segunda-feira, 16 de setembro de 2019

O CAPITAL CONTRA A EDUCAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA

A revista Germinal: Marxismo e Educação em Debate acaba de publicar o Volume 11, Número 1, abril de 2019.

O número está disponível em:

Navegue no sumário da revista para acessar os artigos e itens de interesse.




domingo, 15 de setembro de 2019

Salim Lamrani: Cuba representa um projeto incômodo para os Estados Unidos.



A visão estadunidense de que a América Latina é seu ‘quintal’ bastaria para entender a hostilidade de Washington para tudo quanto na região ameace seus interesses, no entanto, chama a atenção a particular agressividade contra uma pequena ilha: Cuba.

Dia do Trabalhador em Cuba, Havana - 2019 | Foto: Ismael Francisco/CubaDebate


Paris -  A visão estadunidense de que a América Latina é seu ‘quintal’  bastaria para entender a hostilidade de Washington para tudo quanto na região ameace seus interesses, no entanto, chama a atenção a particular agressividade contra uma pequena ilha: Cuba.

Mais de um século de intervenções militares e guerras que se encaixam em suas diversas variantes, incluindo a econômica e a biológica, marcam o cenário bilateral e impactam com a política de bloqueio o âmbito multilateral.

Sobre o tema, é interessante para a Prensa Latina conversar com o acadêmico e ensaísta francês Salim Lamrani, que apesar de sua juventude, representa uma voz reconhecida no estudo das relações entre a superpotência e seu vizinho rebelde.

Para o professor da Universidade da Réunion, localizada no departamento francês de ultramar de igual nome, Washington ainda sofre da incapacidade de aceitar a realidade de uma Cuba livre e independente.

Não tolera que um pequeno país decida tomar ao pé da letra um direito inalienável da humanidade que é escolher seu próprio destino, ressaltou.

Lamrani declarou que a ilha encarna o princípio inegociável da igualdade soberana, não aceita ingerências em seus assuntos internos e defende que não se pode ter dignidade sem independência, o que incomoda à Casa Branca.

Por décadas, Estados Unidos tem buscado argumentos para justificar sua política para a maior das Antilhas, até chegar aos supostos ataques sônicos em Havana contra seus diplomatas, apesar da carência de argumentos científicos para sustentar tal acusação.

‘A retórica para justificar sua hostilidade é pouco crível e tem variado segundo as épocas’, advertiu com uma lista de alguns dos pretextos apresentados à opinião pública.

‘Quando triunfou a Revolução cubana, Washington justificou sua postura agressiva argumentando que Havana tinha nacionalizado e expropriado terras e empresas que pertenciam a donos estadunidenses.

‘Depois foi a aliança soviética o que constituiu oficialmente o pomo da discórdia. Mais tarde, o internacionalismo solidário de Cuba com os países em luta por sua libertação e emancipação, particularmente na África’.

De acordo com Lamrani, o desmoronamento da União Soviética, a princípios dos anos 90 do passado século, marcou a defesa pela Casa Branca da tese da violação dos direitos humanos e da falta de democracia como pontas de lança, recrudescendo o bloqueio.

Estados Unidos apostou em fortalecer o cerco como se pudesse ser melhorado o destino de um povo incrementando seus sofrimentos e se esquecendo totalmente de sua falta de autoridade moral para erigir-se em juiz, e agora chega ao ponto de evocar ataques sônicos, opinou.

O acadêmico fez questão de ressaltar que a antiquada política está condenada ao fracasso, porque o diálogo sincero e respeitoso é a única via para solucionar as diferenças, ‘sobretudo com um país como Cuba, que nunca cede sob violência, ameaça, a intimidação ou  chantagem’.

Há que respeitar o princípio fundamental do direito dos povos à autodeterminação e a superpotência deve aceitar que o destino de Cuba, seu sistema e sua orientação, são atribuições exclusivas dos cubanos, manifestou.

A MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA

Em sua cruzada para derrubar a Revolução de 1 de janeiro de 1959, as administrações da Casa Branca têm tido na manipulação midiática um fiel aliado.

O principal papel destes meios de comunicação, que são propriedade de conglomerados econômicos e financeiros, é defender a ordem estabelecida, convencer a opinião pública da legitimidade dos privilégios estabelecidos e atacar toda aspiração a uma mudança das estruturas sociais, que poria em julgamento o sistema imperante, considerou Lamrani.

Segundo o acadêmico e ensaísta francês, Cuba é o alvo deste cenário, no qual para Washington e seus objetivos, informar o cidadão é desprezado com essa intenção.

‘A partir deste postulado, é impossível que os meios de comunicação apresentem a realidade cubana de modo honesto e imparcial, quando este país tem posto em tela de julgamento a ordem estabelecida, abolido os privilégios dos poderosos, colocado o humilde no centro de um projeto de sociedade e o fato da repartição  das riquezas ser uma prioridade absoluta’, sentenciou.

UMA APROXIMAÇÃO COM O PAI DA PÁTRIA

Os franceses tiveram neste verão a oportunidade de se aproximar da história do pai da pátria cubana, Carlos Manuel de Céspedes, graças a um profundo trabalho de Lamrani , publicado em quatro partes pelo diário L´Humanité.

Prensa Latina aproveitou a oportunidade para que o estudioso explicasse suas motivações para recordar sob o título ‘Carlos Manuel de Céspedes, em nome da Liberdade’ e o título ‘Breve história do Pai da Pátria cubana’.

‘Céspedes (1819-1874) simboliza o altruísmo puro, um homem que renunciou a seus interesses de classe e a seus bens pessoais, substituindo a felicidade de uma vida familiar pelos tormentos da guerra, pelo interesse superior da nação e o bem-estar de todos os cubanos’, comentou.

De acordo com o professor universitário, o prócer fica na história como aquele que vinculou a liberdade da ilha à abolição definitiva da escravidão.

Também é importante compartilhar que foi um ser humano fiel até as últimas consequências a seu lema ‘Independência ou morte’ e que tomou as armas contra o opressor espanhol, sem experiência militar alguma, em condições de extrema adversidade para seguir o combate contra uma potência infinitamente superior, agregou.

Para Lamrani, outra qualidade valiosa representada pelo independentista é a de viver e lutar sem rancores, apesar de ‘a ingratidão de seus concidadãos no poder’.

Após intrigas e manobras para substituí-lo, a conspiração contra o presidente da República em Armas materializou-se em 1873 com sua deposição, e apesar dessas circunstâncias optou por se opor a confrontos entre cubanos para tratar de preservar a unidade e a revolução.

A esse respeito ressaltou, o compromisso do prócer com a unidade e a vigência de seu proceder, entendendo que ‘os grandes processos de transformação social só podem ser conseguidos com a unidade de todas as forças favoráveis à emancipação humana’. Na análise de Lamrani , três aspectos caracterizam Céspedes : sua disposição a subordinar interesses pessoais ao imperativo superior de construção do edifício patriótico, sua decisão de fazer da abolição da escravidão o elemento fundador da nação e sua dedicação em conseguir o consenso entre todos os cubanos de boa vontade.(Prensa Latina)

Publicado em 3 setembro, 2019 por siempreconcuba
Tradução: Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba


sábado, 14 de setembro de 2019

As análises de Marx sobre as eleições e os partidos políticos na Grã-Bretanha

Os três artigos foram redigidos por Karl Marx em agosto de 1852 e têm como objetos aspectos das eleições gerais inglesas daquele ano. Foram publicados no dossiê "As análises de Marx sobre as eleições e os partidos políticos na Grã-Bretanha" da Revista Crítica Marxista, n. 47, ano 2018.



Parte 2 – As análises de Marx sobre as eleições e os partidos políticos na Grã-Bretanha. 

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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Para download: "Marx e a pedagogia moderna"

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MANACORDA, Mario Alighiero. Marx e a Pedagogia Moderna. Campinas: Alínea, 2007.

LINK PARA DOWNLOAD:



Manacorda, neste livro, traduz as nuanças semânticas dos termos e expressões mais importantes da linguagem marxiana. Sua análise vai desvelando os sentidos exatos do ensino politécnico e do ensino tecnológico, proposto por Marx, elaborando a construção gradativa e firme do conceito de onilateralidade do ser humano. Assim, por meio da ciência filológica, o livro explica o que Marx escreveu sobre Educação e Escola; revela também as incertezas e as certezas que tinha. Por causa de seu método, este trabalho de Manacorda é profundamente moderno e sua permanência está garantida.

SUMÁRIO
Apresentação
Prefácio à Edição Brasileira
Referências
Prefácio

Parte 1. A “Pedagogia” Marxiana

1. Instrução e Trabalho
1847-48: Os princípios do comunismo e o Manifesto
1866-67: As instruções aos delegados e O Capital
1875: A crítica ao programa de Gotha
Lênin “discípulo” de Marx

2. O que é o Trabalho?
Trabalho: uma expressão negativa
A atividade vital ou manifestação de si mesmo
Continuidade da mesma temática
Objeções provocadas por essa antinomia
O reino da liberdade

3. Homem Onilateral
Unilateralidade do proletário e do capitalista
Uma moral dividida
Aspectos positivos do homem unilateral
O conceito de homem onilateral

4. Escola e Sociedade: o conteúdo do ensino
Ensino tecnológico e trabalho infantil
Relação da escola com a sociedade, o estado e a igreja
Objetividade do ensino
Quais opções pedagógicas e quais conteúdos educativos?

Parte 2. A “Pedagogia” Marxiana Frente às Demais Pedagogias

5. Tentativa de Contextualização Histórica
Escola e não escola na história
União de ensino e trabalho na história
Marx e as pedagogias pós-marxianas
O marxismo e os problemas atuais do ensino

6. A Pedagogia Marxista na Itália: Antonio Gramsci
Do pré-marxismo de Labriola ao marxismo de Gramsci
Ensino e trabalho em Gramsci
Desenvolvimento harmonioso e integral do indivíduo
Contra o inatismo e o individualismo
Uma escola de noções rigorosas
Utilidade de uma leitura “gramsciana” de Marx

Parte 3. Discutindo com Leitores e Críticos de Marx
Galvano della Volpe: trabalho e liberdade
Lamberto Borghi: a liberdade pode surgir da necessidade?
Roberto Mazzetti: a relação de Marx com os utópicos
Os católicos e a pedagogia marxista
Uma discussão a muitas vozes

Notas
Referências

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Há oitenta anos, o pacto germano-soviético: um símbolo da história desfigurado pelos reaccionários!

Por Fadi Kassem 

A falsificação da história é um instrumento privilegiado da ofensiva anticomunista. A mesma grande burguesia ocidental que via em Hitler um útil instrumento contra a URSS prossegue empenhadamente o desfiguramento dos antecedentes imediatos da 2ª Guerra Mundial: trata-se não apenas de ocultar o papel decisivo da União Soviética na derrota do nazi-fascismo, mas também de ocultar a simpatia e cumplicidade com que as potências ocidentais assistiram à ascensão do fascismo.

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As efabulações dogmáticas dos anticomunistas primários

“Porque também se trata do 80º aniversário do «pacto germano-soviético», verdadeiro tratado de aliança com o regime de Hitler (que quase imediatamente levará, para começar, ao desmembramento da Polónia entre os dois predadores) é bom esclarecer esse pacto e as suas implicações “: eis o que se pode ler no blog de Marc Daniel Lévy, no site da Médiapart [1] sobre o pacto germano-soviético assinado em 23 de Agosto de 1939 entre Molotov e Ribbentrop. Para além da argumentação próxima da nulidade - menos de 20 linhas contentando-se com as acusações -, encontramos as efabulações clássicas dignas dos mais ferozes anticomunistas, que o título do artigo (”20 de Agosto de 40: é o grande aliado da Gestapo quem faz matar Trotsky”) ilustra perfeitamente. De facto, desde a assinatura do pacto em 23 de Agosto de 1939, anticomunistas de todos os tipos entoam a plenos pulmões esse refrão de uma suposta “aliança” entre Hitler e Stalin, à imagem de Jean-François Copé: já pouco à vontade para dominar os números – recordemos a sua incapacidade em avaliar o preço de um pão com chocolate [2] ou de seus problemas de contabilidade para a campanha de Sarkozy em 2012 [3] – o homem que obteve 0,3% nas primárias da direita para as presidenciais de 2017 [4] – ou seja menos votos do que Jean-Luc Bennahmias nas primárias do Partido Socialista! - já se tinha ilustrado no decurso da campanha para as eleições europeias ao declarar: “Sim, há 75 anos dia por dia, Stalin e Hitler assinavam um pacto de aliança que levou ao esmagamento da Europa sob a bota nazi: 60 milhões de mortos “[5]. Não poderia ser-se mais inventor do que isto…

Não importa: sob a pressão dos países da Europa Central e Oriental que aderiram à “democracia liberal” após a implosão do bloco socialista em 1989-1991, o Parlamento Europeu adoptou em 2 de Abril de 2009 uma “resolução sobre a consciência europeia e o totalitarismo “,”que reclama, entre outras coisas, que os seus Estados-Membros e outros países europeus proclamem o 23 de Agosto “Dia Europeu da Memória” para a comemoração, com dignidade e imparcialidade, das vítimas de todos os regimes totalitários e autoritários» [6] Amplamente aprovada pelos eurodeputados alimentados a anticomunismo primário, esta falsificação enganadora da história faz a alegria de todos os reaccionários de todo o género, felizes em apoiar a insustentável equação veiculada por “historiadores” como Stéphane Courtois - um fanático da “obsessão comparatista” (Marc Ferro) [7] - segundo a qual «nazismo = comunismo = totalitarismo». Infelizmente para os (não) «historiadores» anticomunistas, uma tal interpretação falsificadora não pode resistir à prova dos factos.

A URSS, cidadela sitiada desde 1917

É claro que Lévy, Copé, Courtois e tantos outros desconhecem que a “guerra fria” (que em qualquer caso certamente não o foi para a Rússia bolchevique, a Coreia, o Vietname, a América Latina, etc.) que conhecem as alegrias dos bombardeamentos e das guerras conduzidas pelo imperialismo norte-americano e seus parceiros anticomunistas) teve efectivamente início em 1917, como o afirmam André Fontaine [8] e a chamada escola “revisionista” nos Estados Unidos na década de 1950, e como muito bem analisaram Anatoli Chouryguinine e Yuri Korablev, na Guerra de 1918-1922. Quatorze potências coligadas contra a Revolução Russa [9]. Porquê lembrar este elemento? Simplesmente porque a Rússia bolchevique, e depois a URSS, vivem perante a ameaça de um ataque do campo capitalista, que se desenrola efectivamente a partir do final de 1917 a partir de todos os lados, incluindo o Pacífico, onde o Japão se junta à coligação internacional formada sob a égide de Wilson, Clemenceau e Lloyd George. Este cerco é retomado quando o Japão fascista e a Alemanha nazi assinam o pacto anti-Comintern em 25 de Novembro de 1936. Curiosamente, nenhuma reacção das “democracias liberais”, efectivamente todos felizes por ver contido o “perigo vermelho”. Por outras palavras, enquanto a Alemanha nazi ameaça desde a primavera de 1939 invadir a Polónia, Stalin teme encontrar-se sozinho perante as forças do Eixo - Alemanha, Japão e a Itália que aderiu ao pacto anti-Comintern em 1937, aos quais se junta a Hungria reaccionária em Fevereiro de 1939 e da Espanha franquista em Março de 1939. Enquanto isso, as “democracias liberais” tão comprometidas com a defesa da “paz”, das “liberdades” e dos “direitos humanos”, permanecem instalados na sua hipocrisia, na sua covardia … e acima de tudo no seu anticomunismo primário e vulgar.

As “democracias liberais”, entre compromissos e traições

Pois esse é outro elemento que Lévy, Copé, Courtois, Furet e a empresa esquecem conscientemente - ou por pura ignorância - a saber, os sucessivos compromissos e traições das “democracias liberais” contra os seus “inimigos” e os seus “aliados”. Compromissos? O Reino Unido e a França não estão nada determinados a conter o perigo fascista e nazi na Europa, visto como um excelente meio de luta contra o bolchevismo. O resultado? Eis uma amostra sortida:

  • Ausência de reacção face à invasão japonesa da Manchúria na China a partir de Setembro de 1931, com o Japão a ser visto como um baluarte contra o bolchevismo na Ásia;
  • Ausência de reacção à reintrodução do serviço militar obrigatório na Alemanha em Março de 1935 - medida proibida pelo Tratado de Versalhes de 28 de Junho de 1919;
  • O veto franco-britânico contra a “aliança inversa” sem trégua proposta pela URSS desde 1933, depois pelo pretenso “pacto franco-soviético” de Maio de 1935 sabotado do lado francês (é verdade que quem tinha assinado esse pacto pela França fora … Pierre Laval! Um verdadeiro desgosto para o futuro colaboracionista …);
  • Acordo anglo-alemão de Junho de 1935, permitindo um poderoso rearmamento naval da Alemanha nazi;
  • Contactos mantidos e reforçados entre as elites francesas [10] e britânicas em particular, com as elites alemãs na década de 1930, a ponto de o ex-primeiro-ministro britânico Lloyd George, de visita ao chalé do Führer em Berchtesgaden em Setembro de 1936, declarar acerca deste último: “Hitler não sonha com uma Alemanha que ameace a Europa. Os alemães perderam todo desejo de entrar em conflito connosco “[11];
  • Acordo secreto entre a França e o Reino Unido com a Itália fascista [12] para anexar uma grande parte da Etiópia em Maio de 1936 - registar que a Itália não é sancionada pela Liga das Nações (SDN) na altura…;
  • Remilitarização da Renânia em Março de 1936 (proibida pelo Tratado de Versalhes …);
  • Guerra da Espanha no decurso da qual apenas a URSS e as Brigadas Internacionais vêm em socorro do campo republicano contra Franco e seus aliados fascistas e nazis, operando em total cumplicidade com o Reich e a Itália;
  • Obviamente, a criação do pacto anti-Komintern acima mencionado;
  • Anschluss (anexação da Áustria pela Alemanha) em Março de 1938, entretanto proibida pelo Tratado de Versalhes;
  • E, momento alto do espectáculo, entrega da Checoslováquia aos apetites hitlerianos pela França - todavia ligada à Checoslováquia por um tratado desde 1924 … - e Reino Unido no seguimento da assinatura dos vergonhosos acordos de Munique na noite de 29 para 30 de Setembro de 1938 (decisão definitivamente tomada em Londres pelos britânicos e franceses em 29 de Novembro de 1937 [13]). Notar que a URSS estava ausente deste acordo (e por boas razões), ao contrário da Itália fascista que, tal como a Alemanha nazi, a França e o Reino Unido, não desejava a presença dos soviéticos ( nem aliás dos checoslovacos …).
  • Chamberlain (Reino Unido), Daladier (França), Hitler (Alemanha) e Mussolini (Itália) assinam o Acordo de Munique em 30 de Setembro de 1938. Um ano antes de a URSS, por falta de resposta aos seus pedidos de um acordo de defesa com a França e a Alemanha, se ver reduzida a assinar o pacto germano-soviético.


Em suma, enquanto a URSS apontou claramente o perigo fascista, apelando à fundação da “segurança colectiva” contra os agressores e à constituição de Frentes populares - ver o famoso relatório Dimitrov publicado quando do 7º Congresso do Comintern em Julho de 1935 - voando em socorro da Espanha republicana, propondo ajudar a Checoslováquia através do envio de tropas (cuja passagem foi oficialmente recusada pela Polónia reaccionária e anticomunista, aliada teórica da França antissoviética e ligada à Alemanha pelo “tratado de amizade” de 26 de Janeiro de 1934), e enquanto os deputados comunistas em França denunciam a traição de Blum em relação à Espanha - Blum que de resto desabafa: “Somos uns patifes! “- e recusam em bloco os acordos de Munique, as” democracias liberais “capitulam ainda e sempre face à ameaça fascista, cegos pelo ódio ao bolchevismo e pela sua sedução do fascismo: o ministro das Relações Exteriores francês na época dos acordos de Munique, Georges Bonnet, homem da “alta banca”, “pacifista” convencido e futuro apoio do regime de Petain, não o desmentirá! Um “entendimento cordial” que se reencontra do outro lado do Atlântico: pensemos em Charles Lindbergh, condecorado por Herman Göring, e que vê Hitler como um “grande homem” bem menos perigoso do que Stalin [14], ou ainda Henry Ford, grande financiador do partido nazi durante os anos 1930 e até 1945 [15] – tal como todos os credores ocidentais do Reich desde 1933.

Uma decisão táctica decisiva de Stalin

É nesse contexto que Stalin aceitará assinar o pacto germano-soviético que, lembremos, é um pacto de não agressão, e certamente não uma “aliança”, como é tão frequentemente afirmado. Poder-se-ia aliás imaginar por um momento uma aliança sincera quando sabemos que o objectivo de Hitler é a conquista de um vasto Lebensraum (espaço vital) a leste da Europa para o seu projecto de “Reich para mil anos? O próprio Hitler o repete em Mein Kampf: “Detemos a marcha eterna dos alemães em direção ao sul e em direção a oeste da Europa, e lançamos o nosso olhar para leste. ” “A luta contra a bolchevização mundial judaica exige uma atitude clara em relação à Rússia soviética. Não podemos perseguir o diabo utilizando Belzebu. [16] E, de facto, é difícil acreditar que os líderes soviéticos sejam ingénuos quando assinam esse famoso pacto: desejoso de atacar a Polónia, Hitler, assina todavia em Janeiro de 1934 um pacto de não agressão válido por pelo menos 10 anos com … a Polónia. Trata-se efectivamente de ganhar tempo na industrialização em marcha forçada da URSS, que se torna a terceira potência industrial do mundo em 1941 e se encontra em situação de enfrentar a Alemanha nazi, Hitler não tendo nunca abandonando o seu projecto de conquista de espaço vital. É desde logo inútil contar com um apoio das “democracias ocidentais”, apesar de alguns relâmpagos de lucidez de nacionalistas ferozmente anticomunistas como Henri de Kérillis, que se opôs aos acordos de Munique.

Assim, enquanto Hitler embarca nas suas “guerras relâmpago” na Polónia e depois no oeste da Europa, a URSS prossegue a sua preparação para a guerra, enquanto obtém benefícios das “cláusulas secretas” do pacto. A URSS é frequentemente criticada por anexar parte da Polónia e os países bálticos - lembremos que estes pertenciam à Rússia até a paz germano-russa de Brest-Litovsk, em Março de 1918; será necessário lembrar que a Polónia tinha deslocado as suas fronteiras orientais 250 km para leste da linha Curzon fixada pelos tratados de paz de 1919-1920 (por outras palavras, anexando territórios pertencentes à Rússia bolchevique)? Os dirigentes soviéticos veem nisso uma oportunidade de lavar a afronta ao Tratado de Riga, de Março de 1921 e, ao mesmo tempo, de afastar o mais possível o risco de uma invasão alemã, agora mais do que nunca provável após a liquidação do Polónia: dispor de um “cordão sanitário” antinazi antes que atinja Moscovo, Leningrado e Stalingrado, eis razão principal para o pacto de não agressão. Quanto à ruptura do pacto pela Alemanha nazi em 22 de Junho de 1941 no seguimento do lançamento da operação Barbarossa, não foi uma “surpresa” para Stalin, vendo acumularem-se mais de 4 milhões de soldados da Wehrmacht e países aliados e satélites da Alemanha, 600.000 camiões, 4.000 tanques, 7.000 canhões e 3.000 aviões nas fronteiras soviéticas [17]; a verdadeira surpresa foi sobretudo para os alemães, que constataram a extensão da feroz resistência e da eficaz industrialização soviética e rapidamente se aperceberam dos riscos de operar em duas frentes como em 1914. Assim, os dirigentes soviéticos, com Stalin à cabeça, foram capazes de reagir rapidamente (como o ilustra o “discurso ao povo soviético de 3 de Julho de 1941″), a fim de organizar a resistência e a contra-ofensiva na “Grande Guerra Patriótica”, sob a direcção do marechal Zhukov [18] .

Uma história direitizada e travestida pelos reaccionários

As amálgamas grosseiras de reacionários de todos os tipos não poderia resistir a uma análise rigorosa da história; mas permanece devido ao facto de esta última ser travestida pelos defensores da ordem capitalista, imperialista e atlantista (CIA), que falsificam a história à imagem de um Parlamento Europeu fraco em contrapartida na luta contra os desfiles de antigos Waffen SS na Letônia ou a presença no poder em Kiev de neonazis reivindicando-se de Stepan Bandera, grande colaborador durante a Segunda Guerra Mundial [19]. Quanto a Jean-François Copé, ele certifica com sua habitual segurança desconcertante e desdenhosa que a assinatura deste pacto é responsável pela morte de 60 milhões de pessoas - esquecendo de passagem que houve mais de 20 milhões de mortes na Ásia oriental, dos quais mais de 15 milhões de vítimas chinesas do Japão fascista: foi realmente por culpa do pacto germano-soviético, quando o Japão tinha iniciado a invasão da China em Setembro de 1931?

A história é também travestida mesmo na identidade do principal vencedor da Alemanha hitleriana: se a resposta não suscitava qualquer dúvida em 1945, ou seja: a URSS, uma boa lavagem de cérebros produziu o seu efeito uma vez que, em 2004, 60% dos franceses afirmam que foram os Estados Unidos que desempenharam o papel principal contra a Alemanha nazi [20]. No entanto, como um artigo no Le Monde Diplomatique de Agosto de 2009 justamente nos lembra: “quatro em cada cinco soldados alemães foram mortos na Frente Oriental; as batalhas de Stalingrado e Kursk não tiveram equivalente real em nenhum outro teatro de operações europeias (em Julho de 1943, a batalha de Kursk envolve 4 milhões de homens e causa mais de um milhão de mortos e feridos, dos quais quase 500.000 do exército alemão; durante todo o ano de 1943, as perdas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha não excedem 60.000 homens) “[21]. De facto, o pacto germano-soviético, a opção menos má possível quando foi assinado, torna-se a melhor solução possível, sancionada pela vitória final de 1945, como recentemente lembrado pelo representante especial do Presidente russo para a ecologia e os transporte e ex-chefe da administração presidencial Sergei Ivanov [22].

Assim se escreve todos os dias um pouco mais de história direitizada, que invade os aparelhos de TV e alimenta as análises dos “editocratas”, umas cães de guarda mediáticos sensacionalistas (à imagem do Le Point, que chegou ao ponto de dizer que Stalin planeou no final de sua vida … um novo Shoah! [23]), os manuais escolares, as declarações confusas de políticos como Copé e, bem entendido sem obscurecer as explicações “científicas” de “historiadores” anticomunistas como Stéphane Courtois, pai do famoso Livro Negro do Comunismo e aiatola obsessivo da comparação nazismo-comunismo para explicar, tal como seu mestre de pensamento François Furet, que os dois são “gémeos”; e tanto pior se o comunismo, que emana do Iluminismo e o reivindica, combate o nazismo fundamentalmente anti-humanista [24] … Mais do que nunca, face a uma tal vaga de mentiras tão grosseiras quanto perigosas para o comunismo, o combate pela “hegemonia cultural” deve ser empreendido e vencido, tal como o faz o Pólo de Renascimento Comunista em França (PRCF) através de historiadores como Gisele Jamet, Annie Lacroix-Rice e Gilda Landini (em particular) e filósofos como Aymeric Monville e Georges Gastaud. Essa batalha é tanto mais fundamental quanto, como Marx prevenia, “aquele que não conhece a história está condenado a revivê-la”.

Notas:
[1] Ver o seguinte link: https: //blogs.mediapart.fr/marc-daniel-levy/blog/200819/20-aout-40-c-e .
[2] Ver o seguinte link: https: //www.huffingtonpost.fr/2016/10/24/for-jean-francois-cope-un-pa …
[3] Ver o seguinte link: https: //www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2016/09/13/les-exageratio … Observemos que se Jean-François Cope não foi processado foi por “falta de prova” e não por “inocência” proclamada pelo tribunal de justiça …
[4] Ver o seguinte link: https: //www.lemonde.fr/big-browser/article/2016/11/21/jean-francois-co .
[5] Ver o seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=JOfs41kyTmQ From 5′50.
[6] Ver o seguinte link: https://en.wikipedia.org/wiki/European_Country_of_Souvenir
[7] Ver o seguinte link: https://www.monde-diplomatique.fr/2000/01/VIDAL/2079
[8] Ver o seguinte link: http://www.seuil.com/ouvrage/la-guerre-froide-andre-fontaine/9782020861205
[9] Ver o seguinte link: http://editionsdelga.fr/produit/la-guerre-de-1918-1922/
[10] É altamente recomendável ler Annie Lacroix-Riz, Le Choix de la défaite. Les élites françaises dans les années 1930, Armand Colin, 2010 (edição aumentada).
[11] Ver o documentário Hitler, la folie d’un homme,, exibido no M6 em 2004. Documentário disponível no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=1k5kUctcQzM
[12] Trata-se do acordo Laval-Hoare; constata-se já de passagem a atração de Laval pelos regimes fascistas …
[13] É altamente recomendável ler Annie Lacroix-Riz, De Munich à Vichy : l’assassinat de la Troisième République, 1938-1940, Armand Colin, 2008.
[14] Ver o seguinte link: https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Lindbergh#Lindbergh,_the_nazis_and_antitiism
[15] Ver o seguinte link: https: //www.liberation.fr/planete/1998/12/04/ford-fournisseur-du-iiie -…
[16] Estas são apenas algumas citações não exaustivas que podem ser encontradas no seguinte link (páginas 493 e 507): https://beq.ebooksgratuits.com/Propagande/Hitler-combat-2.pdf
[17] Números do documentário Apocalypse. La Seconde Guerre mondiale : le choc. Para mais informações sobre a invasão alemã, ler Geoffrey Roberts, Les guerres de Staline (1939-1953), Delga, 2006.
[18] Para mais detalhes sobre este assunto, ler Domenico Losurdo, Staline. Histoire et critique d’une légende noire, Aden Bélgica, 2011.
[19] Ver, em particular, o seguinte link: https: //www.initiative-communiste.fr/articles/europe-capital/quand-un -…
[20] Ver o seguinte link: http://www.slate.fr/story/88935/defaite-nazis-sondage
[21] Ver o seguinte link: https://www.monde-diplomatique.fr/carnet/2009-08-24-Perm-germano-sovietique
[22] Ver o seguinte link: https: //fr.sputniknews.com/international/201907081041618429-pacte-molo …
[23] Ver o seguinte link: https: //www.lepoint.fr/editos-du-point/michel-colomes/staline-aussi-vo ..
[24] Ler em particular Enzo Traverso, A feu et à sang. De la guerre civile européenne, 1914-1945, Stock, 2007.