segunda-feira, 13 de maio de 2019

Autoritarismo e Fascismo no Brasil Contemporâneo

Conferência da historiadora Anita Prestes na Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Quinta-feira, 23 de maio de 2019, às 19:00 .
AUDITÓRIO 5R A/B Campus Santa Mônica UFU

Mais informações na página do evento: 


quarta-feira, 8 de maio de 2019

Bolsonaro e a destruição deliberada das universidades públicas

Por Paulo Moreira Leite


Mais recente protagonista do circo de horrores em exibição em tantos países neste momento, o correto entendimento dos horizontes políticos de  Jair Bolsonaro é um aspecto crucial da luta política de 2019.

Desde 1 de janeiro, a democracia e o bem-estar dos brasileiros encontram, no Planalto, um adversário que está longe de ser banal. A prova mais recente ficou clara no debate em torno das universidades públicas, que levou alunos e professores a organizar a paralisação nacional marcada para 15 de maio.   

Num editorial (4/5/2019), o Estado de S. Paulo observa que Bolsonaro "mostra desconhecimento, despreza estatísticas e comete erros factuais" em seus tuítes sobre ensino superior no país. Tentando justificar um corte drástico de 30% ele escreveu que "poucas universidades públicas têm pesquisas e, dessas poucas, grande parte está na iniciativa privada."

O jornal lembra que, entre as 50 universidades brasileiras mais ativas no plano científico, 36 são universidades públicas federais, 7 são universidades públicas estaduais, 5 são institutos de pesquisa ligados ao governo federal, uma é um instituto federal de ensino técnico. Apenas uma entre as 50 é privada.

Sonho de consumo dos vira latas da equipe econômica, a OCDE informa que os gastos do Brasil com ensino superior já são ridiculamente  baixos, o que mostra a estupidez de cortar recursos de nossas instituições mais produtivas.  Entre 39 países, o Brasil encontra-se no último lugar, com gastos de US$ 3720 por ano por aluno, atrás de Portugal, India, Colombia e Costa Rica -- sem falar nos primeiros da lista, Luxemburgo, Estados Unidos e Reino Unido (Blog de Jamil Chade, 4/5/2019).

Embora esses fatos tragam argumentos que, num debate racional, deveriam reduzir o programa de Bolsonaro a pó, é ingenuidade aguardar uma mudança de atitude do governo em função disso. A discussão aqui é outra.

Do ponto de vista do "bolsonarismo", a  destruição das universidades públicas não constitui um acidente de percurso, nem um erro a ser corrigido. Tampouco é uma contingência desagradável imposta por uma conjuntura difícil. Num governo que faz do anti-intelectualismo uma prioridade permanente, é  um fim desejado, buscado e justificado por qualquer meio, inclusive a violência e a mentira.

Do ponto de vista do governo, as universidades públicas não passam de aparelhos ideológicos destinados a produzir o "marxismo cultural" e alimentar o "politicamente correto" que constituem o inimigo que precisa ser vencido de qualquer maneira, em nome da prometida reconstrução do país. São centros de doutrinação e formação de quadros. 

Nesta visão, em vez de desempenhar um papel inegável no progresso do país, alunos e professores insistem em levar adiante uma atuação nociva na conjuntura brasileira, em linha de continuidade com a postura de crítica e resistência à ditadura de 64 -- passado que Bolsonaro e seus aliados protegem e  reverenciam em todas as oportunidades, sem esquecer aspectos sórdidos e mais repulsivos.   

O básico é compreender que o confronto aqui não se dá no plano das ideias e argumentos que, com base no conhecimento científico e na razão, constituem o saber acumulado e pactuado de uma sociedade ao longo de uma história plural, com avanços, recuos, guinadas e possíveis alterações de rota.

O artigo "Bolsonaro e os Quartéis: a loucura com método", do professor da UFRJ Eduardo Costa Pinto, debatido numa entrevista a TV 247 disponível no Youtube, mostra qual é o debate real.

A raiz ideológica do governo Bolsonaro é parte de uma doutrina militar herdada da Guerra Fria, a "teoria da guerra revolucionária". Traduzida e supostamente atualizada pelos ideólogos do ultra-conservadorismo norte-americano que patrocinam o ambiente reacionário de nossos dias, essa visão alimenta-se de dogmas que podem nos parecer -- e são -- absurdos, sem conexão  com realidade brasileira e mundial. 

Nas fantasias ideológicas do bolsonarismo, porém, envolvem noções arraigadas e essenciais, a começar pela  visão grotesca de que a grande ameaça enfrentada pela humanidade de nossos dias não mudou grande coisa  depois do colapso da URSS e da conversão da China à economia de mercado.

Como acontece desde sempre, o perigo se encontra na atividade perversa do velho Movimento Comunista Internacional e seus aliados. Em circunstâncias diversas, impostas pelo colapso da União Soviética, hoje travam uma guerra cultural contra os valores legítimos e autênticos da civilização -- e por essa via alcançaram o poder em áreas inteiras do planeta. 

Instalada no núcleo que comanda o governo, essa visão tem lá suas nuances mas a força é de caráter absoluto.  Não permite o debate que procura consensos e convivências mutuamente enriquecedoras entre contrários -- mas exige a eliminação do outro, aqui tratado como inimigo a ser derrotado e eliminado. (A "teoria da guerra revolucionária" era usada para justificar a prática de tortura do Exército francês na guerra Argélia, que depois seria divulgada e ensinada em vários países sul-americanos, inclusive no Brasil do regime militar).

Eduardo Costa Pinto mostra que, embora Olavo de Carvalho seja uma voz barulhenta e influente, o essencial se encontra nas elaborações do general Avellar Coutinho, um dos últimos formulares da extrema direita militar brasileira, referência real do Alto Comando que assistiu e contribuiu para a derrocada de Dilma, a prisão de Lula e a sustentação de Bolsonaro, na eleição e na formação de seu governo.

Cronologicamente, Avellar Coutinho não pode ser descrito como um homem das cavernas. Seus trabalhos mais conhecidos vieram à luz em 2002 e 2003,  uma década e meia após o naufrágio da ditadura militar. Pretendem responder a um país que, após oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, iria enfrentar 14 anos de governos Lula e Dilma, demonstração única de democracia e alternância de poder na história política brasileira -- numa transição marcada, sabemos todos, pelos partidos que maior presença  possuíam nas universidades públicas do país de então.   

A lógica do combate à "guerra revolucionária" é um traço essencial do governo Bolsolnaro e ajuda a entender a reação do ministro Abraham Weintraub diante da reação inconformada das universidades atingidas pelos cortes -- eram três, inicialmente. Em vez de  abrir o debate o governo aumentou a aposta. Anunciou um corte de igual teor no conjunto das universidades federais, deixando claro que não queria perder a oportunidade de avançar ainda mais num ataque cujo efeito previsível  será paralisar essas instituições no país inteiro. 

O deslocamento e por fim destruição das universidades públicas também é a prioridade das forças que sustentam Paulo Guedes e por essa via tentam conectar o apoio à Bolsonaro aos interesses de mercado.

Há mais de meio século elas estão de  olho nos centros de excelência do ensino público, principal barreira a sua penetração num país que abriga uma das dez maiores economias do planeta. Grandes multinacionais de educação privada já escancararam o mercado brasileiro em anos recentes. Mesmo atingido parcialmente pela lógica privatizante,  o centro nervoso de nosso ensino superior não foi comprometido.

Essa é a fronteira que, no plano cultural e econômico, pretende-se atravessar agora, gerando pelo menos um resultado previsível. Se a investida não for paralisada no curto prazo, em breve a falta deliberada de recursos elevará a pressão para requentar o velho projeto de cobrança de mensalidade nas universidades públicas -- cujo resultado, sabemos todos, é  recriar o velho elitismo de tempos anteriores aos programas que abriram vagas a estudantes de baixa renda familiar.   

O processo de hoje só tem equivalente, no país, aos ataques de envergadura às universidades públicas ensaiados logo após o golpe de 64, os chamados acordos MEC-USAID, repelidos pela vigorosa mobilização da juventude estudantil entre 1966-1968.   

Força destrutiva, versão popularizada e vulgar de dogmas políticos, o preconceito é uma vergonha e um insulto na vida cotidiana.   

Na luta política, é um instrumento de poder. Empobrece e condiciona o debate. Também conduz a tragédias previsíveis quando chega ao comando do Estado, pois dogmas e preconceitos só podem sobreviver enquanto forem alimentados e reafirmados por medidas concretas -- agora com os recursos de governo, que incluem o uso da força para atingir seus fins.

Em seus momentos mais bestiais, estes governos podem superar a própria capacidade de causar dano e produzir o mal, como ensinam as páginas mais dolorosas da história de povos e países.    

Alguma dúvida?

FONTE: Brasil 247

terça-feira, 7 de maio de 2019

VICTOR ALLEN BARRON: HEROICO COMUNISTA NORTE-AMERICANO ASSASSINADO PELA POLÍCIA DE FILINTO MÜLLER EM 1936

Por Anita Prestes
  
O jovem comunista norte-americano Victor Allen Barron (16/3/1910 – 5/3/1936) chegou ao Rio de Janeiro em 1935 em missão da Internacional Comunista (IC), atendendo a solicitação da direção do Partido Comunista Brasileiro (PCB), para colaborar com o movimento antifascista então em curso no Brasil, que ganhava força e importância a partir da fundação da Aliança Nacional Libertadora (ANL).


Victor Allen Barron



sexta-feira, 3 de maio de 2019

Baixe livro gratuito, ilustrado por Ziraldo, que ajuda a conhecer quem foi Chico Mendes

Publicação pode ajudar as novas gerações a não passarem pela vergonha de não saber quem foi o seringueiro defensor da Amazônia



Conhecer o meme que tá bombando, saber qual é o próximo hit do Verão, ter escutado o novo álbum daquele(a) cantor(a) pop inteirinho e estar em dia com as séries mais descoladas do momento não representa problema algum. Afinal, entretenimento, lazer e diversão também são dimensões das nossas vidas que precisam de atenção.

Agora, ter contato com alguns conteúdos fundamentais sobre conhecimentos gerais, política e meio ambiente também é algo que a gente não pode deixar pra segundo plano.

Muito mais do que estudar pra fazer um vestibular, estudar pra ir bem na redação do Enem ou para ser aprovado num concurso público e alcançar aquele emprego supostamente estável, o conhecimento também serve pra influenciar as nossas decisões a serem mais críticas, deixar nossos argumentos bem fundamentados, nos tirar da ignorância que faz muitas pessoas acreditarem na versão única sobre determinado fato, confrontar as fake news (notícias falsas) e também para que possamos compartilhar esse conhecimento com outras pessoas sempre que necessário. E antes que eu me esqueça: ajuda a não passar pela vergonha de ocuparmos um dos mais altos cargos – que define as diretrizes políticas de meio ambiente e sustentabilidade – sem conhecer as personalidades mais emblemáticas que defenderam relevantes pautas socioambientais do país: a preservação da floresta Amazônica.

Pensando nisso, o portal Universo Educom disponibiliza pra você, o link para fazer o download completo do livro infantil “A história de Chiquinho”, criado numa parceria entre o Instituto Chico Mendes e o cartunista e escritor Ziraldo. A obra ajuda a compreender, de um jeito sensível e adequado à faixa etária infantil, a síntese da vida e atuação de Chico Mendes.

Recentemente, no dia 11/02/2019 (uma segunda-feira), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disparou declarações de deixar qualquer ambientalista brasileiro estarrecido. “Eu não conheço Chico Mendes e tenho dificuldade de falar sobre coisas que não conheço” e “O fato é que ele é irrelevante! Que diferença faz quem é o Chico Mendes nesse momento?!” são alguns exemplos de falas grosseiras que, além de terem sido reprovadas pela comunidade científico-ambiental também repercutiu amplamente na imprensa nacional. [...]

Para evitar que a garotada cresça sem conhecer personalidades que tiveram importância histórica para o nosso país e para o mundo, é sempre bom buscarmos meios interessantes de incentivá-las a lerem, assistirem e ouvirem o que essas personalidades fizeram de relevante para a sociedade. [...]

Que tal começar baixando o livro e lendo para o seu filho, hein? Projetar na sala de aula e promover uma leitura coletiva também pode ser uma iniciativa super prática. Os mais animados podem pensar em elaborar cenários, figurinos e adaptação de roteiro para apresentar uma peça de teatro inspirado na publicação. Enfim, a criatividade é que manda!


Leitura dramatizada "K.relato de uma busca"

Por Militantes em cena

A saga de um pai em busca de sua filha desaparecida durante a Ditadura Militar no Brasil.

Dia 07/05, às 11h, no Salão Nobre do IFCS



segunda-feira, 29 de abril de 2019

DOCUMENTO INÉDITO REVELADOR DO DESEMPENHO DO ALUNO LUIZ CARLOS PRESTES NA ESCOLA MILITAR DO REALENGO (RJ)

Por Anita Leocadia Prestes  
via ILCP 


Após a conclusão do curso do Colégio Militar do Rio de Janeiro, Luiz Carlos Prestes, em 1916, aos dezoito anos, ingressou na Escola Militar do Realengo. Logo no início do curso, era necessário seguir a disciplina de Geometria Analítica com o professor José Pio Borges de Castro, considerado o terror dos alunos, pois costumava reprovar em massa e raramente atribuía a alguém grau dez.

Para espanto geral dos seus colegas e de toda a Escola Militar, Luiz Carlos Prestes obteve nota dez na primeira sabatina promovida pelo prof. José P. Borges. O jovem Prestes só recebeu grau nove uma vez, mantendo a avaliação máxima o curso todo.

O desempenho de Prestes durante o curso na Escola Militar sempre foi comentado e admirado por seus contemporâneos e por várias gerações de oficiais que frequentaram essa Escola[1], mas só agora foi possível obter o documento original comprobatório da história que reverberara durante décadas. A caderneta do prof. José Pio Borges de Castro com a relação dos alunos e suas respectivas notas referente ao ano de 1916 foi encontrada pelo filho do professor, que leva seu nome, entre os guardados do pai, falecido há muitos anos. Esse documento até agora inédito (ver reprodução a seguir) me foi cedido pelo Dr. José Pio Borges de Castro Filho, junto ao qual assumi o compromisso de doá-lo à Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos. Nessa instituição encontra-se o acervo de Luiz Carlos Prestes que estava aos meus cuidados após o falecimento da minha tia Lygia Prestes, responsável pela sua preservação durante muitos anos.



Será mais um documento franqueado ao público para que as novas gerações de brasileiros possam conhecer a vida do Cavaleiro da Esperança – figura legendária que marcou a História do Brasil no século XX.

Rio de Janeiro, abril/2019

[1] Por exemplo, o depoimento do capitão José Rodrigues, contemporâneo de Prestes na Escola Militar, in José Rodrigues, Luiz Carlos Prestes: sua passagem pela Escola Militar (Fortaleza, Typographia Minerva, 1927).