domingo, 8 de julho de 2018

Para download: Costumbres en común, de E. P. Thompson

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Costumbres en común
E. P. Thompson
Editorial: Editorial Crítica
Temática: Historia | General historia
Colección: Historia y Teoría
Número de páginas: 608

Sinopsis:
Este libro, Costumbres en común, se publicó por fin, tras treinta años de trabajo, poco antes de la muerte de su autor, y nos queda no sólo como su gran legado intelectual, sino como un manifiesto en favor de una historia que recobre su perdido sentido social y se ocupe de los problemas reales de los hombre y las mujeres. Bajo los mitos de la revolución agrícola y de la Ilustración, Thompson nos descubre la realidad de una cultura plebeya que se legitimaba con la retórica de la costumbre, pero cuyo objetivo esencial era la lucha por las necesidades y las expectativas de la comunidad.


sábado, 7 de julho de 2018

Para download: Modos de producción en América Latina

Biblioteca del Pensamiento Socialista

Modos de producción en América Latina.

Carlos Sempat Assadourian
Ciro Flamarión S. Cardoso
Horacio Ciafardini
Juan Carlos Garavaglia
Ernesto Laclau
Primera edición, mayo de 1973
© Ediciones Pasado y Presente
Editado por Siglo XXI Argentina Editores S. A.


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quinta-feira, 5 de julho de 2018

AS IDEIAS DE MARX VIVAS NOS FILMES

MARXISMO NO CINEMA

Filmagens de “O jovem Karl Marx”, de Raoul Peck | Foto (detalhe): © picture alliance / Jens Trenkler / dpa


Nas telas do cinema, elas passam por revivals constantes: ao longo dos últimos 120 anos, as ideias marxistas vêm sendo tratadas regularmente em novos filmes.

De Lucas Barwenczik*

Desde o início da produção de filmes, diretores e cineastas utilizam a mídia para disseminar as teorias e convicções de Marx. Isso se aplica especialmente – o que não é surpresa nenhuma – aos filmes soviéticos dos anos 1920 que tratam dos eventos da Revolução de Outubro e da Guerra Civil Russa. Esses filmes deveriam convencer os espectadores a respeito dos objetivos da revolução e da filosofia fundamentada no marxismo adotada pelo ainda jovem governo soviético. Mesmo quem não pudesse ler o Manifesto do Partido Comunista deveria estar em condições de entender a revolução exibida nas telas.

Mas a influência das ideias marxistas no cinema estende-se até hoje. Não apenas há toda uma série de filmes sobre Karl Marx na qualidade de pessoa histórica, como, por exemplo, o recente O jovem Karl Marx, de Raoul Peck, mas o portfólio cinematográfico está repleto de histórias sobre lutas de classe e de libertação, anticolonialismo, alienação, guerras e revoluções. Ou seja, filmes que nem sempre remetem diretamente a Marx como pessoa, mas que retomam suas ideias e as aplicam à respectiva época. A seguir, 12 filmes extraídos de 120 anos de cinema que seriam impensáveis sem Marx e suas ideias.



“Intolerância”, de David Wark Griffith (1916)
O diretor norte-americano David Wark Griffith discorre a respeito da natureza intolerante e violenta do ser humano ao longo de quatro épocas: a queda de Babilônia, a disputa de Jesus com os fariseus, a Noite de São Bartolomeu e, por fim, um episódio contemporâneo. Ele alterna constantemente as narrativas a fim de compará-las entre si. O cineasta traça a imagem de uma luta (de classes) eterna, como a de trabalhadores de um moinho em greve contra o poder público. 




“O encouraçado Potemkin”, de Serguei Eisenstein (1925)
Algumas das primeiras obras-primas da história do cinema foram produzidas com o objetivo de fazer propaganda do Estado comunista. Diretores como os russos Dziga Vertov e Serguei Eisenstein estavam empolgados com a força singular da nova mídia filme e viam o cinema como uma ferramenta da revolução. O filme mudo O encouraçado Potemkin trata dos acontecimentos do ano revolucionário de 1905 por meio de um motim. A tripulação de um navio de guerra se levanta contra os oficiais fiéis ao czar; a partir desse núcleo, o conflito se propaga pelo país. A história é parcialmente baseada em acontecimentos reais a bordo do navio da marinha Potemkin, em junho de 1905, quando os amotinados contudo tiveram de desistir quando suas reservas de carvão acabaram.




“O homem com uma câmera”, de Dziga Vertov (1929)
A arte dos países comunistas é frequentemente associada à doutrina do Realismo Socialista que, por motivos ideológicos, proíbe toda abstração e estetização. O documentário poético e veloz O homem com uma câmera funde sequências cotidianas de trabalho e lazer numa sinfonia poética. Numa fluência de imagens arrebatadora, Dziga Vertov exibe uma mistura de realidade e retrato ideal da sociedade socialista. A velocidade do filme espelha as mudanças e transformações igualmente velozes que ocorreram a partir da Revolução de Outubro de 1917, que virou o cotidiano pelo avesso, com a desapropriação de propriedades, a estatização da indústria e a introdução do marxismo como filosofia estatal. 




“Tempos modernos”, de Charlie Chaplin (1936)
A infância de Charlie Chaplin foi marcada por uma pobreza profunda. Em sua comédias em estilo pastelão, o diretor e ator norte-americano sempre se colocou ao lado dos pobres e desfavorecidos. Ele apontava constantemente as injustiças sociais causadas pela lógica da produção capitalista. Tempos modernos, de 1936, mostra a vida difícil de seu famoso personagem, o vagabundo, nos anos posteriores à Grande Depressão de 1929, marcada por altas taxas de desemprego e pelo capitalismo fordista. Raramente o conceito de “trabalho alienado” de Marx foi representado de maneira tão lúdica e divertida como na famosa sequência em que o vagabundo é transportado por uma esteira rolante para dentro de uma grande máquina. 





“Ladrões de bicicleta”, de Vittorio de Sica (1948)
Em meados dos anos 1940, em reação à ditadura fascista de Benito Mussolini, iniciou-se na Itália a época do Neorrealismo italiano. Inspirados pelo realismo poético e o marxismo, escritores e diretores aspiravam a uma representação autêntica da realidade da vida numa Europa destroçada pela guerra. Ladrões de bicicleta, de Vittorio de Sica, é um exemplo clássico desse movimento: um pai trabalha como diarista para alimentar a si e a sua família. Quando finalmente encontra um emprego como pregador de cartazes, sua bicicleta é roubada. Então ele próprio se transforma em ladrão – o que traz sérias consequências. De Sica questiona uma impiedosa sociedade capitalista de classes, que joga os pobres uns contra os outros, e faz um apelo à solidariedade entre as pessoas. 




“O sal da terra”, de Herbert Biberman (1954)
Durante o McCartismo, caracterizado por um rígido anticomunismo, toda declaração que criticasse os Estados Unidos provocava desconfiança no país. O roteirista e diretor norte-americano Herbert Biberman pertencia aos “dez de Hollywood” – o grupo de pessoas que se negavam a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas, sendo por isso punidas. O sal da terra transforma em ficção os eventos que aconteceram durante uma greve real dos funcionários da firma Empire Zinc no Novo México em 1951. Estilisticamente inspirado no neorrealismo italiano, o filme critica não apenas as condições de vida dos trabalhadores, em grande parte provenientes do México, mas também a moral dupla de seu movimento: Ramon, o personagem principal, se empenha pela igualdade entre as pessoas, mas trata sua esposa Esperanza como cidadã de segunda classe. Biberman destaca o que Marx já havia afirmado no Manifesto Comunista: que a revolução também está nas mãos das mulheres. 




“A batalha de Argel”, de Gillo Pontecorvo (1966)
A crítica norte-americana Pauline Kael chamou o diretor italiano Gillo Pontecorvo de “poeta marxista”. Em A batalha de Argel, ele trata da Guerra de Independência Argelina contra o poder colonial francês, que ocorreu entre 1954 e 1962. Pontecorvo narra a luta da marxista Frente de Libertação Nacional contra o Exército francês de maneira muito precisa e toma o cuidado de iluminar a violência cometida por ambos os lados. Esse esforço para fazer uma descrição objetiva dos acontecimentos foi inspirado pelo neorrealismo italiano. 




“Pocilga”, de Pier Paolo Pasolini (1969)
O diretor italiano Pier Paolo Pasolini era um paradoxo ambulante: um marxista católico e homossexual. Em seus textos e filmes provocativos, ele atacava a Igreja, o capitalismo e a moral contemporânea – e fazia isso com tal veemência, que até seus aliados muitas vezes se voltavam contra ele. Em Pocilga, o diretor alterna duas histórias. Uma se passa num deserto que lembra uma paisagem bíblica, onde um jovem funda um grupo revolucionário de canibais. Paralelamente, o filme trata dos crimes do nazismo e seus efeitos na Alemanha dos anos 1960. De maneira radical, Pasolini alinha todas as forças disponíveis contra a sociedade burguesa, só para depois fazer com que elas fracassem. O que vale é: na tela, a revolução fracassa para que o próprio espectador venha a impulsioná-la. 



“Tudo vai bem”, de Jean-Luc Godard (1972)
Em 1968, o ano dos movimentos estudantis e em prol dos direitos civis, o diretor suíço-francês Jean-Luc Godard e o ativista político Pierre Gorin fundaram o coletivo de artistas Grupo Dziga Vertov. O objetivo era colocar seu próprio trabalho cinematográfico totalmente a serviço da luta de classes. Nove filmes foram produzidos assim, entre 1968 e 1972. Anteriormente Godard já havia retratado a vida da jovem geração 1968 em filmes como Masculino, feminino. Em Tudo vai bem, uma repórter norte-americana e seu marido francês testemunham uma greve numa fábrica de salsichas, com a qual os trabalhadores reagem às péssimas condições de trabalho. Eles vivenciam a maneira pela qual o capitalismo destrói a convivência social. A abordagem experimental do filme, inspirada em Bertolt Brecht, visa a impedir que os espectadores simplesmente mergulhem na história, transmitindo uma mensagem clara: a única saída é uma revolução. 




“Os anos de chumbo”, de Margarethe von Trotta (1981)
Com seu filme sobre as irmãs Christiane e Gudrun Ensslin, a diretora alemã Margarethe von Trotta foi a primeira mulher a ganhar o Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Ambas as irmãs Ensslin eram ativas no movimento estudantil e se empenhavam por mudanças, mas acabaram tomando caminhos diferentes. O filme trata de maneira exemplar dos limites e das possibilidades do movimento de 1968. Pergunta sobre o motivo de uma irmã ter tomado o caminho radical, tornando-se terrorista da Fracção do Exército Vermelho, e a outra ter continuado a fazer uso de outros meios democráticos, empenhando-se politicamente através do jornalismo. 





“Che”, de Steven Soderbergh (2008)
Um filme com duas partes e duas revoluções: dois formatos de filme, dois esquemas de cor, duas formas e velocidades narrativas. O diretor norte-americano Steven Soderbergh narra sobre a pessoa e o símbolo Che Guevara, o líder sul-americano da guerrilha e marxista convicto. Soderbergh eleva a dialética de Marx a princípio formal supremo. Em sequências tranquilas, ele exibe encontros conspirativos, a ascensão de Guevara a Comandante e, por fim, a tomada do poder em Cuba. Com suas duas metades – a primeira parte mostra a revolução em Cuba, a segunda, a luta de Che na Bolívia –, a epopeia de imagens arrebatadoras chega a quase quatro horas de duração. 





“O jovem Karl Marx”, de Raoul Peck (2017)
Karl Marx também aparece regularmente em filmes como personagem. Exemplos são o filme biográfico soviético Year as Life (Ano como vida), a série televisiva em 11 capítulos produzida na Alemanha Oriental Marx und Engels – Stationen ihres Lebens (Marx e Engels – Estações de suas vidas) e o filme Fim de semana, de Jean-Luc Godard. Por último ele foi representado por August Diehl como um revolucionário jovem e sedento de vida em O jovem Karl Marx. O drama encenado pelo diretor haitiano Raoul Peck trata da fase marcante da vida de Marx, entre 1843 e 1848. Mesmo que o filme seja menos revolucionário que as ações de seu protagonista, é interessante ver como Marx e suas ideias continuam vitais no cinema, mesmo 130 anos após sua morte. 


*Lucas Barwenczik é um crítico independente. Ele escreve para o "Filmdienst", "Kino-Zeit" e "Culturmag" sobre cinema e cultura cinematográfica.

Tradução: Renata Ribeiro da Silva
Copyright: Text: Goethe-Institut, Lucas Barwenczik. Dieser Text ist lizenziert unter einer Creative Commons Namensnennung – Weitergabe unter gleichen Bedingungen 3.0 Deutschland Lizenz.

Março de 2018


segunda-feira, 2 de julho de 2018

A potência de Marx e da ideia do "capital" para enfrentar as crises de hoje.

Entrevista especial com Marcelo Carcanholo

Por João Vitor Santos, IHU On-Line | 02 Julho 2018




Karl Marx forjou suas reflexões acerca do capitalismo no calor do século XIX. Hoje, em pleno século XXI, 200 anos depois de seu nascimento, o mundo mudou, o capital se transformou e as lógicas do filósofo e economista foram superadas. Correto? Não. Ao menos para o professor Marcelo Dias Carcanholo. Pois, afinal, ainda vivemos numa sociedade capitalista. “Claro, que com as especificidades da contemporaneidade, mas as determinações básicas, gerais, do que é o capitalismo seguem presentes. As leis de tendência dessa sociabilidade, que necessariamente se manifestam por intermédio de determinações conjunturais específicas, seguem caracterizando nossa vida”, analisa. Para ele, é nesse sentido que Marx se mantém atual. “Sua obra, especialmente O Capital, é até hoje a melhor apresentação teórica de uma época social que vivemos até os dias atuais”, completa.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Carcanholo observa que nessa obra não é possível detectar um conceito fechado do que seja o capitalismo e como ele se manifesta no século XXI com todas especificidades. “Mas quaisquer que sejam elas (capitalismo europeu, ou capitalismo brasileiro no segundo pós-guerra etc.), o seu substantivo (conteúdo), o capitalismo, só é possível de ser entendido, em sua totalidade, pela teoria de Marx”, aponta. Assim, defende que se volte a Marx, entendendo suas concepções para que, a partir delas, se consiga movimentar a construção do conceito ao longo dos tempos. “A riqueza desse autor reside justamente no entendimento do processo de acumulação de capital como algo necessariamente cíclico. Por isso ele é tanto inescapável como incômodo, até os dias atuais”, resume. É nessa perspectiva que o professor também reflete sobre as crises das sociedades de hoje e a realidade brasileira. Afinal, por aqui “como na maior parte da economia mundial, o capital procura sair de sua própria crise repassando a conta do ajuste para a classe trabalhadora”.

Marcelo Dias Carcanholo | Foto: UFF
Marcelo Dias Carcanholo é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Economia pela Universidade Federal Fluminense – UFF e doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Atualmente é professor de Economia da UFF, membro do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Marx e Marxismo (NIEP-UFF), pesquisador do Núcleo de História Econômica da Dependência Latino-americana (HEDLA-UFRGS) e professor da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF-MST). Entre seus livros publicados, destacamos Dependencia, Superexplotación del Trabajo y Crisis: una interpretación desde Marx (Madrid: Maia Ediciones, 2017) e Neoliberalismo: a tragédia do nosso tempo (São Paulo: Cortez Editora, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que ler Marx hoje? Que respostas os originais ainda são capazes de fornecer às crises de nosso tempo, diferentes do contexto do século XIX?

Marcelo Dias Carcanholo – É um argumento relativamente comum dizer que Marx, no melhor dos casos, serviria apenas para interpretar o capitalismo “clássico” do século XIX, restringindo a validade de seu pensamento para uma época histórica específica. Implicitamente, este argumento sustenta que seu pensamento seria anacrônico, se o objetivo é entender a realidade específica do século XXI.

Evidentemente que Marx é um autor do século XIX e, como não poderia deixar de ser, seu pensamento apresenta os limites e possibilidades de um ser humano do século XIX. Dessa obviedade, entretanto, não se pode concluir que o seu pensamento seja restrito a esse momento histórico. Justamente sua genialidade e a explicação do porquê ele reluta em falecer, ainda que reiteradamente seus críticos decretem sua morte, está no fato de que seu pensamento transcende as especificidades do século XIX. E isso não porque ele possuísse algum poder mágico de vislumbrar quais seriam as especificidades do século XXI. As razões para tanto são, como não poderiam deixar de ser, objetivas.

Desconsiderando alguns teóricos completamente fora da realidade, não se pode negar que ainda vivemos em uma sociedade capitalista. Claro que com as especificidades da contemporaneidade, mas as determinações básicas, gerais, do que é o capitalismo seguem presentes. As leis de tendência dessa sociabilidade, que necessariamente se manifestam por intermédio de determinações conjunturais específicas, seguem caracterizando nossa vida. Aí reside a genialidade de Marx. Ele ainda é o pensador que melhor conseguiu apreender essas determinações do capitalismo. Sua obra, especialmente O Capital, é até hoje a melhor apresentação teórica de uma época social que vivemos até os dias atuais. Não encontraremos nela a descrição exata do que é, por exemplo, o capitalismo brasileiro no século XXI com todas suas especificidades/adjetivações. Mas quaisquer que sejam elas (capitalismo europeu, ou capitalismo brasileiro no segundo pós-guerra etc.), o seu substantivo (conteúdo), o capitalismo, só é possível de ser entendido, em sua totalidade, pela teoria de Marx.

Outro equívoco muito comum é crer que Marx só ressurge do limbo teórico em momentos de profundas crises da sociedade capitalista, como se ele tivesse apenas a capacidade de explicar estas etapas específicas do ciclo econômico. A riqueza desse autor reside justamente no entendimento do processo de acumulação de capital como algo necessariamente cíclico. Por isso ele é tanto inescapável como incômodo, até os dias atuais.

IHU On-Line – Em que medida podemos afirmar que o marxismo vai transformando o pensamento de Marx? E no que consiste essa transformação?

Marcelo Dias Carcanholo – A melhor maneira de entender essa questão é pensando em que significaria se o marxismo não transformasse o pensamento de Marx. Neste caso, significaria, por um lado, que todas as respostas para o que é a sociedade capitalista, incluindo todas as manifestações conjunturais específicas de suas leis de tendência, já estariam contidas no pensamento de Marx e, portanto, não haveria necessidade de nenhuma reformulação e/ou resgate crítico. Por outro lado, os marxistas ficariam limitados a propagar a “palavra” daquele que, por princípio, já conteria toda “a verdade”. Em síntese, se o marxismo não transformasse o pensamento de Marx significaria que ele seria mais uma religião, algo completamente distinto dos propósitos originais do pensamento do próprio Marx.

Que algumas tradições marxistas tenham embarcado nessa trajetória só nos ajuda a entender, talvez, quando o próprio Marx, ao final de sua vida, percebeu o que se dizia (no já autodeclarado “marxismo”) em seu nome, teria dito que, ele Marx, não era marxista.

Finalidade política

Marx se propôs a interpretar o capitalismo porque tinha uma finalidade política: transformá-lo pela via revolucionária. Para ele, conhecer o sistema social que se busca revolucionar é um pré-requisito básico. Entretanto, esse sistema social, embora tenha suas leis gerais de tendência, se apresenta/manifesta de formas distintas em épocas históricas diferentes. O capitalismo não é apenas histórico, frente a outros sistemas sociais, mas também apresenta historicidade dentro de sua própria trajetória histórica. Isso significa que as contradições, especificidades, questões concretas, só podem aparecer nesses momentos específicos e, portanto, o marxismo – entendido como a tradição, a partir de Marx, que busca entender o capitalismo em sua historicidade, para transformá-lo, a partir dessas contradições com manifestações específicas – obrigatoriamente tem que responder questões concretas específicas, as quais Marx não teria como ter vivenciado, por razões óbvias.

IHU On-Line – A Teoria da História em Marx mostra sinais de esgotamento? Por quê?

Marcelo Dias Carcanholo – Ao contrário, a teoria da história em Marx nunca se mostrou tão robusta! Ocorre que, como costuma suceder com o pensamento do autor, é muito amplo, e difundido, o desconhecimento da teoria de Marx. Quando se fala na teoria da história em Marx, a interpretação mais rasteira entende esta como sendo uma teoria que identifica as transformações históricas a partir da ruptura da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas com as relações sociais de produção de determinada época, abrindo a porta histórica para um novo modo de produção. Com base nisso, a história passaria necessariamente de um modo de produção para outro. O capitalismo, em específico, desenvolveria as forças produtivas como nenhum outro e, necessariamente, as colocaria em contradição com as relações sociais capitalistas de produção, levando necessariamente ao comunismo.

O curioso é que esta visão teleológica, mecânica, determinista, é completamente estranha ao próprio Marx! Mais uma vez, que boa parte do marxismo tenha acreditado nessa “cartilha” só demonstra o quanto Marx é um profundo desconhecido, até dentro de boa parte do marxismo.

Para Marx, os distintos modos de produção contêm sim suas próprias contradições, e estas definem os leques de possibilidade histórica de sua transformação, abrindo a possibilidade de construção social de outros modos de produção. Esta possibilidade não permite, entretanto, concluir pela inevitabilidade. Evidentemente que, uma vez posto o resultado histórico ele obviamente está... posto! Assim mesmo, antes disso, esse resultado era uma mera possibilidade, dentre outras.

Idealista/utópico?

O capitalismo possui suas contradições (as leis de tendência são necessariamente contraditórias, dialéticas), e estas, quando se explicitam, definem um leque de possibilidades históricas: é possível que se engendre uma nova época histórica, ainda capitalista. É possível que ocorra uma transformação social revolucionária, que construa outra sociabilidade. Qual? Seu estabelecimento a priori é impossível, ao menos para Marx. Como pensar uma sociabilidade que ainda nem existe? Isso só é possível para um pensamento descolado da realidade, que a interpreta idealmente (utopicamente) antes que ela mesma exista no concreto. Apesar de ser acusado disso, Marx nunca foi um idealista/utópico. Mais uma vez, ele não tem culpa se boa parte do marxismo transformou tanto Marx que terminou transformando-se em outra coisa.

E o que define, concretamente, para onde a história caminha? Quem é o sujeito histórico? O de sempre! O ser humano, que atua segundo interesses sociais, e consciências sociais distintas. Estas consciências não podem ser diretamente derivadas desses interesses/posições sociais, mas estão necessariamente (embora de forma contraditória) ligadas a eles. Se se prefere sintetizar a teoria da história em Marx como “a luta de classes”, não há problema, desde que seja entendida da forma correta. Marx tem uma teoria da história, nunca uma “filosofia da história”, determinista, mecânica, teleológica. A história, para Marx, é aberta, felizmente.

IHU On-Line – Como compreender o capitalismo contemporâneo? De que forma ele subverte e incide sobre o conceito de capital em Marx?

Marcelo Dias Carcanholo – O capitalismo contemporâneo deve ser entendido como qualquer época histórica específica do capitalismo, a partir de suas questões concretas. O que é o capitalismo contemporâneo? É o capitalismo que se constrói a partir da última grande crise estrutural, na segunda metade dos anos 60 do século passado. De lá para cá, o capitalismo retomou seu processo de acumulação de capital através de um amplo processo de reestruturação produtiva, que elevou as taxas de mais-valia e a rotação do capital, de políticas econômicas com o objetivo explícito de concentração de renda e riqueza, no intuito de retomar as taxas de valorização do capital, com a liberalização e abertura de vários mercados, principalmente os de trabalho (para elevar a taxa de mais-valia) e financeiro (buscando novos espaços de valorização para um capital superacumulado), tudo isso justificado e implementado sob o manto da estratégia de desenvolvimento que caracteriza essa contemporaneidade, o neoliberalismo.

O capitalismo entra em crises simplesmente porque produz em demasia, não propriamente as mercadorias, que são uma forma de manifestação de seu conteúdo (dinheiro e produção são as outras), mas porque há um excesso de capital por si mesmo. Quando capital é superproduzido, em relação à capacidade que ele mesmo tem de se realizar, as taxas de lucro caem, evidenciando a crise. Superacumulação de capital e queda das taxas de lucro são as duas faces do mesmo fenômeno. Como o capital se recupera? Ou as reduções das taxas de lucro desvalorizam o capital em excesso, ou então ele tem que encontrar novos espaços de valorização para esse capital superacumulado. Normalmente ele combina essas duas formas de saída.

O capitalismo contemporâneo se constrói, a partir dos anos 70 do século passado, justamente combinando essas duas formas. Uma das especificidades desta época histórica é que a lógica de valorização passa a ser determinada pelo que Marx chamou de capital fictício. Outro equívoco muito comum é achar que esse capital fictício é o capital financeiro, que se encontra nos mercados financeiros e, portanto, oposto ao capital (do setor) produtivo. Esta interpretação não é Marx! É Keynes [1]! Outra teoria, outra perspectiva teórica e política.

Capital fictício em Marx

O capital fictício é aquele que se constrói – qualquer que seja o mercado específico – através da venda no presente de uma expectativa de apropriação futura de determinado valor, o que se chama de capitalização. Na prática, isso significa que capital (fictício) se está constituindo a partir de uma expectativa de apropriação, que pode nem ocorrer. Constrói-se um direito de apropriação de valor no presente que, diretamente, não contribui para a produção de valor. Está aí o germe da crise que estoura em 2007/2008.

Todo esse processo é inteligível, de forma relativamente fácil, a partir da seção V do livro III de O Capital, em suas determinações mais abstratas, e de toda uma tradição crítica (nem toda ela marxista) para suas determinações mais concretas, e até empíricas. Uma vez mais, a realidade concreta é que coloca as questões que são (ou não) apreendidas teoricamente. O capital (fictício) criando as possibilidades de uma nova época de acumulação de capital que, por sua vez, recoloca as contradições (produção versus apropriação de valor) próprias do capitalismo, dando ao processo de acumulação uma trajetória dialética, contraditória, cíclica.

O que me surpreende é alguém achar como isso subverteria a categoria capital de Marx! A não ser, é claro, que ela seja amplamente desconhecida, confundida, por exemplo, com um conceito (preestabelecido).

IHU On-Line – Como, a partir do conceito de trabalho em Marx, enfrentar as desigualdades advindas da revolução tecnológica que, ao mesmo tempo em que aumenta a capacidade produtiva, aumenta a força produtiva ociosa, pessoas incapazes de acessar o trabalho?

Marcelo Dias Carcanholo – O processo de acumulação de capital, por força da concorrência, obriga os capitais particulares a aumentarem a produtividade (desenvolvimento das forças produtivas). Os capitais, por sua vez, para fazerem isto aumentam as proporções de meios de produção, em relação à força de trabalho, no processo produtivo. Isto implica que cada força de trabalho consegue transformar mais meios de produção em produto final.

O efeito desse aumento de produtividade (aumento da composição técnica do capital, nos termos de Marx) é a elevação da composição orgânica do capital (a composição em valor, refletindo o incremento da composição técnica). Os capitais particulares fazem isso porque isso reduz os valores individuais de suas mercadorias e, como elas são vendidas pelos valores de mercado, eles conseguem se apropriar do que Marx chamou de mais-valia extraordinária.

Outro equívoco bastante comum é inferir desse processo que o capital expulsa força de trabalho do processo produtivo substituindo-a por máquinas. Em primeiro lugar, meios de produção não se restringem às máquinas. Em segundo lugar, o aumento de produtividade requer apenas que a massa de meios de produção no processo produtivo cresça mais do que proporcionalmente ao incremento de força de trabalho, e esta é, em termos absolutos, como tendência, incorporada em maior magnitude, uma vez que é a fonte de mais-valia.

O famoso exército industrial de reserva de Marx não é determinado pela expulsão de força de trabalho do processo produtivo em termos absolutos. Ao contrário, a acumulação requer que mais força de trabalho seja incorporada ao processo produtivo. Apenas que o ritmo de incorporação de meios de produção é superior a isso. O exército industrial de reserva é produzido pelo capital porque este incorpora apenas uma fração de toda a massa de trabalhadores que necessita vender sua força de trabalho no mercado para conseguir sobreviver. O curioso é que, no capitalismo, cresce o número de empregados e, ao mesmo tempo, o exército industrial de reserva, como tendência, o que pode ser limitado/aprofundado pelos movimentos cíclicos da economia.

Que esse desenvolvimento das forças produtivas, na contemporaneidade, seja dado pela tal revolução tecnológica, trata-se apenas de uma manifestação histórica específica do movimento mais geral do capitalismo, da tendência. Quem conseguiu identificar essa tendência do capitalismo? Marx.

IHU On-Line – Que relações podemos estabelecer entre os conceitos de “dependência”, “exploração do trabalho” e “crises”?

Marcelo Dias Carcanholo – “Exploração do trabalho” é apenas outra forma de dizer que o capital, uma vez pago o valor da força de trabalho, consome seu valor de uso no processo produtivo, com o intuito de produzir mais-valia. O valor que percorre esse processo e se incrementa, no próprio processo, é o capital. Como esse capital é uma unidade dialética entre produção e apropriação, e essa dialética se manifesta necessariamente em crises, “capital” e “crises” são dois termos para um mesmo processo de acumulação.

Esse capital, por sua própria natureza, tem a tendência histórica a espraiar-se por todas as partes do planeta. O valor-capital tem, em si, a tendência para a formação do mercado mundial. Isso, entretanto, não significa que as leis de funcionamento do capitalismo se expressem da mesma forma, no mesmo ritmo, no mesmo grau, em todos os espaços. Esse desenvolvimento desigual e combinado do capital, na escala do mercado mundial, é que conforma a dependência. Capitais particulares que operem em determinado lugar, com menor composição orgânica (produtividades) tendem a produzir uma massa de valor maior do que aquela que eles mesmos se apropriam. Capitais com maiores produtividades tendem a se apropriar de um valor maior do que aquele que eles mesmos produziram. De onde vem esse valor “a mais” em sua apropriação? Justamente daqueles capitais com menor produtividade. Isso define um processo de transferência de valor de capitais que operam em determinado espaço, para outros que se encontram em outros espaços. Esta é a base real-concreta da categoria de dependência.

Ao contrário de uma perspectiva mais weberiana, não é que uma nação dependa de outra. A categoria central no marxismo não é a entidade abstrata “nação”. A categoria central no capitalismo é... o capital(ismo)! Isto não significa, entretanto, que os Estados Nacionais não cumpram nenhum papel. Apenas que toda a variedade de funções e papéis que eles cumprem decorre do fato de que Estados Nacionais, no capitalismo, são... capitalistas!

IHU On-Line – No que consiste a chamada “crise do capitalismo” e quais seus efeitos? O que pode emergir a partir desse estado de crise?

Marcelo Dias Carcanholo – A atual crise pela qual passa o capitalismo contemporâneo, do ponto de vista do embate teórico, tem algumas serventias. Em primeiro lugar, ao atestar o caráter meramente apologético das interpretações teóricas hegemônicas que caracterizam estes tempos neoliberais, permitiu que estas passassem de uma fase de extrema arrogância para outra em que se encontram relativamente na defensiva.

Em segundo lugar, a atual crise serve para relembrar aos esquecidos que faz parte da natureza do processo de acumulação de capital a sua trajetória cíclica, isto é, que sempre após uma fase de crescimento advém um momento de crise e, ao mesmo tempo, posteriormente a épocas de crise, o capitalismo consegue reconstruir novas bases para um novo processo de acumulação de capital. Do ponto de vista teórico-ideológico isto desmistifica duas concepções muito comuns: (I) aquela que acreditava (acredita) que pode resolver os problemas do capitalismo com uma mera operacionalização correta dos instrumentos de política econômica, de forma que as crises só ocorrem por falhas nesta última, e que, bem administrada, poderíamos viver em um capitalismo pós-cíclico, como alguns chamam; (II) aquela que aguarda, pacientemente ou não, a crise terminal do capitalismo, a partir da qual todos os sonhos socialistas se realizariam como em um passe de mágica. Ao contrário destas visões, uma interpretação teórica correta do capitalismo tem que reconhecer sua natureza cíclica.

Uma teoria do ciclo deve, portanto, explicar duas coisas. Inicialmente, ela deve fornecer uma explicação dos pontos de inflexão, isto é, do ponto de ruptura que leva à crise e da retomada do crescimento econômico. Em segundo lugar, a teoria deve mostrar como se dá o processo cumulativo que propaga os efeitos das duas inflexões, tornando-os atuantes durante certo período. Brevemente, uma teoria deve explicar os pontos de inflexão e mostrar por que a economia leva algum tempo para chegar ao outro ponto de inflexão, por que a crise leva algum tempo até chegar à depressão e por que a passagem desta para a retomada também leva tempo.

Não bastasse isto, há outra exigência. O fornecimento de uma explicação para os pontos de inflexão é uma condição necessária, mas não suficiente. Além disso, é preciso que o ponto de inflexão seja uma consequência necessária dos efeitos provocados pela inflexão imediatamente anterior. Mais claramente, podemos exemplificar dizendo que a retomada deve ser explicada através dos efeitos provocados pela crise, e esta última deve ser consequência dos efeitos do crescimento econômico induzido pela retomada. Esta exigência metodológica é que define a existência do ciclo como algo regular e necessário.

Acumulação de capital ciclicamente

Se há um consenso na teoria econômica é que o processo de acumulação de capital transcorre, com o passar do tempo, de forma cíclica. O que não há consenso é sobre como explicá-lo. Como, para explicar os ciclos, é necessário explicar que o capitalismo entra em crise porque cresceu, e volta a crescer porque entrou em crise, a teoria econômica explicita seus limites, quando procura explicar esse fenômeno que ela mesma reconhece como necessário. Para explicá-lo é necessária uma perspectiva dialética. Por isso, em primeiro lugar, a teoria econômica hegemônica entra em crise sempre que o capitalismo está em suas crises estruturais. Em segundo lugar, Marx é, uma vez mais, lembrado como o pensador que inicia a única tradição que consegue entender o capitalismo como ele é, cíclico.

O que pode emergir da atual crise do capitalismo contemporâneo? Para ser coerente com a perspectiva materialista, não há como antever certeiramente uma época histórica ainda não posta. Mesmo assim, como se trata de uma crise cíclica, pode-se, em termos mais gerais, arriscar que, de duas uma: ou o capitalismo reconstrói o processo de acumulação de capital em novas bases (históricas), o que requer desvalorizar algo do capital superacumulado e reconstruir novos espaços de valorização (com maior exploração do trabalho, necessariamente); ou o sujeito histórico, o ser humano, dividido em classes sociais, transforma essa sociedade.

Há, ainda, uma terceira possibilidade de curto prazo. O capitalismo continuar buscando se valorizar sob a lógica do capital fictício, o que só aprofunda a contradição entre produção e apropriação do valor, postergando a atual crise por mais tempo ainda e abrindo a possibilidade de um novo, e mais profundo crash. É possível que ainda não tenhamos vivenciado a manifestação mais intensa da atual crise.

IHU On-Line – Quais os limites do olhar macroeconômico como forma de compreender a economia política de hoje? Como uma visada marxista pode ampliar esse horizonte de análise?

Marcelo Dias Carcanholo – Ao contrário de uma visão mais “economicista”, de fundo keynesiano, do ponto de vista da teoria econômica, ou reformista, do ponto de vista político, a política (macro)econômica não pode solucionar as crises, ou, de forma mais ampla, corrigir a trajetória de médio e longo prazo da economia para um tendência de crescimento sem ciclos. Por quê? Porque os ciclos são necessários no capitalismo, é da sua natureza. Portanto, não há política econômica, qualquer que seja sua coloração teórica ou política, que consiga resolver as crises. Não existe capitalismo sem crises. Não existe capitalismo pós-cíclico.

Isso não significa que as políticas econômicas (monetária, fiscal, cambial e de rendas) não tenham nenhum papel. Ao contrário. As políticas econômicas podem antecipar/postergar os pontos de ruptura cíclica, tanto a crise como a retomada. As políticas econômicas podem ainda ampliar/reduzir os efeitos (políticos e sociais), tanto dos processos cumulativos (crescimento ou depressão) como das rupturas. Mas, decididamente, não podem acabar com os ciclos. A única forma de acabar com as crises é acabar com aquilo que necessariamente as contêm, o capitalismo.

IHU On-Line – Como o senhor tem acompanhado a política econômica brasileira dos últimos anos? Como, diante do atual cenário, conceber uma recuperação econômica?

Marcelo Dias Carcanholo – Como já mencionado, embora não possam “resolver” as crises, isto é, garantir uma recuperação econômica, a política econômica pode agravar/aliviar seus efeitos. O caráter restrito das possibilidades da política econômica, em uma economia dependente, como a brasileira, só se potencializa. Em economias dependentes, a margem de manobra da política econômica é menor ainda. Basicamente, porque dois dos preços mais importantes de uma economia, a taxa de juros e a taxa de câmbio, são determinadas pelos fatores externos, justamente reflexos do caráter dependente.

Mesmo com essa especificidade da economia dependente, a política econômica brasileira, em seu sentido mais amplo, isto é, como uma estratégia estrutural de desenvolvimento, vem seguindo os marcos gerais da forma como o capitalismo está tentando sair desta crise estrutural. Por um lado, no curto prazo, promoção de fortes ajustes fiscais, para garantir que o Estado obtenha saldos primários positivos, que lhe permitam financiar a sua atuação nos mercados financeiros, comprando os títulos do capital fictício superacumulado, propiciando que esse excesso de oferta não seja precificado para baixo, desvalorizando esse capital. Por outro lado, no médio e longo prazo, como o problema é maior quantidade de títulos de apropriação sobre um valor não produzido naquela magnitude, deve-se ampliar a produção de valor, o que implica elevar a taxa de exploração do trabalho. Por isso a necessidade de um novo ciclo de reformas, trabalhista, da previdência, e novas privatizações.

O significado disso é que, assim como na maior parte da economia mundial, o capital procura sair de sua própria crise repassando a conta do ajuste para a classe trabalhadora. Se ele for bem sucedido, como parece que está sendo, a síntese que, talvez, caracterize melhor nosso futuro é: “capitalismo e barbárie”.

Notas:

[1] John Maynard Keynes (1883-1946): economista e financista britânico. Sua Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro (1936) é uma das obras mais importantes da economia. Esse livro transformou a teoria e a política econômicas, e ainda hoje serve de base à política econômica da maioria dos países não-comunistas. Confira o Cadernos IHU Ideias n. 37, As concepções teórico-analíticas e as proposições de política econômica de Keynes, de Fernando Ferrari Filho. Leia, também, a edição 276 da Revista IHU On-Line, de 06-10-2008, intitulada A crise financeira internacional. O retorno de Keynes. (Nota da IHU On-Line)

FONTEIHU On-Line

domingo, 1 de julho de 2018

Todo o mundo ocidental vive em dissonância cognitiva

Por Paul Craig Roberts

Neste artigo vou utilizar três das notícias actuais para ilustrar a desconexão que permeia toda a mente ocidental. 

Vamos começar com a questão da separação familiar. A separação de filhos dos pais imigrantes/refugiados/asilados provou tal protesto público que o presidente Trump recuou na sua política e assinou uma ordem executiva terminando a separação familiar. 

O horror a crianças aprisionadas em armazéns operados por negócios privados com lucros extraídos dos contribuintes estado-unidenses, enquanto os pais são processados por entrada ilegal no país, desperta do seu estupor mesmo americanos "excepcionais e indispensáveis" satisfeitos consigo próprios. É um mistério que o regime Trump opte por desacreditar sua política de fiscalização de fronteiras com a separação de famílias. Talvez a política pretendesse deter a imigração ilegal enviando a mensagem de que se você vier para a América os seus filhos lhe serão tomados. 

A questão é: Como é que americanos podem ver e rejeitar esta desumana política de controle de fronteiras e não ver a desumanidade da destruição de famílias que tem sido o resultado predominante da destruição por Washington, no todo ou em parte, de sete ou oito países no século XXI. 

Milhões de pessoas foram separadas das suas famílias pela morte infligida por Washington e, durante quase duas décadas, os protestos têm sido praticamente inexistentes. Nenhum clamor público travou George W. Bush, Obama e Trump de actos clara e indiscutivelmente ilegais definidos no direito internacional estabelecido pelos próprios EUA como crimes de guerra contra os habitantes do Afeganistão, Iraque, Líbia, Paquistão, Síria, Iémen e Somália. Podemos acrescentar a isto um oitavo exemplo: Os ataques militares pelo estado fantoche neo-nazi da Ucrânia, armado e apoiado pelos EUA, contra a secessão de províncias russas. 

As mortes maciças, destruição de cidades e infraestrutura, a mutilação física e mental, a deslocação que lançou milhões de refugiados a fugirem das guerras de Washington para inundarem a Europa, onde os governos consistem de uma colecção de palhaços idiotas que apoiarem os crimes de guerra de Washington no Médio Oriente e Norte de África, não produziram clamor comparável ao da política imigratória de Trump. 

Como é possível que americanos possam ver desumanidade na separação de famílias por imposição do organismo de imigração mas não nos crimes de guerra maciços cometidos contra povos em oito países? Estaremos nós a experimentar uma forma de psicose em massa de dissonância cognitiva

Vamos agora ao segundo exemplo: a retirada de Washington do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. 

Em 2 de Novembro de 1917, duas décadas antes do holocausto atribuído à Alemanha nacional-socialista, o secretário britânico dos Negócios Estrangeiros, James Balfour, escreveu a Lord Rothschild que a Grã-Bretanha apoiava tornar a Palestina uma pátria judia. Por outras palavras, o corrupto Balfour descartava os direitos e as vidas de milhões de palestinos que haviam ocupado a Palestina durante dois milénios ou mais. O que eram estas pessoas em comparação com o dinheiro de Rothschild? Elas eram nada para o secretário britânico dos Negócios Estrangeiros. 

A atitude de Balfour em relação aos direitos dos habitantes da Palestina é a mesma atitude britânica em relação aos povos em cada colónia ou território sobre o qual prevaleceu o poder britânico. Washington aprendeu este hábito e tem-no sistematicamente repetido. 

Ainda outro dia a embaixadora de Trump na ONU, Nikki Haley, a enlouquecida e insana cadelazinha de Israel, anunciou que Washington se havia retirado do Conselho de Direitos Humanos da ONU devido a "um esgoto de viés político" contra Israel. 

O que fez o Conselho de Direitos Humanos da ONU para justificar esta repreensão da agente de Israel, Nikki Haley? O Conselho de Direitos Humanos denunciou a política de Israel de assassinar palestinos – médicos, crianças pequenas, mulheres, idosas e idosos, pais e adolescentes. 

Criticar Israel, não importa quão grande e óbvio seja o seu crime, significa que você é um anti-semita e um "negador do holocausto". Para Nikki Haley e Israel, isto coloca o Conselho de Direitos Humanos da ONU nas fileiras dos nazis adoradores de Hitler. 

O absurdo disto é óbvio, mas poucos, se é que algum, podem detectá-lo. Sim, o resto do mundo, com a excepção de Israel, denunciou a decisão de Washington, não só os inimigos de Washington e do palestino como até os seus fantoches e vassalos. 

Para ver a desconexão é necessário prestar atenção ao fraseamento das denúncias de Washington. 

Um porta-voz da União Europeia disse que a retirada de Washington do Conselho de Direitos Humanos da ONU "arrisca minar o papel dos EUA como um campeão e apoiante da democracia na cena mundial". Pode alguém imaginar uma declaração mais imbecil? Washington é conhecida como um apoiante de ditadura que aderem à sua vontade. Washington é conhecida como uma destruidora de toda democracia latino-americana que tenha eleito um presidente que representasse o povo do país e não os bancos de Nova York, os interesses comerciais dos EUA e a política externa estado-unidense. 

Mencione um lugar onde Washington tenha sido um apoiante da democracia. Só para falar dos anos mais recentes, o regime Obama derrubou o governo democraticamente eleito de Honduras e impôs ali o seu fantoche. O regime Obama derrubou o governo democraticamente eleito na Ucrânia e impôs ali um regime neo-nazi. Washington derrubou os governos na Argentina e no Brasil, está a tentar derrubar o governo da Venezuela e tem a Bolívia na sua alça da mira, juntamente com a Rússia e o Irão. 

Margot Wallstrom, ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, disse: "Entristece-me que os EUA tenham decidido retirar-se do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Ela vem num momento em que o mundo precisa de mais direitos humanos e uma ONU mais forte – não o oposto". Por que razão Wallstrom pensa que a presença de Washington, um conhecido destruidor de direitos humanos – basta perguntar aos milhões de refugiados dos crimes de guerra de Washington que inundam a Europa e a Suécia – fortaleceria ao invés de minar o Conselho? A desconexão de Wallstrom é estarrecedora. Ela é tão extrema que se torna inacreditável. 

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Julie Bishop, falou como o mais bajulador de todos os vassalos de Washington quando disse estar preocupada com o "viés anti-Israel" do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Aqui temos uma pessoa com o cérebro lavado tão absolutamente que é incapaz de se conectar a qualquer coisa real. 

O terceiro exemplo é a "guerra comercial" que Trump lançou contra a China. A afirmação do regime de Trump é que devido a práticas injustas a China tem um excedente comercial contra os EUA de aproximadamente US$400 mil milhões. Esta vasta soma supostamente deve-se a "práticas injustas" por parte da China. Nos factos reais, o défice comercial com a China deve-se à Apple, Nike, Levi e ao grande número de corporações dos EUA que deslocalizaram na China a produção das mercadorias que vendem aos americanos. Quando a produção deslocalizada de corporações estado-unidenses entra nos EUA elas são contadas como importações. 

Tenho apontado isto durante muitos anos, remontando mesmo ao meu testemunho perante a Comissão China do Congresso dos EUA. Tenho escrito numerosos artigos publicados por quase toda a parte. Eles estão resumidos no meu livro de 2013, The Failure of Laissez Faire Capitalism

Os media financeiros presstitutos, os lobistas corporativos, os quais incluem muitos economistas académicos com "nome", e os miseráveis políticos americanos cujo intelecto é quase não-existente são incapazes de reconhecer que o défice comercial maciço dos EUA é o resultado da deslocalização de empregos. Este é o nível da estupidez absoluta que domina a América. 

Em The Failure of Laissez Faire Capitalism, revelo o erro extraordinário de Matthew J. Slaughter, membro do Conselho de Assessores Económicos de George W. Bush, o qual de modo incompetente afirmou que para cada emprego estado-unidense deslocalizado seriam criados dois empregos nos EUA. Também revelei como uma farsa um "estudo" do professor Michael Porter da Universidade de Harvard feito para o chamado Conselho sobre Competitividade, um grupo de lobby para a deslocalização, o qual fabricou a afirmação extraordinária de que a força de trabalho dos EUA estava a beneficiar-se com a deslocalização dos seus empregos de alta produtividade e alto valor acrescentado. 

Os idiotas economistas americanos, os idiota media financeiros americanos e os idiotas responsáveis políticos americanos ainda não compreenderam que a deslocalização de empregos destruiu perspectivas económicas da América e empurrou a China para o primeiro plano 45 anos à frente das expectativas de Washington. 

Para resumir isto, a mentalidade ocidental e as mentalidades dos russos atlantistas-integracionistas e da juventude chinesa pró americana, estão tão cheias de insensatez propagandista que já não há conexão com a realidade. 

Há o mundo real e há o mundo propagandístico inventado que encobre o mundo real e serve interesses especiais. Minha tarefa é fazer com que o povo saia do mundo inventado e entre no mundo real. Apoio meus esforços. 

21/Junho/2018

O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/... 



sexta-feira, 29 de junho de 2018

SALVADOR ALLENDE, 110 AÑOS

Comparto nota en homenaje a la memoria de un enorme personaje de Nuestra América en el 110 aniversario de su nacimiento.



"ALLENDE: EL PRECURSOR OLVIDADO"

Por Atilio A. Boron

Es bien sabido que con el triunfo de la Revolución Cubana en 1959 América Latina y el Caribe reanudaron su marcha hacia su Segunda y Definitiva Independencia. El ascenso de Hugo Chávez a la presidencia de lo que luego sería la República Bolivariana de Venezuela es usualmente considerado como el segundo hito en esta larga marcha. Esto es indudable, pero pasa por alto una importantísima etapa intermedia, breve pero de enorme importancia: la que aportara el gobierno de Salvador Allende y la Unidad Popular en Chile, entre 1970 y 1973 y que es imprescindible rescatar del olvido en que ha sido sepultada por el inmenso aparato propagandístico de la derecha tanto dentro como fuera de Chile.



Allende llega al Palacio de la Moneda con un programa de gobierno que nada tiene que envidiar al que luego procurarían implementar -en un contexto internacional, económico y político mucho más favorable- los gobiernos bolivarianos de Venezuela, Bolivia y Ecuador. Hombre de inconmovible convicciones socialistas Allende no demoró un segundo en aplicar el programa de la UP, adoptando trascendentales medidas como la nacionalización de las riquezas básicas de Chile: la gran minería del cobre, hierro, salitre, carbón y otras, en poder de empresas extranjeras –entre ellas los gigantes de la industria cuprífera: la Anaconda Copper y la Kennecott- y de los monopolios nacionales. Con una inversión inicial de unos 30 millones de dólares al cabo de 42 años la Anaconda y la Kennecott remitieron al exterior utilidades superiores a los 4.000 millones de dólares. No contento con esto Allende nacionalizó casi la totalidad del sistema financiero del país: la banca privada y los seguros, adquiriendo en condiciones ventajosas para su país la mayoría accionaria de sus principales componentes. Nacionalizó a la International Telegraph and Telephone (IT&T), que detentaba el monopolio de las comunicaciones y que antes de la elección de Allende había organizado y financiado, junto a la CIA, una campaña terrorista para frustrar la toma de posesión del presidente socialista. Recuperó la gran empresa siderúrgica, creada por el estado y luego privatizada. Aceleró y profundizó la reforma agraria, que con su predecesor democristiano había avanzado con pasos lentos y vacilantes. Una casi olvidada ley de la fugaz República Socialista de Chile (4 de Junio-13 de Septiembre de 1932) facultaba al presidente a expropiar empresas paralizadas o abandonadas por sus dueños. Se constituyó un “área de propiedad social” en donde las principales empresas que condicionaban el desarrollo económico y social de Chile (como el comercio exterior, la producción y distribución de energía eléctrica; el transporte ferroviario, aéreo y marítimo; las comunicaciones; la producción, refinación y distribución del petróleo y sus derivados; la siderurgia, el cemento, la petroquímica y química pesada, la celulosa y el papel) pasaron a estar controladas por el estado. Todo esto hizo Allende en los pocos años de su gestión, aparte de crear una gran editorial popular, Quimantú, para acercar la cultura universal a chilenas y chilenos y de devolver la dignidad a un pueblo por décadas sometido al yugo de una feroz oligarquía neocolonial.



Y todo, absolutamente todo, lo hizo el gobierno de la UP sin salirse del marco constitucional y legal vigente, pese a lo cual la oposición: la vieja derecha oligárquica y sectores progresivamente mayoritarios de la democracia cristiana se arrastraron sin el menor recato por el fango de la ignominia, arrojando por la borda su (siempre escaso) respeto por las normas democráticas para fungir como agentes locales de las maniobras criminales de la reacción imperialista. Aquéllas habían sido desatadas por Washington la misma noche del 4 de Septiembre de 1970, cuando aún se estaban contando los votos que darían el triunfo a la UP. Furioso, el bandido de Richard Nixon, ordenó sabotear a cualquier precio al inminente gobierno de Allende. El asesinato del general constitucionalista René Schneider, poco antes que el Congreso Pleno ratificara su triunfo, fue apenas el primer eslabón de una tétrica cadena que con la dictadura de Pinochet sembraría muerte y destrucción en Chile. La permanente solidaridad de Allende con la Revolución Cubana y con todas las causas emancipatorias de la época, antes y después de asumir la presidencia, fue otro de los factores que encendió las iras de la Casa Blanca y su terminante decisión de acabar con él. En 1967, y en su calidad de Presidente del Senado de Chile Allende había acompañado en persona a Pombo, Urbano y Benigno, los tres sobrevivientes de la guerrilla del Che en Bolivia, para garantizar su seguro retorno a Cuba. Por eso el desafío que planteaba el médico chileno: la construcción de un socialismo “con sabor a vino tinto y empanadas”, precursor del socialismo del siglo veintiuno, era viscerablemente inaceptable para Washington y merecedor de un ejemplar escarmiento. Especialmente cuando el imperio, agobiado por la inminencia de una derrota catastrófica en Vietnam, sentía la necesidad de asegurar la incondicional sumisión de su “patio trasero”. Pero Allende, un marxista sin fisuras, no cedió un ápice, ni en sus convicciones ni en las políticas que perseguía su gobierno. Y lo pagó con su vida, como lo dijera en su alocución final por radio Magallanes ese aciago 11 de Septiembre de 1973. Y este 26 de Junio, al cumplirse 110 años de su nacimiento, se impone un sentido homenaje a esa figura universal, querible e imprescindible de Nuestra América, el gran precursor del ciclo de izquierda que se iniciaría en diciembre de 1998 en Venezuela.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Crivella veta lei que declara Quilombo da Pedra do Sal Patrimônio Imaterial do Rio

Especialistas consideram medida uma afronta à cultura e ao movimento negro

   
POR ELIS BARTONELLI


Pedra do Sal é palco de manifestações artísticas do Rio - Gabriel de Paiva / Agência O Globo




RIO - O prefeito Marcelo Crivella vetou, nesta quarta-feira, dia 27, o Projeto de Lei nº 346, que declara o Quilombo da Pedra do Sal Patrimônio Cultural Imaterial do Município do Rio de Janeiro. Situado na Zona Portuária do Rio, era ali que escravos africanos descarregavam sal importado de Portugal. Foi naquele local também que nasceu a região da Pequena África, principal reduto da comunidade afro-brasileira no Rio, e onde surgiram e a ainda acontecem diversas manifestações culturais da cidade, como ranchos carnavalescos e o samba.

A medida acirra ainda mais a série de atritos envolvendo o chefe do executivo da cidade e bens imateriais referentes ao movimento negro no município. No ano passado, a prefeitura do Rio e a Secretaria municipal de Cultura suspenderam o patrocínio do Jongo da Serrinha, tombado em 2005 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pelos 50 anos dedicados à preservação do jongo como Patrimônio Imaterial do Sudeste.

FONTE: O Globo

Domenico Losurdo (1941-2018)

Perda imensurável para o pensamento crítico mundial, o filósofo italiano Domenico Losurdo deixa um precioso legado para o pensamento marxista. Leia aqui as páginas finais de sua última obra publicada em vida: "O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer".

Domenico Losurdo na sede da Boitempo em 2017. Foto de Heleni Andrade.
É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de Domenico Losurdo, um dos maiores e mais originais filósofos marxistas da atualidade, querido amigo e camarada. Ele nos deixou nesta manhã de quinta-feira, dia 28, aos 77 anos, vítima de um súbito câncer cerebral. Perda imensurável para o pensamento crítico mundial, Losurdo deixa um precioso legado para o pensamento marxista. Suas reflexões, sempre afiadas e eruditas, concentram-se na crítica radical ao liberalismo, ao capitalismo, ao imperialismo e à “tradição colonialista”. Sua última obra publicada em vida é O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer. Como forma de homenagem, disponibilizamos abaixo as páginas finais da obra, em que Losurdo reflete sobre as condições para o renascimento do marxismo no ocidente. A TV Boitempo está atualmente preparando a publicação de uma série inédita de vídeos com ele sobre comunismo e revolução no século XXI.

Oriente e Ocidente: do cristianismo ao marxismo

Por Domenico Losurdo.

Nascido no coração do Ocidente, com a Revolução de Outubro, o marxismo se difundiu por todo o mundo, penetrando com força em países e áreas em condições econômicas e sociais mais atrasadas e com uma cultura muito diferente. Tendo atrás de si a tradição judaico-cristã, o marxismo ocidental, como vimos, não poucas vezes evoca motivos messiânicos (a espera por um “comunismo” concebido e sentido como a resolução de todos os conflitos e contradições e, portanto, como uma espécie de fim da história). Mas o messianismo está francamente ausente numa cultura como a chinesa, em geral caracterizada, em seu desenvolvimento milenar, pela atenção reservada à realidade mundana e social.

A expansão planetária do marxismo é o início de um processo de distanciamento, que é a outra face de uma retumbante vitória. É aquilo que historicamente se verificou no caso das grandes religiões. No que se refere ao cristianismo, que não por acaso Engels insistentemente compara com o movimento socialista, a divisão entre ortodoxos, de um lado, e protestantes e católicos, de outro, corresponde, grosso modo, à divisão entre Ocidente e Oriente. A certa altura, entre o fim do século XVII e o início do século XVIII, o cristianismo parecia prestes a se expandir amplamente também no Oriente asiático: gozavam de grande prestígio e exerciam notável influência na China os missionários jesuítas, que levavam consigo conhecimentos médicos e científicos avançados e, ao mesmo tempo, se adaptavam à cultura do país que os hospedava, rendendo homenagem a Confúcio e ao culto dos antepassados.

Porém, diante da intervenção do papa em defesa da pureza originária da religião cristã-católica, o imperador chinês reagiu fechando as portas do Império do Meio aos missionários. O cristianismo era bem-vindo quando aceitava sua sinificação e promovia o desenvolvimento científico, social e humano do país em que era chamado a operar; era, no entanto, repelido como corpo estranho quando visto como uma religião que promovia uma salvação sobrenatural nem um pouco respeitosa com a cultura e os laços humanos e sociais vigentes no país em que se encontrava.

Algo semelhante aconteceu com o marxismo. Já com Mao, o Partido comunista chinês promoveu a “sinificação do marxismo” e com isso ganhou impulso para a luta de libertação do domínio colonial, para um desenvolvimento das forças produtivas capaz de possibilitar a realização da independência também no plano econômico e tecnológico, para o “rejuvenescimento” de uma nação de civilização milenar, submetida pelo colonialismo e pelo imperialismo ao “século de humilhações” iniciado com as guerras do ópio. Longe de ser negada, a perspectiva socialista e comunista é orgulhosamente proclamada pelos dirigentes da República Popular da China: tal perspectiva, porém, está despida de todo caráter messiânico; além disso, sua realização está ligada a um processo histórico muito longo, no decorrer do qual a emancipação social não pode ser separada da emancipação nacional. E, de novo, o repúdio provém do Ocidente, guardião da ortodoxia doutrinária, do marxismo ocidental.

Este, agora, fustiga o marxismo oriental, que é pintado como desprovido de credibilidade e, portanto, banal do ponto de vista de um marxismo fascinado pela beleza do futuro remoto e utópico que ele mesmo evoca, e cujo advento parece ser independente de qualquer condicionamento material (quer se trate da situação geopolítica ou do desenvolvimento das forças produtivas), por ser determinado exclusivamente ou de modo absolutamente prioritário pela vontade política revolucionária.

O desencanto, o distanciamento, a cisão de que aqui se fala não visam somente a China: seguido pelo marxismo ocidental com atenção partícipe e apaixonada enquanto opunha resistência épica a uma guerra colonial de décadas que teve como protagonistas, primeiro, a França, depois, os Estados Unidos, embora hoje quase sepultado no esquecimento, é o Vietnã que está empenhado na prosaica tarefa da edificação econômica. A própria Cuba já não suscita o entusiasmo dos anos em que lutava contra a agressão militar executada (sem sucesso) em 1961 e por longo tempo preparada por Washington. Agora que o perigo da intervenção militar passou a ser remoto, os dirigentes comunistas de Cuba almejam reforçar a independência no plano, também e sobretudo, econômico, e para alcançar esse resultado sentem-se obrigados a fazer algumas concessões ao mercado e à propriedade privada (inspirando-se de modo bastante cauteloso no modelo chinês). Pois bem, a ilha, que já não se assemelha à utopia em pleno desenvolvimento, mas se revela às voltas com as dificuldades próprias do processo de construção de uma sociedade pós-capitalista, mostra-se bem menos fascinante aos olhos dos marxistas ocidentais. Quando estava em seu estágio inicial, aquele da luta militar pela independência política, a revolução anticolonial raramente suscitou no marxismo ocidental a atenção empática e o interesse teórico que ela merecia; agora que a revolução anticolonial está em seu segundo estágio, o estágio da luta pela independência econômica e tecnológica, o marxismo ocidental reage com uma postura marcada pelo desinteresse, pelo desdém, pela hostilidade.

A cisão entre os dois marxismos se deu pela incapacidade do marxismo ocidental em reconhecer a guinada da guinada ocorrida no século XX. Enquanto se adensam as nuvens de uma nova grande tempestade bélica, tal cisão se mostra ainda mais lamentável. É hora de dar cabo dela. Naturalmente, nem por isso se dissiparão as diferenças que subsistem entre Oriente e Ocidente no que se refere à cultura, ao estágio do desenvolvimento econômico, social e político, e às tarefas a serem enfrentadas: no Oriente, a perspectiva socialista não pode abrir mão de concluir, em todos os níveis, a revolução anticolonial; no Ocidente, a perspectiva socialista passa pela luta contra um capitalismo que é sinônimo de aprofundamento da polarização social e de crescentes tentações militares.

No entanto, não vemos motivos para a transformação de tais diferenças em antagonismo. Sobretudo agora que a excomunhão do marxismo oriental pelo marxismo ocidental promoveu o fim, não do excomungado, mas do excomungador. A superação de todo comportamento doutrinário e a disponibilidade de se confrontar com o próprio tempo e de filosofar em vez de profetizar são a condição necessária para que o marxismo possa renascer e se desenvolver no Ocidente.



terça-feira, 26 de junho de 2018

O Marxismo Ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer

Novo livro de Domenico Losurdo, lançamento da Boitempo Editorial

Nascido no coração do Ocidente, o marxismo se disseminou, com a Revolução de Outubro, por todos os cantos do mundo, desenvolvendo-se de maneiras diferentes e contrastantes, de acordo com o contexto histórico, social e econômico. À diferença do oriental, o marxismo ocidental perdeu o vínculo com a revolução anticolonialista mundial – ponto de virada decisivo do século XX – e acabou sofrendo um colapso. 

Em seu novo livro, Domenico Losurdo conta a parábola do marxismo ocidental: seu nascimento, sua evolução e sua queda. Uma obra polêmica e combativa, que pode ser considerada uma espécie de acerto de contas com o percurso do marxismo ocidental, repassando toda a sua trajetória até suas figuras atuais, como Slavoj Žižek, David Harvey, Alain Badiou, Giorgio Agamben e Antonio Negri, sem deixar de visitar pensadores já clássicos como Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, György Lukács, Herbert Marcuse, Louis Althusser, Ernst Bloch e Jean-Paul Sartre. Losurdo diagnostica a “morte” do marxismo ocidental, retraça sua gênese e coloca questões decisivas: seu renascimento seria possível nos dias atuais? Sob quais condições?



Trecho da obra

“A história que me proponho reconstruir começa a se delinear entre agosto de 1914 e outubro de 1917, entre a eclosão da Primeira Guerra Mundial e a vitória da Revolução de Outubro. Na esteira desses dois acontecimentos históricos, o marxismo conhece uma difusão planetária que o projeta para além das fronteiras do Ocidente em que permanecera confinado na época da Segunda Internacional. No entanto, há o outro lado da moeda desse triunfo: o encontro com culturas, situações geopolíticas e condições econômico-sociais tão distintas entre si estimula um processo interno de diferenciação, com o surgimento de contradições e conflitos antes desconhecidos. Para compreendê-los, somos obrigados a nos questionar sobre as motivações de fundo que levam à adesão ao movimento comunista e marxista que toma forma naqueles anos.”