quinta-feira, 30 de julho de 2015

Para download: "Lembrando Florestan Fernandes", de Antonio Candido

O blog MARXISMO21 postou um valioso documento sobre a figura e a obra de FLORESTAN FERNANDES, de autoria de Antonio Candido. Esta pequena obra teve apenas uma única edição com 100 exemplares.



 LINK PARA DOWNLOAD:


"A depender de governo e oposição, caos social vai se aprofundar"

 Entrevista do historiador Marcelo Badaró Mattos ao jornalista Gabriel Brito, do Correio da Cidadania

Para fazer um balanço do primeiro semestre deste tenso ano político, o Correio da Cidadania entrevistou o historiador Marcelo Badaró Mattos, em meio a um recesso parlamentar que parece guardar brigas de peso para agosto. Além de afirmar que a tendência é vermos a piora do quadro recessivo, o entrevistado analisou o ‘fenômeno’ Eduardo Cunha e diminuiu o peso de eventuais desdobramentos da Operação Lava Jato.

“A pauta reacionária de Cunha e seus aliados - a redução da maioridade penal, a regressão nos direitos reprodutivos, a tentativa de dirigir os currículos educacionais e as práticas pedagógicas por um viés claramente reacionário etc. - é perfeitamente funcional ao esforço de disciplinamento e apassivamento de uma força de trabalho submetida a um processo de exploração/expropriação e opressão ampliadas”, afirmou o professor da Universidade Federal Fluminense.

Sobre as investigações de propinas em contratos de obras públicas realizadas por grandes empreiteiras, Badaró diz que “a Lava Jato serve tanto aos interesses da oposição, que mantém em pauta a denúncia da corrupção petista e o fantasma do envolvimento de Lula e Dilma, quanto ao esforço petista de se apresentar como vítima de um complô tucano, com ramificações no judiciário e na Polícia Federal”.

Dessa forma, a sociedade só poderia vislumbrar um movimento de rejeição ao ajuste fiscal com a formação de um polo totalmente crítico ao governo e suas políticas nocivas aos direitos trabalhistas, algo já verificável na realidade. “As medidas adotadas nos primeiros seis meses do segundo mandato de Dilma representam um alinhamento, em momento que a crise reduz as margens para qualquer compensação social”, diz ele, que apesar de não descartar retrocessos institucionais, acredita que o impeachment “não está colocado no imediato, pois no que diz respeito aos interesses do grande capital o governo tem sido exemplarmente fiel”.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Qual o balanço que você faz do primeiro semestre na política e economia brasileiras, especialmente no que se refere às posturas que vêm sendo adotadas pelo governo e pela sua mandatária?

Marcelo Badaró: O governo Dilma, através da coalizão partidária liderada pelo PT, foi reeleito após uma disputa muito polarizada, com uma campanha que procurava imputar ao principal adversário – Aécio Neves, do PSDB – a ameaça de uma política econômica recessiva, de mais privatizações e retirada de direitos dos trabalhadores. Exatamente o que Dilma reeleita, já a partir de dezembro do ano passado, começou a executar, demonstrando que suas promessas de campanha não eram nada mais que... Promessas de campanha. Sem dúvida, Aécio Neves e a coalizão liderada pelo PSDB teriam feito o mesmo se tivessem sido eleitos.

Isso se explica em grande medida pelo quadro de acentuação dos impactos da crise capitalista na economia brasileira. Diante da retração das taxas de lucro, especialmente do chamado “setor produtivo”, o capital encontra como saídas a busca de mais rendimentos “financeiros” e, ao mesmo tempo, a ampliação da taxa de exploração sobre os trabalhadores, expropriando-os de direitos.

Nos dois casos, como gestor da dívida pública/taxa de juros e como espaço de regulação legal das relações capital/trabalho, o papel do Estado é fundamental. Os governos liderados pelo PT, desde 2003, nunca titubearam em alinhar-se com os interesses do capital em todas as questões decisivas que até aqui enfrentaram e não seria diferente agora.

As medidas adotadas nos primeiros seis meses do segundo mandato de Dilma representam exemplarmente esse alinhamento, em um momento em que a crise reduz as margens para qualquer tipo de compensação social. A elevação da taxa de juros (com a dívida pública ultrapassando a fatia de 50% do orçamento federal destinado a seu pagamento, juros e rolagem), a retirada de direitos trabalhistas, os cortes do orçamento nas áreas sociais (especialmente na educação, mostrando a hipocrisia do slogan da “Pátria Educadora”), são todas políticas que confirmam essa avaliação.

Correio da Cidadania: O que justifica a ‘força’ de Eduardo Cunha neste período?

Marcelo Badaró: Para além da autonomia relativa da dinâmica parlamentar brasileira - em que um presidente da Câmara pode ser eleito por fazer mais promessas de vantagens pecuniárias e mordomias para deputados - há dois elementos que me parecem importantes para entender o papel atual desse personagem, que ingressou na vida política sob o apadrinhamento de P.C. Farias.

No plano da superfície do jogo político, Cunha representa os impasses do “presidencialismo de coalizão”, como costumam chamar os cientistas políticos, em que os presidentes eleitos, sem maioria parlamentar exclusiva de seu partido, estabelecem alianças nos moldes mais fisiológicos (apoio em troca de cargos nos diversos escalões do Executivo, empresas estatais, agências reguladoras etc., além de liberação de “emendas parlamentares” e apoio às propostas corporativas das “bancadas” setoriais, como os “ruralistas” ou os “evangélicos”).

Ele é a expressão de uma “base aliada” que quer maximizar seus ganhos e benefícios nessa lógica do “é dando que se recebe”. Por outro lado, e indo além desse aspecto, a pauta reacionária de Cunha e seus aliados - a redução da maioridade penal, a regressão nos direitos reprodutivos, a tentativa de dirigir os currículos educacionais e as práticas pedagógicas por um viés claramente reacionário etc. - é perfeitamente funcional ao esforço de disciplinamento e apassivamento de uma força de trabalho submetida a um processo de exploração/expropriação e opressão ampliadas.

Não à toa, mesmo com todas as chantagens políticas ao Planalto, a pauta da retirada de direitos dos trabalhadores é toda encaminhada positivamente por Cunha e os seus.

Correio da Cidadania: O que espera do retorno do recesso parlamentar, em agosto, quando várias brigas políticas, voltadas aos mais diversos interesses, parecem anunciadas? O que ocorrerá, mais especificamente, a seu ver, com o PMDB, que não abraçou o rompimento de Cunha com o governo?

Marcelo Badaró: O PMDB, desde a redemocratização, é um partido que orbita sempre em torno do Executivo, cumprindo o papel de fornecer a maioria parlamentar necessária, em todo um mandato ou nos momentos-chave, em troca do controle de determinadas fatias da máquina pública. No quadro atual, ampliar a chantagem sobre o Executivo para obter fatias maiores do seu “botim” faz sentido, mas romper completamente com o governo só se justificaria se a correlação de forças se alterasse a ponto de uma queda de Dilma, o que não parece ser o “plano A” das classes dominantes neste momento.

Correio da Cidadania: Acredita que os desdobramentos da Operação Lava Jato, que parecem atingir cada vez mais quadros políticos de peso, poderão arrefecer os ânimos e produzir “acordos de paz”?

Marcelo Badaró: Apesar da novidade de um processo policial/judiciário de investigação da corrupção chegar aos corruptores, não acredito que a Operação Lava Jato terá papel determinante nos desdobramentos do quadro político brasileiro atual. Ela serve tanto aos interesses da oposição, que mantém em pauta a denúncia da corrupção petista e o fantasma do envolvimento de Lula e Dilma, quanto ao esforço petista de se apresentar como vítima de um complô tucano, com ramificações no judiciário e na Polícia Federal.

Correio da Cidadania: O que espera das manifestações, à esquerda e à direita”, agendadas para agosto?

Marcelo Badaró: As manifestações de março demonstraram, entre outras coisas, que a direita política, pela primeira vez desde os tempos do governo Goulart, resolveu assumir o papel de promover mobilizações de rua como estratégia política. No que foi apoiada/financiada pelos novos/velhos aliados externos (os links dos “líderes” da “nova” direita brasileira com organizações estadunidenses têm sido demonstrados em diversas análises) e, principalmente, insuflada pelo enorme esquema de cobertura televisiva das Organizações Globo e outros veículos de comunicação empresariais. Algo que representa, sim, uma ameaça séria de retrocesso político, que não podemos desprezar.

No entanto, o fracasso das chamadas posteriores de mobilização daquelas mesmas forças demonstrou que não é fácil reproduzir muitas vezes aquele modelo. Por outro lado, por parte das forças que apoiam o governo, é mais difícil ainda mobilizar bases sociais organizadas da classe trabalhadora com a paradoxal proposta de combater as políticas de “austeridade” implementadas pelo governo liderado pelo PT e, ao mesmo tempo, defender esse mesmo governo de supostas ameaças golpistas vindas da direita.

Manifestações verdadeiramente à esquerda dependem da criação de um polo autônomo em relação ao governo, e resolutamente crítico da direita reacionária, que combata com consequência todas as medidas que retiram direitos dos trabalhadores e os cortes no orçamento social, apontando para a necessidade de romper com a lógica da dívida e desnudando o sentido de classe (a favor do capital) do governo Dilma e da oposição de direita.

Correio da Cidadania: O que caberia no momento aos grupos e movimentos favoráveis a um projeto alternativo? Quais seriam esses grupos e qual a possibilidade de partirem para uma ação conjunta?

Marcelo Badaró: Neste momento, em que acontecem greves de servidores públicos federais e setores estaduais, como as Universidades baianas (após as greves de profissionais da educação em diversos estados, com destaque para o Paraná), o primeiro passo é cerrar fileira em apoio a esses movimentos, que indicam uma primeira e importantíssima onda de resistência às políticas de austeridade.

O passo seguinte é a construção necessária e difícil de uma greve geral no país. Em meio a esses processos de luta poderiam emergir movimentos, processos organizativos e lideranças capazes de criar um polo combativo e classista a unificar o sindicalismo e outros movimentos sociais da classe trabalhadora do campo e da cidade.

Do ponto de vista das bases sociais, o desafio é aglutinar os trabalhadores organizados - não apenas no pequeno setor mais autônomo e combativo do sindicalismo brasileiro, mas disputando as bases dos burocratas sindicais, governistas ou não - com os amplos setores da classe não representados pelo movimento sindical, que manifestaram de forma muito explícita seu descontentamento durante as “jornadas de junho” de 2013.

Correio da Cidadania: Como acredita que caminhará este mandato de Dilma, no médio e longo prazo, em especial com os ventos de impeachment pairando vez ou outra nos debates?

Marcelo Badaró: A depender das forças políticas que apoiam o governo e da oposição de direita, a tendência é de aprofundamento das políticas de austeridade, que já estão conduzindo o país ao desastre social - com a rápida elevação das taxas de desemprego, a queda nos rendimentos do trabalho e o desmanche dos serviços públicos, estrangulados pelos cortes de verba. A hipótese do impeachment não pode ser descartada, especialmente se o crescimento do descontentamento com tal desastre social for dirigido pela perspectiva da direita e apresentado como um mero resultado da “corrupção” petista.

No entanto, ela não está colocada no plano imediato, pois no que diz respeito aos interesses imediatos do grande capital o governo Dilma tem sido exemplarmente fiel. Como disse um amigo, diante do anúncio de mais um período de recorde de lucros de um grande banco: “é por essas e por outras que não vai ter impeachment”.

Do lado das forças do trabalho, a interrupção do ciclo da austeridade dependerá essencialmente de uma nova onda de lutas sociais, capazes de gerar um outro polo organizado da classe trabalhadora, que apresente-se como alternativa de classe às políticas do capital.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A vergonha de Caetano e Gil em Israel

Artistas que realmente acreditam que as políticas de Israel são inaceitáveis apoiariam, certamente, um movimento de boicote global, não violento, como o BDS 
Por Ofer Neiman e Yonatan Shapira, O Globo  
Caetano e Gil visitam território palestino e se encontram com Shimon Peres em Israel (Foto: Gideon Markowicz / AFP)

Em uma amostra de relações-públicas superficialmente disfarçada, Caetano Veloso declarou nesta segunda em Tel Aviv: “Acho inaceitável a ocupação, mas sou só um brasileiro, visitante, cantor. Esse é um problema dos israelenses”.

Como cidadãos israelenses, temos visto, vez após outra, que a ocupação e apartheid de Israel não são um problema que israelenses estão dispostos ou capazes de resolver sozinhos.

Infelizmente, esse “problema” também chegou à porta brasileira há muitos anos: o Brasil é o quinto maior importador de armas de Israel. Contratos assinados entre os governos brasileiro e israelense chegam quase ao valor de US$ 1 bilhão.

De veículos blindados vindos de Israel para as ocupações policiais das favelas ao treinamento israelense das polícias militares no Rio e em São Paulo, trata-se de dinheiro do imposto de cidadãos brasileiros.

Caetano e Gil disseram que vieram a Israel em apoio a um “diálogo”. Palestinos vivendo sob a ocupação e apartheid israelenses costumam dizer, e estão certos, que não pode haver diálogo entre um cavalo e seu cavaleiro.

Nós sabemos que diálogos significativos só podem começar quando o opressor percebe que suas políticas não são mais aceitáveis. Artistas que realmente acreditam que as políticas de Israel são inaceitáveis apoiariam, certamente, um movimento de boicote global, não violento, como o BDS — baseado no modelo sul-africano de campanha contra o apartheid.

Eles declararam que estavam aqui em Israel para “aprender” sobre a situação. Não é necessário mais do que uma mente aberta e acesso à internet para entender a realidade da ocupação e apartheid de Israel contra o povo palestino — assim como não é necessário ir à Síria para entender a natureza dos crimes que estão sendo cometidos lá. Além disso, nós e outros convidamos ambos a virem ver a realidade aqui sem prover entretenimento às massas privilegiadas de Tel Aviv.

Os slogans de “paz” de Caetano e Gil, 48 anos depois da ocupação israelense da Cisjordânia e Gaza e 67 anos depois da Nakba, a limpeza étnica da Palestina, não são mais do que uma retórica de lavagem política, a qual mantém as pessoas distantes de uma discussão séria sobre a realidade assimétrica sob controle israelense.

Paz só pode vir como um resultado, resultado da igualdade perante os direitos humanos e o fim da opressão. Eles falharam em focar nos crimes e violações de direitos humanos que constituem, diariamente, um sistema de ocupação e apartheid contra milhões de pessoas palestinas.

Em nossa opinião, talvez a pior das ações tomadas por Caetano e Gil em Israel tenha sido sua reunião com Shimon Peres. Este talvez tenha enganado pessoas no passado, com seus longos discursos românticos sobre paz, mas qualquer um olhando para seu currículo percebe que Peres é um inimigo da paz.

Enquanto primeiro-ministro de Israel, ele foi responsável pelo bombardeamento indiscriminado do Líbano na primavera de 1996, matando muitos civis e expulsando a milhares de libaneses refugiados de suas casas.

Na função de ministro da Defesa, em 1986, Peres autorizou o sequestro e tortura do israelense Mordechai Va’anunu, que revelou ao público informações sobre o programa nuclear de Israel. Ele também fundou o Centro Nuclear militar israelense de Dimona, um projeto que instigou uma corrida armamentista perigosa e não convencional no Oriente Médio.

Há também evidência substancial de seu apoio moral e militar ao brutal regime de apartheid da África do Sul e seu projeto nuclear.

Nós já testemunhamos inúmeros artistas vindo se apresentar em Israel pela “paz”. Nenhum deles deixou um legado político aqui. Nenhum deles começou uma onda de dissidência e ativismo pelo fim dos crimes cometidos pelo governo israelense contra milhões de pessoas.

Por outro lado, artistas que escolheram não se apresentar aqui deram uma mensagem moral clara: esses crimes não serão tolerados!

Nesta segunda-feira, Caetano Veloso e Gilberto Gil forneceram serviços de propaganda ao regime de apartheid de Israel e seus esforços anti-BDS. Só se pode esperar que eles farão como Roger Waters, que se apresentou aqui mas depois percebeu que cometeu um erro.

Talvez eles também percebam que o movimento global e não violento de BDS é o caminho para justiça, igualdade e — só quando estas forem alcançadas — paz.

Ofer Neiman e Yonatan Shapira são israelenses que apoiam a campanha do BDS

FONTE: Blog do Noblat

21 poemas inéditos de Pablo Neruda, um dos maiores poetas de todos os tempos

“Teus Pés Toco na Sombra e Outro Poemas Inéditos” está sendo lançado no Brasil em edição bilíngue (português e espanhol) pela José Olympio e conta com fac-símiles de manuscritos de Neruda. O prólogo da edição é assinado por Pere Gimferrer, escritor e crítico literário espanhol.

Um dos maiores acontecimentos da Literatura nos últimos 30 anos, Teus pés toco na sombra reúne 21 poemas inéditos, encontrados recentemente nos arquivos de Pablo Neruda. Datilografados ou escritos à mão em cardápios ou prospectos de companhias aéreas, os poemas neste livro são um precioso acréscimo à obra completa do autor, pois foram escritos por um período de três décadas, tocam todos os temas centrais de sua poesia e vão do poema curto até outros de grande fôlego e extensão.

O poeta e diplomata chileno Pablo Neruda é, sem dúvida, uma das mais altas vozes da poesia de todos os tempos. Prêmio Nobel de Literatura, já foi traduzido para dezenas de idiomas no mundo inteiro e é presença garantida em qualquer lista das maiores personalidades literárias do século XX.




Título: “Teus Pés Toco na Sombra e Outro Poemas Inéditos”
Autor: Pablo Neruda
Tradução: Alexei Bueno
Editora: José Olympio
Páginas: 144

 

terça-feira, 28 de julho de 2015

"Prestes: O Cavaleiro do Socialismo" - TV ALERJ - Junho/2009







TV ALERJ - Junho/2009
"Prestes: O Cavaleiro do Socialismo"
Entrevista com Anita Prestes (Parte 1)
http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=44&Itemid=71

TV ALERJ - Junho/2009
"Prestes: O Cavaleiro do Socialismo"
Entrevista com Anita Prestes (Parte 2)
http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=46&Itemid=149   

TV ALERJ - Junho/2009
"Prestes: O Cavaleiro do Socialismo"
Entrevista com Anita Prestes (Parte 3)
http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=45&Itemid=150 

TV ALERJ - Junho/2009
"Prestes: O Cavaleiro do Socialismo"
Entrevista com Anita Prestes (Parte 4)
http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=47&Itemid=151  

 

sábado, 25 de julho de 2015

25 de julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra


A data é um marco internacional da luta e resistência da mulher negra contra a opressão de gênero, o racismo e a exploração de classe. Foi instituída, em 1992, no I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas, para dar visibilidade e reconhecimento a presença e a luta das mulheres negras nesse continente.  

O Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra foi instituído através da Lei nº 12.987 de 2 de junho de 2014. A inspiração vem do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, marco internacional da luta e da resistência da mulher negra criado em 25 de julho de 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas na República Dominicana.



Sobre a vida da líder quilombola, Tereza de Benguela, ícone da resistência negra no Brasil Colonial, leia o cordel escrito por Jarid Arraes publicado abaixo.



TEREZA DE BENGUELA
Na história do Brasil
Nas escolas ensinada
Aprendemos a mentira
Que nos é sempre contada
Sobre o povo negro e índio
Sobre a gente escravizada.
Nos contaram que escravos
Não lutavam nem tentavam
Conquistar a liberdade
Que eles tanto almejavam
E por isso só passivos
Os escravos se ficavam.
Ô mentira catimboza
Me dá nojo de pensar
Pois o povo negro tinha
Muita força exemplar
E com muita inteligência
Sempre estavam a lutar.
Um exemplo muito grande
É Tereza de Benguela
A rainha de um quilombo
Que mantinha uma querela
Contra o branco opressor
Sem aceite de tutela.
No estado Mato Grosso
Tinha o tal Quariterê
Um quilombo importante
Para livre se viver
Cooperando em coletivo
Guerreando pra vencer.
José Piolho era o marido
Mas chegou a falecer
Então Tereza de Benguela
Veio pois rainha a ser
Liderando com firmeza
Na certeza de crescer.
No quilombo liderado
Era possível encontrar
Estrutura de política
Que seria de invejar
E a administração
Também era exemplar.
Tinha armas poderosas
Pra lutar e resistir
Com talento pra forjar
Se botavam a fundir
Objetos muito úteis
Para a vida construir.
As algemas e outros ferros
Que serviam de prisão
Lá na forja transformavam
Pra outra utilização
E com muita habilidade
Tinham outra intenção.
O quilombo tinha armas
Pela troca ou por resgate
E com muita resistência
Suportavam esse embate
Libertando muita gente
Pela via do combate.
O sistema muito rico
Tinha até um parlamento
E também um conselheiro
Pra rainha embasamento
Que exemplo grandioso
Era o gerenciamento!
Além disso ainda tinha
O plantio de algodão
E também lá se tecia
Pra comercialização
Os tecidos que vendiam
Fora da quilombação.
As comidas do quilombo
Que ali eram plantadas
Dividas entre todos
Também comercializadas
Tudo aquilo que sobrava
Para venda enviadas.
Tinha milho e macaxeira
E também tinha feijão
Sem esquecer a banana
Com fins de alimentação
E as sobras, como disse
Pra comercialização.
Foi por isso que Tereza
Duas décadas reinou
Com a força do quilombo
Que com garra liderou
E por isso pra história
A rainha então ficou.
Em 1770
Quariterê foi atacado
Por Luiz Pinto de Souza
o Coutinho era enviado
Pelo sistema escravista
O quilombo era acabado.
A população de negros
Setenta e nova se contavam
E a população de índios
Tinham trinta que restavam
Foram presos, foram mortos
Pelos que assassinavam.
De acordo com o registro
Tereza foi capturada
Mas depois de poucos dias
A rainha adoentada
Acabou-se falecendo
Da mazela ali tomada.
E os brancos matadores
A cabeça lhe cortaram
Exibindo em alto poste
Pra mostrar aos que ficaram
A maldade desses brancos
Que do racismo enricaram.
Na história brasileira
Ela deve ser lembrada
Como uma grande heroína
Para sempre memorada
Pela sua força e mente
Sempre homenageada.
Dia 25 de Julho
É o dia de lembrar
De Tereza de Benguela
Pois rainha exemplar
Foi durante sua vida
Sem jamais silenciar.
Que exemplo inspirador
Que mulher tão imponente
Foi Tereza de Benguela
Uma deusa para a gente
Que até hoje não desiste
Dessa luta pertinente.
Me revolta esse país
Que não fala na história
Dos seus feitos grandiosos
E de toda a sua glória
O silêncio é explicado
Pela vil racista escória.
É por isso que escrevo
Mulher negra também sou
E registro de Tereza
O legado que ficou
Pois bem poderosamente
A Tereza aqui reinou.
Faço humilde reverência
E saúdo a sua história
Agradeço pela luta
Que me foi dedicatória
Ao racista esquecimento
Faço uma denegatória.
Mulher negra de coragem
E também de inteligência
Com talento e liderança
Com imensa sapiência
Foi Tereza de Benguela
Fonte de resiliência.
Que seus feitos importantes
Não mais sejam esquecidos
Que o racismo asqueroso
Não lhes deixe escondidos
Pois são para o povo negro
Exemplos fortalecidos.
Oh Tereza de Benguela!
Nosso espelho ancestral
Sua alma ainda vive
E entre nós é maioral
Nós honramos sua luta
Sua força atemporal!
FIM

Companheiro Vito Giannotti, presente!!!

Segundo comunicado do Núcleo Piratininga de Comunicação, faleceu ontem, sexta-feira, 24 de julho, VITO GIANNOTTI. 

O Blog Prestes A Ressurgir lamenta essa perda e registra sua homenagem a vida de Vito Gionnotti. Um incansável combatente dedicado à luta pela emancipação da classe trabalhadora, pela construção de uma sociedade mais justa e mais democrática.

Em especial, Vito Giannotti deixa como referência sua luta pela democratização da comunicação.




sexta-feira, 24 de julho de 2015

O fascismo avança

Após aprovação do parlamento, lei que proíbe partidos comunistas entra em vigor na Ucrânia
Conforme a nova legislação, essas legendas não poderão propagar seu nome, seus símbolos, nem seu programa ou estatuto; PC russo critica medida

Após a aprovação do parlamento, a Ucrânia anunciou que entra em vigor nesta sexta-feira (24/07) a proibição às atividades dos três partidos comunistas existentes no país, bem como a sua participação nos processos eleitorais e na vida política do território.

Estátua de Vladmir Lenin foi derrubada durante protestos em Kiev (capital), em dezembro de 2013, durante onda anticomunista



"Este é um momento verdadeiramente histórico", anunciou o chefe do Conselho de Segurança e Defesa da Ucrânia, Alexander Turchinov.

A decisão foi confirmada à Agência Efe pelo ministro da Justiça, Pavel Petrenko, que detalhou que a proibição afeta o Partido Comunista da Ucrânia, o Partido Comunista (renovado) e o Partido Comunista dos Trabalhadores e Camponeses da Ucrânia.


“Depois de aprovadas as leis no parlamento, foi criada uma comissão que, ao longo de um mês efetuou um estudo dos três partidos comunistas da Ucrânia”, explicou o ministro, que assinou o decreto. Patrenko ainda destacou que essa “proibição” “será levada até as últimas consequências”.



Soldados do Exército ucraniano fazem exercícios na fronteira com a Rússia em meio ao conflito que ocorre desde o fim de 2013


Conforme a nova legislação, essas legendas não poderão propagar seu nome, seus símbolos, nem seu programa ou estatuto. A lei também obriga o Estado a investigar toda informação sobre os delitos cometidos durante os governos comunista e nazista.

Para o líder do Partido Comunista russo, Gennady Zyuganov, a decisão de Patrenko é "puramente arbitrária e uma vingança sobre seus adversários políticos". Ele também critica o fato de a lei equiparar comunistas aos nazistas.


Em fevereiro de 2014, ucranianos marcham em Kievcom retrato de Stepan Bandera, líder ultranacionalista e anticomunista,
que atuou durante a Segunda Guerra Mundial contra o Exército Vermelho e tropas polonesas, colaborando frequentemente com as unidades nazistas.

Em 9 de abril, o Parlamento da Ucrânia aprovou uma lei que legalizou todas as organizações políticas e paramilitares que lutaram contra o regime soviético durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive aquelas que colaboraram com os ocupantes nazistas.

Em maio, o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, sancionou a lei que implica também que todos os monumentos que glorificam os líderes soviéticos, incluindo as estátuas de Lênin, deveriam ser desmontados. Com a decisão, as autoridades ucranianas também querem rebatizar cidades, ruas e entidades cujos nomes tenham referências soviéticas.


FONTE: Opera Mundi



Texto e documento historiográfico: o método comparativo de Henri Pirenne

 
(p. 297-307)
Por Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva, Andrea Reis Ferreira Torres 
 

Para download: “Sociedad Civil y Hegemonía”, de Jorge Luis Acanda

Libro en pdf: Acanda, Jorge Luis: Sociedad Civil y Hegemonía

Jorge Luis Acanda (La Habana, 1954) es Profesor Titular de la Universidad de La Habana, en la cual imparte historia del pensamiento  marxista. Doctor en Filosofía por la Universidad de Leipzig. Vicepresidente de la Cátedra de Estudios Antonio Gramsci del Centro de Investigación y Desarrollo de la Cultura Cubana «Juan Marinello». Ha publicado más de treinta artículos en distintas publicaciones de cinco países.

Introducción

Fue Gramsci quien, en más de una ocasión, habló de “traducibilidad” para designar la posibilidad de trasladar los conceptos creados por una teoría a otra que, de esta manera, podía beneficiarse de los resultados de la primera. Esta expresión me viene siempre a la mente cuando me topo con las discusiones acerca del tema de la sociedad civil, bastante abundantes en el escenario internacional de las ciencias sociales, y por desgracia escasas en el nacional, si bien han sido casi las únicas que han animado la de por sí pobre polémica teórica criolla. Pero si la recuerdo es porque siempre lo que me ha maravillado es la intraducibilidad -por decirlo de alguna manera- de los lenguajes utilizados por muchos de los que entran en iza en torno al contenido de este concepto y el significado político de este fenómeno. Fue hacia 1995 cuando comencé a interesarme por el tema, durante una estancia de investigación en la Universidad de Castellón, donde la bibliografía procedente de varios países que pude consultar me hizo constatar que fuera de las fronteras cubanas predominaba lo mismo que ya había observado al interior de las mismas: la ignorancia de la mayoría de los que trataban el tema (incluidos muchos que se pensaban como marxistas) con respecto a su tratamiento gramsciano y la incapacidad de entenderlo si obtenían algún conocimiento del mismo. Simplemente, se movían en un universo conceptual radicalmente diferente al del autor de los Cuadernos, lo que hacía que, pesa al esfuerzo que algunos realizaban (otros ni se molestaban), no lograran aprehender lo esencialmente renovador del legado de este autor con respecto a este y a otros temas fundamentales de la teoría política, que los propios acontecimientos históricos que nos conmovieron -a finales de los años 80 y principios de los 90 del siglo XX- colocaron, como nunca antes, en primera línea.


Este es un libro, por lo tanto, acerca de Gramsci y de la sociedad civil. Y necesariamente por esto, de la cultura revolucionaria. El carácter dialéctico, y, por ende, relacional, de su concepción sobre los procesos que tienen lugar en la sociedad, hace que la herencia de este autor sea tan mal interpretada. Aunque muchos hablen de la dialéctica, ella sigue siendo un componente bastante escaso en el pensamiento de una buena parte de quienes se ocupan de la teoría social. Gramsci no entendía los fenómenos sociales como cosas, sino como sistemas de relaciones, como constelaciones expandidas de procesos que se imbrican entre sí. Es una idea que no voy a desarrollar en este momento, pues con posterioridad le dedico unas cuantas páginas.El origen de este libro, como ya dije, se remonta al año 1995, cuando empecé a ocuparme de la relación entre la cuestión de la sociedad civil y la posibilidad, o no, para el socialismo, de alcanzar una hegemonía que la historia parecía arrebatarle constantemente. En estos años, las conclusiones a las que he ido llegando las he presentado en los cursos que he impartido en la Universidad de La Habana, en el Departamento de Filosofía y Sociología de la Universidad de Castellón, en España, y en el Instituto de Ciencias Sociales y Humanidades de la Universidad de Puebla, en México, y en los seminarios que ha organizado la Cátedra de Estudios Antonio Gramsci. También en distintos artículos que han aparecido en revistas de estos tres países. Las discusiones mantenidas directamente con muchos colegas, y los criterios que otros me han hecho llegar sobre mis publicaciones, me han sido de extraordinario valor.

Al llegar a este punto, se torna imprescindible expresar mi agradecimiento a aquellas personas que, de una y otra forma, me incitaron a pergeñar estas cuartillas. En primer lugar a Pablo Pacheco, quien siempre ha prestado su concurso a la difusión del pensamiento gramsciano. También a Fernando Martínez, presidente de la Cátedra de Estudios Gramsci del Centro Juan Marinello, y a otros intelectuales orgánicos como Aurelio Alonso, Juan Valdés Paz, Esther Perez y Juan Antonio Blanco, cuya palabra y obra fueron fuente permanente de incitación. Domingo García Marzá, de la Universidad de Castellón, influyó mucho en mi primer interés en esta temática, y su ayuda al desarrollo de mis estudios ha sido inapreciable. También quisiera recordar a otros colegas de esta universidad, como Elsa González, Andrés Piqueras y Salvador Cabedo, o de su entorno, como Vicent Pascual, Juan Manuel Ros y Jovino Pizzi. También en España, José Miguel Marinas y Cristina Santamarina me prestaron, en lo personal y lo profesional, una invalorable ayuda. De mis estancias mexicanas, mucho me han aportado el concurso de Dora Kanoussi, toda una institución viviente de los estudios gramscianos, John Holloway y Sergio Tischler. Finalmente, aunque no por ello menos importante, debo reconocer la paciencia con las que mi esposa, mi suegra y mi hija han soportado el tiempo que les he restado de mi atención para dedicarlo a esta tarea.

A todos ellos debo mucho de lo bueno que pueda aparecer en estas páginas. Lo malo es de mi exclusiva responsabilidad.

La Habana, octubre de 2001.

Índice

Introducción / 7
Una consigna desde la selva / 11
¿Una cuestión de estirpe? / 29
Razones para una persistencia / 43
Modernidad y capitalismo / 65
Las dos caras del liberalismo / 87
Las fuentes cosmovisivas de la idea de sociedad civil / 133
La racionalidad del poder, o de bayonetas y posaderas / 159
Sociedad civil y emancipación humana / 187
Hegemonía y sociedad civil / 223
Hegemonía y cultura revolucionaria / 263
Apéndice. La recepción de Gramsci y la discusión acerca de la sociedad civil en Cuba / 309
Bibliografía citada y consultada / 343
 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

1964, revisionismo e o golpe antidemocrático

Por Diego Paulo

Tão logo surgiram as primeiras elaborações sobre o golpe de 1964 e a ditadura que o seguiu, em que pese a diversidade de abordagens, algumas características foram ressaltadas como tópicos discursivos necessários às várias interpretações. Dentre elas, consta o ataque à democracia e as reformas pretendidas pelos setores mais à esquerda no espectro político dos anos 60. Essa visão, reinante nas duas décadas posteriores ao primeiro de abril, começou a ser relativizada nos anos 1990, com a publicação de Democracia ou Reformas?, pela cientista política Argelina Figueiredo. Com uma perspectiva sustentada no estudo das alternativas dos “atores políticos relevantes”, a autora sentencia que então “nem a esquerda nem a direita possuíam apego ao regime democrático”[1], abrindo caminho para a suposição de que estaria em curso no país um duplo golpe, tramado tanto pelas esquerdas quanto pelas direitas. O ataque à democracia, por conseguinte, deixa de ser uma especificidade do golpe que efetivamente ocorreu, antes sendo uma expressão do agir político do período. Em outras palavras, se todos eram contra a democracia, alguém poderia ser responsabilizado por ser antidemocrático?

A hipótese de Figueiredo, em certo sentido fecunda, seria rapidamente encampada por diversos historiadores. Jorge Ferreira, talvez algo inspirado por Aristides Lobo, opinou que, frente à radicalização dos extremos do espectro político, a população apenas assistia a tudo silenciosa[2]. O golpe, portanto, seria produto do déficit democrático daqueles atores políticos, ideia que aparece mais claramente em Daniel Aarão Reis[3]. Um indício do avanço dessa perspectiva é o tratamento que um jornalista dá ao tema. Em sua obra sobre a ditadura, Élio Gaspari, a propósito do golpe, comenta de passagem que “havia dois golpes em marcha”[4]. A peremptoriedade com que tal hipótese é anunciada sugere o avanço de sua hegemonia na historiografia sobre o tema.

Esse processo foi argutamente observado por Demian de Melo[5]. Debruçando-se sobre a produção historiográfica mais recente sobre a questão, o autor identifica uma corrente revisionista, lastreada naquela hipótese, fetichizada de realidade, de Argelina Figueiredo. Com efeito, o revisionismo em marcha procura quando muito repartir a responsabilidade pelo golpe à democracia desfechado em 1964, nesse sentindo nublando o caráter de classe apontado pelo trabalho pioneiro de René Dreifuss. Nessa ambiência, faz sentido, portanto, que a vítima de primeira hora dessa reconstrução discursiva seja justamente seu 1964: A conquista do Estado, obra em que, amparado em pesquisa documental de intenso fôlego, o autor conclui que um golpe classista, articulado pela burguesia brasileira associada a congêneres internacionais, pôs fim ao regime político iniciado em 1945. De acordo com os revisionistas, o trabalho de Dreifuss atribui uma “onipotência” às organizações empresariais que, entretanto, na prática não teria se verificado. Para sustentar tal argumentação, nenhum ponto do livro é especialmente ressaltado, nenhuma prova apresentada, sua proposta restando solta no ar.

Retirar o caráter de classe do golpe de 1964 caminha junto com a proposta inicial de Argelina Figueiredo. Com efeito, para os que entendem que um duplo golpe estava em marcha no período, é a radicalização e o tal déficit democrático que explicam a queda do regime, não um projeto societário que, para ser implementado, demandava a conquista do Estado. Entendemos, assim, que a proposta de um giro interpretativo sobre a ditadura caminha pari pasu ao deslocamento da iniciativa classista do golpe, e, por conseguinte, do regime por ele implantado.

Brizola, Mayrink Veiga e o golpe antidemocrático

Resistindo à maré montante do revisionismo, Caio Navarro de Toledo publicou, em 2004, artigo sustentando o caráter antidemocrático do golpe de 1964[6]. Ressaltando a reação do movimento político-militar às reformas e à ampliação da democracia em processo, Toledo inverte a proposição que ganhou campo a partir de Democracia ou reformas?. À sua maneira, o autor lembra que os “atores políticos” identificados com o reformismo queriam, ao mesmo tempo, reformas e democracia.

Tendo tal perspectiva no horizonte, procedi à pesquisa dos setores considerados mais potencialmente antidemocráticos pela historiografia revisionista. A ideia era verificar se o famigerado duplo déficit democrático correspondia à realidade. Para tanto, o estudo dos políticos tidos como mais radicais entre os das esquerdas me pareceu necessário. Assim, recuperando Jorge Ferreira, fui atrás dos discursos de Leonel Brizola na rádio Mayrink Veiga, apontada por ele como lócus da radicalização antidemocrática[7]. O material, gravado pela polícia política da Guanabara, está disposto no acervo do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) localizado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ). Em estado precário e mal datado, o conjunto documental que interessou à pesquisa – as escutas das intervenções brizolistas na rádio – é composto por cinco fitas k-7 que, em que pese sua deterioração, ainda fornece importante testemunho sobre a crise brasileira dos anos 60.

A partir de sua audição, as vozes do passado trazem um Brizola bastante diferente do apresentado pela historiografia atualmente hegemônica. Assim, não resiste à análise documental a caracterização do líder petebista conforme proposta por Ferreira. Ora, este autor o qualifica como “sectário”, “radical”, dado a “rupturas institucionais” e “pregações revolucionária”[8]. No entanto, apesar de as intervenções no rádio anunciarem um político impositivo na defesa pelas reformas, nada justifica sua qualificação daquela forma.
Para sustentar a argumentação, daremos voz ao maior envolvido nisso tudo: Leonel Brizola. Do conjunto de discursos analisados, o fragmento mais combativo, mais potencialmente antidemocrático, é o que se refere aos Grupos de Onze, qualificados pela imprensa da época como células revolucionárias. Portanto, iniciativas contra o regime vigente. Precisamente isso guiou minha escolha. O trecho eu transcrevo abaixo.

[É preciso] organização popular para atuar, para agir, para lutar. Não para tomar chá. Essas unidades [os Grupos de Onze] irão atuar e se reunir não para tomar chá ou para fazer crochê. Não! [Se reunirão] exatamente com o propósito de defender as conquistas democráticas do nosso povo e avançar. Pela realização de uma democracia autêntica. Pela realização imediata das reformas e pela conquista de nossa libertação. Se pretenderem golpear as nossas liberdades, as nossas conquistas democráticas, não tenham dúvida. A luta vai sair! Vai haver luta! [grifos meus][9]

Como se vê, Brizola apregoa pelo rádio a…defesa da democracia e das reformas. Não sua ruptura, mas seu aprofundamento. Ameaça a luta, mas para assegurar a democracia, não para dissolvê-la. É claro que se poderia contrapor a argumentação, alegando algo provincianamente que uma coisa é o que se diz, outra coisa é o que se faz. Mas qual fato, por assim dizer, da realidade justifica as acusações de Ferreira? Nenhum. Inexistem. Os jornais do período bem que tentaram qualificar a Rádio Mayrink Veiga como um aparelho de subversão, financiadora da luta armada dos comunistas, mas as denuncias da grande imprensa não resultaram na apresentação de nenhuma prova de que levantes armados estavam em preparação.

Se abandonarmos a metafísica e voltarmos à terra, uma atitude a ser tomada com intuito de fazer história sobre o golpe de 64 é pesquisar os documentos disponíveis, baseando neles nossas interpretações. Outra medida possível, que surge como desdobramento da primeira, é dar voz aos envolvidos, a fim de que eles falem sobre seus supostos déficits, quaisquer que sejam. Nesse sentido, cai por terra, portanto, a argumentação revisionista que aceita a qualificação do golpe como reativo à tentativa de interrupção democrática pelas esquerdas. Ora, nem mesmo os grupos de onze, entendidos pelos apoiadores do golpe como uma vanguarda revolucionária[10], serviam à interrupção democrática. Eram instrumentalizados, ao contrário, para realizar as reformas por meio de pressão popular, por distribuição de panfletos e realização de palestras sobre o tema[11]. Não contra a democracia, pois. Aceitar aquela visão é repetir o discurso dos opositores de Brizola, que, como o mesmo sabia, utilizavam de todos artifícios disponíveis para espalhar o medo e a agitação, objetivando a instabilidade política que facilitaria o golpe, não o das esquerdas, mas o seu.

Para essa minoria [de privilegiados opositores do regime], como o que já ocorre agora, os que lutam contra esse estado de coisas são radicais, agitadores, comunistas, fidelistas, etc. E daí caminham para o estado de sítio, para as medidas policiais contra o que chamam de agitação, para a restrição de liberdades públicas e individuais, para as tentativas de impor um governo forte, para o golpe e a ditadura[12]

Vemos, por essas passagens ilustrativas do conteúdo existente no acervo do DOPS, que Brizola não atentou contra a democracia. Antes, denunciou aqueles que planejavam sua suspensão. Antecipando o golpe, previu a ditadura. Sua luta política, à frente dos microfones da Mayrink Veiga, foi uma luta pela manutenção do regime vigente, entendido como meio de se assegurar a realização das reformas almejadas.

O que se depreende do que foi lido? Certamente que democracia é um conceito polissêmico. Dependendo do lugar no espectro político de onde se fala, seu conteúdo pode adquirir significados divergentes. Para o Brizola dos anos 1960, democracia era a inclusão social assegurada pela expansão do direito do voto; democracia era a inclusão na ordem capitalista propiciada pela expansão do acesso à propriedade da terra; democracia, pois, envolvia não apenas um aspecto regimental, a saber, a escolha periódica de elites governantes via processo eleitoral, mas um meio para se atingir as reformas entendidas como fundamentais para o desenvolvimento nacional. Se os revisionistas não consideram essas características como sendo democráticas, certamente isso revela mais sobre os revisionistas do que sobre a democracia.

Notas:
[1] FIGUEIREDO, Argelina. Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política. Rio de Janeiro: Paz e Terra ,1993.
[2] FERREIRA, Jorge. O governo João Goulart e o golpe civil-militar de 1964. In: _______, DELGADO, Lucília de Almeida Neves (org). O Brasil republicano. Tempo de experiência democrática. Da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2003, v.3.
[3] REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
[4] GASPARI, Élio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 51
[5] MELO, Demian. O golpe de 1964 e meio século de controvérsias. O estado atual da questão. In: MELO, Demian (org). A miséria da historiografia. Uma crítica ao revisionismo contemporâneo. Rio de Janeiro, Consequência, 2014.
[6] TOLEDO, Caio Navarro. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia. Revista Brasileira de História. V. 24, nº 47, São Paulo, 2004.
[7] FERREIRA, Jorge. João Goulart. Uma biografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 372-373.
[8] ______ . O governo Goulart e o golpe civil-militar de 1964. In: FERREIRA, Jorge. DELGADO, Lucília de Almeida Neves (org). O Brasil republicano. Tempo de experiência democrática. Da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2003, v.3, p. 356.
[9] Fundo BR APERJ DOPS/GB CX 2 fita 1
[10] Um panfleto apócrifo dos Grupos de Onze circula pela internet, principalmente em sites apologéticos do regime empresarial-militar. Nele, as células populares de Brizola são comparadas a um proto-exército vermelho, inspirado na guarda soviética. Ver: http://www.ternuma.com.br/index.php/noticias/2106-a-historia-do-terrorismo-no-brasil (acessado em 01/07/2015, às 23:58)
[11] PACHECO, Diego. Os times do povo. Os grupos de onze e a memória trabalhista em Santa Catarina. Visão Global, Joaçaba, v. 14, n. 2, p. 229-250, jul/dez, 2011.
[12] Fundo BR APERJ DOPS/GB CX 2 fita 3

FONTE: blog Junho 
 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Luiz Carlos de Freitas: ''A lógica empresarial no ensino desmoraliza o professor''

Especialista critica a visão empresarial da Educação e comenta os rumos que a política educacional brasileira está tomando

 Elisa Meirelles (elisa.meirelles@fvc.org.br) (texto e edição)

Luiz Carlos de Freitas Pós-doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista nas áreas de Avaliação da Aprendizagem e de Sistemas.

A recente divulgação do documento Pátria Educadora: A Qualificação do Ensino Básico como Obra de Construção Nacional reacendeu o debate sobre as concepções de ensino que deveriam nortear a rede pública. Preparado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), o texto - que ambiciona materializar o lema do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff - traz orientações divergentes em relação ao Plano Nacional de Educação (PNE), aponta Luiz Carlos de Freitas, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na opinião do especialista, que há mais de 20 anos pesquisa avaliações e políticas públicas educacionais no país, a proposta é pautada por uma visão empresarial da Educação que desmoraliza os professores e aumenta a segregação escolar. Em entrevista a NOVA ESCOLA, Freitas detalha a crítica e comenta os rumos que a política educacional brasileira está tomando.

O documento da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) considera as discussões que têm ocorrido no campo da Educação?

 
LUIZ CARLOS DE FREITAS Não. O texto ignora todo o debate da Conferência Nacional de Educação (Conae), da mesma forma que o governo ignorou o próprio Ministério da Educação (MEC), remetendo a elaboração da política educacional para a SAE. Que ela participasse de um esforço conjunto com outras entidades seria compreensível, mas, ao chamar para si a liderança e a orientação da política educacional, ela exclui quem costumeiramente participa desses esforços.

O senhor afirma que o texto da SAE é pautado pela lógica empresarial. O que isso significa? 

 
FREITAS Significa, por exemplo, imaginar que, se inserirmos as escolas públicas no mercado, a concorrência se instala e o "produto" melhora. Ou propor que o pagamento dos envolvidos passe a ser feito com base na produção. Isso não funcionou em nenhum lugar do mundo. Note: já foi experimentado à exaustão e não deu resultados significativos. Se você colocar um empresário para pensar a Educação, é natural que ele responda com os recursos teóricos que tem. Mas o debate sobre esse assunto exige profissionais específicos.

O texto defende um ensino baseado em "um modelo de desenvolvimento produtivista, capacitador e democratizante". Qual concepção de Educação está por trás dessa visão? 

 
FREITAS Um dos grandes problemas das reformas educacionais contemporâneas, em especial dessas baseadas em princípios empresariais, é a ausência de discussão e definição do que entendemos por uma "boa Educação". A questão está extremamente distorcida, sendo vista como sinônimo de notas altas em testes. Não existe nada no campo das ciências da Educação que ampare tal crença. Do ponto de vista educativo, essa não pode ser a finalidade do ensino. Temos que ir muito além de tirar notas boas nessa ou naquela disciplina. Também não podemos nos resumir apenas à elaboração de uma base nacional curricular especificando uma lista de conteúdos. Precisamos ter um projeto educativo para a formação da nossa juventude como nação. A ênfase em provas cria concorrência e gera ganhadores e perdedores, o que não é compatível com os objetivos educacionais. Ao contrário do mercado, a Educação só deve ter ganhadores.

Um dos pontos propostos pela SAE é "mudar a maneira de ensinar e aprender", separando alunos com mais ou menos dificuldade. Quais os riscos dessa medida? 

 
FREITAS Como o próprio documento diz, a ideia foi "organizar a diversidade". Para tanto, propuseram a criação de sequências de capacitação-padrão, dividindo os alunos em três trilhas de progressão: uma abaixo, uma no centro e uma acima do padrão. A escola será obrigada a lidar com os estudantes dessa forma, tendo seu bônus atrelado ao desempenho deles. Aí está o ponto: a superposição da meritocracia à organização de trilhas diferenciadas. Pensar atividades diferentes para os alunos deve ser parte do trabalho do docente, que precisa receber apoio e buscar formas de lidar com as dificuldades da turma e superá-las. Mas, em um ambiente de competição, se oficializa a segregação. Em geral, o cuidado com quem está acima ou dentro da trilha-padrão aumenta como forma de compensar, na análise do desempenho da escola, o impacto de quem está abaixo do padrão. Com isso, gera-se o efeito contrário ao desejado. É preciso ter claro que a diversificação de desempenho é um fenômeno multideterminado e não há uma receita única para ele.

O texto sugere também que o país foque esforços em determinadas disciplinas, em detrimento de outras. Quais os impactos dessa mudança para a garantia do direito de todos à Educação? 

 
FREITAS O impacto nos estudantes é a sonegação de formação. A mudança, se efetivada, produzirá um estreitamento curricular com foco em Língua Portuguesa, Ciências e Matemática. No entanto, os países hoje estão carentes de inovação. Sem inovação, a economia não vira, as empresas não se mantêm no mercado. É vital, portanto, que haja um equilíbrio curricular, pois as artes e o desenvolvimento corporal são componentes fundamentais na produção da criatividade. E, sem criatividade, não há inovação.

É possível dizer para qual modelo de Educação estamos caminhando? 

 
FREITAS Caminhamos para o modelo empresarial na Educação, com direito à privatização tanto por vouchers (espécie de carta de crédito fornecida pelo governo para pagar a escola) como por concessão de gestão - ou seja, por meio de terceirização. Isso significa maior segregação escolar e risco às populações mais pobres e às que necessitam de cuidados especiais. Estamos nos aproximando de políticas que, em nome da valorização do professor, vão - de fato - desmoralizá-lo com base em avaliações, processos de certificação e pagamento de bônus, combinado com um intenso apostilamento da prática docente. Isso conduzirá a uma desqualificação do educador. As repercussões sobre a Educação Infantil vão se fazer sentir na forma de uma escolarização antecipada. Isso é o que se pode notar nos países que estão se valendo dessas políticas empresariais. Não é previsão, é o que as pesquisas mostram hoje nesses países. O documento da SAE é a oficialização disso tudo. Não é um texto para "ser otimizado", mas rejeitado. Ele não está baseado em pesquisa consistente e sequer traz uma bibliografia.

O que pode ser feito diante desse cenário?

 
FREITAS A nova proposta chega às entidades da área educacional em um mau momento, em que estão desarticuladas e sem capacidade de resposta. Se a concepção de Pátria Educadora da SAE se concretizar, acredito que não vamos superá-la por meio das entidades - elas poderão ajudar, claro -, mas com a participação das escolas, à medida que as políticas começarem a ser implementadas e a produzir efeitos. Foi assim nos Estados Unidos e no Chile. Os pais sentirão muito rapidamente os efeitos nefastos sobre os filhos. Os estudantes também. Em relação aos professores, o efeito será dúbio: parte reagirá mal, mas parte vai deixar-se levar pelo bônus salarial para somente depois acordar. Os gestores serão os últimos, dada a condição deles dentro do sistema. Vamos superar o cenário atual com ajuda de pais, estudantes, professores e gestores - nessa ordem.

FONTE: Revista Nova Escola 

História da ocupação humana das Américas fica cada vez mais confusa

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A


Povos indígenas da Amazônia e do cerrado carregam em seu DNA as marcas de um parentesco insuspeito com aborígines da Austrália e nativos de Papua-Nova Guiné. O resultado, que aparece de forma independente em dois estudos divulgados nesta terça (21), reforça a ideia de que o povoamento original do continente americano foi muito mais complexo do que os arqueólogos costumavam imaginar. 

A questão é como explicar exatamente essa complexidade. Enquanto uma das pesquisas diz que duas populações diferentes se misturaram logo no início da presença humana nas Américas, outra defende uma única grande onda migratória no começo, com a vinda posterior de grupos aparentados aos povos da Oceania. 

Os levantamentos estão na "Science" e na "Nature", as duas maiores revistas científicas do mundo, e ambas têm participação de pesquisadores brasileiros. No caso da "Science", a arqueóloga Niède Guidon, da Fundação Museu do Homem Americano (PI), é coautora da pesquisa, enquanto o estudo da "Nature" teve participação de Tábita Hünemeier, da USP, Francisco Salzano e Maria Cátira Bortolini, da UFRGS, e Maria Luiza Petzl-Erler, da UFPR. 

LUZIA EM FAMÍLIA
 
A pesquisa traz dados novos para uma polêmica que se arrasta desde o fim dos anos 1980. A questão é saber se a mais antiga brasileira, a célebre Luzia, que morreu há 11,5 mil anos em Pedro Leopoldo, região de Lagoa Santa (MG), de fato representa uma população primitiva com traços "negros". 

Outros esqueletos de Lagoa Santa com mais de 8.000 anos, bem como restos humanos de outras regiões das Américas, apresentariam um crânio cujo formato lembra o de africanos, aborígines australianos e outras populações de pele e cabelos escuros da orla do Pacífico. Já o crânio da maioria dos indígenas atuais se parece mais com o de populações da atual Sibéria.

Para Neves e seus colegas, isso indica que Luzia e seu povo teriam surgido a partir de uma população com traços vagamente africanos, os quais, na verdade, eram uma espécie de modelo básico da morfologia craniana dos primeiros seres humanos modernos, mantido pelos habitantes da Oceania, que ficaram confinados em suas ilhas por dezenas de milhares de anos. 

Essa população teria chegado primeiro às Américas, atravessando o estreito de Bering. Mais tarde, grupos da Sibéria mais semelhantes aos índios atuais teriam se miscigenado com o grupo de Luzia, dando origem aos indígenas modernos. 

O estudo da "Nature" comparou centenas de milhares de pequenas variantes genéticas dos indígenas da América do Sul e da América Central com variantes equivalentes de outras populações espalhadas pelo mundo todo. O método é complicado, mas pode-se dizer que ele procurou testar se algumas dessas populações do resto do mundo tinham mais variantes em comum com os indígenas das Américas do que as outras. 

PARENTES
 
O resultado é que justamente os povos da Oceania, tanto na Austrália quanto em Papua-Nova Guiné e ilhas pertencentes às Filipinas e a Índia, apresentam sutis semelhanças genéticas com os nativos de regiões brasileiras: os suruís e karitianas (grupos de Rondônia) e os xavantes (de Mato Grosso). Algumas análises também incluem os guaranis de Mato Grosso do Sul na lista. Curiosamente, os povos da Oceania têm características vagamente africanas, como a pele negra e o formato do crânio. 

É claro que ninguém diria que os xavantes são "negros", porém. O que os autores do estudo propõem, na verdade, é que o grupo que daria origem aos povos da Oceania passou por episódios de miscigenação com tribos de aparência que chamaríamos de "asiática". Essa população já híbrida –batizada por eles com o termo guarani "Ypykuéra", ou "ancestrais"– é que teria chegado aqui e, por sua vez, misturada a uma nova onda siberiana, gerou os índios modernos. A contribuição "oceânica" original não teria passado de uns 2% do total da herança genética dos indígenas amazônicos de hoje. 

Rasmus Nielsen, dinamarquês da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) que coordenou a pesquisa na "Science", discorda. Ele também encontrou variantes "australianas" no DNA dos suruís, mas diz que esse aporte genético parece ter vindo bem depois da colonização original do continente, talvez por meio de outros migrantes da própria Sibéria. De quebra, seu grupo reanalisou os crânios de Lagoa Santa e afirma não ter visto sinal de traços "aborígines" no povo de Luzia. 

O interessante é que os geneticistas brasileiros do grupo da "Nature" também sempre viram com ceticismo a ideia da ancestralidade da Oceania nos primeiros habitantes das Américas. Agora, estão revisando essa posição. 

"Quando eu vi os resultados pela primeira vez, tive primeiro de desconstruir alguns argumentos que me pareciam muito sólidos, para depois repensar e construir novos", disse Tábita Hünemeier à Folha

"Acho que o ponto principal é que nós geneticistas não havíamos planteado, por impossibilidade técnica, a possibilidade de os indivíduos de Lagoa Santa serem já misturados com nativos americanos, por causa da morfologia austromelanésia [da Oceania]. Agora sabemos que Luzia poderia muito bem ser uma representante da População Y", explica ela. A esperança de testar essa ideia, afirma Tábita, é obter genomas dos esqueletos de Lagoa Santa para testar a ideia –algo tecnicamente muito difícil, mas que talvez não seja totalmente impossível. 


TENTANDO ENTENDER A OCUPAÇÃO DAS AMÉRICAS
 
O que diz a teoria tradicional sobre a ocupação das Américas?
 
Os primeiros humanos vieram da Ásia, via estreito de Bering, espalhando-se pelo continente. Esse grupo teria características "mongólicas", semelhantes às da maioria dos índios atuais. 

Qual o problema com ele?
 
Esqueletos encontrados no continente –entre eles, o de Luzia, de 11,5 mil anos, da região de Lagoa Santa (MG)– têm traços "negros", africanos, diferentes dos povos asiáticos que teriam dado origem aos nativos americanos. 

De onde eles vieram?
 
A principal hipótese é que elas tenham parentesco com os povos da atual Oceania. 

Mas eles não têm traços africanos? Onde entra a Oceania nisso?
 
Os grupos que saíram da África e foram para a Oceania, há dezenas de milhares de anos, ficaram isolados dos grupos que ocuparam a Ásia e, assim, mantiveram algo da morfologia dos primeiros seres humanos modernos. 

Como esse pessoal foi parar na América?
 
Aí é que mora a confusão. Embora existam hipóteses mais radicais –travessia oceânica–, os trabalhos na "Science" e na "Nature" dão outras explicações. 

Quais?
 
Os dois grupos acreditam em migração por Bering, mas de formas diferentes. 

Os cientistas na "Science" sugerem que os grupos ligados à Oceania teriam um papel secundário na ocupação do continente. Chegaram muito depois, e em quantidade muito menor, do que os asiáticos.
Já o artigo na "Nature" diz que ambos os grupos talvez sejam igualmente antigos no continente. Isso implicaria forte miscigenação logo no início da presença humana nas Américas, dando origem a indígenas como certas tribos da Amazônia, como os suruís.

FONTE: Folha de São Paulo   21/7/2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Duas resenhas sobre livro de ISTVÁN MÉSZÁROS

Sob perspectivas teóricas diferentes no campo do marxismo, segue abaixo duas ressenhas – especialmente escritas para o blog marxismo21 – sobre A MONTANHA QUE DEVEMOS CONQUISTAR. Reflexões sobre o Estado, de István Mészáros, Boitempo editorial. 2015.








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A MONTANHA QUE DEVEMOS CONQUISTAR 

Por Maria Cristina Soares Paniago /Docente da Faculdade de Serviço Social – UFAL

 Nesse fevereiro de 2015, mais um livro do filósofo húngaro marxista, István Mészáros, chega às livrarias no Brasil. Fato que se tornou corriqueiro, dada a enorme difusão de seu pensamento entre nós, realizada de forma mais intensa a partir da publicação de sua obra maior, Para Além do Capitalrumo a uma teoria da transição, em 2002. Trata-se do A Montanha que Devemos Conquistar, cujo tema principal é a crítica radical ao Estado e à função vital que exerce para a reprodução do sistema do capital, sob efeito da crise estrutural do capital e sua abrangência global.

O livro está dividido em sete capítulos. Conta ainda com dois apêndices, sendo que o primeiro é uma republicação do capítulo 13 – Como poderia o Estado Fenecer?, do Para Além do Capital, e o outro contém uma entrevista realizada com o autor, por Eleonora de Lucena, em 2013, publicada, à época, na Folha de S. Paulo – Caderno Ilustríssima. Logo na Introdução, Mészáros, nos alerta para o fato de que este livro é parte de um estudo mais completo em andamento, que constituirá um “volume vindouro” sob o título de “Critique of the State”. (Mészáros, 2015, p.15).

Recentemente, a Mothly Review Press (New York, 2015) publicou, do mesmo autor, The Necessity of the Social Control, cujo título remete a um dos títulos já publicado no Brasil, em 1987, pela Ensaio (A Necessidade do  Controle Social) num pequeno formato; este último corresponde apenas ao primeiro capítulo, em um total de doze capítulos neste formato mais recente. O seu décimo segundo capítulo, sob o título de “The Mountain we Must Conquer: Refletions on the State”, corresponde ao livro que ora conhecemos no Brasil – A Montanha que Devemos Conquistar – acrescido dos dois apêndices acima mencionados.

Estas duas publicações, quase simultâneas, nos permitem dirimir toda a dúvida que possa ser disseminada entre nós sobre a relação entre o titulo do livro no Brasil – A Montanha que Devemos Conquistar  – e a concepção crítica do autor sobre a essência histórico-ontológica do Estado e de seu papel no processo de transição para uma sociedade que supere o capital, e todas as formas sociais, políticas e econômicas que o constituem. ler mais


RETOMAR O DEBATE SOBRE O ESTADO

Por Luciano Cavini Martorano/ Universidade Federal de Alfenas, MG

A mais recente crise do capitalismo, iniciada em 2008, voltou a colocar no centro do debate politico, econômico e teórico o papel central do Estado nas formações sociais capitalistas. Contrariando a tese neoliberal sobre o “Estado mínimo”, inúmeros governos adotaram medidas para enfrentar a crise – ela mesma consequência da política neoliberal antes adotada –, que por seu conteúdo, significado, dimensão e profundidade só poderiam ser realizadas pelo Estado: ajuda financeira massiva a bancos e empresas, incluindo a estatização parcial ou não de alguns deles; amplos programas de incentivo à produção e ao consumo, tanto interno como externo; ações preventivas e ofensivas para conquistar e-ou assegurar mercados externos de matéria-prima e mão-de-obra a preço mais baixo, etc. Tais medidas  não só contrariavam o neoliberalismo, como também o próprio liberalismo que defende um Estado sempre afastado da economia. E eram também mais uma negação da teoria política liberal que continua defendendo a substituição da noção de Estado por alguma outra – por exemplo, a de sistema politico.

Nesse contexto, a última obra de István Mészáros, A montanha que devemos conquistar, oferece ao leitor brasileiro a possibilidade de retomar o debate sobre o tema do Estado. Tema historicamente bastante discutido não só entre as diferentes correntes marxistas, como também com as demais teorias (liberalismo, pluralismo, decisionismo, etc.), e isso já a partir do próprio Marx em suas polêmicas com Bakunin, Lassale e outros, e atravessando o século XX para chegar até os nossos dias.

Tendo como tema central o Estado, o presente trabalho de Mészáros, apresenta setes pequenos ensaios com base no material de conferências feitas em universidades brasileiras, além de dois apêndices: o primeiro é uma versão revisada do capítulo 13 do livro Para além do capital – “Como poderia o Estado fenecer?”-, e o segundo é uma entrevista concedida à jornalista Eleonora de Lucena e publicada em 17 de novembro de 2013.

Mas por que Mészáros retoma o tema do Estado, e mais do que isso, anuncia estar preparando uma outra obra a ser lançada com o título Critique of the State (A crítica do Estado) ? ler mais

FONTE: marxismo21