quarta-feira, 6 de maio de 2020

Uma vida em vermelho: as memórias de Anita Prestes

Por Alexandra Lima da Silva
Pensar a Educação, 22/04/2020

Anita nasceu numa prisão na Alemanha. Sua mãe estava presa. Seu pai também. Eram tempos sombrios. Pessoas eram incineradas por serem consideradas inferiores.  Os nazistas não poupavam nem as crianças. Anita sobreviveu para contar a história da mãe, assassinada num campo de concentração, e do pai, um incansável militante comunista.

Olga Benário e Luiz Carlos Prestes, os pais de Anita, tiveram suas vidas contadas na historiografia, na literatura e no cinema nacional.

Anita Prestes dedicou uma vida a procurar pelos pais. Foram anos de busca por fragmentos pesquisando arquivos, assumindo o papel de guardiã da memória dos pais e também, de pesquisadora. Por isso, algumas vezes se refere a eles na terceira pessoa e outras, como apenas “meu pai” e “minha mãe”.

Ela também dedicou toda a vida à causa comunista. Foi exilada, perseguida, festejada. Recordar eventos traumáticos não é tarefa fácil, e Anita Prestes enfrenta os próprios fantasmas na escrita de suas memórias.

Vermelha é a capa do livro. Porque sua vida foi pintada de vermelho quando ainda era uma criança. Era o sangue da mãe.

Vermelha é também a cor do partido e da causa que Anita Prestes defendeu ao longo da vida. O livro é repleto de fotografias, através das quais é possível perceber o lugar da avó e da tia paterna na formação intelectual de Anita, que adulta, torna-se professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Anita viveu para contar essa história. Ela não revela sua intimidade. Não fala de amores ou romances que viveu. Recorta esse aspecto de sua existência: a de intelectual engajada e militante. Afinal, a mensagem de Anita Prestes em seu livro de memórias é bastante pedagógica. Quando se nasce em tempos sombrios, “viver é tomar partido”.

Referências:

PRESTES, Anita Leocadia. Viver é tomar partido. Memórias. São Paulo: Boitempo, 2019.

Olga. Filme (ficção). Direção de Jayme Monjardim, 2004.



terça-feira, 5 de maio de 2020

Repórteres sem fronteiras, mas com donos

O câmera da agência cubana de notícias Prensa Latina no Chile, Damián Trujillo, foi preso no domingo, 26 de abril, pelos carabineiros, na capital desse país, enquanto se encontrava exercendo sua profissão. O jornalista estava noticiando um protesto pacífico na praça La dignidad.

POR RAÚL ANTONIO CAPOTE
Santiago (Chile)
4 de mai de 2020


ornalistas são detidos, após terem fotografado os abusos dos carabineiros contra as crianças mapuches, em Angol, Chile; algo que os Repórteres sem Fronteiras nunca veem. Photo: TELESUR


O câmera da agência cubana de notícias Prensa Latina no Chile, Damián Trujillo, foi preso no domingo, 26 de abril, pelos carabineiros, na capital desse país, enquanto se encontrava exercendo sua profissão. O jornalista estava noticiando um protesto pacífico na praça La Dignidad.

Nas imagens da detenção arbitrária do comunicador, pode-se observar como os carabineiros o introduzem pela força em um van, apesar dos protestos dos seus companheiros.

Essa não é acaso uma clara violação do livre exercício do jornalismo? Porque a entidade Repórteres sem Fronteiras (RFS) se mantém em silêncio, perante este quebrantamento da liberdade de imprensa?

Um relatório falso dessa organização, recentemente, colocou Cuba na 171ª colocação, no que se refere às condições para o exercício da liberdade de imprensa, o que colocou a Ilha na última posição da América Latina e o Caribe.

O que é e quem são os Repórteres Sem Fronteira

A RSF é uma organização sediada em Paris, mas incondicional a Washington, que se caracterizou, durante estes anos, por sua ação obsessiva contra a Revolução Cubana, a Venezuela Bolivariana e a Nicarágua Sandinista.

No ano de 2005 participaram da campanha promovida pelo governo de George W. Bush, a fim de impedir a chegada de turistas à Ilha maior das Antilhas. Não se pode esquecer que o Plano Bush atribui um orçamento de US$ cinco milhões para as ONGs que realizam atividades que procurem dissuadir os turistas de viajar para Cuba. Uma parte desse "butim vultoso" vai para as arcas dos RF.

Durante anos, os Sem Fronteiras se dedicaram a financiar pseudo-jornalistas que trabalham ao serviço dos interesses dos Estados Unidos.

A sua parcialidade evidente a favor dos interesses de Washington no Iraque, Líbia, Haiti, Irã, Bolívia, Equador e o Chile é mais que clara: ano após ano, em seus relatórios mentirosos, condenam países que são considerados inimigos dos EUA; ou simplesmente, aqueles que não aceitam seguir à risca os ditados da Casa Branca.

De onde vêm os vultosos fundos com que contam estes senhores, supostamente defensores da liberdade de imprensa e de expressão?

O senhor Robert Ménard, um dos fundadores dos RSF, confessou, há poucos anos, com absoluta tranquilidade, ter recebido financiamento da Fundação Nacional pela Democracia (NED). Ménard foi muito claro: "Efetivamente, recebemos dinheiro da NED. E isso para nós não é nenhum problema".(1)

RSF nunca escondeu o seu relacionamento com o mundo do poder. "Um dia tivemos problemas com o dinheiro. Eu liguei para o industrial Francois Pinault para que nos ajudasse (…) Logo respondeu ao meu pedido. E isso é o único que importa" porque a Lei da Gravidade existe, caros amigos. E a lei do dinheiro também, disse Ménard. (2)

Os Repórteres Sem Fronteiras são financiados pelo grupo Dassault, recebe fundos da Hewlett Pckard, da Overbrook Foundation, entidade fundada por Frank Altschul, promotor da rádio Free Europe; do grupo Lagardere Publishing, da Fundação Hachette, do Open Society Institute, do jornal Frances Liberation e se apropriaram de vultosos recursos dos maiores oligopólios da mídia do mundo.

Do dinheiro que o governo dos EUA dedica cada ano para subverter a ordem interna da Ilha, a RSF beneficia através da NED, a Usaid, Freedom House, Center for a Free Cuba, a Fundação Nacional Cubano-Americana, a ONG tcheca People in Need e de outras muitas organizações que compõem o tecido de instituições que servem de fachada ao governo ianque e à CIA em suas ações contra a Revolução Cubana.

Em um relatório de 15 de janeiro de 2004, RSF liberou de qualquer envolvimento os militares estadunidenses responsáveis pelo assassinato do jornalista espanhol José Couso e do seu colega ucraniano Taras Protsyuk, no hotel Palestina, em Bagdá. RSF fez uma apologia da invasão ao Iraque, em 16 de agosto de 2007, durante o programa radiofônico "Contre-expertise". Robert Ménard, na época secretário-geral dos RSF, legitimou o uso da tortura.

Durante o golpe de Estado conta Hugo Chávez, em abril de 2002, apoiaram abertamente os usurpadores, deram luz verde ao golpe de Estado contra o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, contra Manuel Zelaya em Honduras, e contra Evo Morales na Bolívia.

O próprio jornal francês Libération, patrocinador da organização, refere que RSF não diz palavra alguma acerca dos abusos dos meios informativos ocidentais. "Daqui em diante, a liberdade de imprensa será exótica ou não será. Muitos criticam seu assanhamento contra Cuba e a Venezuela, e sua indulgência para com os Estados Unidos, o qual não é falso". (3).

Repórteres Sem Fronteiras tem dono e não tem fronteiras na hora de receber dinheiro das multinacionais, dos oligopólios, dos ricos deste mundo.

Como pode ser independente, como apregoa, quem subordina seu trabalho e vende sua moral e sua ética aos ditados dos poderosos deste mundo? A RSF é uma instituição orgânica do poder global do império, somente isso; outro biombo que serve para justificar as agressões e converter em demônios os inimigos do poder hegemônico capitalista.

No contexto
– O Programa Cuba da Usaid dedicou, entre os anos 1998 e 1990, mais de US$ 6 milhões para a subversão interna em nosso país.

– Somente em 2001 produziram-se mais de 200 entregas de dinheiro em mão a ativistas e jornalistas independentes, avaliadas em mais de U$ 100 mil.

– Entre os anos fiscais 2001 e 2006, a Usaid atribuiu para a luta contra Cuba US$ 61 milhões, para uns 142 projetos.

– O Programa Cuba, entre os anos 2007 e 2013, atingiu a quantia de mais de US$ 120 milhões.

– Os programas sob a etiqueta Liberdade de informação promoveram, entre 2014 e 2017, uns 39 projetos, com um montante de mais de US$ 6 milhões. A NED contribuiu, igualmente, com mais dois milhões.

– Em 2018, a NED entregou à Cubanet News Inc. US$ 220 mil; entregou para promover a Liberdade de Informação outros US$ 60 mil; para a editora Hypermedia Inc. US$ 72 mil; para o Instituto de Comunicação e Desenvolvimento US$ 65 mil; para a Integração de Cuba nas redes regionais de meios US$ 64 mil (dedicado a jovens jornalistas).

– Os programas subversivos da NED e a Usaid contra Cuba, no último ano fiscal 2018-2019, estão reunidos em mais de 70 projetos promovidos dentro e fora do país, com uma atribuição superior aos US$ 14 milhões.

Fontes: Razones de Cuba, Cubainformación e artigos de Salim Lamrani e Jean-Guy Allard.

(1) Robert Ménard «Fórum de discussion avec Robert Ménard», Le Nouvel Observateur, 18 de abril de 2005.

(2) Verdades sobre Reporteros Sin Fronteras, Investigaction.net

(3) Verdades sobre Reporteros Sin Fronteras.

FONTE: Granma


segunda-feira, 4 de maio de 2020

O amor e o antifascismo de Olga Benário Prestes em CD

Entrevista de Anita Prestes ao boletim do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro

POR SOS BRASIL SOBERANO


Três artistas alemães deram voz e corpo dramático à história de amor e de luta antifascista de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes. O livro-áudio com o resultado deste trabalho, já levado ao palco em Berlim, na Alemanha, e em Zurique, na Suíça, foi lançado e está disponível para aquisição online. A atriz Ute Kaiser, responsável pelo conceito e pela direção do espetáculo, lê as cartas de Olga e o ator Martin Molitor, as de Prestes, enquanto Gabriela Börschmann faz a leitura dos arquivos da Gestapo sobre a combatente comunista.

“Eles resgatam a memória dos meus pais e emocionam o público”, afirma a historiadora e escritora Anita Leocádia, professora de pós-graduação de História Comparada da UFRJ, e filha do casal Olga-Prestes, nascida na prisão de mulheres de Barnimstrasse, em Berlim, antes da mãe ser enviada aos campos de concentração nazistas. “O livro-áudio é uma forma de denunciar e mostrar de forma artística o risco e os horrores do fascismo.”

A força dos relatos, observa Anita, está na sua autenticidade e na potência da própria experiência histórica. O livro-áudio reúne trechos dos documentos organizados em dois livros do pesquisador suíço Roberto Cohen: Olga Benario, Luiz Carlos Prestes: Die Unbeugsamen – Briefwechsel aus Gefängnis und KZ (Göttingen, Wallstein, 2013), uma coletânea da correspondência entre os dois revolucionários, e Der Vorgang Benario: Die Gestapo-Akte 1936 – 1942 (Berlim, Berolina, 2016), com material do “Processo Benário”, uma dos “documentos-troféus” (Trophäen-dokumente) nazistas apreendido pelos soviéticos em 1945, na tomada de Berlim.

O processo da Gestapo só foi aberto em abril de 2015, em um acordo feito entre os governos russo e alemão. “Minha mãe aparece como a pessoa sobre quem, individualmente, a Gestapo tinha o maior número de documentos”, diz Anita. São quase 2 mil páginas sobre ela. Os relatórios, depoimentos, fotos e cartas desse acervo cobrem desde a saída de Olga do Brasil, em 1936, passando pelo período de sua prisão no campo de concentração de Ravensbrück, até sua morte em outro campo nazista, de Bernburg, onde foi assassinada na câmara de gás, em 1942.

As cartas trocadas com Luiz Carlos Prestes são de quando Olga era prisioneira na Alemanha nazista e ele, no Brasil do Estado Novo. “Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benário e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas”, escreve Cohen na introdução do livro com a correspondência dos dois, conforme citado no site http://prestesaressurgir.blogspot.com/2020/04/na-alemanha-lancado-livro-audio-sobre.html.

Desses três eixos documentais — as cartas de Olga, as de Prestes, e o processo da Gestapo — nasce o livro-áudio. O CD, com tiragem de cerca de 3 mil exemplares, vem acompanhado de um suplemento impresso com 40 páginas, escritas por Cohen. O texto foi encenado no próprio campo de Ravensbrück, a 90 km ao norte de Berlim, na cidade de Fürstenberg, atualmente um museu.

Anita conta que a atriz alemã Ute Kaiser conheceu Cohen e, por meio de outros contatos junto a antifascista alemães da Anistia Internacional, acabou formando o grupo teatral do projeto. O livro-áudio deve ser distribuído para entidades de direitos humanos e antifascistas.



Atualidade da luta antifascista

A iniciativa mereceria uma versão em português, já que a história de Olga e Prestes ganha cada vez mais atualidade no país. “Marchamos para o fascismo, para uma ditadura que pode se aproximar de uma natureza fascista”, alerta Anita Prestes. “A oposição não tem rumo. A única demanda é ‘fora Bolsonaro’, mas, se tirarem o presidente, o que vai acontecer? Temos o Mourão [o vice-presidente, general Hamilton Mourão], que tem um reacionarismo e um fascismo mais consequente.”

Na avaliação da historiadora, “enquanto não houver um movimento popular com força, não será possível conseguir mudanças nem influir nos acontecimentos; sempre, como é tradicional na história, as decisões são das elites e contra o povo”. As lideranças, diz ela, “deveriam estar organizadas para brigar por reivindicações objetivas — leitos em hospital, por exemplo –, uma vez que há mais de 300 pessoas precisando de UTI, só no Rio de Janeiro, devido à pandemia de covid-19.

Cartas resgatadas

Parte do trabalho de Cohen contou com a correspondência entre Olga e Prestes publicada por Anita em 2001 — referente aos nove anos (de 1936 a 1945) em que seu pai esteve preso. A grande maioria das cartas trocadas com Olga passava pela avó e pela tia de Anita, Lygia, porque a Gestapo só aceitava correspondência escrita em alemão, e as mulheres encaminhavam os textos para serem traduzidos por um grupo de amigos, primeiro na França, depois no México. “Apesar dos riscos, minha tia Lygia guardou essa documentação, e com base nelas publicamos ‘Anos Tormentosos – Luiz Carlos Prestes – Correspondência da Prisão (1936-1945)’, em três volumes, pela editora Paz e Terra.

Parte dessa correspondência está no Arquivo Público do Rio de Janeiro, mas outra lote — cerca de 300 cartas — foi descoberta em 2018 e é objeto de uma disputa judicial. As cartas inéditas foram identificadas quando um comerciantes de antiguidades da Praça XV tentou levá-las a leilão, suspenso pela Justiça, diz Anita. Ao contrário do que se pensou inicialmente, elas não foram encontradas pelo antiquário no lixo, explica a historiadora, mas, a julgar seu ótimo estado, devem ter vindo do acervo de algum policial ligado ao gabinete de Filinto Müller, chefe da polícia política de Getúlio Vargas.

Anita lembra que, em 1945, o pai, ao sair da prisão anistiado por Getúlio Vargas, não tinha endereço fixo,e guardou sua documentação na sede do Partido Comunista, na rua da Glória, na capital carioca. No dia 29 de outubro, no golpe que derrubou o presidente, a polícia de Filinto Müller invadiu e depredou a sede do partido. “Algum policial guardou essa correspondência, que não deu entrada oficialmente na polícia”, acredita a historiadora.”Um descendente a encontrou e vendeu para o antiquário da Praça XV.”

Na ação pelo direito às cartas, Anita já ganhou em todas as instâncias e agora aguarda a decisão final do STF. Enquanto isso, elas estão sob a guarda da leiloeira. Quando estiver com a posse definitiva do material, a historiadora pretende doá-lo para a Biblioteca Comunitária da Unicamp. Entre as cartas, está aquela em Olga anuncia sua gravidez a Prestes, publicada por Anita em 2019 no livro “Viver é tomar partido: memórias”, pela editora Boitempo.

No site https://www.olgabenario.de/ é possível ouvir dez minutos de leitura (em alemão) do áudio-livro “Die Unbeugsame – Olga Benario in ihren Briefen und in den Akten der Gestapo”.




sexta-feira, 1 de maio de 2020

“Universidade Brasileira: reforma ou revolução?” atualidade de uma obra fundamental

Texto de apresentação, escrito por Roberto Leher, à nova edição (2020) de “Universidade Brasileira: reforma ou revolução?”, de Florestan Fernandes, da Editora Expressão Popular. O livro é lançado no ano de comemoração do centenário do seu autor, lutador e intelectual incansável da classe trabalhadora, Florestan Fernandes. 

Neste contexto em que a ciência e a universidade sofrem uma grande ofensiva por parte de setores reacionários da sociedade, essa obra é urgente e necessária.


Universidade Brasileira: reforma ou revolução?” Reúne nove ensaios de Florestan. O primeiro deles, "O problema da universidade", foi escrito sob o impacto do golpe civil-militar de 1964 e publicado originalmente em 1965. Os demais oito ensaios foram elaborados entre os anos de 1967 e 1968.

Inicialmente organizado para ser lançado em 1969, ano da aposentadoria compulsória do autor imposta pela ditadura civil-militar, teve sua primeira edição somente em 1975. Os escritos registram a memória de intervenções públicas realizadas, de acordo com o autor, com o intuito de colaborar com estudantes, intelectuais, políticos e os colegas da resistência no processo de reflexão sobre a cooptação da bandeira da Reforma Universitária operada pelos militares.

 CLIQUE AQUI PARA LER O TEXTO DE APRESENTAÇÃO DE ROBERTO LEHER. (A partir da página 12 do arquivo em PDF)

domingo, 26 de abril de 2020

A associação entre o bolsonarismo e o "Partido Militar"

Por trás do presidente se "oculta" o Alto Comando do Exército

Segue artigo que chama atenção para a associação entre o  bolsonarismo e o "Partido Militar", em que o Alto Comando do Exército pode ser considerado "o partido fardado do capital financeiro internacionalizado", conforme ressaltado pela historiadora Anita Prestes em artigo sobre o papel do capital financeiro internacional na constituição de regimes autoritários no Brasil ["Três regimes autoritários na História do Brasil republicano: o Estado Novo (1937-1945), a Ditadura Militar (1964-1985) e o regime atual (a partir do golpe de 2016)"]

Bolsonaro, duro na queda

Por Manuel Domingos Neto

Banana Republic
Eduardo Costa Pinto logo intuiu que o apoio a Bolsonaro poderia não ser afetado imediatamente pela demissão espetaculosa de Moro. 

A pesquisa da XP realizada entre os dias 23 e 24, divulgada neste sábado, dia 25, confirmou sua hipótese. Os que alimentam expectativa boa, ótima e regular sobre o governo somam 44% dos entrevistados. Os que têm expectativa ruim e péssima chegam a 49%. Tendo em vista o desemprego, a penúria reinante e os descalabros governamentais, é um desempenho extraordinário.   

A pesquisa registra que 77% dos entrevistados disseram ter conhecimento da saída de Moro. Ou seja, pode não ter decorrido ainda o tempo necessário para que a exploração do episódio mostre seus desdobramentos.

De toda forma, fica reafirmado: Bolsonaro corporifica politicamente expressiva tendência conservadora-radical de parcela numerosa da sociedade brasileira. É notável a ofensiva dos bolsonaristas atacando Moro nas redes sociais. A turma tem consciência do impacto negativo da saída de Moro (67% das respostas), mas não se abate.

O afastamento de Bolsonaro, por renúncia forçada ou impeachment, hoje, dependeria basicamente de iniciativas institucionais, ou seja, de investigações criminais, judiciais e legislativas, não da mobilização popular contra os desmandos governamentais.

As instituições não entram em lances decisivos sem forte respaldo da opinião pública e... sem amparo militar.

Importantes elementos da grande mídia perderam as ilusões sobre a capacidade de o atual governo responder aos dramáticos problemas sanitários, sociais e econômicos. Empenham-se agora no afastamento de Bolsonaro, temendo a deterioração do quadro sócio-econômico. Refletem a inquietude dos homens do dinheiro. Mas quando suas denúncias lograrão calar fundo na consciência de muitos brasileiros e sensibilizar as corporações da força bruta ao ponto de respaldarem o afastamento do Presidente?

Bolsonaro tem ao seu lado o Partido Militar, que conta com um contingente de um milhão de homens da ativa e da reserva em militância ininterrupto e frenética para “salvar o Brasil” do comunismo e reforçar seus proventos. 

Uma debandada de generais do governo seria devastadora. A política estaria entregue aos políticos, mas isso é improvável. Onde já se viu militares entregando cargos políticos sem fortes constrangimentos por parte da opinião pública? 

Por que os generais persistem amparando Bolsonaro?

Há diversas explicações possíveis, sendo a primeira delas a dificuldade de abandono da cria. Muitos ainda não admitem ou fingem não admitir, mas o candidato e o presidente Bolsonaro foram obras castrenses. Não existiriam sem a mobilização da caserna. 

A tentativa de atenuar a responsabilidade das corporações é manifesta nas insistentes referências a uma “ala militar”. Que “ala” é esta? Obviamente, não pode se resumir aos três generais que não arredam o pé da sala do capitão. (Heleno hoje parece ter pouco peso). Ramos, Braga e Fernando não ocupam postos tão relevantes por conta de exclusivos atributos pessoais. Atrás de cada um, há a teia de amparo, intrincada, profusa e capilar.

O que pretende, qual sua consistência, quem a comanda a tal “ala militar”? Quem quiser acredite que tais homens representam a si mesmo. 

A falácia da “ala militar” serve para atenuar a ideia de que o governo esteja sendo respaldado e conduzido por corporações. Permite também imaginar oficiais idealistas e articulados voluntariamente para lutar contra terraplanistas aloprados. 

Apontar tal “ala” é também uma maneira de negar a estreita aproximação política e ideológica entre os múltiplos e variados condutores da máquina governamental. Em outras palavras, serve para negar o afinamento entre as cabeças governamentais. Ora, uma das razões do “sucesso” de Bolsonaro é justamente a coesão de sua equipe. As quedas de Mandetta e de Moro, que tanto animam os opositores, decorreram de veleidades eleitorais, não de discordância de princípios políticos, éticos ou administrativos. 

É provável que nos próximos dias o noticiário ofereça fartos elementos, para os que quiserem entender, que Moro e Bolsonaro apresentam a mesma qualidade moral. Moro, menos vivaz, será duramente estigmatizado como transgressor da “omertà”.

Há, de fato, figuras no governo que, pelo exotismo de posturas e pela incapacidade administrativa, incomodam os militares. Mas no plano da percepção do processo político em curso, não há contraditórios notáveis na equipe governamental. 

Predominam no conjunto a ojeriza à esquerda, o medo da China, o alinhamento automático a Washington, o conservadorismo nos costumes, o ódio ao sistema político representativo, a raiva e o medo da transformação social favorecedora dos mais pobres, a vontade de destruir o que foi construído com base do pacto de 1988. 

Exemplos notórios da comunhão espiritual entre militares e terraplanistas aloprados: o silêncio frente às agressões de Olavo de Carvalho, as contemporizações com os ministros da Educação e do Exterior, próceres da abominável destruição de políticas públicas estratégicas. Observemos a concentração de militares na Educação e na Ciência e Tecnologia. Por que não reagem aos descalabros? 

Bolsonaro é uma cria dos militares e seu governo representa a vontade das corporações politicamente ativas desde sempre, mas obedientes aos esquemas de aproximações progressivas e sustentadas, conforme explicou Mourão.

É intrigante que, até agora, a estreita associação entre o bolsonarismo e o partido militar não seja percebida pela “sociedade civil”. As tergiversações nesta matéria são lastreadas na falácia de que os militares persistem como o "lado” ajuizado ou racional do governo. Ora, não podem ter bom juízo os que escolheram o “Cavalão” como peça de apoio para retornar ao mando político e desenvolver tenebrosa agenda conservadora.

Analistas de todos os matizes, com razão, agitam-se acerca de supostas cisões entre os generais e o presidente. Há gente de esquerda, inclusive, torcendo discretamente para que isso ocorra. Alguns olham esperançosos para o vice-presidente. Um líder de esquerda disse até que o Brasil chegaria melhor em 2022 com o governo entregue ao general Mourão.

Iludida, aturdida e na defensiva, a oposição fala em governo de “salvação nacional”, em “frente ampla”... Se não consegue se entender minimamente, como a oposição lograria arrebatar o sentimento dos brasileiros? 

A oposição sabe que não tem força e não pode pensar em levantar multidões. Evitando o combate de idéias no seio da população, os partidos voltam-se para práticas eleitorais carcomidas, mesmo sem a certeza de que o próximo pleito esteja de fato assegurado. Quanto à saída para a crise, sonha com a prevalência de nossa tradição republicana: um grande acordo de cúpula que evite confrontos desestabilizadores de velhas estruturas. Um ponto indiscutível do acordo é o descarte definitivo de Lula.

O que pode fazer ruir o castelo de cartas que sustenta Bolsonaro, quem sabe, é a comoção decorrente da mortandade previsível pela incúria diante do avanço anunciado do covid-19. 

Mas comoções populares em si não conduzem necessariamente a mudanças políticas efetivas. Provocam explosões de fôlego curto, contidas pelo aparelho repressor do Estado, o mesmo que criou e sustenta Bolsonaro.

Para não concluir de forma demasiado amarga, lembraria que, como quase tudo na vida, farsas políticas têm duração incerta. A administração do mundo está em mudança acelerada e pode encurtar a trágica aventura do partido militar que leva o nome de “governo Bolsonaro”.

Como observou Héctor Saint-Pierre, esta aventura tem tudo para ser as Malvinas do militares brasileiros.

FONTEBrasil 247



CRISE DO CAPITAL, FINANCEIRIZAÇÃO E EDUCAÇÃO

Veja o mais recente número da revista Germinal: Marxismo e Educação em Debate, v. 11, n. 3 (2019)

O V. 11, N. 3 de Germinal: Marxismo e Educação em Debate vem a lume num quadro de uma grave
crise de saúde pública mundial: a velocidade e a gravidade da propagação do Coronavírus. A pandemia causada pelo novo vírus agrava, ainda mais, outras duas crises já anteriormente em andamento: a econômica e a política – não revelando sinais de solução em um curto prazo, estas crises, ao contrário, intensificam-se a cada momento. Nestas condições adversas e instáveis, mudanças significativas podem ocorrer de um momento para outro. Além disso, o quadro atual se agrava por uma intensa disputa político-ideológica e por distintas tentativas de criação de uma grande confusão e desorientação caracterizada por fortes componentes obscurantistas. É urgente, portanto, analisar os diferentes aspectos que compõem esta profunda crise afim de não permanecer irresoluto, mas contribuir para uma efetiva orientação crítica no interior da conjuntura. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer o caráter insubstituível de toda reflexão teórica: a sua feição sistemática.
O presente número de Germinal: Marxismo e Educação em Debate chamou os marxistas a discutirem os nexos entre “Crise do capital, financeirização e educação”.
[Trecho do Editorial “Crise do capital, financeirização e educação”, de Pedro Leão da Costa Neto.]

Navegue no sumário da revista para acessar os artigos e itens de interesse.

v. 11, n. 3 (2019)

CRISE DO CAPITAL, FINANCEIRIZAÇÃO E EDUCAÇÃO

Sumário

Editorial

Pedro Leão Da Costa Neto
1-6

Debate

Tatiana Brettas
7-18
Enrique-Javier Díez-Gutiérrez
19-29
Elza Margarida de Mendonça Peixoto, André Figueiredo Brandão, Edson do Espírito Santo Filho, Osvaldo Teodoro dos Santos Filho, Vania Moraes Lopes
30-73
Roberto Barbosa
74-87
Marcelo Lira Silva
88-122
Regis Argüelles da Costa
123-135
Arlindo Lins de Melo Júnior, Luiz Bezerra Neto, Jackeline Silva Alves
136-148
Ricardo Pereira de Melo
149-159
Jadir Antunes
160-169

Artigos

Andriel Rodrigo Colturato, Luciana Massi
170-180
Giovanni Semeraro
181-191
Stefan Gandler
192-202
Vanderlei Amboni
203-213
Leonardo Dorneles Gonçalves, Magda Cruz dos Santos, Conceição Paludo
214-222
Mércia Santana Mathias, Luciana Cristina Salvatti Coutinho
223-234
Regis Clemente da Costa
235-247
Evandro Coggo Cristofoletti, Milena Pavan Serafim
248-259
Fernanda Bartoly Gonçalves de Lima
260-283
Guilherme Wagner, Everaldo Silveira
284-303
Giovanni Felipe Ernst Frizzo, Leonardo Lemos Silveira, Ivan Bremm de Oliveira
304-316
Osvaldo Galdino dos Santos Júnior, Robson dos Santos Bastos
317-327

Entrevista

Virginia Maria Gomes de Mattos Fontes
328-347

Clássico

Vladimir Iilich Ulianov Lenin
348-368

Resenhas

Ana Carla Gomes
369-372
Samuel Spellmann
373-377
Hander Andrés Henao
378-383

Expediente

Elza Margarida de Mendonça Peixoto


Lenin, a 150 años de su nacimiento

Por Atilio A. Boron 

Fuentes: Rebelión
Vladimir Illich Ulianov nació en un día como hoy [22/04], de 1870, en Simbirsk, Rusia. Fue el fundador del Partido Comunista Ruso (Bolchevique), el líder indiscutido de la primera insurrección obrero-campesina triunfante a escala nacional en la historia de la humanidad: la Revolución de Octubre en Rusia (que llevó a su término lo que la heroica Comuna de París no pudo hacer) y arquitecto y constructor del Estado Soviético.

Como si lo anterior no bastase fue también un notable intelectual, autor de numerosos y medulares escritos sobre temas tan variados como filosofía, teoría económica, ciencia política, sociología y relaciones internacionales.[1] “Práctico de la teoría y teórico de la práctica” según la brillante definición que de él propusiera György Lukács, Lenin introdujo tres aportaciones decisivas a la renovación de una teoría viviente, el marxismo, que siempre la entendió como una “guía para la acción” y no como un dogma o un conjunto esclerotizado de preceptos abstractos. Gracias a Lenin  los cimientos teóricos establecidos por Karl Marx y Friedrich Engels se enriquecieron con una teoría del imperialismo que arrojaba luz sobre los desarrollos más recientes del capitalismo en la primera década del siglo veinte; con una concepción acerca de la estrategia y táctica de la conquista del poder o, dicho en otros términos, con una renovada teoría de la revolución basada en la alianza “obrero-campesina” y el papel de los intelectuales; y con sus distintas teorizaciones sobre el partido político y sus tareas en distintos momentos de la lucha social. Una herencia teórica extraordinaria, como brota de la precedente enumeración. 

En este breve recordatorio del nacimiento de un personaje excepcional como el que nos ocupa quisiera llamar la atención sobre una de esas tres aportaciones: la cuestión del partido. En efecto, preocupa la nociva persistencia de un lugar común -y profundamente erróneo- consistente en hablar de “la teoría” del partido en Lenin como si éste hubiera forjado una, absolutamente imperturbable ante los cambios y los desafíos del proceso histórico. Como lo hemos demostrado en nuestro estudio introductorio en una nueva edición del ¿Qué Hacer? Lenin modificó su concepción del partido en correspondencia con las variaciones en las condiciones que caracterizaban los distintos momentos del desarrollo de la lucha revolucionaria en Rusia.[2] Es una obviedad subrayar que su sensibilidad histórica y teórica era incompatible con cualquier dogmatismo, lo que hizo que tomara rápidamente nota de las enseñanzas que dejara la revolución de 1905 y el marginal papel que en ella jugara la organización política a la que pertenecía,  el Partido Obrero Social Demócrata de Rusia. Su reflexión autocrítica se volcó  en el prólogo a un frustrado libro –iba a llamarse En Doce Años – que recopilaría los  libros y artículos que escribiera entre 1895 y 1907. Pese a la módica  liberalización que el zarismo había consentido luego del ensayo revolucionario de 1905 y la derrota que las tropas del zar habían sufrido en la guerra ruso-japonesa, lo cierto es que aquellos materiales fueron confiscados por la censura y nunca vieron la luz pública. No obstante, el prólogo quedó a salvo y deja importantes claves para comprender la evolución  del pensamiento de Lenin.[3]  En esa reflexión  de 1907 Lenin explica que el modelo de partido propuesto en el  ¿Qué Hacer? se explicaba por las durísimas condiciones impuestas por la lucha clandestina contra el zarismo y su impresionante aparato represivo. Ahora bien, una vez triunfante la Revolución de 1905 Lenin modifica su concepción del partido -que sigue siendo revolucionario pero que ya no debe actuar en la clandestinidad- y se acerca a una postura en cierto sentido similar a la de la socialdemocracia alemana (recordar que Lenin recién repudia la teorización de Karl Kautsky en 1909) que, en ese momento, era el “partido guía” de la Segunda Internacional. Dado que el partido no es una entelequia que sobrevuela las contingencias y los azares de la historia el cambio en la correlación de fuerzas entre el zarismo y las fuerzas sociales de la revolución, amén de las mutaciones operadas en el marco institucional en el que se daba la lucha política- modificaron profundamente la visión de Lenin sobre el carácter del partido, su estructura organizativa, sus tácticas y su actividad organizativa en las nuevas circunstancias históricas. La lucha por la revolución, sobre la cual Lenin jamás hizo ninguna concesión, debía apelar a un nuevo formato partidario. Y lo hizo.

No obstante, el triunfo de la revolución en Febrero de 1917 precipitó la gestación de una tercera teorización en donde la centralidad del partido en la vanguardia del proceso revolucionario fue desplazada por el arrollador protagonismo de los soviets. Con su proverbial sagacidad Lenin advirtió esta mutación, una suerte de revolución copernicana en la esfera de la política, antes que ningún otro dirigente del partido Bolchevique y la dejó impresa para la historia en su asombrosa (y para muchos camaradas, escandalosa) consigna de “¡Todo el poder a los Soviets!” Esto significó, en los hechos, una extraordinaria revalorización del poderío insurreccional de estas inéditas formaciones políticas y un cierto –y transitorio- relegamiento del partido en la “fase más caliente” de la conquista del poder, antes y poco después del triunfo de Octubre. Como veremos más abajo de ninguna manera podría argüirse que Lenin había devaluado definitivamente la importancia del partido. Pero fino observador como era no podía dejar de corroborar su transitorio eclipse en el horno incandescente de la revolución, donde la  arrolladora potencia plebeya de los soviets y su condición de actores imprescindibles a la hora de lograr el triunfo definitivo de la revolución eran incuestionables. La historia se encargó de demostrar que aquella sorprendente consigna, tan discutida en su tiempo por sus propios camaradas bolcheviques, a la larga demostró ser acertada pues en el complejísimo tránsito entre la revolución democrático-burguesa de Febrero y la consumación de la revolución socialista de Octubre, el protagonismo excluyente recayó sobre los soviets y no sobre el partido. Lenin fue uno de los muy pocos que supo comprender este cambio y, también, en darse cuenta que este desplazamiento estaba lejos de ser definitivo y que más pronto que tarde el partido volvería a ocupar un lugar de preponderancia en las luchas políticas. Cosa que efectivamente ocurrió.

En efecto, la estabilización del poder soviético y los enormes desafíos de la construcción del socialismo -en un país devastado por la Primera Guerra Mundial y por la guerra civil declarada por la aristocracia terrateniente, los capitalistas y sus aliados en los gobiernos europeos- dio lugar al nacimiento de una nueva teorización sobre el partido, la cuarta. En esta nueva concepción el partido revolucionario es redefinido (y permítaseme abusar de un didáctico anacronismo) “en clave gramsciana”; es decir, el partido como el gran organizador de la dirección intelectual y moral de la revolución, como educador y concientizador de las masas y especialmente de la juventud; como el forjador de una nueva conciencia civilizatoria e instrumento imprescindible para asegurar la perdurabilidad del triunfo revolucionario. Los últimos escritos de su vida, ya consolidada la victoria de las masas obreras y campesinas rusas, marcan precisamente ese retorno del partido al centro de la escena política, resaltando su centralidad estratégica ante la inmensa tarea de dar comienzo a la construcción de la nueva sociedad comunista y de una nueva estatalidad revolucionaria que, inspirada en las enseñanzas de la Comuna de París, no debía ser remedo del estado capitalista. Y eso no sólo en el plano nacional: la creación de la Internacional Comunista en 1919 proyectó sobre el escenario mundial el papel del partido en momentos en que parecía que el capitalismo se enfrentaba a un callejón sin salida y que el triunfo de la revolución proletaria mundial parecía inminente.   

Concluyo esta breve reflexión diciendo que la habitual caracterización del revolucionario ruso como un atento lector y discípulo de Marx no le hace justicia a la inmensidad de su legado. Como constructor del primer estado obrero mundial, uno de cuyos más perdurables logros civilizatorios fue su decisiva contribución a la derrota del nazismo, y como refinado pensador que aportó valiosos y necesarios desarrollos al corpus teórico del marxismo la obra de Lenin alcanza una estatura teórica que no pasó desapercibida para un atento observador de la derecha. Hablamos, claro está, de Samuel P. Huntington, quien en uno de sus más importantes libros sentencia que “Lenin no fue el discípulo de Marx; más bien, éste fue el precursor de aquél. Lenin convirtió al marxismo en una teoría política,”[4] Tesis que sin duda debe ser tomada con pinzas y abre numerosas e inquietantes preguntas, pero que contiene algunos elementos de verdad que no pueden ser simplemente desdeñados. Y hoy, cuando se cumplen 150 años del nacimiento de Lenin, el desafío que nos propone la heterodoxa tesis del estadounidense es una buena ocasión para invitar a la militancia anticapitalista a retomar el estudio de la vasta producción teórica del fundador de la Unión Soviética.

Notas:


[1] Las Obras Completas de Lenin, que reúne los libros, artículos, ensayos, intervenciones periodísticas, discursos y mensajes de diversos tipo, fueron publicadas por primera vez en lengua castellana por la Editorial Cartago del Partido Comunista Argentino entre 1957 y 1973. Consta de 50 tomos y dos más conteniendo los índices de la obra. Cabe recordar que Lenin muere a los 54 años, lo cual pone de relieve el extraordinario caudal de su talento como escritor, publicista y dirigente  político.

[2] Para un análisis más detallado de estas cuestiones ver nuestra introducción en: V. I. Lenin, ¿Qué Hacer? Problemas candentes de nuestro movimiento (Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2004), pp. 13-73.


[3] Lenin se refiere a este escrito suyo  en su ¿Qué Hacer?  (op. cit), pp. 75-83.


[4] Ver su  Political Order in Changing Societies  (New Haven: Yale University Press, 1968), p. 336.

FUENTE: Rebelión


quarta-feira, 22 de abril de 2020

PARA DOWNLOAD: Livro "Lenin 150"

Livro digital em homenagem aos 150 anos de nascimento de Lênin

No dia 22 de abril de 1870, um século e meio atrás, nascia o pensador marxista e líder revolucionário russo Vladímir Illitch Uliánov, mais conhecido como Lênin.

Em celebração aos 150 anos de seu nascimento, a editora Expressão Popular, em parceria com a editora Batalla de ideas, Argentina, LeftWord, Índia, e o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, traz à luz este volume cujo objetivo é manter vivo o pensamento e o exemplo deste que foi um dos mais importantes revolucionários da história. Lenin dedicou e empenhou sua vida em construir uma nova sociedade, baseada não na exploração do ser humano pelo ser humano, mas na cooperação entre si, a partir de novos valores que têm como princípio a humanidade e não a mercadoria.

O livro Lenin 150 reuni um breve texto de Vijay Prashad, que figura como apresentação às Obras escolhidas de Lenin publicada pela Leftword na Índia, que traz a trajetória política e teórica de Lenin, demonstrando sua preocupação cotidiana e permanente com a construção da organização da classe trabalhadora para a revolução social; o poema “Vladimir Ilitch Lenin”, de Maiakovski, cuja escrita se iniciou logo após a morte do dirigente revolucionário, em janeiro de 1924, e finalizada em outubro deste mesmo ano; e, por fim, o breve e denso texto de Lenin “As três fontes e as três partes componentes do marxismo”, em que ele recupera as tradições das quais Karl Marx se valeu para elaborar sua teoria social, a saber: a Filosofia clássica alemã, a Economia Política inglesa e o Socialismo francês.

LINK PARA DOWNLOAD: 

SUMÁRIO

Nota editorial ........................................................................................................ 5

Ao camarada Lenin, em seu 150º aniversário ........................................................ 7
Vijay Prashad

Vladimir Ilitch Lenin (1924)................................................................................17
Vladimir Maiakovski

As três fontes e três partes componentes do marxismo .......................................117
Vladimir I. Lenin

Mais informações no link abaixo:


Na Alemanha, lançado livro-áudio sobre Olga Benario Prestes

Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro

Foi lançado na Alemanha o  livro-áudio sobre Olga Benario Prestes, em Compact Disc (CD), "Die Unbeugsame - Olga Benario in ihren Briefen und in den Akten der Gestapo". O livro-áudio, em alemão, encontra-se disponível para venda diretamente no site do Projeto Olga Benario ou no bandcamp.com.

O livro-áudio está baseado em dois livros de Robert Cohen, pesquisador suíço do tema. O primeiro livro é Olga Benario, Luiz Carlos Prestes: Die Unbeugsamen - Briefwechsel aus Gefängnis und KZ (Göttingen, Wallstein, 2013), uma coletânea da correspondência entre os dois revolucionários comunistas, Olga Benario Prestes e Luiz Carlos Prestes, enquanto ela era prisioneira na Alemanha nazista e ele encontrava-se preso no Brasil. As cartas atestam o grande amor existente entre eles. Conforme foi apontado por Robert Cohen (estudioso literário) na introdução do livro, embora a convivência entre eles tenha durado pouco mais de um ano, “a importância de uma relação não se mede por sua duração. Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benario e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas." 

O segundo livro é Der Vorgang Benario: Die Gestapo-Akte 1936 – 1942 (Berlim, Berolina, 2016), que traz material da coleção do chamado "Processo Benario", que faz parte dos chamados "documentos-troféus" (Trophäen-dokumente) nazistas, documentação apreendida pelos soviéticos após a derrota da Alemanha nazista em 1945.  O "Processo Benario" é composto de uma pasta, oito dossiês e cerca de 2 mil folhas dedicadas apenas a uma pessoa: Olga Benario Prestes. O acervo produzido pela Gestapo (a polícia secreta do Terceiro Reich alemão) é uma coleção impressionante, que inclui relatórios, depoimentos, fotografias e cartas enviadas e recebidas para Olga, desde sua saída do Brasil, em 1936,  durante seu cárcere no campo de concentração de Ravensbrück, até sua morte na câmara de gás do campo de concentração de Bernburg, em 1942. Segundo Robert Cohen, “O chamado 'Processo Benario' da Gestapo é talvez a coleção mais abrangente de documentos sobre uma única vítima do Holocausto.” Nas palavras dele:

Esses documentos formam - dialética incontornável - uma abrangente autoapresentação dos crimonosos e das ideologias, coações, mecanismos, organismos e estruturas que dirigiam. À medida que cuidam do arquivo do "Processo Benario", dia após dia, os criminosos fazem o que não podem querer fazer: eles dão informações sobre si mesmos. (Robert Cohen, Der Vorgang Benario: Die Gestapo-Akte 1936 – 1942, p. 8) 

O livro-áudio, portanto, apresenta-se como uma montagem de cartas entre Olga e Prestes e documentos da Gestapo que fornece uma visão incomparável do embate entre o mundo da vítima e o mundo do agressor. Assim, o livro-áudio (Compact Disc - CD) é composto da seguinte maneira:

Ute Kaiser lê as cartas de Olga Benario, conceito e direção.
Gabriela Börschmann lê os arquivos da Gestapo.
Martin Molitor lê as cartas de Luiz Carlos Prestes.

Ute Kaiser | Gabriela Börschmann | Martin Molitor


No site do Projeto Olga Benario (http://www.olgabenario.de) está uma amostra de áudio de quase 10 minutos .

O livro-áudio traz um suplemento, um livreto de 40 páginas, com texto de Robert Cohen. 

Para o público brasileiro, que não tem o domínio do alemão, como eu, a apreciação das informações valiosas e inéditas encontradas no chamado "Processo Benario" pode se dar através do livro Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, 2017), escrito pela historiadora Anita Leocadia Prestes. O acervo vasculhado pela autora, como afirma Fernando Morais no texto de orelha do livro, "revela minúcias do monitoramento a que Olga era submetida pelas autoridades em todas as prisões e campos de concentração em que esteve entre 1936-1942, quando foi executada em uma câmara de gás." Morais prossegue chamando a atenção do leitor do livro de Anita para "a pétrea decisão de Olga de não transmitir a seus algozes nem sequer uma solitária informação a respeito de seu passado e de suas atividades políticas na União Soviética e no Brasil", ressaltando ele, "ainda que esse obstinado silêncio viesse a lhe custar, como ocorreu dezenas e dezenas de vezes, penosos castigos físicos e privações ainda mais duras que as do cotidiano de um campo de concentração nazista." Penas, frequentemente, atribuídas à Olga com a seguinte recomendação: "Ademais, solicito que lhe seja atribuída uma árdua carga de trabalho adicional".

Como encerra o texto da orelha do livro, Fernando Morais afirma: "Mais que uma obra de referência, Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos  da Gestapo é a pungente, dolorosa história de uma revolucionária exemplar."

O acervo histórico que deu origem ao livro-áudio e ao livro de Anita Prestes, os chamados "documentos-troféus" (Trophäen-dokumente) acumulados pela Gestapo, foi preservado pela União Soviética e aberto para consulta pública em 2015. Como afirma Roberto Cohen, no prefácio do livro Der Vorgang Benario: “Em 29 de abril de 2015, ocorreu uma abertura solene no Museu das Forças Armadas em Moscou […]. O motivo foi a publicação on-line de arquivos anteriormente inacessíveis do Reich Alemão, provenientes de arquivos russos [www.germandocsinrussia.org]".