quinta-feira, 20 de julho de 2017

João José Reis: "Poder público e setor privado têm dívida com a escravidão"

Historiador baiano, que recebe hoje Prêmio Machado de Assis, considera ‘tímidas’ as iniciativas pela preservação da memória da herança africana

João José Reis, referência mundial no estudo da escravidão no Brasil - Guito Moreto / Agência O Globo


POR BOLÍVAR TORRES

RIO - Nesta tarde, a partir das 17h, o baiano João José Reis, referência mundial para o estudo da história da escravidão no século XIX, professor da Universidade Federal da Bahia e Doutor pela Universidade de Minnesota, recebe o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, uma das principais honrarias do país, em cerimônia no Salão Nobre do Petit Trianon. A recompensa ao autor de livros como “Rebelião escrava no Brasil: a história do Levante dos Malês” (Companhia das Letras) acontece em um momento especialmente turbulento nas discussões em torno da memória da escravidão.

Localizado na Zona Portuária e recém-reconhecido pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade, o Cais do Valongo, cujas ruínas compõem os únicos vestígios materiais de desembarque de africanos escravizados nas Américas, chama a atenção pelo abandono e pela deterioração. Ao mesmo tempo em que os planos da construção de um museu da escravidão no local dividem ativistas, outro ícone da preservação da memória da região, o Instituto Pretos Novos, reclama da falta de recursos e ameaça fechar.


O historiador, que também é convidado da próxima Flip (participa no sábado, dia 29, às 12h, de uma mesa com a escritora Ana Miranda), conversou com O GLOBO por e-mail.

A história da escravidão é hoje um dos assuntos mais estudados da historiografia brasileira. Isso tem levado a um melhor entendimento das desigualdades contemporâneas?

Isso merecia uma pesquisa à parte. Não é somente a historiografia que tem tratado da escravidão com muita intensidade nos últimos anos. Além da produção acadêmica, e muitas vezes por ela informada, hoje se fala muito sobre o assunto, em filmes, minisséries, novelas etc. Isso deveria criar um elo positivo entre História e atualidade, resultando numa visão crítica e mesmo no declínio tanto do racismo episódico dos ataques pessoais quanto do racismo estrutural das desigualdades. Não vejo acontecer. Talvez seja preciso ainda mais informação, ao lado de mais políticas públicas, além das cotas raciais nas universidades e em setores do serviço público.

Houve alguma iniciativa pública positiva nos últimos anos?

Uma boa medida recentemente terminada pelo governo federal foi a obrigatoriedade do estudo da história e da cultura afro-brasileiras. Poderia ter se tornado um poderoso antídoto ao racismo, pelo esclarecimento de crianças e jovens em formação, e não apenas focando o passado escravista, mas no presente da discriminação. Nunca esse tipo de informação foi mais necessária, porque a internet e as redes sociais, pelo anonimato que possibilitam, incentivam os racistas de plantão a saírem do armário.

Recentemente, um restaurante chamado Senzala foi vandalizado por manifestantes em São Paulo. Como vê a utilização de palavras como “senzala” e “casa grande” para batizar restaurantes, condomínios e motéis pelo país?

Indica a desinformação que leva à naturalização do racismo através da manipulação de elementos da História. Os militantes negros e antirracistas estão certos em ver isso como um escárnio. Daqui a pouco teremos boate chamada tumbeiro, se é que isso já não existe. Se quem bota esses nomes em seus negócios não aprender do que se trata, é preciso ir à porta dos estabelecimentos protestar e perturbar a clientela, que também devia saber por onde anda. Isso também é método de educar.

O senhor defende a construção de um museu da escravidão no Pelourinho. A proposta de um museu semelhante no Rio vem sendo criticada. Muitos preferem um museu da herança africana, por exemplo...

Um museu da escravidão trataria da herança africana se for concebido sob inspiração da produção historiográfica recente. Os historiadores têm estudado aspectos essenciais da vida dos escravos com um olho na cultura trazida pelos africanos, no que diz respeito à família, a resistência cotidiana, a revolta e a formação de quilombos, a religiosidade etc. Por outro lado, um museu da herança africana terá que tratar de como os aportes culturais africanos se transformaram no Brasil escravista. Então não importa qual nome será dado a um museu que contemple, vamos dizer, a história do negro no Brasil em suas várias dimensões. Seu sucesso como instrumento de formação e transformação vai depender de como será concebido. Ultimamente penso mesmo que um museu da história afro-brasileira ou um museu da história do negro pudesse ser ainda mais interessante.

Algum outro museu poderia servir de referência?

O monumental museu recentemente inaugurado em Washington, nos EUA. Um museu dessa espécie no Brasil representaria superar a impressão de que a história do negro que interessa encerra com a escravidão e que a herança africana é a única forma cultural de expressão dos negros. Um museu dessa espécie seria uma oportunidade para esclarecer o visitante sobre as desigualdades raciais, a discriminação sutil e o racismo explícito, a repressão social e cultural no período pósabolição, e ao mesmo evidenciar a vida cotidiana dos trabalhadores negros e a formação de suas comunidades e manifestações culturais no campo e na cidade, suas organizações identitárias e políticas. Um museu que não represente o negro apenas como vítima, mas como pessoa inteira e complexa, que reage, luta, conquista espaços na sociedade. O Museu Afro Brasil em São Paulo, aliás, já faz muito disso.

Como vê o Cais do Valongo ser eleito Patrimônio da Humanidade pela Unesco ao mesmo tempo em que um dos poucos espaços dedicados à memória da escravidão no local, o Instituto Pretos Novos, corre o risco de fechar?

Conheço o Instituto dos Pretos Novos e o Cais do Valongo. Acho ambos tímidos para representar a magnitude do mal representado pelo tráfico de escravos, ainda mais considerando que o Rio foi o porto negreiro nas Américas onde mais desembarcaram cativos africanos. O reconhecimento do Valongo deveria servir de incentivo para a construção de algo mais significativo nos arredores, talvez o museu que antes discutimos. É uma dívida do poder público e mesmo do setor privado, pois muitas fortunas no Brasil devem sua origem ao dinheiro ganho com o tráfico e a escravidão. Aliás, essa é uma pesquisa específica a ser feita.

A escravidão no Brasil foi democrática, já que negros e pardos podiam ser donos de escravos. Uma de suas descobertas curiosas é que houve também escravos donos de escravos. Como isso era possível?

Embora existisse no meio rural, na Bahia, em Pernambuco (onde existem estudos específicos de outros pesquisadores), no Rio de Janeiro etc, o fenômeno era mais comum na cidade. Minha pesquisa por enquanto se limita a Salvador. Aqui, a posse de escravo por outro escravo estava ligada ao sistema de ganho, no qual o ganhador, ou a ganhadeira, saía às ruas em busca de trabalho remunerado e o resultado era dividido com o senhor, que naturalmente ficava com a maior parte. Muitos ganhavam o suficiente para poupar e, depois de alguns anos, usavam essa poupança para comprar bens, inclusive escravos, ou se alforriar; às vezes fazer as duas coisas. Acontecia amiúde o escravo usar seu escravo para comprar a alforria. O sistema funcionava como uma forma de controle senhorial, pois se o direito costumeiro permitia tais arranjos, caso o escravo saísse da linha o senhor podia a qualquer hora revindicar, segundo o direito positivo, tudo que pertencesse ao escravo. Ressalve-se, no entanto, que no conjunto da população escrava, a possibilidade a compra de um escravo ou da alforria não era generalizada. Na sua grande maioria os escravos morriam escravos sem escravos.

Hoje, mais de 60 % dos presos no Brasil são negros. A OAB chegou a comparar as prisões atuais com as senzalas, no sentido de que a política de encarceramento atual remete às condições vividas pelos negros na época da escravidão. Concorda com essa comparação?

Eu acho que, na média, as prisões brasileiras são piores do que foram, na média, as senzalas. Pense bem, os escravos eram propriedade, tinham valor monetário, precisavam ser preservados. Os presos pobres são descartáveis, essa é a impressão que fica. Não falo dos presos brancos de colarinho branco, que são alojados em celas especiais. Aliás, você conhece quantos pretos de colarinho branco presos? Tem algum nos cárceres da Lava Jato? Eis mais um índice, embora enviesado, da desigualdade racial no Brasil.

FONTE: O Globo

Entrevista de Anita Prestes ao Tecendo em Reverso

Anita Leocadia Prestes

Em Curso do mundo o poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856) escreveu:

Quem tem muito,logo,logo,
Muito mais vai ter ainda.
Quem tem pouco, até o pouco
Perde e fica na berlinda.

Contemporâneo de Karl Marx (1818-1883) o “último dos românticos” soube bem dissecar em sua poética o traço amargo característico dos exploradores.

Nesta mesma Alemanha nasceria em 1908 a futura líder comunista Olga Benario, posteriormente Olga Benario Prestes. A juventude na República de Weimar burilou seu senso de luta e a fez encampar a revolução proletária. Veio ao Brasil junto com o também comunista Luiz Carlos Prestes. Em 1936 foi extraditada para a Alemanha nazista, à época grávida.

Anita Leocadia Prestes (filha de Olga e Luiz Carlos) é graduada em Química Industrial na Escola Nacional de Química da antiga Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1966 recebeu o título de mestre em Química Orgânica.

Sua atuação política clandestina no Partido Comunista Brasileiro (PCB) fez com que a pesquisadora sofresse perseguição por parte do regime militar brasileiro. Assim sendo, exilou-se na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1973.

Em 1975 doutorou-se em Economia e Filosofia pelo Instituto de Ciências Sociais de Moscou.

Em 1979 volta ao Brasil. Anita durante muitos anos foi assessora de seu pai atuando nas lutas políticas.

Atualmente a pesquisadora é professora do programa de pós-graduação em História comparada na UFRJ.

Ao Tecendo em Reverso a autora falou sobre a temática do seu mais novo livro lançado pela Boitempo Editorial: Olga Benario Prestes: Uma comunista nos arquivos da Gestapo.



Tecendo em Reverso – Desde o domínio pelos soviéticos dos dossiês da Gestapo em 1945 a comunidade acadêmica não tinha notícias de detalhes relevantes sobre a Alemanha nazista. Como se deu o processo de consulta destes documentos disponibilizados em 2015 para a escrita deste livro?

ANITA LEOCADIA PRESTES – Essa documentação atualmente está disponível na Internet, o que me permitiu consultá-la e, após sua tradução do alemão, trabalhar com ela, chegando a produzir o livro “Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo” publicado recentemente pela editora Boitempo.

Tecendo em Reverso - Olga Benario foi uma jovem excepcional para sua época. De que forma sua atuação política fomentou a luta numa Alemanha tomada pela efervescência da República de Weimar?

ANITA LEOCADIA PRESTES – Olga Benario Prestes foi uma jovem que encarnou em grande medida os anseios da juventude trabalhadora da Alemanha nos anos 1920. Influenciada pelo ambiente revolucionário então presente nesse país, Olga tornou-se uma comunista atuante e disposta a dar a vida pela revolução socialista.

Tecendo em Reverso – Num momento politicamente complicado da história brasileira Olga Benario foi extraditada para a Alemanha de Hitler. Qual a sua análise hoje das justificativas políticas que desencadearam esta atitude nefasta por parte do governo brasileiro?

ANITA LEOCADIA PRESTES – Em 1936, após a derrota dos levantes antifascistas de novembro de 1935, o governo de Getúlio Vargas desencadeara violenta repressão contra todos os democratas e antifascistas, incluindo os comunistas. Meus pais, Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, foram presos e, enquanto Prestes era mantido incomunicável no Rio de Janeiro, Olga foi extraditada para a Alemanha nazista no sétimo mês de gravidez, medida ilegal e que teve como objetivo principal submeter meu pai à tortura psicológica.

Tecendo em Reverso – A prisão de Olga desencadeou uma série de movimentos ancorados na luta pela libertação dela e, posteriormente pela sua também. De que forma este apelo internacional mobilizou as autoridades alemãs?

ANITA LEOCADIA PRESTES – Após a prisão dos meus pais, iniciou-se campanha internacional pela libertação dos presos políticos no Brasil, encabeçada por minha avó paterna Leocadia Prestes. Na medida em que Olga e Elise Ewert foram extraditadas para a Alemanha e, depois, deu-se o meu nascimento numa prisão de Berlim, a campanha se estendeu a nós. Sua importância foi enorme para melhorar as condições carcerárias tanto dos presos no Brasil quanto de Olga e Elise na Alemanha e, principalmente, para garantir a minha libertação quando tinha 14 meses de idade.

Tecendo em Reverso – Segundo algumas pesquisas o judiciário de Weimar mantinha características parciais em relação aos julgados. Para a elite todos os benefícios possíveis e para a classe trabalhadora e a esquerda todas as penas cabíveis com requinte de crueldade. Esta situação desdobra-se agora em vários países. Qual a sua avaliação sobre o judiciário brasileiro na atualidade? Quais as mudanças ocorridas da época de Olga até hoje?


ANITA LEOCADIA PRESTES – Quando Olga foi presa no Brasil e estava ameaçada de extradição para a Alemanha, o Supremo Tribunal Federal rejeitou o pedido de habeas-corpus impetrado pelo seu advogado. Penso que hoje o judiciário brasileiro não atua de maneira muito diferente do que naquela época, o que nos revela o perigo permanente do autoritarismo e das tendências fascistas presentes no mundo atual. 



segunda-feira, 17 de julho de 2017

A última viagem do Mouro

Por Marcello Musto, professor de teoria sociológica na York University, Toronto, Canadá.

Artigo publicado na nova edição de Marx e o Marxismo, Revista do NIEP-Marx, v.5, n.8, jan/jun 2017.

CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA LER O ARTIGO ESTA EDIÇÃO DA REVISTA:

Resumo
Apoiando-se nas correspondências de Marx, Engels, seus familiares e amigos, o artigo descreve as circunstâncias e acontecimentos dos dois últimos anos de vida de Marx. Destaca-se, particularmente, a viagem de Marx à Argélia, motivada por tratamento médico, cuja importância muitas vezes é negligenciada mesmo em renomadas biografias. O estudo revela preocupações de Marx com a reconstituição da história universal, com a condição dos árabes, com as possibilidades revolucionárias da Rússia e com a sequência de seu trabalho teórico (O Capital).

Palavras-chave: Marx; história; biografia.



sexta-feira, 14 de julho de 2017

Palestra da historiadora Anita Prestes em Porto Alegre (11 julho de 2017)



Lançamento do Livro "Olga Benário Prestes: Uma comunista nos arquivos da Gestapo" com a presença da autora Anita Prestes. Realizada em 11 de julho de 2017, na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS (Porto Alegre/RS). O evento foi organizado pelo Projeto de Extensão CESPRI Debate, com o apoio da Linha de Cultura Política do PPG de Ciência Política da UFRGS.




Autobiografia de Pablo Neruda é relançada no Chile com textos inéditos

Nova edição de "Confieso que he vivido" ("Confesso que vivi") celebra 113 anos do autor e traz, entre outros achados, anotações sobre relação de Neruda com um de seus melhores amigos, o escritor espanhol Federico García Lorca

A Fundação Pablo Neruda lançou no Chile uma nova edição da autobiografia "Confieso que he vivido" ("Confesso que vivi") nesta quarta-feira (12/07) com 18 textos e notas inéditas do mais famoso escritor do país.

O lançamento ocorreu na data da celebração dos 113 anos do dia do seu nascimento.

Neruda começou a escrever a autobiografia em agosto de 1972 e que queria publicá-la em 1974 para celebrar os seus 70 anos. No entanto, a morte prematura do escritor, 12 dias após o golpe de Estado de setembro de 1973, impediu que a obra fosse finalizada.

Sua esposa, Matilde Urrutia, levou os textos para a Venezuela e, com a ajuda do escritor Miguel Otero Silva, terminou a obra em 1974 - que foi levada "clandestinamente" para o Chile.

Os materiais inéditos do Nobel de Literatura de 1971 foram encontrados nos arquivos da Fundação Pablo Neruda e foram compilados pelo diretor da instituição, Darío Osses.

Entre os achados, estão um caderno fechado em junho de 1973 com anotações manuscritas sobre os temas que deveria incluir no livro e o relato de seu regresso à Temuco, cidade onde passou a infância. Também foram encontradas anotações sobre a relação que tinha com um de seus melhores amigos, o escritor espanhol Federico García Lorca.

De acordo com Osses, uma das anotações que lhe chamou a atenção, foi um papel em que estava escrito "este artigo foi escrito para ser incluído nas Memórias".

"No entanto, Pablo teve dúvidas por ter que falar, inevitavelmente, sobre o tema da homossexualidade do autor do 'Romancero Gitano'. Ele se perguntava 'está o público suficientemente desprovido de preconceitos para admitir a homossexualidade de Federico sem manchar seu prestígio'", disse Osses sobre a anotação.

Para a Editorial Planeta, que reeditou a obra no Chile, o livro de mais de 500 páginas contribui para aprofundar e apresentar em grande quantidade as "confissões" da vida de Neruda, desde a narração sequencial de alguns feitos como a crônica de viagens e as reflexões do escritor.

"Neruda foi um autor privilegiado de toda a história do século 20 e um poeta de muitas vidas, que se passam pela amplitude do mundo, que transitam no meio da multidão e na intimidade", disse a editora.

FONTE: Opera Mundi


terça-feira, 11 de julho de 2017

Para download: "EL SIGLO DE LA REVOLUCION: UNA HISTORIA DEL MUNDO DE 1914 A 2017", del historiador Josep Fontana (Crítica, Barcelona, 2017)

El libro es un original enfoque de las historia del mundo desde 1914 hasta la actualidad.

«Toda la historia de la sociedad humana, hasta la actualidad —escribían Karl Marx y Friedrich Engels en 1848— es una historia de luchas de clases. Libres y esclavos, patricios y plebeyos, barones y siervos de la gleba, maestros y oficiales; en una palabra, opresores y oprimidos, frente a frente siempre, empeñados en una lucha ininterrumpida, velada unas veces, y otras franca y abierta.»


FONTANA, Josep - "El siglo de la revolución - Una historia del mundo desde 1914"

LINK PARA DOWNLOAD:

Nº de páginas: 808 págs.
Editorial: CRITICA
Lengua: CASTELLANO
ISBN: 9788416771509

Sinopsis de El siglo de la revolución:

El periodo que va de 1914 a nuestros días ha sido un siglo de luchas de liberación, de un gran enfrentamiento de clases. La revolución que se inició en Rusia en 1917 ha marcado el siglo entero. La amenaza de subversión del orden establecido determinó la evolución política de los demás, empeñados en combatirlo y, sobre todo, en impedir que se extendiera por el mundo. La culminación de esta dinámica se produjo después de la segunda guerra mundial, cuando, tras la derrota del fascismo, se organizó por una parte la guerra fría, mientras, por otra, los avances sociales del estado de bienestar servían como antídoto para evitar la penetración de sus ideas en las sociedades del mundo desarrollado. Fue así como se alcanzó aquella situación excepcional de los años que van de 1945 a 1975, cuando en los países desarrollados se registraron las mayores cotas de igualdad hasta entonces conocidas.
A lo largo de los años setenta, sin embargo, al tiempo que se hundía el poder soviético y que el comunismo dejaba de ser una amenaza interna, esa trayectoria cambió para dar paso a la reconquista del poder por las clases dominantes y a una fase de retroceso social que nos ha llevado al triunfo actual de la desigualdad. El siglo no ha sido, pues, un «siglo revolucionario», puesto que las propuestas de 1917 acabaron derrotadas, pero ha sido «el siglo de la revolución», en la medida en que estas propuestas, en su doble papel de esperanzas para unos y de amenazas para otros, han marcado toda su historia. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Como as classes populares fizeram história

por Marcus Rediker [*] 
entrevistado por Jérôme Skalski

Em Les Hors-la-loi de l'Atlantique (Os fora da lei do Atlântico) publicado pelas edições du Seuil, o historiador norte americano oferece-nos uma síntese das suas pesquisas a respeito da história da navegação à vela, matriz do sistema capitalista, mas também lutas, recalques e ideais da modernidade. 

A sua obra Os fora da lei do Atlântico oferece-nos uma síntese de trinta anos de pesquisa sobre a história da navegação à vela dos séculos XVII, XVIII e da primeira metade do século XIX. Como se inscreve o seu trabalho na corrente histórica chamada "a historia subjacente" (histoire par en bas) ? 

Marcus Rediker: A primeira coisa que gostaria de dizer é que a expressão "historia subjacente" foi utilizada pela primeira vez pelo historiador francês Georges Lefebvre, nos anos anteriores à guerra. A tradição da história subjacente (historia por baixo) à qual efectivamente pertenço, compreende historiadores franceses, mas também e principalmente ingleses, como E. P, Thomson [1] e Christopher Hill [2] , historiadores marxistas e pioneiros desse tipo de história nos anos 60. Nos Estados Unidos nos anos 70, uma versão ligeiramente diferente desse tipo de história foi desenvolvida sob o nome de "historia de baixo para cima (history from the bottom up) no sulco dos movimentos contra a guerra do Vietname, movimentos estudantis, movimentos femininos, novos movimentos operários, mas também movimentos pelos direitos cívicos e os Panteras Negras, que aspiravam a uma nova maneira de escrever a historia. Fui formado por esses movimentos. Comecei os meus estudos com o desejo de contar um outro género de história, diferente da história habitual. Nos Estados Unidos, a verdadeira ciência histórica foi suprimida pela guerra-fria. O historiador norte-americano mais representativo desta corrente foi Howard Zinn, com a sua Historia Popular dos Estados Unidos [3] que foi vendida em milhões de exemplares. O que é muito importante neste género de história, é que é não só a história dos pobres ou mesmo das classes trabalhadoras em geral, mas também a da sua capacidade de agir (agency), ou seja da sua capacidade de afectar o curso da história, não apenas como instâncias passivas do processo histórico. As suas lutas afectaram profundamente o curso da história. Para mim esse foi sempre um ponto importante: mostrar como as classes populares fizeram história e mudaram o modo como o processo histórico se desenvolveu. 

Um aspecto original da sua aproximação não é também ter descrito no mar um processo análogo ao que Marx analisa em O Capital sobre a transformação da manufactura como pivô da história do capitalismo moderno? 

Marcus Rediker: Muitas pessoas pensam que a essência do capitalismo está ligada quase exclusivamente ao trabalho assalariado. O meu trabalho foi o de sublinhar a centralidade do comércio servil, da escravatura e do trabalho forçado, no surgimento do capitalismo como sistema. O sistema servil do Atlântico, ao Brasil, às Caraíbas, ao norte da América, foi a fonte de uma enorme massa de capital. O meu ponto de vista foi em primeiro lugar quebrar as cadeias nacionais da história e mostrar que há fontes transnacionais e atlânticas dos desenvolvimentos económicos nacionais e em segundo lugar, insistir na importância do trabalho forçado nos desenvolvimentos. Outro dos meus argumentos é que o barco à vela, que se chama tecnicamente em inglês "o navio de alto mar de popa redonda" (round headed deep seaship), foi uma das máquinas mais importantes no início da era moderna e provavelmente uma das maquinas mais importantes a participar no surgimento do capitalismo. Os navios à vela e os trabalhadores que os faziam navegar cristalizaram literalmente os vários ramos desconexos da economia e um conjunto mundial. Esta maneira de considerar o navio à vela, e o navio negreiro em especial, como uma máquina dependente de um género particular do processo capitalista foi efectivamente influenciado pela minha leitura de Marx no que respeita ao processo de trabalho na manufactura. O navio à vela foi um factor decisivo na produção da força de trabalho para a economia mundial. 

Mas também me interessei pela maneira como os navios negreiros foram o vector da produção, num sentido analítico, das categorias de "raças" que viriam a dominar o capitalismo ocidental. Para dar um exemplo do funcionamento deste facto — falo mais precisamente do meu livro — havia as equipagens de marinheiros de um lado, que eram ingleses, franceses. holandeses, etc, e que trabalhavam nos navios em qualquer parte da Europa. Chegavam às costas africanas e tornavam-se "Brancos" ou melhor dizendo, eram racialisados no decurso da viagem. Por outro lado, temos um grupo multi-étnico de africanos, fantis, malinques, ashantis, etc transportados nos navios negreiros pelo Atlântico e que, quando chegavam à Jamaica, ao Brasil ou à Virgínia, se tornavam "Negros", representantes da "raça negra". O movimento através do espaço e o tempo produziu categorias raciais de análise. É um outro aspecto essencial engendrado por este processo. 

Demonstra também até que ponto a navegação à vela foi o campo de uma luta de classes frequentemente mal conhecida. Mesmo pioneira. 

Marcus Rediker: Sim, a navegação à vela como meio de trabalho totalitário foi um laboratório no qual os capitalistas e o Estado tentaram experiências para ver o que podia funcionar nos outros sectores da economia. Os marinheiros e as relações entre o capital e o trabalho, nos navios de guerra em especial, foram o campo de desenvolvimento de novas formas de relações de poder. Dos dois lados, houve experimentações e inovações. Os capitalistas tentaram organizar uma divisão complexa de trabalho para fazer funcionar essas máquinas e utilizaram formas de disciplina extremamente violentas que obrigavam os trabalhadores a colaborar, Os marinheiros, por outro lado, traduziam essa colaboração forçada em novas formas de resistência. Menciono isso no meu livro. Por exemplo, em inglês, a palavra greve (strike) vem de uma palavra que designa o efeito de abater as velas para as fazer descer (baixar as velas). A primeira greve teve lugar nas docas de Londres em 1788. Os marinheiros dos arredores baixaram as velas, pela parte de cima, para as baixar e imobilizar os navios. Nessa ocasião, a classe trabalhadora descobriu um novo poder, através da colaboração a bordo dos navios e um aprendizado para a luta. 

É espantoso, apresenta igualmente um elo entre essas lutas sociais e políticas surgidas no meio marítimo e o início da grande pirataria no início do século XVII? Pirataria Potemkine de certa maneira, fonte secreta das revoluções americana e francesa, das Luzes, do abolicionismo, ou seja do socialismo? 

Marcus Rediker: As pessoas ficam surpreendidas ao descobrir que havia uma grande criatividade entre os piratas. A minha aproximação consistiu essencialmente em partir das condições de vida dos marinheiros dessa época, colocando uma questão muito simples: porque se tornaram piratas? A resposta a essa pergunta é muito interessante, porque ela leva-nos às condições de trabalho extremamente difíceis nos navios à vela, salários muito baixos, alimentação pobre, disciplina violenta… tudo isso levou as pessoas à pirataria, por elas próprias. Quando estudamos como os piratas organizavam os seus navios, descobrimos que era uma maneira completamente diferente dos navios comerciais e dos navios de guerra. Primeiro, eram democratas: elegiam os oficiais e o capitão. Nessa época os trabalhadores não tinham quaisquer direitos democráticos. Em parte alguma do mundo! Os piratas tentaram uma experiência extraordinária de democracia. E funcionou! Por outro lado, a maneira como dividiam o saque era igualitária. É também um aspecto diverso da estrutura salarial sobre os navios mercantes ou sobre os navios da Armada Real. Os piratas eram muito ciosos da igualdade. Claro, utilizavam os seus navios para atacar a propriedade dos comerciantes e por isso os governos francês e britânico queriam aniquilá-los. Mas a outra razão pela qual procuravam exterminá-los, é que eles se esforçavam por esmagar um exemplo de subversão que demonstrava pelos factos que se podia organizar a navegação de um modo diferente da habitual. Os piratas, de certo modo, eram como os trabalhadores das fábricas, elegiam a sua direcção e mostravam como podiam organizar as fábricas de um modo simultaneamente democrático e igualitário. Isso atormentava as autoridades francesas e britânicas mais ainda do que pelo ataque à propriedade cometido pelos piratas. 

Se as autoridades conseguiram quebrar a pirataria, as suas ideias, levadas de boca em boca, pelos cais e pelas docas até ao interior das terras, conheceram uma via subterrânea até à sua actualização no decorrer dos processos revolucionários do fim do século. O meu trabalho foi seguir essas ideias através do tempo e demonstrar como se generalizaram entre as populações. Tiveram um impacto essencial no movimento das Luzes, mas também entre os trabalhadores. É o que chamei "as luzes a partir de baixo" (enlightment from below). É também, com efeito, nos navios que nasceu a consciência abolicionista. Por exemplo, um homem como Benjamin Lay, que foi um dos primeiros opositores à escravatura e que em quot8 lançou, o que foi pioneiro nesse século, um apelo a uma completa abolição do sistema servil, era marinheiro. Isso é absolutamente crucial. Foi porque era marinheiro e conhecia as terríveis condições de trabalho da equipagem nos navios, que desenvolveu um ideal de solidariedade entre todos os homens, livres, escravos, entre todos os povos e entre todos os trabalhadores da terra. 

No fim da introdução da sua obra A bordo do navio negreiro [4] escreve: "O navio negreiro é um navio fantasma à deriva sobre as águas da consciência moderna". O que quer sugerir com essa fórmula? 

Marcus Rediker: O que quero dizer é que o navio negreiro está sempre vivo quanto às consequências do que se passou. A herança do tráfico de escravos e a herança da escravatura, especialmente nos Estados Unidos, mas também na Grã-Bretanha, na França, e noutros países europeus, está ainda muito presente hoje. Está presente nas discriminações raciais, na profunda desigualdade estrutural que se apresenta nas nossas sociedades. As violências extremas feitas às populações nos bairros populares são um exemplo da permanência da herança da escravatura. Todas essas coisas remontam à história da escravatura e ao modo como a categoria de "raça" ficou institucionalizada na vida moderna. Quando digo que o navio negreiro é um "navio fantasma" quero dizer que ele ainda está connosco. A denegação é muito grande, mas a presença espectral da escravatura principalmente nos Estados Unidos, é extremamente importante, ainda é preciso muito para encerrarmos este assunto. Não somos capazes de acabar com ela porque não temos a coragem de a encarar de frente. É mais visível nos Estados Unidos porque o facto da escravatura foi vivido no território do país. A escravatura, para os europeus, foi vivida nas suas possessões coloniais, e é algo abstracto. Para os americanos foi um elemento concreto da vida de todos os dias, Há grandes diferenças entre a situação nos Estados Unidos e na Europa, mas principalmente do trabalho dos historiadores sobre os dois lados do Atlântico. A Europa não se pode considerar de fora deste problema. 

(1) Edward Palmer Thompson, La Formation de la classe ouvrière anglaise (A formação da classe operária inglesa) , Le Seuil, Colecção "Points", 2012. 
(2) Christopher Hill, Change and Continuity in 17th-Century England (Mudança e continuidade na Inglaterra do século XVII) , Harvard University Press, 1975. 
(3) Howard Zinn, Une histoire populaire des États-Unis (Uma historia popular dos Estados Unidos) , Agone, 2002. 
(4) Marcus Rediker, À bord du négrier. Une histoire atlantique de la traite (A bordo do navio negreiro. Uma história atlântica do tráfico) , Seuil, 2013. 

[*] Historiador, estado-unidense, www.marcusrediker.com 

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/... . Tradução de MA. 

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/varios/rediker_01jun17_p.html .

domingo, 9 de julho de 2017

Cais do Valongo, no Rio, é declarado Patrimônio Histórico da Humanidade

Localizado na Zona Portuário do Rio, ele é o único vestígio material da chegada de africanos escravizados no continente americano.


Por G1 Rio

Cais do Valongo, na Zona Portuário do Rio, é uma herança da chegada dos africanos escravizados nas Américas
(Foto: Divulgação \ Marcelo Mena)


O Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio, foi declarado pela Unesco neste domingo (9) o título de Patrimônio Histórico da Humanidade. Encontrado em escavações feitas durante as obras de revitalização da região, o local guarda parte da história da escravidão.

De acordo com o antropólogo Milton Guran, as ruínas do Cais do Valongo são os únicos vestígios materiais de desembarque de africanos escravizados nas Américas.

O Valongo possui cerca de 350 metros de comprimento e vai da Rua Coelho e Castro até a Sacadura. Ele começou a ser construído no no fim do século XVIII e ficou pronto em 1811. A região era desabitada na época e o acesso era difícil. Por isso, foi escolhida para sediar o porto de desembarque de escravos.

A área deixa de funcionar como ponto de entrada de escravos por volta de 1831, quando leis contra a escravidão começaram a ser assinadas. Nessa época, o tráfego passou a ser clandestino e acontecia no período noturno.

Toda a estrutura do cais foi soterrada na reforma urbanística do Rio promovida pelo prefeito Pereira Passos.

Entre os séculos XVI e XIX, 10 milhões de africanos foram levados para o continente americano. Deste total, 40% vieram para o Brasil – cerca de 4 milhões de pessoas – dos quais 60% (2,6 milhões) desembarcaram no Rio.

No Cais do Valongo, historiadores estimam que desembarcaram um milhão de escravos. Por isso, a região ficou conhecida como “pequena África”. Os escravos eram expostos nos mercados e vendidos. O destino dos que morriam logo após a longa e dolorosa viagem era o cemitério dos pretos novos.

O local ficou embaixo de construções. Durante a reforma de uma das casas, os donos encontraram vestígios de milhares de africanos.

FONTE: G1 Rio


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Anita Prestes em Porto Alegre

LANÇAMENTO DO LIVRO "OLGA BENARIO PRESTES: UMA COMUNISTA NOS ARQUIVOS DA GESTAPO" (Boitempo, 2017)
Dia 11/07/2017 - Auditório da FCE/UFRGS
18h Av. João Pessoa, 52, Centro, Porto Alegre - RS

Cuba: o que é a revolução hoje

Entrevista com Fernando Martínez Heredia - 15/12/2016



Em dezembro de 2016, poucos dias depois da morte de Fidel Castro, um grupo de 33 brasileiros viajou a Cuba para estudar sua realidade. 

O grupo foi formado por professores e estudantes de Economia, História e Relações Internacionais, de várias universidades: UNIFESP, USP, UNICAMP, UNILA, UNIRIO, UFRR. A viagem foi realizada depois de 9 meses de estudo coletivo.

Entrevistamos várias personalidades cubanas, entre elas, Fernando Martínez Heredia, que faleceu seis meses depois, em 12 de junho de 2017.

Heredia foi um aliado político de Che Guevara em defesa da centralidade das transformações culturais na transição socialista. Em 2006, ganhou o Prêmio Nacional de Ciências Sociais de Cuba.

Entrevistadora: Joana Salém Vasconcelos.
Equipe de gravação: Matheus Paschoal e Letícia Rizzotti.
Tradução e legendas: Joana Salém Vasconcelos.
Auxílio técnico: Felipe Correa.
PROJETO REALIDADE LATINO-AMERICANA 2016

terça-feira, 4 de julho de 2017

Para download: ENCICLOPEDIA DE CONOCIMIENTOS FUNDAMENTALES, UNAM – SIGLO XXI

Enciclopedia de conocimientos fundamentales : UNAM-Siglo XXI /
coord. Jaime Labastida y Rosaura Ruiz. – México : UNAM ; Siglo
XXI, 2010.

La enciclopedia de conocimientos fundamentales unamsiglo XXi reúnen trece disciplinas del conocimiento, como resultado del esfuerzo de profesores e investigadores de la unam, pertenecientes a sus tres niveles educativos – bachillerato, licenciatura y posgrado –, quienes se han dado a la tarea de establecer de manera conjunta cuáles son los saberes indispensables, fundamentales, con os que deberá contar todo estudiante egresado del bachillerato o cualquier ciudadano adulto de nuestro tiempo. Con la finalidad de complementar cada libro, siglo XXi editores ha añadido al final de cada disciplina pequeñas antologías contextos esenciales o emblemáticos de autores reconocidos y muchas veces clásicos, cuya contribución a la cultura universal constituye hoy en día una referencia obligada. En conjunto, esta enciclopedia constituye un material invaluable para fomentar el conocimiento interdisciplinario y pone al alcance de un público amplio y variado una obra de cultura general, útil para el desempeño académico y profesional. Cada volumen de esta enciclopedia lleva un dvd encartado en el forro interior, en el cual el usuario podrá encontrar videos, audios y textos, material complementario de carácter didáctico, sustentado en fuentes especializadas de la unam. El propósito no sólo ha sido el de complementar los contenidos que ofrecen los volúmenes impresos, sino el de contribuir a que estudiantes, maestros y ciudadanos en general se familiaricen con el uso de nuevas herramientas de aprendizaje y con tecnologías vigentes, propias de la sociedad contemporánea.

Tomo I Enciclopedia de conocimientos fundamentales 354 págs.
ESPAÑOL, LITERATURA


Tomo II Enciclopedia de conocimientos fundamentales 354 págs.
FILOSOFÍA, CIENCIAS SOCIALES, ARTE


Tomo III Enciclopedia de conocimientos fundamentales 542 págs.
HISTORIA, GEOGRAFÍA


Tomo VI Enciclopedia de conocimientos fundamentales 648 págs.
QUÍMICA, BIOLOGÍA, CIENCIAS DE SALUD

Para download: "Agenda para una historia radical", de E. P. THOMPSON


AGENDA PARA UNA HISTORIA RADICAL
E. P. THOMPSON
CRÍTICA/HISTORIA Y TEORÍA
Director: JOSEP FONTANA 
Impreso en España
2000

Link para download:

ÍNDICE
Agenda para una historia radical 7
Historia y antropología 15
El entramado hereditario: un comentario 45
Mary Wollstonecraft 87
EleanorMarx 97
William Morris 113
Christopher Caudwell 125
Índice onomástico 195 

domingo, 2 de julho de 2017

A Militância Comunista de Olga Benário Prestes

Lançamento do livro "Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo" (Boitempo, 2017)



Olga Benário Prestes, sem dúvida alguma, foi uma das maiores heroínas na história do movimento comunista brasileiro e internacional. Contudo, até então, há pouco conhecimento dos militantes progressistas e de esquerda sobre esta grande figura. A historiadora e militante comunista Anita Leocádia Prestes lançou neste mês o livro " Olga Benário Prestes: Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo.", neste sentido a Fundação Dinarco Reis (FDR) organiza este debate sobre a vida militante de uma das maiores militantes do PCB e do movimento comunista. Além de contar com Anita Prestes, o historiador da UFRRJ Muniz Ferreira também estará compondo a mesa.

OBS: O LIVRO ESTARÁ DISPONÍVEL PARA VENDA NESTE DIA. IMPERDÍVEL!

MAIS INFORMAÇÕES:

terça-feira, 27 de junho de 2017

Movimento de Mulheres Olga Benario recebe Anita Prestes


No evento, a historiadora Anita Prestes, filha de Olga, apresentará seu novo livro "Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo" (Boitempo, 2017)


Haverá também o lançamento da Cartilha do Movimento de Mulheres Olga Benariouma intervenção cultural com a participação de Tuca Moraes da Companhia Ensaio Aberto.

Tuca Moraes, da Companhia Ensaio Aberto


Data: 28/06
Horário: 17:30 - 22:00
Local: Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS)
Largo de São Francisco de Paula, Centro, Rio de Janeiro-RJ

Lançamento da Cartilha do Movimento de Mulheres Olga Benario
Este ano, o Movimento de Mulheres Olga Benario finalizou sua cartilha, um importante instrumento para ajudar na formação politica das mulheres e de todos que lutam por uma sociedade mais justa.

Para formar mulheres e homens na luta pelo socialismo e compreender a importância da organização das mulheres.
MAIS INFORMAÇÕES:

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Para onde vamos: socialismo ou barbárie?

Uma contribuição para o debate

Por Anita Leocadia Prestes.

Transcorrido um ano de governo de Michel Temer, não há mais dúvida de que sua posse resultou de um golpe parlamentar-jurídico, cujo objetivo central foi liquidar as conquistas dos trabalhadores brasileiros consagradas na legislação do país. Nesse sentido, são emblemáticas as propostas encaminhadas ao Congresso Nacional das reformas trabalhista e da previdência, assim como os esforços voltados para invalidar os direitos democráticos consagrados na Constituição de 1988, não obstante suas limitações, apontadas por Luiz Carlos Prestes, no que diz respeito ao artigo 142 dessa Carta, ou seja, à manutenção da tutela militar acima dos três poderes da República[1]. Artigo este usado pela primeira vez pelo atual governo para reprimir manifestação popular realizada recentemente em Brasília.


Da mesma maneira, assistimos ao desmonte da Petrobras, que está sendo entregue despudoramente ao capital internacional, e à privatização de grande parte da economia nacional. O Brasil é, assim, oferecido à rapina dos grupos monopolistas internacionais e se agrava acentuadamente sua dependência do imperialismo estadunidense e de outras potências imperialistas.

As políticas neoliberais de Fernando Henrique Cardoso não só não foram interrompidas, mas puderam prosseguir durante os governos do PT. E as próprias reformas trabalhista e da previdência tiveram curso nesses governos, assim como a desnacionalização da Petrobras e da economia nacional, embora encontrassem resistências significativas de parte de setores democráticos e populares. Quebrar tais resistências – eis a razão por que se tornou necessário para o imperialismo e os setores burgueses a ele associados perpetrar o golpe parlamentar-jurídico de 2016.

Em 2002, os compromissos assumidos pelo PT com a “Carta aos brasileiros” deram garantias ao grande capital internacionalizado de que seus interesses não seriam prejudicados, o que permitiu a eleição de Lula após três derrotas consecutivas nas tentativas anteriores para eleger-se presidente da República. Entretanto, as concessões postas em prática, mesmo as mais graves perpetradas no início do governo Dilma, ao renegar as promessas feitas durante a campanha eleitoral, não foram suficientes para, num cenário de agravamento da crise econômica mundial, atender aos propósitos dos setores burgueses identificados com os interesses do grande capital internacionalizado.

O retrocesso produzido pelos golpistas na vida nacional não deve obscurecer a responsabilidade dos governos do PT pela situação hoje presente no Brasil. Contrariando o que haviam imaginado e proposto pensadores marxistas como Florestan Fernandes, nos primeiros anos de existência do PT, o “partido dos trabalhadores” transformou-se numa versão brasileira da social-democracia europeia, com a diferença de que os conflitos sociais no Brasil, resultado de desigualdades extremas, não têm solução, mesmo que temporária, nos marcos do capitalismo, como aconteceu com o “estado do bem-estar social”, criação dos partidos social-democratas na Europa. Experiência esta hoje falida, como é do conhecimento geral.

Uma vez no governo, os dirigentes do PT incluíram em sua base aliada partidos e agrupamentos políticos comprometidos com a continuidade das políticas neoliberais que haviam constituído a essência dos compromissos assumidos com a “Carta aos brasileiros”. Estava fora de cogitação qualquer possibilidade de os novos governantes desenvolverem esforços voltados para a organização e a mobilização populares, tendo em vista a implantação de políticas favoráveis aos interesses dos trabalhadores e das grandes massas vitimadas pela exclusão social.

Pelo contrário, tanto o PT e seus aliados mais próximos, como é o caso do PCdoB, quanto os governos Lula e Dilma contribuíram para transformar a CUT e os sindicatos operários, assim como a UNE e grande parte das entidades populares, em meros instrumentos a serviço dos propósitos governistas, em meras correntes transmissoras dos desígnios petistas e governistas. Através da manipulação da opinião pública não se contribuiu para o avanço da organização dos diferentes setores populares, que foram mantidos como massa de manobra à disposição de lideranças “salvadoras” do PT, submetidos à influência carismática dessas lideranças, interessadas em impedir o protagonismo dos trabalhadores e das massas populares, empenhadas em mantê-las desorganizadas e desmobilizadas para melhor exercer seu controle.

De acordo com a cartilha neoliberal, formulada pelas agências ligadas aos grupos monopolistas internacionais, aos setores populares seria destinada uma parte dos recursos provenientes dos lucros fabulosos desses grupos, através de políticas assistencialistas – as chamadas “políticas compensatórias”-, promovidas pelo Estado brasileiro, cujo objetivo principal jamais deixou de ser a garantia da paz social. Dessa forma, tentou-se evitar as convulsões sociais e garantir o apoio popular aos governos do PT e de seus aliados, assegurando a sucessão tranquila desses governantes a cada eleição. Foram distribuídas migalhas ao povo, enquanto as multinacionais obtinham lucros fabulosos e os dirigentes do PT e seus aliados garantiam a reeleição para os principais cargos dos governos da República.

Diante da atual situação política do Brasil, a direção do PT continua recusando-se a analisar autocriticamente o comportamento dos governos Lula e Dilma. Contando com o apoio de Lula, a recém-eleita presidente do partido, afirma que “não fará autocrítica porque não quer fortalecer o discurso de seus adversários políticos”.[2] Lembremos que V.I. Lenin, o grande artífice da Revolução Russa de outubro de 1917, afirmava que os dirigentes políticos comprometidos com os interesses populares não deveriam jamais ocultar das massas seus próprios erros, recusando-se a assumir posições críticas em relação aos mesmos, pois isso abriria espaço para sua repetição. Postura que sempre foi seguida por Luiz Carlos Prestes durante sua longa trajetória política.[3]

A desmobilização popular e, principalmente, a ausência de organizações e partidos representativos dos legítimos interesses dos trabalhadores – para os quais a política do PT e dos seus aliados contribuiu de maneira decisiva -, têm como consequência a carência de lideranças populares autênticas e a tendência generalizada a buscar um “salvador” que pudesse enfrentar os desafios resultantes da situação criada no país com o golpe parlamentar-jurídico de 2016. A proposta que está sendo amplamente divulgada pelas “esquerdas” de eleições diretas com a candidatura de Lula à presidência representa a concretização de tal tendência. Lula seria novamente o “salvador” da pátria.

Semelhante solução pode ser considerada compatível com os interesses dos trabalhadores e das massas populares? A atual correlação de forças políticas, extremamente desfavorável para os setores populares, parece indicar que, mais uma vez, na história Brasil as classes dominantes ensaiam uma solução de conciliação, cuja característica principal seja a preservação dos interesses espúrios do grande capital em detrimento dos anseios dos trabalhadores e das grandes massas do nosso povo. Devido à desorganização dos setores populares, seus representantes carecem de força política para influir decisivamente nos acontecimentos.

Dessa forma, semeia-se a ilusão de que Lula possa ser a solução. Na realidade, as “elites” representativas das classes dominantes poderão admitir eleições diretas e até mesmo a eleição do ex-presidente Lula desde que uma nova “carta aos brasileiros”, recheada de concessões maiores das que foram feitas pelo PT em 2002, seja assumida como compromisso eleitoral. É ilustrativa a proposta do “tucano” Fernando Henrique Cardoso, disposto a buscar entendimento com Lula para “salvar o Brasil”.[4]

Na verdade, no curto prazo não existe uma solução que realmente contemple os anseios populares e dê resultados positivos. As “esquerdas” precisam reconhecer isso e contribuir para o esclarecimento das massas, mostrando-lhes que a disputa eleitoral e a “democracia representativa” não constituem a solução. No máximo, podem ser coadjuvantes na atividade fundamental de organização dos trabalhadores, de organização popular, e na luta cotidiana que deve ser desenvolvida em cada lugar de trabalho, de estudo e de moradia em torno das reivindicações mais sentidas dos setores populares.

Luiz Carlos Prestes enfatizava que a emancipação econômica, social e política dos trabalhadores brasileiros deveria ser obra deles próprios. Para que isso se tornasse possível, considerava necessário contribuir para a mobilização, organização e conscientização dos diferentes setores populares, assim como para o surgimento de novas lideranças e novas organizações partidárias efetivamente comprometidas com a solução radical dos graves problemas nacionais.[5]

É necessário trabalho e empenho para construir as forças sociais e políticas capazes de garantir o avanço rumo ao socialismo – o único regime social capaz de assegurar justiça social e democracia para todos. Trata-se de um projeto a ser realizado a médio e longo prazo – o único capaz de garantir soluções verdadeiras para os anseios da grande maioria do povo brasileiro.

Reformar o capitalismo deixou de ser a solução. Karl Marx escrevia que, se não se avança para o socialismo, chega-se à barbárie, algo que já estamos vivenciando nos dias atuais e que urge ser revertido através do único caminho viável – a organização popular.

NOTAS

1 Luiz Carlos Prestes, “Um poder acima dos outros”, Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 28/9/ 1988.
2 Conf. “Sem ‘autocrítica’, Gleise é nova presidente do PT”, O Globo, RJ, 4/6/2017, p. 5.
3 Anita Leocadia Prestes, Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (São Paulo, Boitempo, 2015).
5 Anita Leocadia Prestes, Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, cit.

***

Anita Leocadia Prestes, nascida em 27 de novembro de 1936 no Campo de Concentração de Barnimstrasse na Alemanha Nazista, Anita Leocádia Benário Prestes é uma historiadora brasileira, filha dos militantes comunistas Olga Benário Prestes e Luís Carlos Prestes. É doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada de UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes. Autora da ambiciosa biografia política Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (Boitempo, 2015). Assina o artigo “Luiz Carlos Prestes e a luta pela democratização da vida nacional após a anistia de 1979” publicado no livro Ditadura: o que resta da transição? (Boitempo, 2014), organizado por Milton Pinheiro.


terça-feira, 20 de junho de 2017

Para download: "E. P. Thompson: marxismo e historia social" (Siglo XXI de España Editores, 2016)

E. P. Thompson: marxismo e historia social
Julián Sanz, José Babiano y Francisco Erice (eds.)
Siglo XXI de España Editores, 2016

Link para download:

Toda la obra de E. P. Thompson, hito esencial en el modo de pensar la historia, es una notable aportación para renovar el aparato metodológico y conceptual con el que analizar nuestro pasado y presente. En sus estudios sobre la construcción de la clase obrera, mostró cómo esta no era un mero producto de estructuras económicas, sino sujeto que interviene activamente en su propia conformación: dirigió nuestra mirada a la vida cotidiana, a la cultura popular, a las reivindicaciones de los más desfavorecidos, en suma, a la experiencia como elemento decisivo en la constitución de la clase. Nos enseñó a ver la historia desde abajo. [Texto tomado de la contratapa].

domingo, 18 de junho de 2017

Anita Prestes na Faculdade de Formação de Professores - FFP/UERJ

Dia 22 de junho (quinta-feira) - 18h

Lançamento do livro "Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo" (Boitempo, 2017)


A luta de resistência de Olga Benario

por Eduardo Nunomura, Carta Capital

Documentos da Gestapo liberados agora permitem a Anita Leocadia Prestes remontar últimos dias da vida de sua mãe

Anita se encontra com o pai, Luiz Carlos Prestes, cujas cartas para Olga eram censuradas.
[Foto de outubro de 1945]


Nascida em 27 de novembro de 1936 na prisão alemã de Barnimstrasse e arrancada dos braços da mãe 14 meses depois, Anita Leocadia Prestes surpreendeu-se ao encontrar, dois anos atrás, uma lista com cerca de 2 mil folhas digitalizadas da Gestapo, a polícia secreta de Adolf Hitler.

Organizada em oito dossiês com o nome “Processo Benario”, a documentação revela em detalhes nunca antes descritos a perseguição do regime nazista à sua mãe, considerada uma “comunista inteligente e perigosa”.

A luta de resistência de Olga Benario, a companheira de Luiz Carlos Prestes, pode agora ser revista e aperfeiçoada. A comunista que não se dobrou ao nazismo dizia até o último momento ao aparato do terror alemão: “Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei”.

Em abril de 2015, boa parte dos chamados “documentos-troféus” (Trophäen-dokumente, em alemão) tornou-se pública. O acervo, com cerca de 2,5 milhões de folhas, que formam um conjunto de 28 mil dossiês, estava em mãos dos russos desde que soldados soviéticos apreenderam o material, após a derrota da Alemanha nazista em 1945.

Por 70 anos, esses documentos foram mantidos em segredo. Ao serem revelados, mostram que o “Processo Benario” compõe “talvez a coleção mais abrangente de documentos sobre uma única vítima do fascismo”, observa a filha de Olga e Luiz Carlos Prestes.

“Isso mostra como a Gestapo dava uma importância muito grande a ela. Há informes para (Heinrich) Himmler, que era o chefe supremo da SS (Schutztaffel, a organização paramilitar de proteção a Hitler) e depois foi mantenedor dos campos de concentração”, explica Anita.

“Ele era do alto escalão, diretamente ligado a Hitler, e estava interessado em saber os detalhes de como a Gestapo estava se comportando frente a Olga, o que estavam fazendo com ela.”

Um pesquisador alemão procurou a filha de Olga e Prestes para comentar sobre a abertura dos documentos-troféus. Como historiadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, hoje com 81 anos, aposentada e trabalhando em um livro de memória, Anita sabia que teria uma tarefa típica de um pesquisador.

Teria de catalogar em fichas tudo o que dizia respeito à sua mãe nos arquivos da Gestapo. Mas esta era uma tarefa familiar. Em 2001, ela e sua tia Lygia publicaram Anos Tormentosos (Paz e Terra), uma obra em três volumes com a correspondência trocada entre seu pai e sua mãe, além de outras cartas de Prestes para os familiares.

Os documentos, todos escritos em alemão, completam um quebra-cabeça antigo. O “Processo Benario”, revelado agora, forma uma imagem que Anos Tormentosos e Olga, a famosa biografia de Fernando Morais publicada pela primeira vez em 1984 pela Editora Ômega e relançada pela Companhia das Letras dez anos depois, não puderam alcançar.

“O que foi novidade, e seria para minha tia também, é esse empenho todo que os alemães tinham para que ela falasse sobre o Comintern. E a intrepidez dela, a capacidade de resistir e até morrer e não falar o que eles gostariam de saber”, afirma a historiadora. 

Olga Benario e Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”, tiveram uma relação amorosa fulminante. Em dezembro de 1934, os dois se conheceram em Moscou, ela a serviço da Internacional Comunista (o Comintern) e incumbida de cuidar da segurança dele. Para garantir a proteção ao comandante da Coluna Prestes, famosa mundialmente, os dois fingiram ser um casal.

Mas na viagem repleta de percalços de volta ao Brasil, em abril de 1935, acabaram se apaixonando e se tornaram marido e mulher. Do primeiro encontro até a prisão no Rio, em março de 1936, passaram-se um ano, três meses e vinte e dois dias. Ao ser presa, Olga estava grávida de um mês de Anita.

Procurada pelo Terceiro Reich, Olga Benario foi extraditada pelo governo brasileiro em 23 de setembro de 1936, aos sete meses de gravidez. Getúlio Vargas, à época, mantinha relações muito próximas com os nazistas. Para Anita, o ex-presidente deportou a mãe como forma de castigar Prestes. “Seria muito escandaloso submetê-lo à tortura física, como fez com outros. Então a forma de atingi-lo foi deportar minha mãe para a Alemanha.”

Submetida à “prisão preventiva”, expediente nazista para forçar pessoas a delatarem os companheiros, Olga ficou detida cerca de 2 mil dias em prisões alemãs. Foi submetida a torturas, castigos físicos e privações. Como ela não apresentava certidão de casamento, porque Olga e Prestes vieram ao Brasil como clandestinos, o governo alemão alegava que ela não tinha cidadania brasileira. 

Nesse período, uma campanha internacional lutava pela libertação de Olga. Era articulada por Leocadia e Lygia Prestes, mãe e irmã de Luiz Carlos Prestes, respectivamente. Essa rede de apoiadores foi fundamental para assegurar a troca de correspondências entre marido e mulher, ambos presos, e depois a sobrevivência do bebê e da menina Anita. Como a Gestapo exigia que todas as cartas fossem escritas em alemão, os apoiadores se revezavam para traduzi-las.

Prestes e Olga, no dia de sua prisão
[março de 1936]
Em dezembro de 1937, um memorando da Polícia Secreta de Estado alemã, encaminhado a Himmler, já indicava que Olga seria enviada a um campo de concentração. A máquina do Terceiro Reich esperava apenas o tempo para que Anita pudesse ser tirada dos cuidados da mãe, o que veio a acontecer em 21 de janeiro do ano seguinte.
Olga não pôde se despedir da filha. “Considerando sua astúcia política e que não se tratava de alguém confiável, podia-se supor que ela enviasse da prisão mensagem ao exterior nas vestimentas da criança”, justificou o diretor da prisão.

Um documento da Gestapo indica ainda que houve monitoramento de todos os movimentos de Leocadia, Lygia e o advogado que foram buscar Anita na prisão e a levaram a Berlim e depois a Paris. Já Olga passou por dois campos de concentração, o primeiro em Lichtenburg e, depois, o de Ravensbrück. As formas de comunicação foram se tornando cada vez mais escassas, espaçadas e até censuradas.

O nazismo impediu que o livro Iracema, de José de Alencar, fosse entregue a ela por descrever “a vida de luta de um combatente brasileiro pela liberdade e difama em grande medida a forma de governo ordeira”. Três países ofereceram asilo a Olga, negados pelos alemães.

Anita evita romancear a história de Olga. Prefere tomar de empréstimo as narrativas do biógrafo Fernando Morais e da escritora e jornalista Sarah Helm.

Nos campos de concentração, Olga foi impedida de se corresponder com Prestes ou qualquer outro familiar. Era a forma de obrigá-la a revelar algo sobre suas atividades no Comintern. Em suas cartas, que acabaram não chegando ao destino, ela questionava sobre Prestes, a filha aos cuidados da avó e da tia dele, e sobre o fim trágico que se aproximava.

“Anita deve poder ser criança de verdade e também ficar um pouco forte, pois quantos golpes e pancadas ainda a aguardam na vida; e quem sabe se estaremos presentes para protegê-la?”, escreveu ela ao marido.

A mãe jamais voltaria a ver a filha. Um memorando de 30 de abril de 1942, do Escritório Central de Segurança do Reich, chamava de falecimento por “insuficiência cardíaca por oclusão intestinal e peritonite” o assassinato de Olga Benario. Prestes e a família só souberam da morte dela em 1945. E Anita, algum tempo depois.

Por volta dos 5 anos, no México, ela já sabia que seus pais estavam presos por serem comunistas e lutarem contra o fascismo. “É preciso mostrar nos dias de hoje o perigo da repetição do fascismo. É importante que as novas gerações conheçam esses revolucionários e se inspirem nessas lutas, inclusive para resistir à reação que está aí hoje”, afirma.