sábado, 27 de setembro de 2014

Os latifúndios da mídia e da terra - seus proprietários contra os pobres e os povos indígenas

Tanta terra para tão pouco fazendeiro
Por Elaine Tavares

Vou falar brevemente sobre dois dos pontos que vocês me propuseram: a mídia e a terra. Bom, a mídia é um conjunto de empresas de comunicação que existe para formar uma opinião pública acerca das coisas. O mais poderoso desses veículos é a televisão que chega a 97% dos lares brasileiros, conforme dados de pesquisa do Ministério das Comunicações. Como somos uma nação onde o analfabetismo é grande, a maioria se informa pelo ouvido. E a TV é fundamental. Muitos dizem que o poder de persuasão da TV não é tão grande assim, que as pessoas não são folhas de papel em branco e tal. Bom, isso é em parte verdade, as pessoas não são folhas em branco, mas a TV é poderosíssima sim. É ela que forma a opinião da gente sobre quase tudo.

Exemplos: ao ligar a TV de manhã, o que vemos? A Ana Maria Braga falando de comida ou apresentando alguma trivialidade. Nos demais canais, programas parecidos. O que estão de fato fazendo ali é induzindo a comprar esse ou aquele produto, criando uma ilusão de que qualquer um de nós pode ter à mesa aquelas maravilhas, ou viver daquela maneira. Colonização do pensamento. Depois vêm os programas infantis em todos os canais, na frente dos quais uma boa parte dos pais deixa suas crianças. Ali, com os desenhos, no mais das vezes importados, vão se formando todo o tipo de conceitos e pré-conceitos. Colonização do pensamento. Os heróis são brancos, bonitos, saudáveis. Pratica-se a violência em nome da justiça, e no meio de tudo isso, há os produtos que precisamos consumir. A sandália da Xuxa, a bolsinha da Angélica, o CD de não sei quem, a boneca daquela outra. Tudo é consumo e colonização mental. Os filmes que passam à tarde, ou à noite, falam de uma cultura que não é a nossa. Nele, vemos os mocinhos - os cowboys - matando índios, e isso aparece como bonito. Índio é selvagem, sanguinário, matador. Colonizador é gente boa.

As novelas também são usinas de colonização mental. Passam ideias, valores, preconceitos, noções sobre a vida que não correspondem à verdade ou que buscam maquiá-la. Cada sucesso do horário das nove horas procura trazer algum elemento ruim que se torna palatável. Já tivemos uma heroína que era dona de uma papeleira, em pleno momento de grandes lutas contra as papeleiras na América Latina. E, agora, não por acaso, o protagonista da novela da noite é um minerador. Justo num momento em que as mineradoras estão invadindo a América Latina em uma ação neocolonizadora. Um minerador, lindo e machão que até o final da novela haverá de se tornar o queridinho do país.
Já os jornais - de papel ou da TV - nem preciso falar. Só informam sobre o que convém aos donos dos veículos e seus parceiros. A notícia é o que menos importa. São os interesses de um pequeno grupo que comandam.

No Brasil, conforme dados do sítio "Donos da Mídia", são 9.477 meios de comunicação, mas são apenas cinco grandes grupos que dominam o processo – Globo (69 veículos), SBT (19 veículos), Band (47 veículos), Civita (74 veículos) e Record (10 veículos). Esses números dizem respeito a veículos que geram as informações. Mas há os que retransmitem, e aí o número salta. Só a Globo tem 340 canais de retransmissão (é a maior rede do país). Quatro são empresas do tipo familiares e uma é da igreja universal. Essa gente decide tudo o que nos vemos e lemos. Eles não estão preocupados com os pobres. Eles defendem interesses muito claros. Os deles e os de sua classe.

A primeira coisa que tem de ficar claro para todos nós é: a mídia comercial não tem qualquer compromisso com a verdade. Ela defende interesses que são da classe dominante. Não são os nossos, dos movimentos sociais, dos indígenas, dos negros, dos pobres. Os veículos que compõe a mídia comercial são - via de regra - nossos inimigos de classe. Não há porque esperar deles qualquer preocupação com dizer a nossa palavra. Eles nunca farão isso. Basta ver como a questão indígena aparece na mídia. Eu pesquiso esse tema, leio todos os dias cerca de 60 jornais de toda a América Latina. No geral, as notícias sobre índios estão relacionadas ou a reivindicações pontuais que os colocam como "coitadinhos" ou como selvagens baderneiros. O primeiro papel, de coitados, trata de temas como a falta de atendimento de saúde, falta de comida, moradia ruim, etc. Essas coisas que são reais, mas não representam a totalidade do universo do índio.

Enquanto estão denunciando pacificamente, pedindo providências em reuniões bem comportadas, tudo bem. A mídia até noticia, muitas vezes aproveitando para bater num determinado governo ou coisa assim. Assume-se que são uns coitados e gesta-se a lógica da pena. Coitados! São índios. Vivem fora da "civilização". Isso contribui para a formação de um "tipo", que é o que a maioria da população tem na cabeça.

Agora, se esses indígenas começam a se movimentar em luta, pelos direitos e pelo território, aí a coisa muda de figura. Território significa terra, e mexer com terra é mexer num vespeiro. Vejam a luta dos indígenas no alto Xingu, contra as hidrelétricas. É uma luta por território: por modo de vida. Diz o Cacique Sadea Juruna: "se Belo Monte for construído muitas coisas vão ficar diferentes. O peixe vai desaparecer. O alagamento vai fazer o peixe se espalhar e vai ser difícil. Vai matar tudo o que a gente tem”. Para o índio, o que está em questão é o modo de vida. Diz Watatakalu Yawalapiti: "o índio não aguenta comer arroz e feijão, refrigerante, todo dia. Ele vive do beiju e do peixe. Minha comunidade vive do peixe. Morreu o Xingu a gente também morre junto. O rio é nossa vida, é tudo pra nós. Os brancos criaram uma lei que dizia que antes de fazer qualquer coisa em área indígena eles consultariam os indígenas. Mas, não consultam”. Outro diz: "vocês não usam o mercado? Pois o nosso mercado é o mato, a água, a terra. É com isso que a gente sobrevive”. Defesa do modo de vida e do direito à consulta.

Mas, para o "juruá" (o não-índio), o que está em questão é a terra. Hoje, segundo o Censo de 2010, no Brasil, existem 505 áreas indígenas que congregam mais de 517 mil almas, num total de 170 línguas e 305 etnias. Essas terras representam apenas 12,5% do território nacional (106,7 milhões de hectares) mas, apesar disso, a maioria delas vive enredada em conflitos causados por especuladores de terra, pistoleiros, jagunços. A tenebrosa batalha pela demarcação da Raposa Terra do Sol foi um exemplo concreto de como a nação vê a demanda indígena pela terra. Com declarações estúpidas como: "para quê índio precisa de tanta terra?". E assim, sucessivamente acontece em todos os espaços onde vivem os indígenas.

No Mato Grosso do Sul não é diferente. Lá vivem atualmente mais de 28 mil índios de 38 etnias, com indícios de mais nove povos ainda não contatados. Segundo Flávio Machado, coordenador regional do Cimi, ali se concentra a segunda maior população indígena do país e a que vive em pior situação, uma vez que 98% dela está confinada em pequenas reservas que representam apenas 0,2% do território estadual. Toda essa gente vive acossada pela especulação imobiliária, pelos fazendeiros, pelos grandes empreendimentos. O Mato Grosso do Sul é um estado que está na linha do desejo do agronegócio e tem as terras mais produtivas do país. Para aquele estado estão planejadas 30 novas usinas de açúcar e álcool, daí a cobiça dos fazendeiros que querem apostar na monocultura sem risco. E vejam, são 0,2 % do total do território.

O que tem ali de tão valioso para o homem branco? A resposta é: riqueza. Riqueza energética, riqueza aquífera, riqueza mineral. Vejam. Na América Latina estão 65% do lítio mundial. O lítio é o mineral que se usa para fazer baterias de celular, por exemplo, uma febre no mundo. Temos 49% da prata de todo o planeta. Temos 44% do cobre, 33% do estanho, 26% da bauxita (vira alumínio), 24% do níquel, 22% ferro. Isso é muita riqueza. E parte dela está em território indígena. É razão suficiente para que se conteste "tanta terra para pouco índio".

E as terras de latifúndio, quem contesta? Não haveria muita terra para tão pouco dono? Conforme dados da Cepal, no Brasil, 2,8% dos estabelecimentos rurais são grandes propriedades, e ocupam 60% das terras produtivas. As médias propriedades são apenas 7,5% dos estabelecimentos e ocupam 17,4% da terra. As pequenas propriedades conformam 28,6% dos estabelecimentos e ocupam 12,8% das terras. Porque os senhores ministros e deputados não questionam isso também? Porque tanta terra (60%) na mão de uma minoria?

Esses senhores receberam do governo em 2012, a bagatela de 115,2 bilhões em crédito, que raramente eles pagam. Já os pequenos receberam só 18 bilhões e via Pronaf, que é um programa do governo cheio de burocracias. E porque os latifundiários são os xodozinhos do governo? Porque eles renderam 1,82 trilhões para o PIB, só que não com comida e sim com exportação.

Mas tem mais. Muitos desses fazendeiros são apenas prepostos das multinacionais, empresas de fora do Brasil, que lucram com o agronegócio. Conforme dados divulgados por Roberta Traspadini, no seminário Jornadas Bolivarianas de 2014, a Bungue, por exemplo, que fabrica azeite, margarina e suco de laranja, é a grande líder desse setor, com uma receita líquida de mais de 5,6 bilhões de reais. É uma empresa estadunidense, criada em 1818, e que hoje se chama Bungue/Brasil. Emprega 20 mil camponeses e 35 mil funcionários diretos.

Ou seja, a terra, que para os indígenas é cultura, modo de vida, para essa gente que expropria o trabalho alheio é riqueza pura, espaço de lucro. A terra é o espaço de reprodução direta do capital transnacional. As empresas se apropriam dos recursos minerais, da água, e exploram as gentes. A terra perde a função social.

Então, quando um jornal fala do absurdo de dar "tanta" terra aos índios são esses interesses que estão em questão. A Amazônia é o exemplo mais aberrante. Mas, aqui, nos estados do sul também há interesses na terra e não é pequeno.

A comunicação tem de ser nossa

Dito isso, voltamos ao tema comunicação. Os meios estão na mão dessa classe que se apropria da terra e das gentes. É por isso que eles usam os meios para nos fazerem crer que os ricos são bonzinhos (é o que se vê nas novelas, por exemplo), que quem trabalha muito um dia vence, que quem protesta é bandido, e que tem de entregar as riquezas para quem as fará duplicar, no caso, eles.

Logo, nós, como movimento indígena e movimento social, temos de atuar em duas frentes: ter nossos próprios meios, nossos agentes de comunicação, formar gente que possa atuar nesses espaços de comunicação, usar as redes sociais, criar nossas próprias redes, usar cada espaço para divulgar nossa cultura, nossas demandas.

Mas, fazer tudo isso ainda não é suficiente. Um noticiário nacional como o JN ou o da Record matam nossas vozes em 30 segundos, e atingem milhões. É muito poder. Então não podemos nos acomodar em fazer comunicação de resistência, tendo nossos próprios veículos e criando redes. Precisamos passar ao ataque, batalhar por uma mudança geral. Tomar os meios para eles digam a nossa palavra, e isso não significa simplesmente "democratizar" o que está aí. Significa tomar mesmo, para uso da sociedade, como sonhava Brizola. Isso só acontece se mudamos esse jeito de organizar a vida Não adianta pedir aos meios comerciais - geradores de lucros para poucos - que nos deem espaço, nós temos que tomar esse espaço na luta. E é a luta por outra sociedade, fora do sistema capitalista. Assim foi feito na Venezuela, onde o povo organizado mudou a lei e tem criado meios alternativos de massa. Foi feito na Bolívia, onde os povos indígenas constroem formas massivas de comunicação também. As possibilidades estão aí, mas elas precisam ser construídas fora da ilusão capitalista. Dentro do sistema que hoje nos escraviza não poderemos nunca construir nada. É da natureza do capitalismo invisibilizar aqueles que são considerados "cânceres", doença contagiosa capaz de desestruturar o sistema.

Assim, fazer comunicação indígena pressupõe garantir meios para a divulgação da palavra originária, mas também lutar em parceria com outros movimentos para mudar o sistema geral.

FONTE: Adital


"Trabalhadores, uni-vos!": 150 anos da fundação da I Internacional (28/9/1864-28/9/2014)



A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) se tornou símbolo da luta de classes e influenciou as ideias de milhões de trabalhadores ao redor do planeta. O aniversário de 150 de sua fundação, em 1864, oferece uma importante oportunidade de reler suas resoluções e aprender com as experiências de seus protagonistas, para repensar os problemas do presente.

Com textos inéditos, cuidadosamente selecionados e traduzidos, a Boitempo Editorial lançará brevemente o livro Trabalhadores, uni-vos: antologia política da I Internacional. Este volume configura um arquivo de valor inestimável para a história e a teoria do movimento dos trabalhadores, bem como para a crítica do capitalismo. O livro conta ainda com uma extensa introdução crítica de Marcello Musto, apresentando e contextualizando as diferentes vertentes e resoluções em jogo.

Para marcar o lançamento do referido livro estará ocorrendo entre 29/10/2014 a 03/11/2014, em oito cidades brasileiras, o encontro internacional "Associação Internacional das Trabalhadoras e dos Trabalhadores, 150 depois"

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Ruralistas dizem que política de Marina está "alinhada" com o setor

Ofensiva de vice com empresários do setor e adequações do programa tornaram Marina mais simpática ao agronegócio 



Por Juliana  Granjeia



SÃO PAULO - Antes críticos e desconfiados da candidata à Presidência Marina Silva (PSB), agora os ruralistas já elogiam o programa de governo da socialista. A mudança no posicionamento se dá depois da ofensiva do candidato a vice na chapa de Marina, Beto Albuquerque (PSB), em diversas reuniões e encontros com empresários do agronegócio. Beto acatou, na semana passada, sugestões do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues e conquistou o setor, tradicionalmente tucano. Nesta sexta-feira, após encontro fechado entre Beto e convidados da Sociedade Rural Brasileira (SRB), o presidente da entidade, Gustavo Diniz Junqueira, disse ter ficado “muito satisfeito” e ressaltou que o agronegócio e a campanha da ex-ministra do Meio Ambiente estão “alinhados”.



— Esse governo vai buscar o diálogo e não vai fazer mudanças abruptas que não tenham as análises e sem conversar com os setores. Vai se estudar. Escutei do Beto que temos que melhorar o agronegócio e acabar com essa falsa agenda negativa. E isso passa pela sustentabilidade. Não existe um conflito entre proteção e produção — afirmou Junqueira.

O presidente da SRB afirmou também não vê restrição do setor à candidatura de Marina.

— Eu não vejo isso, muito pelo contrário. Eu vejo um crescimento do Sul ao Norte do país, todos muito bem representados hoje aqui e as pessoas estão buscando justamente esse posicionamento que foi colocado aqui — disse Junqueira.

Ressaltando diferenças no modelo de governar entre a presidente Dilma Rousseff e Marina e legitimando seu discurso como vice, Beto afirmou que não será apenas um substituto da presidente.

— Meu papel terá os limites que a presidente determinar, mas não serei um vice que apenas vai substituir a ausência da Marina. Vamos ajudar a governar, somos uma equipe — disse Beto, que ouviu críticas à falta de diálogo dos ruralistas com Dilma.



No último sábado, Beto participou do 3º Fórum Nacional de Agronegócios, em Campinas (SP), onde explicou dois pontos polêmicos de seu programa: a meta de desmatamento zero e o índice de produtividade de propriedades rurais, que é utilizado em casos de desapropriações. Dois assuntos que voltaram à tona no encontro com a SRB hoje.





O candidato a vice explicou que se os agricultores que melhorarem seus índices de produtividade sem expandir sua área territorial seriam premiados com mais financiamentos e mais recursos do governo. O programa de governo da candidatura não faz menção a essas medidas, diz apenas em "atualizar os índices de produtividade". Sobre o outro ponto que desagradou os ruralistas, a expressão "desmatamento zero" utilizada no programa de governo, Albuquerque disse referir-se sobre desmatamento ilegal. Os esclarecimentos foram sugeridos por Roberto Rodrigues.

Ao final do evento, Rodrigues e o outro ex-ministro ligado ao agronegócio, Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), elogiaram o programa de governo socialista.

Na terça-feira, Beto esteve com representantes da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), num hotel em Curitiba. Novamente, ele ouviu reparos ao programa de governo de Marina e a suas posições em relações aos temas que afetam o setor, como o novo Código Florestal. E, novamente, foi elogiado. Ágide Meneguette, presidente do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), disse que saiu satisfeito com a fala do Beto Albuquerque no evento.


FONTE: O Globo



AS INTERPRETAÇÕES DO GOLPE DE 1964: O CONFRONTO IDEOLÓGICO

Por Anita Leocadia Prestes*


RESUMO
No artigo, faz-se uma abordagem sucinta do confronto ideológico presente nos debates em torno do golpe de 1964. A partir da apreciação de algumas das principais versões presentes nesse debate, são questionadas as razões por que a participação popular é praticamente deixada de lado, quando esse período é analisado. O isolamento e a deposição de João Goulart são atribuídos, em grande medida, à ausência de forças sociais e políticas, o “bloco histórico” gramsciano, capazes de lhe dar sustentação.
Palavras-chave:  golpe de 1964; governo João Goulart; PCB; “bloco histórico”.

ABSTRACT
In this article we approach the subject of the ideological confrontation which is present in the debates about the 1964 Military Coup. Starting from the appreciation of some of the main versions present in these debates, the reasons for which the popular participation is practically left aside, when this period is analyzed, are investigated. The isolation and the deposition of João Goulart are ascribed, to a great extent, to the absence of social and political forces, Gramsci’s “Historical block”, capable of giving him support.

Key words: 1964 Military Coup; JoãoGoulart’s government; PCB; “Historical block”.


*Anita Leocadia Prestes é historiadora, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes <www.ilcp.org.br>.  É autora dos livros “A Coluna Prestes” (Paz e Terra),”Luiz Carlos Prestes: o combate por um partido revolucionário (1958-1990)” (Expressão Popular), assim como de outros livros, capítulos de livros e artigos sobre Luiz Carlos Prestes e a história do PCB.

CLIQUE EM "MAIS INFORMAÇÕES" PARA LER NA ÍNTEGRA  o artigo publicado em Novos TemasRevista de debate e cultura marxista, nº 10, 1º semestre/2014, ICP, São Paulo, 2014, p. 129 a 144.

Para download: Guthrie W.K.C - Historia de la Filosofia Griega - 6 Tomos

Link para os 6 volumes:



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

EUA: o novo terrorismo financeiro sob máscara jurídica

POR ATILIO A. BORON

Versión en español: Cuba, Obama y el nuevo terrorismo 



O Estado Islâmico tem produzido uma lamentável inovação no formato da longuíssima história do terrorismo. Os exemplos de execuções antigas, cujas testemunhas diretas eram poucas, agora são transmitidos por internet em tempo real e seu horrendo impacto chega aos quatro cantos do planeta. Mas essa mudança não oculta o primitivismo do método, a decapitação, utilizada pelas mais distintas culturas desde tempos imemoriáveis.

A opinião pública mundial se estremece e se escandaliza diante desta nova mostra de barbárie, reforçando a satanização do Islamismo e, por contraposição, exaltando os valores humanistas da (muita) mal chamada “civilização ocidental e cristã”, essa mesma que assistiu indiferentemente os fornos crematórios de Hitler, para expor apenas um dos tantos exemplos aos que poderia apelar neste artigo. Tampouco se estremeceu diante do terrorismo de Estado que Israel perpetrou com calculada selvageria, há apenas poucas semanas em Gaza, corretamente caracterizada como o maior cárcere a céu aberto do mundo.

Talvez porque suas vítimas eram palestinas, ou árabes, e, portanto, suas vidas não valiam tanto como a dos jornalistas norte-americanos ou do refém britânico recentemente executado; ou porque o bombardeio indiscriminado de civis já tenha sido naturalizado, e como diz um grande estudioso norte-americano destes temas, Chalmers Johnson, estamos inundados de eufemismo que ocultam os crimes, com palavras como “danos colaterais”, ou “mudança de regime” para não falar de subversão, “contratistas” para não dizer mercenários ou “embargo” para não dizer bloqueio (1).

Mas há até pouco tempo apareceu uma nova forma de terrorismo, mais sutil do que a do punhal e da cimitarra, mas cujas vítimas são milhões: o terrorismo financeiro. Seu principal cultor e expoente não é o repugnante carrasco islâmico vestido de preto, mas um afrodescendente de modos suaves, premiado no ano de 2009 com um insólito Prêmio Nobel da Paz e que ocupa a presidência dos Estados Unidos. Ocorre que este sujeito tem lançado uma furiosa ofensiva para conseguir a “mudança de regime” em Cuba, ou seja, para subverter a ordem constitucional e social da Ilha, substituindo o governo da revolução por um protetorado norte-americano que fecha o parêntese (segundo a direita imperial) aberto em 1º de janeiro de 1959.

Para alcançar um objetivo tão ignóbil, agora apela para o terrorismo financeiro, superando neste terreno o feito de seu indigno antecessor, George W. Bush. Não só manteve o ilegal, imoral e criminoso bloqueio contra Cuba, caso único por sua duração e intensidade na história universal, como nos últimos meses redobrou sua patológica agressividade ao impor duríssimas sanções aos bancos de terceiros países, pelo imperdoável pecado de participar das negociações ou transações comerciais originadas na ou destinadas à ilha caribenha.

O objetivo terrorista deste empenho é infligir um brutal castigo a toda uma coletividade, à sociedade cubana, para que se ajoelhem diante de seus carrascos. Não há aqui punhal nem espada, mas o objetivo é o mesmo e as vítimas, muitas delas mortais, deste novo terrorismo podem ser medidas por centenas ou milhares, de acordo com o caso.

Ratificando nos fatos que os Estados Unidos são um império, e que suas leis, como as de seu antecessor romano, são aplicadas em todo o mundo, foi feito da extraterritorialidade de sua legislação um poderoso instrumento de dominação. Aplicando as leis Torricelli e a Helms-Burton, Washington decidiu sancionar o Banco BNP Paribas com uma multa de 8.8 bilhões de dólares por sua intervenção em distintas transações para os governos de Cuba, Sudão e Irã, caracterizados como “inimigos” e incluídos na lista de países que promovem, amparam ou protegem o “terrorismo” (2).

Por conta desta descomunal sanção – sem precedentes por seu valor – o banco cancelou todas as suas operações com organismos e entidades cubanas, exemplo que foi velozmente imitado por numerosas instituições bancárias de todo o mundo, também aterrorizadas por esta nova mostra de prepotência imperial, ilegal até a medula, mas que Obama exerce com uma impunidade que supera com sobras aquilo de que se orgulha o carrasco jihadista.

De acordo com um relatório recentemente divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores cubano, no período compreendido entre janeiro de 2009 e 2 de junho de 2014, ou seja, anterior à megamulta contra o BNP Paribas, o Nobel norte-americano aplicou sanções a 36 entidades dos Estados Unidos e do resto ao mundo num valor de quase 2,6 bilhões de dólares pelo “delito de relacionar-se com Cuba e outros países”.

Semelhante ato de terrorismo financeiro se fundamenta nas leis citadas, a última das quais foi concebida por dois trogloditas sobreviventes do Paleolítico inferior: o senador republicano ultraconservador da Carolina do Norte, Jesse Helms, um fascista homofóbico de marca maior da nova direita evangélica norte-americana, e o representante republicano de Indiana, Dan Burton, adepto do Tea Party, amante das armas de fogo e acérrimo opositor da vacinação obrigatória estabelecida pela legislação federal porque, segundo este chefe eminente, “produz autismo” em crianças e jovens.

É evidente que entre tantas aberrações estes dois homens das cavernas – que já submergiram nas imundas cloacas da história da reação mundial – se caracterizavam também por seu ardoroso anticomunismo, que os levou a redigir a lei que leva seus nomes. Essa parte legislativa se denomina “Lei da Liberdade Cubana e Solidariedade Democrática”, um eufemismo, mais um de tantos, denunciados por Johnson. Seu verdadeiro nome deveria ser “Lei para destruir a Revolução Cubana, apelando para qualquer recurso”.

Agora, o terrorismo financeiro de Obama tem eficácia, no caso que nos preocupa, pela covardia dos governos que consentem a extraterritorialidade da legislação estadunidense. Se nações pequenas e fracas não têm outra opção que resignar-se diante da prepotência imperial, não ocorre o mesmo com a França, cujo presidente François Hollande demonstrou não só que de socialista não cabe nem o nome, mas também que carece dos mais elementares brios políticos requeridos, não para ser presidente deste país, mas para ser um humilde prefeito de qualquer cidade do Terceiro Mundo.

Arrastou-se para suplicar ao Nobel da Paz 2009 que intercedesse pelo banco francês, ao que Obama respondeu que se tratava de um assunto exclusivamente jurídico e nada podia fazer a respeito. A mesma resposta em relação à ofensiva dos “fundos abutres” sobre a economia argentina. Os Estados Unidos criaram uma norma legal, que é política até a medula, e depois a aplica impiedosamente se escondendo na suposta justiça jurídica e no caráter “apolítico” da mesma.

Se Hollande possuísse a milésima parte da valentia que exibiram seus compatriotas na Comuna de Paris (ou, em um exemplo mais próximo, Charles de Gaulle) haveria dito a Obama que a legislação que o Congresso dos Estados Unidos aprovou não importa e não tem vigência na França, assim como as leis aprovadas na Assembleia Nacional de seu país não vigoram nos Estados Unidos.

Mas a decomposição moral do socialismo francês é irremediável. Prova disso é também a atitude de seu ministro de Finanças, Michel Sapin, que disse que a medida aplicada por Washington era “desproporcional” – não era ilegal, imoral e ilegítima, mas só “desproporcional” – e que confiava que o BNP Paribas poderia “financiar sua atividade econômica de maneira satisfatória”, seguramente consciente de que a multa em questão representa em torno de 80% dos lucros do banco durante o ano de 2013.

Mas, o que fica do “grandeur de la France” depois deste papelão? Napoleão e De Gaulle se revoltariam em suas tumbas se soubessem deste descenso de seu amado país à condição de uma indigna colônia ianque, o que fez o banco se declarar culpado dos processos criminais pelos quais foi acusado pelas autoridades norte-americanas: a falsificação de relatórios financeiros e conspirar contra os Estados Unidos.

Não é só isso: abandonado por seu próprio governo, o BNP Paribas admitiu também a proibição imposta pela justiça norte-americana de efetuar certas transações em dólares durante um ano, a partir de 1º janeiro de 2015, e, por último, a ordem de despedir 13 empregados do banco por sua intervenção durante as diversas transações objetos da penalização. Em outras palavras: o inquilino da Casa Branca tem o poder de cometer todas estas afrontas que violam de A a Z a legalidade internacional e logo se declara impotente para conceder o indulto que faria justiça aos três lutadores antiterroristas cubanos que continuam presos nas masmorras imperiais.

Onipotência de um lado, como para chegar até o extremo de exigir que uma instituição bancária do estrangeiro despeça 13 empregados, e impotência de outro, na hora de conceder um mais que merecido indulto a três inocentes que levam 16 anos de prisão?
Conclusão: estamos na presença de uma nova forma de terrorismo, tanto ou mais letal que a primitiva e com um alcance muitíssimo maior. Um terrorismo que responde às recomendações de teóricos e estrategistas imperiais como Joseph Nye Jr. quando aconselha Washington a navegar nas turbulentas águas do sistema internacional fazendo uso de uma adequada combinação do “poder duro” dos militares com o “poder brando” da indústria cultural e a ideologia (3).

A síntese de ambos seria o “poder inteligente”, mais eficaz que aquele que só se apoia na eloquência das armas. O acosso financeiro seria, segundo tal corrente de pensamento, uma expressão deste “poder inteligente”, que submete e oprime apelando a recursos distintos dos convencionais, mas, dizemos, igualmente terríveis. Porém, os crimes do terrorismo financeiro não são exibidos como tais pelo imenso aparato midiático da direita mundial, pois só aparece como uma questão de técnica jurídica, de respeito aos contratos e à lei, embora se trate da lei de um Estado imperial que com prepotência a impõe sobre o resto do planeta.

Um terrorismo dissimulado, letal que, a diferença do caso do carrasco jihadista, não ofende – por ora, como dissera o comandante Hugo Chávez! – a consciência universal de nosso tempo. Mas que, mais cedo ou mais tarde, será repudiado pela grande maioria de países que compõem este atribulado planeta. Disso ninguém tem a menor dúvida.
Notas:
1) Cf. O futuro do poder (New York: Public Affairs Book, 2011) e sua obra prévia, Suave Poder: Os meios para o sucesso na política mundial (New York: Public Affairs Book, 2004).
2) Ver sua excelente Desmontagem do Império. Última esperança da América (New York: Metropolitan Books, 2010), pp. 99-103.
3) Uma crônica sobre isto encontra se em “O que o BNP Paribas fez para enfrentar uma multa recorde dos Estados Unidos?”:http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/07/140630_economia_eeuu_multa_bnp_parisbas_ng.shtml

Atilio Boron é sociólogo argentino.
Traduzido por Daniela Mouro, do Correio da Cidadania.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Victor Jara: a voz do Chile socialista de Salvador Allende


Cancioneiro e poeta, compositor popular, professor e ativista político (era membro do Partido Comunista do Chile), além de dramaturgo e apaixonado pelas raízes folclóricas da Nueva Canción Chilena, Victor Jara era um letrista engajado e autor de músicas que arrebatavam a classe operária (“Te Recuerda Amanda”).

E esta voz foi eliminada brutalmente pelos golpistas chilenos, liderados pelo facínora general Augusto Pinochet. As primeiras falsas certezas asseguravam que ele fora levado para o Estádio Nacional [usado como campo de prisioneiros e de extermínio] onde lhe teriam decepado as mãos de músico antes de executá-lo, como ocorrera com Che Guevara após sua captura na Bolívia — só que Guevara já estava morto ao ser mutilado.

Na verdade, Victor Jara sequer conseguiu chegar ao Estádio Nacional. Morreu numa arena menor. No centro de detenção improvisado do Estádio Chile foi logo identificado por um oficial e teve uma primeira avalanche de chutes e coronhadas à vista de todos. Com várias costelas quebradas e um olho inutilizado, permaneceu imóvel 24 horas ao alcance da bota militar, sem alimento ou água. Naquele mesmo estádio, quatro anos antes, fora aclamado vencedor do primeiro Festival da Nueva Canción Chilena com “Oração de um trabalhador”.

No domingo dia 16/9/1973 circulara a notícia de que alguns detentos seriam libertados, o que levou os demais a escrever mensagens para esposas, filhos, pais, amigos. Victor Jara foi um dos mais ansiosos. Só parou ao ser arrastado por dois soldados até uma saleta de transmissão do estádio. Mas conseguiu deixar para trás as duas folhas de papel que escreveu, rapidamente escondidas pelo advogado Boris Navia.

Não eram cartas para a mulher nem para as filhas. Era um poema. Não tinha título. Descrevia o ambiente à sua volta. Foi-lhe dado, post mortem, o título “Estadio Chile”.

Os detentos fizeram duas cópias, entregues a um estudante e um médico que seriam libertados. Um deles foi revistado. Navia, que escondera o manuscrito original numa fenda aberta na sola do sapato, foi levado para o centro de torturas do velódromo. Mas a terceira cópia alçou voo e correu mundo.

A última visão que Navia e seus companheiros tiveram de Jara foi do seu espancamento a golpes de fuzil na saleta do estádio. No final da mesma tarde, cruzaram o saguão principal para serem transferidos para o Estádio Nacional. Ali se depararam com cerca de 50 cadáveres espalhados pelo chão. Entre eles, o de Victor Jara.

O Estádio Chile foi rebatizado de Estádio Victor Jara. As fitas máster das gravações do músico que a ditadura se empenhou em destruir foram laboriosamente substituídas por outras versões. Brotaram remixagens, remasterizações, foi lançada uma caixa com 9 CDs, republicada uma antologia com seus poemas. Bandas jovens o interpretam como um dos seus, companheiros velhos o cantam como no passado. 

No próximo dia 28 de setembro, Victor Jara faria 82 anos.

Adaptação do texto "40 anos depois, o Chile canta Victor Jara", de Dorrit Harazim, publicado no jornal O Globo, em 9/9/2013.

Cuba, Obama y el nuevo terrorismo

Por Atilio Borón
El Estado Islámico ha producido una lamentable innovación en la forma de la muy larga historia del terrorismo. Las ejecuciones ejemplarizadoras de antaño, cuyos testigos directos eran unos pocos, ahora son transmitidas por internet tiempo real y su horrendo impacto llega a los cuatro rincones del planeta. Pero este cambio no oculta el primitivismo del método, la decapitación, utilizado por las más distintas culturas desde tiempos inmemoriales.
La opinión pública mundial se estremece y escandaliza ante esta nueva muestra de barbarie, reforzando la satanización del Islam y, por contraposición, exaltando los valores humanistas de la (muy) mal llamada “civilización occidental y cristiana”, esa misma que asistió indiferente ante los hornos crematorios de Hitler, para poner apenas uno de los tantos ejemplos a los que podría apelarse en esta materia.
Tampoco se estremeció ante el terrorismo de estado que Israel perpetró con calculado salvajismo hace apenas unas pocas semanas en Gaza, correctamente caracterizada como la cárcel a cielo abierto más grande del mundo. Tal vez porque sus víctimas eran palestinos, o árabes, y por lo tanto sus vidas no valían tanto como la de los periodistas norteamericanos o el rehén británico recientemente ejecutado; o porque el bombardeo indiscriminado de civiles ya ha sido naturalizado y como dicen un gran estudioso norteamericano de estos temas, Chalmers Johnson, estamos inundados de eufemismos que ocultan los crímenes con palabras tales como “daños colaterales”, o “cambio de régimen” para no hablar de subversión, de “contratistas” para no decir que son mercenarios, o de “embargo” para no hablar de bloqueo. [1]
Pero hace poco tiempo apareció una nueva forma de terrorismo, más sutil que la de la daga y la cimitarra pero cuyas víctimas se cuentan por millones: el terrorismo financiero. Su principal cultor y exponente no es el repugnante verdugo islámico vestido de negro sino un afrodescendiente de suaves modales, galardonado en el año 2009 con un insólito Premio Nobel de la Paz y que ocupa la presidencia de los Estados Unidos. Resulta que este sujeto ha lanzado una furiosa ofensiva para lograr el “cambio de régimen” en Cuba, es decir, para subvertir el orden constitucional y social de la Isla reemplazando al gobierno de la revolución por un protectorado norteamericano que cierre el paréntesis (según la derecha imperial) abierto el 1º de Enero de 1959.
Para el logro de tan innoble finalidad a ahora apela al terrorismo financiero, empequeñeciendo en este terreno lo hecho por su indigno predecesor, George W. Bush. No sólo ha mantenido el ilegal, inmoral y criminal bloqueo en contra de Cuba, caso único por su duración e intensidad en la historia universal, sino que en los últimos meses ha redoblado su patológica agresividad al imponer durísimas sanciones a bancos de terceros países por el imperdonable pecado de participar en negociaciones o transacciones comerciales originadas en, o destinadas a, la isla caribeña.
El objetivo terrorista de este empeño es infringir un brutal castigo a toda una colectividad, la sociedad cubana, para que se arrodille ante sus verdugos. No hay aquí daga ni cimitarra, pero el objetivo es el mismo y las víctimas, muchas de ellas mortales, de este nuevo terrorismo, se pueden medir por centenares, o miles, según el caso. Ratificando en los hechos que Estados Unidos es un imperio, y que sus leyes, como las de su antecesor romano, se aplican en todo el mundo, ha hecho de la extraterritorialidad de su legislación un poderoso instrumento de dominación.
Aplicando las leyes Torricelli y la Helms-Burton, Washington dispuso recientemente sancionar al banco BNP Paribas con una multa de 8.834 millones de dólares por su intervención en distintas transacciones realizadas por los gobiernos de Cuba, Sudán e Irán, caracterizados como “enemigos” e incluidos en la lista de países que promueven, amparan o protegen al “terrorismo”.[2]
A raíz de esta descomunal sanción –sin precedentes por su monto- el banco canceló todas sus operaciones con organismos y entidades cubanas, ejemplo que fue velozmente imitado por numerosas instituciones bancarias de todo el mundo aterrorizadas también ellas ante esta nueva muestra de prepotencia imperial, ilegal hasta el tuétano, pero que Obama ejerce con una impunidad que supera con creces aquella de la que hace gala el verdugo jihadista.
Según un informe dado a conocer recientemente por al MINREX cubano, en el período comprendido entre enero del 2009 y el 2 de junio del 2014, es decir, con anterioridad a la megamulta en contra del BNP Paribas, el Nobel norteamericano aplicó sanciones a 36 entidades de Estados Unidos y del resto del mundo por un valor de casi 2.600 millones de dólares por el “delito de relacionarse con Cuba y otros países”.
Semejante acto de terrorismo financiero se fundamenta en las citadas leyes, la última de las cuales fue concebida por dos trogloditas sobrevivientes del Paleolítico inferior: el senador republicano ultraconservador de Carolina del Norte, Jesse Helms, un fascista homofóbico de marca mayor de la nueva derecha evangélica norteamericana, y el representante republicano por Indiana, Dan Burton, adscripto al Tea Party, amante de las armas de fuego y acérrimo opositor a la vacunación obligatoria establecida por la legislación federal porque, según este eminente tribuno, “producen autismo” en niños y jóvenes.
Va de suyo que entre tantas aberraciones estos dos cavernícolas -que ya han se han sumergido en las inmundas cloacas de la historia de la reacción mundial- se caracterizaban también por su ardoroso anticomunismo, que los llevó a redactar la ley que lleva sus nombres. Esa pieza legislativa se denomina “Ley de la Libertad Cubana y Solidaridad Democrática”, un eufemismo más de los tantos denunciados por Johnson. Su verdadero nombre debería ser “Ley para destruir a la Revolución Cubana, apelando a cualquier recurso.”
Ahora bien, el terrorismo financiero de Obama tiene eficacia, en el caso que nos preocupa, por la cobardía de los gobiernos que consienten la extraterritorialidad de la legislación estadounidense. Si naciones pequeñas y débiles no tienen otra opción que resignarse ante la prepotencia imperial no ocurre lo mismo con Francia, cuyo presidente François Hollande demostró no sólo que de socialista no le queda ni el nombre sino también que carece de las más elementales agallas políticas requeridas ya no para ser presidente de ese país sino para ser un humilde alcalde de cualquier ciudad del Tercer Mundo. Se arrastró para suplicarle al Nobel de la Paz 2009 que intercediera por el banco francés, a lo que Obama respondió que se trataba de un asunto exclusivamente jurídico y que nada podía hacer al respecto. La misma respuesta en relación a la ofensiva de los “fondos buitre” sobre la economía argentina.
Estados Unidos crea una norma legal, que es política hasta la médula, y luego la aplica a rajatabla escudándose en la supuesta rectitud jurídica y el carácter “apolítico” de la misma. Si Hollande hubiera poseído la milésima parte de la valentía que exhibieron sus compatriotas en la Comuna de París (o, en un ejemplo más cercano, Charles de Gaulle) le habría dicho a Obama que la legislación que apruebe el Congreso de los Estados Unidos le tiene sin cuidado y que no tiene vigencia en Francia, así como las leyes que apruebe la Asamblea Nacional de su país no la tienen en Estados Unidos. Pero la descomposición moral del socialismo francés ya es irremediable. Lo prueba también la actitud de su Ministro de Finanzas , Michel Sapin, quien dijo que la medida aplicada por Washington era “desproporcionada” –no que era ilegal, inmoral e ilegítima, sino sólo “desproporcionada”- y que confiaba en que el BNP Paribas podría “financiar su actividad económica de manera satisfactoria” seguramente enterado de que la multa en cuestión representa alrededor del 80 por ciento de las ganancias del banco durante el año 2013. Pero, ¿qué queda del “grandeur de la France” después de este papelón? Napoleón y de Gaulle se revolverían en sus tumbas si supieran de este descenso de su amado país a la condición de una indigna colonia yankee, lo que hizo que el banco se declarase culpable de los dos cargos criminales por los cuales fue acusado por las autoridades norteamericanas: la falsificación de informes financieros y conspirar contra los Estados Unidos.
No sólo eso: abandonado por su propio gobierno el BNP Paribas admitió también la prohibición impuesta por la justicia norteamericana de efectuar ciertas transacciones en dólares durante un año, a partir del 1º de enero del 2015 y, por último, la orden de despedir a 13 empleados del banco por su intervención durante las diversas transacciones objeto de la penalización. En otras palabras: el inquilino de la Casa Blanca tiene el poder para cometer todas estas tropelías que violan desde la A hasta la Z de la legalidad internacional y luego se declara impotente para conceder el indulto que haría justicia a los tres luchadores antiterroristas cubanos que continúan presos en las mazmorras imperiales.
¿Omnipotencia para un lado, como para llegar hasta el extremo de exigir que una institución bancaria del extranjero despida a 13 empleados, e impotencia para el otro, a la hora de conceder un más que merecido indulto a tres inocentes que llevan 16 años en prisión?
Conclusión: estamos en presencia de una nueva forma de terrorismo, tanto o más letal que la primitiva y con un alcance muchísimo mayor. Un terrorismo que responde a las recomendaciones de teóricos y estrategas imperiales como Joseph Nye Jr. cuando aconseja a Washington navegar en las turbulentas aguas del sistema internacional haciendo uso de una adecuada combinación del “poder duro” de los militares con el “poder blando” de la industria cultural y la ideología.[3]
La síntesis de ambos sería el “poder inteligente”, más eficaz que aquel que sólo se apoya en la elocuencia de las armas. El acoso financiero sería, según esta corriente de pensamiento, una expresión de ese “poder inteligente” que somete y oprime apelando a recursos distintos a los convencionales pero, decimos nosotros, igualmente terroríficos. Sólo que los crímenes del terrorismo financiero no son exhibidos como tales por el inmenso aparato mediático de la derecha mundial sino que se lo hace aparecer como una cuestión de técnica jurídica, de respeto a los contratos y a la ley, aunque se trate de la ley de un estado imperial que con prepotencia la impone sobre el resto del planeta. Un terrorismo disimulado pero letal que, a diferencia del caso del verdugo jihadista, no ofende -¡por ahora, como dijera el Comandante Hugo Chávez!- a la conciencia universal de nuestro tiempo. Pero que más pronto que tarde será repudiado por la gran mayoría de los países que componen este atribulado planeta. De esto que a nadie le quepa la menor duda.
[1] Ver su excelente Dismantling the Empire. America’s last best hope (New York: Metropolitan Books, 2010), pp. 99-103.
[2] Una crónica sobre esto se encuentra en “¿Qué hizo BNP Paribas para enfrentar una multa récord de Estados Unidos?”, un cable de la BBC que puede leerse en:http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/07/140630_economia_eeuu_multa_bnp_parisbas_ng.shtml
[3] Cf. The future of power (New York: Public Affairs Book, 2011) y su obra previa, Soft Power: The means to success in world politics (New York: Public Affairs Book, 2004).

FUENTE: CubaDebate