quarta-feira, 9 de março de 2011

La Columna Prestes - Edição cubana do livro de Anita Prestes

"La Columna Prestes".


1ª edição


Fondo Editorial Casa

de Las Américas


La Habana,

Cuba

2011




Episódio mais importante da saga dos "tenentes", a Coluna Prestes marcou a década de 1920.


Inspirados nos ideais liberais de "representação e justiça", os "tenentes" batiam-se pelo voto secreto e pela moralização dos costumes políticos, corrompidos pelo domínio oligárquico em vigor durante a República Velha.

A Coluna Prestes - o momento culminante do tenetismo - reuniu um exército guerrilheiro de aproximadamente 1,5 mil homens e mulheres, comandados por uma dúzia de oficiais do Exército e da Força Pública de São Paulo, entre os quais se destacava Luiz Carlos Prestes.

A Coluna percorreu 25 mil quilômetros através de 13 Estados do Brasil, derrotando 18 generais governistas, sem jamais ter sido desbaratada, apesar do enorme poderio bélico mobilizado contra ela.

"Cuba sim! Em nome da verdade"

União da Ilha da Magia é campeã do Carnaval de Florianópolis

Com o tema "Cuba sim! Em nome da verdade", a União da Ilha da Magia foi a grande campeã do Carnaval 2011 de Florianópolis. Em uma proposta ousada, causando grande expectativa na sociedade, a escola conseguiu fazer um desfile impecável e conquistar boas notas em quase todos os quesitos.

A escola ganhou com 264,8 pontos. Em segundo lugar ficou a Embaixada Copa Lord, com 261,5 pontos, e, em terceiro a Protegidos da Princesa com 261,3 pontos.
A médica e revolucionária cubana Aleida Guevara foi destaque na passarela e participou da apuração na arquibancada ao lado da comunidade da Lagoa da Conceição.

A cada nota dez recebida a comunidade se levantava e comemorava a aproximação do título. Aleida também comemorou a vitória e saudou a coragem da escola e a homenagem feita a seu povo e sua revolução.O enredo da UIM foi cantado por todos, e palavras de ordem como "Cuba sim, yankees não. Viva Fidel e a revolução" também foram ecoadas.

O destaque na pontuação foi também para a Comissão de Frente, que na Passarela Nego Quirido montou um mosaico com o rosto de Che Guevara, e para a bateria UIM, com todos os seus integrantes vestidos de guerrilheiros revolucionários.

É o primeiro título da União da Ilha da Magia, que completa no mês de março três anos de idade.

A Associação Cultural José Martí de Santa Catarina saúda a escola e todos os envolvidos por nossa vitória.


Convite de visita à ENFF

Car@ Amig@,

A Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes está organizando a próxima visita coletiva à Escola, no dia 26 de março 2011, sábado, das 9h às 15hs.

Para quem ainda não conhece esse projeto, a visita vai colocá-lo diante de uma nova realidade concreta, construída, de forma voluntária e coletiva, pelos próprios alunos, que aponta para um futuro no qual a dignidade do ser humano não será mais privilégio de poucos.

Além disso, você vai compreender que a Escola não é um projeto acabado, é um projeto em construção e sua visita tem também a intencionalidade de convidá-l@ a participar dessa construção. Sem você, sem todos nós, esse projeto não é possível.

O custo da visita é de R$ 30,00, valor repassado para a ENFF para contemplar custos com café da manhã e almoço.

Para quem quiser ir com seu próprio carro, enviaremos as informações necessárias de como chegar ao local. Haverá um ônibus para o transporte São Paulo-ENFF-São Paulo, com um custo de R$ 20,00 por pessoa. O ponto de encontro será na Estação de Metrô Armenia, com saída prevista para as 7:30 horas.

Para que tod@s tenham um bom proveito desse passeio, que será monitorado por companheir@s da ENFF, o grupo será de no máximo 90 pessoas. Assim, solicitamos que você confirme sua presença, enviando nome completo, RG e comprovante do depósito das despesas de alimentação e/ou ônibus (Banco do Brasil – Ag. 3687-0 – Conta 285076-1) para o endereço eletrônico associacao@amigosenff.org.br, até o dia 19 de março.

Contamos com a presença de tod@s!!!

José Arbex Junior – Associação dos Amigos da ENFF
Geraldo Gasparin – Escola Nacional Florestan Fernandes


FONTE: http://amigosenff.org.br/site/

Homenagem ao Dia Internacional da Mulher

CeCAC convida:


Homenagem ao Dia Internacional da Mulher
Palestra e Debate:

Leocádia Prestes - Mãe Coragem
com Anita Leocádia Prestes
17 de março – 5ª feira

18:30h
Local : CeCAC

Av. Treze de Maio, nº 13 - sala 1903 - Cinelândia - Rio de Janeiro/RJ





Leocádia Prestes – mãe coragem

Por Lygia Prestes

Leocádia Felizardo Prestes nasceu no dia 11 de maio de 1874, em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul.

Seu pai, Joaquim José Felizardo, abastado comerciante, foi um homem culto, de ideias liberais, partidário da Abolição e da República. Sua mãe, Ermelinda Ferreira de Almeida, descendia da aristocracia portuguesa. Contudo, era pessoa de ideias abertas e partilhava plenamente os ideais de justiça social de seu marido.

Dotada de caráter enérgico e independente, Leocádia Prestes destacou-se, desde cedo, das jovens da sua classe social. Educada segundo os moldes tradicionais da época, falava vários idiomas, era exímia pianista, estudou pintura, canto, declamação. No entanto, tais predicados, que lhe permitiam brilhar nos salões, não lhe bastavam. Ela gostaria de desenvolver alguma atividade útil e, ainda adolescente, manifestou o desejo de ser professora pública, o que evidentemente não pôde ser concretizado devido aos preconceitos sociais. A política e os problemas sociais a interessavam muito, pelo que era leitora apaixonada dos jornais da Corte, fato inusitado entre as moças de seu tempo.

Em 1896, casou-se com o capitão Antônio Pereira Prestes, engenheiro militar, que havia sido aluno de Benjamim Constant, na Escola Militar da Praia Vermelha, e participara, ainda cadete, da proclamação da República, no Campo de Santana. Era um homem de vasta cultura, partidário do Positivismo, que era a corrente filosófica mais progressista no Brasil, no fim do século XIX.

O convívio com o marido muito contribuiu para que Leocádia Prestes ampliasse sua cultura geral e aprofundasse ainda mais o seu interesse pela política e pelas questões sociais. Anos mais tarde, ela contaria aos filhos a ansiedade com que ela e o marido viveram episódios como a Guerra de Canudos ou o célebre Caso Dreyfus, na França, que comoveu todos os setores progressistas, na passagem do século.

A morte prematura do marido deixou-a em situação muito precária. A exígua pensão não era suficiente para o sustento dos filhos. O caminho mais fácil teria sido arrimar-se a algum parente rico. Ela preferiu, porém, conservar a sua independência e partira para a luta.

Começou a dar aulas de idiomas e de música, trabalhou de modista, foi balconista e até costuras fez para o Arsenal de Marinha. Finalmente, em 1915, conseguiu ser nomeada professora da Escola Pública, como coadjuvante do ensino primário, cargo que exerceu até 1930. Trabalhava à noite, nos cursos noturnos destinados a comerciários, operários e domésticas.

Era um trabalho muito pesado, pois tais cursos funcionavam em escolas dos subúrbios do Rio, longe da condução, frequentemente no alto dos morros. Pela primeira vez em sua vida, ela pôde ter um maior contato com as camadas mais pobres da sociedade e isso aguçou ainda mais a sua revolta contra as injustiças sociais. Em pouco tempo, tornou-se muito estimada pelas alunas, pois era uma das poucas professoras, naquele tempo, que não admitiam discriminações, tratando da mesma forma a comerciária bem arrumada e a cozinheira de roupa surrada ou a operária de tamancos. Com sua atitude, ela procurava transmitir a seus alunos, além dos conhecimentos elementares, noções de justiça social, de igualdade e dignidade humana.

Aliás, ao educar os filhos, sua grande preocupação foi sempre a de incutir-lhes o amor ao trabalho e o sentimento do dever cívico. Procurou sempre mostrar-lhes os aspectos negativos da vida, ensinando-lhes a enfrentar com altivez a violência e as arbitrariedades dos poderosos e a jamais curvar-se ante as injustiças. Dotada de grande sensibilidade artística, procurou sempre transmitir aos filhos o seu amor à natureza e a sua admiração por tudo que é belo e elevado. Uma sonata de Beethoven ou um belo poema, um pôr do sol ou o desabrochar de uma flor, a emocionavam igualmente.

A árdua luta pela sobrevivência não fez diminuir seu interesse pelo que ocorria na sociedade e no mundo. Mesmo nos momentos mais difíceis, em sua casa podia faltar pão, mas nunca faltou pelo menos um jornal diário, para acompanhar os acontecimentos políticos, que discutia e comentava com os filhos. Assim, em 1910, empolgou-se com a Campanha Civilista de Rui Barbosa e fazia questão de comparecer aos comícios, levando consigo o filho mais velho, Luiz Carlos, que contava apenas doze anos de idade, para que ouvisse a pregação cívica do mestre baiano.

Por isso mesmo, em 1922, quando seu filho Luiz Carlos, já oficial do Exército, começa a participar da política, atuando na preparação (do primeiro Cinco de Julho), ela lhe deu todo o apoio, incentivando-o inclusive a continuar a luta, após a derrota do movimento.

Em 29 de outubro de 1924, ocorreu o levante de Santo Ângelo, liderado por Luiz Carlos Prestes, dando início à grande marcha através do Brasil que duraria até fevereiro de 1927. Foram anos muito duros para as famílias dos participantes da Coluna. As únicas notícias que recebiam eram as fornecidas pelo governo, sempre as piores possíveis: a Coluna teria sido dizimada, seus chefes exterminados... Mais de uma vez os jornais do Rio abriram manchetes escandalosas anunciando a morte de Prestes e de seus companheiros.

Leocádia Prestes, mesmo sabendo que a vida do filho corria permanente perigo, nunca perdeu a coragem e a confiança no filho. Jamais alguém a viu chorar. Para que não houvesse dúvidas sobre o seu apoio integral às ideias do filho, ela trazia sempre ao peito, bem visível, um grande medalhão com o retrato dele. Sua firmeza impressionava a todos que a conheciam. Em pouco tempo, sua casa tornou-se a Meca das famílias dos outros revolucionários, que a procuravam em busca de alento e consolo.

Com a suspensão da censura à imprensa, em 1927, os feitos heroicos da Coluna tornaram-se conhecidos do povo brasileiro, comovendo o país. Luiz Carlos Prestes passou a ser considerado herói nacional – o Cavaleiro da Esperança – e Leocádia Prestes era a Mãe de todos os brasileiros. Sua modesta casa de subúrbio fervilhava de amigos, admiradores e políticos de todos os matizes.

Em 1930, um grupo de políticos, encabeçado por Getúlio Vargas, aproveitando o prestígio de Luiz Carlos Prestes e do movimento Tenentista, organizou um golpe de Estado. Os tenentes, antigos participantes da Coluna, deixaram-se iludir e aderiram em massa ao Movimento de 30. Luiz Carlos Prestes, convidado, recusou-se a participar, por considerar que o Movimento não traria nenhum benefício ao povo brasileiro. Em maio de 1930, lançou um manifesto, denunciando o golpe que se preparava e pregando uma revolução verdadeiramente popular, agrária e anti-imperialista. O manifesto, qualificado de comunista, caiu no Brasil como uma bomba. Como num passe de mágica, todos os admiradores e políticos abandonaram a casa de Leocádia Prestes. Em público, viravam-lhe as costas. Ela reagia com altivez, reiterando a sua solidariedade ao filho querido.

Meses mais tarde, convencida de que o filho não poderia retornar ao Brasil tão cedo, ela, mais uma vez, demonstrou toda sua coragem: licenciou-se do emprego, liquidou a casa e, acompanhada das quatro filhas, partiu para a Argentina, para ficar ao lado do filho. Iniciava-se, então, um longo exílio do qual ela não retornaria à pátria.

Em Buenos Aires, onde se radicaram, a vida foi extremamente difícil. Com a crise dos anos 30, era impossível conseguir trabalho. Poucos dias após a chegada da família, Prestes foi preso, ameaçado pela polícia argentina, sendo obrigado a asilar-se em Montevidéu. Com isso, perdeu o emprego. Leocádia Prestes permaneceu em Buenos Aires, com as filhas, lutando como podiam para sobreviverem. Foi nesse período que elas e as filhas se aproximam do marxismo.

Em 1931, Luiz Carlos Prestes foi convidado pelo governo soviético para trabalhar como engenheiro no Primeiro Plano Quinquenal. Sua família, mais uma vez, não vacilou em acompanhá-lo, decidindo seguir com ele para a União Soviética. Às pessoas que se surpreenderiam com a sua decisão, Leocádia Prestes dizia: “se meu filho seguiu este caminho, este é o caminho certo”.

Contudo, seu primeiro contato com a sociedade socialista não foi fácil. Arrasada por duas guerras, a União Soviética atravessava enormes dificuldades. Faltava tudo. Para uma senhora de quase sessenta anos, de origem aristocrática e que havia passado toda a sua vida sob outro regime, a realidade soviética suscitava muitas dúvidas. Seu espírito de justiça, porém, ajudou-a a superar as incompreensões. Pouco a pouco, ela foi compreendendo a causa das dificuldades e a grandeza da luta e dos sacrifícios do povo soviético. O entusiasmo do povo a contagiava. Muito contribuiu também para a sua formação política o processo de Leipzig, em 1934, contra o revolucionário búlgaro George Dimitrov, cuja firmeza revolucionária perante o tribunal nazista a impressionou profundamente. Aos sessenta anos de idade, ela aderia, conscientemente, às ideias marxistas.

Em agosto de 1934, Luiz Carlos Prestes foi finalmente aceito no Partido Comunista, terminando assim sua longa e penosa trajetória do tenentismo ao marxismo. E, a 29 de dezembro do mesmo ano, partia para o Brasil, para a luta clandestina.

Iniciou-se, então, para Leocádia Prestes, um longo período de grande sofrimento. Se, por um lado, apoiava integralmente o caminho seguido pelo filho, por outro lado, só a ideia de perdê-lo a fazia sofrer intensamente. Ela não duvidava de que, se o filho fosse preso, seria morto. Contudo, procurava manter-se firme. Foi nessa época que, buscando uma forma de participar da luta, resolveu aprender datilografia a fim de ajudar na cópia e tradução de documentos.

Em 5 de março de 1936, Luiz Carlos Prestes foi preso no Rio de Janeiro, junto com sua companheira Olga Benário. Graças à coragem de Olga, que o protegeu com seu corpo, não conseguiram matá-lo no ato da prisão. Mas a sua vida corria perigo iminente. A qualquer momento, poderiam “suicidá-lo” na prisão, como era costume na época. Foi decidido, então, levantar uma campanha internacional em defesa da vida de Prestes e de todos os presos no Brasil. E Leocádia Prestes foi escolhida para encabeçar essa campanha.

Aquela foi a sua primeira missão política. Tarefa difícil para uma senhora de sessenta e dois anos que havia sido, até então, apenas mãe de família e, quando muito, professora de subúrbio. Contudo, ela não desanimou. Acompanhada de sua filha Lygia, partiu de Moscou, em fins de março de 1936, dando início à campanha.

Foram vários anos de árduo trabalho. Eram comícios, conferências de imprensa, visitas a jornais e sindicatos, a partidos políticos, parlamentos ou a chefes de governos. Viagens frequentes e demoradas. Era um trabalho extenuante para uma pessoa de sua idade.

Com sua filha, ela percorreu os principais países europeus, denunciando o terror desencadeado no Brasil, o perigo de morte para os presos políticos e pedindo solidariedade e apoio para a sua luta. Em pouco tempo, a campanha se estendeu aos outros continentes. Comitês de defesa de Prestes foram criados nos Estados Unidos, na América Latina, na Austrália e na Nova Zelândia. Do mundo inteiro, o governo brasileiro era bombardeado com milhares de cartas, telegramas de protesto, manifestos de toda a sorte, exigindo a libertação de Prestes e de seus companheiros ou, pelo menos, o respeito às suas vidas.

Em fins de 1936, com a extradição de Olga Benário para a Alemanha nazista, a campanha se duplica. Surge uma campanha paralela, destinada a salvar a vida de Olga e do bebê que estava para nascer. Leocádia Prestes e sua filha vão a Genebra pedir a ajuda da Sociedade das Nações e da Cruz Vermelha Internacional. Graças às gestões, foi possível receber, já em 1937, algumas notícias de Olga e de sua filhinha, Anita Leocádia, nascida em 27 de novembro de 1936.

Três vezes Leocádia Prestes foi com sua filha à Alemanha, enfrentar a Gestapo e exigir a libertação de Olga e da criança.

Delegações de vários países foram também a Berlim, com o mesmo objetivo. Malgrado todos os esforços, não foi possível salvar Olga. O mais que se obteve foi a libertação da pequena Anita Leocádia, em janeiro de 1938, e a vaga promessa da Gestapo de que Olga seria libertada um pouco mais adiante. Ao contrário disso, Olga foi enviada a um campo de concentração, em Ravensbrück, e assassinada em abril de 1942.
Ante a iminência da guerra, Leocádia Prestes vê-se forçada a deixar a Europa. Com a filha e a neta, parte para o México, cujo presidente, General Lázaro Cárdenas, concedera-lhes asilo. Foi um golpe muito duro, pois ela bem compreendia que a mudança para o México tornaria muito mais difícil qualquer ajuda à nora querida.

No México, a campanha prosseguiu, já então limitada às Américas, pois o resto do mundo estava convulsionado pela guerra. Com a guerra, Leocádia Prestes perde o contato com Olga e também com as outras filhas que haviam ficado em Moscou. Além da sorte do filho, na prisão, preocupa-a agora também a situação dos seus outros entes queridos, ameaçados pelas bombas nazistas. Contudo, a coragem e a fé na vitória final não a abandonaram jamais. Quando as hordas nazistas avançavam pela União Soviética, ela costumava dizer aos amigos assustados: “Vocês não conhecem aquele povo! Quem passou tantas privações e sofrimentos para construir o socialismo em seu país, não vai fraquejar agora. Eles são invencíveis!”

Leocádia Prestes não teve a alegria de assistir à vitória final dos povos sobre o nazismo nem a libertação dos presos políticos, no Brasil, em 1945. Após longa e penosa enfermidade, ela veio a falecer no México, no dia 14 de junho de 1943.

Sua morte comoveu o povo mexicano, que a admirava muito. Ao velório, no salão nobre do Sindicato dos Empregados em Hotéis, no centro da cidade do México, compareceram milhares de pessoas, inclusive numerosos estrangeiros, fugidos do nazismo e também asilados no México. Todos os ministros de Estado estiveram presentes, com seus auxiliares , a começar pelo general Cárdenas, na época Ministro da Defesa, no Governo de Ávila Camacho. O general Cárdenas tomou a iniciativa de dirigir-se pessoalmente a Getúlio Vargas, pedindo-lhe que permitisse a Prestes vir ao México despedir-se de sua mãe. Propunha enviar um avião militar mexicano para trazer o prisioneiro e oferecia-se, inclusive, como refém, como garantia de que Prestes voltaria à prisão. Getúlio sequer respondeu. Quatro dias e quatro noites o povo aguardou a resposta, em respeitosa vigília.

No dia 18 de junho de 1943, realizou-se o enterro, que se transformou em uma verdadeira manifestação popular. O cortejo atravessou toda a cidade a pé, até as colinas de Tacubaya, onde ficava o cemitério. O caixão, coberto pela bandeira brasileira, foi levado em ombros e cercado por uma guarda de honra que levava as bandeiras de todas as Nações Unidas que, naquele momento, travavam a luta contra o nazismo. À beira da sepultura, vários oradores se fizeram ouvir, inclusive representantes de outros países latino-americanos, como Cuba, Uruguai, Chile e, também, de países europeus, principalmente alemães e espanhóis. O grande poeta chileno Pablo Neruda leu o seu Poema Dura Elegia, escrito especialmente para aquele triste momento, no qual ele define a importância da vida de Leocádia Prestes com estas singelas palavras: “Señora, hiciste grande, más grande, a nuestra América...”.

Extraído de: PCB: 80 anos de luta. H. ROEDEL, AQUINO, F. VIEIRA, L. B. NAEGELI, L. MARTINS. Rio de Janeiro, Fundação Dinarco Reis, 2002.
Leia também o poema de Pablo Neruda em homenagem a Leocádia Prestes

terça-feira, 8 de março de 2011

Origens do Dia Internacional da Mulher

ADRIANA JACOB CARNEIRO

A origem do Dia Internacional da Mulher, data significativa na luta pelos direitos das mulheres, vem sendo distorcida no Brasil e em diversos países. Na cobertura midiática, o dia 8 de março é associado a um incêndio que teria acontecido em 1857 em Nova York e provocado a morte de 129 trabalhadoras têxteis. Elas teriam sido queimadas como punição por um protesto por melhores condições de trabalho.
É importante destacar que houve, de fato, um incêndio, só que em 25 de março de 1911 e de forma diferente da narrada pela imprensa.
As chamas começaram quando um trabalhador acendeu um cigarro perto de um monte de tecidos e alastraram-se rapidamente. As portas das escadas de incêndio estavam trancadas por fora, para evitar que os funcionários saíssem mais cedo. O saldo foi de 146 vítimas fatais, 13 homens e 123 mulheres.
No edifício, funciona hoje a Faculdade de Química da Universidade de Nova York. O incêndio na Triangle Shirtwaist Company foi importante para a melhoria das condições de segurança de trabalhadores como um todo, e não apenas das mulheres, já que também havia homens entre as vítimas.
Um ano antes, em 1910, durante o 2º Congresso Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhague, a alemã Clara Zetkin propôs que fosse designado um dia para a luta dos direitos das mulheres, sobretudo o direito ao voto.
Ou seja, o Dia Internacional da Mulher já existia antes do incêndio, mas era celebrado em datas variadas a cada ano.
Para compreender a escolha do 8 de março, remontamos ao dia 23 de fevereiro de 1917, 8 de março no calendário gregoriano. Naquela ocasião, as mulheres de Petrogrado, convertidas em chefes de família durante a guerra, saíram às ruas, cansadas da escassez e dos preços altos dos alimentos. No dia seguinte, eram mais de 190 mil.
Apesar da violenta repressão policial do período, os soldados não reagiram: ao contrário, eles se uniram às mulheres.
Aquele protesto espontâneo transformou-se no primeiro momento da Revolução de Outubro. A proposta de perpetuar o 8 de março como Dia Internacional da Mulher foi feita em 1921, em homenagem aos acontecimentos de Petrogrado.
Mas, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, em decorrência dos interesses do poder no período, seu conteúdo emancipatório foi se esvaziando. No fim dos anos 1960, a data foi retomada pela segunda onda do movimento feminista, ficando encoberta sua marca comunista original. Em 1975, a ONU oficializou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.
Para além da distorção dos fatos históricos, um aspecto diferencia fundamentalmente a participação das mulheres nos dois episódios.
No incêndio da Triangle Shirtwaist, a mulher é vítima da opressão dos patrões e do fogo. Já nos protestos de 1917, ocupa uma posição de protagonismo. Encoberto, o fato deixa de mostrar a participação política das mulheres na construção de uma revolução que tem papel importante para a história mundial.

ADRIANA JACOB CARNEIRO, jornalista, é mestranda do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia e pesquisadora em gênero e mídia do grupo Miradas Femininas.

FONTE: Folha de São Paulo, 8 de março de 2011.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Nise da Silveira - Senhora das Imagens

O espetáculo Nise da Silveira - Senhora das Imagens, com Mariana Terra, prorrogou sua temporada até final de março, no Teatro de Arena da Caixa Cultural.

A encenação conta a história de uma das brasileiras mais importantes do século XX. Precursora de métodos alternativos no tratamento psiquiátrico, Dra. Nise (1905-1999) revolucionou a medicina tradicional ao utilizar terapias que abordavam pintura, escultura e modelagem.

O espetáculo apresenta um painel dos acontecimentos marcantes da vida da psiquiatra: a infância em Alagoas; o início de sua formação acadêmica, em Salvador; a chegada ao Rio de Janeiro, em 1927; a amizade com o poeta Manoel Bandeira e o casal Octávio e Laura Brandão; a prisão durante o regime repressor de Getúlio Vargas, em que foi companheira de cela de Olga Benario Prestes, Elisa Ewert, Maria Werneck de Castro, entre outras; o encontro com o psicanalista suíço Carl Gustav Jung; até o reconhecimento internacional do seu trabalho. 

A peça, com texto e direção de Daniel Lobo, narra um drama multimídia, que mistura teatro, música e dança. A coreografia é de Ana Botafogo e a trilha original de João Carlos Assis Brasil, além das participações especiais de Ferreira Gullar, Ednaldo Lucena e Gilray Coutinho (em vídeo) e Carlos Vereza, como a voz do inconsciente.


SERVIÇO:

Nise da Silveira - Senhora das imagens
Duração: 80 minutos
Local: Teatro de Arena da Caixa Cultural, Av. Almirante Barroso, 25, Centro. (Metrô Estação Carioca)
Horário: 19 horas
Classificação etária: 16 anos
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

MST denuncia venda de lotes em Mato Grosso há 15 anos

Por Keka Werneck
do Centro Burnier Fé e Justiça
Publicado no site 24 Horas News


O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) denuncia ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a compra e venda de lotes em assentamentos de Mato Grosso há 15 anos, desde que o Movimento surgiu no Estado. “Até 2005, entregávamos ao Incra o nome de quem vendia e o nome de quem comprava. E o que o Incra fazia? Nada. E o que sobrava para quem denunciava? Risco de morte, risco de agressões e pressão. Por isso, resolvemos mudar isso. Agora, o que o MST faz é cobrar o Incra que fiscalize essa situação. E o Incra continua não fazendo nada”, reclama Antônio Carneiro, da direção do MST em Mato Grosso.

Segundo Carneiro, já é sabido que o Governo Federal não quer mais desapropriar terras. Então, o que tem feito é entrar para dentro de assentamentos e regularizar lotes que foram comprados. “É o Estado legalizando o crime. Sim, porque vender e comprar lotes em assentamentos é crime. E assim caminha a dita Reforma Agrária...” - frisou. De acordo com o MST, essa é a política do “larga pra lá”.

No domingo [13/2], a TV Globo divulgou no programa "Fantástico" a indústria do negócio de terras em Mato Grosso ao revelar que bandos estariam ocupando fazendas e vendendo áreas de assentamento.O Fantástico não ouviu o MST e nenhum outro movimento organizado de luta por Reforma Agrária.

O Faraó, camelos e o Facebook

Por Francisco Carlos Teixeira *



Berlim. Os últimos acontecimentos no Egito, em especial os últimos 18 dias entre 25 de janeiro e 11 de fevereiro colocam por terra algumas teses tradicionais das ciências políticas e da percepção política e social do Mundo Árabe pela opinião pública ocidental. A tese, velha da Guerra Fria, sobre a pretensa “excepcionalidade árabe”, da sua incapacidade para a democracia e, portanto, a aceitação alegre, pelo Ocidente, de todo tipo de ditadura pós-colonial (claro, sendo pró–ocidental). Da mesma forma, a crença na inexistência de uma opinião pública no mundo árabe, explicaria a ausência de democracia. Ambas as teses devem, agora, ser severamente revistas.

O Egito de Hosni Mubarak

O Egito é um país central para o mundo árabe, para os muçulmanos em geral e para o equilíbrio no Oriente Médio e no Mediterrâneo. Os últimos dados confiáveis – já que o censo demográfico, e conseqüentemente o acesso à condição de eleitor, é um dado secreto, só sabido pelas forças de segurança – dão ao país pouco mais de 80 milhões de habitantes, extremamente concentrados no Cairo e na longa e estreita faixa fértil ao longo do Nilo. Isso faz do Egito o país árabe mais populoso do mundo (o país muçulmano mais populoso é a Indonésia, logo seguida do Paquistão, países não-árabes). Ao mesmo tempo a população egípcia é extremamente jovem. Cerca de 33% de todos os egípcios possuem menos 15 anos de idade e a média nacional de idade é de 24 anos.

Temos aqui um primeiro dado que ilumina profundamente a revolta, e a conseqüente revolução, no país: a extrema juventude da população, a maioria nascida quando Mubarak já era o raís – o líder e chefe – do Egito. Estes jovens não são contemporâneos da Guerra dos Seis Dias, em 1967, e da Guerra do Yom Kippur, de 1973, nas quais Hosni Mubarak conquistou suma fama de defensor da pátria. É em verdade uma juventude marcada pela presença da globalização, dos meios eletrônicos e da busca de uma boa carreira profissional e um padrão de vida melhor (a média salarial egípcia está em torno de 100 euros mensais).

Contudo as vantagens param por aí: apenas 71% desta imensa população é alfabetizada, sendo que entre as mulheres apenas 59% delas podem ler e escrever. Tal restrição não decorre, como rapidamente poder-se-ia dizer no Ocidente, do Islã. Muitas mulheres egípcias ocupam postos importantes na universidade, nos hospitais e nas escolas. Trata-se, em verdade, de deficiência do regime.

As reformas falhadas

A economia egípcia depende de uma agricultura tradicional, centrada na produção de algodão, arroz, trigo aos quais se soma a indústria têxtil e a exploração do petróleo, apenas relevante. Contudo o turismo e os direitos decorrentes do trânsito do Canal de Suez geram grande parte da riqueza do país e o fato de serem atividades diretamente controladas pelo Estado são, também, fontes da ampla corrupção e do enriquecimento ilícito da elite mantida pelo regime de Mubarak.

Mubarak buscou, desde a crise de 2008, “abrir” o país aos investimentos e aos capitais estrangeiros, nomeando um ministério de tecnocratas altamente influenciados por um impiedoso neoliberalismo tardio. Os resultados foram catastróficos. O deficit público atingiu 8% do PIB e o desemprego espraiou-se por toda a população, atingido quase 10% da população ativa do país, enquanto a inflação saltava para 12% ao ano. Assim, somava-se à ausência de democracia e a imposição do espetáculo da corrupção das elites, a pobreza crescente das populações. Não é de estranhar que o primeiro egípcio a se imolar contra o regime Mubarak fosse um desempregado.

O Egito é, ainda, um dos mais importantes parceiros na “ajuda” militar dos Estados Unidos, logo abaixo de Israel e pouco antes da Colômbia. A grande parceria entre Estados Unidos e Egito emergiu quando Anwar Al-Sadat (o sucessor de Gamal Abdel Nasser e que governou entre 1970 e 1981) rompeu as tradicionais relações com a então URSS, em 1972, expulsou milhares técnicos e militares russos, e voltou-se para o Ocidente. Em troca de uma política externa “aceitável” para o Ocidente – ou seja, garantia de segurança para Israel, manutenção da liberdade de navegação no Canal de Suez e fechamento do acesso aos palestinos na região de Gaza – os EUA mantêm as FFAA do país em alto nível de desempenho e com o equipamento necessário para dar aos militares egípcios o sentimento de superioridade e segurança no Mundo Árabe.

A elite militar

O país, contudo, gasta 3.4% do seu PIB de U$ 500 bilhões com os militares, que formaram ao longo dos trinta anos de regime Mubarak (1981-2011), uma elite muito acima dos níveis sociais do conjunto da nação. O próprio marechal Mohamed Hussein Tantawi, de 75 anos, que acumulava o ministério da defesa e a chefia das FFAA e agora é o chefe do Conselho Supremo que governa o Egito pós-Mubarak, é parte desta elite gerada sob o regime e que se comportou ao longo dos últimos trinta anos como garantidor do regime.

Mas, a burocracia estatal, em grande parte oriunda do Partido Nacional Democrático (de Mubarak), mereceu bem mais críticas do que as FFAA. O alistamento militar massivo, como uma alternativa para jovens rapazes mal preparados e sem esperanças no mundo profissional, além das histórias de heroísmo na Guerra do Yom Kippur, garantiram grande popularidade aos militares.

A decisão de não reprimir a população revoltada na Praça da Libertação – na verdade uma tarefa transferida para a polícia e os paramilitares - nos dias mais duros da revolta consolidou a popularidades das FFAA. Contudo, o regime inaugurado dia 11 de fevereiro é, em verdade, uma brutal ditadura militar, onde o Conselho Supremo Militar governa por decretos inapeláveis.

A esperança de uma transição pacífica para a democracia é, contudo, real e concreta. A proclamação do Conselho Supremo Militar promete “eleições livres, novo marco constitucional e políticas de ajuda e assistência social para a população”.

O marechal Tantawi (ao lado do chefe dos serviços secretos Omar Suleiman, o vice-presidente nomeado por Mubarak no auge da crise), de 75 anos, o homem forte do novo regime, possui um longo histórico de negociações com os americanos e os israelenses, servindo de garante para o status quo pós-1973 (ano da Guerra do Yom Kippur). Não sem motivos, Tantawi fez contato, logo após assumir o poder no Cairo, com Ehud Barak, ministro da defesa de Israel, para garantir – ao contrário do sentimento popular, claramente pro-palestinos, que nada mudaria na política externa e de defesa do Egito.

A cólera das ruas

Os cientistas e acadêmicos ocidentais, seguidos apressadamente pela mídia, sempre declararam a inexistência de uma “opinião pública” no Mundo Árabe. Mesmo no Egito, onde uma poderosa elite e uma importante classe média bem educada, falante de inglês, possuem raízes profundas, era negada qualquer possibilidade de existência de uma “sociedade civil”.

Claro, que o olhar dirigido pelo Ocidente ao Mundo Árabe era (e ainda é) baseado na sua própria história, nas experiências vividas nas margens do Atlântico Norte, tais como a Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789). Em face do fato de que a história do Egito (bem como da Índia ou da China) não possuírem experiências similares, concluía-se pela impossibilidade da democracia implantar-se nos antigos países “coloniais”.

Assim, o Egito (e os demais países não-europeus) estaria condenado a viver regimes autoritários, a única forma de garantir a ordem e o progresso em face de massas atrasadas e, normalmente, fanatizadas pelo Islã ou outra religião não cristã.

Assim, o próprio conceito de “opinião pública” foi, para os analistas ocidentais, substituído pela idéia de “rua árabe”. Apenas a rua, as praças e o bazar seriam locais de reunião e de troca de opinião, em substituição precária e esporádica da noção ocidental de “opinião pública”. A “rua árabe” funcionava ora como espaço amedrontado do murmúrio, ora como o local de explosões violentas e sem direção. As redes tradicionais de sociabilidade árabes – como as mesquitas, os cafés e a ampla rede de instituições de ensino e, no caso egípcio, a Universidade de Al-Azhar, além da sociabilidade profunda nos locais de trabalho – nunca mereceram a necessária apreciação. Assim, criava-se a noção de uma “excepcionalidade árabe”, uma espécie de beco sem saída político, onde a escolha seria entre regimes autoritários capazes de controlar a multidão feroz ou o caos fanatizado das massas.

Camelos e Facebooks

O processo em curso no Egito – depois da experiência na Tunísia – mostra outra realidade, mais complexa e nuançada, onde a ciência política ocidental, e a percepção leiga, não foram capazes de entender os elementos constitutivos mais importantes.

Não só a população urbana dos grandes centros mostrou-se capaz de ampla mobilização – foi assim em Túnis, no Cairo ou Alexandria e aponta para ser em Argel e em Sanaa – como ainda foi capaz de fazê-lo sem apelo à violência endêmica e a xenofobia ou, o que se dizia acontecer, cair em mãos do islamismo radical. A surpresa adveio, assim, do conhecimento superficial do Mundo Árabe e, ao mesmo tempo, dos preconceitos ocidentais.

De forma muito apressada, a mídia ocidental – saturada de sua própria tecnologia e idolatrando produções como “Rede Social” – denominou o movimento de rebeldia como uma “Facebook Revolution”, dada a relevância, concreta, dos meios eletrônicos na dispersão das ideias de revolta. Ainda aqui, mais uma vez, as redes tradicionais de sociabilidade árabes, as formas de comunicação diárias nas escolas, mesquitas, nos cafés e no trabalho, são ignoradas em favor de uma percepção tecnologizante e ocidentalizada.

A piada do “Le Monde” mostrando um Mubarak atento à explicação do que é Facebook pelo seu camelo no caminho do exílio para Sharm el-Sheik é boa, mas é só uma piada.

As revoluções sempre ocorreram na história onde a repressão política e o mal-estar econômico e social perduraram sobre as populações. A revolução Russa (1917) ou a longa Revolução Chinesa (até 1949), bem como a Luta pelas Diretas Já, na redemocratização do Brasil, por exemplo, não foram produtos – e nem o poderiam ser – da Internet (ou mesmo do rádio ou da televisão). Havia, ontem como hoje, redes de sociabilização do protesto e da resistência, e a Internet pode ser um ótimo meio para a divulgação de novas (e velhas) ideias. Mas, a Internet não pode ser considerada a causa das revoluções.

Estaríamos, neste caso, em face de um novo preconceito, agora explicando a história das revoluções através de tecnologias recentíssimas. Seria apenas mais uma forma de etnocentrismo.

Uma revolução moderna

Um outro preconceito aceito sem debates no Ocidente é a certeza que os movimentos sociais no Mundo Árabe, quando movimentos de massa, são sempre islâmicos radicais. O que vemos hoje – apesar do claro processo de re-islamização das sociedades árabes pós-coloniais – é uma explosão de ideais e projetos de futuro em busca de uma vida melhor, adequando islamismo e bem-estar social. A “onda islamizante” já passou. Os jovens que protestam no Cairo são irmãos daqueles que protestam em terão contra a ditadura dos aiatolás.

A geração islamistas radical não está no Cairo e sim em Kandahar.

É bem verdade que tais preconceitos são sempre favoráveis aos interesses ocidentais. A crença arraigada na impossibilidade de uma democracia árabe, ou muçulmana, servia à perfeição para justificar o apoio ocidental aos regimes repressivos mais cruéis e abusivos existentes no mundo em face de um hipotético risco de ascensão do caos e fanatismo. Assim, a Europa comunitária (CE), pretensa pátria da democracia, manteve até bem tarde calada em face das revoluções em Túnis e no Cairo. Em Munique, na reunião anual sobre segurança e defesa, o chefe da OTAN – a aliança militar ocidental – apontou para as mudanças políticas no Mediterrâneo como a causa imperiosa para o aumento dos gastos militares.

Por sua vez, Israel – “a única democracia do Oriente Médio” – não só lamentou a revolta egípcia, como ainda desenvolveu sérias gestões junto a Washington visando demover o Presidente Obama em seu apoio aos militantes da Praça da Libertação no Cairo. Para o premier Netaniahu a segurança de Israel não se adéqua com a democracia no Oriente Médio.

Os espetaculares acontecimentos em Túnis e no Cairo abrem caminho para o debate série e não mais eivado de etnocentrismo sobre os diversos caminhos, autônomos, em direção a uma democracia sólida e humanitária. A preeminência ocidental, a modelagem única baseada na história desta pequena e hoje cada vez mais pobre península da Eurásia, não seria mais modelo obrigatório para todos.

A conciliação entre Islã e democracia, lançando por terra prateleiras inteiras de “saber ocidental”, encontra-se hoje, no Cairo, com seu próprio destino. Conforme a proclamação do Conselho Supremo do Egito busca-se a construção de um sistema “em que a liberdade do ser humano, o império da lei, a fé no valor da igualdade, a democracia plural, a justiça social e a erradicação da corrupção constituam as bases da legitimidade de qualquer sistema de governo que dirija o país”.
Palavras. Mas, são palavras que vieram de 18 dias de revolta e luta e custaram até o momento 300 mortos.

(*) Professor Visitante da Universidade Técnica de Berlim
Francisco Carlos Teixeira é professor Titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A fonte do mal

"A anarquia econômica da sociedade capitalista tal como existe hoje é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal" (Albert Einstein) 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Brasil en la Casa en la Feria

 El programa de la Casa en la Feria se inició este viernes con el panel Brasil en la Casa en el cual fueron presentados los títulos más recientes de autores brasileños en el catálogo de la institución. Entre ellos sobresale La columna Prestes, de Anita Leocadia Prestes, Premio Casa 1990, y cuyo lanzamiento contó con la presencia de la autora


Anita Leocadia Prestes, autora de La columna Prestes, Premio Casa 1990, sostuvo un diálogo con los asistentes a la actividad inaugural de la Casa en la Feria, en el cual relató su experiencia en la escritura del volumen y brindó un significativo testimonio de uno de los pasajes históricos más relevantes de Brasil en el siglo XX.

También asistió el Excmo. Señor Embajador de la República Federativa de Brasil en Cuba, José Eduardo Martins Felicio, quien agradeció la labor de difusión de la literatura brasileña que realiza la Casa con más de sesenta títulos publicados desde su fundación. Uno de ellos, Memorias póstumas de Blas Cubas, de Machado de Assis, inició la producción editorial de la Casa en los tempranos sesenta. El señor Martins Felicio recordó las primeras traducciones del importante escritor brasileño se hicieron en Uruguay y en Cuba.

Por su parte, Anita Prestes explicó que el libro fue en principio una tesis discutida en 1989, luego convertido en libro. El libro, que ya ha sido editado en Brasil, debido a un complejo proceso de labor editorial, ve la luz por primera vez en esta Feria.

El volumen refleja, resultado de una acuciosa investigación, la marcha que durante dos años estremeció a Brasil, liderada por Luis Carlos Prestes en Rio Grande do Sul. La autora se valió de documentos, fotografías y testimonios de algunos participantes y de sus hijos, así como de moradores de las regiones por donde atravesó la columna.

Anita, en su alocución, también fue desmontando el escenario sociopolítico en el cual surgió el movimiento del “tenientismo”, y cómo fue evolucionando a tomar una conciencia social y política mucho mayor hasta desembocar en el gran levantamiento de Rio Grande en 1924. Igualmente, la autora destacó el papel de la mujer en la Columna, así como la capacidad de este hecho para visibilizar el problema del campesinado, su organización social y que la solución al conflicto de la tierra era mucho más complejo.

Todo ello contribuyó a desbalancear la república oligárquica tan acendrada hacia el interior de la sociedad brasileña. Luego, obligado a exiliarse, Prestes se encuentra con el pensamiento marxista. Anita subrayó el interés creciente en la vida y obra política de Prestes por los jóvenes en Brasil. “Esta edición de la Casa ayudará también a que ese interés aumente”.

Piada de salão


É falso que exista uma luta de classes. Porque os pobres não tem classe alguma.
(Isso é o que os donos do poder estão sempre a incutir na mente das pessoas)

Defendendo a ciência

Por MARCELO GLEISER

Parece notícia velha, mas a ciência e o ensino da ciência continuam sob ataque. Por exemplo, uma busca na internet com as palavras "criacionismo", "escolas" e "Brasil" leva ao portal http://www.brasilescola.com/. Lá, há um texto, de Rainer Sousa, da Equipe Brasil Escola, que discute a origem do homem.

O autor afirma que o assunto é "um amplo debate, no qual filosofia, religião e ciência entram em cena para construir diferentes concepções sobre a existência da vida".

No final, diz: "sendo um tema polêmico e inacabado, a origem do homem ainda será uma questão capaz de se desdobrar em outros debates. Cabe a cada um adotar, por critérios pessoais, a corrente explicativa que lhe parece plausível".

"Critérios pessoais" para decidir sobre a origem do homem? A religião como "corrente explicativa" sobre um tema científico, amplamente discutido e comprovado, dos fósseis à análise genética?

Como é possível essa afirmação de um educador, em pleno século 21, num portal que leva o nome do nosso país e se dedica ao ensino?

Existem inúmeros exemplos da tentativa, às vezes vitoriosa, da infiltração de noções criacionistas no currículo escolar. Claro, se o criacionismo fosse estudado como fenômeno cultural, não haveria qualquer problema. Mas alçá-lo ao nível de teoria científica deturpa o sentido do que é ciência e de seu ensino.

Um país que não sabe o que é ciência está condenado a retornar ao obscurantismo medieval. Enquanto outros países estão trabalhando para educar seus jovens sobre a importância da ciência, aqui vemos uma corrente contrária, que parece não perceber que a ciência e as suas aplicações tecnológicas determinam, em grande parte, o sucesso de uma nação.

Muitos dirão que são contra a ciência apenas quando ela vai de encontro à fé. Tomam antibióticos, mas rejeitam a teoria da evolução.

Se soubessem que o uso de antibióticos, que aumenta as chances de que os germes criem imunidade por mutações genéticas, é uma ilustração concreta da teoria da evolução, talvez mudassem de ideia. Ou não. Nem o melhor professor pode ensinar quem não quer aprender.

Os cientistas precisam se engajar mais e em maior número na causa da educação do público em geral.

Mas devemos ter cuidado em como apresentar a ciência, sem fazê-la dona da verdade. Devemos celebrar os seus feitos, mas ser francos sobre suas limitações e desafios (a teoria da evolução não é um deles!) Não devemos usar a ciência como arma contra a religião, pois estaríamos transformando-a numa religião também. Achados científicos são postos em dúvida e teorias "aceitas" são suplantadas.

Bem melhor é explicar que a ciência cria conhecimento por meio de um processo de tentativa e erro, baseado na verificação constante por grupos distintos que realizam experimentos para comprovar ou não as várias hipóteses propostas.

Teorias surgem quando as existentes não explicam novas descobertas. Existe drama e beleza nessa empreitada, na luta para compreender o mundo em que vivemos. Ignorar o que já sabemos é denegrir a história da civilização. O problema não é não saber. O problema é não querer saber. É aí que ignorância vira tragédia.
--------------------------------------------------------------------------------

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"


FONTE: Folha de São Paulo, 13 de fevereiro de 2011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Salve 12 de fevereiro de 2011!!!


http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=170:olga-benario-prestes-um-exemplo-para-os-jovens-de-hoje

Anita Leocadia Prestes chega à Casa de las Américas com doações para a biblioteca da instituição

A presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes, Anita Leocadia Prestes, participou na última sexta-feira, dia 11/2, às 14 horas, como convidada especial do evento "Brasil en la Casa", dedicado à literatura brasileira, uma das atividades da Casa de las Américas na XX Feira Internacional do Livro Cuba 2011. Na ocasião, aconteceu o lançamento do seu livro La Columna Prestes, vencedor do Prêmio Casa de las Américas em 1990.

Livros e documentos foram doados por Anita Prestes para o acervo da Biblioteca da Casa de las Américas, fornecendo informações valiosas sobre a história do Brasil e de seus pais, Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes.

Anita palestrou por cerca de uma hora sobre a história de seus pais, sua contribuição para os ideais da esquerda brasileira e os esforços em andamento para resgatar essa memória através do Instituto Luiz Carlos Prestes (http://www.ilcp.org.br/), o qual preside.

Entre os livros doados, está Anos tormentosos: Luiz Carlos Prestes: correspondência da prisão (1936-1945). Trata-se de um conjunto de três volumes da correspondência ativa e passiva de Prestes durante seu cárcere (cerca de 900 cartas), organizado pela própria Anita e por Lygia Prestes, irmã do revolucionário brasileiro.  Anita também doou o livro Uma Epopeia Brasileira: a Coluna Prestes, uma versão resumida do presente livro publicado em Cuba, cujo objetivo é divulgar a história de Luiz Carlos Prestes entre as gerações mais jovens do Brasil. Também foram doados, todos de autoria de Anita Prestes, os seguintes exemplares: Os comunistas brasileiros (1945-1956/58): Luiz Carlos e a política do PCB; Os militares e a Reação Republicana; Luiz Carlos Prestes e a Aliança Nacional Libertadora; Luiz Carlos Prestes: patriota, revolucionário, comunista.


FONTES:
http://laventana.casa.cult.cu/modules.php?name=News&file=article&sid=5982

http://www.casadelasamericas.com/ferialibro/feria2011/index.html

Revolucionária sem perder a ternura

Camarada Olga Benario, presente!!! Hoje e Sempre!!!


Em 12 de fevereiro de 1908, nascia uma grande revolucionária, que até o fim de sua vida lutou pelo que considerava justo, bom e o melhor do mundo, ou seja, uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem, uma sociedade comunista.

 A grandeza dos sentimentos humanos, a firmeza inabalável de caráter e a convicção profunda na justeza de seus ideais revolucionários transparecem na última carta de Olga Benario Prestes escrita ao marido Luiz Carlos Prestes, e à filha, Anita Leocadia Prestes, no campo de concentração de Ravensbrück, antes de ser conduzida à morte em uma câmara de gás no campo de concentração de Bernburg, em abril de 1942.


CLIQUE SOBRE A CARTA PARA AMPLIAR O TAMANHO DA LETRA

Olga Benário Prestes e Luiz Carlos Prestes, meus pais

Por Anita Leocadia Prestes

Tive o privilégio de ser filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes, duas pessoas extraordinárias, que deram suas vidas por uma causa nobre. Dois combatentes revolucionários que se dedicaram inteiramente à luta por justiça social, por liberdade, pelo socialismo e por um futuro melhor para a humanidade.

Olga, grávida de sete meses, foi deportada para a Alemanha nazista pelo governo Getúlio Vargas, em setembro de 1936. Companheira dedicada de Luiz Carlos Prestes, meu pai, a quem salvara a vida de ambos quando foram presos, pela polícia de Filinto Muller, em 54 de março daquele ano, no subúrbio carioca do Méier. na ocasião, ela se interpusera corajosamente entre os policiais e o marido, impedindo seu assassinato.

A deportação de Olga Benário Prestes e Elise Ewert – ambas militantes comunistas alemãs – foi um gesto de boa vontade de Vargas em relação a Hitler, expressando a aproximação então em curso entre os dois governos. Foi também vingança e castigo cruel impostos ao grande inimigo do regime varguista – Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” para tantos brasileiros.

Olga e Elise viajaram ilegalmente, sem culpa formada, sem julgamento nem defesa. Na calada da noite foram embarcadas no navio cargueiro La Coruña, que partiu rumo a Hamburgo com ordens expressas de não parar em nenhum outro porto estrangeiro, pois havia precedentes de os portuários franceses e espanhóis resgatarem prisioneiros deportados para a Alemanha.

Minha mãe ficou presa incomunicável na prisão de mulheres Barminstrasse (Berlim), onde nasci, em novembro de 1936. Como resultado de importante e vigorosa campanha internacional pela libertação de Prestes e dos presos políticos no Brasil, assim como de Olga e de sua filha, fui entregue pela Gestapo à minha avó paterna – Leocadia Prestes – mulher valente e decidida, que encabeçava a campanha.

Quando me separaram de minha mãe contava com apenas 14 meses de idade. Não pude, portanto guardar nenhuma lembrança dela. Logo depois, Olga seria transferida para outra prisão, em condições muito piores, e mais tarde para o campo de concentração de Ravensbruck. Em abril de 1942, era assassinada numa câmara de gás no campo de Bernburg.

A tragédia que atingiu meus pais marcou minha vida. De que maneira? Poderia ter me tornado uma pessoa amargurada e decrescente da humanidade, convencida de sua maldade intrínseca. Ou poderia ter me levado a pensar que os homens, embora em sua maioria não sejam maus, facilmente se deixam arrastar pela maldade de alguns. sendo assim, não haveria por que acreditar no progresso da humanidade, não existiriam razões para qualquer otimismo em relação ao seu futuro.

Cresci e fui educada no seio de uma família comunista – a família de meu pai, que só pude conhecer em 1945, quando ele, após nove anos de prisão, num isolamento quase total, afinal foi libertado. Minha avó Leocadia, minha tia Lygia, que acabou sendo minha segunda mãe, meu próprio pai, minhas outras tias conduziram-me por outro caminho.

Desde a mais tenra idade, foi-me mostrado o exemplo de meus pais – dois revolucionários comunistas que passaram por indescritíveis sofrimentos em nome da causa maior, a causa da emancipação da humanidade da exploração do homem pelo homem. ou seja, nas palavras de Karl Marx, lutavam para que a humanidade ultrapassasse sua pré-história, ingressando na verdadeira história, fase em que seriam superadas as injustiças e desigualdades sociais, em que não mais existiria a alienação dos homens.

Desde cedo, aprendi com a vida de meus pais, com o exemplo de minha avó e, em especial com a martírio de Olga, que vale a pena lutar por um mundo melhor para toda a humanidade. Aprendi que não devemos compactuar a com a injustiça, que é necessário lutar contra ela e que, apesar de todas as dificuldades, das derrotas e sofrimentos, dos erros e dos fracassos, a humanidade caminha para a frente, e os homens encontram maneiras de aperfeiçoar seus modos de viver.

Hoje, na qualidade de historiadora que sou, entendo que esses ensinamentos recebidos na infância são verdadeiros: a história da humanidade nos mostra que o progresso é a tendência geral das sociedades humanas, embora se realize através de múltiplos e imprevisíveis retrocessos momentâneos, que por vezes podem lutar muito, levando em conta o quanto a vida humana é efêmera.

Em suas cartas enviadas do cárcere, meu pai revela a preocupação de que eu soubesse de que ele nem Olga se sentiam infelizes com a sorte que o destino lhes reservara. Pelo contrário, apesar dos sofrimentos, apesar da imensa tristeza de se encontrarem separados um do outro, longe da filha e dos que mais amavam, consideravam-se felizes por terem consciência do dever cumprido. E nisso, para eles, consistia a mais completa felicidade.

Da mesma forma, minha mãe, nas poucas cartas que conseguiu mandar do cativeiro, expressava o desejo de que eu fosse uma criança feliz e alegre, orgulhosa de meus pais se terem empenhado na luta por um mundo melhor, sem queixas nem arrependimentos. Seu sacrifício não era maior do que o de milhões de outros seres humanos que, naquele momento, enfrentavam os horrores da noite fascista que se abatera sobre a nossa civilização.

Havia, contudo, uma diferença importante. meus pais, distintamente de milhões de inocentes que sofriam e morriam sem conhecer as causas de tamanha desgraça, tinham consciência do fenômeno fascista e do seu perigo para a humanidade. Por isso, haviam lutado contra ele com todas as suas energias. derrotados, arcavam com as conseqüências de seu gesto. Mantinham-se, porém, confiantes de que o fascismo e sua variante alemã – o nazismo – seriam vencidos, como de fato se verificou, com a derrota dos países do eixo, no final da segunda guerra mundial.

Sua confiança decorria da profunda convicção científica que ambos haviam adquirido ao estudar o marxismo e ao travar conhecimento com a experiência pioneira de construção de uma sociedade socialista na União Soviética. A teoria marxista do socialismo científico lhes permitia compreender que o fascismo não podia ser explicado pela loucura de um homem ou pelas tradições autoritárias ou militaristas de algumas sociedades.

O fenômeno fascista expressava basicamente a crise que o sistema capitalista atravessava nos anos 30, representava a resposta do grande capital ao avanço do movimento operário em países como a Itália e a Alemanha.

A construção do socialismo na URSS lhes mostrava a superioridade desse sistema social em comparação o capitalista. Apesar de imensas dificuldades enfrentadas pelo povo soviético, sitiado pelas potências imperialistas, as grandes conquistas do socialismo já eram visíveis através da realização concreta dos direitos sociais alcançados pelos trabalhadores. Nenhum país capitalista fora capaz de resolver como em poucos anos fizera o primeiro país socialista.

Naqueles anos terríveis, quando o fascismo tomava conta da Europa e a guerra revelava toda a sua crueldade, poucos acreditavam na possibilidade de sua derrota. Posso orgulhar-me de que minha família – meus pais, minha avó Leocadia, minhas tias, conhecedora da fibra do povo soviético, jamais tenha duvidado de sua vitória no grande conflito que sacudiu o mundo.
Essa confiança, aliada à compreensão do caráter profundamente retrógrado do fascismo, que o condenava, portanto, ao desaparecimento, permitiram aos meus pais resistir, com firmeza e sem perder as esperanças, às terríveis provações a que foram submetidos durante aqueles anos tormentosos.

Segundo os testemunhos de companheiras do campo de concentração, Olga jamais se entregou ao desespero nem ao conformismo, lutou até o último momento de sua curta vida, infundindo coragem e confiança no futuro em todos aqueles que a rodeavam. Meu pai saiu da prisão para a luta; seu objetivo jamais foi a vingança, mas a conquista de um futuro melhor para o nosso povo e para a humanidade. Foi a esta causa generosa que ele dedicou o restante de sua vida.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Clementina de Jesus (1901-1987): o elo perdido entre a nossa ancestralidade africana e o samba brasileiro

110 anos de nossa Mãe Quelé
Assista aos vídeos:

Clementina de Jesus - "Yaô" (1976)

Clementina de Jesus - "Marinheiro Só" (1982)

Clementina de Jesus - "Menininha do Gantois" (1982) 

Clementina de Jesus - "Ensaboa" (1977)

Tetê Espíndola e Clementina de Jesus

Salve Clementina!

“Uma grande lição que não pode ser esquecida: é a alegre coragem de viver do povo”

Em homenagem aos 110 anos de nascimento de Clementina de Jesus (7/02/1901 a 19/07/1987) trazemos o inspirado texto de José Ramos Tinhorão (que também aniversaria em 7 de fevereiro) sobre o disco de Clementina lançado em 1979. Em meio a lixos culturais da época – o autor, em seu laborioso ofício de dar foco, de destacar o melhor da criação musical do nosso povo realça no texto, com poesia e concisão, o clima de felizes conjunções alcançadas na elaboração do disco e lapida as características eternas daquela artista popular.


“Clementina” é uma festa onde se eleva uma voz que canta para a eternidade [*]

Por José Ramos Tinhorão

A caminho dos 78 anos, a grande cantora brasileira Clementina de Jesus pode ser ouvida novamente em um LP que, tendo por título apenas o seu nome Clementina (odeon 064 422 846), resume na demonstração de vitalidade da intérprete e no simbolismo da capa idealizada por Elifas Andreato uma grande lição que não pode ser esquecida: é a alegre coragem de viver do povo que precisamos imitar, e são as pegadas de seus melhores artistas que devemos seguir.

De fato, para significar o que representa no panorama da música popular brasileira a velha Clementina (que pode estar tendo neste trabalho o seu último disco, tal o desgaste que demonstra, após quase seis anos de uma trombose violenta), Elifas desenhou apenas o sulco de um pé sobre o chão de terra, entre duas folhas caídas, amarelas de outono, mas ao lado das quais brilham outras folhinhas novas, irrompendo da terra em verde renascer.

Não poderia ser mais feliz o artista Elifas Andreato com sua imagem, nem o produtor Fernando Faro ao criar para a gravação de Clementina de Jesus um clima de festa, de ritmo solto e de alegria. E isso porque é realmente como um sinal de futuro e um guia para o caminho que a voz da artista soa no disco: a velha Clementina não é uma cantora comum lançando o seu canto de cisne no ocaso da vida e da carreira, mas a antiga pastorinha dos Natais do início do século em Jacarepaguá, ensinando às meninas de hoje o canto eterno do povo.

Para este disco desde o início tão lindo pelo significado, o produtor convocou em nome da amizade e da admiração por Clementina não apenas alguns dos grandes nomes da música ligados de alguma maneira às fontes populares – Dona Ivone Lara, Matinho da Vila, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Cristina Buarque e João Bosco – mas também um grupo de músicos que, com Dino e César Faria à frente, nos violões, e gente como Jorginho do pandeiro e Luna e Eliseu no ritmo, são capazes de transformar a música de samba numa festa que faz som de discoteca parecer música de procissão.

O resultado de tudo isso é que o LP Clementina, longe de merecer apenas atenção como o derradeiro documento registrando o canto de uma velha artista que se despede, faz Clementina de Jesus renascer em seu canto glorioso como uma rainha carregada em um andor, vozes dos que se juntaram para entoar com ela, em coro, o hino de sua eternidade.


[*] Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, sábado, 29/9/1979, página 2

Extraído do livro “Tinhorão – O Legendário” de Elizabeth Lorenzotti, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.

***


Discografia de Clementina de Jesus


Discos-solo


• 1966 - Clementina de Jesus (Odeon MOFB 3463)

• 1970 - Clementina, cadê você? (MIS 013)

• 1973 - Marinheiro Só (Odeon SMOFB 3087)

• 1976 - Clementina de Jesus - convidado especial: Carlos Cachaça (EMI-Odeon SMOFB 3899)

• 1979 - Clementina e convidados (EMI-Odeon 064 422846)


Participações



• 1965 - Rosa de Ouro - Clementina de Jesus, Araci Cortes e Conjunto Rosa de Ouro (Odeon MOFB 3430)

• 1967 - Rosa de Ouro nº 2 - Clementina de Jesus, Araci Cortes e Conjunto Rosa de Ouro (Odeon MOFB 3494)

• 1968 - Gente da Antiga - Pixinguinha, Clementina de Jesus e João da Baiana (Odeon MOFB 3527)
• 1968 - Mudando de Conversa - Cyro Monteiro, Nora Ney, Clementina de Jesus e Conjunto Rosa de Ouro (Odeon MOFB 3534)

• 1968 - Fala Mangueira! - Carlos Cachaça, Cartola, Clementina de Jesus, Nélson Cavaquinho e Odete Amaral (Odeon MOFB 3568)


Coletâneas


• 1999 - Raízes do Samba - Clementina de Jesus (EMI 522659-2)

***
Esta página encontra-se em http://www.cecac.org.br/

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Diminui a influência do Ocidente

Por Noam Chomsky

O mundo árabe está em chamas, informou a Al Jazeera no dia 27 de janeiro, enquanto os aliados de Washington perdem rapidamente influência em toda a região. A onda de choque foi posta em movimento pelo dramático levante na Tunísia que derrubou um ditador apoiado pelo Ocidente, com reverberações, sobretudo no Egito, onde os manifestantes enfrentaram a polícia de um ditador brutal. Alguns observadores compararam os acontecimentos com a queda dos domínios russos em 1989, mas há importantes diferenças.

Uma diferença crucial é que não existe um Mikhail Gorbachov entre as grandes potências que apoiam os ditadores árabes. Ao invés disso, Washington e seus aliados mantém o princípio bem estabelecido de que a democracia é aceitável só na medida em que se conforme a objetivos estratégicos e econômicos: ela é magnífica em território inimigo (até certo ponto), mas em nosso quintal, a menos que possa ser domesticada de forma apropriada.

Uma comparação com 1989 tem certa validade: Romênia, onde Washington manteve seu apoio a Nicolae Ceausescu, o mais cruel dos ditadores europeus, até que a aliança se tornou insustentável. Depois, Washington aplaudiu sua derrubada, quando se apagou o passado. É uma pauta típica: Ferdinando Marcos, Jean-Claude Duvalier, Chun Doo Hwan, Suharto e muitos outros gangsteres úteis. Pode estar em marcha no caso de Hosni Mubarak, junto com esforços de rotina para assegurar-se de que o regime sucessor não se desviará muito da senda apropriada.

A esperança atual parece residir no general Omar Suleiman, leal a Mubarak e recém nomeado vice-presidente do Egito. Suleiman, que durante muito tempo encabeçou os serviços de inteligência, é desprezado pelo povo rebelde quase tanto como o próprio ditador. Um refrão comum entre os especialistas é que o temor de um Islã radical requer uma oposição à democracia em bases pragmáticas. Mesmo que possa ter algum mérito, a formulação induz ao erro. A ameaça geral sempre foi a independência. No mundo árabe, os Estados Unidos e seus aliados apoiaram com regularidade radicais islâmicos, às vezes para prevenir a ameaça de um nacionalismo secular. Um exemplo conhecido é a Arábia Saudita, centro ideológico do Islã radical (e do terrorismo islâmico). Outro em uma longa lista é Zia ul-Haq, favorito do ex-presidente Ronald Reagan e o mais brutal dos ditadores paquistaneses, que implementou um programa de islamização radical (com financiamento saudita).

O argumento tradicional que se esgrime dentro e fora do mundo árabe é que não está ocorrendo nada, tudo está sob controle, como assinala Marwan Muasher, ex-funcionário jordaniano e atual diretor de investigação sobre Oriente Médio da Fundação Carnegie. Com essa linha de pensamento, as forças consolidadas sustentam que os opositores e estrangeiros que demandam reformas exageram as condições no terreno.

Portanto, o povo sai sobrando. A doutrina remonta a muito atrás e se generaliza no mundo inteiro, incluindo o território nacional estadunidense. Em caso de perturbação podem ser necessárias mudanças de tática, mas sempre com vista a recuperar o controle.

O vibrante movimento democrático da Tunísia foi dirigido contra um Estado policial com pouca liberdade de expressão ou associação e graves problemas de direitos humanos, encabeçado por um ditador cuja família era odiada por sua venalidade. Essa foi a avaliação do embaixador estadunidense Robert Godec em um telegrama de julho de 2009, filtrado por Wikileaks.

Portanto, para alguns observadores os “documentos (de Wikileaks) devem criar um cômodo sentimento entre o público estadunidense de que os funcionários não estão dormindo no posto”, ou seja, os telegramas escoram de tal maneira as políticas estadunidenses que é quase como se o próprio Obama os tivesse filtrando (como escreve Jacob Heilbrunn, em The National Interest).

Os EUA devem dar uma medalha a Assange, assinala um analista do Financial Times. O chefe de analistas de política externa, Gideon Rachman, escreve que a política externa estadunidense se desenha de forma ética, inteligente e pragmática e que a postura adotada publicamente pelos EUA sobre um tema dado é, em geral, a mesma postura mantida privadamente. Segundo este ponto de vista, Wikileaks enfraquece a posição dos teóricos da conspiração que questionam os nobres motivos que Washington proclama com regularidade.

O telegrama de Godec apoia estes juízos, ao menos se não olhamos mais longe. Se fazemos isso, como reporta o analista político Stephen Zunes em Foreign Policy in Focus, descobrimos que, com a informação de Godec em mãos, Washington proporcionou 12 milhões de dólares em ajuda militar a Tunísia. Na verdade, a Tunísia foi um dos cinco únicos beneficiários estrangeiros: Israel (de rotina), Egito, Jordânia – ditaduras do Oriente Médio – e Colômbia, que há muito tempo tem a pior história de direitos humanos e recebe a maior ajuda militar estadunidense no hemisfério.

A prova A de Heilbrunn é o apoio árabe às políticas estadunidenses dirigidas contra o Irã, conforme mostram os telegramas divulgados. Rachman também se serve deste exemplo, como fizeram os meios de comunicação em geral, para elogiar estas alentadoras revelações. As reações ilustram o quão profundo é o desprezo pela democracia entre certas mentes cultivadas.

O que não se menciona é o que pensa a população…o que se descobre com facilidade. Segundo pesquisas divulgadas em agosto de 2010 pela instituição Brookings, alguns árabes estão de acordo com Washington e com os comentaristas ocidentais no sentido de que o Irã é uma ameaça: 10 por cento. Em contraste, consideram que Estados Unidos e Israel são as maiores ameaças (77 e 88%, respectivamente).

A opinião árabe é tão hostil às políticas de Washington que uma maioria (57%) pensa que a segurança regional melhoraria se o Irã tivesse armas nucleares. Ainda assim, não ocorre nada, tudo está sob controle (como Marwan Muasher descreve a fantasia dominante). Os ditadores nos apoiam: podemos esquecer-nos de seus súbditos…a menos que rompam suas cadeias, o que exigiria ajustar a política.

Outras revelações também parecem apoiar os juízos entusiastas sobre a nobreza de Washington. Em julho de 2009, Hugo Llores, embaixador dos EUA em Honduras, informou Washington sobre uma investigação da embaixada relativa a “aspectos legais e constitucionais em torno da remoção forçada do presidente Manuel Mel Zelaya, em 28 de junho”. A embaixada concluiu que não há dúvida de que os militares, a Suprema Corte e o Congresso Nacional conspiraram em 28 de junho, no que representou um golpe ilegal e anticonstitucional contra o poder Executivo.

Muito admirável, exceto pelo fato de que o presidente Obama rompeu com quase toda América Latina e Europa ao apoiar o regime golpista e desculpar as atrocidades posteriores.

Talvez as revelações mais surpreendentes de Wikileaks tenham a ver com o Paquistão, investigadas pelo analista em política externa Fred Branfman, em Truthdig. Os telegramas revelam que a embaixada estadunidense está bem consciente de que a guerra de Washington no Afeganistão e no Paquistão não só intensifica o sentimento anti-EUA, mas também cria o risco de desestabilizar o Estado paquistanês e inclusive coloca a ameaça do pesadelo final: as armas nucleares poderiam cair em mãos de terroristas islâmicos.

Uma vez mais, as revelações devem criar um sentimento tranquilizador de que os funcionários não estão dormindo no posto (nas palavras de Heilbrun), enquanto Washington marcha inexoravelmente para o desastre.

* Noam Chomsky é professor de linguística do MIT (Massachusetts Institute of Technology).

Este texto foi publicado no diário mexicano La Jornada

Tradução de Katarina Peixoto para Carta Maior: