quarta-feira, 22 de abril de 2020

Na Alemanha, lançado livro-áudio sobre Olga Benario Prestes

Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro

Foi lançado na Alemanha o  livro-áudio sobre Olga Benario Prestes, em Compact Disc (CD), "Die Unbeugsame - Olga Benario in ihren Briefen und in den Akten der Gestapo". O livro-áudio, em alemão, encontra-se disponível para venda diretamente no site do Projeto Olga Benario ou no bandcamp.com.

O livro-áudio está baseado em dois livros de Robert Cohen, pesquisador suíço do tema. O primeiro livro é Olga Benario, Luiz Carlos Prestes: Die Unbeugsamen - Briefwechsel aus Gefängnis und KZ (Göttingen, Wallstein, 2013), uma coletânea da correspondência entre os dois revolucionários comunistas, Olga Benario Prestes e Luiz Carlos Prestes, enquanto ela era prisioneira na Alemanha nazista e ele encontrava-se preso no Brasil. As cartas atestam o grande amor existente entre eles. Conforme foi apontado por Robert Cohen (estudioso literário) na introdução do livro, embora a convivência entre eles tenha durado pouco mais de um ano, “a importância de uma relação não se mede por sua duração. Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benario e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas." 

O segundo livro é Der Vorgang Benario: Die Gestapo-Akte 1936 – 1942 (Berlim, Berolina, 2016), que traz material da coleção do chamado "Processo Benario", que faz parte dos chamados "documentos-troféus" (Trophäen-dokumente) nazistas, documentação apreendida pelos soviéticos após a derrota da Alemanha nazista em 1945.  O "Processo Benario" é composto de uma pasta, oito dossiês e cerca de 2 mil folhas dedicadas apenas a uma pessoa: Olga Benario Prestes. O acervo produzido pela Gestapo (a polícia secreta do Terceiro Reich alemão) é uma coleção impressionante, que inclui relatórios, depoimentos, fotografias e cartas enviadas e recebidas para Olga, desde sua saída do Brasil, em 1936,  durante seu cárcere no campo de concentração de Ravensbrück, até sua morte na câmara de gás do campo de concentração de Bernburg, em 1942. Segundo Robert Cohen, “O chamado 'Processo Benario' da Gestapo é talvez a coleção mais abrangente de documentos sobre uma única vítima do Holocausto.” Nas palavras dele:

Esses documentos formam - dialética incontornável - uma abrangente autoapresentação dos crimonosos e das ideologias, coações, mecanismos, organismos e estruturas que dirigiam. À medida que cuidam do arquivo do "Processo Benario", dia após dia, os criminosos fazem o que não podem querer fazer: eles dão informações sobre si mesmos. (Robert Cohen, Der Vorgang Benario: Die Gestapo-Akte 1936 – 1942, p. 8) 

O livro-áudio, portanto, apresenta-se como uma montagem de cartas entre Olga e Prestes e documentos da Gestapo que fornece uma visão incomparável do embate entre o mundo da vítima e o mundo do agressor. Assim, o livro-áudio (Compact Disc - CD) é composto da seguinte maneira:

Ute Kaiser lê as cartas de Olga Benario, conceito e direção.
Gabriela Börschmann lê os arquivos da Gestapo.
Martin Molitor lê as cartas de Luiz Carlos Prestes.

Ute Kaiser | Gabriela Börschmann | Martin Molitor


No site do Projeto Olga Benario (http://www.olgabenario.de) está uma amostra de áudio de quase 10 minutos .

O livro-áudio traz um suplemento, um livreto de 40 páginas, com texto de Robert Cohen. 

Para o público brasileiro, que não tem o domínio do alemão, como eu, a apreciação das informações valiosas e inéditas encontradas no chamado "Processo Benario" pode se dar através do livro Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, 2017), escrito pela historiadora Anita Leocadia Prestes. O acervo vasculhado pela autora, como afirma Fernando Morais no texto de orelha do livro, "revela minúcias do monitoramento a que Olga era submetida pelas autoridades em todas as prisões e campos de concentração em que esteve entre 1936-1942, quando foi executada em uma câmara de gás." Morais prossegue chamando a atenção do leitor do livro de Anita para "a pétrea decisão de Olga de não transmitir a seus algozes nem sequer uma solitária informação a respeito de seu passado e de suas atividades políticas na União Soviética e no Brasil", ressaltando ele, "ainda que esse obstinado silêncio viesse a lhe custar, como ocorreu dezenas e dezenas de vezes, penosos castigos físicos e privações ainda mais duras que as do cotidiano de um campo de concentração nazista." Penas, frequentemente, atribuídas à Olga com a seguinte recomendação: "Ademais, solicito que lhe seja atribuída uma árdua carga de trabalho adicional".

Como encerra o texto da orelha do livro, Fernando Morais afirma: "Mais que uma obra de referência, Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos  da Gestapo é a pungente, dolorosa história de uma revolucionária exemplar."

O acervo histórico que deu origem ao livro-áudio e ao livro de Anita Prestes, os chamados "documentos-troféus" (Trophäen-dokumente) acumulados pela Gestapo, foi preservado pela União Soviética e aberto para consulta pública em 2015. Como afirma Roberto Cohen, no prefácio do livro Der Vorgang Benario: “Em 29 de abril de 2015, ocorreu uma abertura solene no Museu das Forças Armadas em Moscou […]. O motivo foi a publicação on-line de arquivos anteriormente inacessíveis do Reich Alemão, provenientes de arquivos russos [www.germandocsinrussia.org]". 




segunda-feira, 20 de abril de 2020

El rey desnudo

Todos los analistas juiciosos (excepto los voceros del imperio y de la ultraderecha) coinciden en que el coronavirus ha retirado bruscamente el velo de la supuesta bonanza neoliberal para descubrir la barbarie, sus abismos de injusticia y desigualdad

Por Abel Prieto

Cuenta Hans Christian Andersen de dos pícaros que se hicieron pasar por sastres para prometerle a un rey el más bello traje imaginable.

Todos admirarían su atuendo, le dijeron, excepto aquellos nacidos de un amorío extramatrimonial de sus madres. Cuando el rey fue a probárselo, junto a sus cortesanos, nadie, ni el propio rey, vio traje alguno; pero todos pensaron con angustia que eran hijos de relaciones pecaminosas y decidieron alabar con entusiasmo el ropaje imaginario y la genialidad de sus creadores.

El día de la fiesta de la villa, el rey «se vistió» y, montado en su caballo, desfiló por las calles. Los pobladores callaban, avergonzados, creyéndose indignos de percibir el traje milagroso. Hasta que un niño inocente exclamó «¡el rey va desnudo!» y logró, sin proponérselo, que todos descubrieran la farsa.

Con el grito del niño de la fábula se hizo pedazos, como por encanto, la mentira generalizada.

Hoy la naturaleza inhumana del capitalismo y su versión más obscena, el neoliberalismo, ha sido desnudada por el coronavirus. Su rostro satánico quedó expuesto, sin máscaras ni afeites. Se han abierto grietas muy hondas en el espejismo fabricado por la maquinaria de dominación informativa y cultural.

Fidel repitió muchas veces que el capitalismo y el neoliberalismo conducen al mundo entero al genocidio. Y lo dijo con énfasis particular cuando se derrumbó el socialismo en Europa y el coro triunfal de la derecha celebró el advenimiento del Reino Absoluto del Mercado como sinónimo de «libertad» y «democracia», mientras buena parte de la izquierda mundial se replegaba, desmoralizada.

Todos los analistas juiciosos (excepto los voceros del imperio y de la ultraderecha) coinciden en que el coronavirus ha retirado bruscamente el velo de la supuesta bonanza neoliberal para descubrir la barbarie, sus abismos de injusticia y desigualdad.

La pandemia ha funcionado como un instrumento revelador que destapa, desenmascara, y nos enfrenta crudamente a la realidad.

Uno de los rasgos del sistema, que la pandemia ha sacado a la luz, tiene que ver con el dilema ético en que se han visto los médicos obligados a elegir (ante la escasez de respiradores y medicamentos indispensables, de camas en hospitales y unidades de cuidados intensivos) entre enfermos que pueden considerarse «salvables» y aquellos «insalvables», más viejos, más frágiles, con mayores complicaciones.

Esta división tan cruel nace de entender los servicios de salud y la industria farmacéutica como un lucrativo negocio, donde no hay pacientes, sino clientes.

En 2013, un ministro de Finanzas japonés solicitó a los ancianos de su país que se hicieran el harakiri para aliviar de cargas excesivas al presupuesto, y hace poco el vicegobernador de Texas, Dan Patrick, hizo un comentario parecido. Es monstruoso, pero habría que agradecerles su didáctica franqueza.

Según la doctrina neoliberal, el Estado reduce su papel al mínimo y queda como servidor de las corporaciones, mientras que el mercado, mediante la competencia, divide a la humanidad en una minoría de «ganadores», es decir, de «salvables», y la gran masa de «perdedores» o «insalvables».    

Ya en medio de la pandemia, la primera reacción de ciertos políticos neoliberales, como Trump y Bolsonaro, fue restarle importancia y mirar hacia otra parte, sobre todo para no afectar la economía. Evidentemente, dentro de su lógica, el coronavirus debía concentrarse en «los perdedores», en el populacho «descartable», en las razas «inferiores», migrantes o no, en aquellos cuya vida y dignidad no tienen ningún valor, en los que debieran hacerse de una vez el harakiri. Pero la epidemia, como sabemos, fue más lejos de lo previsto, y hubo que cambiar de manera oportunista el enfoque del tema. 

Es del mismo modo demagógico y falso el discurso de las élites que asegura que el coronavirus «nos iguala», ya que ataca a ricos y pobres de la misma manera.

La gente rica (subraya Ingar Solty) puede pagarse el servicio de médicos-conserje durante las 24 horas del día. Además: «…puede someterse a la prueba de detección del virus, aunque no tenga síntomas, recibe concentradores de oxígeno, máscaras respiratorias, etc., mientras que gente trabajadora con síntomas de la covid-19 ha de luchar para que le hagan la prueba y luego pagar la factura».

Las élites, según un reportaje de The New York Times, se construyeninstalaciones aisladas, con máximo confort y equipamiento y personal clínico especializados; viajan en yates o aviones privados a sitios adonde no ha llegado hasta ahora el virus, y se permiten curiosos caprichos y extravagancias. Hay «famosos» que compran gel antibacterial de marca y nasobucos muy caros (y se hacen selfis para lucirlos en las redes). Uno prefiere un elegante «tapabocas urbano» de la compañía sueca Airinum, provisto de cinco capas de filtración y un «acabado ultrasuave ideal para el contacto con la piel». Otro, de Cambridge Mask Co., empresa británica que usa «capas de filtrado departículas y carbono de grado militar».

En las antípodas de estos millonarios, están los grupos que, según Boaventura de Sousa Santos, «tienen en común una vulnerabilidad especial que precede a la cuarentena y se agrava con ella»: mujeres, trabajadores precarios e informales, vendedores ambulantes, moradores de las periferias pobres de las ciudades, ancianos, internados en campos de refugiados, inmigrantes, poblaciones desplazadas, discapacitados. En suma, la cuarentena refuerza «la injusticia, la discriminación, la exclusión social y el sufrimiento».

Sousa Santos se hace (y nos hace) preguntas que son dardos: «¿Cómo será la cuarentena para aquellos que no tienen hogar? Personas (…) que pasan las noches en viaductos, estaciones abandonadas de metro o tren, túneles de aguas pluviales o (…) de alcantarillado, en tantas ciudades del mundo. En ee. uu. los llaman tunnel people. ¿Cómo será la cuarentena en los túneles?».

Pero hay otra pregunta que recorre el planeta en medio de la incertidumbre, del miedo, de la avalancha creciente de cifras de muertos y contagiados, y de imágenes escalofriantes de cadáveres en las calles: ¿qué pasará después de la epidemia?

El propio António Guterres, secretario general de la onu, ha dicho: «…no podemos regresar adonde estábamos (…) con sociedades innecesariamente vulnerables a la crisis. La pandemia nos ha recordado, de la manera más dura posible, el precio que pagamos por las debilidades en los sistemas de salud, las protecciones sociales y los servicios públicos. La pandemia ha subrayado y exacerbado las desigualdades…».

Atilio Borón, en la más lúcida reflexión que se ha escrito en torno a esta crisis, afirma que «la primera víctima fatal» de la pandemia «fue la versión neoliberal del capitalismo»: «un cadáver aún insepulto pero imposible de resucitar».

El capitalismo, en cambio, como dijo Lenin, «no caerá si no existen las fuerzas sociales y políticas que lo hagan caer». Sobrevivió a la llamada «gripe española» y «al tremendo derrumbe global» de la Gran Depresión.  Ha demostrado «una inusual resiliencia (…) para procesar las crisis e inclusive salir fortalecido de ellas». Por otra parte, en el presente, ni en ee. uu. ni en Europa se perciben «aquellas fuerzas sociales y políticas» señaladas por Lenin, por lo que no es realista pensar en un desplome inminente del sistema capitalista.

Atilio nos propone como hipótesis de trabajo un mundo pospandémico con «mucho más Estado y mucho menos mercado», masas populares más conscientes y politizadas –gracias a las terribles lecciones del virus y del neoliberalismo– y «propensas a buscar soluciones solidarias, colectivas, inclusive socialistas». En medio, además, de una nueva geopolítica, con el imperialismo estadounidense desacreditado, carente de liderazgo y sin prestigio internacional de ningún tipo.

El escenario posterior a la pandemia representa, para Atilio, un «tremendo desafío» para «todas las fuerzas anticapitalistas del planeta», y «una oportunidad única, inesperada, que sería imperdonable desaprovechar». Hay que «concientizar, organizar y luchar, luchar hasta el fin».

Y evoca a Fidel en una reunión de la Red En defensa de la Humanidad de 2012: «…si a ustedes les dicen: tengan la seguridad de que se acaba el planeta y se acaba esta especie pensante, ¿qué van a hacer, ponerse a llorar? Creo que hay que luchar, es lo que hemos hecho siempre».

Hace muy bien Atilio en recordar a Fidel ante la crisis, la incertidumbre, el horror y el espectáculo del neoliberalismo, desnudo y en ridículo como el rey de la fábula. Y también ante las esperanzas que pudieran abrirse. Gracias a sus ideas y a su obra, Cuba pone su desarrollo científico, y el sector de la salud, y todas las potencialidades del Estado al servicio del ser humano, y en particular de los más vulnerables. Si vamos a pensar en serio en un mundo futuro más justo, hay que recordar, como Atilio, a Fidel y a Cuba.

Nuestros médicos y enfermeros internacionalistas anticipan, día a día,  esa utopía con la que muchos sueñan ahora.

FUENTE: Granma

domingo, 19 de abril de 2020

90 anos sem José Carlos Mariátegui

Em 16 de abril de 1930, faleceu o revolucionário peruano José Carlos Mariátegui, lembrado como um dos expoentes do marxismo sul-americano. Escreveu uma obra significativa para a interpretação do desenvolvimento capitalista na América do Sul, apresentando contribuições marcantes em questões como o desenvolvimento econômico, a questão indígena, entre tantas outras. Enquanto o movimento comunista sul-americano encontrava-se atado à visão etapista da revolução, já no final da década de 1920, Mariátegui preconizava o caráter socialista da revolução na América Latina, ressaltando a necessidade de considerar as peculiaridades do capitalismo em cada país do continente e defendendo a luta por um socialismo que não fosse "nem cópia nem decalque, mas, sim, invenção heroica" dos povos. Mariátegui, nascido em 14 de junho de 1894, foi um escritor, jornalista, sociólogo e militante político peruano. Trabalhou com jornalismo de 1908 até 1919, passando por publicações como La Prensa e El Tiempo. Publicou poemas e revistas de humor e arte. A partir de 1918, voltou-se ao socialismo. Passou uma temporada na Europa, como correspondente. Ao retornar ao Peru, criou muitas publicações com forte conteúdo de crítica social, entre elas, a célebre revista Amauta, palavra quéchua que significa “sábio, sacerdote”, e que se tornou uma espécie de alcunha do próprio Mariátegui. Fundou em 1928 o Partido Socialista Peruano e deu início ao seu trabalho de investigação da realidade peruana sob um olhar marxista. Sua obra teórica e sua visão sobre a formação social e étnica da indo-américa influenciaram desde a Revolução Cubana e Che Guevara até os zapatistas de Chiapas, e inspirando ainda movimentos de luta pela igualdade e pela emancipação em toda a América Latina. Dentre os vários livros que escreveu, destacam-se Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana e La escena contemporánea

LEIA O TEXTO DE FLORESTAN FERNANDES, clicando no título a seguir: "Significado Atual de José Carlos Mariátegui" (Revista Princípios, nº 35, nov/94-jan/95, págs: 16-22.)

Leia também: "Contribuições de José Carlos Mariátegui às análises em política educacional"
Por Gilcilene Oliveira Damasceno Barão e Leandro Sartori Gonçalves
Revista Germinal, v. 9, n. 3 ( set./dez. 2017)

Para download:

MRIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. Caracas, Biblioteca Ayacucho, 3ª ed, 2007, 470p.



José Carlos Mariátegui. Obras. Tomo 1 (Antología Casa de las Américas)
[Incluye “En defensa del marxismo”, “Historia de la crisis mundial”, “La escena contemporánea” y muchos otros textos emblemáticos del marxista peruano.]



El movimiento revolucionario latinoamericano. Versiones de la Primera Conferencia Comunista latinoamericana de 1929. Secretariado Sudamericano de la Internacional Comunista.
(Polémica y debate entre los partidarios de Victorio Codovilla y los delegados de José Carlos Mariátegui.)


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Maria Aragão, médica comunista completaria 110 anos.

Por  Sergio Caldieri*

Maria Aragão em 1960. Foto: livro Maria por Maria (gov. Maranhão)

A ativista Maria Aragão, médica comunista do Maranhão completaria 110 anos no último 10 de fevereiro. Nasceu em 1910, numa família de sete filhos, no Engenho Central, em Pindaré-Mirim, uma área de grandes conflitos por terras no Maranhão. Muito jovem mudou-se para ao Rio de Janeiro, para estudar Medicina na antiga Universidade do Brasil, em 1934. Durante o curso para elite branca e homens, ela sustentava-se dando aulas particulares de português aos motoristas e operários.

Tornou-se admiradora do líder comunista Luiz Carlos Prestes quando foi assistir o famoso comício do então “Cavaleiro da Esperança”, no estádio do Vasco da Gama, em 23 de maio de 1945. Assim como Prestes, ela se desiludiu com a linha político ideológica tomada pelo “Partidão”. Em 1981, Maria Aragão filiou-se ao PDT, criado por Leonel Brizola, que tinha, entre as lideranças negras, o jornalista, escritor e ex-senador Abdias do Nascimento, Edialeda Salgado, Caó de Oliveira, José Miguel, Joel Rufino dos Santos, Lélia Gonzalez e tantos outros. 

Maria Aragão poderia fazer carreira de medicina no Rio de Janeiro, mas preferiu dedicar seus conhecimentos à população abandonada de seu estado. Depois da sua formatura em 12 de novembro de 1942, voltou para São Luiz e, já filiada ao PCB – o “Partidão” –, dividia seu tempo entre o trabalho na pediatria de hospitais públicos e a militância política, enfrentando tanto o poder dos coronéis quanto pistoleiros a serviço das elites locais.

Maria Aragão aos 81 anos se mantinha fiel à própria ideologia e dedicada à saúde da população mais humilde de seu estado majoritariamente negro, onde predominavam as religiosidades de matriz africana como o Tambor de Mina, o Vodum, a Umbanda e manifestações populares como o Tambor de Crioula e o Bumba Meu Boi, entre outros. Maria manteve as portas abertas da sua casa com uma mesa farta de comidas para o povo faminto de São Luiz do Maranhão.

A classe dominante e o padre de uma Igreja espalharam a palavra “comunista”, que a médica, volta e meia, era chamada de prostituta e de besta-fera. Chegou a ser apedrejada na cidade de Codó. 

Iniciou como médica pediatra e mudou sua especialização para a ginecologia permitiu-lhe pôr em prática uma bandeira defendida por ela dentro do partido político: a valorização da saúde da mulher, principalmente as prostitutas. Ela atendia de graça, ia na casa dos pacientes e sem dinheiro para o bonde. Andava muito à pé nos bairros pobres de Sao Luiz.

Ela dirigiu o jornal Tribuna do Povo. Enfrentou as oligarquias, foi presa  uma dezena vezes, torturada com agressões físicas e morais, perseguida tanto pela ditadura de Vargas. Em 1951, quando foi presa deu uma 'joelhada' nos culhões do policial. Ficou presa por 80 dias e soltaram quando Luiz Carlos Prestes mandou um advogado.

 Depois do golpe militar de 1964, precisou sair do Brasil, e foi viver seu exílio na União Soviética, onde recebeu o Prêmio Lênin da Paz, pelo seu reconhecimento como a maior líder das lutas populares e causas sociais do Maranhão. Maria realizou estudos que a habilitaram à direção partidária do PCB. Fez parte da corrrente 'Prestista" ao lado de Gregório Bezerra.

Segundo Oswaldo Faustino, 'quem estivesse de passagem pela cidade de São Luís, na manhã de 24 de junho de 1991, e assistisse à multidão em cortejo, acompanhando o caixão levado por um caminhão do Corpo de Bombeiros, coberto com as bandeiras do PCB (Partido Comunista Brasileiro), da CUT (Central Única dos Trabalhadores), do PDT (Partido Democrático Trabalhista) e da agremiação carnavalesca Favela do Samba, jamais imaginaria que se tratava do funeral de uma médica negra. Uma passeata de trabalhadores rurais uniu-se ao cortejo que saiu da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, onde ocorreu o velório. Quem seria, afinal, essa mulher cujo sepultamento no Cemitério do Gavião comoveu uma cidade inteira? Por que enquanto o caixão descia à sepultura se ouviram discursos de políticos, o hino nacional e também o hino da Internacional Socialista?'

Em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes, a Editora Expressão Popular lançou o documentário “Maria Aragão e a organização popular” – DVD acompanhado de um livro – sobre essa mulher que venceu a fome, a miséria e os preconceitos raciais e políticos. 

No Centro Histórico da capital maranhense, em 2004, foi inaugurado o Memorial Praça Maria Aragão, projetado pelo seu querido amigo Oscar Niemeyer, com o acervo e um busto da maior revolucionária comunista do Maranhão, na Avenida Beira-Mar, às margens do Rio Anil.

Conheci Maria Aragão no aniversário de Luiz Carlos Prestes quando completou 83 anos, em 3 de janeiro de 1981, no Clube Sampaio, no subúrbio carioca. Os fascistas soltaram uma bomba e Maria Aragão fez um inflamado discurso no meio do salão e foi muito aplaudida.

*Sergio Caldieri - Jornalista, escritor e diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro-SJPERJ.

FONTE: Gama Livre


Documentário - Maria Aragão e a organização popular

terça-feira, 14 de abril de 2020

Rio das Ostras: entre a “exigência administrativa” e a preservação de vidas, optou-se pela primeira.


Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro*

Sorrateiramente – seria muita ingenuidade achar que foi uma decisão repentina, não planejada –, na noite desta segunda-feira, dia 13 de abril de 2020, a Prefeitura de Rio das Ostras publicou o Jornal Oficial, edição 1159, trazendo a PORTARIA Nº 0309/2020, que “DISPENSA, RESCINDINDO, CONTRATO TEMPORÁRIO DE TRABALHO”. Entre os “considerandos” da referida portaria, o último foi o de fato revelador das prioridades do governo, a saber:  “Considerando que a extinção desses contratos de trabalho temporários se torna uma exigência administrativa necessária; E diante da necessidade de adoção de medidas que vão além da vontade do Chefe do Executivo, por se tratar de exigências jurídicas e de responsabilidade fiscal”. De modo que mais de mil pessoas tiveram rescindidos “os Contratos de Trabalho por tempo determinado, firmados para atender às necessidades temporárias e emergenciais da Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Lazer – SEMEDE”.

Assim como os governos municipais anteriores, sejam eles verde ou laranja, no fundo cores de um mesmo borrão[1], a atual administração apresenta “informações genéricas” como “exigências administrativas”, “exigências jurídicas”, “responsabilidade fiscal” e por aí segue a fraseologia vazia para ludibriar a massa incauta. No presente momento, estas “informações genéricas” deixam algumas questões mais imediatas em aberto:

·         Como fica a situação dos milhares de cargos comissionados da Prefeitura de Rio das Ostras, nomeados, majoritariamente, mais por indicações políticas do que por requisitos técnicos? Irão continuar? Não se encaixam às “exigências jurídicas e de responsabilidade fiscal”?

·         Quem vai dar continuidade a distribuição da versão impressa das “aulas e atividades”, produzidas pelos professores em regime de trabalho home office[2], que vem sendo feita nas unidades escolares pelos funcionários contratados da SEMEDE? O serviço será realizado pelos milhares de cargos comissionados da prefeitura?


·         Os professores contratados, que vinham até a última segunda-feira trabalhando em home office, não são mais necessários para a elaboração das “atividades pedagógicas online”? (Não se enganem com os motivos “pedagógicos” de padronização das habilidades, dos conteúdos de aulas e das atividades exigidos por ano de escolaridade em cada unidade escolar. O motivo principal é a “exigência administrativa” de descarte dos professores contratados.)[3]

·         Com quem a SEMEDE vai contar para a distribuição de cestas básicas, com recursos oriundos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), para atender as famílias de estudantes em situação de vulnerabilidade social?[4] O serviço será realizado pelos milhares de cargos comissionados da prefeitura? Ou também vai contar com o pessoal em função gratificada lotado na referida secretaria?

Contudo, o alinhamento da administração municipal de Rio das Ostras às orientações do governo de Jair Bolsonaro[5], infelizmente, não é um fenômeno isolado.[6] Em diversos estados do Brasil, tem-se notícias de prefeituras demitindo servidores contratados. Medidas marcadas pelo cinismo, pela frieza e pelo burocratismo desumano das “exigências administrativas”. Concomitante aos planos de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), em todas as esferas (municipais, estaduais e federal), segue a política de precarização da classe trabalhadora.

Até Delfim Neto, ex-ministro da Ditadura Militar e baluarte do “Partido da Ordem” (isto é, dos donos do poder, dos capitalistas), em entrevista, nesta segunda-feira (13/4), ao UOL Economia, declarou: ‘O Estado tem a obrigação moral de reduzir o número de óbitos. Por isso, para enfrentar o covid-19 não poder ter limite orçamentário”. Portanto, as administrações governamentais estão indo no sentindo oposto, levando os profissionais demitidos, como no caso de Rio das Ostras, “à situação de penúria em um momento a qual deveria ter proteção estatal”.[7] Manter os contratos é preservar vidas, é “reduzir o número de óbitos”, é não contribuir para o caos e a vulnerabilidade social vigentes.

Mas o governo municipal de Rio das Ostras deixa bem clara sua posição, renunciando à sua “obrigação moral” e alinhando-se às diretrizes do governo de Jair Bolsonaro, “o produto malparido do medo burguês”.[8] “No entanto, ao invés de economia com corte de gastos nos mais variados contratos empresariais, muitos de caráter supérfluo ou até mesmo, na diminuição de privilégios, o mesmo busca cortar ‘gastos’ atacando os direitos dos trabalhadores.” (“Nota sobre as rescisões dos contratos em Rio das Ostras” do SEPE Rio das Ostras/Casimiro de Abreu).

Querem manter as coisas como elas estão, ou seja, deixar intocadas as relações de poder entre a "elite" e o "povo". Manter a vontade popular adormecida, narcotizada e manipulada. Assistimos à falácia de uma "democracia formal", em que o povo tem um papel totalmente secundário e marginal, com escassa ou nula incidência na elaboração de políticas públicas que garantam proteção aos interesses das camadas populares.

Transformar a indignação numa atmosfera de combatividade crescente dos professores será um avanço. Nas palavras do educador marxista Paschoal Lemme, “o ensino e a educação só avançam, só progridem realmente quando as respectivas reformas resultam de transformações reais ocorridas na estrutura da sociedade, quando impulsionadas e realizadas pelas forças progressistas vitoriosas na luta pelo poder político”. Afirma que “uma das ilusões mais ingênuas dos educadores é a crença de que reformas educacionais transformam a sociedade, quando o que se dá é exatamente o contrário”. Por isso, se afirmar que quando o professor está lutando também está ensinando. Porque é na luta que ele desenvolve um processo pedagógico diferenciado na sua relação com o educando. É lutando a melhor maneira de fazer da escola um espaço que venha a contribuir para a apropriação e produção de um modo de pensar diferente do que predominou historicamente.

Por fim, só pedir desculpa aos leitores, pois trata-se de um texto escrito à toque de caixa e sob efeito da indignação deste ato covarde. Por isso, o momento imediato é de hipotecar solidariedade aos colegas demitidos, como expressão do descontentamento e revolta dos profissionais da educação de Rio das Ostras pela situação degradante a que estão sendo submetidos. 


* Professor de História da Rede Municipal de Ensino Público de Rio das Ostras. Matrícula: 6273-1. Lotado na Escola Municipal Padre José Dilson Dórea, bairro Âncora. E também Professor Adjunto de História da Educação da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).







[1] Recomendo a leitura do texto de Benoni Alencar, intitulado “Verde e laranja, cores de um mesmo borrão”. Disponível em: http://prestesaressurgir.blogspot.com/2011/10/rio-das-ostras-mais-um-crime-politico.html.
[2] Conforme Decreto Municipal 2490/20.
[3] Ver matéria do noticiário Cidade 24h, publicada no último dia 11 de abril, abordando a questão do ensino à distância na nossa realidade, intitulada “Ensino à Distância pode prejudicar professores e alunos em Rio das Ostras e Casimiro de Abreu”. Disponível em: https://cidade24h.com/noticias/ensino-a-distancia-pode-prejudicar-professores-e-alunos-em-rio-das-ostras-e-casimiro-de-abreu/.
[4] Em notícia no site da Prefeitura de Rio das Ostras, publicada no último dia 8 de abril, diz que: “A partir dos próximos dias, a Secretaria de Educação lançará um cronograma de distribuição dos alimentos e as famílias receberão avisos via telefone e redes sociais para comparecer à unidade de ensino na qual o aluno está matriculado para a retirada da cesta.” Ver “Município consegue liberação de verba federal para distribuir cestas básicas”, disponível em: https://www.riodasostras.rj.gov.br/municipio-consegue-liberacao-de-verba-federal-para-distribuir-cestas-basicas/.
[5] Na contramão de outros governos do mundo, que neste momento adotam políticas de preservação de empregos e de renda, incluindo proibição de demissões, o governo federal brasileiro autoriza demissões, como pode ser acompanhado nos meios de comunicação. Ver a Medida Provisória (MP) 936, publicada em  1º de abril de 2020.
[6] Tomei conhecimento de que, no estado do Rio de Janeiro, as prefeituras de São Pedro da Aldeia, Búzios e Mesquita seguiram o mesmo caminho de rescindir contratos de servidores.
[7] Ver “Notasobre as rescisões dos contratos em Rio das Ostras” do SEPE Rio das Ostras/Casimirode Abreu. Disponível em: https://www.facebook.com/SEPERiodasOstras1977/photos/a.959834684131840/2886812451434044/?type=3&theater.
[8] Expressão usada por Karl Marx em Lutas de classes na França (Boitempo, 2012, p. 160).

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A pandemia e o fim da era neoliberal

Por Atílio Boron  


Falta ainda saber quase tudo da actual crise. Instalou-se a ideia de que “nada poderá voltar a ser como dantes”. Alguns pensadores avançam uma perspectiva talvez demasiado optimista, porque nenhuma pandemia pode constituir um factor de transformação radical da sociedade. Que o capitalismo pode sofrer um forte abalo, é previsível. O que virá depois não depende de nenhuma especulação filosófica, depende - como afirmou Lénine - da existência, ou não, «de forças sociais e políticas que o façam cair».



O coronavírus desencadeou uma torrente de reflexões e análises que têm como denominador comum a intenção de traçar os contornos (difusos) do tipo de sociedade e economia que ressurgirão uma vez que o flagelo tenha sido controlado. Sobram razões para se aventurar nesse tipo de especulação, oxalá bem informado e controlado, porque se de alguma coisa estamos completamente seguros é que a primeira fatalidade que a pandemia cobrou foi a versão neoliberal do capitalismo. E digo a “versão” porque tenho sérias dúvidas de que o vírus em questão tenha operado o milagre de acabar não só com o neoliberalismo como também com a estrutura que o sustenta: o capitalismo como modo de produção e como sistema internacional. Mas a era neoliberal é um cadáver ainda insepulto mas impossível de ressuscitar. Que acontecerá com o capitalismo? Bem, é disso que trata esta coluna.

Simpatizo muito com a obra e a pessoa de Slavoj Zizek, mas isso não é suficiente para concordar com ele quando sentencia que a pandemia assestou um “golpe tipo Kill Bill no sistema capitalista” após o qual, seguindo a metáfora cinematográfica, este deveria cair morto dentro de cinco segundos. Isso não aconteceu e não acontecerá porque, como Lénine lembrou em mais de uma ocasião, “o capitalismo não cairá se não existem as forças sociais e políticas que o façam cair”. O capitalismo sobreviveu à mal designada “gripe espanhola”, que agora sabemos ter surgido no Kansas em Março de 1918, na base militar de Fort Riley, e que depois as tropas norte-americanas que marcharam para combater na Primeira Guerra Mundial disseminaram incontrolavelmente o vírus.

Os muito imprecisos cálculos da sua letalidade oscilam entre 20, 50 e 100 milhões de pessoas, pelo não é necessário ser um obcecado pelas estatísticas para desconfiar do rigor dessas estimativas amplamente difundidas por muitas organizações, incluindo a National Geographic Magazine. O capitalismo também sobreviveu ao tremendo colapso global produzido pela Grande Depressão, demonstrando uma resiliência incomum - já observada pelos clássicos do marxismo - para processar crises e inclusivamente sair delas mais forte. Pensar que, na ausência daquelas forças sociais e políticas indicadas pelo revolucionário russo (que de momento não são perceptíveis nem nos Estados Unidos nem nos países europeus), se produzirá agora a tão esperada morte de um sistema imoral, injusto e predatório, inimigo mortal da humanidade e a natureza, é mais uma expressão de desejos do que produto de uma análise concreta.

Zizek confia que, para se salvar na sequência desta crise, a humanidade terá a possibilidade de recorrer a “alguma forma de comunismo reinventado” (https://lahaine.org/fR3B). É possível e desejável, sem dúvida. Mas, como quase tudo na vida social, dependerá do resultado da luta de classes; mais concretamente de se, voltando a Lénine, “os de baixo não querem e os de cima não podem continuar a viver como antes”, coisa que até ao momento não sabemos. Mas a bifurcação da saída desta conjuntura apresenta outro resultado possível, que Zizek identifica muito claramente: “a barbárie”. Ou seja, a reafirmação da dominação do capital recorrendo às formas mais brutais de exploração económica, coerção político-estatal e manipulação de consciências e corações por meio de sua até agora intacta ditadura mediática. “Barbárie”, costumava István Mészarós dizer com uma dose de amarga ironia, “se tivermos sorte”.

Mas por que não pensar em alguma saída intermediária, nem a tão temida “barbárie” (da qual há muito tempo nos vêm sendo administradas doses crescentes nos capitalismos realmente existentes) nem a tão desejada opção de um “comunismo reinventado”? Por que não pensar que uma transição para o pós-capitalismo será inevitavelmente “desigual e combinada”, com avanços profundos em alguns terrenos: a desfinanceirização da economia, a desmercantilização da saúde e da segurança social, por exemplo, e outros mais vacilantes, tropeçando com maiores resistências por parte da burguesia, em áreas tais como o rigoroso controlo do casino financeiro mundial, a nacionalização da indústria farmacêutica (para que os medicamentos deixem de ser uma mercadoria produzida em função da sua rentabilidade), das indústrias estratégicas e dos meios de comunicação, além da recuperação pública dos chamados “recursos naturais” (bens comuns, na verdade)? Por que não pensar nos “muitos socialismos” dos quais falava premonitoriamente o grande marxista inglês Raymond Williams em meados dos anos oitenta do século passado?

Ante a proposta de um “comunismo reinventado”, o filósofo sul-coreano de Byung-Chul Han entra na arena para refutar a tese do esloveno e arrisca-se a dizer que “depois da pandemia, o capitalismo continuará com mais pujança”. É uma afirmação temerária, porque se algo se vem desenhando no horizonte é a reivindicação generalizada de toda a sociedade em favor de uma intervenção estatal muito mais activa para controlar os tresloucados efeitos dos mercados na prestação de serviços básicos de saúde, habitação, segurança social, transporte, etc. e para acabar com o escândalo da hiperconcentração de metade de toda a riqueza do planeta nas mãos dos 1% mais ricos da população mundial.

Esse mundo pós-pandemia terá muito mais Estado e muito menos mercado, com populações “conscientizadas” e politizadas pelo flagelo a que foram sujeitas e propensas a buscar soluções solidárias, colectivas e até “socialistas” em países como os Estados Unidos, lembra-nos Judith Butler, repudiando o desenfreio individualista e privatista exaltado durante quarenta anos pelo neoliberalismo e que nos levou à situação trágica que estamos a viver. E também um mundo em que o sistema internacional já adoptou, definitivamente, um formato diferente ante a presença de uma nova tríade dominante, embora o peso específico de cada um dos seus actores não seja igual.

Se Samir Amin estava certo no final do século passado, quando falava da tríade formada pelos Estados Unidos, Europa e Japão, hoje ela constituída pelos Estados Unidos, China e Rússia. E, ao contrário da ordem tripolar anterior, onde a Europa e o Japão eram junior partners (para não dizer peões ou lacaios, o que soa um tanto depreciativo, mas é a caracterização que merecem) de Washington, hoje este tem que lidar com a formidável potência económica chinesa, sem dúvida o actual motor da economia mundial relegando os EUA para um segundo lugar e que, além disso, assumiu a liderança na tecnologia 5G e na Inteligência Artificial.

Ao anteriormente dito junta-se a não menos ameaçadora presença de uma Rússia que voltou ao primeiro plano da política mundial: rica em petróleo, energia e água; dona de um imenso território (quase o dobro da extensão dos Estados Unidos) e de um poderoso complexo industrial que produziu uma tecnologia militar de ponta que em algumas áreas decisivas supera a dos Estados Unidos, a Rússia complementa com a sua força no campo militar a que a China ostenta no terreno da economia. É difícil para o capitalismo, como Han diz, adquirir força renovada neste cenário internacional tão pouco promissor. Se teve a gravitação e a penetração global que soube ter foi porque, como disse Samuel P. Huntington, havia um “xerife solitário” que sustentava a ordem capitalista mundial com sua inapelável primazia económica, militar, política e ideológica. Hoje, a primeira está nas mãos da China e os enormes gastos militares dos EUA não podem com um pequeno país como a Coreia do Norte nem para vencer uma guerra contra uma das nações mais pobres do planeta como o Afeganistão.

A ascendência política de Washington permanece apenas, presa por alfinetes, no seu “pátio traseiro”: América Latina e Caribe, mas por entre grandes convulsões. E o seu prestígio internacional viu-se muito debilitado: a China conseguiu controlar a pandemia e os Estados Unidos não; China, Rússia e Cuba ajudam a combatê-la na Europa, e Cuba, exemplo mundial de solidariedade, envia médicos e medicamentos para os cinco continentes, enquanto a única coisa que ocorre aos que transitam pela Casa Branca é enviar 30.000 soldados para um exercício militar com a NATO e intensificar as sanções contra Cuba, Venezuela e Irão, no que constitui um evidente crime de guerra. A sua antiga hegemonia já é coisa do passado.

O que hoje é discutido nos corredores das agências governamentais dos EUA não é se o país está em declínio ou não, mas a inclinação e o ritmo do declínio. E a pandemia está a acelerar este processo hora a hora.

O sul-coreano Han tem razão, por outro lado, quando afirma que “nenhum vírus é capaz de fazer a revolução”, mas cai em redundância quando escreve que “não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus”. Claro que não! Vejamos o registo histórico: a Revolução Russa estalou antes da pandemia da “gripe espanhola”, e a vitória dos processos revolucionários na China, Vietnam e Cuba não foi precedida por nenhuma pandemia.

A revolução fazem-na as classes subalternas quando tomam consciência da exploração e opressão a que estão sujeitas; quando vislumbram que longe de ser uma ilusão inatingível, é possível um mundo pós-capitalista e, finalmente, quando conseguem obter uma organização à escala nacional e internacional eficaz para lutar contra uma “burguesia imperial” que outrora entrelaçava fortemente os interesses dos capitalistas nos países desenvolvidos. Hoje, graças a Donald Trump, essa unidade de ferro no topo do sistema imperialista foi irreparavelmente quebrada e a luta lá em cima é de todos contra todos, enquanto China e Rússia continuam pacientemente e sem ruído a construir alianças que sustentarão uma nova ordem mundial.

Uma última reflexão. Creio que há que calibrar a extraordinária severidade dos efeitos económicos desta pandemia, que tornarão o retorno ao passado uma missão impossível. Os diferentes governos do mundo foram forçados a enfrentar um cruel dilema: a saúde da população ou o vigor da economia. Declarações recentes de Donald Trump (e de outros responsáveis como Angela Merkel e Boris Johnson), no sentido de que não vão adoptar uma estratégia para conter o contágio colocando em quarentena grandes sectores da população, porque isso paralisaria a economia destaca a contradição básica do capitalismo. Porque, convém recordá-lo, se a população não vai trabalhar o processo de criação de valor é interrompido e não há nem extracção nem realização de mais-valia. O vírus salta das pessoas para a economia, e isso provoca o pavor dos governos capitalistas que estão renitentes em impor ou manter a quarentena porque a comunidade empresarial precisa que as pessoas saiam às ruas e trabalhem, mesmo sabendo que põem em risco a sua saúde.

Segundo Mike Davis nos EUA 45% da força de trabalho “não tem acesso a licença remunerada devido a doença e é praticamente obrigado a ir trabalhar e transmitir a infecção ou ficar com o prato vazio”. A situação é insustentável do lado do capital, que precisa de explorar sua força de trabalho e para quem é intolerável que esta fique em casa; e do lado dos trabalhadores que, se forem trabalhar ou se infectam ou fazem o mesmo com os outros, e se ficam em casa não têm dinheiro para atender às suas necessidades mais básicas. Essa encruzilhada crítica explica a crescente beligerância de Trump contra Cuba, Venezuela e Irão e a sua insistência em atribuir a origem da pandemia aos chineses. Tem que criar uma cortina de fumo para ocultar as nefastas consequências de largas décadas de subfinanciamento do sistema público de saúde e a cumplicidade com as vigarices estruturais da medicina privada e da indústria farmacêutica no seu país. Ou atribuir a causa da recessão económica a quem aconselha as pessoas a ficar em casa.

Em qualquer caso, e para além de se a saída desta crise será um “comunismo renovado”, como Zizek quer, ou uma experiência híbrida mas claramente apontando na direção do pós-capitalismo, esta pandemia (como claramente explicam Mike Davis, Mike Davis, David Harvey, Iñaki Gil de San Vicente, Juanlu González, Vicenç Navarro, Alain Badiou, Fernando Buen Abad, Pablo Guadarrama, Rocco Carbone, Ernesto López, Wim Dierckxsens e Walter Formento em diversos artigos que circulam profusamente na web) moveu as placas tectónicas do capitalismo global e nada poderá voltar a ser como antes. Além disso ninguém quer, salvo o punhado de magnatas que enriqueceram com a selvagem rapina perpetrada durante a era neoliberal, que o mundo volte a ser como antes.

Tremendo desafio para os que queremos construir um mundo pós-capitalista porque, sem dúvida, a pandemia e os seus devastadores efeitos oferecem uma oportunidade única, inesperada, que seria imperdoável não aproveitar. Portanto, a palavra de ordem do momento para todas as forças anticapitalistas do planeta é: conscientizar, organizar e lutar; luta até ao fim, como queria Fidel quando, numa memorável reunião com intelectuais realizada no âmbito da Feira Internacional do Livro de Havana, em Fevereiro de 2012, se despediu de nós dizendo: “Se vos disserem: pode estar seguro que o planeta vai acabar e se acaba esta espécie pensante, o que vão fazer, pôr-se a chorar? Creio que há que lutar, é o que sempre fizemos.” Mãos à obra!


FONTE: ODiario.info

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Museu Afro Brasil abre seu acervo em exposições online

O Museu Afro Brasil está oferecendo uma série de exposições virtuais nesta época de isolamento social, onde as instituições de cultura estão fechadas por conta da epidemia de Covid-19 (novo coronavírus).

Desenvolvido junto com o Google Arts&Culture, a plataforma dá um vislumbre dos mais de sete mil objetos e obras que fazem parte de um dos maiores museus dedicados à arte africana e afro-brasileira.

São 7 histórias online que mergulham nas exposições físicas disponíveis no Museu Afro Brasil.







4.  Espírito da África – os Reis Africanos, do fotógrafo austríaco Alfred Weidinger






7. Museu Afro Brasil (Trabalho e Escravidão, As Religiões Afro-Brasileiras, O Sagrado e o Profano, História e Memória e Artes Plásticas: a Mão Afro Brasileira.)





quinta-feira, 2 de abril de 2020

Artigo de Anita Prestes na Revista Cult - Edição do mês de abril / 2020

Filha de Olga Benario Prestes, Anita Leocádia Prestes refaz o percurso revolucionário da mãe, executada há 78 anos pelo regime nazista

Abaixo, trecho inicial do texto.

A militante comunista alemã de origem judaica Olga Benario (Arquivo Pessoal)


Uma comunista convicta

Por Anita Leocádia Prestes



Olga, nascida em 1908 numa família abastada de Munique, saiu de casa aos 16 anos para participar das lutas da juventude no distrito “vermelho” de Neukölln, em Berlim, junto com Otto Braun, seu namorado e dirigente do Partido Comunista. Foi logo aceita nas fileiras do Partido Comunista Alemão e, em 1928, ficou conhecida por ter participado da libertação de Braun, detido por “alta traição à pátria”. A partir daí, Olga se tornaria uma comunista convicta, disposta a fazer qualquer sacrifício na luta pela revolução. Submeteu-se em Moscou à formação militar e procurou aprofundar seus conhecimentos sobre teoria marxista-leninista. No final de 1934, aceitou com entusiasmo a tarefa de cuidar da segurança de Luiz Carlos Prestes em seu regresso ao Brasil. Ambos deixaram a União Soviética disfarçados de casal endinheirado em lua de mel e, após mais de três meses, chegaram ao Rio. Uma profunda compreensão mútua os deixou apaixonados, e foi assim que se tornaram marido e mulher. A convivência durou pouco mais de um ano. Em março de 1936, após a derrota dos levantes antifascistas, os dois foram presos e separados para sempre. Na cela da Casa de Detenção da capital da República, Olga descobriu que estava grávida. Sua extradição para a Alemanha nazista foi a maneira de Getúlio Vargas torturar Luiz Carlos Prestes, mas tanto ele como Olga se negaram a fornecer informações. Minha mãe se disse Maria Prestes, mas Filinto Müller, chefe da polícia, conseguiu que a Gestapo identificasse Olga Benario, fichada por “atividades subversivas�




quarta-feira, 1 de abril de 2020

Nudez

Por Wilson Ramos Filho*
Via Facebook, 28/03/2020

Desde ontem o capitalismo brasileiro ficou nu. Em muitas cidades houve carreatas repetindo a homicida exortação de que o Brasil não pode parar.

Os burgueses, protegidos dentro dos carrões, exigem que seus empregados voltem a trabalhar para gerar riqueza.

Bingo! Epifania! Revelação! O que gera riqueza não é o capital. É o trabalho!

A burguesia enfim percebeu que o capital imobilizado em máquinas, equipamentos, estoques e sistemas de computador não gera riqueza. Sem o trabalho dos empregados o capital é inútil. Tanto quanto os capitalistas, essa classe parasitária que - sem nada produzir - vive da exploração dos trabalhadores.

Só há riqueza porque houve exploração do trabalho de alguém. O que gera o acúmulo de capital é a parcela não paga sobre o trabalho humano. Essa parte não remunerada do trabalho dos empregados (mais-valia) é acumulada pelos empregadores sob a forma de capital.

Os que desfilaram buzinando fizeram verdadeiro “strip-tease” ideológico. Descortinaram para todos como funciona o capitalismo. Exigiram que os governos assegurem e garantam o que entendem ser seu direito, o direito a explorar, o direito a ficar com a mais-valia produzida por seus empregados.

Morrerão milhares de pessoas? Certamente sim. Mas isso está dentro das regras de um jogo chamado capitalismo. Existe um exército de reserva a ser mobilizado para ocupar as vagas dos que fenecerem. O que não admitem - vampiros - é que seus lucros e capital sejam comprometidos por decisões estatais que imponham o isolamento social. Entendem ter o direito de sugar até a última gota de sangue dos trabalhadores, antes que morram ou se tornem inúteis para a exploração.

Para a parcela da burguesia que nelas buzinou histericamente ou que apoiou as carreatas, os trabalhadores são descartáveis, substituíveis, como peças de uma diabólica máquina de moer pessoas, para gerar excedentes

financeiros a quem os explora. O Brasil não pode parar, assim, constitui-se em eufemismo para a exploração do trabalho humano, prestado sob subordinação, que não poderia ser interrompida.

O capitalismo brasileiro está nu. Uma feia, obscena, depravada, nudez. Necrófilos buzinaram, perversos, excitados - e não foram poucos - em defesa de seus privilégios, de seus interesses de classe. São classe exploradora em si e para si. Desnudaram-se, deixaram à mostra, impudicos, suas obesidades, reais e metafóricas, em defesa do direito a explorar o trabalho alheio. Pretendem que os trabalhadores se apinhem nos insalubres transportes coletivos, contaminando-se, para produzir os excedentes que engordarão ainda mais o capitalismo brasileiro. Os flácidos organizadores das carreatas orientaram os participantes a não saírem de seus veículos. Não são bestas. Temiam a contaminação. Mas não se importam se seus empregados se expuserem. O nome do jogo é capitalismo.

Ficou evidente, com as carreatas, o desejo dos proprietários dos meios de produção e da quase-classe, sem deles ser proprietária (a classe média), de apoiar o sistema de exploração vigente. Esperemos que a classe trabalhadora, estarrecida com a nua desfaçatez dos exploradores tome consciência do poder que por óbvio tem, durante e, principalmente, depois de controlada a pandemia.


* Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, professor na UFPR, integra o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.


56 anos do golpe de 1964

A seguir, uma coletânea de textos e entrevista da historiadora Anita Prestes sobre ou relacionados ao tema do golpe civil-militar de 1o de abril de 1964, da ditadura decorrente dele e do processo de transição no pós-ditadura.



TRÊS REGIMES AUTORITÁRIOS NA HISTÓRIA DO BRASIL REPUBLICANO: O ESTADO NOVO (1937-1945), A DITADURA MILITAR (1964-1985) E O REGIME ATUAL (A PARTIR DO GOLPE DE 2016)
O papel do capital financeiro internacional na constituição de regimes autoritários no Brasil
Revista de História Comparada - Programa de Pós-Graduação em História Comparada-UFRJ, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 108-129, 2019. 



LUIZ CARLOS PRESTES, A CONSTITUINTE E A CONSTITUIÇÃO DE 1988
Reflexão da historiadora Anita Prestes sobre a realidade brasileira contemporânea a partir do trigésimo ano da promulgação da Constituição Federal de 1988, que se completa em 5 de outubro de 2018.



O PCB E O GOLPE CIVIL-MILITAR DE 1964: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS
A derrota das esquerdas em 1964 revela que o caminho da revolução socialista passa pela construção do bloco histórico contra-hegemônico, que represente a unidade de amplas forças sociais e políticas em torno de um projeto revolucionário condizente com a realidade atual do País. Tal projeto deverá resultar das lutas dos trabalhadores por objetivos parciais que contribuam para a conquista do poder político, objetivo sem o qual o processo revolucionário ficaria inconcluso e sujeito a novas derrotas. Palavras-chave: Golpe de 1964. Partido Comunista Brasileiro. Bloco histórico.
Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, v. 40, n. 1, p. 150-168, jan.-jun. 2014



AS INTERPRETAÇÕES DO GOLPE DE 1964: O CONFRONTO IDEOLÓGICO
No artigo, faz-se uma abordagem sucinta do confronto ideológico presente nos debates em torno do golpe de 1964. A partir da apreciação de algumas das principais versões presentes nesse debate, são questionadas as razões por que a participação popular é praticamente deixada de lado, quando esse período é analisado. O isolamento e a deposição de João Goulart são atribuídos, em grande medida, à ausência de forças sociais e políticas, o “bloco histórico” gramsciano, capazes de lhe dar sustentação.
Novos Temas: Revista de debate e cultura marxista, nº 10, 1º semestre/2014, ICP, São Paulo, p. 129-144, 2014.


EM ENTREVISTA AO PROGRAMA "VIVA DOMINGO", A HISTORIADORA ANITA PRESTES COMENTA SOBRE A LEI DE ANISTIA, A COMISSÃO DA VERDADE, A LEGITIMIDADE DO MOVIMENTO "ESCRACHO", ENTRE OUTROS ASSUNTOS

Viva Domingo | 31.03.2013 | Entrevista: Anita Leocádia (Parte 01)

Viva Domingo | 31.03.2013 | Entrevista: Anita Leocádia (Parte 02)


IDEAIS DE CHUMBO OU IDEAIS DE DEMOCRACIA E JUSTIÇA SOCIAL?
A historiadora Anita Leocadia Prestes critica abordagem de artigos do dossiê “Guerrilheiros”, publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional de março de 2013.



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VEJA TAMBÉM:

Dossiê sobre o golpe de 1964 – publicado originalmente em 2014 e, agora, ampliado –, do blog marxismo21 



Relatório da Comissão Nacional da Verdade