, y Robin Hahnel, ob cit., pp. 94, 97-8.


* A autora é professora, investigadora e consultora de empresas do Centro de Estudos de Economia Cubana, Universidade de Havana.


Este estudo foi publicado na revista cubana Temas, nº 67, Julho-Setembro de 2011


Tradução de José Paulo Gascão


 
 
Leia também o primeiro estudo da autora publicado neste blog: