segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A incompleta e envenenada história do agrotóxico

Por Gustavo Duch Guillot
Do Galicia Hoxe,/ Espana

Uma parte da História não é contada nos livros escolares.

As bibliotecas esqueceram dela, que somente enche as páginas dos registros de óbitos.

As corporações responsáveis por eles – as fábricas de agrotóxicos – estão tranquilasenquanto suas poções para o cultivo de alimentos são irrespiráveis, e sem respirar não se vive.

Abaixo, vejas as passagens ignoradas:

Guerra Civil nos Estados Unidos- A maior fornecedora de pólvora para o Exército da União foi a DuPont. A DuPont, inventora dos CFC (substâncias daninhas para a camada de ozônio) hoje continua com os negócios químicos. É dona da Pioneer, uma das produtoras de sementes transgênicas resistentes aos agrotóxicos, especialmente ao glifosato.

Segunda Guerra Mundial- O gás Zyklon B, que era utilizado nas câmaras de extermínio nazistas, era um inseticida fabricado pela IG Farben. Milhares de seres humanos souberam disso. A herança da IG Farben foi repartida entre Bayer, Basf e Hoechst. Tudo, exceto as responsabilidades penais.

1945- Enquanto a bomba atômica mutilava Hiroshima, no Japão, um navio americano também viajava para o país. Em seus compartimentos de carga, transportava agrotóxicos. A guerra em que seriam estreados teve que aguardar. O “agente laranja” destruíu milhões de hectares de florestas e cultivos na guerra do Vietnã. Somente os soldados americanos afetados pelos efeitos cancerígenos do veneno da Dow Chemical e Monsanto receberam indenizações.

1984- A fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bophal, na Índia, cuspiu veneno e mais de 10 mil pessoas morreram em poucos dias. Outras 15 mil morreram nos anos seguintes e mais de 100 mil continuam com problemas de saúde. A Dow Chemical, que comprou a Union Carbide, tinha aprendido o negócio: a transação não incluiu a responsabilidade sobre o acontecido.

1989- Os Estados Unidos proibiram o uso do agrotóxico Nemagon. A Dow Chemical, sua produtora, sabia dos seus efeitos sobre a saúde das pessoas, mas prolongou a venda nas plantações da América Central. Somente na Nicarágua morreram mais de 1400 trabalhadores e trabalhadoras expostos ao veneno.

2010- Fecha-se o círculo. Uma revista científica publica um estudo que demonstra que malformações observadas em humanos são compatíveis com a exposição ao glifosato durante a gravidez. Mas a substância continua em expansão na soja transgênica, devota do glifosato de companhias como a Monsanto, DuPont ou Bayer.

Os bancos da justiça (des)esperam.

(Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti)

Educação ontem e hoje: no fundamental, nada mudou

Quando não se tem um culpado, invente um. Poder ser o aluno ou o professor. Tanto faz, desde que não coloque em jogo a formação de uma população laboriosa, medíocre e cordata. Ora, a renovação radical do ensino não é uma questão exclusivamente técnica como acreditam os "cavaleiros andantes da Utopia". Quem são esses? São aqueles reformadores sociais e/ou aqueles educadores que pretendem um sistema público de ensino "neutro" ou "apolítico". A educação é permeável às tensões colocadas no âmbito global da sociedade pelos embates para a manutenção da hegemonia e para a construção de novas hegemonias (ou de contra-hegemonias). Uma efetiva educação de qualidade para todos, para além da falsa "meritocracia" da educação burguesa, só será alcançada em uma nova ordem social. Por isso, "seria prematuro dizer que os professores (...) em geral verdadeiramente se interessam por um debate de idéias. A maioria ainda está composta de indiferentes e de conformistas. Mas só a existência de uma minoria volitiva, que quer e exige uma renovação, anuncia o despertar de todo o corpo de professores" (José Carlos Mariátegui). Mudar a educação e fazê-la um dos fatores de transformações sociais efetivas e essênciais é conferir à escola um espírito revolucionário, articulada às lutas sociais do seu tempo, de superação da ordem vigente. Do contrário, é se perder no afã de "Todos pela Educação".

domingo, 29 de agosto de 2010

BIBLIOTECA DIGITAL DE CARTOGRAFIA HISTÓRICA

O Instituto de Estudos Brasileiros da USP e o projeto Dimensões do Império Português inauguram na quarta-feira [dia 01/09/2010] um site que reúne mapas e documentos confeccionados entre os séculos 16 e 19, com registros do território brasileiro e da América do Sul. Sob a guarda provisória do Estado, a coleção pertenceu ao ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira.
http://www.mapashistoricos.usp.br/
Fonte: Folha de São Paulo, 29/08/2010.

Fragmentos do pensamento de Mariátegui

"A revolução, desgraçadamente, não se faz com jejuns. Em todas as latitudes, os revolucionários têm que escolher entre sofrer a violência ou utilizá-la."

"Para que o proletariado cumpra, em termos de progresso moral, a sua missão histórica, é necessário que adquira previamente a consciência do seu interesse de classe - mas o interesse de classe, por si só, não basta [...], como os marxistas entenderam e sentiram perfeitamente. Daí, precisamente, partem as suas duras críticas ao reformismo ignorante. 'Sem teoria revolucionária não há ação revolucionária', repetia Lenin, aludindo à tendência amarela que esquecia os fins revolucionários para prender-se apenas às circunstâncias presentes."

"Não basta a decadência ou o esgotamento do capitalismo. O socialismo não pode ser a consequência automática de uma bancarrota; tem que ser o resultado de um tenaz e denodado trabalho de elevação."

[Uma revolução] "não é um golpe de Estado, não é uma insurreição. [...] Uma revolução se realiza no curso de muitos anos. E, com frequência, tem períodos alternados de predomínio das forças revolucionárias e de predomínio das forças contra-revolucionárias."

"Uma revolução não pode ser prevista a prazo fixo. Sobretudo, uma revolução não é um golpe de mão. É obra de massas imensas."

"No presente como no passado, não se pode mudar uma ordem política sem homens dispostos a resistir ao cárcere ou ao exílio."

José Carlos Mariátegui
(1894-1930)
Fonte: ESCORSIM, Leila. Mariátegui: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

A comédia e a tragédia do capitalismo

"O capitalismo é uma comédia para o opressor e uma tragédia para o oprimido."


sábado, 28 de agosto de 2010

Florestan é relançado

A família do sociólogo Florestan Fernandes (1920-95) acaba de fechar contrato com a Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro para o relançamento do clássico "Brasil em Compasso de Espera". Publicado em 1980 e hoje só disponível em sebos, ele reúne escritos sobre o movimento socialista no Brasil. Interpretado de maneira bastante militante, o livro se tornaria inspiração para o único longa-metragem do dramaturgo Antunes Filho, "Em Compasso de Espera". A obra do autor de "A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá" deve chegar às livrarias no Natal.
Fonte: Folha de São Paulo, 28/08/2010.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ESFERA PUBLICA X ESFERA MERCANTIL

Por Emir Sader
O neoliberalismo é a realização máxima do capitalismo: transformar tudo em mercadoria. Foi assim que o capitalismo nasceu: transformando a força de trabalho (com o fim da escravidão) e as terras em mercadorias. Sua história foi a crescente mercantilização do mundo.
A crise de 1929 – de que o liberalismo foi unanimemente considerado o responsável – gerou contratendências, todas antineoliberais: o fascismo (com forte capitalismo de Estado), o modelo soviético (com eliminação da propriedade privada dos meios de produção) e o keynesianismo (com o Estado assumindo responsabilidades fundamentais na economia e nos direitos sociais).
O capitalismo viveu seu ciclo longo mais importante do segundo posguerra até os anos 70. Quando foi menos liberal, foi menos injusto. Vários países – europeus, mas também a Argentina – tiveram pleno emprego, os direitos sociais foram gradualmente estendidos no que se convencionou chamar de Estado de bem-estar-social.
Esgotado esse ciclo, o diagnóstico neoliberal triunfou, voltando de longo refluxo: dizia que o que tinha levado a economia à recessão era a excessiva regulamentação. O neoliberalismo se propôs a desregulamentar, isto é, a deixar circular livremente o capital. Privatizações, abertura de mercados, “flexibilização laboral” – tudo se resume a desregulamentações.
Promoveu-se o maior processo de mercantilização que a história conheceu. Zonas do mundo não atingidas ainda pela economia de mercado (como o ex-campo socialista e a China) e objetos de que ainda usávamos como exemplos de coisas com valor de uso e sem valor de troca (como a água, agora tornada mercadoria) – foram incorporadas à economia de mercado.
A hegemonia neoliberal se traduziu, no campo teórico, na imposição da polarização estatal/privado como o eixo das alternativas. Como se sabe, quem parte e reparte fica com a melhor parte – privado – e esconde o que lhe interessa abolir – a esfera pública. Porque o eixo real que preside o período neoliberal se articula em torno de outro eixo: esfera pública/esfera mercantil.
Porque a esfera do neoliberalismo não é a privada. A esfera privada é a esfera da vida individual, da família, das opções de cada um – clube de futebol, música, religião, casa, família, etc.. Quando se privatiza uma empresa, não se colocam as ações nas mãos dos indivíduos – os trabalhadores da empresa, por exemplo -, se jogam no mercado, para quem possa comprar. Se mercantiliza o que era um patrimônio público.
O ideal neoliberal é construir uma sociedade em que tudo se vende, tudo se compra, tudo sem preço. Ao estilo shopping center. Ou do modo de vida norteamericano, em que a ambição de todos seria ascender como consumidor, competindo no mercado, uns contra os outros.
O neoliberalismo mercantilizou e concentrou renda, excluiu de direitos a milhões de pessoas – a começar os trabalhadores, a maioria dos quais deixou de ter carteira de trabalho, de ser cidadão, sujeito de direitos -, promoveu a educação privada em detrimento da publica, a saúde privada em detrimento da pública, a imprensa privada em detrimento da pública.
O próprio Estado se deixou mercantilizar. Passou a arrecadar para, prioritariamente, pagar suas dívidas, transferindo recursos do setor produtivo ao especulativo. O capital especulativo, com a desregulamentação, passou a ser o hegemônico na sociedade. Sem regras, o capital – que não é feito para produzir, mas para acumular – se transferiu maciçamente do setor produtivo ao financeiro, sob a forma especulativa, isto é, não para financiar a produção, a pesquisa, o consumo, mas para viver de vender e comprar papéis – de Estados endividados ou de grandes empresas -, sem produzir nem bens, nem empregos. É o pior tipo de capital. O próprio Estado se financeirizou.
O neoliberalismo destruiu as funções sociais do Estado e depois nos jogou como alternativa ao mercado: se quiserem, defendam o Estado que eu destruí, tornando-o indefensável; ou venham somar-se à esfera privada, na verdade o mercado disfarçado.
Mas se a esfera neoliberal é a esfera mercantil, a esfera alternativa não é a estatal. Porque há Estados privatizados, isto é, mercantilizados, financeirizados; e há Estados centrados na esfera pública. A esfera pública é centrada na universalização dos direitos. Democratizar, diante da obra neoliberal, é desmercantilizar, colocar na esfera dos direitos o que o neoliberalismo colocou na esfera do mercado. Uma sociedade democrática, posneoliberal, é uma sociedade fundada nos direitos, na igualdade dos cidadãos. Um cidadão é sujeito de direitos. O mercado não reconhece direitos, só poder de comprar, é composta por consumidores.
Na esfera da informação, houve até aqui predomínio absoluto da esfera mercantil. Para emitir noticias era necessário dispor de recursos suficientes para instalar condições de ter um jornal, um rádio, uma TV. A internet abriu espaços inéditos para a democratização da informação.
A democratização da mídia, isto é, sua desmercantilização, a afirmação do direito a expressar e receber informações pluralistas, tem que combinar diferentes formas de expressão e de mídia. A velha mídia é uma mídia mercantil, composta de empresas financiadas pela publicidade, hoje aderida ao pensamento único. Uma mídia composta por empresas dirigidas por oligarquias familiares, sem democracia nem sequer nas redações e nas pautas dos meios que a compõem.
A nova mídia, por sua vez, é uma mídia barata nos seus custos, pluralista, crítica. O novo espaço criado pelos blogueiros progressistas faz parte da esfera pública, promove os direitos de todos, a democracia econômica, política, social e cultural. A esfera pública tem expressões estatais, não- estatais, comunitárias. Todas comprometidas com os direitos de todos e não com a seletividade e a exclusão mercantil.
São definições a ser discutidas, precisadas, de forma democrática, aberta, pluralista, de um fenômeno novo, que prenuncia uma sociedade justa, solidária, soberana. [...]

Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade da Terra

O Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade da Terra

O Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade da Terra será na semana do Grito dos Excluídos, de 1 e 7 de setembro, para aproximar a população brasileira da discussão sobre a necessidade de impor limites à concentração de terras no país. A consulta popular é uma das ações da Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade da Terra, que o Fórum Nacional da Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA) promove há dez anos.

Mais de 50 entidades integram o FNRA, que pretende com o plebiscito pressionar o Congresso Nacional para incluir na Constituição Brasileira um inciso que limite a terra em 35 módulos fiscais.

Esses módulos são unidades de medida estabelecidas nos municípios, que refletem a área média dos imóveis a partir da situação geográfica. Áreas acima de 35 módulos seriam incorporadas ao patrimônio público e destinadas à Reforma Agrária.
Visite o site da Campanha:

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O mundo se descongela


Carta Kaiowá Guarani ao Lula

A não demarcação das terras foi o principal assunto tratado no encontro de Lula com 25 lideranças políticas e religiosas do povo Kaiowá Guarani e Terena

Conselho da Aty Guasu

SENHOR PRESIDENTE LULA,

Várias vezes ouvimos o senhor falar e nos prometer pessoalmente que iria resolver o problema da demarcação de nossas terras Kaiowá Guarani. Não entendemos porque isso até hoje não aconteceu. Ouvimos até o senhor pedir isso ao governador. Porém, como ele se manifestou várias vezes contra o reconhecimento de nossas terras, tínhamos a certeza de que ele não só nada faria, como se empenhou em impedir a demarcação.

Agora, senhor presidente Lula, o senhor vem aqui na região do nosso território Kaiowá Guarani, em Dourados, sem ter, em quase 8 anos de governo praticamente nada feito pelas nossas terras. Ou melhor, fizeram muitas promessas, a Funai colocou a nossa situação como prioridade, assinou juntamente com o Ministério Público um Termo de Ajustamento de Conduta. O tempo já expirou e nada das nossas terras sequer serem identificadas.

Senhor Presidente, por favor, não prometa nada, mande apenas demarcar nossas terras. O resto sabemos dos nossos direitos e vamos batalhar por eles. Já esperamos demais e toda nossa enorme paciência acabou. Só esperamos não precisar ir pelo mundo afora, na ONU e nos tribunais internacionais denunciar um governo em quem tanto esperamos. Temos a certeza que o senhor que quer entrar para a história como um grande presidente desse país e para a humanidade, não queira entrar também como massacrador do nosso povo. Caso não demarcar as terras, infelizmente é isso que continuará a acontecer conosco. O senhor já deve ter ouvido falar do recente assassinato dos nossos dois professores, Jenivaldo e Rolindo, na terra indígena Ypo’i, município de Paranhos. Seus familiares vieram aqui exigir justiça e garantia de vida e seus direitos à sua terra tradicional à qual voltaram recentemente. Querem encontrar o corpo de Rolindo e ali enterrar Jenivaldo.

Finalmente, senhor presidente Lula, Não deixe nosso povo Kaiowá Guarani sofrendo tanto. Nosso povo continua sendo morto que nem animal e muitos de nossos jovens se suicidam pela falta de esperança e de terra. Sofremos demais com tanta violência em e contra nossas comunidades. Isso só vai começar a mudar com a demarcação de nossas terras, juntamente com um plano de recuperação ambiental e produção de alimentos.

Não fazemos pedidos, exigimos direitos. Demarcação de nossas terras com urgência para que nosso povo volte a viver em paz, com felicidade e dignidade.

Conselho da Aty Guasu Kaiowá Guarani

Comissão de Professores Indígenas Kaiowá Guarani

Dourados, 24 agosto de 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Carta dos Blogueiros Progressistas

Cerca de 300 autores de blogs reunidos na capital paulista neste domingo (22), segundo dia do 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, aprovaram uma carta de princípios.O texto defende a liberdade de expressão, especialmente na internet, democratização da comunicação e a universalização da banda larga no Brasil.

1º Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas

“A liberdade da internet é ainda maior que a liberdade de imprensa, na medida em que a imprensa compreensiva do rádio e da televisão se define como serviço público sob regime de concessão ou permissão, ao passo que a internet se define como instância de comunicação inteiramente privada.” (Ministro Ayres Britto)

Em 21 e 22 de agosto de 2010, homens e mulheres de várias partes do país se reuniram em São Paulo, no Sindicato dos Engenheiros, com a finalidade de materializarem uma entidade, inicialmente abstrata, dita blogosfera, a qual vem ganhando importância no transcurso desta década devido à influência progressiva que passou a exercer na comunicação e nos grandes debates públicos.

A blogosfera é produto dos esforços de pessoas independentes das corporações de mídia, os blogueiros progressistas, designação que alude a àqueles que, além de seus ideais humanistas, ousaram produzir o que já se tornou o primeiro meio de comunicação de massas autônomo. Contudo, produzir um blog independente, no Brasil, ainda é um ato de heroísmo porque não existem meios sólidos de financiamento para exercer a atividade profissionalmente, ou seja, obtendo remuneração.

Em busca de soluções para as dificuldades que persistem para que a blogosfera progressista siga crescendo e ganhando influencia em uma comunicação de massas dominada por um oligopólio poderoso, influente e, muitas vezes, antidemocrático, os blogueiros progressistas se unem para formularem aspirações e propostas de políticas públicas e pelo estabelecimento de um marco legal regulatório que contemple as transformações pelas quais a comunicação está passando no Brasil e no mundo.

Com base nesse espírito que permeou o 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, os participantes deliberaram em favor dos seguintes pontos:

I – Apoiamos o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), de iniciativa do governo federal, como forma de inclusão digital de expressiva parcela do povo brasileiro extemporaneamente alijada de um meio de comunicação de massas como a internet no limiar da segunda década do século XXI, o que é inaceitável e incompatível com os direitos fundamentais do homem à comunicação em um momento histórico em que os avanços tecnológicos nessa área já são acessíveis a qualquer cidadão de qualquer classe social nos países em estágio civilizatório mais avançado.

Apesar do apoio ao PNBL, os blogueiros progressistas declaram que, mesmo entendendo a iniciativa governamental como positiva, julgam que precisa de aprimoramento, pois da forma como está ainda oferece pouco para que a internet possa ser explorada em todas as suas potencialidades. A velocidade de processamento a ser oferecida à sociedade sem cobrança dos custos exorbitantes da iniciativa privada, por exemplo, precisa ser ampliada ou não realizará aquilo a que se propõe.

2 – Defendemos a regulamentação dos Artigos 220, 221 e 223 da Constituição Federal, que legislam sobre a comunicação no Brasil e, entre outras coisas, proíbem a concentração abusiva dos meios de comunicação de massa e que dispõem sobre os sistemas público, estatal e privado.

Por omissão dos Poderes Executivo e Legislativo na regulamentação da matéria e sob sugestão do eminente professor Fabio Konder Comparato, os blogueiros progressistas decidem mover na Justiça brasileira uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) com vistas à regulamentação das leis que determinam profundas alterações na realidade da comunicação no Brasil supra descrita e que vêm sendo solenemente ignoradas.

3 – Combatemos iniciativas que tramitam no Poder Legislativo tais como o Projeto de Lei de autoria do senador mineiro Eduardo Azeredo, iniciativa que se notabilizou pela alcunha de “AI-5 digital” e que pretende impor restrições policialescas à liberdade de expressão na rede mundial de computadores, bem como as especulações sobre o que se convencionou chamar de “pedágio na rede”, ou seja, a possibilidade de os grandes grupos de mídia poderem veicular seus conteúdos na internet com vantagens tecnológicas como capacidade e velocidade de processamento em detrimento do que for produzido pelos cidadãos comuns e pelas pequenas empresas de comunicação.

4 – Reivindicamos a elaboração de políticas públicas que incentivem a veiculação de publicidade privada e oficial remuneradas nos blogs, bem como outras formas de financiamento que efetivamente viabilizem essa forma de comunicação representada pela blogosfera progressista, de maneira que possa ser produzida por qualquer cidadão que disponha de competência para explorar seu potencial econômico e comercial, exatamente como fazem os meios de comunicação de massas tradicionais com amplo apoio do Estado por meio de fartas verbas públicas que, com freqüência, são repassadas sob critérios meramente políticos e que ignoram a orientação constitucional que determina pluralidade na comunicação do país.

5 – Cobramos dos Poderes Executivo e Legislativo que examinem com seriedade deliberações da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) como a da criação do imprescindível Conselho Nacional de Comunicação.

6 – Deliberamos pela instituição de um Encontro Anual dos Blogueiros progressistas, que deve ocorrer, sempre que possível, em diferentes capitais para que um número maior de unidades da Federação tenham contato com esse evento e, em algum momento, com o universo da blogosfera.

7 – Lutaremos para instituir núcleos de Apoio Jurídico aos Blogueiros Progressistas, no âmbito das tentativas de censura que vêm sofrendo sobretudo por parte da classe política e de grandes meios de comunicação de massas.

São Paulo, 22 de agosto de 2010

Entrevista com Oliver Stone e Tariq Ali - "Ao Sul da Fronteira"

O novo documentário de Oliver Stone, “Ao sul da fronteira”, narra o aparecimento de uma série de governos progressistas na América Latina, a sua busca de transformação social e política no continente e a crescente independência de Washington. Embora não se possa meter tudo no mesmo saco, como Oliver Stone faz com a promoção dos governos Kirchner a progressistas, quer o filme “Ao Sul da Fronteira” quer esta entrevista são contributos para romper o cerco da central de desinformação comandada por Washington.

RN – Fizeste três filmes sobre a América Latina, dois deles sobre Fidel. Que te levou a fazeres este novo documentário sobre a América Latina?OS – Não te esqueças além disso de “Salvador” em 1986. Foi sobre El Salvador, na América Central, uma tragédia. De forma que voltei. Gosto da América Latina, vejo a América do Sul como o setor socialmente mais débil nesta situação. Como cineasta, tendo a fazer filmes sobre as pessoas que não recebem tratamento justo. Creio que o que se está a passar está mal. Conheci Chávez em 2007, depois voltei em 2008 e ele disse-me: “não fiques com a minha versão, vai falar com os meus vizinhos”. Fi-lo, com uma pequena equipe, e estivemos com sete presidentes em seis países. Perguntava-me: porquê tanta confusão? Porque fazemos tanto barulho com o Chávez? Algo cheira mal em tudo isto. Quando os Estados Unidos mostram tanto zelo por destruir alguém, como já sucedeu várias vezes na América do Sul e na América Central, é evidente que há uma motivação. Estamos à procura dessa motivação.
RN – Os principais meios de comunicação dos EUA foram bastante críticos com o teu filme. Surpreende-te?OS – Não, estou surpreendido por termos sido capazes de chegar onde chegámos. Conseguimos a distribuição em salas de cinema e depois se verá se na televisão. As pessoas vão ver o filme. Haverá sarilho em perspectiva, porque quando o New York Times diz “não vejam este filme” está fazendo lobby contra ele.
TA – Isso pode ter também um efeito contrário. Muita gente vai dizer: “Pela forma como estão a falar, quer dizer que há aqui algo de interessante”. Anima as pessoas a irem ver.
RN – É mais preocupante quando a opinião de meios considerados liberais, como o “Village Voice”, foi tão negativa.OS – O “Village Voice” esteve durante anos a fazer isso. Para mim, não é uma organização liberal, mas pseudo-liberal. Pode-se discutir bastante sobre o que é ser liberal ou progressista nos Estados Unidos.
RN – É como o “The Guardian” aqui em relação à Venezuela?
TA – O correspondente do “The Guardian” na Venezuela vive num bairro residencial a leste de Caracas e os seus relatórios sobre a vida na Venezuela são totalmente enviesados.
RN – Pareces fascinado pelo carisma dos caudilhos da América Latina, como Fidel Castro e Hugo Chávez. Mas a América Latina é também o berço de grandes movimentos sociais que durante muito tempo têm lutado pela mudança. Como vês a relação entre os dois, por um lado os dirigentes e por outro lado os movimentos sociais?TA – Estes líderes não estariam no poder se não fosse pelos movimentos sociais. Existe um vínculo entre os dois. Os movimentos sociais na Bolívia ajudaram a criar o Movimento para o Socialismo, partido de Evo Morales que o catapultou para o poder. Os grandes movimentos sociais contra o FMI na Venezuela, que levaram ao massacre do “Caracazo” em que três mil pessoas morreram, deram origem a Chávez. Os mesmos movimentos se produziram no Equador e no Paraguai. Por isso, não vejo uma grande divisão. Cada um depende do outro. Essa brecha existe em grande parte no Ocidente, onde os movimentos sociais se extinguiram por não terem sido capazes de lograr fosse o que fosse. Os movimentos sociais já quase não existem na Europa Ocidental. Em países como a Itália, que teve enormes movimentos sociais, já desapareceu tudo. Na América do Sul, uma das razões porque perduraram é porque conseguiram algo, não uma grande mudança, mas algumas reformas estruturais no sistema.
OS – Acrescentaria o seguinte: não só gosto dos caudilhos ou homens fortes, que não são o mesmo que ditadores, já que no caso de Chávez ele foi evidentemente eleito, como admiro muito Néstor Kirchner, um intelectual com vontade de fazer alguma coisa, porque os intelectuais tendem a perder a sua força de vontade. Kirchner foi suficientemente forte para levar a cabo uma reforma baseada no seu próprio pensamento sobre a reforma econômica. É para mim um brilhante exemplo de herói. Ele mesmo o disse no documentário: “O meu amigo Hugo deve pensar num sucessor”, porque quando tudo assenta num só homem, pode chegar a ter um efeito contra-producente e creio que este é o problema que Hugo vai enfrentar no futuro. Aparece demais nas notícias. É demasiado controverso. Então, centram a discussão em Hugo Chávez, em vez de fazerem uma discussão sobre as posições de direita e de esquerda na América Latina.
RN – No teu filme, também entrevistas Lula, que não tem a mesma política de esquerda que os outros, mas que em termos de política internacional, integração da América Latina, é muito importante. Pareceria que algumas pessoas de esquerda tendem a perder de vista o panorama geral sobre para onde vão as coisas no continente.OS – Sim, é por isso que os incito e digo às pessoas: pensem no contexto geral. Alguns perdem-se nas miudezas e acabam comendo-se uns aos outros.
RN – Porque crês que uma pessoa como Chávez tem tão má imagem nos Estados Unidos, enquanto presidentes como Uribe, supostamente envolvido em problemas de paramilitarismo, relacionado com o tráfico de drogas na Colômbia e em violações dos direitos humanos numa escala sem precedentes na América Latina, é apresentado com uma boa imagem na imprensa?TA – Isso deve-se a que a Colômbia e Uribe são aliados dos Estados Unidos, trabalham com eles, participaram em ações iniciadas pelos Estados Unidos na região e isso sempre foi assim. Sempre foi assim no passado. Por que derrubaram Allende? Por que apoiaram Pinochet? Essa mesma política, hoje de maneira diferente, continua no entanto em curso. Odeiam Chávez, não apenas porque os ataca frontalmente, mas também além disso por ser o presidente eleito do país com as maiores reservas de petróleo do continente, significando o petróleo muito para eles. Como muitos dos jornalistas dizem, se Chávez estivesse no Paraguai, não o odiariam tanto. Mas a razão porque o odeiam é por estar utilizando o petróleo e contra eles e por estar a dar acesso ao petróleo a outras repúblicas bolivarianas. Os cubanos conseguiram aguentar-se fazendo um intercâmbio de petróleo por médicos. Odeiam-no porque quebrou o isolamento dos cubanos e permitiu que se ajudem uns aos outros, porque agora a América Latina quer falar a uma só voz. É isso que este filme mostra, isso não tinha sucedido nunca antes. Pela primeira vez, os líderes que não estavam de acordo uns com os outros uniram-se e disseram aos Estados Unidos: basta, já chega e não recuamos.
* Roberto Navarrete é editor de http://www.alborada.net/ , sitio web sobre política, meios de comunicação e cultura na América Latina.
Esta entrevista foi publicada em http://alborada.net/navarrete-al-sur-de-la-frontera
Tradução: Jorge Vasconcelo

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Gramsci e os movimentos populares: seminário internacional



Apresentação


Seminários e eventos para abordar os mais diversos temas e questões do pensamento de Gramsci têm sido numerosos no mundo e no próprio Brasil. Mas, são praticamente inexistentes os estudos dedicados a focalizar o diálogo fecundo que vem ocorrendo entre as perspectivas abertas por A. Gramsci e os movimentos populares. Na variedade das suas formas e manifestações, os movimentos populares latino-americanos apresentam profundas sintonias com a visão de mundo delineada por Gramsci. Desde final dos anos 60, quando os escritos de Gramsci começaram a ser divulgados no Brasil e na América Latina, observa-se uma crescente referência às suas idéias e categorias. O seminário que queremos realizar, portanto, se propõe a analisar e debater como, ao longo dos últimos 40 anos, as ferramentas teóricas de Gramsci foram assimiladas pelos movimentos populares. Mas, também, como estes conseguiram re-processar as idéias do pensador sardo amalgamando-as com uma inovadora práxis latino-americana, de modo a elaborar uma visão própria de sociedade e delinear um projeto alternativo de mundo.

A estrutura, os componentes e a dinâmica do seminário foram pensados de modo a investigar, de um lado, a relação entre o pensamento de Gramsci e os movimentos populares no recente contexto histórico brasileiro e latino-americano, e, por outro lado, a focalizar as atenções sobre algumas questões que atualmente vêm sendo particularmente debatidas, como o processo de democratização no Brasil e na América Latina, a construção de um “Estado-ético” popular, a busca de um novo significado de hegemonia, a concepção de uma educação e de uma “escola unitária” alternativa.

Além de articular os aspectos históricos, filosóficos e pedagógicos e destacar a singularidade dos movimentos populares brasileiros e latino-americanos, o seminário pretende debater também contradições e debilidades, levantar questões críticas e apontar desdobramentos, de modo a contribuir para renovar práticas político-pedagógicas vigentes e aprofundar o desenvolvimento dos estudos e da pesquisa.

Neste sentido, é de se considerar que a realização desse seminário é uma iniciativa originada no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Filosofia Política e Educação (Nufipe), vinculado ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense e parceiro de movimentos populares. Desde sua criação, em 2002, de fato, Gramsci e os movimentos populares têm sido “a mente e o coração” do nosso Núcleo, a partir dos quais temos organizado diversas atividades de extensão, cursos, pesquisas, orientação de monografia, de dissertação, de teses e diversas publicações, como pode ser observado pelos registros no Diretório de Grupos de Pesquisa certificado pelo Conselho Nacional de Pesquisas, CNPq. Em Gramsci, e autores sintonizados com o seu pensamento, o Nufipe encontra seus referencias teóricos fundamentais. E, nos movimentos populares, os interlocutores principais que lhe inspiram a pesquisa e a práxis político-pedagógica. Além de regional e nacional, o seminário tem um alcance internacional, não apenas pelas diversas relações e parcerias que o Nufipe vem estabelecendo dentro e fora do Brasil, mas porque “Gramsci e os Movimentos Populares” só podem ser compreendidos plenamente nesse grande circuito. Esperamos, com isso, aprofundar os vínculos entre o mundo acadêmico e a dinâmica dos movimentos populares, entre o pensamento de Gramsci e a práxis político-pedagógica latino-americana.

Prof. Dr. Giovanni Semeraro


Informações:
http://www.nufipeuff.org/

O tempo da travessia

"Há tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

1967: uma noite que ilumina os dias

O documentário "Uma noite em 1967", de Renato Terra e Ricardo Calil, com documentos de época e entrevistas atuais, recoloca o papel dos festivais e da resistência cultural no Brasil durante a ditadura civil-militar (1964-1985).

Francisco Carlos Teixeira

Depois de estrear no festival de cinema do Rio “Tudo é verdade” o documentário “Uma noite em 1967”, de Renato Terra e Ricardo Calil lotou os cinemas do Rio de Janeiro. Trata-se de uma revisão histórica, do momento final do III Festival de Música Popular da TV Record no dia 21 de outubro de 1967. Um público dominantemente acima dos 50 anos foi conferir um momento ímpar na vida, e na memória, daqueles que viveram os chamados “anos de chumbo” da história do Brasil. O filme, com documentos de época e entrevistas atuais, recoloca o papel dos festivais e da resistência cultural no Brasil durante a ditadura civil-militar (1964-1985).

Um filme, um debate
O recente trabalho de Terra & Calil, para além de um ótimo divertimento, objetivo básico de todo filme, nos leva a uma viagem ao passado recente do país. Na verdade nos leva a uma viagem, a bordo de algumas canções, a um tempo de guerra. Através dos documentos de época – tapes e flash dos festivais da canção, em especial do festival-tema do filme (da Record de 1967) – e de várias entrevistas contemporâneas com os atores/produtores/autores/compositores participantes do próprio festival – revivemos as emoções daquela noite. Era, após três outras etapas, a finalíssima do festival. Ali, então, enfrentar-se-iam várias tendências e estilos da nova MPB, tudo envolto em um acirrado clima ideológico. A novidade, talvez requentada, são os depoimentos dos produtores do evento reconhecendo, descaradamente, o caráter mercadológico e pré-montado do evento. Isso faz, ou fez, diferença?

A primeira visão de todos nós, então meros tele-espectadores, é que se tratava de um ato político. Desde o início, das edições anteriores e, mesmo nas posteriores, entendia-se o espetáculo musical como um ato político. Isso se devia, largamente, a ambiência altamente politizada que a própria ditadura criara no país. Mas, devia-se, também, a hegemonia que pensadores como Bertolt Brecht ou Herbert Marcuse exerciam sobre a intelectualidade brasileira de então. Era um tempo em que a arte era vista como tarefa política. As conseqüências poderiam ser variadas e extremadas, como ocorreu na própria obra de Brecht. Ora produzíamos obras-primas, ora surgiam criações medíocres, com uma grandiloqüência vazia e pomposa.

O conjunto da produção cultural brasileira, em especial em São Paulo e Rio, vivia momentos de turbulência, ebulição e exuberância criativa. Eram focos de tal ebulição o CPC da UNE (Centro Popular de Cultura), as experiências do Arena (em São Paulo, entre 1953 e 1972 promoveu uma renovação profunda da dramaturgia brasileira, em especial com autores como José Renato Pécora, Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri) e do Grupo Opinião (este com uma linguagem múltipla, utilizando-se de canções e textos, usaram o palco como local de denuncias sociais, como o fizeram Zé Kéti, Nara Leão, Maria Betânia, Augusto Boal e Oduvaldo Vianna Filho); as montagens de José Celso Martinez e de Augusto Boal transformavam os palcos brasileiros em locais de experimentação, de critica e de contestação. Talvez resida aqui – e somente nisso! – uma das fragilidades do documentário de Terra & Calil: a ausência de um contexto histórico, fácil e rápido de construir, do clima político e cultural do Brasil naquele ano. Seria um suporte excelente, em especial para o público jovem do filme.

O ano de 1967:
Foi neste clima de exuberância cultural, mas nem sempre com tamanha riqueza, que se deram os festivais. O filme de Terra & Calil nos permite, pela primeira vez (em virtude das dificuldades da posse dos acervos), rever os momentos principais, ainda embebidos em forte emoção, do festival da Record. Mas, acima de tudo, permite-nos ver os bastidores - a montagem - do evento. Da mesma forma, o recurso às entrevistas que pontuam os episódios de época funciona como um contraponto e, às vezes, como uma avaliação crítica e autocrítica dos próprios atores/autores/produtores do fenômeno.

Um panorama, mesmo que rápido, mostrando que o ditador de plantão era o general Costa e Silva, que a guerrilha do Caparaó era duramente combatida e – isso é básico para entender a época, incluindo aí a história da produção cultural brasileira – que em 1967 entrava em vigor a terrível Lei de Segurança Nacional daria ao público (insisto!), em especial aos jovens, uma noção do que era, então, o Brasil. Tudo isso ocorria enquanto Che Guevara, com seu foquismo, era morto nas selvas da Bolívia.

Os principais responsáveis – a direção da TV Record e o produtor do evento – quase se divertem no filme, contando como “planejaram” todo o evento. Havia um pré-roteiro, onde deveriam constar “bandidos”, “mocinhos”, “bonitinhos” e “extravagantes malucos”. Tudo bem arranjado, tendo como rascunho um (então muito popular) espetáculo de tele catch (um vale tudo carnavalizado que atraia o público nas noites de sábado).

É aí que a coisa pega.
Não nos referimos aqui ao filme em si ou seu roteiro. Os diretores optaram por uma fórmula direta, linear e focada no próprio festival e nos seus atores/autores, com o contraponto das entrevistas. É uma formula certa – talvez um conceito pobre, mas com excelente resultado para o entendimento do público – uma opção correta para quem quer fazer história. E assim tornou-se uma narrativa mais histórica do que fílmica.
Deixemos assim a questão da construção da narrativa. O problema aqui é outro.

Trata-se em verdade de acreditar, e creditar, aos autores/produtores/atores, em especial aos produtores/diretores do evento uma capacidade unívoca de explicar o evento, agora já um fato histórico, um fenômeno da história cultural brasileira. Essa é uma questão maior para o historiador: até que ponto os atores históricos (e aqui atores/autores) no calor da hora, no olho do furacão, são capazes de perceber as implicações e, mesmo, a grandiosidade/banalidade de um fenômeno histórico no momento mesmo em que ele ocorre. E o contrário também é verdadeiro: quantas e quantas vezes já lemos e ouvimos, na mídia, o uso e o abuso da expressão “acontecimento histórico”, “fato histórico” e similares para inúmeros eventos do cotidiano que, pouco tempo de depois, serão vistos como simplesmente banais?

O que fica patente para um observador atento – e um espectador do filme com a um mínimo de percepção histórica - é a incapacidade destes autores/atores entenderem o processo no qual estavam envolvidos e que, de certo, foram eles mesmos os responsáveis. Aqueles homens – muito especialmente a direção da TV Record, o produtor esperto e os apresentadores subservientes (como na criação de uma máscara facial de horror artificial no momento em que Sérgio Ricardo quebra o violão e o joga sobre o público) e incrivelmente mal-informados (como no episódio de entrevista de Chico Buarque sobre o que seria “cultura pop”) são todos personagens muito aquém do seu papel naquele “evento histórico”.

Atores ou produtores da história?
A versão desconstrutivista dos produtores da TV Record é simples: todos estavam ali para produzir um valor de troca, um bem comercializável e de fácil venda. Isso é verdade, é real. Não entendiam o valor das canções, a transgressão de cânones – como no caso “Domingo no Parque”, de Gil, em especial na participação dos Mutantes ou no arranjo de Magro para “Roda Viva” e, principalmente, no ápice da transgressão: a participação dos Beat Boys na apresentação de “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso.

O que, principalmente, não entendiam aqueles homens era a autonomia da recepção do evento pela sociedade brasileira. Não perceberam a liberdade de apropriação múltipla do fenômeno histórico. Também não entendiam as possibilidades múltiplas, várias, de recepção e apropriação pelo público – não o público local, transformado voluntariamente em massa de manobra da produção de valor da empresa/emissora Record. Produziram uma obra maior do que eles mesmos.

Tais produtores, jornalistas e os entrevistadores/apresentadores responsáveis pelo festival (alguns com uma história posterior de colaboração e espionagem para a ditadura) entendiam o alcance do processo em curso? Pior ainda: os que deram entrevistas aos diretores do filme, hoje, conseguiram entender tudo aquilo que se passou naquela noite? A resposta é não. Décadas depois continuaram sem entender nada. Continuaram o que eram: menores que suas ações.

Não conseguiram perceber que aquele evento transcendia os esquemas montados – o clima de tele catch propositadamente copiado – e que rapidamente envolvia-se no clima político e artístico do país. Era, em verdade, um caso clássico do feitiço que se revolta contra o feiticeiro, torna-se autônomo e engole o seu criador. Que nada disso fosse percebido no momento pode-se entender – embora sempre fique certa perplexidade.

Mas, isso ocorre: a história pode ser maior que seus atores. O que surpreende, no caso dos produtores do festival, é sua insistência em entender o fenômeno como um, truque, uma simples manipulação ou mero recurso mercadológico. Estes homens não entenderam nada no calor da hora. E continuaram sem entender nada mais de trinta anos depois!

O Caso Sérgio Ricardo:
Não é gratuito que a direção do festival, tal qual o governo militar vigente no país, tenha “cassado” Sérgio Ricardo (“desclassificado”) por comportamento indevido (“baderna”?) depois que o cantor/compositor, massacrado pela vaia ampliada pela produção, quebrou o violão e o jogou sobre o público ululante.

A explicação dada pelos mesmos de que tudo era “arranjado”, que havia um modelito mercadológico e o que se fazia ali era “música de festival” é tudo isso, de uma pobreza colossal. Chico Buarque, escolhido para ser o “mocinho” (vestido de terno e gravata e reduzido ao “conservadorismo” pela rebeldia “Mutante”) recusaria o papel: “- eu era a “mocinha”!

Desde o início o processo escapou aos seus autores/atores e tornou-se parte da história cultural do país, marco artístico e parte da história da resistência cultural do país na época da ditadura. Tudo isso com e sem a intenção dos “magos” que deram seus depoimentos no filme. Talvez o exemplo mais cabal da desinteligência dos autores do espetáculo seja o episódio protagonizado por Sérgio Ricardo. A ignorância do valor artístico das produções ali presentes se cristaliza quando o produtor da TV fala em “canções de festival”. A classificação da canção de Sérgio Ricardo como não sendo “música de festival” como causa da “revolta” da platéia é muito fraca.

O contrário seria que o marco artístico brasileiro “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, ou a criação-rompimento “Alegria, Alegria”, de Caetano, eram canções de festival?

Na verdade tais “produtores” não entendem, não aprofundam e não analisam a decepção – injusta e autoritária – da platéia do Teatro Paramount (local do evento) com “Beto bom de bola”. Tratava-se de uma canção difícil – como tudo composto por Sérgio Ricardo – e com um arranjo talvez inadequado. Contudo, “Beto bom de bola” era tudo, menos uma canção escapista ou desengajada. Sérgio Ricardo lançava-se numa crítica dura, impiedosa ao dia-a-dia do futebol brasileiro, desconstruía o mito da ascensão social através dos esportes, denunciava a máfia dos cartolas... Pena, muita pena mesmo, que a platéia – ansiosa pelo óbvio – nada tenha entendido.

Foi algo semelhante, pouco tempo depois, com o duelo entre “Sabiá”, de Tom e Chico Buarque, e “Para dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré no III Festival Internacional da Canção, da TV GLOBO, em 1968. Com Vandré tínhamos uma marcha, melodiosa é verdade, mas comum e com uma poesia (a então chamada “letra”) dura e óbvia, uma clara critica aos militares e seus ideais de caserna. Já “Sabiá”, toda bordada em sutilezas, fazia citações de Bach até Gonçalves Dias, para falar de uma nova realidade brasileira: o exílio. Tema altamente politizado, mas tratado com sutileza, com imaginação, e cheio de referencias à própria história do Brasil. Mais uma vez a platéia não entendeu, optou pelo fácil e vaiou Tom Jobim e Chico Buarque de Holanda ( nas vozes virtuosas de Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy ). Mas, na ocasião, o júri não foi “cassado” e o preterido – o sensível Geraldo Vandré – entendeu o valor de “Sabiá” e defendeu a concorrente.

A mais acachapante prova de desinteligência da história, que os “magos” do festival auto-atestam, é a explicação do “sumiço” de Sérgio Ricardo em virtude de sua atitude no festival. Nem Sérgio Ricardo sumiu e nem foi em virtude da “violada no público”. Sérgio Ricardo continuou uma brilhante carreia. Uma carreira que não foi nunca, nem antes e nem depois do festival, uma carreira de mega-star. Tratava-se sempre de um artista introspectivo, capaz de escolhas difíceis e de um fluxo de criação intenso e variado – como cinema e teatro, ao lado da música. São provas disso a parceria com Gianfrancesco Guarnieri ou Glauber Rocha e sucessos poéticos como “Ponto de partida” e o importante LP “Calabouço” (inspirado na morte do estudante Edson Luis) ou Tocaia (dedicada a Lamarca).

O pretenso sumiço de Sérgio Ricardo – se isso quer dizer seu afastamento da showbizz deveu-se claramente a censura e a perseguição política movida pelo regime militar contra o artista. É assustador que tais produtores culturais não saibam nada mais da carreira de Sérgio do que a violada no teatro...

Os que viveram com a história:
Sem dúvida os tais produtores esforçaram-se, no filme, para parecerem demiurgos, criadores a partir do nada, autores da história em toda sua extensão. Contudo, o esforço foi vão. O resultado foi apenas apequenar a própria história e suas biografias. Outros autores/atores presentes no filme, como os compositores Caetano Veloso, Chico Buarque e o próprio Sergio Ricardo tiveram mais agudeza, capacidade de contextualização, e puseram os temas em perspectiva histórica, num grande ganho para os espectadores. Outros como Gilberto Gil e Roberto Carlos nem tanto, mas por motivos diferentes. Gil mostrou-se exagerado, por demais interessados em explicar tudo, como se tudo já estivesse pronto em sua cabeça, num movimento exatamente oposto aquele dos produtores. Gil já sabia que se fazia uma revolução, queria a revolução estética e cada passo era um passo em direção ao futuro. Talvez fosse assim, mas só talvez... O que, por sua vez, produz constrangimento quando em seu depoimento no filme Gil tenta explicar a sua participação na divertida, equivocada e autoritária passeata contra as guitarras na música brasileira. Repassar toda a culpa pelo tremendo equívoco de organizar uma passeata para este propósito na ciclorítmica Elis Regina é, no mínimo, triste.

Já Roberto Carlos era... bem Roberto Carlos. Divertido, sincero e amigo de todos. A canção por ele defendida – um samba contido, triste e socialmente engajado chamado “Maria, carnaval e cinzas” – não era de sua autoria (era de Luiz Carlos Paraná) e fora entregue como tarefa ao artista pela emissora Record. Mas, sua interpretação foi sensível, íntima e verdadeira. Roberto deveria regravá-lo. Para nossa tristeza é um tema ainda atual...

Chico Buarque – por humildade (ou será sua famosa e auto-proclamada timidez) – procura banalizar as condições existentes, reafirma a necessidade da ação artística como mudança e resistência, mas sem profetizar o futuro como Gil. Já Caetano Veloso é o único que produz uma análise simultaneamente contextualizada e comedida (o que sempre é uma surpresa em se tratando de Caetano) do movimento/acontecimento.

Caetano é humilde, claro, amigo. Indica Gil como um teórico do rompimento, da desconstrução. Atribui a uma vasta fauna de amigos e colegas papéis inovadores, transformadores, mesmo quando sabemos que Caetano era ele mesmo, a transformação, o novo. Chico sabia disso, sentiu isso e afirma muito sincero, ter ficado “conservador” em face ao que os baianos faziam.

De qualquer forma o acontecimento (o festival) e o documento (o filme) nos permitem algumas conclusões provisórias: o querer dos atores/autores é menor que o fenômeno e ambos são muito menores que a apropriação que a sociedade brasileira fez do próprio fenômeno. O festival, os festivais, transbordaram para além da receita e da previsão, tacanha, de seus criadores. A razão para isso reside, muito claramente, na galáxia de talentos ali reunidos: Gil, Caetano, Chico, Sérgio Ricardo, os Mutantes, Edu Lobo, Roberto Carlos, Marília Medalha – todos se tornariam parte da história cultural do país. E naquele momento parte da resistência política do país.

Canção e resistência:
A apropriação/recepção do fenômeno dos festivais foi múltipla, para além do fenômeno mercadológico, origem de tudo. Houve uma apropriação imediata pelo auditório, uma platéia/ator, largamente criada pela produção – e aí reside o aspecto tele catch do fenômeno festivais, Tratava-se de uma platéia autoritária, tocada pelo desejo do imediato e do banal, compreensível de imediato, sem qualquer apelo ao imaginário (prova disso foi a não classificação da lindíssima canção de Sidney Miller “Estrada e o Violeiro”, defendida por Nara Leão). Deu-se, também, a apropriação pelo público televisivo – um fenômeno novo, que pouco entenderam ao tempo, exceto talvez Caetano, um mago em usar a TV e o próprio Gil, como diria mais tarde em “Aquele Abraço!”. Houve ainda uma apropriação política, pela oposição à ditadura, que escolheu hinos, slogans e posturas inspiradas nas canções. Foi assim com “Roda Viva” , de Chico Buarque, que tão simplesmente existencial, tornou-se ação e recusa; foi assim com “Ponteio”, de Edu Lobo... mas, “Ponteio” era isso mesmo, denúncia e recusa... Mas, não foi assim com “Domingo no Parque”, de Gil, revolucionária nas suas guitarras (com os Mutantes), na sua poesia e na sua estrutura de narrativa concreta. Isso era o melhor de Gil.

Foi também apropriado – o fenômeno festival – pela ditadura. Numa absurda dialética a ditadura entendeu os festivais da mesma forma que a esquerda o entendeu: como arma política. Por fim, o festival foi apropriado, recebido e entendido por toda uma geração como memória, memória de um tempo de guerra. Memória-combativa, memória heroicizada de uma geração – da maior parte das pessoas que estavam no cinema quando eu mesmo assisti ao filme. Pessoas que cantaram as canções ainda uma vez, que aplaudiram os depoimentos e que comentavam o aparecimento de cada um dos artistas na tela.

O filme de Terra & Calil nos permite, assim, uma série de considerações sobre a história, sobre a MPB e sobre o próprio cinema. Fica patente, desde o inicio, que os autores/atores históricos poucas vezes se libertam do seu próprio tempo presente para compreender a dimensão dos acontecimentos em que são eles mesmos, protagonistas.

Para muitos, em especial “técnicos” em comunicação, história ou ciências políticas cabe a tarefa de desconstruir o próprio fenômeno dos festivais. Ora trata-se de estratégia de marketing pessoal e acadêmico, visando causar escândalo, escandir o politicamente incorreto. A ênfase reside sempre num recurso torto ao filósofo Theodor Adorno e ao conceito de indústria cultural, como se tudo fosse mercadoria. E pior: permanece mercadoria, mesmo depois de sua apropriação múltipla pela sociedade. O fenômeno – o que mais nos interessa – da recepção pela sociedade e da apropriação múltipla dos festivais não é considerado. Ora centralizam toda a análise na demonstração – real, concreta – que o fenômeno anti-autoritário era largamente autoritário. Mas, também aqui, as apropriações múltiplas, e, portanto abertas e democráticas, escapam ao analista.

O grande mérito, para além dos 100 deliciosos minutos de entretenimento, do filme de Calil &Terra é, por isso mesmo, permitir tantas leituras de um só fenômeno: os festivais.

Francisco Carlos Teixeira é professor Titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Fonte: Agência Carta Maior

Da atratividade dos salários dos professores da rede pública no Brasil




Livro mostra que meios de produção do país pertencem a 6% da população

Os meios de produção de riqueza do país estão concentrados nas mãos de 6% dos brasileiros. É uma das conclusões apresentadas no livro Proprietários: Concentração e Continuidade lançado em 2 de abril de 2009, na sede do Conselho Regional de Economia (Corecon), em São Paulo.

A publicação é o terceiro volume da série Atlas da Nova Estratificação Social do Brasil, produzida por Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e vários economistas do órgão. Do livro, consta um levantamento que revela que, de cada 20 brasileiros, apenas um é dono de alguma propriedade geradora de renda: empresa, imóvel, propriedade rural ou até mesmo conhecimento - também considerado um bem pelos pesquisadores.

Em entrevista coletiva organizada para o lançamento do livro, Pochmann afirmou que a concentração das propriedades no Brasil é antiga e remete aos tempo da colonização. Desde a concessão das primeiras propriedades agrícolas, passando pela industrialização ocorrida no século 20, até o aumento da atividade financeira, os meios de produção sempre estiveram sob controle da mesma e restrita parcela da população nacional.

"A urbanização aumentou o número de propriedades e de proprietários, mas não acompanhou o aumento da população. A concentração permanece. Nós [brasileiros] nunca vivemos uma experiência de democratização do acesso às propriedades no nosso país", disse.

De acordo com o livro, os proprietários brasileiros têm um perfil específico comum. A grande maioria tem entre 30 e 50 anos de idade, é de cor branca, concluiu o ensino superior, e não tem sócios.

Para Pochmann, o quadro da distribuição das propriedades brasileira é grave. O Brasil tem seus meios produção de riqueza mais mal distribuídos entre os países da América Latina, por exemplo. E isso não deve mudar em um curto prazo, segundo o economista.

"Estamos fazendo reforma agrária desde os anos 50 e nossa distribuição fundiária é pior do que a de 50 anos atrás; nossa carga tributária onera os mais pobres; a única coisa que vai bem é a educação", afirmou ele, citando dados que apontam que o percentual dos jovens que frequenta a universidade passou de 5,6%, em 1995, para cerca de 12%, em 2007.

Pochmann disse, porém que mesmo com o aumento dos índices da educação, ele ainda está muito aquém do encontrado na Europa, onde 40% dos jovens têm diploma universitário. Ressaltou também que a mudança da distribuição das propriedades por meio da educação é a forma mais lenta de justiça.

Agência Brasil, 3 de abril de 2009

Fonte:http://www.oeconomista.com.br/livro-mostra-que-meios-de-producao-do-pais-pertencem-a-6-da-populacao/

domingo, 22 de agosto de 2010

Manipulação midiática

O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das "10 estratégias de manipulação" através da mídia:

1- A estratégia da distração

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')".

2- Criar problemas, depois oferecer soluções

Este método também é chamado "problema-reação-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A estratégia da degradação

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A estratégia do deferido

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- Dirigir-se ao público como a crianças de pouca idade

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranqüilas")".

6- Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos...

7- Manter o público na ignorância e na mediocridade

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')".

8- Estimular o público a ser complacente na mediocridade

Estimular o público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto...

9- Reforçar a revolta pela autoculpabilidade

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- Conhecer melhor os indivíduos do que eles mesmos se conhecem

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

29 JULHO 2010

Fonte: http://www.chomsky.info/

Sou revolucionário

"Sou revolucionário. [...] O campo com o qual jamais me entenderei é [...] o do reformismo medíocre, o do socialismo domesticado, o da democracia farisaica. Além do mais, se a revolução exige violência, autoridade, disciplina, estou a favor da violência, da autoridade, da disciplina - aceito-as em bloco, com todos os seus horrores, sem reservas covardes"


(José Carlos Mariátegui - 1894/1930)

sábado, 21 de agosto de 2010

Luta de classes na Bienal

Estimativas de editoras maiores, como Companhia das Letras e Zahar, já apontam aumento significativo do número de títulos adquiridos na Bienal do Livro de SP. Mas aquelas com menor estrutura e poder de fogo, reunidas em torno da Libre (Liga Brasileira de Editoras), acabam de divulgar carta de propostas para setor em que reivindicam medidas como política de preço único, desconto para os "long-sellers" (livros de caráter menos comercial), isenção de IPTU e linhas especiais de crédito para a área. Mas talvez as propostas que prometem mais barulho sejam a exigência de cotas mínimas para editoras pequenas e médias em compras governamentais e a limitar empresas de capital estrangeiro no setor.
Fonte: Folha de São Paulo, 21/08/2010.

Leia a íntegra da carta da Liga Brasileira de Editoras
Carta aberta aos futuros Deputados, Senadores, Governadores. E ao futuro Presidente da República.

Prezados Senhores:

Esta carta expressa a posição dos editores independentes brasileiros, organizados em torno da Liga Brasileira de Editoras.

"Dentro do catálogo das nossas editoras, temos alguns livros bastante conhecidos, os que normalmente são chamados pelos jornais de best-sellers. Não nos afirmamos, porém, por meio deles. Nossa contribuição está na diversidade, e é com a arma da Bibliodiversidade que enfrentamos as mais difíceis condições que o mercado nos impõe.

O mercado do livro passa no momento por uma profunda transformação, impulsionado pelo próprio movimento do capital, mas também pelas novas tecnologias, que ameaça essa Bibliodiversidade. Por isso, acreditamos que, num país cada vez mais educado e com novos potenciais de desenvolvimento, é nosso dever apontar caminhos a trilhar para a manutenção, a sobrevivência e, especialmente, a democratização do conhecimento e da arte que dependem dessa Bibliodiversidade.

A cadeia do livro é parte fundamental deste processo. E engloba não apenas os autores, os produtores (editores, tradutores, revisores, designers e ilustradores, entre tantas outras profissões), como também os distribuidores e livreiros.

É uma cadeia complexa e desigual, em que pequenos produtores competem inclusive com multinacionais ligadas a grandes grupos econômicos --que, pelo porte, estrutura e necessidade de altas margens de lucro, pressionam pela pasteurização da cultura.

Diante disso, a Libre defende que o futuro governo, a ser empossado em 1º de janeiro de 2011, deve atuar firmemente na direção de incentivar a Bibliodiversidade por meio da edição independente, o que se traduz em:

a) Uma nova regulação do mercado editorial e livreiro, com a adoção de medidas que protejam e incentivem a abertura, o fortalecimento e a profissionalização de pequenas editoras e, especialmente, pequenas livrarias pelo país.

b) Estabelecimento de cotas mínimas para pequenas e médias editoras em todas as compras governamentais de livros, que devem ser pautadas pela qualidade e avaliação justa das obras. A mais recente compra de livro do Programa Nacional Biblioteca na Escola ilustra como o governo tem dificuldades para comprar das editoras independentes. Num mercado com centenas, talvez milhares de empresas, oito grupos ficaram com 54% dos títulos selecionados, muitas vezes engordando suas cotas utilizando-se de empresas de fachada.

c) Fortalecimento da rede de bibliotecas públicas, que devem ter verbas suficientes para a manutenção de uma política de compra, atualização e manutenção de seus acervos, seguindo os critérios de cotas e respeitando as características culturais regionais. O governo também deve fazer cumprir as regras relativas à existência e manutenção de bibliotecas em escolas e faculdades particulares, que devem ser abertas também ao público em geral. Bibliotecas públicas e privadas são bens públicos.

d) Preço único do livro e desconto justo em todos os níveis da cadeia. A Libre defende a adoção da política de preço único e de desconto justo como garantia de sobrevivência das pequenas e médias livrarias, sem as quais se torna inviável a distribuição dos long-sellers, os livros de fundo de catálogo, os livros que não tem prazo de validade e que dão lastro a nossa cultura.

e) Políticas agressivas de marketing, não apenas das grandes redes de livraria, mas inclusive de outros setores da economia (como bandeiras de cartão de crédito), têm atuado fortemente no setor de livros estabelecendo uma concorrência desleal entre grandes e pequenos livreiros e entre grandes e pequenos editores, o que a médio prazo destrói a cadeia do livro e, portanto, a Bibliodiversidade. Para que fique bem claro: quando os pequenos editores têm de negociar com as grandes cadeias, os descontos finais ao consumidor se traduzem em preços não viáveis para as pequenas editoras e, também, para as pequenas livrarias. Por isso o preço único, neste setor da economia, em que a concorrência se dá entre produtos que são em essência diferentes entre si, tende a favorecer a redução do preço final do livro e a concorrência, e não o contrário.

f) Permitir o consumo de livros em livrarias com o Vale Cultura.

g) Nacionalizar a isenção de Imposto Predial Territorial Urbano para livrarias e editoras.

h) Dar garantias de que a nova Lei de Direitos Autorais, que precisa ser revista e está em debate conduzido pelo MinC, não implique a excessiva liberalidade do conceito "fins didáticos" para a autorização de uso de reproduções nas escolas e universidade. A nova lei deve, ao contrário, proteger os direitos de autores e editores contra a indústria da apostila, que banaliza o conhecimento e afasta os estudantes do livro e da leitura aprofundada e produtiva. A Libre acredita que tanto o MinC quanto o MEC devem lutar pela progressiva eliminação da apostila como instrumento de ensino, priorizando o livro sempre.

i) O governo deve tomar para si a responsabilidade de controlar a prática da reprografia que não paga direitos autorais a escritores e editoras, evitando, no entanto, a repetição do modelo Ecad. Esse controle passa pela ação direta sobre os "xérox", sem a criminalização do estudante, mas, principalmente, pelo cumprimento das normas relativas à existência, manutenção e atualização das bibliotecas em escolas e universidades, públicas e particulares.

j) Estabelecimento de um limite para a atuação de empresas de capital estrangeiro no setor, como já ocorre com a imprensa.

k) Adoção de linhas de crédito especiais para pequenas e médias editoras e livrarias, que aceitem o acervo de livros como garantia. O crédito deve estar acessível para produção, equipamentos, projetos e capital de giro.

l) Adoção de tarifas especiais pelos Correios para o transporte de livros, visando a baratear a distribuição dos mesmos por todo o território nacional.

m) Criação urgente e imediata de uma Câmara do Livro Digital, com participação de todos os segmentos ligados à cadeia do livro, do governo e de representantes das universidades públicas, para a discussão e implementação de uma política unificada para o setor, de modo a garantir que as mudanças em curso não resultem na morte das pequenas e médias empresas do setor do livro, que, como já dissemos, são a garantia da Bibliodiversidade, nas mais diversas formas que o texto escrito pode assumir.

n) Uma nova Câmara do Livro Digital terá de enfrentar enormes desafios: o poder econômico dos produtores dos leitores digitais de livros (e-readers), a proteção dos direitos de autor, o controle da reprodução indiscriminada dos textos e edições, o papel das livrarias nesse 'novo mundo', entre tantos outros temas.

Confirmadas as tendências de crescimento econômico e do aumento da relevância política do país no cenário internacional, a produção da cadeia do livro deve ser tomada como uma prioridade de governo e Estado, pois seu papel será estruturante na consolidação dos grandes projetos nacionais.

A Libre se coloca à disposição para discutir e aprofundar estas questões, certa de que o país deve caminhar para a difusão e democratização do conhecimento, e não o fará sem o fortalecimento das editoras independentes nacionais."

São Paulo, 19 de agosto de 2010.

Cristina Warth, Presidente da Liga Brasileira de Editoras

Eliana Sá, Vice-presidente da Liga Brasileira de Editoras

Hiroshima e o nascimento do terrorismo de Estado

Não é exagerado afirmar que a história do terrorismo de Estado começa com o bombardeio nuclear dos Estados Unidos ao Japão
Atilio Borón

No dia 6, completou-se 65 anos do ataque nuclear dos Estados à cidade Hiroshima no Japão, uma monstruosidade que se repetiu três dias depois com a outra bomba atômica sobre Nagasaki.

Em uma primeira contagem as duas explosões mataram cerca de 220 mil pessoas, 140 mil em Hiroshima e 80 mil em Nagasaki. A esmagadora maioria de vítimas era civil, já que essas cidades não abrigavam contingentes militares importantes, sendo que a metade morreu imediatamente, no dia do atentado.

Em sua edição do dia 6, ao se dar conta do aniversário do ataque, o New York Times diz que as vítimas morreram instantaneamente devido à excepcional intensidade da explosão que reduziu às cinzas as edificações da cidade e os corpos de seus habitantes foram literalmente vaporizados, deixando apenas vestígios fantasmas e sombras sobre as poucas paredes ainda de pé.

O restante da citada população faleceu ao longo do tempo devido a queimaduras horríveis e aos efeitos da radiação, ou seja, condenados a uma lenta e dolorosa agonia. O registro atual dos mortos nos dois atentados, fornecidos em 2008, teve um quantitativo de 400 mil pessoas e é muito provável que este número suba ligeiramente nos próximos anos. Até hoje, os acontecimentos de Hiroshima e Nagasaki são considerados os únicos ataques nucleares da história, mas a proliferação de armas desse tipo pode repetir esta experiência trágica. Na verdade, a frota naval estadunidense-israelense que navega pelo estreito de Hormuz está pronta para atacar o Irã e é composta por um formidável arsenal nuclear.

Recentemente, o comandante Fidel Castro advertiu sobre o risco de um holocausto nuclear e advertiu o presidente Barack Obama sobre isso, já que sua ordem de ataque teria um ponto de não retorno, desencadeando assim um conflito internacional com projeções incalculáveis e sombrias. Por outro lado, existem motivos razoáveis para supor que as sete bases militares da Colômbia que Álvaro Uribe disponibilizou aos Estados Unidos também podem contar com armas nucleares. Será necessário que uma delegação da União de Nações Sul-Americanas (Unasur) inspecione essas bases.

Não é exagero dizer que a história do terrorismo de Estado começou com o ataque nuclear estadunidense sobre o Japão. Se o assunto é armas de destruição em massa, os Estados Unidos levam uma salva de palmas, sem competidor à vista. Seu bombardeio às duas cidades indefesas constitui, sem dúvida, o mais grave e selvagem atentado terrorista da história da humanidade. Esse fato não impede, entretanto, que os sucessivos governos desse país se sintam com a autoridade moral para acusar e condenar muitos países – como Cuba e Venezuela – por “fomentar o terrorismo”; também não lhes traz nenhum dilema ético o fato de que eles dão abrigo dentro de suas fronteiras a Luis Posada Carriles, terrorista comprovado e confesso, e muitos de seus comparsas, enquanto mantém em prisões de segurança máxima os cinco heróis cubanos que lutavam contra o terrorismo e procuravam desbaratar suas sinistras maquinações.

A comemoração realizada em Hiroshima no dia 7 de agosto tinha um ingrediente especial: foi a primeira vez que um embaixador dos Estados Unidos participou de um evento deste tipo. Mesmo assim esse cidadão não mostrou nenhum sinal de arrependimento e sim apenas soberba e desprezo pelo sofrimento alheio. Os diplomatas, funcionários e autoridades dos Estados Unidos tradicionalmente têm evitado participar nessas cerimônias por medo que sua presença possa reacender o debate sobre o pedido de desculpas que Washington deverá fazer por seu monstruoso crime. O que não fez em relação ao Vietnã, país cujo território foi devastado após onze anos de massacres que custaram cerca de três milhões de vítimas, civis em sua grande maioria. E muito menos em relação aos sandinistas da Nicarágua na década de 80, ou ao meio século de agressão e sabotagem contra Cuba. O imperialismo é assim e será inútil esperar por mudanças.

Para justificar a sua brutal agressão, Washington diz que o bombardeio atômico poupou milhares de vidas de soldados estadunidense e japoneses que morreriam caso a invasão ao Japão ocorresse. No entanto, muitas pessoas, mesmo nos Estados Unidos, afirmam que jogar a bomba em alguma ilha deserta no Pacífico criaria o mesmo efeito de dissuasão sobre o alto comando japonês e que, portanto, decidir lançar sobre Hiroshima e Nagasaki foi um ato de crueldade desumana e conscientemente assumida.

Durante a cerimônia, os manifestantes exigiram que os Estados Unidos pedissem perdão ao Japão, que retirassem as suas bases militares do país asiático, exigência diante da qual os EUA se fazem de surdos. Vale a pena recordar uma declaração de Albert Einstein em relação aos perigos de uma nova conflagração nuclear: "Se a 3ª Guerra Mundial acontecer com o uso de bombas atômicas, na futura 4ª Guerra Mundial os exércitos lutarão com marretas”.

(Blog do Atílio Boron – http://www.atilioboron.com/)

Atilio Boron é diretor do Programa Latino-americano de Educação à Distância em Ciências Sociais, em Buenos Aires (Argentina).

Tradução: Jacob David Blinder
Fonte: Jornal Brasil de Fato

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A origem das guerras


UM INTELECTUAL QUE NUNCA DESERTOU DA LUTA PELA INTELIGÊNCIA NEM MERCADEJOU CONVICÇÕES

Carta de Florestan Fernandes para o Tenente Coronel Bernardo Schomam, D.D. Presidente do I.P.M. na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.São Paulo, 9 de setembro de 1964

Senhor Tenente-Coronel:

Há quase 20 anos venho dando o melhor do meu esforço para ajudar a construir em São Paulo um núcleo de estudos universitários digno desse nome. Por grandes que sejam minhas falhas e por pequena que tenha sido minha contribuição individual, esse objetivo constitui o principal alvo de minha vida, dando sentido às minhas atividades como professor, como pesquisador e como cientista. Por isso, foi com indisfarçável desencanto e com indignação que vi as escolas e os institutos da Universidade de São Paulo serem incluídos na rede de investigação sumária, de caráter "policial-militar", que visa a apurar os antros de corrupção e os centros de agitação subversiva no seio dos serviços públicos mantidos pelo Governo Estadual.
Não somos um bando de malfeitores. Nem a ética universitária nos permitiria converter o ensino em fonte de pregação político-partidária. Os que exploram meios ilícitos de enriquecimento e de aumento de poder afastam-se cuidadosa e sabidamente da área do ensino (especialmente do ensino superior). Em nosso país o ensino só fornece ônus e pesados encargos, oferecendo escassos atrativos mesmo para os honestos, quanto mais para os que manipulam a corrupção como um estilo de vida. Doutro lado, quem pretendesse devotar-se à agitação político-partidária seria desavisado se se cingisse às limitações insanáveis que as relações pedagógicas impõem ao intercâmbio das gerações.
Vendo as coisas desse ângulo (e não me parece que exista outro diverso), recebi a convocação para ser inquerido "policial-militarmente" como uma injúria, que afronta a um tempo o espírito de trabalho universitário e a mentalidade científica, afetando-se, portanto, tanto pessoalmente, quanto na minha condição de membro do corpo de docentes e investigadores da Universidade de São Paulo. Foi com melancólica surpresa que vislumbrei a indiferença da alta administração universitária diante dessa investigação que estabelece uma nova tutela sobre a nossa atividade intelectual. Possuímos critérios próprios para a seleção e a promoção de pessoal docente e de pesquisa. Atente Vossa Senhoria para as seguintes indicações que extraio da minha experiência pessoal e que ilustram um caso entre muitos. Formado entre 1943-1944, obtive meu grau de mestre em Ciência Sociais em 1947, com um trabalho de 328 pp. (em composição tipográfica) / o grau de doutor, em 1951 com um estudo de 419 pp. (também em composição tipográfica) / o título de livre-docente, em 1953, com um ensaio de 145 pp. (idem) / e, somente agora, acho-me em condições de me aventurar ao passo decisivo, o concurso de cátedra com uma monografia de 743 pp. (idem). Nesse ínterim, trabalhei como assistente depois de 1955. Outros colegas, que militam em setores onde a competição costuma ser mais árdua, enfrentam crivos ainda mais duros para a realização de suas carreiras. Isso evidencia, por si só, que dispomos de padrões próprios - a um tempo: adequados, altamente seletivos e exigentes, para forjar mecanismos
auto-suficientes de organização e supervisão.
Não obstante, acato as determinações, que não estão a meu alcance modificar. Por quê? Por uma razão muito simples. Nada tenho a ocultar ou a temer; entendo que seria improdutivo enfrentar de outra forma tal vicissitude. A nossa Escola, por ser inovadora e por ter contribuído de maneira poderosa para a renovação dos hábitos intelectuais e mentais imperantes no Brasil, foi vítima de um processo de estigmatização que muito nos tem prejudicado, direta e indiretamente. Não podendo destruir-nos, os agentes da estagnação cultural optaram pela difamação gratuita e pela detratação sistemática. Ambas não impediram que a nossa Escola avançasse, até atingir sua situação atual, ímpar no cenário cultural latino-americano. Conseguimos sobreviver e vencer, apesar dessa resistência tortuosa e dos seus efeitos nocivos. Cada professor que desse, nas atuais circunstâncias, vazão aos seus sentimentos e convicções pessoais, recusando-se a submeter-se ao inquérito policial militar estaria favorecendo, iniludivelmente, esse terrível jogo, para o desdouro final da nossa Escola.
Ao aceitar, pois, a posição a que me vi reduzido, faço-o sob plena consciência de deveres intelectuais maiores, a que não posso fugir ou desmerecer. Todavia, esse procedimento não envolve transigência ou omissão. Como no passado, continuo e continuarei fiel às mesmas normas que sempre orientaram o meu labor intelectual, como professor, como pesquisador e como cientista. Não existem dois caminhos na vida universitária e na investigação científica. A liberdade intelectual, a objetividade e o amor à verdade resumem os apanágios do universitário e do homem de ciência autênticos. Estamos permanentemente empenhados numa luta sem fim pelo aperfeiçoamento incessante da natureza humana, da civilização e da sociedade, o que nos leva a perquirir as formas mais eficientes para aumentar a capacidade de conhecimento do homem e para elevar sua faculdade de agir com crescente autonomia moral. Não desertei e nem desertarei dessa luta, a única que confere à Universidade de São Paulo, grandeza real, como agente de um processo histórico que tende a incluir o Brasil entre as nações democráticas de nossa era.
Aproveito o ensejo para subscrever-me, atenciosamente,

Dr. Florestan Fernandes

Exmo. Senhor Coronel
Bernardo Schomam
D.D. Presidente do I.P.M. na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
Universidade de São Paulo

Anita Prestes nos 15 anos de luta do MST de Mato Grosso

Matéria do Sindicato dos Professores de Mato Grosso


MST é exemplo de organização, diz ANITA
Keka Werneck

Anita Prestes vem a MT e diz que MST é maior movimento organizado de trabalhadores do mundo

Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa da ADUFMAT


“O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) é a maior organização popular do Brasil, da América Latina e do mundo”, afirmou Anita Prestes, filha da revolucionária Olga Benário e de Luiz Carlos Prestes, em palestra que marcou os 15 anos do MST em Mato Grosso, dia 14 de agosto.
No dia 14 de agosto de 1995, o MST fazia a primeira ocupação em Mato Grosso, na fazenda Aliança, município de Pedra Preta, Sul do Estado, coração do agronegócio à época. Entraram 1.100 família, entre homens, mulheres e crianças. Em 1996, saíram os primeiros dez assentamentos, entre eles o 14 de agosto, o 28 de outubro, Antônio Conselheiro, Ernesto Che Guevara e Chico Mendes.
“Sinto-me honrada por este convite. E digo que estou sempre ao lado daqueles que, como o MST, lutam por uma outra sociedade”, disse Anita, que, após a palestra sobre “A Formação de Quadros para a atual Conjuntura”, descerrou a placa fundadora do Centro de Formação Política e Pesquisa Olga Benário, onde foi realizada uma programação de dois dias. “Essa escola revela que o MST está tendo a preocupação de preservar e dar continuidade à luta dos revolucionários que, como minha mãe, tombaram pela causa. Não é possível construir o futuro, sem levar em conta todas as lutas do passado”.
Anita Prestes, que é professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que também leciona na Escola Florestan Fernandes, reforçou que o caminho desta luta é, de fato, rumo ao socialismo e desejou ao Movimento “sucesso”.
João Paulo, da coordenação nacional do MST, se dirigiu à Anita, afirmando que esse Centro é espaço para a propagação da agroecologia, das boas músicas e da cultura popular, das reflexões sobre as práticas políticas e o legado de revolucionários, como Olga Benário e Luiz Carlos Prestes.
A programação dos 15 anos do MST em MT, começou no dia 13, pela manhã, com um ato político. Lideranças sindicais e de movimentos sociais, além de parlamentares e secretários de Estado, estiveram presentes, para prestar apoio ao Movimento.
Durante o ato, Solange Serafim, da coordenação estadual do Movimento, lembrou que “o MST de MT é um grupo de homens e mulheres, que ousaram enfrentar a força do latifúndio”.
Muitos dos presentes se emocionaram com as místicas e as memórias que foram sendo trazidas a todo momento à programação.
Em nome dos camaradas que morreram na luta pela terra e das 4.272 famílias do MST assentadas em Mato Grosso, além das 2.500 que ainda estão acampadas, Antônio Carneiro, da coordenação estadual do Movimento, reconheceu o espírito de luta de todos os presentes e destacou que a batalha aqui é ferrenha. “Estamos no segundo estado em concentração terras, segundo em trabalho escravo, campeão em uso de venenos agrícolas e onde vivem 100 mil famílias sem-terra, conforme dados do IBGE-2006. Diante disso, o MST é apenas uma pequenina parte desta grande luta e vamos precisar de aliados, do campo e da cidade, se quisermos conquistar uma sociedade mais justa, contra o capital e contra este Estado, que só defende os interesses do poder que já está aí”.
Carneiro disse ainda que o MST vai continuar lutando contra “os parasitas do agronegócio, nem que isso ainda custe muito sacrifício”.
Professores da UFMT estiveram presentes na festa, entre eles Dorival Gonçalves, Alair Silveira e Roberto Boaventura . Anita Prestes ficou hospedada na casa do professor Carlos Roberto Sanches, que participou de toda a atividade.
Os cantores, compositores e violeiros Pereira da Viola e Zé Geraldo fizeram shows na sexta e no sábado para um público animado.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Democracia ou plutocracia?

Hideyo Saito (*)

Consta que, questionado por um repórter da Folha de S. Paulo se considerava o regime cubano democrático, o presidente do PT, Eduardo Dutra, teria respondido negativamente. Se assim aconteceu, o dirigente petista deu como certo que a sua concepção de democracia era a mesma professada pelo repórter (ou, no caso, pelo jornal que ele representava). Ocorre que a palavra democracia, no abstrato, virou bandeira da propaganda ideológica dominante, irradiada a partir dos Estados Unidos, para combater qualquer governo que, de alguma forma, contraria interesses dessas forças sociais e políticas. É notório que os jornalões brasileiros (inclusive a Folha) e seus funcionários mais salientes assumiram integralmente essa postura. Dutra, portanto, perdeu uma oportunidade para suscitar a verdadeira questão: de que democracia estamos falando, amigo?

Ora, salta aos olhos que, na citada campanha, democracia é o que menos interessa aos seus promotores. Qualquer inimigo de Washington – o governo cubano, o iraniano ou o venezuelano – é invariavelmente fustigado por violação aos princípios democráticos, mas o mesmo não ocorre com os seus amigos. Na Arábia Saudita, por exemplo, não há sequer partido político, mas a mídia jamais foi acionada para pressionar o rei Abdallah por isso. Isso ficará ainda mais claro nos arranjos para a sucessão do presidente egípcio Hosni Mubarak, outro aliado dos Estados Unidos que nunca foi incomodado por reprimir a oposição, censurar a imprensa e fraudar eleições. Por isso, o oposicionista Mohamed El Baradei, ex-chefe da agência atômica ONU, que defende a implantação de uma democracia de tipo ocidental no Egito, dificilmente terá o apoio de Washington e de seus seguidores.

A democracia, definitivamente, tem sido mero pretexto para atacar governos que contrariam interesses dominantes no capitalismo. Assim, os modernos cruzados declaram combater o governo venezuelano porque supostamente ele está sufocando a democracia, escondendo que o fazem, de fato, porque sua política ameaça os interesses de grandes grupos econômicos, pondo em risco o próprio capitalismo. Como já disse outrora o economista John Kenneth Galbraith: “Quando a mídia dominante ataca o governo cubano, seus porta-vozes evitam cuidadosamente colocar os termos ‘socialismo’ e ‘capitalismo’. Atacam Cuba, mas sem falar que combatem o socialismo ou, pior ainda, que defendem o capitalismo” (1).

Eleição nos EUA, política ou negócio?
Em todo caso, os países afetados pela campanha costumam ser acusados de se afastar da democracia. Mas que democracia, afinal? O modelo apresentado como exemplo é o do regime vigente nos Estados Unidos, onde funcionam diversos partidos políticos e há eleições periódicas, além de liberdade de expressão. Mas será essa uma democracia tão exemplar, a ponto de justificar sua apresentação como modelo e até de ser usada para pressionar países soberanos? A eleição presidencial de 2008, que levou Barack Obama à Casa Branca, pode habilitar-nos a responder negativamente a essa questão. Está certo que esse foi um pleito com excepcional participação popular, mas com tudo isso pouco mais de 50% dos eleitores potenciais compareceu às urnas. E, pasmem, há um século não se alcançava essa marca! Em outras palavras, há mais de cem anos todos os presidentes estadunidenses vêm sendo eleitos por uma pequena minoria da população. Nem por isso, cogitou-se estimular maior participação popular: as eleições acontecem em pleno dia de trabalho e não há sequer exortação do governo para que os assalariados sejam liberados para irem votar.

Aliás, é sintomático que a cobertura da mídia a essas eleições presidenciais, como sempre, enfatizou mais a questão da arrecadação de dinheiro do que as propostas dos candidatos, parecendo indicar que isso é o mais importante. É como se houvesse um implícito reconhecimento de que quem conquistar maior apoio dos grandes grupos econômicos (que, em última análise, são os financiadores decisivos das campanhas) terá sido ungido pela classe que realmente conta. Vimos isso nas manchetes dos dias que antecederam e se seguiram à chamada “Superterça” (05/02/2008), em que foram decididas as primárias em 21 estados. A imprensa anunciou que, para continuar com chance nessa maratona, a pré-candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, havia gasto na campanha US$ 5 milhões do seu próprio bolso. Logo após as primárias, em que se saiu vitoriosa em oito daqueles estados, incluindo Califórnia e Nova York, a candidata comentou esse aporte de dinheiro: "Queríamos ser competitivos e fomos. Acho que os resultados da noite de terça provaram a sabedoria do meu investimento”. (2)

O Estado de S. Paulo explicou a importância da arrecadação de dinheiro na eleição estadunidense: “É esse dinheiro que paga os funcionários dos comitês de campanha e financia os comícios e viagens para os diversos Estados americanos. Além disso, os fundos de campanha são importantes também porque nos EUA não existe horário eleitoral gratuito. Assim, todos os candidatos devem comprar seus espaços na TV e no rádio. Quanto mais dinheiro, mais exposição. Firmas e organizações sindicais, no entanto, podem financiar os comitês de ação política, que ajudam a passar o chapéu entre os americanos.” (3)

Prosseguindo na explicação, e correndo o risco de confundir o eleitor, que poderia pensar que se trata de negócio e não de eleição, o jornal detalhou:

“O pré-candidato republicano Mitt Romney, que ontem abandonou a disputa pela indicação de seu partido, é um bom exemplo de como uma campanha de arrecadação ineficiente e a falta de um bom projeto para alocar os recursos coletados pode afundar uma candidatura. Desde o início de sua campanha, Romney, ex-governador de Massachusetts, teve de gastar do próprio bolso pelo menos US$ 35 milhões (sua fortuna pessoal é estimada em US$ 250 milhões). Para cada delegado que conseguiu eleger, Romney gastou US$ 654 mil. O também republicano Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas e agora segundo na disputa pela indicação de seu partido, foi o que teve a campanha mais bem-sucedida em termos de retorno financeiro. Cada um de seus 156 delegados lhe custou US$ 45 mil.

‘Está claro que o dinheiro de Romney não conseguiu lhe comprar apoio’, diz Sheila Krumholz, diretora-executiva do Centro de Políticas Responsáveis, entidade que analisa os dados de financiamento de campanha dos candidatos. ‘Ele gastou muito mais que Huckabee, mas seu rival fez apostas mais certeiras.’ Hillary gastou cerca de US$ 90 mil por delegado (ela tem 892 até agora). Obama, que tem 716 delegados, de acordo com o jornal New York Times, gastou US$ 119 mil.” (4)

Segundo levantamento do Instituto de Financiamento de Campanha, a receita arrecadada pelo comitê de Barack Obama nas prévias e nas eleições gerais totalizou US$ 746 milhões. Desse montante, 24% vieram de doações abaixo de 200 dólares, 28% de 201 a 999 dólares e 48% acima de mil dólares. Como se sabe, a campanha de Obama se notabilizou por ter conseguido mobilizar grande número de eleitores com o uso da internet. Daí o percentual de grandes doações ter representado menos da metade do total, contrariando a tradição. Apenas para comparação, 60% das doações feitas a Bush em 2004 foram de valores superiores a mil dólares (5). Mas é importante não esquecer que, mesmo no caso de Obama, o dinheiro grosso veio mesmo de empresas e organizações (via Comitês de Ação Política ou pessoas físicas), como Califórnia University (US$ 1,6 milhão), Goldman Sachs (US$ 995 mil), Harvard University (US$ 855 mil), Microsoft (US$ 833 mil) e Google (US$ 803 mil). Essa relação não inclui as contribuições corporativas para os comitês partidários (6).

O povo vota a cada 4 anos; o mercado, todos os dias
É evidente que campanhas eleitorais caras, como as dos EUA e dos demais países que acompanham o modelo, inclusive Brasil, aumentam o poder dos detentores de dinheiro. Afinal, como um partido sem apoio empresarial poderia bancar uma campanha tão cara e privatizada? Não é casual que, nos Estados Unidos, os candidatos presidenciais não vinculados à elite econômica sequer são mencionados pela mídia, permanecendo desconhecidos da própria população. Como considerar democráticas eleições como essas? Mas além dessa influência eleitoral, os grandes grupos econômicos exercem a sua “capacidade de persuasão” no dia-a-dia dos representantes que ajudaram a eleger, em todos os níveis de poder. O presidente Eisenhower não foi o primeiro a advertir, no final de seu governo, contra a perniciosa influência das empresas, especificamente do complexo industrial-militar, cujo poderio classificou como um risco para o processo democrático. Nos anos 90, um dos mais ativos especuladores financeiros, George Soros, proclamava alto e bom som: “Enquanto o povo vota a cada quatro anos, o mercado vota todos os dias”. Nada mais verdadeiro.

A revista mexicana Contralínea diz que a maior ameaça à democracia nos EUA não vem do terrorismo, mas da corrupção no Congresso, citando resultado de investigação realizada pelo Projeto Censurado 2010. Os gastos do lobby dos grupos empresariais para comprar (é esta a palavra correta) a aprovação de leis de seu interesse ou o engavetamento de alguns poucos projetos contra, que ainda ousam ser apresentados, ascenderam a US$ 3,2 bilhões em 2008. O Projeto Censurado, criado para denunciar a permanente censura exercida pelos oligopólios informativos do país, para impedir a divulgação de matérias sobre assuntos incômodos à classe dominante, mostrou que 28% dos membros da Câmara de Representantes enriquecem investindo em empresas que receberam contratos do Pentágono, aprovados por eles mesmos (7). O dinheiro gasto pelo lobby empresarial naquele ano, US$ 3,2 bilhões, representou um crescimento sem precedente de 13,7% em relação a 2007, conforme levantamento efetuado pelo Center for Responsive Politics (Centro para a Responsabilidade Política). Foram US$ 17,4 milhões diários (ou US$ 32.523 gastos diariamente por deputado). Os setores que mais “investem” na compra do Congresso são: farmacêutico e de saúde, elétrico, de seguro e petrolífero, além do lobby pró-Israel (8).

Mas não é apenas nos Estados Unidos que a democracia foi suplantada pela plutocracia. Pelo contrário: trata-se de um fenômeno comum (e igualmente visível a olho nu) às diferentes fórmulas da democracia liberal, atingindo também regimes parlamentaristas, como o alemão, o italiano e o japonês. Por isso são tão corriqueiros os escândalos como o que ora atormenta o presidente francês, Nicolas Sarkozy, acusado de receber doações ilegais da proprietária da L’Oreal, Liliane Bittencourt, a mulher mais rica do país. Em troca, indícios de sonegação tributária do grupo eram relevados.

Decapitação das classes populares
Ampliando o foco, o cientista político italiano Domenico Losurdo mostrou que esse tipo de regime resultou de um longo processo de incansável empenho do liberalismo (e do conservadorismo) para restringir o alcance da democracia nos países europeus, no período aberto pela Revolução Francesa, para que as chamadas “classes perigosas” ficassem fora do poder. O projeto se valeu, em primeiro lugar, do voto censitário, no qual apenas proprietários podiam votar e só os maiores dentre eles eram elegíveis. Sucederam-se-lhe outras fórmulas igualmente engenhosas, como o voto plural, em que cidadãos “qualificados” tinham direito a mais de um voto (sendo que quanto mais rica a pessoa, mais qualificada era considerada). Houve, em seguida, as eleições múltiplas, em que os setores populares só votavam nos pleitos locais e os eleitos eram sucessivamente depurados por colégios eleitorais cada vez mais seletos.

Em distintos momentos, vários países garantiram a exclusão dos pobres pela instituição de um imposto cobrado de simples eleitores e também de candidatos, ou pela exigência de complicados trâmites burocráticos para a obtenção de título eleitoral. Houve ainda o sistemático afastamento de mulheres, de analfabetos, de imigrantes e de presidiários do processo eleitoral, que vigorou em quase todos os países capitalistas pelo menos até a Revolução Russa. Na Inglaterra, o voto plural sobreviveu até 1948, conferindo mais de um voto a homens de negócios e a acadêmicos. No Texas, EUA, até 1972 a homologação de uma candidatura dependia do pagamento de um tributo, proporcional à importância do cargo almejado. Ainda hoje estão em vigência, nesse e em outros países, formas camufladas de discriminação censitária contra indígenas, negros e pobres em geral (9).

Apesar de tudo, houve uma progressiva democratização do processo eleitoral, por força de pressões populares e da ameaça representada pela citada Revolução de 1917, resultando no reconhecimento do sufrágio universal ao longo do século XX na maioria dos países capitalistas. Mas, ao mesmo tempo, criaram-se novos e formidáveis obstáculos para impedir a ascensão das “classes perigosas”. Dentre esses, Losurdo destaca o crescente encarecimento das campanhas político-eleitorais e a concentração da mídia nas mãos de grupos econômicos. O monopólio da produção de conhecimento e de informação começou a ser erigido ao longo do século XIX, depois que a proliferação de panfletos e periódicos populares, nas revoluções de 1848 e na Comuna de Paris, em 1871, alertou a classe dominante sobre o poder de mobilização desses veículos. Essas publicações, produtos de uma indústria ainda incipiente, ao alcance de qualquer partido, sindicato ou movimento, passaram então a ser perseguidas por meio da censura e da repressão policial direta. Depois, instituíram-se alvarás e obrigações burocráticas, tanto mais custosos quanto maior a periodicidade pretendida e quanto mais importante o local de circulação.

No final do século XIX – ainda conforme o pensador italiano –, um jornal que circulasse mais de três vezes semanais em Paris já estava fora do alcance das organizações populares, tal o volume de capital necessário para sustentá-lo. As medidas repressivas dos primeiros tempos tornaram-se, assim, desnecessárias. A supressão dos meios de informação das classes subalternas foi acompanhada de igual empenho na eliminação ou no enquadramento das próprias organizações que os editavam. O objetivo, neste caso, era evitar que partidos políticos, sindicatos e outras entidades populares, com sua vida associativa, suas festas e suas publicações, constituíssem centros autônomos de disseminação de cultura, capazes de colocar em xeque o monopólio político, cultural e ideológico da classe dominante, exercido por intermédio do Estado, das escolas, da igreja e da mídia. Para Domenico Losurdo, foi assim que se consumou a “decapitação política das classes subalternas” (10). Quando essas medidas de exclusão mostraram-se insuficientes para impedir a eleição de governantes indesejados pelas classes dominantes, eles foram abatidos por movimentos de desestabilização, atentados ou golpes de Estado.

Analisando esse quadro de crescente fragilização da democracia, que representou uma vitória do ideário liberal que acabamos de abordar com a ajuda de Domenico Losurdo, no início dos anos 1990 o historiador britânico Perry Anderson concluiu: "O que está faltando é qualquer concepção do Estado como estrutura de autoexpressão coletiva mais profunda do que os sistemas eleitorais atuais. Com efeito, a democracia está hoje mais disseminada do que nunca. Mas também está mais superficial, menos consistente - como se quanto mais universalmente acessível se torna, menos significado ativo retém. Os próprios Estados Unidos constituem um exemplo paradigmático: uma sociedade onde menos de metade dos seus cidadãos vota, 90% dos congressistas são reeleitos e o preço do cargo público é avaliado em milhões. No Japão, o dinheiro fala ainda mais alto, e não existe aí sequer uma alternação nominal ente partidos. Na França, a Assembléia foi reduzida a uma cifra. À Grã-Bretanha falta, nem mais nem menos, uma constituição escrita". (11)

(*) Hideyo Saito é jornalista

NOTAS:

(1) Galbraith (2000, p. 163).

(2) John Whitesides. Hillary Clinton injeta US$5 mi do próprio bolso em campanha. Uol, 07/02/2008. http://noticias.uol.com.br/ultnot/especial/2008/eleicaoeua/noticias/2008/02/07/ult729u72322.jhtm ; e Patrick Healy. Fenômeno Obama encarece campanha de Hillary. The New York Times, 07/02/2008 http://noticias.uol.com.br/ultnot/especial/2008/eleicaoeua/noticias/2008/02/07/ult574u8178.jhtm .

(3) Doações para Obama disparam. O Estado de S. Paulo, 08/02/2008.

(4) Idem.

(5) A íntegra do estudo e as tabelas podem ser conferidas em http://www.cfinst.org/Press/Releases_tags/10-01-08/Revised_and_Updated_2008_Presidential_Statistics.aspx .

(6) Ver em http://www.opensecrets.org/pres08/contriball.php?cycle=2008 .


(7) Ernesto Carmona. La corrupción del Congreso de EU. Contralínea, 26/04/2009. http://contralinea.info/archivo-revista/index.php/2009/04/26/la-corrupcion-del-congreso-de-eu/ . O autor atribui a informação a Lindsay Renick Mayer (matéria “Strategic assets”, publicada em 03/04/2008 em http://www.opensecrets.org/news/2008/04/strategic-assets.html), que fez a investigação com base em reportagem de Leora Johnson e Michael Seramin, censurada pela mídia dominante.

(8) Ver “Washington lobbying grew to $3.2 billion last year, despite economy”, de Leora Johnson e Alan Grady, publicada em 29/01/2009 em http://www.opensecrets.org/news/2009/01/washingtonlobbying-grew-to-32.html#, citada pela matéria de Ernesto Carmona (nota anterior).

(9) Losurdo (2004, pp. 48-55).

(10) Idem (op. cit., pp. 147-158 e 333).

(11) Anderson, Perry, O fim da história, de Hegel a Fukuyama. Tradução de Álvaro Cabral. Jorge Zahar, Rio de Janeiro: 1992 (p. 114).