quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Renda dos super-ricos aumentou na crise [durante o período de 2014 a 2016]

Por Ribamar Oliveira | De Brasília
Valor Econômico



Durante o período de 2014 a 2016, no qual a economia brasileira esteve mergulhada em uma de suas piores recessões, a renda total do segmento mais rico da população - formado por pessoas que ganhavam mais de 160 salários mínimos por mês - aumentou 2,2% em termos reais, de acordo com análise feita pelo economista Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

Os dados foram retirados do documento "Grandes Números do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF)", relativo ao ano-calendário de 2016, exercício de 2017, divulgado recentemente pela Receita Federal. Em sua análise, o economista utilizou também os relatórios da Receita com os números do IRPF referentes a 2013, 2014 e 2015. 

Em 2013, 71.440 contribuintes com renda declarada superior a 160 salários mínimos mensais tiveram um rendimento total de R$ 309,6 bilhões, incluindo salários, aluguéis, ganhos de aplicações financeiras e lucros e dividendos. Já em 2016, o número de declarantes no topo da pirâmide caiu para 67.934 pessoas, mas a renda total do grupo subiu para R$ 399 bilhões, o que mostra um crescimento nominal de 28,9%, em um período em que a inflação média foi de 26,1%. 

Já a renda per capita desse segmento cresceu ainda mais acima da inflação, atingindo 7,5%. "Como houve redução do número de pessoas no grupo, o crescimento médio real da renda está entre 2,2% e 7,5%", disse Gobetti. "Seja qual for a taxa verificada, é um desempenho muito superior ao que se verificou no conjunto dos contribuintes do IRPF, cuja renda per capita caiu 3,3%", explicou. 

Esse é um indicativo, segundo o economista, de que a concentração de renda no país pode ter aumentado no período da crise. Mas ele adverte que são necessários estudos mais detalhados que considerem o aumento e a diminuição do número de contribuintes em cada faixa de renda. 

Outro indicativo de que os mais ricos tiveram aumento de renda maior do que o conjunto dos brasileiros é que as rendas típicas de capital, como as aplicações financeiras e os lucros e dividendos, que são tributados exclusivamente na fonte ou isentos, aumentaram em termos reais nesse período, enquanto os rendimentos tributáveis, ou seja, basicamente salários, tiveram queda de 6%, em termos reais. 

O documento da Receita sobre 2016 reforça também a conclusão de que os contribuintes mais ricos pagam pouco imposto de renda no Brasil. A alíquota efetiva do IR daqueles que em 2016 ganhavam mais de 160 salários mínimos por mês (R$ 140,8 mil, na época) foi de apenas 6,1%. Os contribuintes que mais pagaram imposto naquele ano ganhavam de 30 a 40 mínimos por mês (de R$ 26,4 mil a R$ 35,2 mil), pois tiveram alíquota efetiva de 12,1%. A alíquota efetiva é dada pela comparação entre o imposto pago e a renda total do contribuinte.

A alíquota efetiva dos contribuintes do topo da pirâmide é menor porque dois terços da renda recebida são isentos, provenientes, principalmente, de lucros e dividendos. Em 2016, a renda média desse grupo de contribuintes foi de R$ 5,873 milhões. Desse total, R$ 3,805 milhões foram rendimentos isentos e não tributáveis, R$ 1,390 milhão de rendimentos tributados exclusivamente na fonte (aplicações financeiras) e apenas R$ 677,9 mil foram de rendimentos tributáveis. 

O patrimônio (bens e direitos) médio dos contribuintes mais ricos foi de R$ 26,136 milhões em 2016, de acordo com os dados da Receita Federal. A dívida média declarada foi de R$ 1,183 milhão. Naquele ano, esse grupo obteve, em média, receita de R$ 679,6 mil com herança e doações. 

Na base da pirâmide, os contribuintes que ganhavam até dez salários mínimos obtiveram uma renda total de R$ 747,4 bilhões em 2013. Naquele ano, eram 20,738 milhões de pessoas que estavam neste segmento. Em 2016, o número subiu para 22,274 milhões de pessoas, com um aumento de 7,4%. A renda total, por sua vez, subiu para R$ 999 bilhões. 

A variação da renda foi de 33,8% no período. Se for retirado o aumento ocorrido no número de contribuintes nessa faixa de renda, a variação cai para 24,5%, abaixo, portanto, da inflação do período. Com base nesse cálculo, teria ocorrido uma queda real de 1,2% da renda do segmento de contribuintes da base da pirâmide, durante a grande crise econômica brasileira. 

Os dados mostram ainda que os rendimentos isentos e não tributáveis nas declarações feitas em 2016 atingiram R$ 844,049 bilhões. Do total, R$ 350,27 bilhões referem-se a lucros e dividendos, R$ 84,40 bilhões a heranças e doações, R$ 63,09 bilhões à parcela isenta de aposentadoria de maiores de 65 anos, R$ 58,34 bilhões a rendimentos de cadernetas de poupança e letras de crédito, R$ 46,86 bilhões a pensão, aposentadoria ou reforma por doença grave, ou acidente, e R$ 36,88 bilhões a indenizações por rescisão de contrato de trabalho, PDV e FGTS.



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Livro explica conceitos de Gramsci que renovaram o marxismo

Obra da Editora da USP reproduz palestras ocorridas em seminário sobre o filósofo italiano

Por Redação - Editorias: Cultura

Retrato de Antonio Gramsci com cerca de 30 anos – Foto: Domínio público via Wikimedia Commons

Em agosto de 2011, a Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília, promoveu o 4º Seminário Internacional sobre Teoria Política do Socialismo. Na ocasião, comemoravam-se os 120 anos do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937). As palestras proferidas naquela ocasião foram transformadas em artigos, que estão agora reunidos no livro Gramsci – Periferia e Subalternidade, lançado recentemente pela Editora da USP (Edusp).

Organizado professor Marcos Del Roio, da Unesp – um dos maiores especialistas brasileiros na obra de Gramsci -, o livro traz 13 artigos de autores ligados a diferentes universidades do Brasil e do exterior. O prefácio é assinado pelo professor Lincoln Secco, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 

Os artigos se dedicam a analisar ideias com que Gramsci renovou e diversificou o marxismo. Entre essas ideias estão os conceitos de periferias e subalternidades no capitalismo, que, como Roio explica na apresentação do livro, são “categorias espaciais e sociais utilizadas por Gramsci para descrever as relações de força existentes no cenário nacional/internacional e que servem para compreender relações de poder entre classes e entre Estados.”

Os termos “hegemônicos” e “subalternos” utilizados por Gramsci são categorias mais abrangentes do que os clássicos conceitos de “burguesia” e “proletariado” cunhados por Karl Marx (1818-1883), o criador do socialismo científico. É o que afirma o professor Guido Liguori, da Universidade da Calábria, na Itália, no artigo que assina no livro. “A categoria de ‘subalterno’ aparece num quadro de enriquecimento das categorias tradicionais do marxismo”, escreve Liguori. “É já em si significativo que, ao falar de classes ou grupos sociais subalternos, Gramsci compreenda tanto grupos mais ou menos desagregados e marginais quanto o proletariado de fábrica: em outras palavras, tanto os camponeses sardos quanto os operários turineses.”

Citando o historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012), Liguori destaca que uma das peculiaridades das quais nasce a originalidade do marxismo de Gramsci está exatamente no fato de ele haver vivido tanto a experiência de uma região extremamente atrasada, marginal e periférica, como a Sardenha, quanto a de uma grande cidade industrial capitalista como Turim. “Também por isso, o comunista sardo nos pôde oferecer uma categoria como aquela de ‘subalterno’, capaz de abordar conjuntamente os explorados e os oprimidos num sentido mais abrangente que as categorias marxistas tradicionais.”

O livro sobre Gramsci lançado pela Edusp – Foto: Reprodução
Outro artigo do livro que trata de subalternidade é “Gramsci e as ideologias subalternas”, escrito pelo organizador da obra, Marcos Del Roio. De acordo com o professor, interpretando o filósofo italiano, as ideologias das classes subalternas têm como característica essencial ser fragmentadas e desconexas, uma vez que estão sob o influxo das classes dominantes. Por isso, ele cita, a história dos grupos sociais subalternos é necessariamente “desagregada e episódica”, pois os grupos subalternos sofrem sempre a iniciativa dos grupos dominantes, mesmo quando se rebelam e se insurgem. “Daí que, para Gramsci, a transformação dos fundamentos materiais da vida ocorre na medida em que as classes subalternas tomam consciência de sua situação e elaboram uma nova visão de mundo em condições de dirigir a luta política e construir uma nova hegemonia”, escreve o professor. “Mas chegar a esse momento da luta pela hegemonia demanda um percurso muito difícil, já que a acumulação do capital, em seu movimento, tende a subordinar todas as formas produtivas que não tenham o lucro como fim, assim como o domínio da burguesia tende a subordinar todas as ideologias precedentes à sua visão de natureza humana e de homo economicus.”

Outros artigos publicados em Gramsci – Periferia e Subalternidade são “Como pode o subalterno falar?”, de Edmundo Fernandes Dias, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), falecido em 2013, “Da subalternidade ao subalternismo: uma crítica gramsciana aos Subaltern Studies”, de Massimo Modonesi, da Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), e “O protagonismo das periferias e dos subalternos na alternativa desenhada por Gramsci”, de Giovanni Semeraro, da Universidade Federal Fluminense.

Gramsci – Periferia e Subalternidade, de Marcos Del Roio (organizador), Edusp, 312 páginas, R$ 60,00.

Livro infantil sobre Karl Marx apresenta luta de classes para crianças

Por Rodrigo Casarin, Blog Página Cinco


Frederico se espanta quando encontra no mercado um par de meias custando duas libras. Funcionário da fábrica que produz o produto, fica intrigado e quer saber o que leva aquela peça de roupa a custar tanto, já que ele ganha apenas 25 centavos para cada par que produz. Um amigo lhe explica que o valor final leva em conta, além do seu trabalho, o custo do carvão, da lã, das máquinas… No entanto, Frederico continua estranhando a discrepância entre o que recebe e o que é pedido pelas meias. Pede, então, para que Rosa, uma colega bem instruída, faça as contas e lhe explique o que se passa.

Rosa passa um domingo inteiro, seu único dia de folga, fazendo e refazendo cálculos. Ao cabo, descobre que, do preço final, 1,35 libra corresponde ao “mais-valor” (ou mais-valia), o lucro do patrão. “Bom… Sabe o que eu acho? Que esse tal de ‘mais-valor’ deveria se chamar ‘trabalho não pago ao trabalhador’. É muito injusto!”, retruca Frederico. A solução para mudar aquela realidade? Greve geral para que os empregados da fábrica negociem uma jornada de trabalho menor e salários mais altos.



É essa a história que vovô Carlos conta para seus netinhos em “O Capital Para Crianças”, livro dos catalães Joan Riera e Liliana Fortuny . Recém-lançado pela Boitatá, selo infantil da Boitempo, a obra integra a série de publicações que a editora vem fazendo para celebrar o ano de bicentenário de nascimento do filósofo alemão Karl Marx – sim, o Carlos da narrativa é uma representação do barbudo autor de “O Capital” e “Manifesto Comunista”, cujas ideias serviram de base para diversos movimentos de esquerda.

Com uma linguagem bastante didática, a obra apresenta às crianças conceitos básicos sobre a luta de classes e, como mostrado acima, o debate sobre as jornadas de trabalho, as remunerações dos trabalhadores e os lucros dos empresários. “Antigamente, a pessoa que contratava chamava-se capataz, patrão ou amo. Hoje, costuma-se chamar empresário, chefe ou gerente. Já quem era contratado (isto é, o Frederico), antes era chamado de operário ou proletário. Hoje, costumamos chamar de trabalhador , funcionário ou empregado”, explica, por exemplo, o vovô narrador .

Veja algumas páginas da obra:





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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Vampirão da Tuiuti é proibido de sair com faixa presidencial hoje na Sapucaí

POR NINJA


Depois da repercussão internacional da fantasia de Vampirão Neoliberalista que desfilou na Sapucaí no último final de semana pela escola Paraíso de Tuiuti, o personagem desfilará hoje sem a faixa presidencial que remete diretamente ao governo Temer. Segundo informações preliminares obtidas com organizadores da escola, a Presidência da República deu ordens extraoficiais para que a faixa não fizesse parte do desfile hoje e até 2 horas atrás a própria fantasia também estava proibida.

Ao comentar a intervenção militar no Rio de Janeiro, o ator e professor de história Leonardo Moraes que interpreta o personagem na escola, afirma qualquer um que entende de história sabe o que está acontecendo hoje no Brasil é preocupante.

“A gente já sabia que ia gerar um incômodo mas isso era esperado, mas o furdunço já vale” comentou Jack Vasconcelos, carnavalesco da escola.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

Sabotagem à democracia na Venezuela

Por Atilio Boron  

Depois de longos meses de diálogo e negociação em Santo Domingo, o governo e a oposição venezuelana tinham chegado a um acordo. Apenas faltava a cerimónia da assinatura. Mas as ordens de Washington fizeram tudo voltar atrás. Para os EUA a única solução aceitável é a do caos, da violência e da intervenção militar. Sejam quais forem os custos e a dimensão da tragédia.

Foi nos diálogos de Santo Domingo. A carta que em 7 de Fevereiro o ex. presidente do governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero tornou pública revela a sua surpresa - e, de modo mais subtil, a sua indignação - ante a “inesperada” renúncia por parte dos representantes de la oposição a subscrever o acordo quando estava todo pronto para a cerimonia protocolar na qual se anunciaria publicamente a boa nova. Como RZ revela na dita carta, depois de dois anos de diálogos e discussões tinha-se chegado a um acordo para por em marcha “um processo eleitoral com garantias e consenso quanto à data das eleições, a posição sobre as sanções contra a Venezuela, as condições da Comissão da Verdade, a cooperação ante os desafios sociais e económicos, o compromisso por uma normalização institucional e as garantias para o cumprimento do acordo, e o compromisso para um funcionamento e desenvolvimento plenamente normalizado da política democrática.” (https://www.aporrea.org/oposicion/n320777.html)

Este acordo, a ter sido assinado pela oposição, punha fim à crise política que, com as suas repercussões económicas e sociais, tinha desencadeado uma das mais graves crises da Venezuela em toda a sua história. Era também um passo gigantesco no sentido da normalização de uma situação regional cada vez mais crispada pelas ressonâncias do conflito venezuelano. O pretexto surpreendentemente utilizado pela envergonhada oposição foi a renovada exigência de que as eleições presidenciais fossem monitorizadas pelo Grupo de Lima, uma colecção de países (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Santa Lucía) cujos governos competem para ver quem faz gala do maior servilismo na hora de obedecer às ordens emitidas pela Casa Branca para atacar a Venezuela. O Grupo de Lima não é uma instituição como a UNASUR, a OEA ou outras do mesmo estilo.

O documento elaborado na República Dominicana colocava nas mãos da Secretaria-Geral da ONU o organizar da fiscalização da eleição presidencial, uma instituição infinitamente mais seria e prestigiada que o Grupo limenho onde abundam os narcopresidentes, os golpistas benzidos pelos EEUU como os mandatários de Brasil e Honduras, governos como o de México que fizeram da fraude eleitoral uma arte de incomparável eficácia, ou o de Chile, cujo maior êxito democrático é ter decepcionado tanto o seu povo que menos da metade do eleitorado acorreu a votar nas últimas eleições presidenciais. Apesar disso, a exigência de que este inapresentável grupo de governos fosse o encarregado de garantir a “transparência e honestidade” das eleições presidenciais na Venezuela foi o pretexto utilizado para boicotar um acordo que tanto trabalho tinha custado a elaborar.

¿Como explicar esta súbita e inesperada mudança na opinião da oposição venezuelana?

Para responder a esta interrogação há que viajar até Washington. Tal como era previsível, para a Casa Branca a única solução aceitável passa pela destituição de Nicolás Maduro e uma “mudança de regime”, mesmo que esta opção traga consigo o perigo de uma guerra civil e de ingentes custos humanos e económicos. Por outras palavras, o modelo é Líbia, o Iraque, e de nenhuma maneira una transição pactuada entre o governo e a oposição, ou ainda menos, aceitar a sobrevivência do governo bolivariano em troca de alguns gestos de moderação por parte de Caracas. Segundo a perspectiva geopolítica que informa todas as acções da Casa Branca nenhum escrúpulo moral pode interferir no projecto de submeter a Venezuela ao jugo estado-unidense, essa doentia obsessão do império para converter num protectorado norte-americano um país que conta com as maiores reservas petroleiras do planeta e um território dotado de imensos recursos naturais.

Para os falcões de Washington qualquer opção diferente dessa é puro sentimentalismo, e se os políticos da oposição venezolana acreditaram que estas negociações seriam se não avalisadas pelo menos toleradas pela Casa Branca caíram numa infantil ilusão: crer que os EUA se importam com a democracia, ou com o que eles chamam “crise humanitária”, ou com a vigência do Estado de Direito na Venezuela. Para o império estas questões são completamente irrelevantes quando se fala da imensa maioria dos “países de merda” que constituem a periferia do sistema capitalista mundial. Por isso não foi casual que a ordem de se abster de assinar os acordos coincidisse com a visita de Rex Tillerson a Colômbia, e que fosse o presidente Juan M. Santos quem tivesse assumido a desonrosa tarefa de transmitir o úkase imperial aos representantes da oposição reunidos em Santo Domingo.

¿Como continuará esta história?

Washington está a esticar a corda para tornar inevitável uma “solução militar” na Venezuela. Foi por isso que Tillerson visitou 5 países latino-americanos e caribenhos, num esforço para coordenar a nível continental as acções do que bem poderia ser o começo de um assalto final contra a pátria de Bolívar e Chávez. O Comando Sul está a alistar pessoal da Força Aérea dos EUA no Panamá sem outro verosímil propósito que o de atacar a Venezuela. Entretanto, a ofensiva diplomática e mediática estende-se por todo o mundo. O Parlamento Europeu deu novas provas do seu processo de putrefacção e redobra as sanções contra a Venezuela, ao mesmo tempo que os serventuários latino-americanos caribenhos de Washington se atrelam vergonhosamente à agressão. Neste 8 de Fevereiro o governo de Chile anunciou a suspensão indefinida da sua participação no diálogo venezuelano porque, segundo La Moneda, “não foram acordadas condições mínimas para uma eleição presidencial democrática e uma normalização institucional.”

Parece que, como uma vez disse José Martí, na Venezuela está a chegar “a hora dos fornos e não se há-de ver mais que a luz.”


FONTE: ODiario.info

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

DOM PEDRO CASALDÁLIGA – OS 90 ANOS DE UM PROFETA VIVENTE

Por Pe. José Artulino Besen

Dom Pedro Casaldáliga – força e fragilidade de um profeta

Pedro Casaldáliga, Dom Pedro, nasceu em 16 de fevereiro de 1928 em Bolsareny, Espanha. Ingressou na Congregação dos Claretianos e foi ordenado padre em 1952. Vocação missionária, chegou ao Brasil em julho de 1968, na época mais dura da ditadura militar. Foi ordenado primeiro bispo de São Felix do Araguaia, Mato Grosso, em 23 de outubro de 1971. Seu compromisso cristão com os mais pobres ficou claro em sua primeira carta pastoral: “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”.

Adotou como lema para sua atividade pastoral Nada Possuir, Nada Carregar, Nada Pedir, Nada Calar e, sobretudo, Nada Matar.

Em pouco tempo sua figura transcendeu os limites da diocese, pois contribuiu decisivamente na fundação de duas entidades-chave na história da Igreja brasileira: a Comissão de Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismos fundamentais na luta em favor da Reforma Agrária e do respeito aos povos indígenas brasileiros.

Incansável lutador, viveu o tempo e a espera:

“É tarde / mas é nossa hora. / É tarde / mas é todo o tempo / que temos à mão / para fazer futuro. / É tarde / mas somos nós / esta hora tardia. / É tarde / mas é madrugada / se insistimos um pouco.”

Dom Casaldáliga é o bispo dos pobres, que nunca se submeteu aos poderosos, e continua cercado pelos pobres, tendo sua casa aberta para todos. Um bispo corajoso que nunca se calou no meio dos problemas.  Característica marcante de sua atuação como bispo foi o fato de preferir não utilizar os tradicionais trajes eclesiásticos: em vez da mitra, preferiu o chapéu de palha, em vez de um anel dourado, um anel de tucum.

Suas causas, as causas  a que entregou sua vida: a causa da Terra, dos indígenas, da mulher marginalizada, do povo negro, a causa ecológica. Dom Pedro encarna perfeitamente o bispo do Evangelho e o bispo da primavera de Francisco. É um santo vivo, pouco valorizado pela Igreja. Talvez seja o último profeta vivo, à altura de Dom Helder Câmara e Dom Oscar Romero. Nele convergem múltiplas dimensões: missionário a serviço da libertação, profeta despertador de consciências, místico que descobre a Deus nos empobrecidos, poeta cuja palavra encarnada provoca revoluções, teólogo que se solidariza, bispo em fidelidade rebelde e insurreição evangélica, e por isso, sempre sob suspeita.

Em junho de 2017, o  Cardeal Dom Cláudio Hummes foi visita-lo. Viu-o bastante fragilizado por causa da idade e do mal de Parkinson que o incapacita na comunicação, com dificuldade de falar, mas acompanha muito bem, continuando muito lúcido. Dom Cláudio comenta: “permanece ali na região onde sofreu muita perseguição, muitas ameaças de morte… no entanto, nunca teve medo. Sempre esteve à frente de seu povo, dando coragem, dando esperança, denunciando. Foi o primeiro a denunciar o trabalho escravo, o que lhe trouxe muita perseguição”.

Residência episcopal de Dom Pedro Casaldaliga
Dom Pedro, mesmo com dificuldade para falar, deixou-lhe dois recados importantes: “Uma das palavras que a gente sempre entende quando ele fala, com a voz muito sumida, é ‘esperança’, que não percam a esperança. Ele acompanha, recebe as notícias do que está ocorrendo no Brasil”. “Também outra palavra que me disse em um certo momento, que era para dizer ao Papa Francisco que ele está plenamente apoiando o Papa em todo o seu trabalho. A gente via como ele está feliz com o Papa Francisco”.

Grande desafio que enfrentou na região de São Félix do Araguaia (no Mato Grosso), onde está localizada a Terra Indígena Xavante-Marãiwatsédé, foi um dos principais cenários dos enfrentamentos da guerrilha contra a ditadura durante os anos de 1960 e 1970. As tensões entre os que combatiam e os que atuavam em favor do regime militar sufocaram as disputas entre índios e não índios. Escreveu às autoridades: “Gostaria muito que as autoridades revisem a decisão da Advocacia-Geral da União sobre a demarcação de terras porque, do contrário, pode ser criada uma nova ordem de insegurança em várias regiões do país”. A defesa corajosa da terra indígena Xavante foi longa, corajosa e trouxe a vitória com a demarcação das terras. Sua luta incansável repercutiu na redação da Constituição de 1988, com o reconhecimento das terras indígenas.

A defesa da terra indígena lhe trouxe muitas ameaças de morte, a mais grave delas sendo em 1976, na região de Ribeirão Bonito, quando assumiu a defesa de mulheres torturadas em uma delegacia de polícia. Na ditadura militar, foi alvo de cinco processos de expulsão do Brasil, mas teve sempre o apoio fraterno do papa Paulo VI.

Romaria dos Mártires

A Romaria dos Mártires foi criada por Casaldáliga para homenagear, como conta, todos aqueles que “deram a vida pela vida”, no Brasil e na América Latina. São vários os mártires homenageados: Chico Mendes,  Antônio Conselheiro, o bispo salvadorenho Oscar Romero, reconhecido como santo pelo papa Francisco, além do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo por jovens enquanto dormia numa praça em Brasília, e a missionária americana Dorothy Stang, assassinada a mando de fazendeiros no Pará.

A inspiração maior do evento, contudo, foi o padre João Bosco Burnier, assassinado em Ribeirão Cascalheira, ao lado dele, em 11 de outubro de 1976. O episódio ganhou repercussão internacional.

Padre franciscano nascido em Minas Gerais, Burnier atuava em Diamantino, no oeste do Mato Grosso, e viajou à região do Araguaia para participar de uma reunião do CIMI em Santa Teresinha, no norte de São Félix do Araguaia. O encontro reuniu lideranças locais e religiosos envolvidos na causa indígena.

Dias após a reunião, Casaldáliga e Burnier pegaram um ônibus em São Félix do Araguaia rumo a Barra do Garças. Em Ribeirão Cascalheira, no meio do caminho, decidiram pernoitar. O pequeno povoado, à época distrito de Barra do Garças, realizava naquela noite uma festa para Nossa Senhora Aparecida, mas o clima era de terror. O motivo foi a morte de um cabo da Polícia Militar no povoado, segundo Casaldáliga um agente conhecido “pelas arbitrariedades e crimes”, que trouxe ao local um grande contingente de policiais.

Anos depois, Dom Pedro publicou um relato, intitulado Martírio do padre João Bosco Burnier, pelas Edições Loyola, sobre aquela noite: “Duas mulheres estavam sofrendo na delegacia, impotentes e sob torturas: um dia sem comer e beber, de joelhos, braços abertos, agulhas na garganta, sob as unhas. Ouviam-se os gritos da rua.

As mulheres foram detidas porque, suspeitava a polícia, sabiam do destino do rapaz acusado de matar o PM. “Decidi ir à delegacia, interceder por elas. O padre João Bosco fez questão de me acompanhar”, escreveu Casaldáliga. Segundo ele, o diálogo com os policias durou de três a cinco minutos, com os agentes fazendo seguidas ameaças e insultos. Quando o padre João Bosco disse aos policiais que denunciaria aos superiores dos mesmos as arbitrariedades que vinham praticando, o soldado Ezy pulou até ele, dando-lhe uma bofetada fortíssima no rosto. Inutilmente tentei cortar aí o impossível diálogo. O soldado, seguidamente, descarregou também no rosto do padre um golpe de revólver, e num segundo gesto fulminante, o tiro fatal, no crânio”.

Os moradores de Ribeirão Cascalheira ainda tentaram socorrer o padre levando-o para Goiânia num pequeno avião, mas ele chegou morto à cidade.

O assassinato de João Bosco Burnier levou a população de Ribeirão Cascalheira a um ato de desobediência civil – e em plena ditadura. Após a missa de sétimo dia, realizada no povoado, os moradores se dirigiram à delegacia e começaram a depredá-la. O posto policial, na beira da BR-158, foi destruído – os policiais nada puderam fazer para conter a fúria popular.

Meses antes, naquele mesmo ano de 1976, outro crime no Mato Grosso vitimou um padre. Em julho, o missionário alemão Rodolfo Lunkenbein, que atuava na região, e o líder indígena Simão Bororo foram assassinados por ex-moradores retirados da área onde se demarcou a terra indígena de Meruri, próximo de Barra do Garças. Eles também são homenageados na Romaria dos Mártires.

Após a morte de João Bosco Burnier e a destruição da delegacia, os  moradores de Ribeirão Cascalheira fizeram uma campanha, com o apoio de Casaldáliga, para que no local fosse construída uma igreja. O Santuário dos Mártires acabou sendo erguido a cerca de 200 metros de onde morreu o padre – a polícia foi contra a construção da igreja na mesma área da delegacia, onde atualmente existe uma pequena capela em homenagem ao Padre Burnier. Está exposta nas galerias do santuário, ainda com marca de sangue, a camisa usada pelo mártir na noite em que foi assassinado.

“Vamos tocando o barco, com fé e esperança”

A primeira vez que saiu do país foi no início dos anos 1990, indo ao Vaticano para uma audiência com o papa João Paulo II. Os parentes espanhóis viajaram até Roma para encontrá-lo. Dom Pedro não cumpria a obrigação da Visita Ad Limina, que os bispos devem fazer a cada cinco anos, para um encontro com o Papa e os Dicastérios romanos. Afirmou que esse dinheiro seria melhor empregado em ações com os pobres de sua Prelazia. Além disso, Dom Pedro tem clareza a respeito das Igrejas locais: o Papa é bispo de Roma, Dom Pedro é bispo de São Félix do Araguaia. Seu amor à liberdade inspirou sua luta contra a centralização do governo da Igreja, pois considera que a visão de Roma é apenas uma entre as várias possíveis, e que a Igreja deveria ser uma comunhão de igrejas. Acha que se deve falar da Igreja que está em São Félix do Araguaia, assim como se fala da Igreja que está em Roma, pois unidade não tem que ser sinônimo de centralização e sim de descentralização.

“Toda romaria ele fala que é a última. Foi assim na de 2016. Nesta, para ele participar, já foi um grande sacrifício. Vamos ver na próxima, daqui a cinco anos”, comentava o padre André Pereira, da prelazia. Dom Pedro não gostou de ser levado de avião, pois preferia ir com os meios de transporte do povo…

Na noite de abertura, Dom Pedro permaneceu apenas 40 minutos, rodeado pela multidão, que o fotografava sem parar. Antes de a procissão partir da igreja central até o santuário, na entrada da cidade, o bispo acompanhou a apresentação teatral e as danças da abertura.

No domingo, dia 17, Dom Casaldáliga foi para o santuário participar da missa de encerramento. Pela primeira vez na história da romaria, ele não conduziu missa nem fez pronunciamento. Sintoma do “irmão Parkinson”, como ele já definiu a doença degenerativa que enrijece os músculos, sua fala está cada vez mais prejudicada, o que demanda quase sempre um “tradutor” para ser compreendido.

De acordo com os auxiliares que o acompanham, o bispo não reclama muito de sua condição nem fala sobre a morte. Ele continua disciplinado como antes, garantem, e se adaptou às complicações da doença, como a dificuldade de deglutição e a rotina de exercícios físicos da fisioterapia. Um tombo que levou no início desta década fez com que ele ficasse permanentemente preso à cadeira de rodas.

Pedro Casaldáliga continua inquieto. Também poeta, ele acompanha com interesse os desdobramentos da crise política no Brasil. Em 2016, na penúltima romaria, ele comentou com os auxiliares que seria a sua última, já que na próxima ele provavelmente estaria “nos braços do Pai”.

Em julho, após fazer sua oração matinal diária na capela dos fundos de sua casa, em São Félix, o religioso mantinha-se otimista: “Fé e esperança. Sempre. Vamos, enquanto isso, tocando o barco”.

Belíssimo seu poema-testamento: “Ao final do caminho, me perguntarão: Viveste? Amaste? E eu, sem nada dizer, abrirei meu coração cheio de nomes”.