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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

EM 21 DE JANEIRO DE 1924 FALECIA O GRANDE LÍDER DA REVOLUÇÃO RUSSA - 92 ANOS DA MORTE DE LENIN



"A INSCRIÇÃO INVENCÍVEL
No tempo da Guerra Mundial
Em uma cela da prisão italiana de San Carlo
Cheia de soldados aprisionados, de bêbados e ladrões
Um soldado socialista riscou na parede com um estilete:
VIVA LENIN!
Bem alto na cela meio escura, pouco visível, mas
Escrito com letras imensas.
Quando os guardas viram, enviaram um pintor com um balde de cal
Que com um pincel de cabo longo cobriu a inscrição ameaçadora
Mas, como ele apenas acompanhou os traços com a cal
Via-se agora em letras brancas, no alto da cela:
VIVA LENIN!
Somente um segundo pintor cobriu tudo com pincel largo
De modo que durante horas desapareceu, mas pela manhã
Quando a cal secou, destacou-se novamente a inscrição
VIVA LENIN!
Então enviaram os guardas um pedreiro com uma faca para eliminar a inscrição.
E ele raspou letra por letra, durante uma hora
E quanto terminou, lá estava no alto da cela, incolor
Mas gravada fundo na parede, a inscrição invencível:
VIVA LENIN!
Agora derrubem a parede! disse o soldado."
BERTOLD BRECHT

terça-feira, 2 de junho de 2015

Bertolt Brecht e os 80 anos do poema “Perguntas de um trabalhador que lê”

O dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht (1898 — 1956) foi um socialista que, em sua época, lutou contra o nazismo que assolava a Europa, usando a arte e a literatura como armas. Ao defender a necessidade dos trabalhadores entenderem o processo histórico que determina sua condição de vida, o poeta se tornou uma referência para os movimentos sociais.


 Por Carolina Maria Ruy







Brecht nasceu na Baviera, Alemanha, estudou medicina e trabalhou como enfermeiro num hospital em Munique durante a Primeira Guerra Mundial. Depois da guerra mudou-se para Berlim, onde trabalhou com Erwin Piscator (1893 — 1966), um dos precursores do Teatro Épico (produto do forte desenvolvimento teatral na Rússia, após a Revolução Russa de 1917, e na Alemanha, durante o período da República de Weimar).


Naquele contexto do final dos anos 1920, marcado pela afirmação do nazismo de um lado, e pela influencia socialista da recém-formada União Soviética, de outro, Brecht tornou-se um militante marxista e o principal expoente do teatro épico. Tanto como dramaturgo, como quanto poeta, seu trabalho baseado em uma contundente crítica ao sistema capitalista, tinha considerável repercussão. Antes de completar trinta anos ele já era reconhecido como um grande poeta.

Sua arte comumente tinha caráter educativo e visava criar uma espécie de consciência de classe entre os operários. Para o historiador alemão Jan Knopf, Brecht, insurgiu-se contra a representação ideológica elitista da história afirmando que só os trabalhadores podem promover as transformações necessárias para uma sociedade emancipada e igualitária. 

Entretanto, para ele apenas ser um trabalhador não seria uma condição “mágica” dotada naturalmente de potencial revolucionário. O trabalhador propenso a realizar a mudança social é aquele que se inquieta, que insiste em compreender mais criticamente o mundo que anseia por modificar. É, enfim, o trabalhador que lê e faz perguntas.

No poema Perguntas de um trabalhador que lê, de 1935, Brecht exprime o que seria essa representação elitista da historiografia e a “tomada de consciência” dos trabalhadores. Embora a poesia tenha sido escrita há oitenta anos as “Perguntas” permanecem atuais e expressam a realidade brasileira. Isso porque a história oficial, que aprendemos nas escolas através de gerações, desconsidera o protagonismo das lutas sociais e dos trabalhadores.

Leia o poema
Perguntas de um trabalhador que lê
Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas?
Nos livros estão nomes de reis;
Os reis carregaram as pedras?
E Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem a reconstruía sempre?
Em que casas da dourada Lima viviam aqueles que a construíram?
No dia em que a Muralha da China ficou pronta,
Para onde foram os pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo:
Quem os erigiu? Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares?
Bizâncio, tão famosa, tinha somente palácios para seus moradores?
Na legendária Atlântida, quando o mar a engoliu, os afogados continuaram a dar ordens a seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César ocupou a Gália.
Não estava com ele nem mesmo um cozinheiro?
Felipe da Espanha chorou quando sua armada naufragou. Foi o único a chorar?
Frederico 2º venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem partilhou da vitória?
A cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias,
Tantas questões
(Berthold Brecht, 1935)
_______________________________________
Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora de projetos do Centro de Memória Sindical

FONTE: Centro de Memória Sindical

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Dialética Proletária*

Por Bertolt Brecht**

“Não se pode escrever peças inteligentes hoje em dia sem conhecer as teorias de Marx” (Brecht) 


Posto que a burguesia produz o proletariado e que cresce em seu seio em um permanente conflito de interesses, que todavia é deslocado e posto na sombra por conflito das duas classes contra outras classes, a concepção de vida da classe proletária depende também da classe que o produz. A burguesia produz a dialética como sua maior criação filosófica. Esta é um modo de consideração que busca e encontra, em formações que surgem unitariamente, contradições crescentes; é um modo de consideração que guia o interesse para as mudanças, transformações violentas, evoluções.

Esta dialética, esta filosofia da revolução experimenta sua grandiosa construção (em Hegel) em uma época em que a burguesia havia passado já mais ou menos por uma revolução e se encontra entregue já à conciliação das contradições de interesses, ao emperramento da evolução, tanto que todavia segue e se vê forçada a completar sua revolução. 

A construção da dialética por Hegel tem lugar na relação com o proletariado crescente, sob a pressão para a burguesia de produzir cada vez mais proletariado e de obstaculizar cada vez mais sua ameaçante emancipação. O proletariado adota como filosofia da revolução primeiramente a [filosofia] burguesa. A adota em um surpreendente ato de criação. Esta adoção é uma expropriação, esta aplicação é uma aniquilação. Assim como a burguesia faz tudo quanto está em suas mãos para explorar, em sua exclusividade, a revolução contra o feudalismo, assim também dá a luz a uma dialética que mostra todos os sinais de uma degeneração violenta. 

A obscuridade da linguagem hegeliana é a obscuridade de uma linguagem secreta: o mundo está em decadência, a humanidade se transforma. A imagem de Hegel tem isto em conta, porém a burguesia recém chegada, a classe que para fazer sua revolução necessitou de outra classe, do proletariado, e que para consolidar sua dominação deve fortalecer cada vez mais esta classe; a burguesia é um mal e inibido introdutor da dialética. 

O melhor introdutor é, por sua situação, o proletariado. A burguesia, contemplando a história, escreve uma história de transformações. Porém, este escritor não está em condições de declarar eficazes para o presente ou nem sequer para o futuro os princípios que encontra no passado: “houve história, (porém) já não há” [Hegel]. Bem, outro escritor escreve mais além: a dialética proletária (substituindo a capitalista) (se transforma em sentido materialista e se realiza pela ação) [Marx]. 

###### 
* Tradução de Nildo Viana. 
 
Nota: Este texto de Brecht foi provavelmente escrito durante seu exílio em Svendborg. Este fragmento não foi, até agora, publicado em livro. As notas entre parêntesis são de Karl Korsch, que fez alguns apontamentos nas margens do manuscrito e elas foram parcialmente recuperadas e aqui acrescentadas e as notas entre chaves são do tradutor. 
 
** Bertold Brecht, nasceu em 10 de fevereiro de 1898, em Augsburgo, Alemanha; com formação em Medicina e Ciências naturais, acaba se dedicando ao teatro, escrevendo sua primeira peça com 20 anos de idade (1918). Passa a morar em Berlim a partir de 1924, que é quando conhece o teatro político de Erwin Piscator e começa a estudar o marxismo. Torna-se amigo de Karl Korsch e se envolve no debate sobre estética com Lukács e outros pensadores considerados marxistas. Com a ascensão do nazismo abandona a Alemanha e mora em vários países europeus, bem como nos EUA, continuando o seu trabalho na área do teatro e cinema. Morre em 14 de agosto de 1956.


FONTE: Revista Sociologia em Rede, vol. 3, num. 3, p. 73-74, 2013. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Bertolt Brecht: Passado e presente juntos por um novo teatro


No dia 10 de fevereiro de 1898, nascia um dos maiores dramaturgos da história do teatro mundial: Bertolt Brecht. O autor, que se fosse vivo completaria 115 anos no próximo domingo, se destacou ao propor uma nova maneira de fazer teatro, com uma linguagem que pudesse ser acessível a todos, e uma plateia mais participativa. Mesmo hoje, tantos anos depois, o dramaturgo continua influenciando grupos teatrais que buscam um teatro crítico e popular. 


Nascido na Alemanha, o escritor estudou medicina e chegou a trabalhar como enfermeiro durante a Primeira Guerra Mundial. No entanto, foi a paixão pelo teatro que impulsionou a vida de Brecht. A partir de 1929, o dramaturgo deu início à formulação da sua teoria do teatro épico, de base crítica e sem a pretensa ilusão da realidade, tão comum nos espetáculos feitos até então. De acordo com o crítico literário e teatral José Antonio Pasta, o escritor alemão foi um dos primeiros a conseguir equacionar a relação do épico com o dramático. 



– Brecht foi o artista que acertou o relógio do teatro com a modernidade. Ele amadureceu as tendências épicas que ainda estavam em germe. Criou um teatro de militância, mas sem nunca abrir mão do maior rigor estético. Brecht provou que militância política e invenção formal não são exclusivas – ressalta. 


Nessa época, final dos anos 20, Brecht associou sua militância aos movimentos políticos que existiam na Alemanha, até a tomada pelo nazismo. A partir de então, no exílio, em países como França, Dinamarca, Finlândia e Estados Unidos, foi que o escritor escreveu algumas das suas peças mais famosas e que melhor representam suas teorias, como “Terror e Miséria do Terceiro Reich”, “Os Fuzis da Sra. Carrar”, “A Vida de Galileu”, “Mãe Coragem e Seus Filhos”, “A Boa Alma de Setsuan”, entre outras. 

A “epicização” aceita por Brecht sintetizou algumas das mais importantes transformações no meio teatral, dividindo a história do teatro ocidental em antes e depois de Brecht. Defensor da contradição, o dramaturgo introduziu técnicas de efeito de distanciamento em todas as relações do teatro, fosse entre espectador e peça, ator e personagem, música e cena, de forma que todo o espetáculo se transformasse em um consenso de contradições. 

– Brecht, acima de tudo, é um grande poeta. Trouxe o teatro épico, tornando os acontecimentos aparentemente mais banais em “fatos históricos”, transparentes à historia do mundo. Eliminou a cortina, as bambolinas (panos pretos), que cobriam os refletores, fez o ator dirigir-se ao público e atuar na terceira pessoa, aplicando o efeito “V” (o “afastamento”) para destacar a ação de uma interpretação dramática e causar estranheza no que parece natural – destaca José Celso Martinez Corrêa, diretor do Teat(r)o Oficina.

Ao voltar para a Alemanha, em 1949, Brecht pôde, finalmente, realizar no palco suas propostas, fundando ainda o grupo teatral Berliner Ensemble, ao lado da mulher Helene Weigel. No entanto, Brecht teve pouco tempo para colocar em prática tudo o que havia desenvolvido até então. Vítima de um ataque cardíaco, o dramaturgo morreu no dia 14 de agosto em 1956, mas não sem antes deixar um legado que vem influenciando grupos de teatro até hoje.

José Pasta destaca que Brecht construiu uma obra com um repertório de aproximadamente 40 peças adequadas às mais diferentes relações políticas e sociais, para que os grupos teatrais pudessem escolher o mais adequado ao seu perfil. Preocupado com a durabilidade do seu trabalho, Brecht tinha consciência da importância de criar um teatro modelar e duradouro, para que pudesse ser adotado independente dele. Sobre isso, o crítico relembra uma citação do dramaturgo: “Tenho que dar às minhas propostas uma forma duradoura, porque muito tempo se passará até que possam ser ouvidas”.



De fato, muitos anos se passaram entre a criação dos textos e suas primeiras encenações. Contudo, sua marca segue presente no trabalho de grupos como o Teat(r)o Oficina, Tá na Rua, Companhia do Latão, entre tantos outros, que operam a partir do legado brechtiano. 

– Brecht é um autor que provoca e por isso gera círculos em torno dele. Estamos vivendo hoje um momento de atualização das propostas dele com foco no espectador, nesse teatro de performance. Eu costumo dizer que Brecht é um autor brasileiro, porque ele perpassa toda a história do teatro no Brasil, passando pelo Oficina e influenciando grupos até hoje – explica Ingrid Koudela, professora de pós-graduação da ECA-USP.

O legado de Bertolt Brecht no teatro contemporâneo

Criado em 1958, o Teat(r)o Oficina, localizado em São Paulo, tornou-se uma das mais importantes companhias teatrais brasileiras. Após o incêndio que destruiu as estruturas do teatro em 1966, Zé Celso pediu ao cenógrafo e arquiteto Flavio Império que construísse um Teatro Brechtiano. A inauguração foi marcada pela encenação de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade.

– Passamos a ler Brecht a partir de Oswald. Assim foi a encenação de “Galileu Galilei”, que juntava o coro recém-massacrado de “Roda Viva” com os protagonistas de “O Rei da Vela” e outros convidados. Depois, com a chegada de Lina Bardi, que fez a arquitetura cênica de “A Selva das Cidades”, do jovem Brecht, fomos caminhando para a forma atual do Terreiro Eletrônico do Teat(r)o Oficina, chamado hoje Rua: Lina Bardi – detalha Zé Celso.

Em dezembro do ano passado, o Teat(r)o Oficina encenou o musical “Acordes”, escrito por Bertold Brecht em 1929, como reação à filiação do piloto Charles Linderbergh, para quem tinha escrito a peça “Vôo Sobre o Oceano”, ao partido nazista. Fiel estudioso das peças e estudos teóricos de Brecht há mais de 40 anos, o diretor explica a influência do dramaturgo na trajetória do Oficina:

– Fomos além de mostrar os refletores, de atores dirigindo-se ao público.

Escancaramos todo o espaço cênico como um terreiro e fora dele nas ruas, como espaço de atuação. Como Brecht, nos liberamos do “drama”, mas criamos uma via para o teatro absolutamente original no mundo, um teatro, como diz o poeta Oswald, “De Exportação”.

Outro grupo que segue a doutrina proposta por Brecht é o Tá na Rua, criado a partir da vontade de fazer um teatro que pudesse promover discussões políticas, sociais e culturais e que, para José Pasta, traz o teatro para o “chão dos homens”. De acordo com Amir Haddad, fundador da companhia, mesmo quem nunca ouviu falar de Brecht se beneficia, de alguma maneira, da liberdade trazida pelo escritor.

– Brecht queria uma linguagem que fosse acessível a todos. Queria fazer um espetáculo que provocasse o público como uma luta de boxe fazia, ele queria uma plateia participante. Hoje, ao fazermos nosso trabalho, muitas vezes pensamos: Nosso Brecht ia gostar disso. Na rua, você tem uma plateia mais heterogênea que te permite modificar sua maneira de trabalhar – observa Haddad.

Bertold Brecht abriu as portas do teatro e entrou para história da dramaturgia mundial, fazendo-se presente até hoje. Mas nem sempre foi assim. Apesar da importância em torno do dramaturgo, segundo a professora Ingrid Koudela, é comum haver, em certos momentos, um silêncio em torno do Brecht, opinião compartilhada pelo crítico José Pasta:

– Muitas vezes há mais do que um silêncio em torno do Brecht. Costuma haver uma difamação dele, há uma batalha permanente em torno da sua figura. Hoje, ele é uma presença: quando não consciente no teatro de grupo, é inconsciente e atua na formação dos atores. Ele é uma presença real e viva no teatro contemporâneo.

Amir Haddad complementa:

– Brecht é cada vez mais atemporal. Quanto mais se avança a história, maior a necessidade de se pensar um teatro que aponte para o futuro e não há como fazer isso sem passar por Bertolt Brecht.

FONTE: Globo Teatro

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Tens de assumir o comando!!!!! Conhecimento e emancipação da classe trabalhadora


Bertolt Brecht (1898-1956), poeta, dramaturgo e revolucionário alemão, escreveu esses versos para enfatizar a importância do conhecimento como instrumento indispensável da classe trabalhadora na sua luta pela emancipação.


Elogio do aprendizado

Aprende o que é mais simples! Para aqueles
cujo momento chegou,
nunca é tarde demais.
Aprende o ABC: não basta, mas
aprende-o! Não desanimes!
Tens de assumir o comando!
Aprende, homem no refúgio!
Aprende, homem na prisão!
Mulher na cozinha, aprende!
Aprende, sexagenário!
Tens de assumir o comando!
Procura a escola, tu que não tens casa!
Cobre-te de saber, tu que tens frio!
Tu, que tens fome, agarra o livro: é uma arma!
Tens de assumir o comando!
Não tenhas medo de fazer perguntas:
não te deixes levar por convencido,
vê com teus próprios olhos!
O que não sabes por experiência própria,
a bem dizer, não sabes.
Tira a prova da conta:
és tu quem vai pagar!
Aponta o dedo sobre cada item,
pergunta: como foi parar aí?
Tens de assumir o comando!


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

“O pior analfabeto é o analfabeto político"



Chile: o triunfo da “antipolítica” e seus legados

Por Atilio A. Boron


Uma visita a Santiago e Valparaíso e uma série de intensas reuniões com jovens de diferentes movimentos sociais do Chile nos permitiu calibrar os alcances do triunfo ideológico do neoliberalismo nesse país e os funestos legados da ditadura pinochetista. Como é sabido, para esta, a política era igual à politicagem e corrupção e a missão salvadora de Pinochet – não só um assassino sanguinário, mas também um ladrão vulgar, como se comprovaria com a descoberta de suas várias contas secretas nos bancos dos Estados Unidos – requeria eliminar a política da vida pública chilena. Daí a metódica pedagogia do poder despótico dirigida a desqualificar qualquer iniciativa social baseada em estratégias e/ou em sujeitos coletivos. A salvação neste mundo era um assunto estritamente individual, e quem não entendesse essa verdade elementar só acentuaria seus problemas e, além disso, contribuiria para a dissolução nacional.


O exacerbado individualismo constantemente proclamado por dois infames Prêmios Nobel de Economia que visitaram o tirano – Milton Friedman e Friedrich von Hayek – valia tanto para a economia quanto para a política, a sociedade e a cultura. Com a sucessão de Pinochet por uma conivente Concertación e, mais tarde, pela direita ainda mais complacente da Alianza, com Sebastián Piñera à frente, a continuidade do pinochetismo se verificou não apenas na política econômica – que é o viés mais conhecido – mas, sobretudo, no plano da cultura política. Nem a Concertación, que esteve no La Moneda durante nada menos que vinte anos, nem a Alianza fizeram qualquer tentativa de reverter os criminosos legados do pinochetismo, que, de acordo com Bertolt Brecht, poderíamos caracterizar como a sistemática promoção do “analfabetismo político.”


O analfabeto político detesta a política e não sabe que sua “antipolítica” é uma forma de fazer política que beneficia seus opressores. Essa atitude, ampliada na época de Pinochet, não fez senão crescer no frustrante período “democrático” que lhe sucedeu. A indiferença governamental diante do aumento da desigualdade e da injustiça social em um dos países que, no passado, figurava junto com a Argentina, Costa Rica e Uruguai como um dos mais igualitários do continente, terminou por desiludir profundamente os cidadãos e, sobretudo, as jovens gerações. Nelas, a aprovação popular dos partidos políticos e do Congresso oscila em torno de apenas 10%. O grau de desprestígio dos partidos é tão marcante que, nos panfletos das candidaturas a vereadores e a prefeitos para as eleições do dia 28 de outubro, só aparecem a foto, o nome e o número de identificação do candidato, mas sem mencionar o partido político ao qual pertence. Só excepcionalmente alguém apela para o photoshop para colocar, ao lado de sua foto, a foto de Michelle Bachelet. Não vimos ninguém que tivesse a ousadia de se colocar junto do rosto incompreensivelmente sorridente do presidente Sebastián Piñera. Em suma: não há partidos, não há ideologia, não há apelação a um sujeito coletivo, não há utopia que alcançar e pela qual lutar; mas, de repente, quase milagrosamente, pode aparecer uma palavra de ordem invariavelmente de corte tecnocrático e um indefinido apelo ao "povo".


 Afortunadamente há outro Chile, que não aparece no plano oficial, onde está a juventude, que toma as ruas para exigir educação gratuita e de qualidade e, além disso, o abandono do asfixiante modelo neoliberal. E onde também estão os mapuche, sobre os quais vamos nos referir mais abaixo. A contrarreforma universitária de Pinochet (e continuada por seus sucessores) fez com que fosse introduzido o ensino pago nos cursos de graduação e pós-graduação das universidades públicas, ou seja, foram sendo privatizadas, enquanto proliferavam muitas instituições privadas, algumas delas fundadas pela Opus Dei ou pela Legião de Maria e outras, diretamente vinculadas a grandes grupos econômicos que necessitam formar seus quadros na certeza de que nenhuma ideia minimamente crítica irrompa para perturbar a absoluta coerência de seu imaculado neoliberalismo e seu culto ao hiperindividualismo.
O modelo dessas instituições, nas públicas (se é que se pode chamar assim) e sobretudo nas privadas, é o dos colleges estadunidenses: copiam suas formas e aparências externas tanto quanto o conteúdo de seus currículos, quase sempre muito reacionário (sobretudo nas ciências humanas e nas ciências sociais). As universidades privadas constituem um sistema marcadamente estratificado: de um lado, temos as já mencionadas, que preparam cuidadosamente a futura elite política e econômica do Chile; de outro lado, as outras, de baixíssima qualidade, que fazem seu negócio lucrando com o desespero dos setores médios que ainda sonham com a mobilidade social via educação. A tarifa média dos estudos de graduação, para obter uma licenciatura, é de cerca de 600 dólares mensais, a pagar durante dez meses. Porém, o rendimento de uma família de classe media, trabalhando pai e mãe, é de pouco mais do que isso. O resultado: um massivo endividamento com a esperança – certamente bastante ilusória – de que os futuros formandos encontrarão um trabalho adequadamente remunerado para pagar os empréstimos contraídos para financiar seus estudos.

Diante da iminência das próximas eleições municipais, vários setores da juventude estão debatendo a atitude que vão tomar. São muitos os jovens críticos das políticas oficiais que, a favor da recente modificação da legislação eleitoral – que inscreve automaticamente os eleitores e consagra o caráter voluntário do sufrágio (enquanto que antes a inscrição era voluntária, mas votar era obrigatório) –, consideram que o modo de manifestar seu repúdio ao sistema é abstendo-se de votar. Dado que não veem alternativas reais (e não apenas não se veem, mas que por ora não há), o melhor, dizem, é demonstrar seu repúdio pela sua ausência. Permitimo-nos discordar desse critério porque se há algo que as classes dominantes querem é precisamente isto, que o povo soberano não vote, não se informe, não participe. Desde os debates da convenção constituinte dos Estados Unidos, em 1787, até a obra de teóricos neoconservadores, como Samuel P. Huntington e seus colegas da Comissão Trilateral dos anos de 1970, a direita invariavelmente coincide em colocar obstáculos à concorrência eleitoral, estimulando o absentismo das urnas para conjurar o perigo de uma plebeia “tirania das maiorias.” Por se reproduzir, o massivo absentismo juvenil, longe de preocupar a conservadora classe política chilena, seria um incentivo para que nada mude e tudo fique como está. Seria interpretado, seguindo a mais estrita lógica do individualismo neoliberal que impregna as altas esferas do Estado, como um cheque em branco outorgado ao governo pelos ausentes, os quais, como bons atores “egoístas racionais”, preferem ficar em suas casas porque entendem que as coisas estão bem, uma espécie de consenso tácito lockeano; ou, sob outra hipótese, porque não teria sentido, desde o derrotismo da análise “custo-benefício”, se preocupar em ir votar resignados como estavam diante da absoluta impossibilidade de se mudar algo.

A opção absentista é promovida por um amplo setor da juventude ganho por uma difusa e inconstante mescla de autonomismo e anarquismo pós-moderno, que involuntariamente termina favorecendo os planos da direita, sempre interessada em reduzir ao mínimo a participação eleitoral. Não é um dado menor que hoje seja esse grupo que presida a FECH, a Federação de Estudantes da Universidade do Chile. Outro setor, majoritariamente vinculado ao Partido Comunista Chileno, acredita que se deve participar e acompanhar com seu voto o recente acordo entre essa força política e a Concertación. Não obstante, é um acompanhamento relutante porque não são poucos os que na Juventude Comunista temem, com razão, a diluição de sua identidade partidária, ou o custo que teria de se pagar pela associação com uma força política tão desprestigiada como a "Concertación". Finalmente, há um núcleo emergente de inspiração marxista e (afortunadamente), não dogmático, nucleado na UNE, União Nacional Estudantil, que neste momento ainda debate a postura a se adotar. Nossa opinião é que melhor seria que essa juventude – que, com tanta valentia, ganhou as ruas em 2011 e resistiu à violenta repressão dos carabineiros – fosse votar, e o fizesse em um personagem que, não sendo candidato, sintetizasse suas aspirações. Esses votos seriam anulados, porém isso é o de menos. Acreditamos que, se no próximo domingo, aparecesse uma grande quantidade de votos a favor de, digamos, Salvador Allende, a classe política chilena daria conta de que o solo está se movendo sob seus pés e que poderia estar se gestando uma alternativa até agora inexistente.


A longa batalha dos mapuche é outro alentador exemplo de que, como dizia Galileu em relação à Terra, a vida política chilena “no entanto se move”.  Suas heroicas lutas pela recuperação de suas terras e direitos ancestrais é reprimida de uma maneira sanguinária: se a repressão aos estudantes exibe o ensaio próprio do ódio classista, no caso dos mapuche isso se potencializa ao se combinar com um escandaloso racismo, amparado pela implacável aplicação da legislação antiterrorista instituída por Pinochet em 1984. Um exemplo claríssimo da baixa qualidade da “democracia” no Chile – erigida pelo saber convencional das ciências sociais como o modelo político a ser imitado – nos oferece o fato de que os governos que lhe sucederam não só não revogaram o monstrengo repressivo do tirano, mas também o aperfeiçoaram. Julgamentos fraudados, condenações absurdas e injustas, greves de fome a que o governo responde com indiferença criminosa, ataques a mulheres, anciãos e crianças indefesas e assassinato de militantes configuram um quadro – certamente silenciado pelos oligopólios midiáticos – que faz com que o Chile, ao sul do rio Bíobío, se identifique mais com a Colômbia do que com o resto do país. Como afirma um dos líderes mapuche, Pedro Cayuqueo, as forças especiais dos carabineiros atuam na Araucanía com a ferocidade de umpitbull fora de controle. O governo de Piñera, assim como fez a ditadura genocida argentina, sustenta que as forças da ordem se “excedem” em seu zelo repressivo. Não obstante, é o governo que tem o dever de impedir que o pitbull fardado prossiga semeando destruição e morte em terras mapuche – mas não o faz.


As mobilizações estudantis e mapuche contrastam vivamente com a esclerose que afeta as formações partidárias e, em boa medida, ao debilitado sindicalismo chileno. Apesar de serem vigorosas e merecedoras de todo apoio, seu foco temático e sua descontinuidade, sobretudo no caso dos estudantes, conspiram contra sua eficácia prática. Um exemplo disso foi a nula resistência popular ante a recente instalação de uma base militar dos Estados Unidos em Fuerte Aguayo, em Concón, poucos quilômetros ao norte de Valparaíso. Essa base, subordinada ao Comando Sul, se especializará no treinamento militar requerido por um programa do Pentágono denominado MOUT (Military Operations on Urban Terrain), ou seja, “operações militares em terreno urbano”, ou, falando sem eufemismos, treinamento de forças especializadas na repressão ao protesto social. Washington e Santiago negociaram esse acordo no mais absoluto sigilo – outra característica da tal “democracia” – e, quando a notícia foi divulgada, a propósito da visita ao Chile do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Leon Panetta, em abril deste ano, a base, construída em tempo recorde, já havia sido estabelecida. Porém, nem antes nem depois houve marchas ou manifestações repudiando tal maquinação ou exigindo o desmantelamento da base.


Essa passividade é um dos piores legados da “antipolítica”, da longa noite pinochetista e da densa sombra que seus sucessores projetam. Uma passividade estimulada pelo descrédito de tudo o que seja público, coletivo, político. Na contracorrente, os jovens chilenos e os mapuche estão fazendo uma obra extraordinariamente importante para seu país: é um exemplo de contestação em uma sociedade desmobilizada e resignada, entorpecida pela publicidade consumista e submetida a um brutal processo de reeducação política que, no próximo ano, cumprirá quatro décadas. Uma sociedade, também, oprimida por um nível de endividamento que generaliza a angústia das famílias mais pobres ao mesmo tempo que abarrota os cofres dos bancos.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social do Chile, os setores mais pobres destinavam, no começo deste ano, 60% de suas rendas para o pagamento de suas dívidas, devendo sobreviver com os 40% restantes. Em situações tão desesperadoras como essa é difícil poder pensar e atuar politicamente, a menos que se tenha uma clara consciência política. Com suas lutas, os jovens estudantes e os mapuche demostram que nem tudo está perdido, que há futuro e que, talvez, no ano próximo, quando estará fazendo quarenta anos do martírio de Salvador Allende, sua lembrança acenda os corações de seus compatriotas e os impulsione a concluir uma obra que o criminoso golpe militar de 11 de setembro de 1973 fez com que ficasse inconclusa. Poderia, desse modo, iniciar o crepúsculo da “antipolítica”, para derrubar o já aludido “analfabetismo político”, metodicamente alentado como uma estratégia de dominação pelo pinochetismo e seus sucessores.


A propósito disso, Brecht recordava que “o pior analfabeto é o analfabeto político. Não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do pão, da farinha, do vestido, do sapato e dos remédios depende de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e enche o peito dizendo que odeia a política. Não sabe que de sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político corrupto, mequetrefe e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”


Oxalá que essas sábias palavras do comunista alemão possam ser difundidas massivamente pelos movimentos que lutam por outro Chile. Seria uma maneira muito apropriada de combater um dos mais ameaçadores legados do pinochetismo.


Tradução: PCB – Partido Comunista Brasileiro


FONTE: Atilio Boron


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Analfabeto Político





O Analfabeto Político

Bertolt Brecht (1898-1956)

 


O pior analfabeto é o analfabeto político.


Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.


Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.


O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.


Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.




terça-feira, 16 de março de 2010

“Aos que virão depois de nós”

“Cheguei às cidades num período de desordens, quando aqui a fome reinava. Vim para o meio do povo quando imperava a revolta, e cresci com ela. Assim passou-se o tempo que me foi concedido nesta Terra (...) Mas vós, que renascereis do dilúvio no qual nós nos afogamos, pensai também, quando falardes de nossa fraqueza, na sombria época de que haveis escapado.

Nós caminhamos, mudando de país mais do que de sapatos, através da luta de classes, confundidos, quando havia apenas injustiça e não protesto. E ainda assim sabemos: o ódio, mesmo contra a degradação, contorce as feições. A ira, mesmo contra a injustiça, torna a voz áspera. Ah, nós que queríamos preparar o chão da amizade, não pudemos, nós mesmos, ser amigos. Mas, vós quando tudo estiver tão perfeito que o homem ajude o homem, lembrai-vos de tudo isto, quando pensardes em nós”

(Bertold Brecht, “Aos que virão depois de nós”).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Nossos Inimigos Dizem

Bertolt Brecht

Nossos inimigos dizem: A luta terminou.
Mas nós dizemos: Ela começou.

Nossos inimigos dizem: A verdade está liquidada.
Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: Mesmo que ainda se conheça a verdade
Ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgamos.

É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda
De nossos inimigos.