quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Rede "pequena" de corporações controla economia global, diz pesquisa

A economia global é comandada por uma "superentidade" formada por uma rede de relativamente poucas corporações transnacionais, cuja relação estreita de propriedade entre si traz riscos à estabilidade do sistema econômico mundial, segundo estudo realizado por cientistas com base na Suíça.





A pesquisa, feita por especialistas do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, com sede em Zurique, e que será publicada na revista científica PloS ONE, usou métodos de análise de sistemas complexos para estudar 43.060 multinacionais, a partir de uma base de dados de 37 milhões de empresas e investidores de todo o mundo, datada de 2007.


Das corporações estudadas, os cientistas criaram um modelo a partir das participações acionárias das empresas entre si, somadas a seus lucros operacionais. Assim, os pesquisadores chegaram a um "núcleo" de 1.318 corporações que possuem no mínimo duas outras - embora elas tivessem, em média, elos com 20 outras empresas.



Essa rede de 1.318 companhias, de acordo com a pesquisa, possuía a maior parte das ações de empresas de alta confiabilidade e lucratividade (conhecidas como ações blue chip) e de manufatura do mundo, que representam cerca de 60% dos lucros operacionais globais.



A maioria das corporações que compõem este grupo é formada por bancos. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha são os países com o maior número de empresas nesta lista, seguidos por França, Espanha e Itália. O banco Bradesco é a única empresa brasileira que está neste núcleo.

Rede restrita de corporações


Ao estreitar ainda mais a rede de propriedade das corporações, os cientistas encontraram uma "superentidade" formada por 147 empresas que possuem parte ou a totalidade da propriedade umas das outras. Segundo o estudo, esta "superentidade", embora represente menos de 1% das multinacionais do mundo, comanda 40% da riqueza gerada pelas outras 42.913.

A exemplo do grupo mais amplo, esta rede "superexclusiva" é formada, em sua maioria, por instituições financeiras. Entre as 20 corporações mais poderosas desta relação estão o banco britânico Barclays (em primeiro lugar) e os bancos americanos JPMorgan Chase e Goldman Sachs.



Pelo fato de a pesquisa ter usado dados de 2007, a instituição financeira americana Lehman Bros., cuja falência acabou dando início à crise mundial de 2008, aparece em 34º lugar entre as corporações mais poderosas da "superentidade".



Os autores da pesquisa afirmam que, usando métodos de análise de sistemas complexos, pretenderam realizar um estudo sobre a economia global levando em conta informações "puras", e não convicções ideológicas. "Deixe os dados falarem, e não os dogmas", disse um dos pesquisadores, James Glattfelder, em seu blog.



O estudo, no entanto, sofreu críticas. O especialista Yaneer Bar-Yam, chefe do Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra (EUA), disse à revista New Scientist que a pesquisa iguala as noções de propriedade e de controle, o que não seria, segundo ele, sempre a mesma coisa.



Riscos à estabilidade


De acordo com o economista John Driffill, da Universidade de Londres, este estudo é o primeiro a identificar empiricamente algo há muito debatido, que é a rede de poder formada por um grupo razoavelmente pequeno de grandes corporações transnacionais.



Segundo ele, no entanto, a importância do estudo não reside tanto no fato de verificar a existência de uma "superentidade" que comanda a economia no mundo, e sim em trazer novas ideias sobre os riscos à estabilidade financeira global, com base na interdependência entre as corporações.



"O problema na Europa hoje é que todos os bancos que possuem parte da dívida grega e espanhola fizeram empréstimos entre si, então se um deles quebrar, todos os outros quebrarão. São ligações como essas que fizeram com que a quebra do Lehman Bros. em 2008 se tornasse um desastre global", disse Driffill à BBC Brasil.



O estudo foi divulgado depois que ativistas em todo o mundo realizaram ocupações e protestaram contra as grandes corporações e os cortes de gastos públicos.



Driffill afirma, no entanto, que o fato da economia global ser comandada por uma rede limitada de empresas não é algo intencional ou planejado, e sim um movimento espontâneo.



"Este é um grupo grande, formado por mais de cem empresas, com interesses bastante diversos entre si. Não é possível que elas estejam de alguma forma conspirando", afirma.

 
 
As 20 maiores corporações "superconectadas"

1. Barclays (Grã-Bretanha)
2. Capital Group Companies (EUA)
3. FMR Corporation (EUA)
4. AXA (França)
5. State Street Corporation (EUA)
6. JP Morgan Chase (EUA)
7. Legal & General Group (Grã-Bretanha)
8. Vanguard Group (EUA)
9. UBS (Suíça)
10. Merrill Lynch (EUA)
11. Wellington Management (EUA)
12. Deutsche Bank (Alemanha)
13. Franklin Resources (EUA)
14. Credit Suisse (Suíça)
15. Walton Enterprises (Grã-Bretanha)
16. Bank of New York Mellon Corp (EUA)
17. Natixis (França)
18. Goldman Sachs (EUA)
19. T Rowe Price Group (EUA)
20. Legg Mason (EUA)

Fonte: PloS ONE


FONTE: BBC Brasil

Assembleia da ONU condena bloqueio dos EUA contra Cuba

Pela 20ª vez consecutiva, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou, nesta terça – feira (25), por 186 votos a favor e dois contra (Estados Unidos e Israel), e três abstenções (Ilhas Marshall, Micronésia e Palau), a Resolução que condena o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba.

José Saramago - Onde está então a democracia?

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O papel genocida da OTAN (Segunda parte)


Por Fidel Castro


HÁ algo mais de oito meses, em 21 de fevereiro do presente ano, afirmei com plena convicção: "O plano da OTAN é ocupar a Líbia". Sob essa manchete, tratei do tema pela primeira vez, em uma Reflexão cujo conteúdo parecia ser o fruto da fantasia.



Incluo nestas linhas os elementos de juízo que me levaram a essa conclusão.



"O petróleo se converteu na riqueza principal, nas mãos das grandes multinacionais ianques; através dessa energia dispuseram de um instrumento que acrescentou consideravelmente seu poder político no mundo".



"Alicerçada nessa fonte de energia teve seu desenvolvimento a civilização atual. A Venezuela foi a nação deste hemisfério que maior preço pagou. Os Estados Unidos se tornaram nos donos das enormes jazidas com a que a natureza dotou esse irmão país".



"Ao finalizar a Segunda Guerra Mundial, começou a extrair maiores volumes de petróleo das jazidas do Irã, bem como das da Arábia Saudita, Iraque e os países árabes situados em torno destes países. Estes passaram a ser os fornecedores principais. O consumo mundial foi se elevando até a quantia fabulosa de aproximadamente 80 milhões de barris diários, incluídos os que são extraídos do território dos Estados Unidos, aos que posteriormente se somaram o gás, a energia hidráulica e a nuclear".



"O esbanjamento do petróleo e do gás é associado a uma das maiores tragédias, ainda não resolvido no absoluto, que a humanidade está sofrendo: a mudança climática".



"Em dezembro de 1951, Líbia se converteu no primeiro país africano a atingir a independência, depois da Segunda Guerra Mundial, tendo sido seu território palco de importantes combates entre as tropas alemãs e as do Reino Unido..."



"Mais de 95% do território líbio é desértico. A tecnologia permitiu descobrir importantes jazidas de petróleo leve, de excelente qualidade, que hoje atingem 1,8 milhão de barris diários e abundantes depósitos de gás natural. (...) Seu rigoroso deserto é situado acima de um enorme lago de água fóssil, equivalente a mais de três vezes a superfície de Cuba, questão que lhe permitiu construir uma ampla rede de tubagens condutoras de água doce que se estende pelo país todo".



"A Revolução líbia teve lugar no mês de setembro do ano 1969. Seu líder principal foi Muammar al-Khadafi, militar de origem beduína, quem ainda muito jovem se inspirou nas ideias do líder egípcio Gamal Abdel Nasser. Sem dúvida, muitas de suas decisões estão associadas às mudanças que se produziram na altura em que, tal como no Egito, uma monarquia fraca e corrupta foi derrocada na Líbia".



"Pode-se ou não concordar com Khadafi. O mundo foi invadido por todo o tipo de notícias, empregando, especialmente, a mídia. Será preciso esperar o tempo necessário para conhecermos com rigor, o quanto há de verdade ou mentira. Ou uma mistura de fatos de todo tipo que, em meio do caos, se produziram na Líbia. O que para mim se torna evidente é que ao governo dos Estados Unidos não lhe preocupa minimamente a paz na Líbia e não vacilará na hora de dar à OTAN a ordem de invadir esse rico país, talvez em questão de horas ou em breves dias".



"Aqueles que com pérfidas intenções inventaram a mentira de que Khadafi se dirigia à Venezuela, tal como fizeram na tarde de domingo 20 de fevereiro, receberam hoje uma digna resposta do ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolas Maduro..."



"Da minha parte, não imagino o líder líbio abandonando o país, eludindo as responsabilidades que lhe imputam, sejam ou não falsas em parte ou na totalidade".


 
"Uma pessoa honesta sempre reagirá contra qualquer injustiça que seja cometida contra qualquer povo do mundo, e o pior disso, neste instante, seria guardar silêncio diante do crime que a OTAN se prepara para cometer contra o povo líbio".

 
"A chefia dessa organização bélica quer fazê-lo com urgência. É preciso denunciar isso!"

 
Nessa data tão precoce já me tinha dado conta daquilo que era absolutamente óbvio.

 
Amanhã, terça-feira, 25 de outubro, falará nosso chanceler Bruno Rodríguez na sede das Nações Unidas para denunciar o criminoso bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba. Acompanharemos de perto essa batalha, que porá em evidência, mais uma vez, a necessidade de pôr fim, não só ao bloqueio, mas sim ao sistema que gera a injustiça em nosso planeta, dilapida seus recursos naturais e põe em risco a sobrevivência humana. Prestaremos atenção especial à alegação de Cuba.

 
Prosseguirá na quarta-feira, 26.

 
FONTE: Granma

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O papel genocida da OTAN

Por Fidel Castro



Essa brutal aliança militar se converteu no mais pérfido instrumento de repressão conhecido pela história da humanidade.



A OTAN assumiu o papel repressivo global, depois que a URSS, que tinha servido aos Estados Unidos de pretexto para criá-la, deixasse de existir. Seu propósito criminal se tornou patente na Sérvia, um país de origem eslava, cujo povo lutou heroicamente contra as tropas nazistas, na Segunda Guerra Mundial.



Quando, em março de 1999, os países dessa nefasta organização, em seus esforços por desintegrarem a Iugoslávia, depois da morte de Josip Broz Tito, enviaram suas tropas em apoio dos secessionistas kosovares, depararam-se com uma forte resistência daquela nação, cujas experientes forças estavam intatas.



A administração ianque, aconselhada pelo governo da direita espanhola de José María Aznar, atacou as emissoras de televisão da Sérvia, as pontes acima do rio Danúbio e Belgrado, a capital desse país. A embaixada da República Popular da China foi destruída pelas bombas ianques, vários dos funcionários morreram, e não podia haver erro possível, como alegaram os autores. Inúmeros patriotas sérvios perderam a vida. O presidente Slobodan Milosevik, abrumado pelo poder dos agressores e pelo desaparecimento da URSS, cedeu às exigências da OTAN e admitiu a presença das tropas dessa aliança em Kosovo, sob mandato da ONU, o que finalmente conduziu a sua derrota política e seu julgamento posterior pelos tribunais nada imparciais de Haia. Morreu raramente na prisão. Caso o líder sérvio tivesse resistido uns dias mais, a OTAN teria entrado numa grave crise, que esteve a ponto de estourar. O império dispôs, assim, de muito mais tempo para impor sua hegemonia entre os cada vez mais subordinados membros dessa organização.



Entre 21 de fevereiro e 27 de abril do presente ano, publiquei no site Cubadebate nove Reflexões sobre o tema, nas quais abordei amplamente o papel da OTAN na Líbia e o que em minha opinião ia acontecer.



Vejo-me na obrigação de fazer uma síntese das ideias que expus, e dos fatos que foram acontecendo, tal qual foram previstos, agora que um personagem central de tal história, Muamar Kadafi foi ferido de gravidade pelos mais modernos caças-bombardeiros da OTAN, os que interceptaram e inutilizaram seu veículo, capturado ainda vivo e assassinado pelos homens armados por essa organização militar.



Seu cadáver foi sequestrado e exibido como trofeu de guerra, uma conduta que viola os princípios mais elementares das normas muçulmanas e de outras crenças religiosas prevalecentes no mundo. Anunciou-se logo que a Líbia será declarada "Estado democrático e defensor dos direitos humanos".



Vejo-me na obrigação de dedicar várias Reflexões a estes importantes e significativos fatos. Prosseguirá proximamente.

 
FONTE: Granma

“35 anos do atentado contra um avião civil cubano onde morreram 73 pessoas”


Embaixador cubano, Carlos Rafael Zamora Rodríguez, fala sobre relações diplomáticas e a batalha há mais de uma década para libertação dos Cinco Cubanos, presos em Miami

Gabriel Bernardo,
Fazendo Media



Em entrevista concedida ao Fazendo Media, o Embaixador da República de Cuba no Brasil, Carlos Rafael Zamora Rodríguez, fala sobre as relações diplomáticas Brasil-Cuba e a batalha há mais de uma década para libertação dos Cinco Heróis Cubanos, presos em Miami.

Como estão as relações diplomáticas Brasil-Cuba com o governo Dilma? Mudou alguma coisa em relação ao que era com o governo Lula?

As relações diplomáticas Cuba-Brasil são excelentes. A relação entre esses países irmãos vem se aprofundando há 25 anos, quando se estabeleceu um vínculo diplomático assim que José Sarney assumiu a presidência do Brasil. A partir daí as relações diplomáticas Cuba-Brasil vêm melhorando a cada governo e hoje em dia são excelentes. Existe uma amplitude boa de intercâmbio do ponto de vista econômico e comercial, e o Brasil é o nosso segundo parceiro no continente sul-americano e nos planos políticos e diplomático. Há um intercâmbio muito aberto e transparente.



O que Cuba tem feito pela Campanha de Libertação dos Cinco Heróis Cubanos, sobretudo agora com a libertação condicional de René González por três anos em Miami?

É importante observar que depois do dia 6 de outubro de 1976, completaram 35 anos do atentado contra um avião civil cubano [avião DC-10] onde morreram 73 pessoas. Esse é o exemplo mais ilustrativo de terrorismo exercido contra Cuba nos últimos 50 anos. Cuba sofreu centenas de ações terroristas que vitimaram mais de 5 mil cubanos, entre mortos e feridos com sequelas, durante meio século. Todas elas vindas do território dos Estados Unidos. Dessa forma é que são organizadas ações contra Cuba. E neste sentido é que Cuba se reporta aos Estados Unidos, no sentido de dar um fim a estas atividades terroristas. Em qualquer parte do mundo é definida pelos juristas a necessidade tardia que estas atividades violentas, que destruíram vidas e afetaram bastante a economia cubana. Uma via que Cuba utilizou foi enviar os cinco cubanos para fazer atividades monitorando as atividades de grupos terroristas dentro dos Estados Unidos. Com isso foi possível evitar outras ações terroristas.

O governo de Cuba recebeu, em 1996, informações de que Luis Posada Carriles foi o responsável pelo atentado que derrubou o DC-10 da aviação cubana em 1976 e que também planejava fazer outro atentado contra um avião de civis que voavam entre países da América Central. Constatou-se também, nesta época, que Posada Carriles dirigiu ações terroristas em Havana contra um hotel para minar o turismo. O Comandante Fidel Castro leu isto na carta e então a enviou para o escritor Gabriel García Márquez, para que enviasse ao governo do presidente Bill Clinton. Evidente que Clinton se preocupou com o que estava acontecendo. Uma delegação dos EUA foi a Cuba para ver o assunto. Houve uma reunião com o governo de Cuba e lhes foi entregue uma grande quantidade de informações com dados, provas e evidências da existência de grupos terroristas nos EUA. Lamentavelmente, nenhum terrorista até hoje foi julgado e não se fez nada para combater o terrorismo contra Cuba. E ainda foram presos todos os cinco companheiros, que teriam oferecido boa parte das informações das atividades terroristas que iam sendo realizadas pelos grupos terroristas nos EUA.

Há um processo contra os cinco companheiros cubanos (Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ramon Labañino e René González) cheio de irregularidades, e eles foram submetidos a mal tratos. Foram presos por ajudar a expor as atividades de grupos terroristas nos Estados Unidos contra Cuba. Os EUA buscaram em Miami todas as atividades contra Cuba e depois contrataram um jornalista para assediar uma campanha contra os Cinco. Nessas condições, foram julgados e condenados nossos companheiros com uma extensa pena e prisões perpétuas. Agora o processo está praticamente encerrado e não há nenhuma maneira de obter notícia. Todos foram condenados injustamente com crueldade. Ultimamente parece uma ação política contra Cuba, e ao mesmo tempo continua-se esquecendo as ações e atos adicionais de crueldade. Não é permitido, por exemplo, nossos companheiros terem visitas de suas famílias.



Qual a postura dos organismos internacionais em relação à Posada Carriles e aos Cinco Heróis Cubanos?

É claro que existe uma batalha não só em Cuba, mas também internacional do Comitê das Nações Unidas, contra as detenções ilegais e a tortura. O Cômite emitiu um pronunciamento, onde considera o processo de detenção dos cinco cubanos arbitrário. Ele também abriu no âmbito internacional um informe em relação a situação dos Cinco, que deve ser tratado em outros conselhos de Direitos Humanos pelo fato dos companheiros cubanos estarem sofrendo condições avessas às prisões. E enquanto isso, Posada Carriles está livre e o governo dos EUA não quer julgá-lo, apesar de ser um assassino confesso e autor do caso do avião. Nessas circunstâncias, se acaba de cumprir o período de prisão de René Gonzáles. Sua condenação foi cumprida até o último minuto, e quando está para se libertar tem uma pena adicional de 3 anos em liberdade condicional a cumprir em Miami.

Qual o risco de vida que René Gonzáles corre nestes três anos em Miami?

Do grupo terrorista americano, no qual ele atuou buscando informação, matá-lo. René foi separado da sua família, essa é uma situação que ele terá que atravessar durante este período. Eu creio na voz internacional e que todo o mundo se dirija fazendo um apelo aos americanos, devido à tamanha injustiça que está acontecendo.

Alguns grupos de solidariedade estão engajados na campanha pela libertação dos Cinco. O que nós, aqui do Brasil, podemos fazer?

Ao povo brasileiro só tenho que agradecer através de ti e de sua mídia pelo reforço e solidariedade. O povo brasileiro se sensibilizou fortemente com este tema. Precisamos do Brasil, no sentido de continuar com seu esforço.

Cuba está abrindo crédito a produtores e trabalhadores independentes, a fim de atualizar o seu modelo econômico. A grande mídia remete isso como ao início de um colapso do regime Cubano. Quais são as mudanças que Cuba está realmente fazendo?


No VI Congresso do Partido Comunista de Cuba, a ilha definiu a atualização do modelo econômico cubano. Durante seis meses, todos os dias, em todos os lugares da ilha, foram apresentadas mais de oitocentas mil propostas políticas, conhecidas como alinhamento de política econômica e social. Cada alinhamento corresponde a uma esfera que tem como objetivo a atualização do modelo econômico cubano, que foi debatido com toda a população cubana. Dois terços destas propostas foram modificadas em uma votação popular, buscando o consenso de todo o país. O debate aberto e franco em toda a ilha é método que Cuba adota com muita frequência.

Depois de todo esse debate, se aprovou no congresso definitivamente com algumas emendas incluídas pelos deputados. Hoje, esse documento aponta a nossa política de atualização de um momento econômico e social para o país. O alinhamento da política tem como estrutura todo o esquema empresarial do país para um melhor funcionamento, tanto no aspecto governamental como na descentralização das atividades empresariais e econômicas. Esse alinhamento está também no sentido de oferecer uma forma não estatal de pequena produção e ou de empreendedorismo, como é chamado aqui no Brasil. O caso mais comum no Brasil é o modelo de cooperativa de trabalho. Neste contexto, o governo está entregando terras ociosas para que sejam cultivadas a fim de substituírem importações e oferecerem uma segurança complementar ao país. Este processo terá um melhor resultado, e também existem cubanos apoiando com insumos, equipamento e outras formas de apoio para ajudar a conseguir melhores resultados agrícolas. Existe um processo pelo qual o Brasil colocou sua intenção de cooperar, e nessa negociação estamos nesse momento.

Cuba e Brasil estão trabalhando juntos pela recuperação do Haiti. O que tem sido feito?

Acredito que a ajuda e o apoio que Cuba oferece atualmente para formar profissionais do mundo todo é importante, mas temos que reduzir um pouco essa formação pelas dificuldades econômicas que os países têm. Cuba já graduou mais de mil médicos na América Latina e no Caribe. Com foco principalmente na Venezuela e em outros países, formando médicos. No Brasil, Cuba já graduou cerca de 400 médicos brasileiros. Cuba tem a ciência de que o Brasil precisa muito de médicos. Existem regiões brasileiras que precisam de médicos e a população brasileira precisa de trabalhadores melhor formados. Brasil e Cuba estão trabalhando juntos no Haiti, onde vamos oferecer à população haitiana mais de 800 profissionais entre médicos e profissionais da saúde. O terremoto em 2010 reforçou esta necessidade. O Brasil assumiu uma parceria com El Salvador em um acordo tripartite, para contribuir com todo o problema da saúde haitiano.



O cônsul-geral de Cuba no Brasil, Lázaro Méndez Cabrera, assume que Cuba errou em sua política de amparo estatal, mas que o fato de tentar mudá-la, não prejudica o socialismo, mas sim o reforça. Ele também critica o que ele chama de “igualitarismo”, que tem sido praticado em Cuba. Que tipo de conceito Cuba está mudando?

Cuba é uma sociedade onde se exerce a maior igualdade possível, porém não se pode exercer uma espécie de igualitarismo falso. Todos nós somos iguais nos direitos, nos deveres e perante a lei. Mas não somos iguais em relação a cada pessoa. Em todas essas décadas Cuba aplicou mecanismos que reduz muito as diferenças, como, por exemplo, a garantia a toda a população do mínimo de produtos quando há o máximo de escassez. Creio que é importante quando se tem pessoas vulneráveis, que essas pessoas recebam um subsídio em determinado momento. É o que posso explicar à grosso modo nesse momento, o tema exigiria um tempo muito maior para ser explicado.







Charge: Depois da Líbia, abutres farejam sangue na Síria

Outros tempos... Os velhos comunistas!


Por Flávio Tavares*




Bancada Comunista na Constituinte de 1946

A inveja é pecado grave ou defeito terrível, mas confesso aqui, publicamente, que sempre invejei os antigos militantes comunistas. Aos olhos da minha geração, nos anos 1950-60, quando o debate político era o centro da vida, os “comunas” tinham aura de santos e se comportavam com a pureza de monges ascetas. Não buscavam nada para si próprios, entregavam-se totalmente à “causa”, despojavam-se de tudo, desprezavam o mínimo conforto pessoal, “coisa de pequeno burguês”. Eram como os primeiros cristãos das catacumbas romanas, perseguidos pelo que pensavam e coerentes no que agiam.



Até os integralistas os respeitavam, além de toda a direita, quanto mais os da esquerda socialista, como eu, vindos também do ventre marxista. Mesmo nas divergências mais sérias ou nos sectarismos mais fanáticos, eles eram exemplo de integridade pessoal.



Bastou ocuparem uma migalha do poder (como o PC do B ocupa há oito anos no governo federal), para a cúpula partidária transformar-se em jóia falsa de vendedor ambulante, desprezível bugiganga de lata.



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A briga pública em que “um militante de base” do PC do B de Brasília (enriquecido pelos favores recebidos do poder) acusa o ministro Orlando Silva de embolsar milionários subornos tem todos os ingredientes das disputas entre marginais: cada qual denuncia cada quem...



O acusador principal é soldado da Polícia Militar do Distrito Federal, dono de uma mansão de R$ 3 milhões, de um Camaro, um Volvo e um BMW na garagem, e de duas “associações” de kung-fu aquinhoadas com milionários cifrões pelo Ministério do Esporte. O ministro se defende e acusa o antecessor (hoje governador do Distrito Federal), que fez a festança ainda no governo Lula da Silva, mas se esquece de que ele próprio era, então, secretário executivo do ministério.



No PC do B, os três tratavam-se de “camaradas”; hoje de “bandidos”, mutuamente e a gritos. Inquirido no Congresso, Orlando Silva frisou que o denunciante “não apresentou provas”, e é verdade. Mas, de que servem as provas no Brasil, se a deputada Jacqueline Roriz (que não é do PC do B) foi filmada recebendo propina e continua no parlamento, “absolvida” por seus pares?



O Ministério do Esporte e o PC do B estão sob o fio da navalha desde os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio: o Tribunal de Contas impugnou quase R$ 13 milhões gastos na construção da Vila Olímpica, por corresponderem a despesas por obras já pagas...



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Deslizes pessoais são comuns em nosso absurdo espectro político, em que os partidos têm “donos”, como as “boites” e demais casas do gênero, com dança e outras coisas. O PC do B, porém, surgiu como dissidência do antigo PCB para “corrigir” o que acusava de “aburguesamento” do partido original, que Luiz Carlos Prestes dirigia. Desde a morte de João Amazonas, anos atrás, porém, o PC do B enveredou por caminhos muito próximos àqueles que tornaram Paulo Maluf um símbolo do absurdo em política. Por essa senda tortuosa, sua mais notória figura, o deputado Aldo Rebelo, nos legou um projeto de Código Florestal que incentiva desmatar e trata a floresta como se fosse “tolo requinte burguês”.



Nada disso, porém, se equipara à propina aberta que o ministro recebia na garagem, no subsolo, em caixas de papelão, do soldado da PM e ex-militante do partido, enriquecido com dinheiro público.



Essas verbas do Programa Segundo Tempo do ministério, destinadas a disseminar a prática desportiva pelo país, são a melhor marca de que vivemos hoje em outros tempos. Afinal, ninguém é de ferro!



*Jornalista e escritor




FONTE: PCB

ANITA FALA POR MIM

Pelo Maestro Jorge Antunes


Diogo Ramalho me enviou e-mail cobrando-me novo artigo para O Miraculoso. Comecei a arquitetar, na cabeça, uma desculpa para a minha omissão. Ele, desde o início, conta com um texto meu a cada semana.


 
Eu precisava dizer a ele a verdade. Cheguei a rascunhar. A verdade é que estou sem motivação. Sem vontade de escrever textos em prosa. Tenho escrito poemas. Meus sentimentos andam abalados com os acontecimentos recentes. Quando isso acontece fico sem ganas de me estender em frases, frases e frases. Dou preferência à composição musical, à poesia, às imagens poéticas, à aliteração, ao jogo com as palavras, à concisão. As novas denúncias contra militantes e ex-militantes do PCdoB, que em nada me surpreendem, foram as primeiras causas de meu mutismo. A podridão grassa nos poderes constituídos e, quando me lembro de que quem está na cúpula dos comandos nacionais são canalhas indicados pelos canalhas eleitos pelo povo, me dá um desânimo total.


Palavras de nada têm servido. Gritos tampouco. Clamores tampouco. As marchas contra a corrupção foram recuperadas pela direita. Fico apavorado. Jovens que detestam partidos políticos começam a ser arrastados às ruas, para participar de marchas que passam a ser chamadas de “desfiles” e não mais de “passeatas”.


Na condição de sexagenário que teve a juventude alijada da vida nacional graças ao exílio, começo a pensar que tudo pode voltar. Os golpistas de 1964, poucos se lembram, não se diziam meros anticomunistas. Diziam-se também combatentes contra a corrupção. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu 400 mil pessoas, foi forte apoio da sociedade civil ao golpe militar.


As últimas gotas d’água, que abalaram minha verve em prosa, foram o assassinato bárbaro de Kadafi e o programa político do PCdoB na TV. A canalha oportunista, entreguista, antipovo e adesista do PCdoB, usou figuras heróicas brasileiras, na iconografia do programa, para tentar validar seu discurso falsamente socialista. Revoltou-me a utilização de fotos de Luiz Carlos Prestes e de Olga Benario, duas figuras máximas da luta socialista no Brasil.


Hoje, dia 21/10/2011, a professora Anita Leocádio Prestes, filha de Olga e Prestes, divulgou uma carta aberta à direção do PCdoB que diz, com fundamento e propriedade, do sentimento meu e de todos os verdadeiros socialistas brasileiros.


Transcrevo aqui a carta de Anita. O texto dela é o artigo que dou a O Miraculoso esta semana. Faço minhas as palavras de Anita.

Ao Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

Dirijo-me à direção do PCdoB para externar minha estranheza e minha indignação com a utilização indébita da imagem dos meus pais, Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, em Programa Eleitoral desse partido, transmitido pela TV na noite de ontem, dia 20 de outubro de 2011.

Não posso aceitar que se pretenda comprometer a trajetória revolucionária dos meus pais com a política atual do PCdoB, que, certamente, seria energicamente por eles repudiada. Cabe lembrar que, após a anistia de 1979 e o regresso de Luiz Carlos Prestes ao Brasil, durante os últimos dez anos de sua vida, ele denunciou repetidamente o oportunismo tanto do PCdoB quanto do PCB, caracterizando a política adotada por esses partidos como reformista e de traição da classe operária. Bastando consultar a imprensa dos anos 1980 para comprovar esta afirmação.

Por respeito à memória de Prestes e de Olga, o PCdoB deveria deixar de utilizar-se do inegável prestígio desses dois revolucionários comunistas junto a amplos setores do nosso povo, numa tentativa deplorável de impedir o desgaste, junto a opinião pública, de dirigentes desse partido acusados de possível envolvimento em atos de corrupção.

Atenciosamente,

Anita Leocádia Prestes


Jorge Antunes é Maestro e Professor Aposentado da UnB.

sábado, 22 de outubro de 2011

O Cavaleiro da Esperança: Vida de Luiz Carlos Prestes – uma obra de valor histórico



Por Anita Leocadia Prestes



O Cavaleiro da Esperança: Vida de Luiz Carlos Prestes, obra de Jorge Amado publicada pela primeira vez em espanhol, na Argentina, no ano de 1942, foi dedicada à minha avó Leocadia, mãe do biografado, “la madre heroica”, segundo Pablo Neruda. A dedicatória dizia: “Lejos de su hijo, en tierras que no son las suyas, sufre y lucha doña Leocadia Prestes. Escribi este libro, amiga, para que lo ofrezcas a la madre de Luiz Carlos Prestes como uma dádiva del Brasil”.



Era a primeira biografia do meu pai, da qual Jorge Amado se dizia orgulhoso, ao escrever de próprio punho uma outra dedicatória no exemplar destinado a Leocadia Prestes e enviado ao México, onde então morávamos minha avó, minha tia Lygia e eu. Vivíamos “os anos tormentosos” de nossas vidas, segundo palavras de Leocadia em carta dirigida ao filho, prisioneiro da ditadura Vargas.



Jorge Amado, que havia publicado aos dezenove anos, em 1931, seu primeiro livro, O país do Carnaval, participara das lutas contra o fascismo no Brasil e das jornadas promovidas pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) durante o ano de 1935. Com a derrota do movimento, foi preso em 1936 e, novamente, em 1937, após o golpe que instaurou o Estado Navo. Seus livros foram proibidos no Brasil, inúmeros exemplares apreendidos pela polícia e queimados em praça pública em Salvador. Perseguido no país, Jorge Amado exilou-se na Argentina, onde escreveu a biografia de Prestes entre dezembro de 1941 e janeiro de 1942. A publicação em espanhol veio à luz em maio daquele ano pela Editora Claridad, de Buenos Aires. Proibida no Brasil, a obra em espanhol, passou a circular clandestinamente no país.



É o próprio autor que, no prefácio da primeira edição brasileira, publicada em 1945 pela Livraria Martins Editora, narra a história do livro:

Traduções para outras línguas foram feitas sobre a tradução espanhola; no Brasil, além dos exemplares daquela edição vendidos clandestinamente, por vezes por preços absurdos, apareceram cópias datilografadas e até em fac-símile fotográfico... Os exemplares aqui vendidos nunca chegaram a ser propriedade individual de alguém, viveram sempre de mão em mão. O povo se referia a este livro com os mais diversos nomes: Vida de são Luís, Vida do rei Luís, Travessuras de Luisinho etc. Depois também sua edição Argentina foi proibida e queimada em Buenos Aires, por ordem do governo Perón. Valorizaram-se ainda mais os exemplares que circulavam no Brasil. Houve quem vivesse do aluguel de exemplares.

 
Adiante, Jorge Amado destaca: “Na luta pela anistia, pela democracia e contra o Estado Novo, mas principalmente contra o fascismo, este livro foi uma arma”. Indiscutivelmente esse foi o grande papel desempenhado pela obra do famoso escritor brasileiro. Ele recorda: “Junta-se a tudo isso a emoção que ele [o livro] despertou na América espanhola, onde quebrou recordes de venda, e pode-se imaginar quanto não me envaideço dele, quanto não me orgulho de ser o seu autor”. Efetivamente, durante meses a fio, a edição espanhola foi o livro mais vendido na América Latina.



Para escrever a obra, Jorge Amado correspondeu-se com Leocadia e Lygia Prestes, no México, e consultou amigos e correligionários do biografado. A edição Argentina continha apêndice com documentos sobre diversos momentos da vida de Prestes, um mapa do Brasil com o traçado da Coluna Prestes e algumas fotos de Prestes, de seus familiares e de combatentes da Coluna. Adotando estilo semelhante ao empregado na biografia de Castro Alves, escrita um ano antes, o autor se dirige permanentemente a uma leitora imaginária, a quem chama de “amiga” e também de “negra”, com o intuito de falar diretamente ao povo brasileiro, apelando aos leitores para que assumam posição na luta pela democracia e pela liberdade. Jorge Amado escreve que “este não é nem pretende ser um livro frio”, mas uma obra escrita “com paixão, sobre uma pessoa amada”. Trata-se, pois, de uma biografia romanceada do Cavaleiro da Esperança, que como tal deve ser hoje apreciada e inserida, portanto, no momento histórico em que foi produzida.



No Brasil, o livro só pôde ser publicado após a decretação da anistia aos presos políticos em abril de 1945. Pessoalmente, tive o privilégio de, aos oito anos de idade, ser presenteada pelo autor com o exemplar no 1 dessa edição histórica, valorizada por dedicatória em que Jorge Amado me recomendava a “aprender na vida do [meu] Pai um exemplo de dignidade humana”. A edição brasileira continha um belo e original retrato de Prestes, obra do artista plástico Clóvis Graciano, assim como fotos e documentos que, em alguns casos, não haviam sido incluídos na edição Argentina.



Até o golpe militar de 1964, o livro teve várias reedições no Brasil. Na nona edição, publicada em 1956 pela Editorial Vitória, pertencente ao Partido Comunista Brasileiro, a capa foi ilustrada por expressiva gravura alusiva à Coluna Prestes, de autoria do artista rio-grandense Vasco Prado. Nessa edição foi incluído posfácio do autor, no qual é lembrado que, após a primeira edição brasileira, sucederam-se rapidamente outras seis edições. Assinalava-se ainda que a obra já havia sido até então traduzida para cerca de vinte idiomas diferentes e também adaptada para o rádio. Com o golpe reacionário de 1964, o livro desapareceu das livrarias, só voltando a ser publicado em 1979.



Sou testemunha de que várias gerações de jovens brasileiros, e também estrangeiros, tornaram-se revolucionários e aderiram ao comunismo, ingressando muitas vezes nos partidos comunistas dos seus países, sob o impacto provocado pela leitura da biografia de Luiz Carlos Prestes escrita por Jorge Amado. Em Portugal, durante a ditadura de Salazar, ele era leitura obrigatória dos militantes do Partido Comunista Português, para os quais a vida do Cavaleiro da Esperança – sua coragem, dignidade humana e dedicação sem limites à causa revolucionária – tornara-se um exemplo a ser seguido por todo comunista.



Na qualidade de historiadora, mas também de filha de Luiz Carlos Prestes, tenho me empenhado em pesquisar e escrever sobre a vida desse grande brasileiro, ainda pouco conhecido inclusive por seus compatriotas. Prestes foi um patriota, um revolucionário e um comunista convicto. Pablo Neruda escreveu a seu respeito: “Nenhum dirigente comunista da América Latina teve uma vida tão trágica e portentosa quanto Luiz Carlos Prestes”.



Como foi sempre coerente consigo mesmo e com os ideais revolucionários a que dedicou sua vida, sem jamais se dobrar diante de interesses menores ou de caráter pessoal, Prestes despertou o ódio dos donos do poder, que sempre procuraram criar uma história oficial cuja tônica tem sido a falsificação tanto de sua trajetória política como da história brasileira contemporânea. Entretanto, para o historiador comprometido com as lutas populares, com os interesses dos explorados e dos oprimidos, a meta deve ser outra: contribuir para a elaboração de outra história, comprometida não só com a evidência, mas também com o imperativo de construir um futuro de justiça social e liberdade para o nosso povo.



Para o historiador empenhado na elaboração de uma História do Brasil, para quem valoriza o papel destacado de Luiz Carlos Prestes nas lutas populares do século XX em nosso país, O Cavaleiro da Esperança: Vida de Luiz Carlos Prestes é um livro indispensável. Sua reedição é uma contribuição importante para compreender melhor uma época de nossa história, para que, aprofundando o conhecimento de nosso passado, as novas gerações de brasileiros possam transformar o presente, construindo o futuro ao qual Prestes dedicou sua vida.



FONTE: AMADO, Jorge. O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes. Posfácio de Anita Leocadia Prestes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 371-375.

 

O PC do B e o transformismo


Por Carlos Zacarias de Sena Júnior*


O mais recente escândalo envolvendo o governo da presidente Dilma Rousseff tem aspectos importantes que talvez não sejam percebidos pela maioria dos brasileiros. Em que pese o fato de que as provas contra o ministro dos Esportes Orlando Silva ainda não tenham aparecido, são poucos os que estão dispostos a por a mão no fogo pelo ministro, ainda mais depois que um vereador do PP de Taubaté (SP) veio a público agradecer a vida de príncipe que os brasileiros lhes proporcionaram. E se um vereador vive como um príncipe num país que ainda luta para erradicar a pobreza e a miséria, o que dizer de um ministro de Estado?


A questão, contudo, é muito mais séria e mexe com conteúdos simbólicos muito importantes, tanto pelo fato de que grandes eventos esportivos serão sediados no Brasil movimentando uma gigantesca soma de recursos, quanto pelo fato de que a pasta dos esportes é controlada pelo PC do B, um partido que tem na sua história a Guerrilha do Araguaia e que luta pelo legado do PCB, fundado em 1922, e que teve em suas fileiras Astrojildo Pereira, Luiz Carlos Prestes, Carlos Marighella e tantos outros heróis da esquerda do país. O problema é justamente este, pois o PC do B mudou de lado e parece não ter entendido que atravessou o Rubicão.


A história está cheia de exemplos de partidos, dirigentes e personagens que deixaram para trás a luta em função de causas que, para dizer o mínimo, são bastante menos nobres. O caso do líder fascista Mussollini, que foi diretor do Avanti, jornal do Partido Socialista Italiano é, talvez, o mais notório. O PSI foi o partido de Antonio Gramsci até que este saiu para fundar o Partido Comunista em 1921, junto com outros importantes personagens. Mas Mussollini é um caso extremo que não reflete situações mais parecidas com a do PC do B que podem ser encontradas na própria América Latina, inclusive no interior do governo Dilma.


A propósito, foi justamente Gramsci quem refletiu sobre uma situação em que há mudança de lugar na luta de classes. Ao se referir ao transformismo nas páginas magistrais do caderno carcerário 19, o marxista sardo analisa o período do Risorgimento (unificação italiana), quando o Partido da Ação de Giusepe Mazzini passou de armas e bagagens para o campo dos moderados vindo a compor com a velha aristocracia da península. Sobre o assunto, cito Gramsci: “O chamado ‘transformismo’ é tão-somente a expressão parlamentar do fato de que o Partido da Ação é incorporado molecularmente pelos moderados e as massas populares são decapitadas, não absorvidas no âmbito do novo Estado”. A lição de Gramsci serve menos ao PC do B do que para aqueles que honestamente buscam entender o que se passa, afinal de contas, as cabeças rifadas são justamente as dos trabalhadores que depositaram suas esperanças na mudança.

 
* Doutor em História. Professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
 
 
FONTE: e-mail do autor enviado à historiadora Anita Prestes, em 22/10/2011. Nele, o autor diz o seguinte: "Cara Anita, sua carta me motivou a enviar um pequeno artigo para o jornal A Tarde, de Salvador, que aproveito para socializar com os demais membros dessa lista. Abraços, Zacarias.
 
 
 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Por respeito à memória de Prestes e de Olga: carta de Anita Prestes ao PC do B



Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2011.



Ao Comitê Central do
Partido Comunista do Brasil
(PCdoB)


Dirijo-me à direção do PCdoB para externar minha estranheza e minha indignação com a utilização indébita da imagem dos meus pais, Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, em Programa Eleitoral desse partido, transmitido pela TV na noite de ontem, dia 20 de outubro de 2011.


Não posso aceitar que se pretenda comprometer a trajetória revolucionária dos meus pais com a política atual do PCdoB, que, certamente, seria energicamente por eles repudiada. Cabe lembrar que, após a anistia de 1979 e o regresso de Luiz Carlos Prestes ao Brasil, durante os últimos dez anos de sua vida, ele denunciou repetidamente o oportunismo tanto do PCdoB quanto do PCB, caracterizando a política adotada por esses partidos como reformista e de traição da classe operária. Bastando consultar a imprensa dos anos 1980 para comprovar esta afirmação.


Por respeito à memória de Prestes e de Olga, o PCdoB deveria deixar de utilizar-se do inegável prestígio desses dois revolucionários comunistas junto a amplos setores do nosso povo, numa tentativa deplorável de impedir o desgaste, junto a opinião pública, de dirigentes desse partido acusados de possível envolvimento em atos de corrupção.


Atenciosamente,

Anita Leocadia Prestes


Fernando Morais: livro é um furo jornalístico sobre a guerra dos EUA contra Cuba


Em debate ocorrido ontem (20), no Teatro da Faculdade Paulista de Comunicação (Fapcom), Fernando Morais apresentou Os últimos soldados da Guerra Fria, seu novo livro. Promovido pelo Barão de Itararé, Revista Fórum e Circuito Fora do Eixo, o evento também contou com as presenças de Socorro Gomes, Lázaro Méndez Cabrera, Max Altman e mediação de Renata Mieli e Renato Rovai.


Em sua nova obra, lançada pela Companhia das Letras, Fernando Morais retoma a reportagem literária em torno de Cuba. O escritor mineiro ganhou notoriedade com a publicação do emblemático A Ilha, em 1976, quando em plena ditadura militar brasileira, desmistificou e escancarou uma realidade social totalmente diferente do que era passado pela grande mídia.



A obra é fruto de uma pesquisa minuciosa sobre a Rede Vespa, uma agência secreta cubana que infiltrou agentes em organizações estadunidenses de extrema-direita, na década de 90. O turismo era a indústria cubana que mais crescia e essas organizações recebiam dinheiro para promover ataques terroristas à ilha (por exemplo, jogar pragas em lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana, plantar bombas e disparar rajadas de metralhadora em locais cheio de turistas e cidadãos cubanos).



“Em 1998, quando estava nos Estados Unidos, com a minha esposa, escutei na rádio um breve relato sobre agentes secretos cubanos presos. Na hora pensei: aí tem algo interessante”, afirma Morais. Depois disso, foram mais de 20 viagens para Miami e Cuba, análise de documentos secretos e centenas de entrevistas. O resultado é um extensa reportagem com os melhores elementos literários de um romance de espionagem.



Para o escritor, o que surpreende é que seu livro conta novidades do passado, e isso significa muito quando se trata de Cuba. “Essa história, na verdade, é um furo jornalístico. O que revela que a postura da grande imprensa em relação à ilha permanece inalterada mesmo após 52 anos de revolução”, diz.



Durante sua exposição, Fernando Morais fez questão de criticar a grande imprensa brasileira. O escritor, em começo de carreira, chegou a trabalhar na Veja, mas faz questão de ponderar, bem humorado: “naquele tempo, Fidel Castro dava capa positiva na Veja”. Segundo ele, o veículo ainda não publicou “uma sílaba” sobre o livro, mas diz gozar do privilégio de entrar na revista pela “porta da frente”, ou seja, pelas mãos dos leitores, já que o livro está entre os mais lidos.



Com uma boa recepção até o momento – Os últimos soldados da Guerra Fria terá diversas traduções e já foi negociado para virar filme. Fernando Morais justifica: “A história não precisa de adjetivo. É uma história com tutano, osso e pele. Nem o mais talentoso romancista daria conta de contá-la de forma tão rica como ela é na realidade”.



Para o cônsul de Cuba, Lázaro Mendes Cabrera, a obra é uma grande contribuição à luta da ilha e reflete o sentimento de solidariedade que há entre os povos latino-americanos. Socorro Gomes, a presidente do Centro Brasileiro de Luta Pela Paz (Cebrapaz), também ressalta essa questão, lembrando a cooperação internacional que Cuba promove na área da medicina e da educação.



Os cinco cubanos ignorados pela mídia



O tema dos cinco cubanos ignorados pela mídia também foi abordado pela mesa. Advogado, jornalista e membro do Comitê Brasileiro pela Libertação dos 5 Patriotas Cubanos, Max Altman comentou que o livro tem quebrado barreiras importantes para a divulgação do caso. “Levamos nossa luta à imprensa brasileira por diversas vezes, mas simplesmente não há interesse nenhum da parte deles”, afirma.



Altman chamou a atenção para o fato de que, enquanto os cubanos estão encarcerados em solitária, sem luz, água e incomunicáveis, Luis Posada Carriles caminha tranquilamente pelas ruas da Florida. Ele foi responsável por explodir um avião cubano com 73 passageiros em pleno vôo, no ano de 1976.



Para Fernando Morais e demais debatedores, o que os Estados Unidos não aceitam e os grandes veículos de comunicação, por consequência, também não, é que um país tão pequeno como Cuba esteja resistindo, há tanto tempo, à maior máquina econômica e militar da história. Os últimos soldados da Guerra Fria retrata, com primor literário, um capítulo importante e oculto dessa história.

 

Charge: A morte de Kadafi

II JORNADA DE EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE RACIAL



Mais informações no Site da 2a Jornada de Educação para promoção da igualdade racial

Um mar de povo sem precedentes no majestoso comício de greve do PAME em Atenas e em outras 70 cidades por toda a Grécia



Um mar sem precedentes de centenas de milhares de pessoas participou no majestoso comício de greve do PAME, o qual encheu Atenas de um modo jamais visto nas últimas décadas, no primeiro dia da greve geral de 48 horas à escala nacional. Todas as ruas centrais de Atenas foram cheias num nível sufocante pelas enormes multidões de trabalhadores e durante muitas horas.



Comícios maciços e sem precedentes em dimensão e militância tiveram lugar em todas as cidades da Grécia.



Estas forças uniram-se de modo a que a proposta de lei com novas medidas anti-povo não será votada. As palavras de ordem foram: Abaixo o governo e os partidos da plutocracia, organização e aliança de trabalhadores por toda a parte, solução quanto à questão do poder. O slogan que ressoou no comício foi "Trabalhador, sem ti nenhum dente da engrenagem pode girar, tu podes actuar sem os patrões", "Desobediência à plutocracia", "Povo, uma frente para o poder".



O enorme êxito da greve baseou-se na paralisação de fábricas incontáveis, grandes unidades de produção e outros lugares de trabalho por parte de trabalhadores e empregados que experimentam pobreza, privação e o beco sem saída do desemprego. Sua enorme dimensão e militância também foram baseadas no encerramento de numerosos pequenos negócios e loja os quais enfrentam o perigo do encerramento permanente. Muitas novas forças de trabalhadores participaram pela primeira vez na greve dando uma dinâmica especial à luta contra a barbárie das medidas do governo, da plutocracia, do FMI e da UE.



Desde a alvorada as forças do PAME com suas linhas de piquete apoiaram decisivamente os trabalhadores em lugares de trabalho "ghetto" os quais decidiram avançar para a greve pela primeira vez, desafiando a intimidação do empregador e mesmo a mobilização civil, a qual governo impôs aos colectores de lixo em greve das municipalidades, bem como os outros mecanismos de ruptura de greve utilizados pelo governo.



Os grupos provocadores que saltaram fora dos contingentes das organizações sindicais comprometidas do GSEE e da ADEDY procuraram mais uma vez criar incidentes encenados. No entanto, eles não conseguiram esconder a enorme dimensão e as exigências do imenso comício da greve, a participação organizada e protegida do povo trabalhador nas manifestações do PAME onde não se verificou um único incidente.



No palanque do comício, Giorgos Perros, membro do Secretariado Executivo do PAME, declarou entre outras coisas: "não há governo pró povo não importa se é chamado de centro-esquerda ou esquerda, se ele não entrar em conflito com os monopólios, se o seu programa não incluir o derrube dos monopólios ou, por outras palavras, a sua socialização. Ou com o povo ou com os monopólios. O poder do povo trabalhador ou o poder dos monopólios. Não há nenhum outro caminho! Não desperdicem qualquer momento. Contra-ataquemos todos juntos! Amanha, quinta-feira devem vir todo para o cerco do Parlamento pelo PAME, de todos os lados e ruas.



Processos nos partidos burgueses para inibir a torrente de fúria do povo



O enorme êxito do primeiro dia da greve exerce pressão sobre os partidos da plutocracia e o seu governo. Portanto, nestes momentos há uma intensificação dos processos para a reforma do sistema político pelo PASOK, o ND e os outros partidos burgueses, com cenários de uma "grande coligação PASOK-ND" bem como esforços a fim de assegurar o consenso para a aprovação das medidas anti-povo contra a torrente da greve que hoje inundou Atenas e outras cidades.



Em relação a estes processos, a secretária-geral do Comité Central do KKE, Aleka Papariga, afirmou em declarações aos media: "Não penso que o sr. Papandreu espere a nossa tolerância e consenso. Talvez por razões que têm a ver com publicidade no exterior ele está a reunir-se com partidos a fim de demonstrar que tem o seu apoio. Ele não tem apoio de nós. Nenhum e de modo algum. O que ele tem de nós é a nossa confrontação radical, total, real e substancial".



Após a sua saída da reunião que teve com o primeiro-ministro, o qual efectuou uma série de reuniões com todos os líderes partidários, a secretária-geral do KKE declarou:



"A partir de agora as coisas serão decididas literalmente pelo poder do povo e não pelas negociações que o governo realiza ou pelos conselho e cimeiras com outros partidos". Aleka Papariga apelou ao povo para ir em frente sem medo, para abandonar ilusões até a vitória final e acrescentou: "Há uma solução: a riqueza que existe neste país deve tornar-se do povo. Devemos desligar-nos dos títulos da UE e cancelar unilateralmente a dívida. Não há solução intermediária".



Deveria ser notado que todas as forças com orientação de classe reunir-se-ão para a segunda batalha na quinta-feira e para o cerco do Parlamento o qual constituirá um novo marco memorável na luta contra as medidas anti-povo, em conflito com os monopólios e o seu poder.



Este comunicado encontra-se em http://www.resistir.info/grecia/kke_19out11.html.

Em nome do medo como estratégia de dominação, criam-se inimigos e sustentam-se fantasmas

O medo é a arma dos corruptos, dos atrevidos, dos incompetentes, dos caciques, dos arrogantes e é o obstáculo ao desenvolvimento dos povos e à sua felicidade plena.




Dia da América Latina na UFRJ


terça-feira, 18 de outubro de 2011

"Roda Viva" coloca acervo de seus 25 anos na internet



Mais importante programa de entrevistas do país, o "Roda Viva", há 25 anos no ar, passou a ter todo o seu acervo disponibilizado no site rodaviva.fapesp.br.

Fonte: Folha de São Paulo, 17 de outubro de 2011.

domingo, 16 de outubro de 2011

O mundo do trabalho e a literatura


Com nova série de livros, Expressão Popular busca a compreensão de que a literatura é uma forma de se conhecer melhor a humanidade e o ser humano

 

Por Miguel Yoshida*


 
De acordo com a linha da Expressão Popular, editora que completa 12 anos de existência e que tem como principal objetivo facilitar o acesso à produção do conhecimento acumulado ao longo da história da sociedade pela e para a classe trabalhadora, abriu-se uma nova série de publicações dentro de sua coleção de literatura, a série “Literatura e trabalho”.



Compreendendo que entre os diversos elementos que compõem a realidade, as produções artísticas ocupam um importante papel nas diferentes formações histórico-sociais, e que a literatura é uma forma privilegiada de conhecimento dessa realidade (até mesmo quando a nega), em julho deste ano foi inaugurada a referida série – coordenada pelos professores Claudia de Arruda Campos, Enid Yatsuda Frederico, Zenir Campos Reis e Walnice Nogueira Galvão – com dois livros: o já conhecido romance de Aluísio Azevedo, O cortiço, e a antologia de textos Vozes da ficção: narrativas do mundo do trabalho.



O cortiço, publicado em 1890, é um clássico dos romances naturalistas do Brasil, situado entre as melhores obras em prosa da literatura nacional. O eixo narrativo da obra gira em torno da vida dos trabalhadores no espaço de um cortiço em Botafogo, de propriedade de um imigrante português, cujo objetivo final é ascender socialmente.



Para isso, ele engana e explora de maneira brutal Bertoleza, escrava supostamente alforriada; cobra o aluguel das casinhas do cortiço e das tinas para as lavadeiras; lucra com a venda de alimentos e outros gêneros em sua venda à entrada da estalagem; e surrupia na calada da noite materiais de construção para empregá-las na edificação do seu cortiço: “Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco”.



O romance vem precedido do brilhante ensaio de Antonio Candido, De cortiço a cortiço (cedido para a edição pelo autor e pela editora Ouro sobre Azul), onde encontramos um resumo da sua importância: “Aluísio foi, salvo erro meu, o primeiro dos nossos romancistas a descrever minuciosamente o mecanismo de formação da riqueza individual. Basta comparar seu livro com as indicações sumárias de Macedo, Alencar ou Machado de Assis, nos quais o dinheiro aparece com frequência, mas adquirido por herança, dote ou outra causa fortuita”.



As características próprias da estética dominante naquele fim de século encontram-se de modo marcante nessa obra de Aluísio Azevedo – por exemplo, a determinação do sujeito pelo meio, raça e época, além de uma descrição carregada dos elementos instintivos dos personagens –, erigindo-a em expoente máximo do naturalismo brasileiro.

Condição do trabalho



Vozes da ficção: narrativas do mundo do trabalho reúne 16 textos (contos, na sua maioria) que tratam, sob diferentes aspectos, da condição do trabalho e do trabalhador, sobretudo em finais do século 19 e início do 20. Essa antologia tem como principal objetivo apresentar ao público escritores importantes da literatura brasileira, mas pouco divulgados, esquecidos, e, em boa medida, conhecidos apenas por especialistas da área, como é o caso de Valdomiro Silveira, Simões Lopes Neto, Coelho Neto, Manuel de Oliveira Paiva, Inglês de Sousa, Alberto Rangel, Afonso Arinos e Hugo de Carvalho Ramos.



Além desses autores, a antologia traz também contos de Machado de Assis, Euclides da Cunha, João do Rio e Lima Barreto. O fio condutor de Vozes da ficção é o da condição do trabalhador de diferentes ofícios, retratado por diferentes olhares, tendo como pano de fundo um largo período em que ocorreram diversas transformações na formação social brasileira.



Em ambas as publicações, seja pelo distanciamento temporal, seja pelo léxico regional, a dificuldade de compreensão é parcialmente superada pelo cuidadoso trabalho editorial dos organizadores da coleção, que construíram um glossário esclarecedor, buscando com isso tornar a leitura mais acessível sem alterar o texto.



Relevante também é a inclusão nas duas publicações de um pequeno, mas significativo texto, Ler – compartilhar, que trata do processo de leitura. Para reflexão.



Dessa forma, a publicação desses dois volumes inaugurando a série “Literatura e trabalho” atinge os objetivos da Editora Expressão Popular, que é propiciar ao conjunto de seus leitores – militantes de movimentos sociais, sindicatos e partidos, estudantes e professores universitários e todos aqueles comprometidos com a construção de uma nova sociedade – o conhecimento de obras importantes da literatura e, com elas, a compreensão de que a literatura é uma forma de conhecimento que traz a possibilidade de não apenas se compreender melhor a realidade de que trata, mas também de se conhecer melhor a humanidade e o ser humano.


 
*Miguel Yoshida é mestrando em Letras na Universidade de São Paulo (USP)