terça-feira, 26 de julho de 2011

O assassino não tão solitário

POR CLÓVIS ROSSI


Para entender os atentados na Noruega, o melhor a fazer é ouvir um taxista local, Arild Tangen, entrevistado por Juan Gómez, enviado especial de "El País": Tangen acha Breivik um "bastardo" por ter matado "jovens brancos e norugueses". Completou com a seguinte observação: "Se odiava tanto os muçulmanos, que matasse jovens muçulmanos ou negros".


Traduzindo: parece tolerável matar, desde que sejam muçulmanos ou negros. É preciso acrescentar que Tangen é eleitor do Partido do Progresso, a extrema direita norueguesa da qual o assassino foi militante e que arrancou 614 mil votos (23% do total) nas eleições de 2009?


É claro que nem todos os eleitores da extrema direita são loucos assassinos, mas é igualmente evidente que a pregação islamofóbica do Partido do Progresso é a voz que arma a fúria, para usar título da edição espanhola do livro ("La Voz y la Furia") que reúne artigos de Stieg Larsson, o mais célebre dos autores nórdicos de novelas policiais.


Nele, rememora Joaquín Prieto, em "El País", Larsson dizia que também em Estocolmo podiam produzir-se atentados terroristas. Errou apenas de cidade, mas não na voz que armava a fúria: o jornalista sueco, morto em 2004, baseava sua previsão na disseminação da influência de grupos racistas norte-americanos, como os responsáveis pelos atentados de Oklahoma em 1995, que deixaram 168 mortos e também visaram prédios do governo.


Larsson foi premonitório: Breivik "foi profundamente influenciado por um pequeno grupo de blogueiros e escritores americanos que vêm advertindo há anos a respeito da ameaça do islã, recheando seu manifesto de citações deles", informa o "New York Times".


Resume Aslak Sira Myhre, diretor da Casa da Literatura de Oslo e ex-líder da Aliança Eleitoral Vermelha, em artigo para o "Guardian": "Eu também acredito que o autor era louco. (...) Mas, tanto quanto [nos atentados] de 11 de setembro como nos ataques ao metrô de Londres, essa loucura tem uma causa clínica, mas também política".


Completa, em entrevista para o "Figaro", o especialista em Islã Mathieu Guidère, autor de um livro chamado exatamente de "Os Novos Terrorismos": "Breivik representa um novo avatar do terrorismo global, o do fundamentalismo cristão nascido em reação aos ataques de 11 de setembro de 2001. Ao antigovernismo se somam duas outras temáticas básicas: a islamofobia e o ódio ao multiculturalismo, percebido como arma dos islamistas para invadir a Europa".


A menção ao multiculturalismo ajuda a responder ao taxista que se indignou porque Breivik matou brancos norugueses, e não negros ou muçulmanos: Stieg Larsson, em seus premonitórios artigos, já dizia que a elite política (sueca e nórdica em geral) é tão odiada quanto os muçulmanos ou mais que eles, por promover o multiculturalismo - que, na voz dos que armam a fúria, provocaria a islamização da Europa.

 
Por essa lógica, entende-se que Breivik tenha atacado o quarteirão do governo em Oslo e um acampamento da Juventude Trabalhista, partido no poder desde 2005. O pior é que a voz que arma a fúria só cresce na Europa.
 
 
FONTE: Folha de São Paulo, 26 de julho de 2011.

Um fantasma na Europa


POR VLADIMIR SAFATLE

Há 60 anos, os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer forneceram uma das mais instigantes leituras do nazismo, do fascismo e de sua lógica de segregação. Consistia em mostrar como estávamos, na verdade, diante de um tipo de patologia social.


Isso não significava dizer que os fascistas seriam "monstros patológicos", "perversos" e coisas do gênero. É alentador acreditar que apenas monstros são capazes de produzir monstruosidades.


Tratava-se, na verdade, de mostrar como o fascismo conseguira se colocar como um modelo de forma de vida. No caso, uma forma de vida constituída através da transformação de comportamentos patológicos em norma social, de temáticas que normalmente aparecem em delírios paranoicos no conteúdo de discursos políticos tacitamente aceitos.


Assim, delírios de perseguição se normalizavam por meio da crença de que um elemento estranho estava infectando a bela totalidade de nosso corpo social. Elemento que destruiria, com o beneplácito de cosmopolitas ingênuos, nosso caráter nacional naquilo que ele teria de mais especial.


Força e disciplina eram convocadas para restaurar esse corpo quase moribundo separado de seu solo, mesmo que tal solo seja hoje uma fazenda de produtos orgânicos.


Por sua vez, delírios de grandeza animavam discursos que pregavam a amplidão redentora da nação. A identidade era, assim, elevada à condição de sistema defensivo ameaçado, e, por isso, compulsivamente afirmado.


Não por acaso, palavras como "limite", "fronteira", "território" tornavam-se os significantes centrais do discurso político. A defesa da identidade se tornava uma patologia.


Lembrar isso, após o massacre em que um norueguês islamófobo, cristão conservador e simpatizante de partidos de extrema-direita matou dezenas de jovens do Partido Trabalhista, é só uma forma de insistir como alguns não aprendem nada com a história.


Tal como o direitista americano que, meses atrás, atirou contra uma deputada democrata em Tucson contrária a leis mais duras contra a imigração, o que temos aqui é simplesmente alguém que quer realizar tal forma de vida fascista com as próprias mãos.


Eles não querem esperar os partidos xenófobos ganharem para "eliminar" os imigrantes. Preferem passar ao ato, literalizando o discurso que ouvem todos os dias.


De nada adianta lembrar que estudos recentes da OCDE mostram que os imigrantes contribuem mais para a seguridade social do que usam tais serviços, ou seja, geram mais riquezas do que consomem.

 
De nada adianta lembrar isso, porque não estamos no domínio do argumento, mas no dos afetos patológicos cada vez mais naturalizados como discurso no jogo político.
 
FONTE: Folha de São Paulo, 26 de julho de 2011.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

VI Encontro Nacional da JCA contará com a presença de Anita Leocadia Prestes

No próximo fim de semana, ocorrerá o VI Encontro Nacional da Juventude Comunista Avançando (JCA). Este encontro se realiza em um momento de fundamental importância, de aprofundamento da crise estrutural do capital e a necessidade da ofensiva socialista. Neste contexto a juventude joga um papel central, não só por ser uma das principais atingidas pelas consequências desta crise, mas por ser uma força atuante fundamental na crítica e na revitalização da luta, inconformada com os caminhos impostos pelo capitalismo, de aprofundamento da exploração e retirada de direitos dos trabalhadores.

A abertura será nesta quinta (28/7) e contará com a presença de diversas organizações juvenis e com a participação honrosa de Anita Leocadia Prestes, militante histórica da luta comunista em nosso país, que abordará o tema "A História dos Comunistas no Brasil".

Nos outros dias serão abordados os temas "A crise estrutural do capital e a resistência popular pelo mundo", "Conjuntura Nacional", "O Marxismo-Leninismo e a práxis revolucionária", "A luta pela Universidade Popular", "Movimentos de massa juvenil e estudantil (secundarista, universitário e trabalhadores)", além da plenária final que elegerá a nova Direção Nacional da JCA e as prioridades de atuação da organização nos próximos 2 anos.


FONTE: http://cclcp.org/portalja/Portalja.aspx

Operação Peter Pan


Filme reencontra crianças cubanas levadas aos EUA no começo dos anos 1960 para fugir da radicalizaçâo revolucionária


Maria do Rosário Caetano
de Fortaleza (CE)

 
EM 1961, 14 mil crianças e adolescentes cubanos foram levados aos EUA por vontade de suas famílias, apoiadas pela Igreja Católica e pela CIA, a Central de Inteligência Americana. O inusitado êxodo infanto-juvenil, episódio pouco conhecido da Guerra Fria, ganhou o nome de “Operação Peter Pan” e foi reconstruído - ao longos dos últimos 32 anos - pela cineasta estadunidense cubana Estela Bravo, no documentário Operação Peter Pan: Fechando o Círculo em Cuba.

 
Cópia de trabalho do filme foi exibida pela TV cubana em 1991, no momento em que Cuba e EUA disputavam “poder pátrio” sobre o menino Elián González. A comunidade de exilados cubanos queria manter a criança em Miami. O pai cubano queria repatriá-lo. Cuba venceu a “disputa”. O “exílio coletivo” dos meninos de 1961 servia para lembrar aos espectadores cubanos que, 30 anos depois, as relações entre os dois países continuavam tensas.

 
De passagem pelo Brasil, a cineasta Estela Bravo e seu produtor (e marido há quase 60 anos) Ernesto Bravo, em conversa com o Brasil de Fato, relembraram os 30 anos dedicados ao documentário Operação Peter Pan, e as motivações que fizeram de ambos cidadãos cubanos.

Brasil de Fato – Primeiro, gostaria de saber como uma cidadã estadunidense e um cidadão argentino tornaram-se figuras de destaque em Cuba? A senhora é documentarista reconhecida, e Ernesto médico e professor universitário festejado.

 
Estela Bravo – No começo dos anos de 1950, exatamente em 1953, fui a um Congresso da Juventude em Bucareste, no Leste Europeu. Tinha 20 anos, e era filha de sindicalista e órfã de mãe desde os 15 anos. Me coube falar em nome dos estudantes dos EUA. Pelos argentinos, falou Ernesto Bravo, um jovem que fora preso durante o Governo Perón. Eu não falava espanhol, mas dividi o quarto com uma moça do Ceilão (atual Sri Lanka), que conhecia o idioma de Ernesto. Ela serviu de tradutora em meus rápidos contatos com ele. Regressei aos EUA e fui trabalhar na revista América Latina Hoje. Um novo Encontro da Juventude, no Brasil, me entusiasmou, pois poderia passar por Buenos Aires e rever Ernesto. Mas em Buenos Aires meus contatos não foram suficientes para que eu chegasse até ele, que vivia meio clandestino. Fui então para São Paulo. Lá, falei de minha frustração a um amigo cubano. Ele prometeu que me ajudaria. Me levou ao Rio para que eu conhecesse o Carnaval, me apresentou a Oscar Niemeyer e a outros brasileiros que lutavam pela paz mundial. Foi naquela visita que aprendi a pronunciar a palavra “saudade”. Depois da temporada brasileira fui a Buenos Aires e aí tudo deu certo. Reencontrei Ernesto e passei uma semana com ele. Regressei aos EUA e permaneci por lá por pouco mais de um ano. Em janeiro de 1957, Ernesto e eu nos casamos em Buenos Aires. Formado em medicina, ele trabalhava incansavelmente. Eu me empreguei no Aeroporto de Ezeiza. Em 1963, Cuba convidou Ernesto para dar aulas na Faculdade de Medicina, em Havana, por um ano. A Crise de Outubro (Crise dos Mísseis) exigia que apoiássemos a Revolução Cubana, na qual acreditávamos com enorme paixão. Lá fomos os dois, com nossos filhos pequenos. E lá estamos até hoje. Três anos atrás, quando Ernesto completou 80 anos, recebeu grandes homenagens do meio médico-científico pelas contribuições dele à área de biotecnologia.

 
Por que foram necessários mais de 30 anos para que concluíssem “Operação Peter Pan – Fechando o Círculo em Cuba”?

 
Primeiro, porque necessitávamos de depoimentos das crianças, agora adultos, que saíram de Cuba em 1961/62 e que estavam espalhadas por vários estados dos EUA. Era necessário localizálas. E saber se queriam dar seus depoimentos ao filme. Neste sentido, a contribuição de Elly Chavel, que morreu em 2007, foi de enorme valia. Ela conseguiu localizar duas mil das 14 mil crianças que foram mandadas aos EUA. Seis deles, adultos já totalmente integrados ao novo país, quiseram voltar a Cuba para “fechar o círculo”. Queriam reencontrar o país que deixaram na infância. Elly, que era muito católica, mobilizou o grupo e fizeram questão de visitar Cuba de forma coletiva. Há entre os “Pedros Panes” (Peter Pans) quem nada saiba sobre a Operação. Há quem saiba e se negue a ir a Cuba, motivado pelo ódio de seus parentes. Fizemos nosso filme respeitando as posições dos que nos prestaram depoimento. O Monsenhor Bryan Walsh, que em nome da Igreja Católica, liderou a Operação ao lado da professora de inglês Penny Powers, apoiado por autoridades estadunidenses, nos deu seu testemunho. Ouvimos autoridades dos EUA, assim como ouvimos historiadores cubanos e até um funcionário do Aeroporto de Havana. Este funcionário ficou perplexo ao ver crianças chorando por serem separadas dos pais e enviadas, sem eles, para um país que desconheciam.

 
Embora profundamente integrados aos EUA, vê-se em alguns dos “peter pans” ouvidos pelo filme – em especial a cantora Candy Sosa – um grande apego às raízes cubanas.

 
O caso de Candy é muito especial. Dona de voz belíssima, ela aparecia, menina, num documentário realizado num acampamento de “pedro panes”, cantando uma canção cubana. Localizamos o material e tivemos o prazer de filmá-la, em solo cubano, cantando a mesma canção telúrica. O encontro dos “pedro panes ”com as crianças cubanas, na Havana contemporânea, deixou a todos emocionados. O filme registra alegrias e, também, o sofrimento de alguns dos meninos que foram levados para os EUA. Os pais, os religiosos e a CIA acreditavam que a Revolução Cubana fracassaria. Então as crianças regressariam a seus pais e a seu país, bem-educadas. Seriam poupadas do que acontecia naqueles tempos de muitas transformações políticas e sociais. Aquelas crianças foram vítimas involuntárias da Guerra Fria. Há, no filme, dois “pedro panes” que contam que foram molestados por padres. Um menino e uma menina. Eles lembram também que viveram momentos difíceis. Como eram muitos, foram espalhados por acampamentos e orfanatos. Duas irmãs foram retiradas de um orfanato e levadas para uma residência. Uma delas conta que preferiu regressar à instituição, pois na casa da família adotiva exerciam papel de empregada doméstica. Na primeira fase da Operação Peter Pan foram levadas aos EUA crianças filhas de famílias muito ricas. Depois, crianças de classe média. E, na fase final, crianças pobres de famílias católicas, que não queriam de jeito nenhum ver os filhos crescendo num país comunista.

 
Você se iniciou no cinema filmando os filhos do Casal Julius & Ethel Rosenberg, em frente à Casa Branca, pedindo clemência ao presidente Eisenhower para que os pais não fossem executados na cadeira elétrica...

 
O que fiz naquele momento foi documentar os filhos do Casal Rosenberg com uma câmera Super-8. Era uma amadora documentando crianças que clamavam por perdão para os pais. Duas crianças que se tornariam órfãs e, temíamos, amaldiçoadas. Mas eu nem sonhava ser cineasta. Nada sabia de cinema. Só me tornaria cineasta aos 47 anos, em Cuba. Antes de chegar ao cinema, fiz programas de rádio, entrevistei personalidades como meu amigo Peter “Pete” Seeger, o grande cantor folk, hoje com 92 anos; Angela Davis, o cantor Paul Robeson. Até que, no final dos anos 70, ao me deparar com o regresso de 125 mil cubanos que haviam partido de Cuba, vi ali o tema para um documentário. Afinal, a experiência foi traumática para os dois lados. Para os que chegavam e encontravam um país mudado, e os que viviam em Cuba e não sabiam como conviver com tantos que chegavam. Houve, também, o episódio da Invasão da Embaixada do Peru (1990) quando milhares de cubanos lá se refugiaram. Fiz, a partir deste episódio, o documentário Los Que Se Fuerón. Este filme teve problemas e não foi exibido na TV Cubana. Até que procurei Fidel e contei a ele que estava com dificuldade para exibir o filme. Isto porque autoridades ligadas à TV se incomodavam com depoimentos de dissidentes cubanos, radicados em Miami, que prometiam enforcar todos os fidelistas. Fidel me pediu uma cópia do filme para ver e brincou comigo: “você sabe que sou mais liberal do que muitos de nossos subordinados”. E liberou a exibição do filme. No documentário Los Que Se Fuerón mostramos os cubanos que partiram para o Peru (sendo abrigados nos Acampamentos Tupac Amaru), os que foram para a Nicarágua sandinista (médicos e professores, em especial), os que foram lutar em Angola .Fiz tudo com muitas imagens e poucas narração. Aliás, cada vez uso menos narração em off. Mas os ingleses continuam gostando muito de narração off. Cultivam esta voz que amarra e explica tudo. Quando co-produzem meus filmes, querem narração em off.

A senhora juntou, em 40 anos de trabalho como documentarista, rico acervo de imagens colhidas em diversos países da América Latina. No Brasil, filmou o sindicalista Lula e colheu longo depoimento de Luiz Carlos Prestes. Tem planos de realizar um filme autobiográfico, narrando as andanças do Casal Bravo pelo mundo, e mostrando o melhor destas imagens?


Antes de qualquer plano, nossa meta é salvar nosso acervo. Temos mais de mil fitas de vídeo com material de grande valor documental. Material cubano e latino- americano. Tenho imagens da atriz Libertad Lamarque conversando com a bailarina Alicia Alonso; Lula dando entrevista na casa dele, no ABC, com um poster de Lech Walesa na parede. Tenho imagens dos marielitos (cubanos que fugiram do país em balsas precárias, a partir do Porto de Mariel). Tenho o depoimento de Prestes e centenas de entrevistas com artistas, políticos e sindicalistas de vários países. Cuba não dispõe de recursos para nos ajudar. Tentamos apoio da Fundação Gugenheim, mas não conseguimos. Estamos em busca de quem possa nos ajudar. Quanto à sua pergunta, “se faria um filme sobre uma jovem estadunidense que se casou com um argentino e adotou Cuba”, ainda não pensamos nisto, mas é uma ideia. Antes, uma cineasta minha conterrânea, Susan Steinberg, nos propôs realizar um filme conosco. Mas pressentimos que ela, que hoje vive em Londres, queria fazer um filme muito, digamos, psicanalítico. Não nos entusiasmou muito. Quem sabe fazemos esta autobiografia que você nos sugere. Prometemos pensar no assunto.


FONTE: Brasil de Fato

Eric Hobsbawm, peripecias de un historiador marxista

Días atrás, Página/12 publicó una excelente nota de Juan Forn sobre las peripecias y desafíos que tuvo que enfrentar el gran historiador a lo largo de su vida y la coherencia ideológica de un hombre que, a pesar de haber visto el derrumbe de muchos de sus sueños comunistas, siempre se mantuve fiel a sus ideales y jamás dejó de denunciar los horrores y las injusticias del capitalismo. A continuación, la nota de Forn.


El viento de la Historia

Página/12, 22.7.2011

Por Juan Forn


El niño Eric Hobsbawm pasea con su niñera por las calles de Alejandría en el año 1918. Un pordiosero chino les pide una moneda. La niñera se la niega. El chino ignora a la niñera, mira fijamente a la criatura y le dedica una exquisita maldición de su país milenario: “Ojalá te toquen vivir tiempos interesantes”. Ochenta y cinco años después, cuando es un venerable historiador y se sienta a escribir sus memorias, sabe que ya tiene el título: Tiempos interesantes. En esas memorias, hace una breve enumeración de las cosas que presenció a lo largo del siglo que le tocó vivir y uno no puede dejar de pensar en aquel monólogo que recitaba el replicante en el final de Blade Runner, con la mirada perdida en la lluvia ácida que caía del cielo y el afán de dejar al menos ese testimonio de los inéditos fenómenos que habían contemplado sus ojos: “He visto atardeceres de dos lunas en Júpiter...” A los 86 años, Hobsbawm dice: “He visto cómo se extinguían de la faz de la tierra todos los imperios coloniales europeos, incluido aquel que llegó a ser el más vasto y poderoso de ellos durante mis años de infancia. He visto grandes potencias mundiales relegadas a jugar en las ligas inferiores. He visto la irrupción y la caída de un estado alemán que esperaba durar mil años, y también el nacimiento y el final de un poder revolucionario que amenazaba extenderse al mundo entero. He visto un tiempo en que la palabra capitalismo contaba con tan pocos votos como la palabra comunismo en la actualidad. Dudo de que llegue a ver el fin del imperio americano, pero puedo asegurar que algunos lectores de este libro habrán de presenciarlo”.


Como aquel replicante de Blade Runner, Eric Hobsbawm pertenece a una especie que debía ser eliminada (primero por mitteleuropeo, después por judío, después por marxista). Tuvo más suerte que el replicante de Blade Runner: sobrevivió largamente a la eliminación a sus compañeros de especie. Su inesperada longevidad terminó por darle status de venerable rara avis. El adjudica esa longevidad tan activa a que lo obligaron a arrancar tarde. Le cobraron peaje por sus “anomalías”: ser judío pobre en la República de Weimar y en la Alemania de Hitler, inmigrante indeseado en la Inglaterra en guerra con el Reich, marxista durante toda la Guerra Fría, antisoviético y antichino dentro del PC, anti-especialista en un mundo de especialistas, políglota en un mundo cada vez más anglófono, intelectual desvelado por los no intelectuales, anomalía dentro de anomalía dentro de anomalía. “Todo ello complicó mi vida como ser humano y paralizó mi carrera durante años, pero me ha representado una ventaja considerable como historiador”, dice él.


Agnes Heller dice que la Historia habla de los hechos vistos desde afuera y las memorias hablan de los hechos vistos desde adentro. Dos hechos marcaron tempranamente la vida de Hobsbawm: aquella maldición china y el descubrimiento entre los papeles de su padre (que murió quebrado cuando él tenía trece años, en plena hiperinflación berlinesa) de un cuestionario íntimo en donde el progenitor se preguntaba qué era la felicidad, esa entelequia que había perseguido sin éxito durante toda su corta vida, y se contestaba: la suerte de no tener mala suerte. Tiempos interesantes y mala suerte. De esa ecuación sale Hobsbawm. O, mejor dicho, de los inesperados beneficios de ambas cosas.


Por ser pelirrojo y de ojos azules, en Viena no le decían Jude sino Englander. En Inglaterra, en cambio, adonde lo enviaron cuando murió su madre (un año después que el padre), es simplemente “El Feo”. Pero si se hubiera quedado en Viena, habría terminado gaseado en los campos. El joven Hobsbawm refugia su fealdad afiliándose al PC británico (donde cantan: “Hasta que llegue la revolución, el amor es un sentimiento antibolchevique”). Pero cuando estalla la guerra es el único de sus camaradas de estudios y de militancia al que no eligen para el servicio secreto: no por extranjero ni por marxista; es el único que no sabe hacer el crucigrama del Times. Eso lo alejará providencialmente del caso de los dobles espías Kim Philby y Guy Burgess, pero lo dejará sin trabajo durante años. Cuando condena en un plenario del PC la represión soviética en Hungría en 1956, cree que el partido va a expulsarlo, pero son tantas las bajas que no le hacen nada. Y a él le da vergüenza abandonar el barco cuando todos lo hacen, así que conserva el carnet. “Quitarme de encima el sambenito de pertenecer al PC habría mejorado mis perspectivas profesionales. Pero sencillamente no quise hacerlo. Yo quería alcanzar el reconocimiento como comunista confeso. No defiendo esta forma de orgullo, pero no puedo negar su fuerza.”


Hobsbawm vio convertirse en pretérito casi todos los signos que definían y regían su presente, pero se descubrió providencialmente equipado para relatarlos porque, a diferencia de tantas otras víctimas de la Historia, él tuvo, como judío mitteleuropeo y como marxista anómalo, “tiempo de reflexionar acerca de la desintegración de un imperio y de una época, al ser una muerte largamente anunciada, en ambos casos”. Cuando todos los historiadores de su generación se retiraban o se morían, él siguió publicando libros, cada vez más sabios. En pleno auge del pensamiento neoconservador, cuando se aseguraba que habíamos llegado al fin de la Historia, Hobsbawm dijo que lo que había terminado era el siglo veinte nomás y logró que se hiciera canónica su manera marxista de ver el siglo (cuyo inicio fijó en 1917, con la Revolución de Octubre y su cierre, en la caída de la URSS en 1989). Después de la caída de las Torres Gemelas en 2001, dijo algo que repitió cuando mataron a Bin Laden hace meses: “El mundo necesita más que nunca a los historiadores, especialmente a los escépticos”. Si el pasado es otro país, era de rigor que un expatriado múltiple como él se convirtiera en su historiador por antonomasia.

 
Hobsbawm usa el raro prisma de su experiencia personal para buscar la real dimensión de las cosas en el laberinto de la Historia. De ahí su anomalía, su heterodoxia, su excentricidad; de ahí su ecuanimidad por momentos exquisita y por momentos casi inverosímil. En sus memorias, en sus reportajes, en su Era de los extremos, Hobsbawm nos cuenta el siglo veinte como si el propio siglo hablara de sí mismo, en una de esas sobremesas de trasnoche en que de golpe llega la hora de la sinceridad más descarnada: el siglo habla y todos sentimos que habla de nosotros. La única manera de que nos entre de verdad la Historia es entender que no es letra muerta, sino experiencia viva: que eso que pasó nos pasó a todos. Ese es el Efecto Hobsbawm para mí: alguien que sopla suavemente en nuestro oído y nos hace entender de golpe qué es el famoso viento de la Historia, cómo se vive en tiempos interesantes.


FONTE: http://www.atilioboron.com/2011/07/eric-hobsbawm-peripecias-de-un.html#more

Conversa sobre o nada

POR MARCELO GLEISER

O nada, por incrível que pareça,vem ocupando a imaginação de filósofos e cientistas há milênios. Coisa simples, não é? Imaginar a ausência de tudo, o vazio absoluto, não deve ser tão complicado. Grande engano. Se a ideia do nada como a ausência total de matéria é trivial, quando pensamos um pouco mais sobre o assunto, a coisa complica.


Foram os atomistas Leucipo e Demócrito, na Grécia do século 5 a.C., que tiveram uma grande sacada: e se o cosmo contivesse duas coisas, os átomos que constituem a matéria e o vazio onde se movem? Com isso, na ausência de um átomo, existe apenas o espaço vazio.


Aristóteles, um século mais tarde, descartou a ideia. Para ele,o espaço vazio era uma impossibilidade. Existe sempre algo preenchendo o vazio, que ele chamou de "éter". Caso contrário, ponderou, objetos poderiam atingir velocidades infinitas, algo que não parecia possível.


As ideias sobre o vazio de Aristóteles, Mesmo que transformadas, retomaram força com o francês René Descartes no século 18. Para ele, o vazio também não existia. Uma forma de matéria fluida preenchia o espaço.


Para explicar as órbitas dos planetas em torno do Sol ou da Lua em torno da Terra, descartes supôs que esse fluido, ao girar, criava uma espécie de redemoinho que levava os planetas em suas órbitas.


Newton, um pouco mais tarde, demonstrou matematicamente que o espaço não pode ser preenchido por um fluido: sua viscosidade faria com que os planetas espiralassem sobre o Sol. O nada voltou a existir.


Quando, no século 19, foi descoberto que a luz é uma onda eletromagnética, a questão do meio material em que essa onda se propagava veio à tona. Afinal, ondas de água se propagam na água, ondas de som no ar. Qual o meio em que as ondas de luz viajavam? Foi sugerido que o espaço, afinal, não era vazio; existia uma espécie de fluido que permitia a propagação das ondas de luz. Em 1887, porém, um experimento que visava confirmar a existência do éter falhou. A luz e a sua propagação se tornaram um grande mistério, que só foi resolvido em 1905, quando Einstein propôs que a luz não precisava de meio algum para se propagar. O nada voltou, triunfante. Mas não por muito tempo.


Na década de 1920, com a mecânica quântica, a física que estuda os átomos e partículas, ficou claro que conceitos do nosso dia a dia precisavam ser revisados radicalmente. Entre eles, a noção de que objetos podem ficar parados.


No mundo dos átomos, tudo vibra incessantemente. Com isso, sempre existe uma energia residual, cujo valor flutua aleatoriamente. Juntando isso ao fato de que a energia e a matéria estão intimamente relacionadas, flutuações de energia são convertidas em partículas de matéria.


Dadas as flutuações de energia,partículas de matéria podem surgir do nada. A física quântica leva à conclusão de que o nada, no sentido de ausência de tudo, não existe.


Em1998, essa história ganhou um novo capítulo. Foi descoberto que o Universo está em expansão acelerada.


Entre as explicações sugeridas para isso, a mais plausível é que o efeito seja gerado pela energia do vazio, as tais flutuações quânticas.


Nesse o caso, o nada, ou sua versão quântica, é responsável pelo destino do nosso Universo.

MARCELO GLEISER éprofessor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

 
FONTE: Folha de São Paulo, 24 de julho de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

Coleção Fidel Castro da Ocean Sur

Projeto que visa difundir, mediante a publicação de livros e folhetos, o pensamento e a oratória do Líder da Revolução Cubana, uma das figuras mais destacadas nas lutas revolucionárias, antiimperialistas e anticolonialistas no mundo.


La contraofensiva estratégica
De la Sierra Maestra a Santiago de Cuba
Fidel Castro
2011
Colección Fidel Castro

Las páginas de este volumen recorren la Contraofensiva Estratégica del Ejército Rebelde, desde la Sierra Maestra hasta la entrada victoriosa en Santiago de Cuba, y lo hacen de manera extraordinaria, porque quien narra sus recuerdos como en un diario, quien devela cartas, sentimientos, opiniones, tácticas y estrategias empleadas, es el propio Fidel Castro, protagonista excepcional, Comandante en Jefe de las fuerzas rebeldes y líder histórico de la Revolución Cubana.

 
La Victoria Estratégica
Por todos los caminos de la Sierra
Fidel Castro
2011
Colección Fidel Castro
En este volumen, Fidel Castro, histórico líder de la Revolución Cubana —con un estilo ágil y fresco— narra sus vivencias como protagonista de las jornadas de intensa y decisiva lucha de 1958 en la Sierra Maestra, hasta vencer al Ejército de la dictadura de Fulgencio Batista, que contaba con mayoría numérica y muy superior armamento y equipos.

 
Palabras a los intelectuales
Fidel Castro
2011
Colección Fidel Castro

Esta medular e histórica intervención de Fidel Castro en 1961, ante artistas y escritores cubanos, marcó la ruta de la pujante política cultural de la Revolución Cubana y fue, también, punto de partida para la naciente Unión Nacional de Escritores y Artistas de Cuba (UNEAC).

Obama y el Imperio
Fidel Castro
2011
Colección Fidel Castro

¿Cómo caracterizar la elección de Obama a la presidencia de los Estados Unidos y cómo evaluar su desempeño durante el primer año en el cargo? Este volumen incluye todas las Reflexiones divulgadas por Fidel Castro, desde mayo de 2008 hasta diciembre de 2009, sobre Obama y su política.

 
Reflexiones
Fidel Castro
2010
Colección Fidel Castro

Las reflexiones de Fidel Castro, cuyo impacto internacional las ha situado desde el 2007 en la portada de los principales medios de información del mundo, combinan el acercamiento crítico al acontecer actual, con la memoria de uno de los mayores ideólogos revolucionarios de todos los tiempos.

 
Latinoamericanismo vs. Imperialismo
Fidel Castro
Selección, prólogo y notas de Luis Suárez Salazar
2009
Colección Fidel Castro

El ideario de Fidel Castro sobre América Latina, inseparable de su proyección antiimperialista y anticolonialista, es el hilo conductor de esta antología.

 
Chile y Allende
Una mirada al proceso revolucionario chileno
Fidel Castro
2009
Colección Fidel Castro

En noviembre de 1971, Fidel Castro, realizó un recorrido de casi un mes por el Chile gobernado por el presidente Salvador Allende. Esta visita era el símbolo de un abrazo entre dos formas de lucha: la conquista del poder en Cuba mediante la guerra de guerrillas y el triunfo electoral de la Unidad Popular en Chile. En sus alocuciones Fidel alerta que si bien la izquierda chilena había llegado al gobierno por la vía pacífica, tenía que prepararse para una brutal reacción contrarrevolucionaria.

 
La muerte del Che Guevara
Fidel Castro
2009
Colección Fidel Castro

Reúne dos trascendentales intervenciones de Fidel sobre el Che: la primera, pronunciada en la Plaza de la Revolución, el 18 de octubre de 1967, en ocasión de su asesinato en Bolivia y, la segunda, en julio de 1997, a la llegada a Cuba de sus restos y las de una parte de los compañeros muertos junto a él en Bolivia.

 
El diálogo de civilizaciones
Fidel Castro
2008
Colección Fidel Castro

Dos notables discursos pronunciados por Fidel Castro en Río de Janeiro, 1992, y en La Habana, 2005. En ellos el líder cubano alerta a la comunidad internacional del deterioro medioambiental, del peligro de extinción de la especie humana, y exhorta a la búsqueda de respuestas comunes para enfrentar los retos del mundo contemporáneo.
Fidel Castro
Antología mínima
Editado por David Deutschmann, Deborah Shnookal
2008
Colección Fidel Castro

Esta antología, que incluye las reflexiones y discursos más representativos de Fidel Castro, sin dudas constituye una referencia de incalculable valor en el contexto de transformaciones políticas y sociales que vive América Latina. Este volumen acoge textos claves de Fidel desde los años cincuenta hasta la actualidad como La historia me absolverá, los discursos ante la Asamblea General de la ONU y el Mensaje al pueblo de Cuba, entre otros.

 
Che en la memoria de Fidel Castro
Fidel Castro
Editado por David Deutschmann
2007
Colección Fidel Castro

Una biografía clásica. Fidel Castro escribe con franqueza y emoción sobre su histórico compañero revolucionario. Crea un vivo retrato de Che Guevara —el hombre, el revolucionario, el intelectual— que revela diversos aspectos de sus inimitables determinación y carácter. El libro incluye el discurso pronunciado por Fidel en 1997 a la llegada a Cuba de los restos del Che y de una parte de sus compañeros muertos junto a él en Bolivia.


Fidel y la Religión
Conversaciones con Frei Betto sobre el marxismo y la teología de la liberación
Fidel Castro, Frei Betto
2007
Colección Fidel Castro

En un íntimo diálogo de veintitrés horas con el fraile dominico, escritor y periodista brasileño Frei Betto, Fidel Castro ofrece revelaciones sobre su formación personal y discute con sinceridad su visión sobre la religión.

 
Fidel en la memoria del joven que es
Fidel Castro
Editado por Deborah Shnookal, Pedro Álvarez Tabío
2007
Colección Fidel Castro

Este libro recoge, por primera vez en un solo volumen, los excepcionales testimonios que en contadas ocasiones el propio Fidel ha dado sobre su niñez y juventud. Incluye entrevistas sobre momentos claves de su infancia, su vida universitaria y sus primeros contactos con la realidad latinoamericana, así como fotografías poco conocidas.


Venezuela y Chávez
Fidel Castro
2007
Colección Fidel Castro

Este volumen compila las palabras pronunciadas por Fidel en diversos discursos, cartas y actos públicos dedicados al pueblo venezolano entre 1959 y 2006, donde sobresalen los lazos históricos y de solidaridad existentes entre Cuba y Venezuela. La unidad soñada por Bolívar y Martí resulta epicentro de las reflexiones, advertencias y premoniciones del líder cubano presentes en estas páginas.


FONTE: Ocean Sur - Una Editorial Latinoamericana

SOB O IMPÉRIO DO PRECONCEITO

A primeira reação da chamada grande imprensa diante dos atentados em Oslo foi relacionar sua autoria a grupos terroristas islâmicos. O 'New Yok Times' chegou a divulgar um texto atribuído a um pequeno grupo islâmico que confirmava a autoria dos massacres. A informação foi rapidamene replicada em todo o mundo, sem qualquer investigação empírica, mas como algo dotado de uma lógica autoexplicativa. Era falso.Tudo isso, é bom que se diga, aconteceu antes que o próprio governo noruegues fornecesse uma pista para elucidar as motivações dos atentados. Quando se pronunciou, foi para advertir que as maiores suspeitas recaíam sobre grupos noruegueses da extrema direita sediados em Oslo, onde acontece a festa anual de entrega do Prêmio Nobel da Paz. Uma precipitação nessas circunstancias envolve o risco, nada desprezível, de desencadear represálias violentas contra comunidades etnicas e religiosas. Sobretudo em situações extremas a mídia não pode agir sob o império do preconceito.
(Carta Maior; Sábado, 23/07/ 2011)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil

Leia abaixo a apresentação do livro Memórias, autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra, feita pela historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes.



Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil




Por Anita Leocadia Prestes*

 
É com profunda emoção que escrevo esta apresentação do livro de Memórias de Gregório Bezerra. Quando penso em Gregório, vejo diante de mim o povo brasileiro, os milhões de homens, mulheres e crianças do nosso país, maltratados e sofridos durante séculos de exploração e opressão.

 
Gregório é a legítima expressão desse povo, no que ele tem de mais autêntico e verdadeiro. É a genuína personificação dos explorados e oprimidos da nossa terra – jamais dos poderosos, dos exploradores. Estes sempre lhe dedicaram um indisfarçável ódio de classe, ódio dos opressores, conscientes do perigo, para os interesses dominantes, das “ideias subversivas” difundidas por homens como ele.

 
Na grande trincheira da luta de classes, Gregório sempre esteve do lado dos trabalhadores, dos desvalidos e dos oprimidos. Justamente por isso suportou constantes perseguições policiais, atrozes torturas e um total de 23 anos de cárcere em diversos presídios do Brasil. Teve de suportar a feroz campanha que os meios de comunicação a serviço dos interesses dominantes sempre moveram contra ele e contra os comunistas.

 
Conheci Gregório há muitos anos. Em 1946, eu tinha apenas nove anos de idade quando ele, eleito deputado federal por Pernambuco na legenda do Partido Comunista do Brasil (PCB), foi morar conosco, na casa de meu pai, Luiz Carlos Prestes. O partido havia conquistado a legalidade e elegera para a Assembléia Nacional Constituinte uma bancada comunista composta de um senador, Luiz Carlos Prestes, e catorze deputados, entre os quais Gregório Bezerra. Em nossa casa, além da família, moravam vários camaradas do PCB.

 
Gregório destacava-se, dentre todos, pela dedicação ao partido e à causa revolucionária que abraçara ainda jovem, mas sobretudo pelo humanismo que irradiava de sua pessoa. Ele sabia compreender os problemas de todos que o cercavam e relacionar-se bem e de maneira afetuosa tanto com as crianças quanto com os idosos, com pessoas importantes ou humildes, com homens ou mulheres. Gregório não incomodava; ao contrário, sempre ajudou em nossa casa e era capaz de manter permanentemente um convívio agradável com todos que o rodeavam. Lembro como minhas tias observavam que, de tantos companheiros que passaram por nossa casa, nenhum deixara tão boas lembranças e tantas saudades quanto ele.

 
Se Gregório sabia conversar com os adultos, também o sabia com as crianças, como era meu caso. Eis a razão por que guardo gratas lembranças dessa convivência que durou apenas dois anos, pois em 1948, após o fechamento do PCB pelo governo Dutra e a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, ele foi sequestrado em pleno centro do Rio de Janeiro e levado clandestinamente para a Paraíba, onde, por meio de grosseira provocação policial, seria acusado de incendiar um quartel.

 
Mais tarde, eu já adulta, nossos caminhos, os meus e os dele, cruzaram-se algumas vezes na vida partidária. Foram, entretanto, encontros fugazes. Mas Gregório continuava sendo o mesmo companheiro atencioso, afável, amigo. Sempre acompanhei sua trajetória de dedicado militante comunista nos mais diversos pontos do país para onde o partido o enviava, seja na legalidade, seja na clandestinidade.

 
Foi com horror e indignação – como tantos outros brasileiros e também democratas de todo o mundo – que tomei conhecimento de sua prisão em Pernambuco, após o golpe militar de abril de 1964, e das bárbaras torturas a que fora submetido. Sua foto sendo arrastado seminu pelas ruas de Recife chocou a todos. Mas Gregório resistiu, apesar de já contar então com 64 anos de idade. Naquela ocasião, foi condenado a 19 anos de detenção. Mas então, em setembro de 1969, teve lugar no Rio de Janeiro o seqüestro do embaixador norte-americano, promovido por organizações da esquerda armada. Em troca da vida do embaixador, os dirigentes desses grupos exigiram a libertação de quinze prisioneiros políticos que deveriam ser enviados para o exterior – entre eles estava o nome de Gregório Bezerra. Embora discordando desse tipo de ação, ele aceitou a libertação, divulgando, ao mesmo tempo, uma “Declaração ao povo brasileiro”, na qual explicava suas razões. Dizia então:

 
- Por uma questão de princípio, devo esclarecer que, embora aceite a libertação nessas circunstâncias, discordo das ações isoladas, que nada adiantarão para o desenvolvimento do processo revolucionário e somente servirão de pretexto para agravar ainda mais a vida do povo brasileiro e de motivação para maiores crimes contra os patriotas.

E adiante acrescentava:

- Não quero que, nesta hora, minha atitude ponha em risco a vida dos demais presos políticos a serem libertados. Nem desejo, como humanista que sou, o sacrifício desnecessário de qualquer indivíduo, ainda que seja o embaixador da maior potência imperialista de toda a história. Luto, por princípio, contra sistemas de força. Não luto contra pessoas, individualmente. Só acredito na violência das massas contra a violência da reação.
É uma declaração reveladora da personalidade de Gregório Bezerra: militante comunista dedicado e consequente, de firmeza inabalável na defesa de suas convicções revolucionárias e, por isso mesmo, insigne humanista. Reencontrei Gregório em Moscou, em 1973, onde ambos estivemos exilados, juntamente com outros compatriotas. Embora fisicamente alquebrado, como consequência das torturas a que fora submetido nos cárceres da ditadura militar, ele mantinha intacta a postura de profunda dignidade humana e as convicções de revolucionário comunista que sempre marcaram sua personalidade.

 
Forçado a viver no exílio, mesmo cercado do respeito, da admiração e do carinho dos companheiros soviéticos, assim como de exilados brasileiros e de outros países que então residiam na União Soviética, Gregório tinha seu pensamento permanentemente voltado para o Brasil. Sua maior aspiração era regressar à pátria e poder continuar lutando pelos ideais revolucionários a que dedicara toda sua vida.

 
Foram dez anos de exílio, até a conquista da anistia no Brasil, em agosto de 1979. Gregório seria um dos primeiros a regressar à terra natal, onde foi recebido com entusiasmo e carinho pelos trabalhadores, companheiros e amigos.

 
Durante os anos de exílio, Gregório, assim como Prestes, não deixou de contribuir para a luta pela anistia em nosso país. Viajou por diferentes países denunciando os crimes da ditadura militar. Com seu prestígio, tratou de mobilizar os mais diversos setores da opinião pública mundial em campanhas de solidariedade aos presos e perseguidos políticos no Brasil. Participou de congressos, conferências, seminários e entrevistas, sempre empenhado na luta pela democracia, contra o fascismo e por um futuro socialista para toda a humanidade, pois ele era também um militante internacionalista, para quem a luta do nosso povo não poderia jamais estar dissociada da luta dos trabalhadores do mundo inteiro.

 
Ao mesmo tempo, dedicou-se nesses anos a escrever suas Memórias, cuja nova edição em boa hora nos é proporcionada pela editora Boitempo. Sou testemunha de que Gregório escreveu seu livro sozinho e à mão. Companheiros residentes em Moscou naquela época se revezavam na datilografia das páginas já redigidas por nosso talentoso autor.

 
Gregório soube produzir um relato de sua vida, em linguagem simples e direta, sem qualquer afetação literária. Descreveu a vida de um camponês nordestino miserável, que se transformou em operário e soldado e, nesse processo, ingressou no Partido Comunista. Um militante que dedicou sua vida aos ideais comunistas, arcando com todas as consequências de tal escolha, sem jamais perder as características de grande figura humana.

 
Sou também testemunha do espírito de solidariedade e de companheirismo de Gregório durante aqueles difíceis anos de exílio, quando muitos companheiros entravam em desespero ou perdiam a perspectiva revolucionária. Gregório animava a todos que o procuravam, encorajava a quem estava abatido ou angustiado. Mostrava-se solidário com aqueles que precisavam de uma palavra ou de um gesto de amizade e de carinho. Seu apartamento em Moscou era um recanto aconchegante, onde se podia saborear algum prato da cozinha brasileira, por ele muito bem preparado, e de onde se saía reconfortado e confiante num futuro melhor.

 
Gregório era um otimista e infundia otimismo em todos que o procuravam, incluindo os jovens brasileiros que estudavam na URSS. Aos jovens, ele se esforçava por transmitir sua experiência e seus conhecimentos do Brasil para que, quando regressassem à pátria, estivessem preparados para enfrentar o futuro. A trajetória de vida de Gregório Bezerra é exemplar e deve servir de inspiração para os jovens de hoje, para aqueles que estão empenhados na realização de transformações profundas em nosso país que abram caminho para um futuro de justiça social e liberdade para todos os brasileiros. Futuro que, como nos ensina Gregório Bezerra, da mesma maneira que José Carlos Mariátegui, Fidel Castro, Che Guevara, Luiz Carlos Prestes e tantos outros revolucionários latino-americanos, só poderá ser alcançado com a revolução socialista. Gregório foi um comunista que jamais se dobrou diante das dificuldades e soube “endurecer sem jamais perder a ternura”, na feliz expressão cunhada por Ernesto Guevara.

 
Esperamos que a publicação desta nova edição das Memórias de Gregório Bezerra pela Boitempo constitua um estímulo à formação de jovens revolucionários em nosso país e em nosso sofrido continente latino-americano.

 
* Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.



 

"Dinheiro não pode comandar a formação da opinião pública"


O escândalo do News of the World - e os desdobramentos regulatórios que ele possa ensejar - ultrapassa os ares do interesse inglês. “Todos os primeiros-ministros britânicos tinham relações, no mínimo, incestuosas com Murdoch. Isto demonstra a permeabilidade do poder político e partidário à mobilização opinativa de grandes conglomerados de comunicação. Não creio que este seja um fenômeno apenas britânico”, observa o filósofo Vladimir Safatle, professor da Universidade de São Paulo, em entrevista à Carta Maior.

Por Saul Leblon

 
A Europa voltou a ser o centro do mundo pelo avesso. A crise da democracia e a da esquerda, bem como o colapso das finanças desreguladas fazem ranger o velho convés do continente. As respostas tardam; os ventos uivam. Parece uma tempestade perfeita.

 
Fica difícil até mesmo ao observador mais desatento não enxergar o vazio de liderança e de projeto no desfilar de figuras opacas que ditam rumos a uma nau hesitante, sendo desmentidas pelo poder do dinheiro no pregão do dia seguinte.

 
É nesse cenário desordenado, entupido de estereótipos políticos e carente de protagonistas verdadeiros, que o dinheiro em pessoa compareceu a uma audiência no Parlamento Britânico, na última quarta-feira.

 
US$ 45 bilhões personificados na figura amarfanhada, algo negligente, de Rupert Murdoch estavam ali na condição de suspeitos.

 
Uma folha corrida histórica incluiria explicitamente as acusações de açambarcamento do espaço da política e violação do discernimento democrático da sociedade . Porém, neste caso, o motivo da audiência era a comprovada quebra de mais de 4 mil sigilos telefônicos pelo tabloide inglês News of the World, de propriedade de Murdoch.

 
Delitos de proporções industriais como esse só se concebem, de qualquer forma, a partir de um poder descomunal de persuasão política que flerta com a sensação de impunidade. É o caso do poder reunido pelo dinheiro nas mãos de Murdoch que comanda uma teia midiática capaz de capturar, silenciar ou multiplicar vozes, imagens e idéias impressas com um grau de abrangência repetitiva imbatível em língua inglesa.

 
O senhor dinheiro deu as respostas de praxe às evidencias – grosseiras até - de um intercurso entre seus veículos, sobretudo o tabloide sensacionalista mencionado, e o poder político conservador na velha Albion. Mas não só nela. Do outro lado do Atlântico, o dinheiro materializado na Fox News ancora eleitoralmente a demência extremista da direita norte-americana reunida no Tea Party, que não existira sem a rede.

 
Deve-se a Fox News, ainda, a catarse de medo e ódio que pavimentou a invasão do Iraque e também a atual sedimentação republicana para voltar ao poder, em 201 2.Seu pontapé eleitoral é a tresloucada plataforma de cortes de gastos que pretende paralisar os EUA e Obama e, no mínimo, obriga-lo a depenar o orçamento social em plena campanha pela reeleição. Mais uma vez, sem o poder emissor de Murdoch seria impossível polarizar a opinião pública e a agenda mundial em torno desses temas.

 
Monossilábico, na audiência de quarta-feira, o senhor dinheiro tentou relativizar sua intrusão na vida política. Resmungou que não privava apenas da intimidade do Partido Conservador ora no poder. Desfrutou igual deferência junto aos antecessores de David Cameron –que teve sua comunicação de campanha e governo entregue a talentos pinçados diretamente da direção do News of the World, a exemplo do que ocorreu na cúpula da Scotland Yard.

 
Os antecessores trabalhistas sugeridos, Tony Blair e Gordon Brown, não desmentiram a ecumênica influência do senhor dinheiro.

 
Os fatos arrolados e as suspeitas justificadas reforçam assim a percepção de que o maior desafio nesta crise do capitalismo, a exemplo do que ocorreu em sua grande antecessora, de 1929, é reduzir o poder desmedido do dinheiro sobre as decisões políticas e as escolhas da sociedade.

 
Avulta desta feita, no entanto, uma singularidade apreciável. O próprio debate das soluções precisa ser liberado de um poder oligopolista crescente exercido pela chamada grande mídia, hoje ainda capaz de influenciar de forma despropositada o que a sociedade pode ou não escrutinar; o que os governos devem ou não decidir.

É desse ponto de vista que o escândalo do News of the World - e os desdobramentos regulatórios que ele possa ensejar - ultrapassa os ares do interesse inglês. “Todos os primeiros-ministros britânicos tinham relações, no mínimo, incestuosas com Murdoch. Isto demonstra a permeabilidade do poder político e partidário à mobilização opinativa de grandes conglomerados de comunicação. Não creio que este seja um fenômeno apenas britânico”, observa o filósofo Vladimir Safatle, professor da Universidade de São Paulo, em entrevista por email a Carta Maior.

 
Arguto observador da crise da democracia em nosso tempo –e ao mesmo tempo otimista quanto ao seu desfecho - Safatle entende que “uma sociedade democrática é aquela que tem acesso a um grande número de esquemas de interpretação que se digladiam na arena da formação da opinião pública”.

 
A pluralidade de opiniões, todavia, só subsiste protegida dos monopólios midiáticos por salvaguardas regulatórias institucionais. A quem se ilude com a dimensão autorregulatória embutida no escândalo Murdoch Safatle indaga: “ A que custo e depois de quanto tempo?”

 
O medo irradiado por esse poder, sugere o professor, causa estragos devastadores.

 
O medo dos socialistas europeus de politizar a discussão econômica, por exemplo – lá como cá um medo inculcado pelo poder midiática. Ele explica em boa parte, segundo o filósofo, o desfibramento político da esquerda europeia diante da crise e o seu esvaziamento popular. Vladimir Safatle recusa, porém o fatalismo imobilista. Para além da opacidade política e midiática do momento ele enxerga um ponto de mutação catalisado pela aspiração crescente por algo que, à falta de melhor conceituação, se denomina ‘democracia real’ . Regular o poder do dinheiro na mídia certamente constitui uma etapa obrigatória dessa travessia.

 
A seguir , uma síntese das observações de Vladimir Safatle à Carta Maior em três blocos temáticos”.

 
I. Por que Europa, ela de novo, condensa tanto a crise econômica quanto o esfarelamento da democracia parlamentar e, agora, o desnudamento de práticas midiáticas intoleráveis?

 
Porque, como dizia Freud, a razão pode falar baixo, mas ela nunca se cala. A Europa teve um tradição de esquerda que hoje fala baixo, mas ela ainda vai falar mais alto. O pior erro da esquerda europeia foi esquecer a centralidade das lutas contra a desigualdade econômica e social. Por isso ela perdeu ressonância nas classes populares e virou um ornamento ideológico de classes médias cosmopolitas.

 
Hoje, as classes populares votam na extrema-direita, repetindo um fenômeno de deslocamento que vimos na ascensão do fascismo e do nazismo. A esquerda europeia tem medo de ser uma esquerda popular, pois isto implica uma politização da economia que ela já não é mais capaz de fazer. É fantástico, por exemplo, perceber como a esquerda é incapaz de fornecer um modelo alternativo de atuação para a crise econômica europeia.

 
É sintomático que o partido responsável pela implementação do desmonte grego seja exatamente o PASOK (o partido socialista). Isto acontece não porque inexistam modelos alternativos, mas porque os ditos partidos de esquerda se comprometeram tanto com o mundo financeiro global, se deixaram tanto encantar por terem sido recebidos de braços abertos nos salões da elite europeia com seu glamour de escroque, casa na Riviera Francesa e TV ligada na Fox News que atualmente eles simplesmente não conseguem mais pensar.

 
São partidos que não pensam mais, agem por reação, ou seja, que morreram e ainda não perceberam o fato. Mas creio que, mais rapidamente que imaginamos , a Europa irá se lembrar de sua combativa tradição esquerdista e novos esquemas de pensamento serão colocados em circulação. Chega de imaginar que nosso futuro só pode aparecer como catástrofe.

 
II. Democracia e oligopólio mdiático: com vê os desdobramentos da crise do News of the World na regulação das comunicações no Brasil?

 
Não é de hoje que se denuncia a maneira com que figuras como Murdoch interferem na pauta do debate da opinião pública. Através da administração e criação de escândalos os mais diversos, Murdoch conseguia colocar a classe política na posição de refém. Ao transformar seu império midiático em caixa de ressonância das posições conservadoras mais toscas, Murdoch colaborou decisivamente para o empobrecimento do debate político mundial.

 
Isto coloca um problema maior referente aos efeitos da oligopolização da comunicação de massa. A democracia precisa da pulverização da informação, não da concentração dos campos do entretenimento, da noticia e da comunicação nas mãos de uma só pessoa. Sua TV, por exemplo, veiculava filmes que ele mesmo produzia, citava veículos de informação que faziam parte do mesmo grupo, tratava como fonte, opiniões de seus próprios funcionários em outros países, etc.

 
Isso coloca um problema importante para a democracia atual. Não há democracia sem mecanismos que impeçam a propriedade cruzada e a oligopolização do mercado de mídia. Essa discussão precisa chegar ao Brasil sem que tais ações sejam imediatamente taxadas de "formas astutas de censura contra a imprensa".

 
Não há nada de errado com o fato de um veículo ter sua posição ideológica, seja de direita ou de esquerda. Vamos ter que conviver com o fato da direita sempre ter sua voz, uma voz forte. Errado é ele usar de artifícios comerciais para criar um sistema único no qual televisão, rádio, jornais, revistas, redes de TV a cabo, produtoras de cinema e de música são organizados como totalidade que visa martelar o mesmo conjunto limitado de opiniões para a sociedade civil.

 
III. "Primaveras contestatórias" ocorrem em vários países à margem das instituições políticas e à revelia da chamada grande imprensa e muitas vezes em oposição a ela. É toda uma arquitetura que se desmancha...

 
O que os dois movimentos tem em comum é a consciência da fragilidade de nossa democracia parlamentar. Todos os primeiros-ministros britânicos tinham relações, no mínimo, incestuosas com Murdoch. Isto demonstra a permeabilidade do poder político e partidário à mobilização opinativa de grandes conglomerados de comunicação. Não creio que este seja um fenômeno apenas britânico.

 
Veja, pode-se dizer que o caso Murdoch demonstra como aqueles que jogam no lixo sua credibilidade acabam por serem punidos.

 
Sim, mas quanto tempo demora para que tal punição chegue? Qual preço devemos pagar durante esta espera?

 
Aqui, podemos colocar questões como: até que ponto a eleição de David Cameron não foi influenciada pelo apoio de Murdoch?

 
Até que ponto o ímpeto cego mobilizado para a guerra do Iraque seria possível sem a Fox News?

 
Questões desta natureza demonstram que não podemos esperar um sistema de autorregulação natural dos excessos da imprensa.

 
A imprensa, é isto é bastante natural, é o espaço da interpretação dos fatos. Uma sociedade democrática é aquela que tem acesso a um grande número de esquemas de interpretação que se digladiam na arena da opinião pública. Os melhores jornais mundiais procuram, inclusive, trazer esta batalha para dentro de suas páginas. Ora, um fenômeno como Murdoch representa o bloqueio desta pulverização.

 
Por isto, quando ele vem à tona, não são poucos aqueles que começam a se colocar questões sobre a distância entre nossa democracia e um conceito de "democracia real".

 
Tais reflexões nada tem a ver com o pedido de formas de "censura prévia", mas com a reflexão política sobre as consequências de um fenômeno econômico perverso, sempre presente no capitalismo: a oligopolização”.

 
FONTE: Carta Maior

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Voracidade consumista

Por Frei Betto


Para o filósofo Edgar Morin, a ciência, ao buscar autonomia fora da tutela da religião e da filosofia, extrapolou os próprios limites éticos, como a produção de armas de destruição em massa. Os cientistas não dispõem de recursos para controlar a própria obra. Há um divórcio entre a cultura científica e a humanista.


Exemplo paradigmático desse divórcio é a atual crise econômica. Quem é o culpado? O mercado? Concordar que sim é o mesmo que atribuir ao computador a responsabilidade por um romance de péssima qualidade literária.

Um dos sintomas nefastos dos tempos em que vivemos é a tentativa de reduzir a ética à esfera privada. Fora dela, tudo é permitido, em especial quando se trata de reforçar o poder e aumentar a riqueza. Obama admitiu torturar os prisioneiros que deram a pista de Bin Laden, e não houve protestos com sufi ciente veemência para fazê-lo corar de vergonha.


A globocolonização, inaugurada com a queda do Muro de Berlim, conhece agora sua primeira crise econômica. E ela explode no bojo da fragmentação da modernidade. “Tudo que é sólido se dissolve no ar...” Vale acrescentar: “... e o insólito, no bar”.


Esfareladas as grandes narrativas que norteavam a modernidade, abre-se amplo espaço ao relativismo. O projeto emancipatório se dilui no terrorismo e no assistencialismo compensatório guloso de votos. O futuro se desvanece.


Para os arautos do neoliberalismo, “a história terminou”. O presente é, hoje, o moto perpétuo. O passado, mera evocação, como a pintura que se contempla na parede de um museu. Nada de querer acertar contas com ele.


Graças às novas tecnologias, o espaço se contraiu e o tempo se acelerou. O outro lado do mundo está logo ali, e o que lá ocorre é visto aqui em tempo real. Tudo isso impacta nossos paradigmas e nossa escala de valores. Paradigmas e valores soam como contos da carochinha comparados a ensaios de bionanotecnologia.


O mundo real se cindiu e não condiz com o seu duplo virtual. Via internet, qualquer um pode assumir múltiplas identidades e os mais contraditórios discursos. Agora, todos podem ser simulacros de si mesmos.


Não há mais propostas libertárias que fomentem utopias, nutram esperanças e semeiem otimismo. Ao olhar pela janela, não há horizonte. O que se vê reforça o pessimismo: o aquecimento global, a ciranda especulativa, a ausência de ética no jogo político, a lei do mais forte nas relações internacionais, a insustentabilidade do planeta.


Se não há futuro a se construir, vale a regra do prisioneiro confinado à sua cela: aproveitar ao máximo o aqui e agora. Já não interessam os princípios, importam os resultados. O sexo se dissocia do amor como os negócios da atividade produtiva.


A cultura do consumismo desencadeia duas reações contraditórias: a pulsão pela aquisição do novo e a frustração de não ter tido tempo sufi ciente para usufruir do “velho” adquirido ontem... A competitividade rege as relações entre pessoas e instituições. Somos todos acometidos de permanente sensação de insaciabilidade. Nada preenche o coração humano. E o que poderia fazê- lo já não faz parte de nosso universo teleológico: o sentido da vida como fenômeno, não apenas biológico, mas sobretudo biográfico, histórico.


Agora a voracidade consumista proclama a fé que identifica o infinito nos bens finitos. O princípio do limite é encarado como anacrônico. Azar nosso, porque todo sistema tem seu limite, da vida humana ao mercado. Sabemos por experiência própria o que acontece quando se tenta ignorar os limites: o sistema entra em pane. Mas, em se tratando de finanças, não se acreditava nisso. A riqueza dos donos do mundo parecia brotar de um poço sem fundo.


Duas dimensões da modernidade foram perdidas nesse processo: a dignidade do cidadão e o contrato social. Marx sabia que a burguesia, nos seus primórdios, era uma classe revolucionária. O que ignorava é que ela de tal modo revolucionaria o mundo, a ponto de exterminar a própria cultura burguesa. Os valores da modernidade evaporam por força da mercantilização de tudo: sentimentos, ideias, produtos e sonhos.


Para o neoliberalismo, a sociedade não existe, existem os indivíduos. E eles, cada vez mais, trocam a liberdade pela segurança. O que abastece este exemplo singular de mercantilização pós-moderna: a acirrada disputa pelo controle do mercado das almas. As religiões tradicionais perdem seus espaços territoriais e o número de fiéis. Agora, no bazar das crendices, a religião não promete o céu, e sim a prosperidade; não promete salvação, e sim segurança; não promete o amor de Deus, e sim o fi m da dor; não suscita compromisso, e sim consolo.


Assim, o amor e o idealismo ficam relegados ao reino das palavras inócuas. Lucro e proveito pessoal são o que importam.


Frei Betto é escritor, autor de Cartas da Prisão (Agir), entre outros livros.

Artigo originalmente publicado na edição 437 do Brasil de Fato

A história de um valente


Por Luciano Morais e Roberto Numeriano*



A reedição do livro "Memórias", autobiografia de Gregório Bezerra, pela Boitempo Editorial (648 págs., R$ 74,00), comemora um símbolo de resistência e convicção política e ideológica, valores cada vez mais ausentes no meio político brasileiro. No livro, o revolucionário comunista narra toda sua trajetória de vida e militância, momentos vividos durante os principais acontecimentos da vida política e social do Brasil no século XX.

Gregório começa a autobiografia "Memórias" narrando a seca e a escassez de alimentos que maltratava constantemente os nordestinos, e que o atingiu duramente em sua infância no município de Panelas, "Fui, assim, uma criança gerada com fome no ventre materno. Sim, porque minha mãe passava fome, e eu só podia nutrir-me de suas entranhas enfraquecidas pela fome".

Quando aos sete anos ficou órfão de pai e mãe, transformou-se em trabalhador rural assalariado. Condição que só foi interrompida quando, aos dez anos, foi trazido por uma família latifundiária para o Recife com a promessa de criá-lo e alfabetizá-lo, promessa que não foi cumprida. Ao invés da escola prometida, o pequeno "Grilo", como era chamado na infância, tornou-se um escravo mirim: acordava às 4h da manhã, varria, lavava banheiros, encerava pisos e cuidava de animais. Não aceitou este estado de coisas e fugiu. Morou nas ruas do Recife pegando fretes na Estação Central, vendendo jornais e dormindo embaixo da ponte Buarque de Macedo. Trabalhou na construção civil e aos dezessete anos foi preso e condenado há quatro anos por agitação grevista, já influenciado pelos recentes acontecimentos protagonizados pelo proletariado russo.

Os trabalhos no porto do Recife foi sua atividade após a liberdade. E neste período resolveu dedicar-se à carreira militar, entrando no Exercito Brasileiro, onde se destacou nas atividades físicas e na prática de esportes individuais e coletivos. Ao ser humilhado por um colega de farda, ele decide alfabetizar-se. Isso, aos 27 anos. Alfabetizou-se por conta própria, dedicou-se e foi aprovado para Sargento, consagrando-se Sargento-Instrutor em Educação Física.

Sua ascensão militar coincide com a aproximação com o Partido Comunista Brasileiro, o PCB, ainda em 1929. Mas foi por causa da organização da Aliança Nacional Libertadora - ANL, onde foi o principal nome do levante de 1935, liderado pelo Partido Comunista, que Gregório Bezerra foi declarado inimigo nº 1 das oligarquias pernambucanas e das forças armadas. Foi preso e ficou incomunicável por dois anos, integrando-se depois aos demais presos políticos da Casa de Detenção do Recife (atual Casa da Cultura). Ali, criou uma sólida e influente base do Partido até sua transferência para o Presídio na ilha de Fernando de Noronha, onde encontrou com vários camaradas insurretos, oriundos do Rio de Janeiro e de outros estados.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e o início do movimento pela democratização do país, são postos em liberdade todos os presos políticos e concedida a legalidade ao PCB. Neste Período de reformas políticas, o Partido Comunista surge no cenário nacional como uma força significativa, pelo prestígio da URSS ao fim da guerra. Pela adesão de vários intelectuais e artistas ao Partido, pelo reconhecimento da classe operária e pelo carisma e admiração em torno de Luiz Carlos Prestes e Gregório Bezerra. Em seguida, a participação nas eleições à Constituinte de 1946 garante ao PCB uma grande representação parlamentar em nível federal, elegendo 15 deputados. Gregório é eleito Deputado Federal com a maior votação em Pernambuco.

A participação de Gregório Bezerra e dos comunistas na Assembléia Nacional Constituinte e no Congresso Nacional durou pouco. Apenas o suficiente para aprovar uma avançada Constituição à época e o necessário para mostrar o quão frágeis eram os conceitos de liberdade e democracia para as oligarquias nacionais, quando os trabalhadores reivindicam seus direitos e questionam a exploração.

Cassados os mandatos dos comunistas, Gregório é vítima de uma grande farsa: ainda residindo no Rio de Janeiro, é acusado pelo incêndio criminoso no 15º Regimento de Infantaria na Paraíba. Foi preso e levado à João Pessoa, onde é hostilizado pelos militares influenciados com aquela armação.

Após um longo período incomunicável no 15º RI, foi transferido para o Recife e jamais poderia imaginar que os fogos que explodiam por toda a cidade era parte da mobilização do PCB para saldar sua chegada.

No dia seguinte, em frente ao quartel da Companhia de Guardas da 7ª Região Militar se concentrou uma verdadeira multidão para visitá-lo. Prevenido pelo comandante responsável por sua guarda que só poderia visitá-lo, os parentes, Gregório disse: Mas todos os que estão aí fora, tenente, são da minha família. Ele retrucou: Impossível, Gregório. Tem gente aí fora de todos os tipos: tem gente bem vestida, branca, mas também tem pretinhos descalços e esfarrapados. Então ele arremata: “Pois bem, mande entrar primeiro os pretinhos esfarrapados, que são os meus parentes mais próximos (...)” O comandante sorriu, e disse: “É por isso que tu estás aqui, Gregório...”

Após um longo período de dura clandestinidade organizando sindicatos rurais em Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, ressurge para atuar na articulação da Frente do Recife, elegendo primeiro o udenista Cid Sampaio e depois Miguel Arraes. A atuação mais expressiva do homem feito de ferro e flor é registrada neste período. Gozava de grande prestígio na zona da Mata Sul, reunindo centenas de delegados sindicais filiados ao Partido Comunista.

Em 30 de março de 1964, retorna ao Recife para oferecer resistência ao golpe em andamento e solicitar armas para munir os trabalhadores. Encontrou o Palácio do Campo das Princesas ocupado pelos militares. Tal episódio mereceu um comentário posterior: em 1935 tínhamos as armas e não tínhamos os homens, e agora temos os homens e faltam-nos as armas.

Foi capturado no dia 2 de abril pelo 20º Batalhão de Caçadores nas proximidades do município de Cortez enquanto tentava desmobilizar os camponeses desarmados. Levado ao Quartel de Moto mecanização de Casa Forte, sob os “cuidados” do sanguinário coronel Villoc que, com golpes de cano de ferro, pontapés na boca, tórax e testículos, e o ódio de anos fora descarregado. “Já estava totalmente ensopado de sangue e com todos os dentes quebrados. Sentaram-me numa cadeira com três homens me segurando por trás enquanto Villoc arrancava meus cabelos com um alicate. Depois, obrigaram-me a pisar numa poça de ácido de bateria. Em pouco tempo, estava com a sola dos pés em carne viva.”

O espetáculo de horrores promovido pelo sádico Villoc precisava de platéia. Então, saíram às ruas. A sola dos pés estava repleta de pedregulhos encravados, uma corda no pescoço amarrada ao jipe que carregava o verdugo gritando “Linchem este bandido! É um monstro!” E assim percorremos as principais ruas do bairro de Casa Forte sob uma dor alucinante. Foi um desfile doloroso. Ninguém o aplaudiu. Ninguém o atendeu. “Mas eu queria viver.” A atitude das pessoas deu forças para resistir física e moralmente. Gregório Bezerra foi salvo pelo clamor do povo.

No início de setembro de 1969, o mundo foi surpreendido pela notícia do seqüestro do Embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Em troca do Embaixador, os esquerdistas exigiram a libertação de 15 líderes revolucionários. Gregório era o primeiro da lista. Na URSS, ele tentou, com o luxuoso auxílio dos médicos soviéticos, recuperar a saúde debilitada, até poder retornar novamente ao Brasil.

Morreu no dia 23 de outubro de 1983, na cidade de São Paulo.

Seu corpo foi trazido para Pernambuco e velado na Assembléia Legislativa. O cortejo fúnebre atraiu milhares de militantes e curiosos. No caminho, um trabalhador do serviço de limpeza da Prefeitura do Recife saudou pela última vez o líder comunista de espírito inquebrantável. Paulo Cavalcanti recriou bem o ambiente desta última homenagem a este lutador no livro O Caso eu conto como o caso foi: “Uma toalha vermelha foi hasteada na sacada de um apartamento residencial, e outra faixa reproduzia os versos da música cantada por Elis Regina: choram Marias e Clarices no solo do Brasil”.

(*) Luciano Morais e Roberto Numeriano são membros da Direção Estadual do PCB - Pernambuco.

FONTE: Carta Maior