segunda-feira, 16 de abril de 2012

Pelo caminho incerto da vida, o mais importante é o decidir

Cúpula das Américas termina sem declaração final por falta de consenso sobre Cuba


Estados Unidos vetaram dois pontos abordados na declaração e receberam o apoio do Canadá



A Cúpula das Américas terminou neste domingo (15/04) em Cartagena, na Colômbia, sem declaração final já que não houve consenso entre os líderes presentes a respeito da participação de Cuba no próximo evento deste tipo na região.



Os Estados Unidos vetaram dois pontos abordados no que pretendia ser divulgado como a declaração final da Cúpula, iniciada neste sábado. Nas duas questões, referentes a Cuba, os norte-americanos receberam o apoio apenas do Canadá.



O primeiro ponto diz respeito à participação dos cubanos na próxima Cúpula, que deverá ser realizada no Panamá. A delegação norte-americana vetou o texto que, em seu parágrafo 17 dizia: “os chefes de Estado decidem convidar a República de Cuba a participar da próxima Cúpula das Américas, a realizar-se no Panamá”.



Os norte-americanos e os canadenses vetaram também a parte que tratava do bloqueio imposto pelos EUA à ilha há mais de 50 anos. O parágrafo 18 da declaração apontava: “os chefes de Estado lembram com interesse as recentes resoluções aprovadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas relativas à necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico e comercial da República de Cuba”.



Dessa forma, sem consenso, não foi possível elaborar uma declaração final acordada entre todos os chefes de Estado e de governo presentes. O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, divulgou a falta de entendimento entre os líderes, mas amenizou a questão.



Santos afirmou que o resultado não significa um “fracasso” e destacou que a Cúpula foi encerrada com “compromissos” firmados em áreas específicas. Um deles diz respeito à decisão de dar um mandato à OEA (Organização dos Estados Americanos) para que ela analise um possível replanejamento da luta contra o tráfico de drogas.



Além disso, a Cúpula emitiu comunicados em apoio ao Rio+20, que será realizado no Brasil neste ano, alertando sobre o crime organizado internacional e um último a respeito de um fórum de competitividade regional, requisitado pela Colômbia.



Diferenças



Apesar disso, as diferenças entre os EUA e os demais países da América Latina em relação ao tratamento dispensado a Cuba foi o que mais chamou a atenção na Cúpula. Em entrevista à emissora colombiana Caracol Televisión, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou que considera o Estado cubano “antidemocrático e autoritário”.



Obama disse ainda que não são os EUA que impedem a participação do país nas Cúpulas da região e sim suas “práticas contrárias aos direitos universais”. “Não podemos fechar os olhos aos abusos que acontecem [em Cuba]”, concluiu Obama.



No entanto, a Cúpula deixou ainda mais claro o isolamento norte-americano em sua política de exclusão do país caribenho. Confirmada a ausência de Cuba na Cúpula, alguns líderes da região passaram a repudiar publicamente a atitude norte-americana.



O presidente do Equador, por exemplo, afirmou que não compareceria à Cúpula por discordar da exclusão dos cubanos. Na véspera do encontro, foi a vez dos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Nicarágua, Daniel Ortega, tomarem a mesma atitude. A ausência dos dois, no entanto, não foi oficialmente ligada à questão cubana.



Já durante a Cúpula foi a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da América) que se posicionou sobre o assunto. O bloco afirmou que não irá comparecer na próxima Cúpula caso Cuba continue suspensa dos encontros.



“Cuba tem direito incondicional e inquestionável de estar presente e de participar de um plano de igualdade soberana neste fórum”, destacou o comunicado da Alba, formada por Equador, Antígua e Barbuda, Cuba, Dominica, Venezuela, Bolívia, São Vicente e Granadinas e Nicarágua.



“O isolamento, o embargo, a indiferença, o olhar para o outro lado, já demonstraram sua ineficácia. No mundo de hoje não se justifica esse caminho. É um anacronismo que nos mantém ancorados a uma era da Guerra Fria superada já há várias décadas”, afirmou Juan Manuel Santos, na tarde deste domingo.



Evo Morales, presidente da Bolívia, reforçou o discurso contra a exclusão de Cuba e afirmou que “todos os países da América Latina querem a presença de Cuba, mas há uma imposição, uma ditadura que não a aceita”.

 
 
FONTE: Opera Mundi
 
 

Ô, LILI: a liberdade em seu lugar de ausência

Espetáculo da Cia Marginal, formada por atores-moradores do Complexo da Maré, costura sua poética encenação a partir de depoimentos de detentos


SERVIÇO:


Ô, LILI
Período: De 14 de abril a 20 de maio, aos sábados e domingos.
Horário: 20h
Local: Teatro da Cia dos Atores.
Endereço: Rua Manoel Carneiro, 10 e 12 – Lapa (Escadaria do Selaron).
Informações sobre ingressos: 9645-4884 (Bianca Fero).
Valor: R$ 20,00 (Meia entrada: R$ 10,00).

 

 
Baseado em uma série de conversas com pessoas presas em penitenciárias do município do Rio de Janeiro, Ô, LILI procura estabelecer uma conexão critica e criativa entre o universo prisional de regime fechado e a realidade dos espaços populares cariocas, submetidos hoje a uma série de restrições, como fronteiras do tráfico, muros e controle armado da polícia. Seguindo a linha de trabalho que vem se consolidando no grupo desde 2005, o processo de criação do espetáculo partiu de uma pesquisa de campo, realizada nos presídios Lemos Brito, em Bangu, e Oscar Stevenson, em Benfica, ambos no Rio de Janeiro. Ao longo de dois meses, foram mais de 1.200 minutos de conversas e entrevistas, cujo foco não eram os crimes supostamente cometidos pelos presos, a especificidade das penas que cada um deles, nem tampouco as possíveis denúncias ou queixas que quisessem fazer contra o sistema prisional. Ao contrário, o que se procurou explorar foi uma dimensão mais subjetiva da vida em regime fechado: a maneira como se constrói a intimidade em um ambiente cuja premissa é a subtração da privacidade dos indivíduos. Com Ô LILI (grito de liberdade usado pelos presos no momento de sua soltura), a Cia Marginal leva ao público um pouco do cotidiano de uma prisão de regime fechado. Os rituais de convivência, as hierarquias, a longa espera por cartas e visitas, os anestésicos espirituais são alguns dos temas que perpassam as relações entre seis presidiários na tentativa de sobreviver à falta de privacidade e ao tempo estático.

sábado, 14 de abril de 2012

“Linguagens Brasileiras: Cultura Negra em Cena”


 

“Linguagens Brasileiras: Cultura Negra em Cena” ocupa o Teatro Glauce Rocha, de abril a julho, com três produções de grande sucesso em torno da temática negra, além de oficinas, debates e duas peças infantis, uma delas montada pelo projeto de ocupação. Reunimos espetáculos teatrais que apresentassem inovações de linguagem e pensamento artístico e crítico a partir de uma revisão da história do Brasil sob o prisma da cultura afro brasileira.


O espetáculo de abertura é “Galanga, Chico Rei”. Segundo espetáculo da dupla Paulo César Pinheiro e João das Neves, trata da história da congada no Brasil, tendo estreado em dezembro de 2011 com temporada de sucesso também em Belo Horizonte e indicação ao prêmio APTR de melhor música. Na sequencia, o teatro abriga "Namíbia, Não!", de Aldri Anunciação, com direção de Lázaro Ramos. A montagem apresenta uma inovação no que diz respeito ao pensamento crítico sobre as questões dos afrodescendentes no Brasil contemporâneo. A peça ficou em cartaz um ano em Salvador e fez, no final do ano passado, curta temporada no Rio de Janeiro, com grande sucesso de público e crítica. Fechando a programação adulta, “Besouro Cordão de Ouro” repete a dobradinha Paulo César Pinheiro e João das Neves, na autoria e direção respectivamente. Viajando por todo o Brasil desde 2006, foi vencedor do prêmio Shell 2007 de melhor música. Aqui, a capoeira e a História do Brasil são contadas a partir do mito de besouro.


 
O público infanto-juvenil é contemplado com a montagem da peça "Histórias de Jilú" - baseada em conto do antropólogo José Flávio Pessoa de Barros, que conta de forma lúdica a história das lendas dos orixás para crianças – e com o "Fuzuê de Aruanda" da Cia de Dança de Aruanda.


Esperamos que aproveitem!


Laura Castro e Marta Nobrega
Direção Artística Teatro Glauce Rocha


Confira aqui a programação completa
 
 


“Intelectuais têm pavor de revolução”



Para Iná Camargo, quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta

 
Jade Percassi
de São Paulo (SP)


 
A professora Iná Camargo Costa, nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, fala sobre arte e política em tempos de crise. Para ela, a arte convencional, uma das melhores expressões do fetichismo da mercadoria, em todas as suas modalidades, inclusive as chamadas vanguardas, é politicamente comprometida com os valores dominantes. A professora, que acompanhou de perto a luta dos grupos teatrais, principalmente de São Paulo, por políticas públicas para a cultura, afirma que não acha que o caminho da disputa pelos recursos públicos seja revolucionário. Para ela, o preço que os trabalhadores da cultura pagam pela opção reformista é a reprodução interna, tanto subjetiva quanto no plano da organização do trabalho, do que a vida no capitalismo tem de pior. Para Iná, na prática os artistas reproduzem todas as relações necessárias à manutenção do modo de produção capitalista e, reivindicando parte dos recursos públicos para a produção das suas obras e garantia da sobrevivência, demonstram estar completamente integrados ao sistema. “Todos pagam o preço da invisibilidade, inclusive política, a que estão condenados os que não se colocam como estratégia o confronto revolucionário com o monopólio dos meios de produção cultural”, afirma.



Iná Camargo – que atualmente, atua como dramaturgista da Cia Ocamorana de teatro e que anunciou que por ocasião de seu sexagésimo aniversário faz sua despedida de eventos públicos “de qualquer natureza” – afirma que o problema, portanto, não é reiterar que “o projeto socialista está tão fora de pauta”, mas discutir por que as organizações políticas, tanto partidos quanto movimentos, não o colocam em pauta. E coloca um critério: quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta, pois intelectuais têm pavor de revolução.



Brasil de Fato – Em recentes participações em debates políticos, você tem reafirmado a presença histórica das linguagens artísticas nos processos políticos mais amplos, revolucionários e contrarrevolucionários. Quais os casos mais emblemáticos dessa relação entre arte e política?



Iná Camargo Costa – Começando por colocar a questão em termos bem amplos, é preciso lembrar que as chamadas linguagens artísticas estão presentes o tempo todo em nossas vidas e sempre traduzem os valores da classe dominante. Basta prestar atenção ao modo de ser das nossas cidades, voltadas que são às necessidades do escoamento dos produtos da indústria automobilística: todos os sinais de trânsito exploram linguagens artísticas, desde as faixas de pedestres até as amplas avenidas, os parques, as pontes estaiadas etc. O discurso político, por mais convencional e conservador que seja, sempre tem ingredientes artísticos. A arte convencional, uma das melhores expressões do fetichismo da mercadoria, em todas as suas modalidades, inclusive as chamadas vanguardas, é politicamente comprometida com os valores dominantes. Nos debates de que participei ultimamente, a solicitação era tratar dos diferentes modos como artistas interessados no ponto de vista dos trabalhadores podem enfrentar esteticamente esses valores dominantes. Entendendo que o interesse era a luta de classes tal como se manifesta na trincheira da produção artística, achei que seria o caso de lembrar alguns episódios que a própria história da luta de classes já produziu, tanto no plano reformista quanto no revolucionário. Um critério político-dialético aqui é importante: até outubro de 1917 (revolução soviética), as manifestações reformistas podiam ser consideradas progressistas, mas depois da revolução elas adquirem um caráter contrarrevolucionário, de obstáculo claro ao avanço das funções e das próprias linguagens artísticas. Sem meias palavras: o mesmo critério que vale para a política vale para as artes.



Sem perder mais tempo com a arte contrarrevolucionária que nos assedia durante 24 horas por dia, passemos ao interesse pela revolucionária. Neste caso é obrigatório tratar daquilo que foi feito nos anos que se seguiram à revolução soviética. Como meu maior interesse é teatro, as intervenções que andei fazendo acabaram se voltando para o teatro de agitprop, a manifestação mais revolucionária possível em matéria de arte, de acordo com o critério acima enunciado. Por isso vou me referir apenas às relações entre política e agitprop. Os artistas que se dedicaram a ele – e entre os mais conhecidos estão Maiakóvski, Meyerhold e Eisenstein, para ficar só no campo do teatro – já tinham uma posição política clara: Maiakóvski e Meyerhold eram militantes do partido bolchevique e Eisenstein integrou-se diretamente ao exército vermelho em 1918. Para eles, a função da arte revolucionária era participar da luta pela construção do poder soviético – o mais democrático já inventado pela humanidade – de todas as formas possíveis, desde fazendo a propaganda direta do ponto de vista revolucionário sobre as questões da ordem do dia, até inventando formas totalmente inéditas, como a do “processo de agitação” em que o público era diretamente treinado para participar dos sovietes com desenvoltura e conhecimento de causa. Sendo o agitprop, disparado, a minha forma preferida de arte, nem gosto muito de perder tempo com as outras.



Simplificando bastante: as relações são antes dos artistas, do que das artes, com a política. Os que se decidem por um caminho revolucionário são livres para inventar as melhores maneiras de aproveitar todas as linguagens disponíveis. No mesmo processo, acabarão inventando suas formas próprias, ou inéditas, como foi o caso do teatro jornal, do processo de agitação, da peça dialética e assim por diante.



No caso brasileiro, qual foi o papel da produção artística na disputa de hegemonia ao longo da história recente?



Vamos combinar que eu não gosto muito de “disputa de hegemonia”, pois aqui no Brasil essa expressão assumiu desde os anos de 1970 uma conotação abertamente reformista, pela qual não tenho nenhuma simpatia. Isso no plano da política, porque no plano da arte ela pode ser tranquilamente absorvida pela expressão mais verdadeira, que é “disputa de mercado”.



Dito isto, é preciso reconhecer que desde fins do século 20 há uma forte movimentação de jovens supérfluos (que não encontram emprego no mercado cultural) tentando desenvolver uma produção artística fora do mercado, tanto para criticá-lo quanto se esforçando para fazer alguma coisa que pode ser identificada como “disputa de hegemonia”. Se não há dúvida sobre o fato de que isto realmente é feito em termos de obras, isto é, no plano simbólico, já não se pode dizer o mesmo quanto à estratégia, pois esses trabalhos desenvolvidos à margem do mercado cultural não têm a mais remota condição de disputar absolutamente nada com ele em termos de alcance. Basta pensar no número de pessoas que um capítulo de novela atinge e o número de pessoas que um trabalho de teatro de grupo tem a possibilidade de alcançar. Não é por outra razão que a chamada “Cultura fora do eixo” põe em pânico tantos militantes do teatro de grupo. Eu diria que, no âmbito do mercado que realmente está sendo disputado, eles, pelo menos, não são hipócritas, jogam limpo. Já disseram que é de mercado que se trata e se habilitam a disputar o fundo público para essa finalidade, inclusive deixando claro que estão muito bem sintonizados com estes tempos de “empreendedorismo” que caracteriza a ação de todo mundo no campo cultural.



Os que dizem disputar hegemonia precisam esclarecer melhor seus próprios objetivos, pois enquanto não o fazem estão perdendo de goleada para os militantes da “economia da cultura”.



Há exemplos na atualidade que indicam uma reativação desse fazer artístico que assume sua vocação eminentemente política?



Acho que os grupos teatrais, ou as brigadas, que se desenvolveram no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), claramente reativam a vocação eminentemente política do teatro, até porque foram criadas pela própria direção do movimento que desde o começo considerou necessária também a intervenção no âmbito cultural. Por haver esse processo no interior de um movimento político, os grupos teatrais que se aproximaram do MST – e isto no Brasil inteiro, a começar pelo Rio Grande do Sul – também desenvolveram essa vocação. Por outro lado, veteranos de outros episódios de politização mais ampla no país, como o União e Olho Vivo de São Paulo, entre outros, nunca perderam esse espírito. Mas todos pagam o preço da invisibilidade, inclusive política, a que estão condenados os que não se colocam como estratégia o confronto revolucionário com o monopólio dos meios de produção cultural.



Quanto aos grupos teatrais mais jovens, que apareceram nas ondas criadas por movimentos como o “Arte contra a barbárie” e “Redemoinho”, por serem majoritariamente integrados por filhos da classe média, é possível observar neles o interesse por essa reativação de um fazer artístico politizado em graus variados. Nota-se isso sobretudo nos assuntos, nos temas abordados e na opção por formas diversas do teatro épico. Mas a condição de classe média pesa muito, todos oscilam tipicamente entre euforia e depressão e, sobretudo, muitos reagem mal a qualquer proposta de organização política mais efetiva. Por isso o Movimento dos Trabalhadores da Cultura está demorando tanto para decolar. Tem muita gente que ainda acha que artista não é trabalhador!



Em que medida a organização interna dessa(s) categoria(s) se fortalece e/ou se fragiliza ao se deparar com as contradições da disputa por recursos públicos e a contribuição para a elaboração de um política cultural junto ao Estado?



Essa questão tem pouco interesse para mim, pois não acho que o caminho da disputa pelos recursos públicos seja revolucionário. O preço que os trabalhadores da cultura pagam pela opção reformista é a reprodução interna, tanto subjetiva quanto no plano da organização do trabalho, do que a vida no capitalismo tem de pior: começando pelo consumo privilegiado (por ser sempre e necessariamente para poucos) de todos os bens produzidos pela classe trabalhadora – de alimentos a verbas públicas (a renda do Estado provém da mais-valia arrancada dos trabalhadores agrícolas, industriais e dos serviços, não é mesmo?) – e culminando com a reprodução entre eles mesmos da estrutura social mais geral, na qual quem tem mais pode mais, prevalece a hierarquia do saber, a administração das pessoas, o paternalismo mais odioso, inclusive reclamado pelos mais jovens e assim por diante. Isto é: na prática os artistas reproduzem todas as relações necessárias à manutenção do modo de produção capitalista e, reivindicando parte dos recursos públicos para a produção das suas obras e garantia da sobrevivência, demonstram estar completamente integrados ao sistema. Não dá para imaginar que daí saia alguma alternativa revolucionária. Por isso venho perguntando com insistência aos artistas: vocês acham possível se dar bem e ser feliz neste mundo, tal como ele está organizado, ou a sua felicidade pessoal e profissional depende de uma mudança total? É claro que “mudança total” é código para revolução...



Do ponto de vista da disputa com a indústria cultural, há condições da produção artística alinhada com os interesses da classe trabalhadora confrontar o que está sendo imposto pela lógica do capitalismo? Quando um projeto socialista parece “tão fora de pauta” para a grande massa de trabalhadores não organizados, sem consciência de classe, etc.)



Enquanto não aparecer um movimento ou partido que ponha essa questão na ordem do dia, por certo que não há condições subjetivas. Quanto às objetivas, elas estão dadas desde a própria revolução de outubro. Aliás, este ponto já foi tratado por revolucionários como Lenin e Trotsky e, no Brasil, foi desenvolvido artisticamente por Mário de Andrade numa ópera chamada Café. Nesta obra acontece uma revolução que culmina com a tomada revolucionária dos meios de comunicação. No caso, o rádio. O problema, portanto, não é reiterar que “o projeto socialista está tão fora de pauta”, mas discutir por que as organizações políticas, tanto partidos quanto movimentos, não o colocam em pauta. Em outras palavras, desmascarar as organizações políticas que, ao insistir no ponto, continuam empurrando com a barriga a ação reformista que é, repito, contrarrevolucionária.



Um critério: quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta, pois intelectuais têm pavor de revolução. Mas quando um dirigente partidário ou de movimento organizado diz a mesma coisa, ele está expressando o caráter reformista de sua própria organização, ou pelo menos da tendência que ele representa nessa organização. Um contraexemplo é o discurso do Gilmar Mauro no último congresso do MST.



Como você resumiria então os desafios correntes para a ativação simbólica da luta de classes?



Acho que já respondi a questão, mas especifiquemos um pouco mais. Não podemos ter a veleidade de achar que artistas sem qualquer vínculo com organizações revolucionárias propriamente ditas sejam capazes de avançar nessa ativação simbólica da luta de classes, para além do que já fazem em seus trabalhos, às vezes até sem consciência. Antes de mais nada, eles próprios precisam entender o que seja luta de classes pois, enquanto não o fizerem, nem ao menos saberão qual o seu lugar nessa luta. E nessa ignorância política tenderão sempre a reproduzir os valores dominantes. Para estes casos, recomendo sempre a leitura dos escritos políticos de Brecht, que nunca tergiversou sobre a questão. Ele diz com todas as palavras que o proletariado espera pelo menos três serviços dos intelectuais e, portanto, dos artistas: a) que desintegrem a ideologia burguesa (nos dois sentidos: cair fora e denunciar, criticar até reduzir a pó); b) que estudem, compreendam, expliquem e exponham artisticamente, sempre de maneira crítica, as forças que movem o mundo e c) que façam a teoria e a arte avançarem na direção dos seus interesses. Simplificando: ultrapassar o estágio em que os artistas se encontram, de completa ignorância política, é o principal obstáculo. Se este obstáculo for ultrapassado, os demais serão mais facilmente superados.

 
 
FONTE: Brasil de Fato

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O papa e o marxismo

Por Frei Betto




O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa. Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição. Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.



Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.



Ao longo da história, em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes. Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo. Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria. Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio. Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).



O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo. O capitalismo, sim, já não é útil, pois promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo; apoderou-se de riquezas naturais de outros povos; desenvolveu sua face imperialista e monopolista; centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.



Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo. E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecem fome crônica. O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna. Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição; onde falam em cooperação, ele introduziu a concorrência; onde falam em respeito à soberania dos povos, ele introduziu a globocolonização.



A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião. A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia. A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia, hoje impera na consciência de muitos cristãos e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso. A Igreja Católica, muitas vezes, é conivente com o capitalismo porque este a cobre de privilégios e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.



Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos. O marxismo, ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo, nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística, caracterizam como o mundo em que todos haverão de “partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano”. A isso Marx chamou de socialismo.



O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867. “Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério”, disse o prelado por ocasião do lançamento da obra. “Há que se confrontar com a obra de Karl Marx, que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo. Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20″.



O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010, qualifica de “sociais-éticos” os princípios defendidos em seu livro, critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de “selvagem” e “pecado”, e advoga que a economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política. “As regras do jogo devem ter qualidade ética. Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo”, afirma o arcebispo.



O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de “querido homônimo”, falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.




Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais


 
 

O papel do professor como formador

De acordo com o saudoso professor Manoel Salgado

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes: "Salvemos, pois, a vida dos cinco heróis cubanos!"

Como é do conhecimento geral, permanece a absurda violação dos direitos humanos perpetrada pelo governo dos EUA, dirigido pelo presidente Obama, prêmio Nobel da Paz, que, não obstante o clamor mundial, continua a manter na prisão quatro heróis cubanos - Antonio Guerrero, Fernando Gonzalez, Gerardo Hernandez e Ramon Labañino -, e privar outro herói cubano, René Gonzalez, já libertado, do direito de regressar à sua pátria.


Na qualidade de filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, dois heróis internacionalistas, sou testemunha do valor inestimável da solidariedade internacional para salvar as vítimas da repressão e da sanha
 fascista. Considero-me filha da solidariedade internacional, pois fui salva das garras do fascismo por uma importante campanha mundial, liderada por minha avó Leocadia Prestes, a respeito da qual Pablo Neruda escreveu “hiciste grande, mas grande a nuestra América”.


Salvemos, pois, a vida dos cinco heróis cubanos!


Rio de Janeiro, março de 2012


Anita Leocadia Prestes
Historiadora e professora da UFRJ


FONTE: CubaDebate





terça-feira, 10 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Política educacional: mitos e mentiras


Por Otaviano Helene



Muitas das decisões políticas brasileiras são justificadas, junto à população, com base em mitos que parecem reais ou mentiras que parecem verdades. Vamos ver alguns deles relacionados à educação.


 



Mitos da educação básica


 
Há um mito que afeta não apenas a educação, mas também outros setores de interesse coletivo. Esse mito pode ser resumido na frase “o problema não é falta de recursos, mas, sim, falta de gestão”. Esse mito parece real, pois qualquer que seja a atividade, seja ela executada pelo setor público ou privado, é sempre possível encontrar alguma parte do todo que é ou parece mal gerida. Entretanto, não é com base nas exceções ou em casos especiais e particulares que se devem construir as políticas públicas, mas sim com o que acontece no setor como um todo. No caso da educação básica, é evidente que o problema é falta de recurso, pois o investimento por mês e por estudante no setor público é pouco superior a R$ 200 (valor estimado de 2012 com base no Fundeb). É, portanto, um absurdo dizer que não há problemas de recursos. E os principais repetidores daquela frase fazem parte do grupo econômico cujos jovens e crianças frequentam escolas com investimentos várias vezes superiores àquele valor e jamais aceitariam colocá-los em escolas de duzentos reais mensais.


 
Quando a falta de recursos é demonstrada, aparece outro mito: “apesar dos recursos limitados, é possível ter boas escolas, como mostram alguns exemplos”. De fato, às vezes surge alguma escola pública sem nenhuma característica especial (como ser uma escola técnica, um colégio militar ou um colégio de aplicação, por exemplo), que tem bons indicadores. Isso prova o que é afirmado acima? Certamente, não.

 

O Brasil tem perto de 200 mil estabelecimentos públicos de educação básica com uma característica média. E aquelas 200 mil escolas se distribuem em torno dessa média, até mesmo de uma forma bastante heterogênea, por causa tanto da variedade de vínculos institucionais que elas têm como da heterogeneidade dos municípios e estados. Assim, se a média é ruim, encontraremos um enorme número de escolas que podem ser classificadas como tal, ruins; mas encontraremos, também, muitas que devem ser classificadas como péssimas e outras como aceitáveis. Algumas, ainda, estarão abaixo do que poderíamos considerar como péssimas, pois podem apresentar, por fatores aleatórios, professores desmotivados e em quantidade insuficiente, estudantes despreparados e com enormes dificuldades materiais, problemas estruturais, absoluta falta de recursos, diretor desinteressado etc. Eventualmente, entre as cerca de 200 mil escolas, encontraremos algumas que apresentam bom desempenho, também por fatores apenas aleatórios e casuais, por terem, em certo momento, um quadro de professores completo, um corpo de estudantes que, também casualmente, tenham as necessárias condições de estudo, professores com “pique” e não sobrecarregados etc. Portanto, achar algumas escolas que estão distantes da média, seja para um lado, seja para o outro, prova apenas que a média é uma combinação do todo e que as coisas, sejam o que forem, apresentam variações em torno dela.

 

Ilustrações de que a existência de boas escolas públicas é fruto da mera flutuação aleatória em torno de uma média ruim são fornecidas pelos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do Estado de São Paulo, Idesp. Entre as mais de 3500 escolas que oferecem o ensino médio, apenas três apresentaram um desempenho acima de 5,0 em uma escala que vai de zero a dez, sendo o melhor resultado igual a 5,98 e o menor, a 0,33. Está evidente a variação em torno de uma média baixa. E a ilustração de que cada escola pode ter suas características variadas de ano para ano é dada por uma delas, que em determinado ano foi a que apresentou o melhor desempenho e, dois anos depois, caiu para o grupo da terça parte com piores resultados (1). Em resumo, não devemos tomar nossas decisões de políticas públicas com base em exceções, mas, sim, nas regras.


 
Alguns mitos do ensino superior (2)

 

Um dos mitos relativos ao ensino superior é que o investimento para manter um estudante em um curso de graduação em uma instituição pública é maior do que em uma instituição privada, o que concorda com outro mito, de que a administração pública é ineficiente enquanto a privada é eficiente. Aquele mito é construído com base na simples divisão do orçamento de uma instituição pública pelo número de estudantes e comparando com as mensalidades de uma instituição privada. Isso está errado por várias razões.



 
Uma instituição pública tem, em seu orçamento, várias despesas não correspondentes à educação (por exemplo, no caso da USP, Unesp e Unicamp, as três universidades estaduais paulistas, incluem em seus orçamentos o pagamento de aposentadorias, enquanto as aposentadorias das instituições privadas são pagas por órgãos previdenciários). Além disso, as instituições públicas têm atividades de pesquisa que raramente existem nas instituições privadas. A comparação do custo de um estudante também não deve ser feita pela média das instituições, sem especificar as áreas de conhecimento, pois há grandes diferenças de valor entre os diferentes cursos.


 
Os investimentos necessários para manter um estudante de graduação em um curso que tem laboratórios complexos e em grande quantidade, cujas aulas não podem ter um número excessivamente grande de estudantes e com altas cargas didáticas, podem ser cinco ou mais vezes superiores aos investimentos em um curso onde não há laboratórios e cuja carga horária é bem menor.

 

 
Como as instituições privadas concentram seus estudantes em cursos com esse último perfil, comparar a média dos orçamentos público e privado por estudante, sem precisar a área de conhecimento, falseia totalmente a realidade. Quando a comparação é feita área por área, vemos que a realidade é bem diferente do mito. Os custos de um estudante de graduação em um mesmo curso em instituições públicas e privadas são bastante próximos e, não raramente, maior nas instituições privadas do que nas públicas, em especial quando se consideram cursos de qualidade equivalente (3).

 

Aqui vai outro mito. Há uma afirmação bastante divulgada de que as universidades públicas privilegiam os estudantes economicamente mais favorecidos, em detrimento dos menos favorecidos, portanto, contribuindo para aumentar ainda mais as desigualdades e injustiças do país. Isso é verdade? Vamos ver. A seleção econômica é, infelizmente, um processo plenamente presente no sistema educacional brasileiro, do começo ao fim. Entretanto, no ensino superior, essa seleção ocorre não pelo vínculo institucional do estabelecimento, mas, sim, pelo tipo de curso procurado. E em cada tipo de curso, os estudantes mais favorecidos estão nas instituições privadas, não nas públicas.


 
Os estudantes vindos dos estratos mais favorecidos da população estão nos cursos mais procurados, de maior prestígio social e que levam a profissões mais bem remuneradas: medicina é o exemplo mais conhecido. Nos cursos que levam a profissões com menores remunerações e que são menos procurados (como os de formação de professores), estão concentrados os estudantes dos segmentos economicamente mais desfavorecidos: a Pedagogia talvez seja o melhor exemplo. E, como regra, em cada um dos cursos – considerando a área de conhecimento e sua qualidade –, a renda média dos estudantes de uma instituição privada é superior à renda média dos estudantes de uma instituição pública.


 
Vamos aos números (4): a renda familiar média dos estudantes de Medicina é cerca de três vezes superior à renda média dos estudantes de Pedagogia, ilustrando bem como ocorre a seleção econômica pelo tipo de curso. Mas a renda média dos estudantes de um mesmo curso nas instituições privadas é até 30% superior à dos estudantes nas instituições públicas. Talvez o mecanismo que explique essa última característica seja o seguinte. Dois estudantes, um mais desfavorecido e outro com maior renda, disputam uma vaga em um determinado curso em uma instituição pública e ambos têm insucesso. Ao mais pobre, resta procurar outra instituição pública, tentar no ano seguinte ou procurar outro curso; o mais favorecido poderá se inscrever em uma instituição privada que ofereça aquele curso desejado e pagar por ele.


 
Outro mito, ainda, é quanto à existência de vagas ociosas nas instituições privadas de ensino superior, usado para justificar a criação do ProUni (5). Se olharmos os últimos dados estatísticos disponíveis, veremos que, para as 2,67 milhões de vagas oferecidas em cursos presenciais pelo setor privado, houve apenas 1,18 milhão de ingressantes (44% de taxa de aproveitamento (6)). Entretanto, as vagas não ocupadas de forma alguma podem ser consideradas como ociosas, pois não correspondem a salas, professores, bibliotecas, prédios, equipamentos, laboratórios etc. sem ocupação. Ao contrário, as instituições privadas sabem, de antemão, que aquelas vagas oferecidas não serão ocupadas e, se são oferecidas, é apenas por uma estratégia de mercado – oferecer todas as possibilidades aos potenciais clientes, mesmo sabendo que haverá interessados apenas para uma fração delas. Isso não é diferente da estratégia de vendas de um supermercado, que satura totalmente o campo de visão dos potenciais compradores, de tal forma que, qualquer que seja a direção em que olharem, encontrarão um produto à venda. Como as vagas oferecidas, aqueles produtos todos não serão vendidos (portanto, a exposição não é ociosa), mas precisam estar lá.


 
O número de vagas muito além daquelas que serão ocupadas, ao invés de indicar ociosidade, revela o enorme poder que as instituições privadas de ensino têm, pois, ainda que venha a haver pressão do MEC para que maus cursos sejam fechados, há uma enorme margem de manobra que lhes permitirão continuar oferecendo vagas e cursos abundantemente. A sobra de vagas, ao invés de denotar uma ociosidade, mostra, de um lado, o uso delas em uma estratégia tipicamente comercial e, de outro, a permissividade dos órgãos públicos em permitirem a criação de instituições, cursos e vagas sem que haja demanda.


 
Há muitos outros mitos relativos à educação no Brasil e desconstruí‑los é necessário. Entretanto, mitos são mitos e, a cada um que descontruímos, outro pode ser criado. Portanto, precisamos ficar permanentemente atentos para evitar que eles cresçam, pois os estragos que podem fazer são muitos e duradouros. E o apoio encontrado por muitas políticas danosas ao país e à maior parte da população depende da crença nesses mitos.

Notas:


2) Alguns argumentos usados neste artigo aparecem, também, no artigo “Educação superior: desconstruindo mitos”, escrito em co-autoria com Lighia B. Horodynski-Matsushigue e publicado na edição 466 do Correio da Cidadania, acessível pelo endereço http://www.correiocidadania.com.br/antigo/ed466/pol3.htm (consultado em março/2012).

 

3) O artigo “O custo do aluno na universidade”, Jornal da USP, novembro/2010, que pode ser encontrado no endereço http://espaber.uspnet.usp.br/jorusp/?p=12555 (consultado em março/2012), mostra as estimativas do investimento necessário para manter um estudante em um curso de graduação na Universidade de São Paulo em diferentes áreas de conhecimento.


4) Os dados correspondem a informações coletadas pelos questionários que acompanhavam os “provões” e divulgados, em 2004, pelo Inep. Entretanto, como não se estão examinando valores absolutos, mas, sim, relativos, eles devem, com poucas variações, permanecer válidos.

5) O Programa Universidade para Todos é um programa federal que transfere recursos para instituições privadas de ensino superior que recebem estudantes que preencham certas condições econômicas e escolares.

6) As instituições federais e estaduais ofereceram 386,9 mil vagas e tiveram 381,1 mil ingressantes, um aproveitamento de quase 99%. Os dados são da Sinopse Estatística da Educação Superior de 2010, Inep/MEC.

 

Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da USP, foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Protesto de Anita Prestes ao Senador Inácio Arruda





Rio de Janeiro, 4 de abril de 2012



Esmo. Sr. Senador Inácio Arruda.

Senado Federal - Brasília



Na qualidade de filha de Luiz Carlos Prestes e de sua colaboradora política durante mais de trinta anos, devo declarar minha repulsa e indignação com a proposta de sua autoria de que seja declarada nula a decisão do Senado que cassou, em 1948, o mandato do senador Luiz Carlos Prestes. Meu pai jamais aceitaria semelhante medida individualmente, isolada, sem que as centenas de parlamentares comunistas cassados (deputados federais, deputados estaduais e vereadores) juntamente com ele tivessem também devolvidos seus legítimos direitos constitucionais. Todos que o conheceram sabem o quanto Prestes, nesse sentido, era intransigente.



Na realidade, a proposta encaminhada ao Senado Federal por um representante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) revela, mais uma vez, algo que Prestes denunciou incessantemente durante os seus últimos dez anos vida: o reformismo desse partido, sua adesão aos interesses das classes dominantes do País, seu compromisso espúrio com o Governo Sarney, nos anos 1980, compromisso confirmado no texto da mensagem ora encaminhada à apreciação do Senado. Luiz Carlos Prestes sempre deixou claro que a legalidade dos comunistas deveria ser conquistada nas ruas, pelo povo, e não através de conchavos de bastidores, como aconteceu, no caso do PCdoB, em 1985. Prestes também não aceitaria a anulação da cassação do seu mandato de senador através de manobra do PCdoB, cujo objetivo evidente é tirar proveito político do inegável prestígio do Cavaleiro da Esperança.

Atenciosamente,

Anita Leocadia Prestes



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Esclarecimento sobre a minha saída do Colégio Municipal Professora América Abdalla


Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro

"O silêncio é reacionário."
Jean Paul Sartre.





Nesta última terça-feira[3/4], houve reunião pedagógica com os professores do Abdalla. Foi abordado, segundo o relato de vários colegas, o meu caso de ter saído três tempos do colégio e os ter levado para outra escola. Segundo me contaram, a diretora afirmou que o motivo foi unicamente pessoal. De fato, as razões da minha saída são de cunho pessoal. Pessoalmente não considero que o Colégio Municipal Professora América Abdalla e a maneira como vem sendo administrado possam me propiciar condições minimamente necessárias para desenvolver um trabalho educacional minimamente satisfatório. Por isso, é pertinente o ditado “os incomodados que se mudem” neste caso específico. Quando não enxergamos mais qualquer possibilidade de mudanças, o melhor é partir para novas frentes de luta.


Também foram feitas outras especulações sobre a minha saída. Nenhuma delas tem fundamento. 1) Não pretendo pedir exoneração do cargo de professor concursado do município, pois é a minha única fonte de renda para sobreviver; 2) Não almejo cargo na Secretaria de Educação ou qualquer outro órgão da prefeitura, até porque não acho que sair da situação confortável de cumprir minha carga horária em uma única unidade escolar, bem próxima da minha residência, e passar a dar aulas em DUAS escolas, em que terei que pegar condução para ir ao trabalho, não me parece nada análogo aos benefícios de um suposto cargo; 3) Não estou saindo por problemas com o meu doutorado.


Exatamente pelo respeito, afeto e consideração que devoto aos meus amigos professores e aos meus estimados alunos, não tenho dúvida da justeza da minha decisão. O que tinha para contribuir no Colégio Municipal Professora América Abdalla já o fiz em oito anos em que estive lecionando nele. Saio com a consciência do dever cumprido, de cabeça erguida, sem ter do que me envergonhar e mais disposto do que nunca para lutar pelo que acredito ser o bom, o justo e o melhor do mundo.




Gostaria, sinceramente, que minha saída, em vez de gerar especulações sem fundamentos, pudesse propiciar uma reflexão profunda e, o mais importante e imprescindível, resultar em ações por parte dos professores para solucionar os seus problemas (em especial condições dignas de trabalho) e contribuir para uma educação pública verdadeiramente de qualidade. Definitivamente não estou fugindo dos problemas, muito pelo contrário, estou indo para novas frentes de luta, como já afirmei. Ou como diria Cazuza: “Não desisti, só não insisto mais” – em relação ao Abdalla.




Também nesta terça-feira comuniquei oficialmente à direção que não desejo mais continuar no Abdalla. Espero, sinceramente, valendo-se do bom senso, que ela possa atender amigavelmente a minha solicitação de não fazer mais parte do corpo docente do Abdalla a partir do mês de maio. Não me parece razoável manter um professor que, pessoalmente, não acredita mais na viabilidade da atual gestão de realizar mudanças efetivas, reais e consistentes para engendrar o potencial educacional que, indiscutivelmente, o Abdalla pode oferecer.



A gestão atual tem vários méritos e seria leviano da minha parte não reconhecê-los. Porém, a meu ver, o não enfrentamento efetivo de alguns males que afligem o Abdalla compromete as conquistas realizadas. Torço, sinceramente, que medidas paliativas sejam abandonadas em favor de ações que apresentem resultados duradouros. Sempre é possível reescrever um final diferente, digno e satisfatório para toda a comunidade escolar do Abdalla. Afinal de contas, a Família Abdalla merece!!!

terça-feira, 3 de abril de 2012

MOSTRA CENTENÁRIO DE MAZZAROPI





CENTENÁRIO DE MAZZAROPI


QUANDO de hoje até o dia 15/4 (http://www.cinemateca.gov.br/)

ONDE Cinemateca Brasileira (lgo. Senador Raul Cardoso, 207, tel. 0/xx/11/3512-6111)

QUANTO R$ 8

CLASSIFICAÇÃO livre

 
A Cinemateca Brasileira festeja neste mês o centenário de nascimento de Amácio Mazzaropi (09 de abril de 1912 – 13 de junho de 1981). Intérprete de uma das personagens mais famosas do cinema brasileiro, o Jeca, Mazzaropi lançou-se nas telas no início dos anos 1950, na comédia Sai da frente, produzida pelos estúdios da Vera Cruz em São Paulo, e dirigida pelo cineasta e dramaturgo Abílio Pereira de Almeida. Sempre encarnando tipos populares – do motorista de caminhão ao malandro Pedro Malazartes, passando por engraxate, cangaceiro, torcedor fanático ou pai de família conservador – foi como o caipira do interior paulista que Mazzaropi eternizou-se no imaginário brasileiro. Objeto de curiosidade para críticos como Paulo Emilio Salles Gomes, e motivo de saudação para outros, como Jairo Ferreira, que chegou a comparar a importância de sua personagem a de Zé do Caixão e Antônio das Mortes, criações de José Mojica Marins e Glauber Rocha, Mazzaropi arrebatou o público em comédias que dialogavam com os espetáculos populares que desde a infância o encantavam, como o circo-teatro e a música caipira, e em filmes que tratavam de problemas concretos para suas plateias – o conflito entre o caipira e a cidade, questões agrárias e raciais, modernização e atraso, cangaço, mudanças de comportamento, etc. Em alguns momentos, também recorreu aos expedientes da paródia, satirizando gêneros narrativos como o policial e o western, numa estratégia semelhante a das chanchadas da Atlântida. Depois de obter sucesso protagonizando filmes pela Vera Cruz, pela Cinedistri, entre outras empresas, montou sua própria produtora em 1958, a PAM Filmes (Produções Amácio Mazzaropi), e instalou na cidade de Taubaté, antigo reduto de sua família, um estúdio de proporções industriais – ao menos para o contexto brasileiro da época. Além disso, também assumiu a distribuição de suas fitas e organizou uma estratégia eficiente de fiscalização das bilheterias.

A homenagem organizada pela Cinemateca reúne algumas das principais obras estreladas por Mazzaropi, como o “road movie” cômico Sai da frente (1952), Nadando em dinheiro (1952) e Candinho (1953) – produções da Vera Cruz. Além delas, os filmes O gato de madame (1956), Chofer de praça (1958), Jeca Tatu (1959), As aventuras de Pedro Malazartes (1960), e Um caipira em Bariloche (1973), títulos em sua maioria realizados pela PAM Filmes. O grande destaque da homenagem fica por conta da seção MAZZAROPI RESTAURADO, programa reunindo quatro clássicos da filmografia do comediante em cópias restauradas pela Cinemateca, com patrocínio da Petrobras – Zé do Periquito (1961), O lamparina (1963), O corintiano (1966) e O puritano da Rua Augusta (1966). Enquanto O corintiano retrata o fanatismo de um torcedor de futebol capaz das maiores loucuras para torcer por seu time do coração, O puritano da Rua Augusta, dirigido pelo próprio Mazzaropi, pega embalo no surgimento da Jovem Guarda, mostrando um pai de família conservador que tem dificuldade em lidar com os filhos, fãs do rock. Já O Lamparina, de Glauco Mirko Laurelli, cineasta e montador do clássico São Paulo S.A., de Luiz Sérgio Person, parodia os filmes de cangaço. Na mesma época em que as produções do Cinema Novo como Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha, rodavam o mundo em festivais internacionais, Mazzaropi se divertia com o imaginário do gênero. Fecha o programa a comédia Zé do Periquito (1961), de Milton Amaral e Ismar Porto, cuja versão restaurada ainda não foi exibida em São Paulo.



CINEMATECA BRASILEIRA
Largo Senador Raul Cardoso, 207
próxima ao Metrô Vila Mariana
Outras informações: (11) 3512-6111 (ramal 215)
Ingressos: R$ 8,00 (inteira) / R$ 4,00 (meia-entrada)
Maiores de 60 anos e estudantes do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas têm direito à entrada gratuita mediante a apresentação de documento.

PROGRAMAÇÃO



03.04 - TERÇA
SALA CINEMATECA BNDES

18h30 O PURITANO DA RUA AUGUSTA
20h30 O CORINTIANO



04.04 - QUARTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS

18h30 SAI DA FRENTE
20h30 NADANDO EM DINHEIRO



05.04 - QUINTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS

19h00 CANDINHO
21h00 O GATO DE MADAME



06.04 - SEXTA
SALA CINEMATECA BNDES

16h30 CHOFER DE PRAÇA
18h30 JECA TATU



07.04 - SÁBADO
SALA CINEMATECA PETROBRAS
16h00 AS AVENTURAS DE PEDRO MALAZARTES
19h00 O CORINTIANO
21h00 O PURITANO DA RUA AUGUSTA



08.04 - DOMINGO
SALA CINEMATECA PETROBRAS

16h30 O LAMPARINA
18h30 ZÉ DO PERIQUITO
20h30 UM CAIPIRA EM BARILOCHE



10.04 - TERÇA
SALA CINEMATECA PETROBRAS

19h00 O GATO DE MADAME
21h00 O LAMPARINA



11.04 - QUARTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS

18h30 UM CAIPIRA EM BARILOCHE



12.04 - QUINTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS

18h30 JECA TATU
20h30 AS AVENTURAS DE PEDRO MALAZARTES



13.04 - SEXTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS

18h30 SAI DA FRENTE
20h30 ZÉ DO PERIQUITO



14.04 - SÁBADO
SALA CINEMATECA PETROBRAS

19h00 CHOFER DE PRAÇA
21h00 CANDINHO



15.04 - DOMINGO
SALA CINEMATECA PETROBRAS

18h00 NADANDO EM DINHEIRO
20h00 SAI DA FRENTE


FICHAS TÉCNICAS E SINOPSES



As aventuras de Pedro Malazartes, de Amácio Mazzaropi
São Paulo, 1960, 35mm, pb, 90’
Amácio Mazzaropi, Geni Prado, Nena Vianna, Dorinha Duval

Com a morte do pai, Pedro Malazartes é trapaceado por seus dois irmãos, que tomam para si toda a herança do velho. Sem posses e sem rumo, ele deixa a fazenda paterna e encontra um grupo de meninos órfãos, que passam a acompanhá-lo. A partir daí, tentando se virar e sobreviver ao lado das crianças, ele aplica pequenos golpes – entre os quais vender uma “panela que faz tudo” e um “ganso mágico”. Primeira experiência de Mazzaropi na direção de cinema, o filme baseia-se nas histórias aventurescas de Pedro Malazartes, personagem tradicional do folclore português e brasileiro, famosa por suas malandragens e diabruras. Produção da PAM Filmes. Montagem de Máximo Barro.

Um caipira em Bariloche, de Amácio Mazzaropi e Pio Zamuner
São Paulo, 1973, 35mm, cor, 100’
Amácio Mazzaropi, Yvan Mesquita, Edgard Franco, Fausto Rocha Jr.

Fazendeiro ingênuo é persuadido a vender suas terras e a se mudar para a cidade. A propriedade é entregue a um vigarista e o caipira é enviado a Bariloche, para que uma negociata capitaneada por seu genro possa se consumar. Ao descobrir a tramoia, ele regressa ao Brasil e luta para reaver sua fazenda. Um dos filmes de maior bilheteria da carreira de Mazzaropi, esta comédia de ação e suspense foi também a primeira produção da PAM Filmes rodada no exterior. Destaque para o número musical interpretado pela cantora Elza Soares, aos pés do Cristo Redentor. Montagem de Mauro Alice.

Candinho, de Abílio Pereira de Almeida
São Paulo, 1953, 35mm, pb, 94’
Exibição em Beta digital
Amácio Mazzaropi, Marisa Prado, Ruth de Souza, Adoniran Barbosa

Caipira abandona o campo e segue para São Paulo para ganhar a vida. Lá encontra seu grande amor – a filha do fazendeiro para quem até então trabalhara. A moça é agora dançarina de cabaré. Apaixonado, o caipira fará de tudo para levá-la de volta à fazenda paterna. Livre adaptação do Cândido, de Voltaire, Candinho marca a estreia de Mazzaropi no papel da personagem que irá consagrá-lo futuramente. A fotografia é assinada por Edgar Brasil, responsável pelas imagens do mitológico Limite, de Mario Peixoto. Produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz.

Chofer de praça, de Milton Amaral
São Paulo, 1958, 35mm, pb, 96’
Amácio Mazzaropi, Geny Prado, Ana Maria Nabuco, Carmem Morales

Casal de sertanejos chega à cidade para colaborar com os estudos do filho, que quer se tornar médico. Para ganhar algum dinheiro e ajudá-lo, o marido trapalhão vai trabalhar como chofer de praça. Conduzindo um calhambeque aos pedaços, ele cria as maiores confusões no trânsito de São Paulo. Chofer de praça é o filme de estreia da companhia produtora criada por Mazzaropi em 1958 (PAM Filmes). Nele, o ator, diretor e produtor investiu todos os seus recursos, inclusive o dinheiro adquirido com a venda de sua casa própria. Rodado com equipamentos da Vera Cruz, Chofer de praça se vale do tradicional embate entre os costumes do homem do campo e a vida na metrópole – situação dramática exaustivamente trabalhada pelo comediante. Apesar do risco, a produção encontrou boa receptividade em salas de cinema do interior do país. Vale destacar também em Chofer de praça as imagens da capital paulista e seus arranha céus nos anos 1950.

O gato de madame, de Agostinho Martins Pereira
São Paulo, 1956, 35mm, pb, 85’
Exibição em 16mm
Amácio Mazzaropi, Odete Lara, Carlos Cotrim, Durval Roberto

Engraxate se envolve com uma quadrilha de bandidos ao encontrar um gato perdido na rua, pelo qual sua dona, uma grã fina, oferece uma promissora recompensa. Segundo filme do diretor de origem portuguesa Agostinho Martins Pereira, que também havia colaborado com o sonho industrial da Vera Cruz, O gato de madame marca a estreia de Odete Lara nas telas. Por sua atuação, a futura atriz do cinema moderno brasileiro – protagonista de clássicos de Walter Hugo Khouri e Glauber Rocha – recebeu o Prêmio Governador do Estado em 1956. Numa estética semelhante à das chanchadas da Atlântida, O gato de madame parodia os principais clichês do cinema policial americano. Produção da Cinematográfica Brasil Filme.
Jeca Tatu, de Milton Amaral
São Paulo, 1959, 35mm, pb, 90’
Amácio Mazzaropi, Geny Prado, Roberto Duval, Nicolau Guzzardi

Caipira preguiçoso entrega pedaços de sua terra para pagar suas dívidas. Além disso, briga constantemente com um latifundiário italiano e tem de lidar com as investidas de um capataz que quer a todo custo se casar com sua filha. Homenagem declarada ao universo e à personagem criada pelo escritor Monteiro Lobato, Jeca Tatu é um dos maiores sucessos de bilheteria do comediante. Montagem de Mauro Alice.
Nadando em dinheiro, de Abílio Pereira de Almeida e Carlos Thiré
São Paulo, 1952, 35mm, pb, 78’
Exibição em Beta digital
Amácio Mazzaropi, Ludy Veloso, A. C. Carvalho, Nieta Junqueira

Modesto condutor de caminhão é herdeiro de uma fortuna. Ele se muda para a mansão herdada e começa a viver como milionário, arrancando gargalhadas dos grã-finos que não admitem seus modos populares. Mais tarde, se envolve numa série de confusões ao arrumar uma amante. Realizado no esteio do sucesso de Sai da frente, Nadando em dinheiro é o segundo filme da Vera Cruz estrelado pelo comediante, novamente sob a direção de Abílio Pereira de Almeida.

Sai da frente, de Abílio Pereira de Almeida
São Paulo, 1952, 35mm, pb, 80’
Exibição em Beta digital
Amácio Mazzaropi, Ludy Veloso, A. C. Carvalho, Nieta Junqueira

Carregando uma mudança, motorista trapalhão viaja de São Paulo a Santos ao lado do fiel companheiro de trabalho, um cachorro. Durante a travessia até o litoral, encontra diversas personagens – policiais, uma trupe de circo, uma noiva trancada num armário etc – e comete as maiores confusões. “Road-movie” cômico dirigido pelo ator, produtor e dramaturgo Abílio Pereira de Almeida, um dos nomes mais importantes da cena teatral paulistana nos anos 1950. Depois de bem-sucedidas experiências no rádio e no circo, Mazzaropi faz sua estreia no cinema. Produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz.


MAZZAROPI RESTAURADO


O corintiano, de Milton Amaral
São Paulo, 1966, 35mm, pb, 100’
Amácio Mazzaropi, Elizabeth Marinho, Lúcia Lambertini, Roberto Pirillo

Barbeiro fanático pelo Corinthians é capaz das maiores loucuras para torcer para seu time do coração: andar com um burro preto e branco, bater boca com torcedores de times de futebol rivais, fazer promessas malucas, orar, sofrer e xingar na arquibancada. Por conta de sua desmedida paixão pelo futebol, se indispõe com os vizinhos e com a família. O corintiano é uma eficiente e popular comédia de costumes, feita para agradar “a todas as torcidas”, segundo anunciavam seus cartazes de divulgação. Aqui, Mazzaropi deixa temporariamente de lado a personagem do Jeca para viver outro tipo popular, um barbeiro turrão, cuja paixão pelo futebol serve de pretexto para que a narrativa encene o conflito entre pais e filhos, entre tradição e ruptura – tema a ser aproveitado também um pouco depois em O puritano da Rua Augusta. Produção da PAM Filmes. Filme restaurado pelo Programa de Restauro Cinemateca Brasileira – Petrobras 2007.

O Lamparina, de Glauco Mirko Laurelli
São Paulo, 1963, 35mm, pb, 84’
Amácio Mazzaropi, Geny Prado, Zilda Cardoso, Emiliano Queiroz

Caipira desempregado sai da cidade de São Paulo e retorna ao Nordeste em busca de trabalho. Por acidente, ele e sua família acham-se vestidos de temíveis cangaceiros. Sátira aos filmes de cangaço, O lamparina inverte os principais clichês do gênero, brincando com o universo do faroeste e do filme de aventuras, numa estratégia cômica bem próxima à das chanchadas cariocas. Ídolo já consagrado na época, Mazzaropi mais uma vez se arrisca como cantor, interpretando canções de autoria de seu compositor favorito, Elpídio dos Santos. Na mesma época em que filmes do Cinema Novo como Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha, rodavam o mundo em festivais internacionais, Mazzaropi se diverte com o imaginário do cangaço. Terceiro filme do comediante sob a direção do cineasta Glauko Mirko Laurelli, também montador e produtor de filmes de Luiz Sérgio Person, como São Paulo S.A. Filme restaurado pelo Programa de Restauro Cinemateca Brasileira – Petrobras 2007.

O puritano da Rua Augusta, de Amácio Mazzaropi
São Paulo, 1966, 35mm, pb, 95’
Amácio Mazzaropi, Marly Marley, Marina Freire, Elizabeth Hartmann

Comédia de costumes realizada sob os embalos da Jovem Guarda. Mazzaropi interpreta um velho pai de família que adere a uma liga moralizante contra os novos costumes da juventude seduzida pelo rock n’ roll. Destaque para as participações da banda The Jordans e da cantora Elza Soares. Produção da PAM Filmes. Filme restaurado pelo Programa de Restauro Cinemateca Brasileira – Petrobras 2007.

Zé do Periquito, de Milton Amaral e Ismar Porto
São Paulo, 1961, 35mm, pb, 86’
Amácio Mazzaropi, Maria Helena Dias, Augusto César Vannuchi, Eugenio Kusnet

Jardineiro de um colégio se apaixona por uma jovem estudante. Querendo enriquecer para então se casar com ela, muda de cidade e começa a ganhar dinheiro com um realejo e um periquito da sorte. Mas ninguém quer saber dele até que uma maltrapilha resolve ajudá-lo, passando fofocas sobre a vida dos moradores. Destaque para os números musicais interpretados por Agnaldo Rayol e Hebe Camargo. Produção da PAM Filmes. Filme restaurado pelo Programa de Restauro Cinemateca Brasileira – Petrobras 2007.