terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Quando a polícia escreve a história

Por Francisco Carlos Teixeira


 
Esta semana (28/01/2012) a Secretária de Segurança de São Paulo retirou do ar a página (que ela mesmo havia criado) com elogios ao golpe civil-militar de 1964.



Mais uma vez a Secretária de Segurança Pública de São Paulo busca escrever a sua própria versão da história do país. Depois de elogiar e justificar o golpe civil-militar de 1964 – em razão “do combate contra a política sindicalista” do Presidente João Goulart – a secretaria de Estado de Segurança insiste em falar em “revolução” feita ao lado do povo e das FFAA. Ao contrário, não há qualquer menção de que o Governo Jango foi democraticamente eleito e constituído, legitimado por um amplo plebiscito popular, e que cabia, se fosse ao caso, ao Congresso Nacional fazer oposição ao governo, indo, no limite, ao pedido de impedimento do presidente do país.



Mas, a polícia de São Paulo, ao contrário, acha que ela era mais sábia e possuía o poder (auto-outorgado) de fazer ou desfazer governos em face das tendências “sindicalistas” do presidente. Assim, com certo exagero, se parabeniza pelo golpe de 1964. É absurdo que uma instituição use recursos do Estado para justificar o descumbrimento da lei e da ordem constitucional do país. Não cabe, jamais, a qualquer instituição policial avaliar, julgar, por ou depor governos, sejam quais forem suas tendências. À ordem constitucional – o Congresso, os tribunais e seus despachos – cabe, conforme o rito constitucional, julgar governantes. A polícia cumpre ordens estabelecidas conforme as regras da constitucionalidade. O auto-elogio da página da SSP-SP é, desta forma, um claro desrespeito ao Estado democrático.



Como historiador posso entender no quadro da época – de graves tensões, de divisão da sociedade, de imaturidade política e de forte tradição de “pronunciamientos” militares - que esta fosse uma versão dos fatos – uma versão trabalhada, ferramentada e popularizada por uma mídia e por partidos e instituições de oposição. Embora seja inaceitável que se tenha erguido uma ditadura por esta razão, o argumento tinha sentido para uma parcela dos atores políticos brasileiros ao tempo da Guerra Fria e da extrema polarização social da época e pode convencer uma boa parte da opinião pública que então apoiou o golpe.



O que não faz sentido é que hoje, ainda, uma instituição do estado – não se trata de um ator social privado, mas de uma fala institucional, com dinheiro público – insista numa versão tão pobre e maniqueísta da história. Não cabe ao estado (ou “Estado”) e suas instituições, sobremaneira a Polícia, fornecer com recursos públicos uma versão da história que incentiva e justifica ações de violência contra a ordem constitucional do país.



Já era tempo do governo do estado aconselhar os policiais de São Paulo – hoje notórios pelas ações de repressão na área da Cracolândia e pela brutalidade cega e estéril em Pinheirinhos – a deixar a história para os historiadores, afinal (parodiando Clemenceau!) a história é um assunto muito sério para se escrita por policiais.



Devemos lembrar que a SSP de São Paulo possui um histórico institucional tremendamente negativo – desde a invasão da PUC em 1977, o cerco da reunião da SBPC na USP em 1978 até chacinas como do Carandiru, em 1992. A insistência em não rever e debater sua própria história, convidando instituições da sociedade civil, especialistas em história da República e das suas instituições (incluindo aí ótimos trabalhos sobre história da polícia no Brasil já existentes) e seus próprios funcionários demonstra como a polícia de São Paulo quer ser um corpo autônomo na sociedade democrática, não aceita a transparência e apega-se a um passado golpista e liberticida, mantendo-se à margem da democratização da sociedade.



Neste momento talvez seja o caso de convidar – convidar, atenção! – os policiais para assistir algumas aulas no Departamento de História da USP.

 
(*) Professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro.



FONTE: Carta Maior
 
 

Quem ganhou com o massacre do Pinheirinho?


Por Guilherme Boulos e Valdir Martins




O Pinheirinho está em uma região de expansão imobiliária, sob um forte assédio das construtoras e incorporadoras de São José dos Campos


Em setembro, as manchetes dos jornais de São José dos Campos estampavam a notícia de um acordo para regularizar o bairro do Pinheirinho. Após sete anos, as 1.600 famílias dessa comunidade teriam a sua situação de moradia resolvida.




Quatro meses depois, a Polícia Militar de São Paulo iniciou uma operação de guerra que terminou com o despejo da comunidade, dezenas de presos e feridos e cinco desaparecidos até o momento.




A ordem partiu da juíza de São José, Marcia Loureiro, que se revelou uma combatente incansável pelos interesses do proprietário. Se houvesse um prêmio Naji Nahas, certamente seria ela a ganhadora deste ano. Contou com a aprovação irrestrita do presidente do TJ, o desembargador Ivo Sartori.




Ambos pertencem a um tribunal assolado por denúncias de super-salários e sonegação fiscal por parte de vários de seus desembargadores. Que moral têm eles para definir o destino de famílias trabalhadoras?




Encontraram, porém, aliados de primeira hora no governador e no prefeito de São José, ambos do PSDB e com uma lista de financiadores de campanha recheada de empreiteiras e especuladores imobiliários.




O que uniu todos eles foi a prestação de um valioso serviço ao capital imobiliário. A ocupação representava uma verdadeira pedra no sapato dos "empreendedores" imobiliários de São José dos Campos.




Ela está localizada em uma região de expansão imobiliária, onde ainda restam muitas áreas vazias, sob um forte assédio de construtoras e incorporadoras. Por isso, o despejo do Pinheirinho era uma reivindicação antiga do capital imobiliário da região. Além de liberar a área da ocupação, ela também valorizaria os bairros vizinhos.




Alckmin, o prefeito Cury e os honoráveis magistrados do TJ não poderiam negar um pedido tão importante de amigos tão valiosos. A presidenta Dilma, que também teve a sua campanha eleitoral fartamente financiada por construtoras, poderia ter desapropriado o terreno, mas não fez isso. As cartas estavam marcadas.




Os editoriais de grandes jornais se apressaram em condenar os "invasores" e em atribuir o conflito a interesses de partidos radicais, que teriam contaminado os pobres moradores. É preciso recordar que a imensa maioria das periferias urbanas brasileiras, pela ausência de políticas públicas, resultou de processos de ocupação. Pretendem despejar dezenas de milhões de famílias que vivem em áreas ocupadas?




Além disso, não é demais lembrar que a ideia de "maus elementos radicais manipulando uma massa ingênua" foi o argumento preferido da ditadura militar para desqualificar os movimentos de resistência. Parte da tese conservadora de que o povo brasileiro é naturalmente pacato e resignado, só se movendo por influência externa.




A síntese dos disparates proferidos sobre a operação foi dada pela secretária de Justiça de Alckmin, Eloísa Arruda, para quem a legalidade está acima dos direitos humanos.




É triste constatar que o que ocorreu no Pinheirinho não foi um fato isolado. Trata-se de expressão de uma política conduzida pela especulação imobiliária e por seus amigos no Estado, que coloca a valorização das terras e os lucros com os empreendimentos acima da vida humana. Este processo, aliás, tem se tornado cada vez mais cruel, com as obras da Copa 2014. Infelizmente, outros Pinheirinhos virão.
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GUILHERME BOULOS, 29, é membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto), militante da Frente de Resistência Urbana e da CSP Conlutas
VALDIR MARTINS, o Marrom, 54, líder da comunidade do Pinheirinho (Movimento Urbano Sem-Teto), é militante da Frente de Resistência Urbana e da CSP Conlutas



FONTE: Folha de São Paulo, 31 de janeiro de 2012.
 
 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Abertas inscrições para cursos a distância do PLED

Pensamento crítico sem concessões!!! Abertas as inscrições para os cursos do Programa Latinoamericano de Educação a Distância em Ciências Sociais (PLED). Informes e incscrição no link abaixo:



Cursos PLED
Cursos regulares Primer Semestre 2012


1.Ecología política en el capitalismo contemporáneo
Prof. Atilio Boron y Mariana Fassi


2.Economía política marxista (Seminario dictado en portugués y castellano)
Prof. María Malta y Rodrigo Castelo


3.La coyuntura geopolítica en América Latina
Prof. Atilio Boron



4.Modelos de participación y gestión democrática
Prof. Daniel Chávez y Hilary Wainwright


5.El agro en América Latina: historia, conflictos y debates
Prof. Hector Alimonda

6.Extractivismo y resistencias sociales en Nuestra América: conflictos en torno a los bienes comunes y horizontes emancipatorios
Prof. José Seoane, Emilio Taddei y Clara Algranati


7.Historia del Pensamiento Latinoamericano
Prof. Juan Francisco Martínez Peria y Andres Kozel


8.La teoría crítica marxista hoy
Prof. Néstor Kohan


9.Estados Unidos y nuestra América: dos siglos de continuidades y cambios
Prof. Luis Armando Suárez Salazar

"Os livros não mudam o mundo,quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas." - Mário Quintana



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Painéis de Portinari recuperam brilho

Díptico "Guerra e Paz", doado pelo Brasil à ONU em 1956, passou por restauro no país e será exibido em São Paulo
Exposição começa em 7/2 no Memorial da América Latina; obras irão para outros países antes de voltar a NY

LEANDRO MARTINS
DE RIBEIRÃO PRETO





São Paulo será a primeira cidade do mundo a receber os painéis "Guerra e Paz", de Candido Portinari (1903-1962), com as mesmas cores vivas e detalhes que a obra exibia quando foi levada, há 56 anos, para a sede da ONU, em Nova York.



Os dois painéis gigantes, cada um com 14 metros de altura, serão expostos de 7 de fevereiro a 21 de abril no Memorial da América Latina. A exposição inaugura uma turnê internacional das obras.



É a primeira mostra dos painéis desde que a restauração de "Guerra e Paz" foi concluída no Rio de Janeiro, em 2011 -quando puderam ser vistos enquanto ainda eram restaurados em uma espécie de ateliê aberto para visitação, no palácio Capanema.



Antes do restauro, entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, as obras levaram, em 12 dias, 44 mil visitantes ao Theatro Municipal do Rio.



Desde que o trabalho terminou, elas foram desmontadas, encaixotadas e transferidas para um local mantido em sigilo por segurança.



João Candido Portinari, filho do artista e diretor do Projeto Portinari, ressalta que, além dos painéis, a exposição trará, pela primeira vez, um conjunto de aproximadamente cem estudos originais.



São desenhos e maquetes feitos por Portinari como preparação para "Guerra e Paz".



João Candido conta que reunir o material foi trabalhoso, porque o acervo pertence a galerias e coleções particulares mundo afora.



A escolha do Memorial da América Latina para abrigar a exposição é simbólica, afirma o filho do artista.



Primeiro, porque o local foi projetado por Oscar Niemeyer, de quem Portinari foi parceiro em projetos como o da igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Além disso, diz Candido, há o vínculo entre as ideias expressas por "Guerra e Paz" e o projeto cultural do Memorial, pela integração da América Latina.



"É um lugar de cultura de paz, de integração dos povos, que tem tudo a ver com a mensagem dos painéis."



Depois que deixar São Paulo, "Guerra e Paz" vai percorrer outras cidades pelo mundo. Os dois países já definidos são Noruega e Japão.



No primeiro, a ideia é que as obras marquem presença em Oslo durante a entrega do Prêmio Nobel da Paz.



Já no Japão, a preferência recaía sobre Hiroshima, atingida pela primeira bomba atômica americana no fim da Segunda Guerra (1939-1945). Mas a inexistência de um espaço ideal deve transferir a mostra para Tóquio.



Outros países devem ser incluídos na turnê, como Argentina e Turquia. Os painéis voltam a Nova York em 2013, onde foram instalados em 1956, como presente do governo brasileiro.



Para que fossem trazidos ao Brasil e restaurados, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) investiu R$ 7 milhões. Já para a turnê que se inicia em São Paulo, o Projeto Portinari ainda busca mais patrocinadores.



GUERRA E PAZ

QUANDO de 7/2 a 21/4 (de ter. a dom., das 9h às 18h)

ONDE Memorial da América Latina (av. Auro Soares de Moura Andrade, 664; tel. 3823-4705)

QUANTO grátis

CLASSIFICAÇÃO não informada

 
FONTE: Folha de São Paulo, 26 de janeiro de 2012.
 
 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Facebook: CIA + J. Edgar Hoover (FBI) + Kafka



Por Atilio A. Boron



Dias atrás, cometi um erro imperdoável: criticar veementemente a Secretária de Estado Hillary Clinton, quando diante do quinto assassinato de um cientista iraniano se limitou a encolher os ombros e dizer que aquilo era resultado das provocações de Teerã ao se negar a suspender seu programa nuclear. Um programa, diga-se de passagem, que começou na época do Xá, e que foi retomado em meados dos anos 80, sem que até agora, mais de 30 anos depois, aparecesse o tão temido arsenal nuclear iraniano.


 
Disse, então, e repito agora, que Clinton é o “elo perdido entre as aves de rapina e a espécie humana”, recordando sua repugnante gargalhada quando a comunicaram do linchamento de Kadafi. Porém, meu erro foi postar essa opinião no Facebook: poucas horas depois, tive o acesso a minha conta proibido e, dessa forma, também bloqueado o contato com mais de 7 mil seguidores. O que veio depois é uma história realmente kafkiana, ainda inconclusa, para tratar de recuperar o acesso a minha conta.


 

Toda sorte de trâmites e obstáculos foram postos em prática e ainda hoje, noite de 19 de janeiro, três dias depois do incidente, não pude voltar a utilizar minha conta. Como se não bastasse, não pude mais retomar contato com pessoa alguma no Facebook, e todas as perguntas que como vítima de tal arbitrariedade poderia fazer eram estereotipadas, devendo escolher um “menu” absurdo só para obter, de um robô informante, respostas igualmente estúpidas e estereotipadas. Em todo caso, algo era razoavelmente claro: nenhuma respondia a pergunta crucial, que era, e é, por que me bloquearam o acesso a minha conta no Facebook?



 
A conclusão disso tudo é algo que já sabia e venho dizendo há muitos anos, em contraposição a sociólogos e analistas “da moda” que afirmam besteiras tais como “a web é o universo da liberdade, não há centro, não existe controle, é democracia em grau superlativo”. Esses teóricos da resignação e do desalento, que com seus ditames fortalecem a crença na eternidade capitalista, ignoram que a web está super-controlada – não que estará em breve, mas já está, de fato – e que as infames iniciativas legislativas estadunidenses como o SOPA e o PIPA não são nada além de tentativas de legalizar o que já estão fazendo, e essa é uma das novas tarefas a cargo da CIA e do FBI, espiando próprios e estranhos, dentro e fora dos Estados Unidos.

 

Como também venho dizendo há anos, não há nada mais perigoso do que um império em decadência. A história ensina que se tornam mais brutais, imorais, inescrupulosos. Agora, diante do surgimento de uma perigosa onda mundial anticapitalista na Europa e até nos EUA (com o movimento Ocuppy Wall Street), que se agrega ao que vem agitando a América Latina há uma década, os drones (caças não tripulados) e assassinatos seletivos de líderes, práticas a que apelava o império, são insuficientes.


 
Para eles, é preciso cortar a comunicação “por baixo” e “entre os de baixo”, porque sabem muito bem que um pré-requisito para a organização e a resistência, e a ofensiva, contra a burguesia imperial e seus sequazes da periferia é exatamente essa possibilidade de estabelecer comunicações e intercambiar informações entre os oprimidos e as vítimas do sistema. Sabem muito bem que tal coisa é essencial para frustrar essa onda insurgente, muito mais grave e de maiores repercussões do que as que um dia teve o maio francês.

 

Por isso tudo, estão apertando os torniquetes. Por isso devemos redobrar a luta para democratizar não só o Estado e as empresas, mas também as comunicações, a imprensa e, mais que tudo, a web. Não é a troco de nada que um dos generais do exército estadunidense declarou em uma audiência no Congresso de seu país que “hoje a luta anti-subversiva se trava nos meios de comunicação”, um dos quais, talvez o mais importante, a internet. Daí que vêm tantos controles e tanto empenho em travar a luta contra os “terroristas” do ciberespaço.

 

Atilio Borón é doutor em Ciência Política pela Harvard University, professor titular de Filosofia Política da Universidade de Buenos Aires e ex-secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

 
Tradução: Gabriel Brito, jornalista do Correio da Cidadania

 
 
O texto em espanhol encontra-se em Atilio Boron
 




Os abutres cobiçam a pretensa carniça

A marcha para uma guerra total e devastadora prossegue. É uma marcha fúnebre dirigida por loucos falidos e letalmente armados.




"Viver significa tomar partido"


Tem que se definir ideológica e políticamente. Se não o fizer conscientemente, estará na prática aceitando de maneira acrítica o que nos é imposto pelos donos do poder.

A vida como ela é: CAPITALISMO

A vontade popular fica sempre subordinada aos imperativos do lucro e da acumulação do capital.


A fruta que não caiu.


Por Fidel Castro



Cuba se viu forçada a lutar por sua existência frente a uma potência expansionista, situada a poucas milhas de suas costas, que proclamava a anexação de nossa ilha, cujo único destino era cair em seu seio como fruta madura. Estávamos condenados a não existir como nação.


 
Na gloriosa legião de patriotas que durante a segunda metade do século 19 lutou contra o repugnante colonialismo imposto pela Espanha ao longo de 300 anos, José Martí foi quem com mais clareza percebeu tão dramático destino. Assim fez constar nas últimas linhas que escreveu quando, às vésperas do duro combate previsto contra uma aguerrida e bem apetrechada coluna espanhola, declarou que o objetivo fundamental de suas lutas era: “… impedir a tempo com a independência de Cuba que os Estados Unidos se estendam pelas Antilhas e caiam, com mais essa força, sobre nossas terras da América. Tudo quanto fiz até hoje, e farei, é para isso.”


 
Sem compreender esta profunda verdade, hoje não se poderia ser nem patriota, nem revolucionário.

 

Os meios de informação massiva, o monopólio de muitos recursos técnicos, e os enormes fundos destinados a enganar e embrutecer as massas, constituem sem dúvida obstáculos consideráveis, mas não invencíveis.



Cuba demonstrou que - a partir de sua condição de fábrica colonial ianque, unida ao analfabetismo e à pobreza generalizada de seu povo -, era possível enfrentar o país que ameaçava com a absorção definitiva da nação cubana. Ninguém pode sequer afirmar que existia uma burguesia nacional oposta ao império, tão próxima a ele se desenvolveu que inclusive pouco depois do triunfo enviou 14 mil crianças sem proteção alguma aos Estados Unidos, embora tal ação estivesse associada à pérfida mentira de que seria suprimido o Pátrio Poder, que a história registrou como operação Peter Pan e foi qualificada como a maior manobra de manipulação de crianças com fins políticos de que se tem noticia no hemisfério ocidental.



O território nacional foi invadido, apenas dois anos depois do triunfo revolucionário, por forças mercenárias, -integradas por antigos soldados batistianos e filhos de laifundiários e burgueses - armadas e escoltadas pelos Estados Unidos com barcos de sua frota naval, incluídos porta-aviões com tripulações prontas para entrar em ação, que acompanharam os invasores até nossa ilha. A derrota e a captura da quase totalidade dos mercenários em menos de 72 horas e a destruição de seus aviões que operavam a partir de bases na Nicarágua e seus meios de transporte naval, constituiu uma derrota humilhante para o império e seus aliados latino-americanos que subestimaram a capacidade de luta do povo cubano.


 
A URSS frente à interrupção do fornecimento de petróleo por parte dos Estados Unidos, a ulterior suspensão total da cota histórica de açúcar no mercado desse país, e a proibição do comécio criado ao longo de mais de cem anos, respondeu a cada uma dessas medidas fornecendo combustível, adquirindo nosso açúcar, comerciando com nosso país e finalmente fornecendo as armas que Cuba não podia adquirir em outros mercados.

 

A ideia de uma campanha sistemática de ataques piratas organizados pela CIA, as sabotagens e as ações militares de bandos criados e armadas por ele, antes e depois do ataque mercenário, que culminariam em uma invasão militar dos Estados Unidos em Cuba, deram origem aos acontecimentos que levaram o mundo à beira de uma guerra nuclear total, da qual nenhuma de suas partes e nem a própria humanidade teria podido sobreviver.


 
Aqueles acontecimentos sem dúvida custaram o cargo a Nikita Kruchov, que subestimou o adversário, desconsiderou critérios que lhe foram informados e não consultou para sua decisão final conosco, que estávamos na primeira linha. O que podia ser uma importante vitória moral se converteu assim em um custoso revés político para a URSS. Durante muitos anos as piores malfeitorias continuaram sendo realizadas contra Cuba e não poucas, como o criminoso bloqueio, são cometidas ainda.


 
Kruschov teve gestos extraordinários com nosso país. Naquela ocasião critiquei sem vacilação o acordo inconsulto com os Estados Unidos, mas seria ingrato e injusto deixar de reconhecer sua extraordinária solidaridade em momentos difíceis e decisivos para nosso povo em sua histórica batalha pela independência e a revolução frente ao poderoso império dos Estados Unidos. Compreendo que a situação era sumamente tensa e ele não desejava perder um minuto quando tomou a decisão de retirar os projéteis e os ianques se comprometeram, muito secretamente, a renunciar à invasão.


 
Apesar das décadas transcorridas que já somam meio século, a fruta cubana não caiu em mãos ianques.


 
As notícias que na atualidade chegam da Espanha, França, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Irã, Síria, Inglaterra, as Malvinas e outros numerosos pontos do planeta, são sérias, e todas auguram um desastre político e econômico pela insensatez dos Estados Unidos e seus aliados.


 
Limitar-me-ei a uns poucos temas. Devo assinalar segundo todos contam, que a escolha de um candidato republicano para aspirar à presidência desse globalizado e abrangente império, é por sua vez, - digo isso seriamente - a maior competição de idiotices e ignorância que jamais se escutou. Como tenho coisas a fazer, não posso dedicar tempo a ese assunto. De resto, sabia que seria assim.


 
São mais ilustrativas algumas informações que desejo analisar, porque mostram o incrível cinismo que a decadência do Ocidente gera. Uma delas, com pasmosa tranquilidade, fala de um preso político cubano que, segundo se afirma, morreu depois de greve de fome que durou 50 dias. Um jornalista do Granma, Juventud Rebelde, noticiario radiofônico ou qualquer outro órgão revolucionário, pode equivocar-se em qualquer apreciação sobre qualquer tema, mas jamais fabrica uma notícia ou inventa uma mentira.


 
Na nota do Granma se afirma que não houve tal greve de fome; era um recluso por delito comum, condenado a quatro anos por agressão que provocou lesões no rosto de sua esposa; que a próopria sogra solicitou a intervenção das autoridades; os familiares mais ligados estiveram a par de todos os procedimentos que foram empregados em seu atendimento médico e estavam agradecidos pelo esforço dos especialistas médicos que o atenderam. Foi assistido, afirma a nota, no melhor hospital da região oriental como se faz com todos os cidadãos. Morreu por causa de falência múltipla de órgãos secundária associada a um processo respiratório séptico severo.


 
O paciente tinha recebido todas as atenções que se aplicam em um país que possui um dos melhores serviços médicos do mundo, os quais são feitos gratuitamente, apesar do bloqueio imposto pelo imperialismo a nossa Pátria. É simplesmente um dever que se cumpre em um país onde a Revolução tem o orgulho de ter respeitado sempre, durante mais de 50 anos, os princípios que lhe deram sua invencível força.

 

Mas seria realmente bom que o governo espanhol, dadas as suas excelentes relações com Washington, viaje aos Estados Unidos e se informe do que ocorre nas prisões ianques, a conduta desapiedada que aplica aos milhões de presos, a política que se pratica com a cadeira elétrica e os horrores que se cometem com os detentos nas prisões e os que protestam nas ruas.

 

Na segunda-feira, 23 de janeiro, um duro editorial do Granma intitulado “As verdades de Cuba” em uma página inteira desse órgão, explicou detalhadamente a insólita falta de vergonha da campanha mentirosa desencadeada contra nossa por alguns governos “tradicionalmente comprometidos com a subversão contra Cuba”.


 
Nosso povo conhece bem as normas que têm regido a conduta impecável de nossa Revolução desde o primeiro combate e jamais manchada ao longo de mais de meio século. Sabe também que não poderá ser jamais pressionado nem chantageado pelos inimigos. Nossas leis e normas serão cumpridas indefectivelmente.


 
É bom dizer com toda a clareza e franqueza. O governo espanhol e a União Europeia em ruínas, mergulhada em uma profunda crise econômica, devem saber a que se ater. Produz lástima ler em agências de notícias as declarações de ambas quando utilizam suas descaradas mentiras para atacar Cuba. Ocupem-se primeiro de salvar o euro se puderem, resolvam o desemprego crônico de que em número crescente padecem os jovens, e respondam aos indignados sobre os quais a polícía arremete e golpeia constantemente.


 
Não ignoramos que agora na Espanha governam os admiradores de Franco, que enviou membros da Divisão Azul junto às SS e as SA nazistas para matar soviéticos. Quase 50 mil deles participaram na cruenta agressão. Na operação mais cruel e dolorosa daquela guerra: o cerco de Leningrado, onde morreram um milhão de cidadãos russos, a Divisão Azul fazia parte das forças que trataram de estrangular a heróica cidade. O povo russo não perdoará nunca aquele horrendo crime.


 
A direita fascista de Aznar, Rajoy e outros servidores do império deve conhecer algo das 16 mil baixas que tiveram seus antecessores da Divisão Azul e as Cruzes de Ferro com as quais Hitler premiou os oficiais e soldados dessa divisão. Nada há de estranho no que faz hoje a polícia gestapo com os homens e mulheres que demandam direito ao trabalho e ao pão no país com mais desemprego da Europa.


 
Por que mentem tão descaradamente os meios de informação de massa do império?

 

Os que manejam esses meios se empenham em enganar e embrutecer o mundo com suas grosseiras mentiras, pensando talvez que constitui o recurso principal para manter o sistema global de dominação e saque imposto e de modo particular as vítimas próximas à sede da metrópole, os quase seiscentos milhões de latino-americanos e caribenhos que vivem neste hemisfério.


 
A república irmã da Venezuela se converteu no objetivo fundamental dessa política. A razão é óbvia. Sem a Venezuela, o império teria imposto o Tratado de Livre Comércio a todos os povos do continente que nele habitam desde o sul dos Estados Unidos, onde se encontram as maiores reservas de terra, água doce e minerais do planeta, assim como grandes recursos energéticos que, administrados com espírito solidário para os demais povos do mundo, constituem recursos que não podem nem devem cair em mãos das transnacionais que impõem um sistema suicida e infame.

 

Basta, por ejemplo, olhar o mapa para compreender o criminoso despojo que significou para a Argentina arrebatar-lhe um pedaço de seu território no extremo sul do continente. Ali os britânicos empregaram seu decadente aparato militar para assassinar bisonhos recrutas argentinos vestidos com roupas de verão quando já estavam em pleno inverno. Os Estados Unidos e seu aliado Augusto Pinochet deram à Inglaterra um desavergonhado apoio. Agora, na véspera das Olimpíadas de Londres, seu primeiro-ministro David Cameron também proclama, como fez Margaret Thatcher, seu direito a usar os submarinos nucleares para matar argentinos. O governo desse país desconhece que o mundo está mudando, e o desprezo de nosso hemisfério e da maioria dos povos aos opressores aumenta a cada dia.


 
O caso das Malvinas não é único. Alguém por acaso sabe como terminará o conflito no Afeganistão? Há poucos dias soldados norte-americanos ultrajavam os cadáveres de combatentes afegãos, assassinados pelos bombardeiros sem pilotos da Otan.


 
Há três dias uma agência europeia publicou que “o presidente afegão Hamid Karzai, deu seu aval a uma negociação de paz com os talibãs, sublinhando que esta questão deve ser resolvida pelos cidadãos de seu país”, logo acrescentando: “…o processo de paz e reconciliação pertence à nação afegã e nenhum país ou organização estrangeira pode tirar esse direito dos afegãos.”


 
Por sua parte, uma informação publicada por nossa imprensa comunicava desde Paris que “a França suspendeu hoje todas as suas operações de formação e ajuda ao combate no Afeganistão e ameaçou antecipar a retirada de suas tropas, logo que um soldado afegão deu um ultimato a quatro militares franceses no vale Taghab, da província de Kapisa [...] Sarkozy deu instruções ao ministro da Defesa Gérard Longuet para trasladar-se imediatamente a Cabul, e vislumbrou a possibilidade de uma retirada antecipada do contingente.”


 
Desaparecida a URSS e o Campo Socialista, o governo dos Estados Unidos concebia que Cuba não podia sustentar-se. George W. Bush já tinha preparado um governo contrarrevolucionáio para presidir nosso país. No mesmo que Bush iniciou sua guerra criminosa contra o Iraqe, solicitei às autoridades de nosso país o fim da tolerância que se aplicava aos chefetes contrarrevolucionários que naqueles dias demandavam histericamente a invasão de Cuba. Na realidade, sua atitude constituia um ato de traição à Pátria.

 

Bush e suas atitudes estúpidas imperaram durante 8 anos e a Revolução Cubana perdurou já mais de meio século. A fruta madura não caiu no seio do império. Cuba não será uma força a mais com a qual o império se estenda sobre os povos da América. O sangue de Martí não terá sido derramado em vão.


 

Fonte: Cubadebate

Tradução da redação do Vermelho
 
 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"O verdadeiro analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê." Mário Quintana

Os retratos do Velho


Por Jacques Gruman



Lilia e Zé Maurício ainda comemoravam a chegada do primogênito quando os blocos foram para as ruas. O carnaval de 1951 foi no início de março e naquele ano, para variar, marchinhas caminhavam para a eternidade.Tomara que chova e Sapato de pobre mantinham acesa a rivalidade Emilinha/Marlene, blockbusters da rádio Nacional. Dalva de Oliveira não estava para brincadeira e vinha de Zum zum (oi zum zum zum zum zum, tá faltando um ...). Correndo por fora, trote de pangaré, vinha a surpreendente Retrato do velho, de Haroldo Lobo (um campeão, compositor de pérolas como Ala-la-ô, Índio quer apito e Emília) e Marino Pinto (parceiro, entre outros, de Ataulfo Alves, Herivelto Martins e Tom Jobim; como ninguém é perfeito, trabalhou como censor do Departamento Federal de Segurança Pública). Era uma exaltação à volta de Getúlio Vargas à presidência. O ditador filofascista do Estado Novo retornava legitimado pelas eleições do ano anterior. A letra, inspiração para puxa-sacos de baixos e altos coturnos, dizia: Bota o retrato do velho outra vez/Bota no mesmo lugar/O retrato do velhinho faz a gente trabalhar. As crônicas da época dizem que a musiquinha se saiu muito bem, turbinada pelo vozeirão do Chico Viola.



Não faz muito, outro Velho, com v maiúsculo mesmo, voltou a ser notícia. Parte da família de Luiz Carlos Prestes, carinhosamente chamado de Velho por seus camaradas do Partidão, doou ao Arquivo Nacional cartas, fotos e documentos do acervo do líder comunista. A divulgação de algumas fotos mais íntimas, que mostram Prestes celebrando aniversário de uma neta, cavalgando na União Soviética ou descansando numa praia nordestina, despertou controvérsia. A viúva Maria alegou ser importante mostrar o lado “humano” do Cavaleiro da Esperança. A filha Anita, que a imprensa burguesa teima em pintar como um boneco de gelo, condenou a banalização da imagem do homem a quem mesmo seus inimigos consideram um dos mais importantes políticos brasileiros do século passado. Entendo a preocupação de Anita, imperturbável na preservação do espírito revolucionário de seu pai. Esse espírito inclui, certamente, a separação entre as vidas pública e privada. Qual é a importância, em qualquer sentido, de saber se Prestes usava sunga na praia? Bisbilhotar, voyeurizar e mexericar: eis a Santíssima Trindade da sociedade do espetáculo, onde as imagens escravizam a Razão, dissolvem o raciocínio e mediocrizam a vida. Se as fotos de um comunista servissem para discutir o que um jornalista d’o Globo chamou de “legado prestista”, que viessem em cascata! Claro que não foi essa a intenção. Tratou-se apenas de um momento paparazzo, um gostinho de supresa(?) para vender mais jornais e revistas. Mais conveniente manter o Velho congelado nas Rolleiflex empoeiradas ...



Mal a “polêmica” sobre as fotos do Prestes saiu do forno e o business visual já manipulava novas excitações. Inaugurada a temporada 2012 do indigente Big Brother (alguém perguntou se um livro, um mísero exemplar sobre qualquer assunto, já foi flagrado no cárcere de luxo do Projac) e um suposto estupro ... alavancou a audiência. Consultei minhas bases para entender como funciona a coisa. É um assombro. Junta-se um grupo disposto a se expor publicamente por algumas semanas. De um modo geral jovens, que topam tudo, tudo mesmo, para ganhar uma grana. Acrescenta-se doses industriais de álcool, festinhas de embalo e, desconfio, estímulos para se gerar cenas “picantes” (e bater recordes de acesso pela internet). Resultado? Um Coliseu hormonal, com milhões de basbaques grudados nas telinhas, ciceroneados por um débil mental estridente, que, sem piscar, assegura que “o amor é lindo”, confundindo descaradamente um ato sexual pré-fabricado com a relação complexo-poética de dois indivíduos. Esgoto puro, vendido como “show da realidade”. Dou a palavra à psicanalista Maria Rita Kehl: “Parece que o público que prefere o Big Brother não quer ser iludido com a vida água com açúcar das novelas. Engano. O que o público está pedindo é para se iludir melhor. Os reality shows são a forma mais eficiente de ilusão que a cultura de massas já produziu: vendem aos espectadores o espelho fiel de sua vida amesquinhada sob a égide severa das 'leis de mercado'. Vendem a imagem da selva em que a concorrência transforma as relações humanas. Só que elevados ao estatuto de espetáculo”.

 
FONTE: PCB
 
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fórum Social Temático: Crise capitalista, justiça social e justiça ambiental


Entre os dias 24 e 29 de janeiro acontece o Fórum Mundial de Educação/ Fórum Social Temático: Crise capitalista, justiça social e justiça ambiental, que será realizado na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS) entre os dias 24 e 29 de janeiro de 2012. Como um espaço aberto e plural, a programação do Fórum será fundamentalmente constituída por atividades propostas e geridas por movimentos, coletivos e organizações da sociedade civil, relacionadas ao tema “crise capitalista, justiça social e ambiental”. Além disso, o evento acolherá também o encontro de redes internacionais, articuladas em torno de grupos temáticos de reflexão sobre assuntos pertinentes ao Fórum. Confira a programação e participe: http://fmejsa.forummundialeducacao.org/ ou http://www.fstematico2012.org.br/.






TERRENO DO PINHEIRINHO: A VERDADEIRA HISTÓRIA COMEÇA APARECER

Trucidamento da família Kubitzky, grilagem e especulação imobiliária


Leia abaixo a notícia da Folha de São Paulo de 01 de julho de 1969, que trata  do misterioso “trucidamento da família Kubitzky”, ex-proprietária do terreno onde anos mais tarde acabou sendo instalada a ocupação do Pinheirinho. O caso nunca foi solucionado e, como a família não tinha parentes ou herdeiros, o Estado acabou incorporando a fortuna dos Kubitzky, inclusive imóveis, é claro. Então cabe aqui um questionamento imprescindível: Como foi que, depois de o Estado ter herdado o terreno, ele foi cair nas mãos do Naji Nahas e do Grupo Selecta? Parece um caso de GRILAGEM DE TERRA.





Veja esta notícia no acervo da Folha de São Paulo de 01/07/1969








segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Por que duvidam da evolução?

Por Marcelo Gleiser



Será que é tão ofensivo ter um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?


Ao menos nos EUA, a evidência é indiscutível. Em uma pesquisa do grupo Gallup na véspera do aniversário de 200 anos do nascimento de Charles Darwin, no dia 12 de fevereiro de 2009, apenas 39% dos americanos responderam que "acreditam na teoria da evolução".



Não há dados semelhantes no Brasil, mas imagino que os números sejam semelhantes ou piores.



A mesma pesquisa relaciona o resultado com o nível educacional dos respondentes. Apenas 21% das pessoas com ensino médio completo ou menos acreditam na evolução. O número sobe para 53% nos graduados e 74% em quem tem pós-graduação.



Outra variável investigada foi a relação do resultado com frequência à igreja. Dos que acreditam em evolução, 24% vão a igreja semanalmente, 30% ao menos uma vez por mês e 55% nunca vão. Quanto mais crente, maior a desconfiança em relação à teoria de Darwin.



Por outro lado, a evidência em favor da evolução também é indiscutível. Ela está no registro fóssil, datado usando a emissão de partículas de núcleos atômicos radioativos. Rochas de erupções vulcânicas (ígneas) enterradas perto de um fóssil contêm material radioativo. O mais comum é o urânio-235, que decai em chumbo-207.



Analisando a razão entre o urânio-235 e o chumbo-207 numa amostra de rocha ígnea e sabendo a frequência com que o urânio emite partículas (em 704 milhões de anos, a quantidade de urânio numa amostra cai pela metade), cientistas obtêm uma medida bastante precisa da idade do fóssil. Por exemplo, os dinossauros desapareceram há 65 milhões de anos.



A evidência em favor da evolução aparece também na resistência que bactérias podem desenvolver contra antibióticos. Quanto mais se usam antibióticos, maior a chance de que mutações gerem bactérias resistentes. Esse tipo de adaptação por pressão seletiva pode ser investigado no laboratório, sujeitando populações de bactérias a certas drogas e monitorando modificações no seu código genético.



Posto isso, pergunto-me por que a evolução causa tanto problema para tanta gente. Será que é tão ofensivo assim termos tido um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?



A nossa descendência é ainda muito mais dramática: se formos mais para o passado, todos os animais que existem descenderam de um único ancestral, o Último Ancestral Universal Comum (na sigla Luca, em inglês), que provavelmente era um ser unicelular.



Essa desconfiança do conhecimento científico é muito estranha, dada a nossa dependência dele no século 21. (De onde vêm os antibióticos e iPhones?) O problema parece estar ligado ao Deus-dos-Vãos, a noção de que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos Deus é necessário. Os que interpretam a Bíblia literalmente veem nisso uma perda de rumo. Se Deus não criou Adão e Eva e se não nos tornamos mortais após a "queda do Paraíso", como lidar com a morte?



Uma teologia que insiste em contrapor a fé ao conhecimento científico só leva a um maior obscurantismo. Mesmo que não acredite em Deus, imagino que existam outras formas de encontrar Deus ou outros caminhos em busca de uma espiritualidade maior na vida.



MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: http://goo.gl/93dHI



FONTE: Folha de São Paulo, 22 de janeiro de 2012.
 
 

A incompatibilidade entre democracia e capitalismo

"Temos insistido na tese da incompatibilidade existente na relação entre capitalismo e democracia. Esses são termos que se repelem profundamente: maior democracia significa menos capitalismo; mais capitalismo é possível somente restringindo a democracia. O capitalismo é dominação de classe; a democracia, domínio das maiorias, que, como Aristóteles já observava, estão formadas principalmente pelos pobres, oprimidos e explorados. O argumento para defender essas afirmações consiste em que, sendo a democracia um regime político fundado na igualdade - e nisso estão de acordo desde um grande teórico conservador como Alexis de Tocqueville até Karl Marx -, é impossível construir um ordenamento político desse tipo dentro de uma forma social como a capitalista, cuja característica constitutiva é precisamente a radical separação entre uma minoria proprietária dos meios de produção e uma grande massa de despossuídos, que somente podem tentar vender a própria força de trabalho nas melhores condições possíveis. Dado que no capitalismo a desigualdade é estrutural e tende a se aprofundar historicamente, a possibilidade de erigir um edifício democrático sobre um terreno tão inseguro somente existe quando se fazem significativos recortes no projeto democrático. A própria dinâmica dos mercados - em que o controle está depositado nos setores oligopolizados e é exercido verticalmente, de cima para baixo, com sua lógica excludente e sua insaciável tendência a mercantilizar todas as esferas da vida social - é radicalmente incompatível com as necessidades de uma ordem democrática, na qual o processo decisório deve ser ascendente, partindo da base, e cuja lógica, em contraste, prevê a ampliação da cidadania até cobrir o conjunto da população a partir da desmercantilização de tudo aquilo que o capitalismo mercantilizou."


Extraído de BORON, Atilio. Aristóteles em Macondo: reflexões sobre poder, democracia e revolução na América Latina. Rio de Janeiro: Pão e Rosas, 2011, p. 11.




domingo, 22 de janeiro de 2012

Polícia Militar ignora sentença e promove massacre no Pinheirinho



De maneira inesperada e ilegal, a Polícia Militar de São Paulo iniciou a invasão e o despejo dos moradores da comunidade do Pinheirinho. Na operação, que pegou de surpresa os moradores, participam cerca de 2 mil policiais militares, incluindo a Rota e Tropa de Choque, que utilizam blindados, helicópteros, cavalaria, armamentos letais, balas de borracha e gás lacrimogêneo e pimenta.


Segundo moradores que informaram a Agência de Notícias das Favelas, podem haver sete mortes. Um diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos afirma que há 5 civis mortos, um policial e um morador em estado grave. Celulares, telefones e internet foram cortados. Crianças e idosos estão cercados no interior da ocupação e o advogado da ocupação, Toninho, foi atingido por bala de borracha e foi preso. A informação que nos chega direto do Pinheirinho é que todas as lideranças e principais ativistas envolvidos na resistência foram presos, alguns brutalmente espancados, como testemunhou um de nossos colaboradores. O clima é de guerra civil, um massacre.



Atualização de 19h45: Informação dada pela Fábrica Ocupada Flaskô: Segundo Pedro Santinho, que está em frente ao Pinheirinho, ele relatou transtornado, por telefone, que a polícia acabou de matar uma mulher à tiros na área de triagem em frente, onde várias pessoas estão confinadas. Uma ambulância a levou.



Atualização de 19h35: Na capital paulista, o movimento de protesto e solidariedade à ocupação Pinheirinho, que tomou conta de todas as faixas da Avenida Paulista no sentido Pacaembu nas últimas horas, está agora em torno de 150 a 200 pessoas e em função da forte chuva tornou-se difícil de se organizar. Apenas três viaturas, com cerca de dez policiais, foram empregadas para acompanhar a manifestação. O movimento, que se reuniu no vão do MASP desde 17h, chegou a ter mais de 300 participantes.



Em frente ao Tribunal Regional Federal, após uma série de intervenções de dirigentes sindicais, estudantis e de movimentos sociais diversos, foi apresentada a proposta do movimento de solidariedade ao Pinheirinho marchar até a Favela do Moinho, na região central, que sofreu incêndio criminoso semanas atrás e ficou inteiramente destruída. Lá está ocorrendo um evento de hip hop chamado Festival Moinho Vivo.



O Festival será na rua Doutor Elias Chaves, 20, próximo ao viaduto da Avenida Rio Branco, e terá a participação de Mano Brow, Emicida e outros rappers.



Atualização de 19h20: Marrom, um dos líderes da comunidade do Pinheirinho, confirmou a morte de três pessoas durante o massacre operado pelas forças policiais às 6h da manhã. Uma grávida e dois moradores. Ainda não há os nomes e nem confirmações de entidades oficiais.



Atualização de 19h05: Neste momento os moradores se aglomeram atrás das grades onde estão confinados e assistem os tratores passando por cima das casas. Os moradores que gritavam contra o trator são respondidos com tiros de balas de borracha, enquanto fios elétricos estão sendo cortados dos postes pela empresa responsável junto com a Polícia Militar. Os moradores resistem atirando pedras contra a polícia, que protege o trator que destrói as casas. A trilha sonora, segundo informa Felipe Milanez, é de helicóptero, tiros, pedras no chão, o trator ao fundo e muitos gritos e tiros. Felipe relatou inclusive que a polícia jogou bomba de gás lacrimogêneo onde havia visto mulheres e crianças se escondendo, seguido de muitos gritos de crianças e mais sons de bombas. Na sequência a polícia atacou moradores que estavam fazendo recadastramento. Segundo informou o jornalista, no local onde estavam sendo encaminhadas as pessoas foram jogadas bombas de lacrimogêneo, provocando mais pânico, choros e gritos entre os moradores. Enquanto isso, a polícia segue jogando pimenta no local para expulsar os moradores do local onde haviam sido encaminhados.



Atualização de 18h50: Um de nossos colaboradores no Pinheirinho informa que, além do massacre ocorrido logo às 6h da manhã, moradores e moradoras do Campo dos Alemães, uma vila localizada ao lado da comunidade do Pinheirinho, foram às ruas armados e enfrentaram as forças policiais em solidariedade à ocupação. Este confronto foi intenso e há suspeita de que possa ter morrido muitas pessoas, já que tanto moradores quanto policiais utilizaram armas letais. Vários moradores e dois guardas municipais foram gravemente feridos.



No Pinheirinho há confirmação que o morador Buiú foi ferido gravemente e há suspeita de que ele possa ter falecido no hospital, já que sofreu um tiro que atravessou a barriga e as costas.



Atualização às 18h30: Um colaborador de Diário Liberdade que está na Avenida Paulista participando do protesto convocado em solidariedade à luta e resistência dos moradores da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, relatou que há cerca de 300 pessoas na manifestação e tomaram todas as pistas da Avenida no sentido Pacaembu. A chuva aperta e os manifestantes se negam a liberar uma faixa, como a polícia solicitou. Os manifestantes marcham rumo ao Tribunal Regional Federal.

Atualização às 17h45: Outro colaborador do Diário Liberdade nos ligou informando que os moradores confirmam três mortes, sendo uma delas de uma grávida que faleceu ainda na comunidade do Pinheirinho. Ele informou também que a dificuldade da apuração destas informações se dá em função dos principais dirigentes ou por estarem presos, ou por terem sido feridos, o que deixou os moradores com menos capacidade organizativa.



Atualização às 17h10: Nosso repórter confirma que houve uma morte e muitos feridos, mas continuam as dificuldades de se apurar. Um líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) chamado Guilherme Boulos foi espancado por mais de dez policiais até ficar completamente ensanguentado e está gravemente ferido. Um sindicalista sofreu um tiro de bala de borracha na face e está no hospital. A Guarda Civil Municipal está coordenando a repressão e a polícia está usando pistolas letais e mirando e atirando em moradores que resistem, além de dar tiros ao alto para dispersar a resistência popular. Ao início da repressão, pela manhã, os helicopteros atiraram balas de borrachas e gás pimenta contra crianças e moradores. No total, há 16 moradores e ativistas presos, confirmados oficialmente.



Atualização às 16h30: Neste momento a Polícia Militar está deslocando forçadamente os moradores para um acampamento de lona logo ao lado da comunidade Pinheirinho. Os moradores que tentam resistir estão sendo presos ou são alvejados por balas de borrachas. Um repórter de Diário Liberdade que está lá quase foi atingido e nos informou que a polícia está mirando na cabeça da resistência. Segundo ele, não há sequer condições para apuração e confirmação dos números de mortos (se há) e de pessoas que se feriram gravemente, dada o caos instalado no local.


Neste domingo, por volta das 6h da manhã, sem aviso prévio, a Polícia Militar e suas Tropas de Choque atacaram a comunidade do Pinheirinho, numa operação para a desocupação do bairro ordenada pelo PSDB de Alckmin contra a os cerca de dez mil moradores pobres da região. Há resistência ativa das moradoras e moradores do Pinheirinho, no interior do estado de São Paulo. A polícia também ronda o Sindicato dos Metalúrgicos para impedir a chegada de solidariedade. Marrom, líder comunitário, está desaparecido e câmeras e celulares estão sendo apreendidos. As forças de repressão tornaram o local inacessível e foram convocadas as polícias de 33 municípios para promover o massacre.



Há informações contraditórias de que políticos como o deputado Ivan Valante (PSOL), o senador Eduardo Suplicy (PT) e o líder socialista Zé Maria (PSTU) foram isolados pelas forças de repressão na Escola Edgar, que posteriormente foram desmentidas pelas assessorias de imprensa dos parlamentares que afirmaram que estavam em negociação na escola. Parte da imprensa afirma que o senador Suplicy não esteve no Pinheirinho hoje, e sim no sábado, mas o UOL confirma a detenção. Há jornalistas que confirmam que os políticos e os professores Almir Bento Freitas e Lourdes Quadros Alves também foram detidos na Escola Edgar. Almir e Lourdes são diretores do Sinpeem (Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo). Os deputados federais Paulo Teixeira (PT) e Carlinhos Almeida (PT) estão no local tentando uma negociação.



A rede social Twitter, como já é procedimento padrão, retirou a hashtag #Pinheirinho dos Trending Topics, que estava em primeiro lugar na pauta brasileira. Após a reclamação de centenas de usuários, a empresa responsável retornou com a hashtag aos Trending Topics.



Testemunhos audiovisuais



Incorporamos a continuação três sequências em vídeo da invasão e da repressão no Pinheirinho no dia de hoje:


Vídeo 1



Vídeo 2







Vídeo 3






Reintegração de posse ilegal



O Comando da Polícia Militar havia recebido uma ordem judicial determinando a suspensão imediata da reintegração de posse do Pinheirinho. A ordem foi assinada pelo juiz plantonista Samuel de Castro Barbosa Melo, da Justiça Federal, a mando do Tribunal Regional Federal. Portanto, a desocupação está descumprindo uma ordem judicial federal e é totalmente ilegal. A ordem de reintegração foi determinada pela juíza cível Márcia Loureiro.



A ordem de suspensão foi portanto anulada, já que um grande dispositivo policial participa na operação repressiva, na qual estão sendo utilizadas balas letais e balas de borracha contra as pedras jogadas pela população. O jornal O Vale informa de que no local se vive um clima de guerra, com todas as entradas barradas e controladas por efetivos da PM. Principais líderes populares já estão detidos, enquanto os moradores e moradoras fizeram barricadas com pneus ardendo para tentar deter o avanço da força repressiva.



A luta da comunidade do Pinheirinho



A comunidade do Pinheirinho é um terreno de mais de 1 milhão de metros quadrados, situado em São José dos Campos, onde moram cerca de 10 mil pessoas desde 2004. A desocupação dos terrenos atende aos interesses dos capitalistas imobiliários e respondem à denúncia da empresa Selecta, do investidor libanês Naji Nahas, que deve R$ 15 milhões à prefeitura da cidade, sendo protagonizada pela Polícia Militar sob as ordens do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).



Na terça-feira, dia 17 de janeiro, a Justiça Federal ordenou deter a desocupação, enquanto a justiça estadual reclamava a incompetência dos tribunais federais para julgarem o caso.



Manifestantes bloqueiam rodovia Dutra em solidariedade ao Pinheirinho



No quilômetro 154, cerca de 40 manifestantes bloquearam a rodovia Dutra, na direção Rio de Janeiro, em solidariedade aos moradores do Pinheirinho, veja foto ao lado. São cerca de 10km de engarrafamento e a Polícia Rodoviária Federal já está no local tentando retirar os manifestantes. Houve acordo entre os manifestantes e a polícia para efetuar a liberação de uma pista da estrada.







À memória de Antonio Gramsci


Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro


"Alguns me consideram um demônio, outros quase um santo. Não quero ser mártir nem herói. Acredito ser simplesmente um homem médio, que tem suas convicções profundas e não as troca por nada no mundo."
Carta de Gramsci, do cárcere, a seu irmão Carlo, em 12 de setembro de 1927.
 

Em 22 de janeiro de 1891 nascia, em Ales (Cagliari, Sardenha, Itália), Antonio Gramsci, um dos mais importantes pensadores marxistas e valoroso combatente comunista, uma dupla condição que não podemos esquecer. Morreu em 1937, vítima do ditador fascista Benito Mussolini. Em 1926, Gramsci foi condenado por um tribunal fascista, em 1926, a vinte anos de detenção, num processo no qual o promotor, com a brutalidade típica dos fascistas, mencionava a necessidade de "evitar que esse cérebro continue funcionando". Apesar das duras condições da prisão, Gramsci deixou ao morrer uma obra de grande importância escrita no cárcere: 33 cadernos manuscritos, totalizando 2.848 páginas, conhecidos como os Cadernos do cárcere. Coube ao dirigente revolucionário italiano um papel extraordinário no que diz respeito à teorização do Estado, do poder e da política. Tendo por base o conceito de hegemonia, elaborado e amplamente utilizado por Lênin, em particular em sua obra O Estado e a Revolução, Gramsci o viria a desenvolver de forma criativa. As reflexões de Gramsci se inscrevem como um capítulo fecundo na tradição marxista, estabelecendo uma perspectiva crítica capaz de entender o mundo e, o que é mais importante, transformá-lo. Contudo, a leitura dos escritos de Gramsci não é uma tarefa fácil. Indiscutivelmente, nas reflexões dos Cadernos do cárcere está presente a proposição básica de que as classes sociais, o conflito de classes e a consciência de classe existem e desempenham um papel na história.


Para entender Gramsci


Para compreender um autor, é necessário conhecer profundamente o contexto histórico-político-cultural com o qual está envolvido. Um pensador da envergadura de Antonio Gramsci requer entender o processo de formação da sua personalidade política e intelectual. A vivência dos momentos mais dramáticos das lutas que agitaram a Europa e, particularmente, das mobilizações sociais, políticas e econômicas que levaram, ao menos na Rússia, à vitória da Revolução em 1917. O progressivo deslocamento de Gramsci da esfera de influência do neo-idealismo, destacando o distanciamento crítico e a superação em relação ao pensamento de Benedetto Croce e Giovanni Gentile. Seu referencial marxista assumido, que o leva a formular propostas interpretativas voltadas para a explicação de modos de dominação social em meio à dinâmica do conflito, da luta de classes. A espinhosa interlocução crítica de Gramsci no interior do próprio marxismo e os embates travados com as correntes mecanicistas, dogmáticas e messiânicas [1]. A problemática gramsciana de “explicar a dominação de classes, recusando determinismos de cunho mecanicistas e procurando explicitar mecanismos culturais (sem reivindicar-lhes exclusividade ou determinismo de pólo inverso) que alimentam a dominação, bem como espaços de resistência a esta dominação que se constroem em meio às lutas de classes” [2].

Tanto os leitores já familiarizados com Antonio Gramsci quanto os novos, a meu ver, dispõem da necessidade de contato com os chamados “especialistas” ou intérpretes dos escritos gramscianos. Justamente por apresentar-se – nas palavras do próprio autor – como um conjunto de notas “escritas ao correr da pena, como rápidos apontamentos para ajudar a memória” [3], a obra da maturidade de Antonio Gramsci – os Cadernos do cárcere – tem proporcionado as mais variadas interpretações teóricas e políticas da mesma – e até contrastantes leituras [4]. Decerto, as condições peculiares nas quais os Cadernos foram escritos parecem corroborar para que muitos leitores acentuem além da conta o caráter fragmentário da obra, acarretando um instrumental gramsciano distorcido e, de todo, retirado do contexto em que faz sentido. Acaba-se, em muitos casos, contando menos o que Gramsci disse do que aquilo que os seus leitores julgam encontrar em sua obra – o anacronismo é freqüente. Daí a necessidade de uma correta contextualização e um estudo filológico dos textos, ou seja, uma leitura “genética” dos Cadernos do cárcere, considerando a riqueza de seus contrastes, de suas ambigüidades e até de seus limites [5]. Isso permite aos leitores de Gramsci, veteranos ou novatos, encontrar o trajeto unitário e coerente do seu pensamento, possibilitando ler os Cadernos como resultado de uma concepção de mundo orgânica e unitária.

O conjunto de categorias desenvolvidas por Antonio Gramsci constitui um campo aberto de criação histórica, apesar dos limites inerentes a qualquer conceito. Mas o que explica essa “adoção” de Gramsci é a análise da validade operatória de muitas de suas categorias para formular interpretações mais aprofundadas da realidade concreta no âmbito nacional ou internacional.
 
 
[1] Para compreender o processo de formação política e intelectual de Gramsci ver: LOSURDO, Domenico. Antonio Gramsci: do liberalismo ao “comunismo crítico”. Rio de Janeiro: Revan, 2006; MAESTRI, Mário e CANDREVA, Luigi. Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário. 2 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

[2] MATTOS, Marcelo Badaró. “Os historiadores e os operários: um balanço”. In: ____ . (coord.). Greves e repressão policial ao sindicalismo carioca: 1945-1964. Rio de Janeiro: APERJ / FAPERJ, 2003, p. 33.

[3] GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere. V. 1. Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 85.
 
[4] Por exemplo, há muita polêmica em torno das interpretações dos usos de “sociedade civil”, “sociedade política” e Estado em Gramsci.


[5] Muitos estudos atendem a esse propósito, entre eles: BARATTA, Giorgio. As rosas e os Cadernos: o pensamento dialógico de Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: DP&A, 2004; BIANCHI, Álvaro. O laboratório de Gramsci: filosofia, história e política. São Paulo: Alameda, 2008; COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003; LIGUORI, Guido. Roteiros para Gramsci. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2007; SEMERARO, Giovanni. Gramsci e a sociedade civil: cultura e educação para a democracia. 2 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.