segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Barbárie: produto e condição do progresso

Um mundo de violência


Georges Labica, filósofo francês (1930-2009)

O século que terminou recentemente pode ser caracterizado por um paradoxo espantoso. Por um lado, ele se apresenta como o próprio progresso, com um acúmulo de descobertas, de invenções e de... revoluções técnico-científicas, em todas as áreas de pesquisa, sem precedentes. Por outro lado, foi o século da barbárie mais completa, indo da morte em massa, provocada por guerras e por extermínios étnicos e políticos, a todas as formas de sofrimento também massificadas, quer se trate da generalização da tortura, das deportações de populações ou das epidemias de fome cuidadosamente orquestradas. (...)
Não é preciso recorrer às sutilezas da dialética para entender até que ponto são imbricados e interdependentes o progresso e a barbárie. (...) Conquista-se o espaço e destroem-se os solos mais férteis. (...) Os Direitos Humanos são assunto constante, mesmo enquanto milhões de crianças são condenadas ao trabalho forçado ou à guerra, eventualmente à prostituição e sempre a uma existência encurtada. Abrem-se restaurantes para cachorros e canais de televisão para gatos, enquanto populações inteiras estão desprovidas das condições mínimas de higiene. Tudo isso é perfeitamente conhecido, certamente, mas a verdade oculta por trás do paradoxo não: a humanidade enfim chegou a um estágio desenvolvimento que lhe permite acabar com a escassez a que esteve entregue durante milênios. O acúmulo de riquezas de todos os tipos, da produção de legumes frescos à saúde, à educação e ao conforto residencial, pode garantir a satisfação das necessidades mais elementares e criar, para todos os seres humanos, as condições necessárias a uma vida liberta da fome, das pandemias e das opressões. Em princípio.
[A escassez] não tem mais nenhuma relação com aquela que nossos antepassados longínquos conheceram enfrentando as chagas naturais e lutando pela sobrevivência. (...) As novas formas que ela assume, massivas, recorrentes e continuamente agravadas, são produtos diretos do progresso. Produtos, mas também condições (...) O desperdício desenfreado de água no Norte gera penúria também no Sul. (...) Se é verdade que ainda não existe cura para a AIDS, ao menos pode-se adiar a evolução da doença. Mas os monopólios farmacêuticos se recusam a reduzir seus preços em benefício dos africanos e colocam obstáculos à construção de laboratórios [um ataque aéreo dos Estados Unidos destruiu, sob a alegação de luta contra o terrorismo, o maior laboratório farmacêutico do continente africano]. (...) O par progresso-escassez tem um nome, produtivismo, que, além de matar o mar de Aral, está presente em nossas ruas, no gás carbônico de nossos carros. Assim, a possibilidade, em princípio, de acabar com a escassez não pode se realizar em tal contexto (...) Ouvem-se já os gritos dos especialistas: “Não é possível inverter o progresso!” Decerto não, ao menos esse progresso que tem como destino a lata de lixo. Mas é possível alimentar, tratar e educar todo mundo.
O século que se inicia parece não ficar atrás do precedente. Ao contrário, tudo indica que os danos continuam crescendo.

Fonte: LABICA, Georges. Democracia e Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2009, pp. 14-17.
Nesse livro fica evidente a importância do comunismo e da democracia para Georges Labica. Para este autor - falecido recentemente - democracia e revolução estão estreitamente imbricadas, uma nutre a outra. Processos efetivamente revolucionários exacerbam a exigência e a possibilidade efetiva de democracia; a violência não deriva do impulso revolucionário libertador, mas da potência repressiva recente da ordem estabelecida. Labica não teme as palavras e, menos ainda, a luta - ainda que formidável - que as palavras precisam designar. Se revolução é democracia revolucionária, é preciso enfrentar os burocratismos e o peso crescente do executivo, despertar da anestesia submissa e resignada que dele derivam, livrar-se tanto do estalinismo quanto da dominação burguesa.Retomando a concepção lukacsiana de democratização, reitera que a revolução democrática permanece sendo anseio dos explorados. As impropriamente chamadas de "democracia-modelo" dos países centrais reduzem-se crescentemente a uma ditadura aberta do capital, para dentro e para fora de sua fronteiras. Marx, Lenin e Gramsci são trazidos ao texto para nos lembrar que não basta mudar o condutor da máquina capitalista, mas que é estritamente necessário acabar - quebrar, destruir - essa máquina.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Primavera dos Livros 2009


Os levantes antifascistas de novembro de 1935

A Aliança Nacional Libertadora (ANL) e os Levantes Antifascistas de Novembro de 1935: Alguns ensinamentos
Por Anita Leocadia Prestes

Num período de intensa polarização política no cenário mundial, diante do avanço do fascismo em nível internacional e do integralismo no âmbito nacional, a Aliança Nacional Libertadora (ANL), criada em março de 1935, desempenhou um papel relevante na mobilização de amplos segmentos da sociedade e da opinião pública brasileira em defesa das liberdades públicas, gravemente ameaçadas pelos adeptos da Ação Integralista Brasileira (AIB), liderados por Plínio Salgado.

Nesse processo, a influência dos comunistas mostrou-se decisiva não só na formação da ANL e em sua atividade legal, durante os meses de março a julho de 1935, como, principalmente, na preparação dos levantes armados de novembro daquele ano, realizados sob as bandeiras da ANL. O grande prestígio de Luiz Carlos Prestes - o Cavaleiro de uma Esperança que renascera com o desgaste de Vargas após a “Revolução de 30” - foi um fator fundamental para a difusão e a penetração, junto a setores diversificados da sociedade brasileira, do prograna antiimperialista, antilatifundista e democrático levantado pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) e adotado pela ANL.

A justeza desse programa se evidencia pela aceitação e a repercussão que obteve junto aos setores progressistas e democráticos da opinião pública nacional. Como consequência, a ANL veio a transformar-se, em pouco tempo, na maior frente única popular jamais constituída no Brasil. Seu lema: “Pão, Terra e Liberdade”, inicialmente lançado pelo PCB, empolgou centenas de milhares de brasileiros.

Os comunistas, entretanto, cometeram um grave erro de avaliação ao caracterizarem a situação do país, em 1935, como “revolucionária”, considerando que o desgaste do Governo Vargas seria tal que as suas condições de governabilidade estariam esgotadas. Confundindo os desejos com a realidade, os comunistas e muitos dos seus aliados superestimaram as possibilidades reais de organização e mobilização das massas populares. Consideraram que havia chegado a hora de levantar a questão do poder, lançando a diretiva de um Governo Popular Nacional Revolucionário, formado pela ANL, através de uma insurreição popular. A proposta dos comunistas, assumida pela ANL, mostrou-se fantasiosa e, portanto, inexeqüível, resultando na derrota do movimento.

A inviabilidade de promover uma insurreição das massas trabalhadoras no Brasil, em 1935, aliada à conjuntura de intensa agitação e efervescência política então presente nas Forças Armadas, induziu os comunistas e seus aliados da ANL a sucumbirem à influência das concepções golpistas e de “salvacionismo” dos militares, fortemente arraigadas no imaginário nacional. Tal fenômeno sobreveio, apesar dos esforços desenvolvidos para organizar e mobilizar as massas, assim como das repetidas e insistentes declarações do PCB, de Prestes e da ANL condenando o golpismo.

As Forças Armadas e, principalmente, o Exército passaram a ser vistos pelos comunistas e aliancistas como o instrumento privilegiado para desencadear a almejada insurreição popular, na medida em que a mobilização dos setores civis mostrava-se mais demorada e difícil. O renascimento das concepções golpistas e “salvacionistas” explica o caminho trilhado pela ANL: da amplitude inicial, quando a entidade se manteve dentro da legalidade, ao radicalismo revelado com a eclosão dos levantes armados de novembro de 35.

A persistência de tais concepções pode parecer fruto das influências tenentistas, supostamente trazidas, tanto para o PCB quanto para a ANL, por L. C. Prestes e muitos dos elementos provenientes do tenentismo. Sem negar tais influências, é necessário considerar que o próprio tenentismo foi um movimento marcado pelo vigor das tendências golpistas e “salvacionistas”, resultantes da especificidade do processo histórico de formação da sociedade brasileira. Uma sociedade, na qual as classes dominantes sempre tiveram força para impor aos setores populares um estado de desorganização e desestruturação social, que viria a tornar-se um dos seus traços característicos; uma sociedade excludente e “gelatinosa”, na qual não restariam espaços para que as massas populares fossem ouvidas, nem canais através dos quais elas pudessem fazer valer seus direitos e reivindicações. A expectativa de um golpe “salvador” seria a consequência natural de tal estado de coisas.

Se, em 1935, o golpismo dos comunistas e de muitos dos seus aliados se revelou no fato de haverem delegado aos militares o papel de detonadores da “insurreição das massas trabalhadoras”, deve-se considerar que o conteúdo do programa então defendido - antiimperialista, antilatifundista e democrático - era inteiramente distinto das propostas tenentistas. Sejam as propostas liberais dos “tenentes” dos anos 20, sejam as propostas autoritárias do tenentismo do início dos anos 30. Em 1935, os militares, que iriam desencadear a insurreição projetada, não eram mais tenentistas, mas seguidores de Prestes, que, desde seu Manifesto de Maio de 30, deixara de ser “tenente” para tornar-se adepto das teses levantadas pelos comunistas - as mesmas que seriam encampadas pela ANL.

Mas o revés do movimento antifascista no Brasil, em 1935, não se explica apenas pela influência das concepções golpistas e “salvacionistas”. O Governo Vargas pôde tirar partido de uma conjuntura internacional favorável ao fascismo e aos regimes autoritários para, com o apoio da direita e brandindo as bandeiras do anticomunismo, impor uma grave derrota às forças democráticas e progressistas do país.
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domingo, 22 de novembro de 2009

A origem das espécies em HQ

MARCO DA CIÊNCIA MODERNA, LIVRO DE CHARLES DARWIN É RECRIADO PELO CARTUNISTA E BIÓLOGO FERNANDO GONSALES











FIM
Fonte: Folha de São Paulo, Caderno +Mais!, 22/11/2009.
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nós somos filhos da mesma mãe!

Para despertar sua alma, alterar seus batimentos, apressar seus passos e lhe abrir os olhos. Pois hoje não é um feriado comum, não é só um dia de ócio, praia e festa, mas, principalmente, um dia de luta.

Mãe
Por Mario Luiz

Mãe Negra que na Savana

Deu-me a luz entre os leões

Sob um rubro pôr-do-sol

Que nossa pele inflama.


Mãe Guerreira, protetora e gentil,

Olhai por teus filhos que sangram

Por entre tuas mãos trêmulas,

Submetidos à condição servil.


Mãe Natureza, selvagem e amável,

Aceitai-nos em teus braços.

Saciando a fome de almas esquecidas

E corpos miseráveis.


Mãe Africana, perdão, mamãe... perdão

Se para longe de ti me levaram,

E na terra de Vera Cruz me forçaram

A silenciar tua voz em meu coração.


Que as chibatadas que lambem minhas costas

Possam servir para despertar a força que plantaste em minh’alma.


Oiram Ziul


Fonte: http://www.mosaicoepoesia.blogspot.com/


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Dia Nacional da Consciência Negra

20 de novembro

ZUMBI - A CONSCIÊNCIA NEGRA DA RESISTÊNCIA E DA LIBERDADE



I have a dream...

“A sociedade é uma fábrica de intolerâncias. Mas também está nessa fábrica a possibilidade da formação de uma personalidade democrática, de um indivíduo que tenha uma visão comunitária e ética, até mesmo socialista”.

Fonte: “Octavio Ianni: o preconceito racial no Brasil”. Entrevista de Octavio Ianni de 11/12/2003. In: Estudos Avançados, v. 18, no 50, São Paulo, jan/abril 2004, p. 17.

Racismo persistente


“É preciso reconhecer que um mergulho na história social do Brasil mostra que durante a escravatura formou-se uma poderosa cultura racista”.

Fonte: “Octavio Ianni: o preconceito racial no Brasil”. Entrevista de Octavio Ianni de 11/12/2003. In: Estudos Avançados, v. 18, no 50, São Paulo, jan/abril 2004, p. 11.

AS ÁFRICAS QUE COLOREM A CULTURA DO BRASIL

“Depois de uma dura travessia pelo oceano Atlântico, os negros africanos foram obrigados a mudar sua maneira de viver, adaptando seus costumes e suas tradições ao novo ambiente. Misturando-se aos povos que aqui encontraram, esses negros deram origem à mestiçagem que amorenou a nossa pele, alongou nossa silhueta, encrespou nossos cabelos e nos conferiu a originalidade de gestos macios e andar requebrado. Ao incorporarem elementos africanos ao seu dia-a-dia nas lavouras, nos engenhos de açúcar, nas minas e nas cidades, construíram uma nova identidade e nos legaram o que hoje chamamos de cultura afro-brasileira.”

Fonte: trecho da Apresentação do livro África e Brasil Africano, de Marina de Mello e Souza, Editora Ática.

Construtores do Brasil

Foi principalmente através do trabalho de homens, mulheres e crianças africanas e de seus descendentes que se produziram o açúcar, o fumo e o algodão, se extraiu o ouro, se exportou o café, se conduziram as tropas, se prepararam os alimentos e realizaram os vários serviços domésticos, se construíram as casas, os engenhos, as estradas, as cidades, as igrejas, as escolas, os hospitais, ou seja tudo, ou quase tudo, que existiu e existe no Brasil.

O continente que deu ritmo ao mundo


O universo musical africano expandiu-se de tal modo que definiu os caminhos da música popular no mundo ocidental. A lista das tendências que se projetaram a partir dele na música popular norte-americana é interminável: jazz, rap, soul, gospel, funk, rock, pop, house, dance, spiritual... O mesmo pode ser dito da música popular na América Central e na América do Sul. O reggae jamaicano e a inesgotável reserva rítmica de Cuba, que lançou o mambo, a rumba, a salsa, a conga e a habanera. No centro da música brasileira está o SAMBA. Sem falar no lundu, no maxixe, no baião, no afoxé, no carimbó...
As danças africanas se fazem numa mistura de sons, canções, batuques, ritmos e movimentos tradicionais com um toque de cores, expressões, gingado, espontaneidade e sensualidade dos corpos em movimento rítmico harmonioso.

Majestosa África, berço dos nossos ancestrais

A história do mundo começa na África

Falar em história da África é falar sobre a história humana. Afinal, foi lá que surgiu o Homo sapiens, cerca de 160 mil anos atrás. Portanto, a humanidade desenvolveu-se primeiro no continente africano e, progressivamente e por levas sucessivas, foi povoando o planeta inteiro. De lá, partiram os habitantes que constituíram os primeiros núcleos urbanos na Europa mediterrânea, América, Ásia e Oceania.
Quando se pensa em civilização, também a África foi pioneira. A importância do continente no mundo antigo é hoje inegável. Sobretudo a partir da ascendência civilizatória milenar do Egito faraônico sob as civilizações que beiravam o Mediterrâneo: persa, assíria, hitita, cretense, helênica, hebraica e outras. Trata-se de uma história de 7 mil anos que formou a base sociocultural da maioria das civilizações na Antiguidade. A cultura egípcia teve importante influência para a expansão das artes, das ciências empíricas (matemática, geometria, biologia, astronomia etc.), da filosofia da natureza e do pensamento religioso.
Da África saíram, a partir do século XVI, levas de escravos que vieram para as Américas no período da escravidão e participaram da formação do Brasil.
No século XX, após longas lutas de independência, constituíram-se novas nações na África.
Com sua arte, cultura e tradições, os africanos influenciaram e continuam a influenciar o mundo.

Socialismo do século XX

Por Emir Sader
19/11/2009

A queda do Muro de Berlim e o fim do campo socialista decretaram o término do longo período inaugurado com a revolução russa de 1917 e do socialismo do século XX. O socialismo, que havia passado a, pela primeira vez, fazer parte da atualidade histórica da humanidade, praticamente desapareceu da agenda contemporânea, há duas décadas. A China optou por uma via de economia de mercado, Cuba tratou de se defender de retrocessos ingressando a seu “período especial”, o Fórum Social Mundial surgiu para lutar contra o neoliberalismo.
Essa virada histórica – acompanhada pela passagem de um ciclo longo expansivo a um recessivo da economia capitalista, de um modelo regulador a um modelo neoliberal, - representou, ao mesmo tempo, a transição de um mundo bipolar a um mundo unipolar sob hegemonia imperial norteamericana. Mudanças todas de caráter regressivo, que alteraram de forma radical a correlação de forças mundial a favor das forças conservadoras.
Se esgotava um modelo de socialismo, que se caracterizou por promover a estatização dos meios de produção, a partir da expropriação da burguesia privada, e não da socialização dos meios de produção, produzindo uma imensa burocracia que dirigia os Estados de economia centralmente planificada. Seu esgotamento se deu tanto pela falta de democracia e de participação política dos trabalhadores, como pela falta de dinamismo econômico, que os relegou a não superar os ritmos de desenvolvimento econômico do capitalismo, como a depender das economias capitalistas, de forma subordinada.
Nunca um sistema daquela dimensão havia desmoronado por um processo de auto degeneração, a ponto de praticamente não apresentar nenhum tipo de resistência interna, adaptando-se de forma suave à restauração do capitalismo nos seus territórios. O que revelava os efeitos desagregadores que a ideologia ocidental tinha tido sobre o sistema, especialmente sobre seus estratos dirigentes, levando ao que os próprios ideólogos norteamericanos não esperavam – sua autodissolução.
O modelo do socialismo do século XX foi um modelo de socialismo de Estado – como alguns autores o caracterizaram. Buscou, através da ação determinante do novo Estado, o apoio para tentar recuperar a distância em relação ao capitalismo ocidental, decorrente das rupturas com esse sistemas terem se dado na periferia atrasada e não no centro do sistema, como previa Marx. Para Lênin se tratava apenas de uma mudança temporária de roteiro, até que a revolução em um país da Europa ocidental pudesse resgatar a Rússia do seu atraso. O fracasso da revolução alemã – o país em que mais se condensavam as contradições depois da sua derrota na primeira guerra – praticamente condenou a Revolução Russa ao isolamento. A partir daí, as rupturas seguintes se deram na direção oposta, da periferia profunda – China, Vietnã, Cuba.
Nas palavras de Lênin, era mais fácil tomar o poder nos países mais atrasados, mas sumamente mais difícil construir o socialismo. Reduzida ao seu isolamento, a Rússia optou pelo “socialismo em um só país”, em um país atrasado, afetado pelo cerco dos países ocidentais, pela guerra civil interna, posteriormente pela invasão alemã. O modelo estatal foi uma decorrência disso, de buscar uma acumulação socialista acelerada, que dificultasse o bloqueio ocidental contra a URSS. Stalin optou pela expropriação maciça dos camponeses, que permitiu a industrialização acelerada dos anos 30 – e propiciou as condições de resistência e derrota diante do poderoso exército alemão – mas às custas da ferida agrária de que nunca se libertaria a URSS até seu final, e da destruição da democracia interna no partido.
O socialismo se reatualiza, pelas próprias mazelas do capitalismo, porque o socialismo é o anticapitalismo, a incorporação dos avanços econômicos, mas em um outro tipo de sociedade, que nega o caráter discriminatório e injusto do capitalismo, negando-o e superando-o em uma sociedade solidária. Enquanto houver capitalismo, haverá, mesmo que embrionariamente, um projeto socialista, que sempre precisa ser recriado, renovado, a partir dos balanços do capitalismo e do socialismo existentes.
O socialismo do século XXI, para chegar a existir, tem que partir do balanço de conquistas e erros do socialismo do século XX, se não quiser repetir sua trajetória.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Semana da Consciência Negra

Semana da Consciência Negra
De 16 a 19 de novembro de 2009
Colégio Municipal Professora América Abdalla



Em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, a Associação de Pais, Amigos e Mestres (APAM) do Colégio Municipal Professora América Abdalla promoverá a Semana da Consciência Negra, de 16 a 19 de novembro de 2009, das 18h45min às 21h45min. As atividades desenvolvidas (palestras, debates, oficinas, cinema e apresentações culturais) estão inseridas nos objetivos educativos da promoção da história e cultura afro-brasileira e africana, da valorização da diversidade étnica, do estímulo a valores e comportamentos de respeito, solidariedade e tolerância nas relações étnico-raciais e de combate ao racismo e às discriminações que atingem em particular a população negra, afro-brasileira ou afrodescendente.
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Jornada de trabalho de 40 horas já!



Transformar as estruturas desiguais e injustas da nossa sociedade sempre foi um dos objetivos do Movimento Sem Terra, para construir um país soberano e conquistar vida digna para os trabalhadores e trabalhadoras. Assim, dedicamos nossas energias para realizar uma efetiva Reforma Agrária, capaz de democratizar o acesso à terra e produzir alimentos. Mas também, ao longo dos nossos 25 anos, nos somamos nas bandeiras de luta que defendem a garantia e ampliação de direitos dos trabalhadores. Por isso, consideramos fundamental a participação na campanha pela redução da jornada de trabalho para 40 horas, sem redução de salários.

Da mesma forma como a Reforma Agrária, a redução da jornada é uma reivindicação histórica e uma medida capaz de estimular rapidamente o desenvolvimento econômico. Mais de 2,2 milhões de novos postos de trabalho poderiam ser criados. Com o fim ou limitação das horas-extras, outras 1,2 milhões de novas vagas surgiriam. Ou seja, pelo menos 3,4 milhões de pessoas poderiam exercer seu direito ao trabalho.

Nosso país possui uma das maiores distâncias entre ricos e pobres do mundo. O Brasil está entre as 10 maiores economias, no entanto, estamos apenas em 75º em qualidade de vida (segundo o IDH). E pior ainda, somos a sétima pior sociedade de todo planeta em desigualdade social. A redução da jornada, o aumento do salário mínimo e do pagamento das horas extras são medidas fundamentais para reduzir esta desigualdade.

Mas tão importante quanto os novos postos de trabalho são os avanços sociais fundamentais para a libertação da exploração. Pois assim os trabalhadores teriam mais tempo para a família, para estudar, para tempo livre e para cultura. O trabalho deve ser uma forma de produzir riquezas, para que as pessoas possam viver melhor, e não fonte de exploração e opressão.

Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que a redução da jornada significaria um aumento de apenas 1,99% dos custos de produção. Mesmo assim, os empresários estão articulados com os partidos de direita, e fazendo de tudo para impedir sua votação. Por isso, nos somamos aos mais de 40 mil trabalhadores, de diversas centrais sindicais e movimentos sociais, que participaram da 6ª Marcha da Classe Trabalhadora, realizada na quarta-feira (11), na Esplanada dos Ministérios.

Nesta marcha, defendemos também a defesa da destinação dos recursos do pré-sal para a saúde, educação e combate à pobreza; a cobrança da atualização dos índices de produtividade e a realização da Reforma Agrária; e contra a criminalização dos movimentos sociais, pela mídia, por setores conservadores do poder judiciário e pelos parlamentares ruralistas.

Esperamos que a marcha acelere o processo de votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 231/95) que tramita há 14 anos no Congresso Nacional e prevê a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem diminuição de salários, e o aumento do valor das horas extras em dias úteis de 50% para 75%. A proposta já foi aprovada por uma comissão especial da Câmara, mas precisa ser votada e aprovada no plenário da Câmara e do Senado.

Certamente essa luta terá que ganhar ainda mais as ruas. Temos que aumentar a pressão sobre os parlamentares, realizar passeatas, manifestações e greves em todos os estados, para conseguir tirar da gaveta esse importante projeto social.

Acreditamos que a redução da jornada de trabalho é uma medida fundamental dentro de um projeto popular, que possa garantir uma vida digna à população brasileira.

Secretaria Nacional do MST
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A nossa res publica

120 anos da "república"

15 de novembro de 1889: golpe civil-militar que resultou da conjugação de três forças: uma parcela do exército, cafeicultores do Oeste paulista e representantes das camadas médias urbanas. O ano de 1889 não significou uma ruptura com o processo histórico brasileiro.

Os ideais da Res publica - expressão do latim para definir a "coisa pública" - ainda engatinham na sociedade brasileira. A república democrática deveria ser sustentada pela participação popular e interesses públicos. Vivemos uma república com "r" minúsculo, em que prevalece os interesses privados. Os valores republicanos encontram-se bem distantes da prática dos brasileiros. Ainda há um longo caminho a ser trilhado na conquista de uma sociedade verdadeiramente democrática, ou seja, numa perspectiva popular e, portanto, socialista.


"Nem todos os grupos são um “nós” consciente: pode tratar-se de um “eles” somente estatístico, unificado por residência, sexo, etnia, posição numa estratificação econômica etc. Entretanto, as próprias características objetivas que configuram um “eles” estatístico – alguma(s) dessa(s) característica(s) – em certas circunstâncias podem servir de base ao surgimento de uma comunidade, de um “nós” consciente e disposto a uma ação concertada: nós os socialistas, nós os negros, nós as mulheres, nós os democratas etc." (Ciro Flamarion Cardoso)


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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ação predatória na Amazônia Legal

Cruzamento de dados mostra colapso de educação e saúde na Amazônia Legal

O avanço do desmatamento na Amazônia Legal provoca uma disparada econômica dos municípios, mas não melhora os indicadores sociais. Nas localidades que mais desmatam, os índices de emprego e renda aparecem acima da média da região, enquanto os dados de educação e saúde engatinham.
(...)
Um exemplo da discrepância é que, no índice de emprego e renda, os 50 municípios da Amazônia Legal que mais desmataram em extensão entre 2000 e 2006 avançaram 35% acima da média regional. Já no indicador de saúde, os mesmos 50 municípios cresceram 63% abaixo da média da Amazônia Legal (Região Norte, Mato Grosso e parte do Maranhão).A disparidade é ainda maior quando a média da região é comparada com os 50 municípios que mais desmataram em relação às suas superfícies. Entre 2000 e 2006, o índice de emprego e renda dessas localidade subiu 81% acima da região, enquanto seu indicador social (educação e saúde) cresceu 36% abaixo da média local.
(...)
Para especialistas e representantes de entidades (...), o desmatamento concentra renda e gera empregos de forma passageira. Segundo eles, o anúncio de oportunidades de emprego atrai trabalhadores migrantes e, com isso, deixa em colapso os sistemas de saúde e educação.
(...)
O avanço do desmatamento não está apenas ligado à atividade madeireira clandestina. Com ele, disparam também projetos de mineração e de geração de energia. "É uma riqueza, mas concentrada. Saneamento básico, saúde pública, educação e outros direitos sociais inexistem", diz José Batista, da Pastoral da Terra.
Como muitos dos empregos criados na região estão ligados ao desmatamento, cria-se um dilema entre uma atividade ilegal e a única opção de renda. No ano passado, uma operação federal no Pará contra a exploração ilegal de madeira motivou protestos da população."A Amazônia está encalhada. Há uma luta contra o desmatamento, mas ainda não existe uma economia para substituir essa velha prática predatória e ilegal", afirma Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).

Fonte: Folha de São Paulo, 11/11/2009.

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domingo, 8 de novembro de 2009

A queda do Muro de Berlim na ótica de Hobsbawn

O HISTORIADOR ERIC HOBSBAWM DIZ QUE A QUEDA DO MURO DE BERLIM, EM 9/11/1989, DESESTABILIZOU A ORDEM MUNDIAL E CRIOU UM ESTADO GENERALIZADO DE INSEGURANÇA

Ícone da historiografia de esquerda, o britânico Eric Hobsbawm não perdoa: para ele, o principal efeito da queda do Muro de Berlim, em 1989, foi a desestabilização da geopolítica mundial em prol da única superpotência remanescente -os EUA.
Como consequência, o mundo se tornou mais perigoso.
Em "A Era dos Extremos" (Cia. das Letras), ele já defendera os desdobramentos da queda do muro como cruciais para o século 20. Mais do que isso: cruciais para encerrá-lo antes da hora. Daí o termo que cunhou, "breve século 20".
Já do ponto de vista econômico, Hobsbawm afirma que o pós-1989 levou a um recorde de desigualdade social nos países da antiga Cortina de Ferro -termo que designava, durante a Guerra Fria, os países comunistas europeus sob influência soviética.Sobre Berlim, cidade que cristalizou a derrocada da velha ordem e o início da nova, o pensador se mostra decepcionado, na entrevista que concedeu por e-mail à Folha.
Apesar de haver se tornado a capital do Estado mais rico da União Europeia, Berlim não se tornou a virtual capital da Europa -como se esperava 20 anos atrás- nem ficou à altura de seu glorioso passado anterior à ascensão do Terceiro Reich (1933).Coerente, Hobsbawm vê a crise financeira que assolou os mercados financeiros em 2008 como o "Muro de Berlim do neoliberalismo". Ele detecta nesse aparente revés capitalista a possibilidade de rearticulação do pensamento de esquerda -mas desta vez, alerta, em bases "mais realistas".
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FOLHA - Passados 20 anos, qual é o legado político e econômico da queda do Muro de Berlim?

ERIC HOBSBAWM - O legado econômico é certamente menos dramático do que o político. Economicamente, significou a destruição do que restara de um sistema socialista planejado na União Soviética e na Europa do leste -que já estava em declínio- e a integração da antiga região socialista à economia capitalista global.

Isso levou a um colapso social e econômico na ex-União Soviética, embora, posteriormente, a Rússia e algumas ex-repúblicas soviéticas tenham visto alguma recuperação, baseada nos altos preços da energia e dos insumos industriais.Com algumas exceções, a região provavelmente permanece, em termos relativos, mais atrás do Ocidente do que estava antes da queda do muro. Ela desenvolveu um nível chocante de desigualdade econômica.

Os efeitos políticos, por sua vez, têm sido enormes. Eles reduziram a Rússia de superpotência a um Estado não maior do que era no século 17.

Além disso, a União Europeia saltou de 15 para 27 Estados, e foi criada uma Alemanha unificada no coração do bloco.

Também foi reintroduzida a guerra [conflito nos Bálcãs nos anos 90] e a instabilidade política na Europa, após o colapso do único Estado comunista, a Iugoslávia. Isso acabou por tornar os Bálcãs mais "balcanizados" do que antes.

Outro efeito da queda do muro foi a destruição de um sistema internacional estável.

Isso porque se atribuiu aos EUA a ilusão de que poderiam, como única superpotência global, exercer sua hegemonia no mundo todo -o que acabou por transformar o mundo no lugar perigoso de hoje em dia.

FOLHA - Berlim não se tornou uma das principais capitais europeias, como se previa 20 anos atrás, e a Alemanha, embora rica, foi há pouco superada economicamente pela China. Nesse sentido, a queda do muro foi um fracasso?

HOBSBAWM - Berlim não se tornou uma grande capital europeia porque a reunificação política das Alemanhas Ocidental e Oriental não teve como recriar um país genuinamente unido.

A antiga Alemanha Oriental -embora seus habitantes estejam hoje muito melhor do que estavam antes de 1989- perdeu sua base econômica para a Alemanha Ocidental. Além disso, apresenta índices de desemprego elevados e continua a perder sua população para a antiga Alemanha Ocidental.

Berlim tem muito poucos habitantes para uma cidade com sua importância histórica.

Para quem a visita, ela parece uma pessoa encolhida usando um sobretudo grande demais para seu peso atual. Culturalmente, nunca reconquistou a posição que detinha entre 1871 [quando o Império Germânico inaugurou o Segundo Reich] e a ascensão de Hitler [em 1933].Isso não quer dizer que a Alemanha como um todo esteja em declínio. Ela, por exemplo, não pode ser comparada com a China (80 milhões de habitantes contra 1,3 bilhão). Mesmo com um PIB maior do que o da Alemanha, a China é muito menos desenvolvida, muito mais pobre e menos capaz em áreas como tecnologia de ponta.

Se há perigos futuros para a Alemanha como potência econômica, eles nascem da relativa lentidão do desenvolvimento econômico da UE.



FOLHA - A queda do muro representou o colapso do pensamento de esquerda?

HOBSBAWM - Ela simbolizou, mas não foi a causa, da crise do pensamento de esquerda, que já vinha desde os anos 1970.Estritamente falando, ela apenas demoliu a crença de que o socialismo de corte soviético (economia planificada comandada por um Estado centralizador que eliminou o mercado e a iniciativa privada) era uma forma factível de socialismo.

Na verdade, como foi a única tentativa de realizar o socialismo na prática, seu fracasso desencorajou os socialistas como um todo -embora a maior parte deles tenha sido crítica do sistema soviético.

Entretanto as raízes da crise da esquerda retrocedem ainda mais. Ela ainda não chegou ao fim, mas o colapso do capitalismo financeiro global em 2008-9 -que foi uma espécie de queda do Muro de Berlim para a ideologia neoliberal- oferece uma chance de reabrir as perspectivas para a esquerda. Mas, espera-se, em uma base mais realista do que no passado.


Fonte: Folha de São Paulo, Caderno +Mais!, 08/11/2009.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Pão, Terra e Liberdade



A luta antifascista em Petrópolis

Por Marcos César de Oliveira Pinheiro

Machado, Paulo Henrique. Pão, terra e liberdade na Cidade Imperial: a luta antifascista em Petrópolis no ano de 1935. Petrópolis: Paulo Henrique Machado, 2008. 112p.

Muito já se falou acerca da Cidade Imperial, da sua tradição ligada à família real brasileira, em particular a figura de D. Pedro II, de seu clima aprazível, das suas belezas naturais e suas características aristocráticas, das mansões e palácios que compõem o seu centro histórico. Em grande medida, a história do desenvolvimento político, social e econômico da cidade foi retratada como a história do empreendedorismo das pessoas ilustres que nasceram, viveram ou passaram por Petrópolis. Criou-se a imagem de uma cidade tranquila e pacata, de um povo ordeiro e disciplinado no trabalho, incapaz de subverter a ordem estabelecida. Partindo da proposição de que as classes sociais, o conflito de classes e a consciência de classe existem e desempenham um papel na história, Paulo Henrique Machado mergulhou no rico passado da sua cidade, permeado por personalidades e fatos históricos, e fez emergir a luta dos trabalhadores petropolitanos por “Pão, terra e liberdade”.

O próprio título do livro demonstra uma Petrópolis viva e dinâmica, em que os conflitos sociais inerentes a essa sociedade não estão silenciados. O autor analisa a sociedade petropolitana como locus da luta de classes, a arena privilegiada da luta pela hegemonia. Ele vai além da linearidade harmoniosa da “história oficial” de Petrópolis e apresenta sua dimensão conflitual, em especial o embate “cidade operária” versus “cidade imperial”, e as relações de força presentes no momento estudado. O livro reflete uma linha de investigação, influenciada pelo historiador inglês E. P. Thompson, que tem uma preocupação em construir explicações a partir de um intenso trabalho empírico, somado a uma atitude de pesquisa que enfatiza as formas de participação dos trabalhadores nos processos sociais dos quais são parte integrante.

Em Pão, terra e liberdade na Cidade Imperial, Paulo Henrique desenvolve um estudo sobre a Aliança Nacional Libertadora (ANL) na cidade de Petrópolis, no ano de 1935. A construção da narrativa obedece a uma lógica que vai delineando as forças sociais presentes na polarização política em Petrópolis naquele ano: 1) análise da formação da cidade e os primórdios da organização do movimento operário até o ano de 1930; 2) caracterização dos principais grupos autoritários de direita do período em questão, da presença do pensamento católico conservador e da permanência da estrutura monárquica na cidade; 3) análise da luta antifascista em Petrópolis e o papel do movimento operário nesse contexto.

A criação da ANL, em março de 1935, foi uma resposta ao avanço do fascismo em nível internacional e do integralismo em âmbito nacional. Era uma frente pouco homogênea quanto à composição política. Comunistas, socialistas, “tenentes”, sindicalistas, intelectuais de renome, organizações democráticas e populares de diferentes colorações ideológicas e políticas faziam parte dela. Em torno do lema “Pão, terra e liberdade” levantavam-se as bandeiras da luta contra o imperialismo, o latifúndio e a ameaça fascista que pairava sobre o mundo.

No âmbito historiográfico, não há unanimidade na análise da Aliança Nacional Libertadora. Ainda persiste a tese das “ordens de Moscou”, em que a ANL seria uma mera extensão do PCB, atribuindo-se-lhe o simples propósito de estabelecer o comunismo no Brasil, sob a direção de Moscou. Trata-se de explicar importantes episódios da vida nacional por motivações situadas exclusivamente fora do Brasil. Os críticos dessa perspectiva argumentam que, mesmo privilegiando os fatores externos, não é possível entender os acontecimentos de 1935 sem considerar a sociedade brasileira da época, a tradição tenentista, o PCB e, muito menos, a Aliança Nacional Libertadora. Contudo, também não existe unanimidade entre os críticos da tese das “ordens de Moscou”. De um lado, aqueles que adotam a idéia do caráter tenentista da ANL; de outro, os que afirmam não haver uma continuidade dos acontecimentos de 1935 em relação ao movimento tenentista da década anterior.

O livro Pão, terra e liberdade segue a linha da última vertente. Embora reconheça a presença de militantes oriundos do chamado tenentismo, o autor afirma que, no caso de Petrópolis, “o papel de liderança da ANL foi exercido pelo movimento operário, sem a atuação de militares no diretório municipal”. Esse é o ponto alto do livro. A pesquisa realizada pelo historiador Paulo Henrique Machado demonstra não existir “o envolvimento de militares, de baixa ou de alta patente, na organização da ANL”. O autor prossegue afirmando que “o único setor mais organizado era o dos operários têxteis, cuja sede era utilizada pela ANL”.

O operariado petropolitano mostrou-se altamente combativo no ano de 1935, realizando greves e passeatas. Não se furtou ao enfrentamento com as forças conservadoras da cidade. Petrópolis virou referência nacional pelo vigor dos movimentos que sustentaram as bandeiras antifascistas em ambiente extremamente hostil. Em carta ao secretário-geral da ANL, Roberto Sisson, Luís Carlos Prestes dizia que “lutas como a de Petrópolis precisam ser preparadas e levadas a efeito em todo o Brasil. Depois de uns vinte Petrópolis a insurreição será inevitavelmente vitoriosa”. Entre as greves realizadas naquele ano, uma teve enorme repercussão nacional. Após a morte do operário têxtil Leonardo Candu, em confronto com os integralistas, os trabalhadores desencadearam uma greve geral na cidade durante mais de uma semana. O movimento, organizado pela ANL e pela Central Sindical Unitária do Brasil (CSUB), recebeu manifestações de solidariedade de todo o país. O jornal A Manhã, do Rio de Janeiro, batizou Petrópolis de “Cidade Libertadora”. Leonardo Candu transformou-se em mártir da ANL e do movimento antifascista no Brasil.

Segundo Paulo Henrique, um dos principais núcleos da ANL se formou na região porque houve uma conjugação das bandeiras de luta dos operários — como melhores salários e redução da jornada de trabalho — com o combate ao integralismo, ao imperialismo e ao latifúndio. O movimento antifascista, capitaneado pelo movimento operário, levantou também a bandeira contra a manutenção dos privilégios por parte de descendentes da família imperial em Petrópolis (o laudêmio — compensação devida ao senhorio e cobrada ainda hoje sobre qualquer transação imobiliária efetuada em algumas áreas do município), identificados como mais um elemento conservador na cidade. Então, “a luta antifascista se somou à insatisfação dos trabalhadores, contribuindo para o amadurecimento de uma consciência de classe que ficaria ainda mais clara nos acontecimentos de junho” [o assassinato de Leonardo Candu e a greve geral em seguida].
Outro aspecto relevante nesta obra é o destaque para a presença de um conjunto de forças retrógradas na cidade: o conservadorismo católico, representado por Alceu Amoroso Lima; a família imperial, que cobrava o laudêmio; os partidos nazista e fascista bem organizados; e milícias integralistas. O autor afirma que “um dos fatores que contribuíram para a vitalidade da ANL foi a existência de uma direita organizada na cidade”. Isso parece significar que a polarização política da década de 1930, em nível internacional, se apresentou de maneira exacerbada em Petrópolis, levando a uma radicalização de posições e à ocorrência de sérios conflitos entre integralistas e aliancistas.

As forças de direita eram bastante ativas no município de Petrópolis. Em março de 1935, foi realizado o II Congresso Nacional Integralista, que reuniu mais de mil delegados de todo o país vestindo suas camisas verdes. Entre 1935 e 1938, a Secção Petrópolis do N.S.D.A.P (Partido Nacional-Socialista Alemão) permaneceu realizando eventos, como revelam as reproduções fotográficas apresentadas no livro. Em abril de 1935, os nazistas petropolitanos receberam a visita do deputado alemão Arthur Kolb, na ocasião das comemorações do aniversário de Adolf Hitler. O Partido Fascista era constantemente assistido pelo cônsul italiano. Em 1938, o Fascio da cidade recebeu a visita de Bruno Mussolini, filho do Duce italiano. A Igreja Católica se articulou com os movimentos de direita da cidade. Representante do conservadorismo católico, Alceu Amoroso Lima caracterizou a ANL como a “frente única do mal” e propôs a “união das direitas” para resguardar a Igreja, a nacionalidade e a família, mesmo propósito da Ação Integralista Brasileira (AIB), cujo lema era “Deus, Pátria e Família”. Os descendentes da família imperial em Petrópolis também constituíram o que Amoroso Lima chamou de “frente única do bem”, uma vez que estavam interessados em manter o seu status quo na cidade.

Portanto, como é apontado pelo autor do livro, em Petrópolis, “a ANL possuía algumas particularidades, como a liderança do movimento operário, além de ter se tornado uma reação contra os privilégios dos descendentes da família real na cidade, contra o conservadorismo católico e contra a atuação dos partidos fascistas e nazistas”.

Apesar de alguns problemas na adequação da dissertação de mestrado ao formato de livro, o que não prejudica o essencial da obra, Pão, terra e liberdade na Cidade Imperial, ancorado em pesquisa inovadora e original, dá contribuição relevante à historiografia, tanto em relação à história de Petrópolis quanto àquela dos movimentos sociais e da esquerda no Brasil.
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Marcos César de Oliveira Pinheiro é doutorando do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ, integrante do Grupo de Pesquisa “História do PCB e do Movimento Operário no Brasil” e professor da rede municipal de ensino público de Rio das Ostras (RJ).
Fonte: A resenha foi publicada na revista eletrônica Gramsci e o Brasil, em abril de 2009.
Hoje faz um ano do falecimento do Paulo. Uma pessoa dotada de grandes sentimentos humanos. Um grande amigo. Um professor de excelência. Um soldado na luta por uma sociedade mais justa. Fica aqui registrada minha saudade. Companheiro Paulo, Presente!
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O Jogo da Burguesia




Os setores mais conservadores do Congresso Nacional e da sociedade começam a orquestrar uma nova ofensiva contra os movimentos populares, em especial o MST. A finalidade é barrar a Reforma Agrária, impedir a organização dos trabalhadores e justificar a criminalização dos movimentos sociais. Trata-se de uma represália à ousadia do MST de solicitar a atualização dos índices de produtividade agrícola, que poderá beneficiar os proprietários rurais que realmente produzem em nosso país.




Agronegócio
O agronegócio, formado na aliança das empresas transnacionais, do capital financeiro e dos fazendeiros capitalistas, está por trás da ofensiva. Pretende acabar com o nosso Movimento para garantir a expansão da monocultura (soja, cana, eucalipto, pecuária e sementes transgênicas), aprovar projetos como a flexibilização do Código Florestal e ter o monopóliosobre os investimentos públicos na agricultura.
O que esconde – O agronegócio é sustentado por volumosos recursos do governo federal. Os latifundiários acessam 34,6% do crédito, mas respondem por apenas 13,6% da produção agropecuária. Inversamente, os pequenos agricultores acessam 13,4% do crédito e são responsáveis por 56,8% da produção. Desde o início da crise, o complexo do agronegócio fechou 268 mil postos de trabalho, ou seja, é responsável por 35% das demissões. Mesmo assim, o governo federal destinou R$ 65 bilhões para o agronegócio na safra 2008/09. Além do calote de R$87 bilhões nas dívidas agrícolas que se arrastam desde a década de 1990.
Kátia Abreu e a bancada ruralista
A senadora Kátia Abreu (DEM/TO), líder da bancada ruralista no Congresso e presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), quer inviabilizar a atualização dos índices de produtividade, protegendo os latifundiários que não estão dentro da média de produtividade. Pretende fazer uma luta ideológica contra a Reforma Agrária, na defesa de um modelo agrícola baseado em grandes propriedades.
O que esconde – Kátia Abreu é suspeita de desviar recursos da Confederação Nacional da Agricultura, da qual é presidente, para sua campanha ao Senado. A CNA teria pago R$650 mil para a agência de publicidade que fez a campanha eleitoral da senadora, mas nem as despesas com publicidade, nem a doação da CNA aparecem na prestação decontas à Justiça Eleitoral.
Governo Federal
Apesar do compromisso histórico do presidente Lula e do PT com a Reforma Agrária, o governo federal está comprometido com os interesses do agronegócio e depende dos votos da bancada ruralista para aprovar seus projetos no Congresso Nacional.
O que esconde – A pauta de reivindicações do MST ao governo federal já é histórica e é composta por uma série de promessas não cumpridas, como atualização dos índices de produtividade, previstos desde 2005 e o assentamento das famílias acampadas em Felisburgo, que esperaram mais de 5 anos desde o massacre no local para serem assentadas. O II Plano Nacional de Reforma Agrária tinha a previsão de assentar 550 mil famílias entre 2003 e 2007. No entanto, segundo a Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), apenas 163 mil famílias desta meta foram assentadas, ou seja, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) cumpriu apenas 29,6% da meta.
Mídia burguesa
Os canais de televisão, jornais, revistas e páginas na internet da mídia burguesa, que formam um oligopólio familiar aliado ao capital financeiro, tentam construir a imagem positiva doagronegócio e colocar o MST como setor “atrasado” e “criminoso”.
O que esconde – Como forças da classe dominante, têm uma identificação de classe com os latifundiários, sustentando o oligopólio da terra como defendem o da comunicação. Há grupos de comunicação que são grandes proprietários de terras, como a família Saad, da TV Bandeirantes, que possui 16 fazendas no interior de São Paulo. A defesa dos meios decomunicação não é apenas ideológica, mas em interesse próprio.
Alvos da ofensiva
REVISÃO DOS ÍNDICES DE PRODUTIVIDADE – Inviabilizar o cumprimento da Constituição Federal com a atualização dos índices de produtividade, defasados desde 1975, que foi anunciada pelo governo com a pressão da jornada de lutas.
REFORMA AGRÁRIA – Impedir qualquer avanço na democratização das terras e investimentos públicos do governo nos assentamentos para viabilizar a construção de casas,estradas, infra-estrutura, assistência técnica e agroindústrias.
MST – Destruir o Movimento, desgastar a legitimidade da luta dos trabalhadores rurais e excluir do debate político nacional a bandeira da Reforma Agrária no país.
LUTAS SOCIAIS – Satanizar a organização dos trabalhadores e as lutas sociais em defesa de direitos, depois do exemplo pedagógico dos protestos e conquistas da jornada.
A estratégia da burguesia é combinada e articulada e se dá em diversos campos e simultaneamente, como num jogo de xadrez. A reação dos trabalhadores e trabalhadoras deve se dar da mesma forma, mas não no campo da burguesia. O tabuleiro dos movimentos sociais é na rua e com a construção de unidade, em torno dos direitos da classe trabalhadora, para barrar os setores mais conservadores e conseguir conquistas. Não existe outro caminho que não a luta!
Fonte: Jornal Sem Terra, número 297, outubro 2009.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Não tive tempo para ter medo"


Os 40 anos passados desde sua morte na luta revolucionária de resistência à ditadura, só multiplicaram a imagem de Carlos Marighella, como dirigente revolucionário brasileiro e latinoamericano. Identificado com os projetos revolucionários de libertação da América Latina desde a década de 30, teve um protagonismo central nos momentos mais difíceis vividos pelo PCB depois do golpe de 1964, quando debateu as razões do golpe e os novos horizontes de luta da esquerda brasileira. O artigo é de Emir Sader, de 04/11/2009, publicado em Carta Maior.

Carlos: mulato, baiano, comunista, brasileiro

Carlos é o protótipo do brasileiro. Amado na sua Bahia, com quem o povo baiano se identifica, como se identifica com Caimmy, com a Menininha do Gantuá, com tudo o que é expressão genuína daquelas terras tão brasileiras.
Filho de uma negra escrava, Maria Rita, linda, com pai de origem italiana, Augusto, Carlos é uma das expressões mais genuínas da mestiçagem do povo brasileiro. As conversas com os vizinhos da casa modesta onde nasceu e cresceu, em Salvador, as fotos com os colegas de escola, com os amigos, revelam o mulato sestroso, conversador, gentil, sensível, típico dos bairros populares da velha São Salvador.
Como quem chegou à adolescencia naqueles anos-chave da década de 30, Carlos se identificou profundamente com os projetos revolucionarios da década, antes de tudo com a lideranca de Prestes no PCB, depois da aventura extraordinaria da Coluna. Viveu Carlos aí a primeira grande experiência, que o marcaria pelo resto da vida, consolidando nele a opção revolucionária.
Não protagonizou com sua participação os grandes debates no seio do PC ao longo das décadas seguintes. Seu protagonismo ficou reservado para os momentos mais difíceis vividos pelo Partido, logo depois do golpe de 1964. Já sua resistência à prisao na Cinelândia, no Rio, poucos días depois do golpe, demonstrava a atitude de rebeldia e de resistência que Carlos imprimiria à sua atitude e à que convocava aos brasileiros.
Dessa vez Carlos foi o principal protagonista dos debates internos do PCB, sobre as razões do golpe e os novos horizontes de luta da esquerda brasileira. Ele se identificou de forma direta com a dinâmica proposta pela Revolução Cubana, que aparecia como uma alternativa real para os países em que as elites dominantes apelavam para a ditadura, diante das ameaças dos movimentos populares, optando pelo projeto norteamericano da Doutrina de Segurança Nacional.
Carlos conclamou a resistência a aderir ao projeto da luta armada, sob a forma da guerra de guerrilhas, rompendo assim com o PCB e fundando a ALN. Junto com a VPR, dirigida por Carlos Lamarca, protagonizaram a versão mais radical da resistência clandestina à ditadura militar, de que o espetacular sequestro do embaixador dos EUA – com a libertação de 15 militantes da resistência e a leitura de declaração contra a ditadura em cadeia nacional de rádio e televisão – foi uma de suas mais expressivas manifestações.
Os 40 anos passados desde sua morte na luta revolucionária de resistência à ditadura, só multiplicaram a imagem de Carlos, como dirigente revolucionário brasileiro e latinoamericano. Carlos, mulato, baiano, comunista, brasileiro.
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Lutas inglórias


São tantas lutas inglórias

são histórias que a história

qualquer dia contará

de obscuros personagens

as passagens, as coragens

são sementes espalhadas nesse chão

de Juvenais e Raimundos

tantos Julios de Santana

uma crença num enorme coração

dos humilhados e ofendidos

explorados e oprimidos

que tentaram encontrar a solução

São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas

Memória de um tempo onde lutar por seu direito

é um defeito que mata

(trecho da música Legião dos Esquecidos, Gonzaguinha)
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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Companheiro Camilo Cienfuegos, presente!!!


No último dia 28 de outubro fez 50 anos da morte de um grande nome da Revolução Cubana. Camilo Cienfuegos, que participou das atividades revolucionárias contra o ditador de Cuba Fulgencio Baptista, foi um dos mais importantes personagem da Revolução Cubana, que ao lado de Fidel Castro, Che Guevara e Raúl Castro lutaram bravamente nas batalhas pela conquista do território cubano.

Camilo morreu vítima de um acidente de avião, no oceano. Seu corpo nunca foi encontrado. Cienfuegos tornou-se um dos mártires da Revolução. Prova disso é que todo dia 28 de outubro, as crianças cubanas jogam flores ao mar, em sua homenagem.

Em seu artigo "Notícias Relevantes", de 30/10/2009, Fidel Castro anunciou que: "Por decisión del Partido y el Gobierno, desde este 50 Aniversario, su silueta de acero ilumina, junto a la del Guerrillero Heroico[Che], el fondo de la Plaza de la Revolución, montando guardia ante la estatua de Nuestro Héroe Nacional José Martí".

Jornais "independentes" fazem retorno invertido às suas origens partidárias

DEBATE ABERTO
Jornais "independentes" fazem retorno invertido às suas origens partidárias

Por Venício Lima*


29/10/2009

A imprensa – ou o de mais parecido com aquilo que hoje entendemos como tal – nasceu vinculada à política, aos políticos e aos partidos políticos.
No curso da revolução na França calcula-se que, entre 1789 e 1800, foram publicados mais de 1.350 jornais. Na Paris de 1789 e depois novamente em 1848, todos os políticos de algum destaque fundam o próprio clube e, de cada dois políticos, um dá vida a um jornal; somente entre fevereiro e maio surgem 450 clubes e mais de 200 jornais (citado in Domenico Losurdo; Democracia ou bonapartismo; Editoras UFRJ/UNESP; 2004; p. 148).
Historiadores da imprensa periódica nos países onde ela primeiro floresceu, sobretudo Inglaterra, França e Estados Unidos, concordam que ela teve sua origem na política e, numa segunda fase, se transformou em imprensa comercial, financiada por seus anunciantes e leitores.
No Brasil, as circunstâncias históricas, certamente nos diferenciam de países como Inglaterra, França e Estados Unidos. Não há distinção, todavia, em relação às origens políticas e partidárias da imprensa nativa. Escrevendo especificamente sobre “as reformas dos anos 50 (que) assinalaram a passagem do jornalismo político-literário para o empresarial”, a professora Ana Paula Goulart Ribeiro afirma:
O jornalismo que se desenvolveu, no Rio de Janeiro, a partir de 1821 (com o fim da censura prévia) era profundamente ideológico, militante e panfletário. O objetivo dos jornais, antes mesmo de informar, era tomar posição, tendo em vista a mobilização dos leitores para as diferentes causas. A imprensa, um dos principais instrumentos da luta política, era essencialmente de opinião (Imprensa e História no Rio de Janeiro dos anos 50; E-Papers; 2007; p. 25).
Outra periodização
A exceção à ordem dessa periodização – que deve ser mencionada aqui pela relevância de que desfruta na discussão contemporânea sobre a “democracia deliberativa” – é representada por Jürgen Habermas. O pensador alemão descreve a existência de uma primeira imprensa que era a principal instituição da “esfera pública burguesa” do final do século XVII e início do século XVIII, na Inglaterra e na França. Nesta “esfera pública” a imprensa se constituía em espaço mediador “neutro” e não impedia a delimitação entre as esferas pública e privada. Embora também comercial, não era ainda o empreendimento em escala industrial que corresponde a outra etapa do capitalismo quando, depois da fase político-partidária, ela se transforma em imprensa comercial moderna.
Todavia, é o próprio Habermas quem afirma:
Na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, o caminho estava preparado para a transição de uma imprensa partidária para uma imprensa comercializada mais ou menos à mesma época durante os anos 30 do século XIX. (...) Essas primeiras tentativas de uma moderna imprensa comercial devolveram ao jornal o caráter unívoco de uma empresa de economia privada destinada a gerar lucros; mas, agora, por certo, contrastando com as empresas manufatureiras dos velhos ‘editores’, dentro do novo nível atingido pela evolução da grande empresa do capitalismo avançado; já pela metade do século havia uma série de empresas jornalísticas organizadas como sociedades anônimas (Mudança Estrutural da Esfera Pública; Tempo Brasileiro, 1984; pp.216-217; tradução revisada).
Ação política conservadora
O filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo lembra que o desaparecimento dos jornais partidários e sindicais não pode ser, no entanto, explicado como resultado exclusivo de um processo econômico. Ao contrário, deve ser compreendido como parte do processo histórico de organização política e sindical das classes subalternas e da reação conservadora que se desenvolve no final do século XIX contra a expressão relativamente autônoma dessas classes. Uma ação política que incluiu também o combate ao princípio do sufrágio universal.
Tomando como referência o que ocorreu nos Estados Unidos, afirma Losurdo:
Malgrado as tentativas do patronato, que se esforça de todas as maneiras, e, sobretudo, mediante a demissão dos operários surpreendidos na sua leitura (da “labor press”) para limitar sua influência, esta não é desprezível. (...) Esta imprensa se torna o alvo e a vítima da reação conservadora que se desenvolve no final do século XIX. (...) (Os jornais partidários e sindicais) são suplantados por uma imprensa que se jacta de ser independente, mas é controlada pela grande propriedade (citado in op. cit.; pp. 159-160).
A imprensa que se autodenomina “independente” é aquela que passa a ser financiada, sobretudo, pelos anunciantes e, ao longo do tempo, busca sua legitimação no princípio liberal do “mercado livre de idéias”, externo e/ou interno à própria imprensa e, mais recentemente, através de um retorno à idéia da própria “esfera pública” habermasiana.
Mas teriam os jornais realmente se libertado de seu vínculo originário com a política, os políticos e a ação político-partidária? Teriam eles se tornado independentes?
Independência e “mercado livre de idéias”
Há mais de 60 anos, isto é, pelo menos desde a Hutchins Commission (EUA/1942-1947), a teoria liberal da independência da imprensa vem sendo “retrabalhada” e passou a se apoiar em três idéias centrais: pluralismo interno, responsabilidade social e profissionalismo.
Esse “retrabalhar” decorreu da impossibilidade de se continuar sustentando o discurso do “market place of ideas” – semelhante ao mercado “autocontrolado” de Adam Smith – em face do avanço real da oligopolização da mídia e da formação de redes regionais e nacionais de rádio e televisão. Trata-se agora de trazer o “market place of ideas” para dentro dos próprios jornais.
A idéia, no entanto, encontra dificuldades incontornáveis. Se, por um lado, a solução é inviável em sociedades onde existe uma tradição historicamente consolidada de imprensa partidária, por outro, os estudos sobre linguagem, a sociologia do jornalismo, a construção da notícia (newsmaking), o enquadramento (framing) e o agendamento (agenda setting), apesar de diferenças significativas, revelam que a prática do jornalismo profissional ocorre no contexto de uma subcultura própria; de rotinas produtivas que se transformam em normas; e de interferências editoriais – explícitas ou não – que tornam sem sentido qualquer pretensão à existência do mito da objetividade ou de uma prática jornalística neutra e isenta, vale dizer, independente.
Mídia como partido político
Foi Antonio Gramsci, referindo-se à imprensa italiana do início do século XX, quem primeiro chamou a atenção para o fato de que os jornais se transformaram nos verdadeiros partidos políticos. Muitos anos depois, entre nós, Octávio Ianni chamou a mídia de “o Príncipe eletrônico”.
Na Ciência Política contemporânea, apesar de toda a resistência em problematizar “a construção coletiva das preferências” no debate teórico sobre a democracia, já se admite que a mídia venha, historicamente, substituindo os partidos políticos em algumas de suas funções tradicionais como, por exemplo, construir a agenda pública (agendamento); gerar e transmitir informações políticas; fiscalizar as ações de governo; exercer a crítica das políticas públicas e canalizar as demandas da população.
Retorno invertido
Dentro deste amplo quadro histórico é que devemos compreender certo “mal estar” contemporâneo generalizado que está cada vez mais difícil de esconder e refere-se à crescente partidarização da grande mídia. Este não é, certamente um fenômeno restrito às democracias da América Latina, como demonstra a ousada e inédita atitude do governo Barack Obama de tratar publicamente os veículos ligados à rede FOX de televisão como “partido político de oposição”.
Se, para alguns analistas, a “crise” que a imprensa enfrenta, em decorrência da revolução digital, está levando à sua partidarização como forma (equivocada) de sobrevivência, devemos recorrer à história e verificar que, ao assumir uma posição inequivocamente partidária, a grande mídia está fazendo uma espécie de “retorno invertido” às suas origens, no contexto da reação histórica conservadora do final do século XIX.
No Brasil, a imprensa declaradamente partidária e associada a bandeiras de luta política operária teve vida curta (cf. M. Nazareth Ferreira, A Imprensa Operária no Brasil, Vozes, 1978) e, por óbvio, essa nunca foi vocação de nossa grande mídia. Por outro lado, nos países em que primeiro surgiu, a imprensa partidária, quando desapareceu, estava associada às lutas de afirmação histórica das classes subalternas.
Será possível afirmar que, na conjuntura atual, a grande mídia que abertamente se partidariza, expressa e representa os interesses dessas mesmas classes?
(*) é Pesquisador Sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília - NEMP - UNB
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Imprensa livre é imprensa privada?

Por Emir Sader
28/10/2009

A ideologia liberal – dominante nestes tempos – costuma caracterizar se um país é democrático, pelo seu regime político, fazendo suas perguntas clássicas: se há pluralismo partidário, separação de poderes no Estado, eleições periódicas e imprensa livre. Não contempla a natureza social do país, se há universalização de direitos básicos, se se trata de uma democracia social ou apenas do sistema político.
Um dos problemas dessa visão redutiva que marca o liberalismo, seccionando a esfera político-institucional do resto da formação social, é que vai buscar a resposta no lugar errado. Saber se um país é democrático é saber se sua sociedade é democrática. O sistema político é uma parte dela e deveria estar em função não de si mesmo, mas de criar uma sociedade democrática.
Mas o pior desses critérios é tentar fazer passar que imprensa privada é critério de democracia. Imprensa privada (isto é, fundada na propriedade privada, na empresa privada) como sinônimo de imprensa livre é uma contradição nos termos. Imprensa centrada na empresa privada significa a subordinação do jornalismo a critérios de empresa – lucro, custo-benefício, etc. . etc., a ser financiado por um dos agentes sociais mais importantes – as grandes empresas. O que faz com que a chamada imprensa “livre” seja, ao contrário, uma imprensa caudatária dos setores mais ricos da sociedade, presa a seus interesses, de rabo preso com as elites dominantes.
A chamada imprensa “livre” representa os interesses do mercado, dos setores que anunciam nos veículos produzidos por essas empresas, que são mercadorias, que transformam as noticias e as colunas que publicam em mercadorias, que são compradas e vendidas, como toda mercadoria.
Antes de serem vendidos aos leitores, os jornais – assim como os outros veículos – são primeiro vendidos às agencias de publicidade, que são os instrumentos fundamentais de financiamento da imprensa “livre”. “Um anúncio de uma página em Les Echos (publicação econômica francesa), com tarifa normal, rende mais do que a totalidade de suas vendas nas bancas” – diz Serge Halimi, em artigo no Le Monde Diplomatique de outubro.
São então “livres” de quê? Do controle social, da transparência do seu financiamento, da construção democrática da opinião pública. Prisioneiros do mercado, dos anúncios, das agências de publicidade, das grandes empresas privadas, do dinheiro.
Uma imprensa livre, democrática, transparente, não pode ser uma imprensa privada, isto é, mercantil. Tem que ser uma imprensa pública, de propriedade social e não privada (e familiar, como é o caso das empresas jornalísticas brasileiras).
A Conferência Nacional de Comunicacáo, a ser realizada em novembro, é um momento único para redefinir as leis brasileiras, promovendo a construçãao e o fortalecimento de uma imprensa realmente livre, democrática, transparente, pública.


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Ameaça à Soberania Sul-Americana

Reais motivos dos EUA para ter base militar na Colômbia



Ao assinar o acordo militar com a Colômbia e garantir o uso da base área de Palanquero, no centro do país, o governo dos EUA considera ter aproveitado uma "oportunidade única" de obter "acesso e presença regional a custo mínimo" numa área sob ameaças constantes, entre elas as vindas de "governos antiamericanos" como o do venezuelano Hugo Chávez.O argumento acima consta do documento do Pentágono submetido ao Congresso americano para justificar o Orçamento militar do país no ano fiscal de 2010. O texto, sancionado recentemente pelo presidente Barack Obama, inclui verba de US$ 46 milhões a ser aplicada em Palanquero.O documento solapa a retórica de Washington e Bogotá, que repetem o mantra de que o pacto militar assinado na sexta-feira -que permitirá aos EUA usar outras seis instalações além de Palanquero- visa atacar só problemas domésticos colombianos, e dá combustível às reclamações de Chávez, que vê no trato uma ameaça a seu país. Tudo isso num momento em que a tensão entre Bogotá e Caracas volta a crescer por conta de incidentes na divisa cada vez mais violenta. (...)

O documento do Pentágono submetido ao Congresso diz que Palanquero é "inquestionavelmente" o melhor lugar "para conduzir um completo espectro de operações pela América do Sul" -a importância da base já havia aparecido em documento da Força Aérea, que a inclui no esquema global de rotas para transporte estratégico global de carga e pessoal.Afirma que o investimento na base vai "melhorar a capacidade dos EUA de responder rapidamente a crises, assegurando acesso e presença regional com custo mínimo". Contribuirá também para "expandir capacidade de guerra aérea", inteligência e monitoramento.


Fonte: Folha de São Paulo, 02 de novembro de 2009.


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"Integralista não corre; voa"

Sangue na praça da Sé
Há 75 anos, batalha entre antifascistas e integralistas em SP deixou seis mortos e mais de 30 feridos graves


A batalha durou mais de meia hora", datilografou o escritor Plínio Salgado. "O conflito durou seguramente uma hora", cronometrou o jornal "A Offensiva", que o próprio Plínio, chefe da AIB (Ação Integralista Brasileira), dirigia no Rio. O jornalista Mário Pedrosa ouviu de um camarada húngaro: "Foram quatro horas de ditadura do proletariado". (...)

Naquela "tarde funesta e luminosa" de 7 de outubro de 1934, como a descreveu o escritor Paulo Emílio Sales Gomes, logo se deflagraria o que se conheceria como batalha da praça da Sé: seis mortos e ao menos três dezenas de feridos graves no embate entre antifascistas e integralistas.Os integralistas representavam a extrema direita, defensora de nacionalismo renhido, família, igreja e propriedade privada. Mimetizando fascistas italianos e nazistas alemães, formavam milícias, vestiam uniforme (verde) e proclamavam saudações ("Anauê").
No porvir, negariam identidade com os europeus.
Os antifascistas agregavam uma miríade de organizações de esquerda (...): stalinistas do Partido Comunista, trotsquistas da Liga Comunista Internacionalista, socialistas, anarquistas, sindicatos e adeptos de Miguel Costa, líder de rebeliões da década de 1920.
Para aquele domingo de 75 anos atrás, a AIB marcou uma celebração pelo segundo aniversário do Manifesto Integralista. Levou 10 mil seguidores, conforme cálculos de fontes diversas, à Sé ou aos arredores.
Seus inimigos interpretaram a iniciativa como demonstração de força inspirada na marcha sobre Roma, ofensiva fascista de 1922 que impulsionou Mussolini ao poder. Mobilizaram-se para barrá-la. (...)
Abaladas pela crise econômica, as democracias liberais pareciam naufragar nos anos 1930. Demorariam a recuperar o leme da história. Os extremos alargavam influência.Em julho de 1934, Getulio Vargas, de bom convívio com os camisas verdes, se transformara em presidente constitucional eleito pelo Congresso.
Na praça da Sé, como reflexo da polarização política, tomaram partido até os membros do aparato de segurança escalados para garantir a lei.Os agentes das delegacias de ordem política e social combateram a tiros os antifascistas. Soldados da Força Pública dispararam contra integralistas. (...)
Por volta das 15h15, ecoou a primeira saraivada de tiros sobre os integralistas. Sobreveio outra. Não chegavam a mil os partidários de Plínio já na Sé.Os milicianos da AIB reagiram e descarregaram armas contra os antifascistas. Enquanto balas zuniam, o comunista Hermínio Sacchetta e o trotsquista Fúlvio Abramo, jornalistas, discursavam.Filiados à AIB fugiam e deixavam as camisas pelo caminho, temendo serem reconhecidos e agredidos. (...)
O humorista Barão de Itararé gracejou com o apelido galinhas verdes, pelo qual detratores maldiziam direitistas: "Um integralista não corre; voa".
Somando quem perdeu a vida na praça e nos dias seguintes, noticiaram-se seis mortes -dois agentes da polícia política, um guarda civil, dois integralistas e um comunista.Foi ferido o trotsquista Mário Pedrosa, no futuro um prestigioso crítico de artes plásticas e o filiado número 1 do PT. (...)
Em seu livro "A Batalha da Praça da Sé", [Eduardo] Maffei assinalou: "Barramos o caminho ao fascismo no seu aspecto mais sanguinário". Os integralistas reencontraram os antifascistas em novas manifestações, até serem postos -como os oponentes haviam sido- na ilegalidade, em 1937.
Fonte: trechos da reportagem de Mário Magalhães. Folha de São Paulo, 01 de novembro de 2009.
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