quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A RESPEITO DO SUPOSTO POSITIVISMO DE LUIZ CARLOS PRESTES

Artigo escrito pela historiadora Anita Prestes e publicado em MOURO (Anuário de Crítica Social – Núcleo de Estudos d’O Capital), n.13, São Paulo, IDEO grafos, janeiro de 2019, p. 191-199.

"Deixar o erro sem refutação é estimular a imoralidade intelectual" (Karl Marx - frase citada como epígrafe do livro A Miséria da Teoria, do historiador E. P. Thompson)


Luiz Carlos Prestes (1898-1990)



A RESPEITO DO SUPOSTO POSITIVISMO DE LUIZ CARLOS PRESTES[1]
Anita Leocadia Prestes*
Resumo
É bastante comum a afirmação de que Luiz Carlos Prestes teria sofrido influências positivistas tanto no âmbito familiar quanto na Escola Militar, onde cursou engenharia militar. No artigo são apresentados fatos e argumentos que desmentem tal afirmação, feita muitas vezes com o objetivo de denegrir a imagem de Prestes, de pôr em causa sua adesão às ideias de Marx, Engels e Lenin.
Palavras chave
Luiz Carlos Prestes, positivismo, Diderot e Hegel.

                Entre diversos autores que, de uma forma ou de outra, se referiram a Luiz Carlos Prestes, é bastante frequente encontrar a afirmação de que o líder comunista teria sofrido consideráveis influências positivistas tanto no âmbito familiar quantona Escola Militar, onde cursou engenharia militar, tendo colado grau em janeiro de 1920.
            João Alberto Lins de Barros, ex-comandante de um dos destacamentos da Coluna Prestes – que percorreu o Brasil de 1924 a 1927 -, ao publicar,em 1953, suas memórias, marcadas por evidente ressentimento diante da opção comunista do seu antigo comandante, escreveu que Prestes aderira ao positivismo por “herança intelectual paterna” e se tornara “católico exaltadíssimo” no Colégio Militar, por influência de um professor (...), mas voltando ao “ateísmo, já no fim do curso da Escola Militar, convertera-se em materialista dogmático. Não admitia situações intermediárias (...).” Caracterização que é repetida em texto mais recente, citada por João Quartim de Moraes ao abordar a “escolha Ade Prestes” pelo comunismo[2], autor que chega a considerar LuizCarlos Prestes “o mais célebre” dentre os positivistas que aderiram ao marxismo no Brasil.[3]
            Agildo Barata, ex-dirigente do PCB, também ressentido por ter sido expulso em 1957 desse partido, ao recordar alguns poucos momentos de convívio com Prestes na prisão - ocasião em que encontrou entre seus livros o Catecismo positivista de Augusto Comte, assim como textos de Epíteto -, concluiu: “Prestes nunca foi nem é um revolucionário marxista; Prestes é um positivista estoico. Ou se preferirem: um estoico positivista, com muitos ranços fatalistas.”[4]Declarações que contribuíram para que alguns autores passassem a dizer que, na prisão, Prestes se teria dedicado a ler obras positivistas e cultivar as ideias de Comte.[5]
            Há que lembrar que embora Paulo Sérgio Pinheiro, apoiado em meras aparências e sem a devidacomprovação, defenda a tese da fusão, nos anos 1930, de um suposto “militarismo” de Prestes com a estratégia da Internacional Comunista, ao mesmo tempo, descarte “as interpretações convencionais que se referem ao positivismo de Prestes e suas afinidades com o materialismo dialético”. Considera que essa explicação “no nível conceitual e filosófico” deixa de lado “o ambiente em que Prestes estava mergulhado” naqueles anos.[6]
            Mais recentemente, Marcos Del Roio retoma a tese de que Prestes teria sido rodeado na família por “concepções positivistas – com pai e tio adeptos da doutrina de Comte – e na Escola Militar”, embora afirme que essas concepções transmitiam “as preocupações com justiça e com os temas sociais”.[7]
            A tese da herança familiar do suposto positivismo de Prestes continua a produzir adeptos. Em livro publicado em 2017, Lincoln Secco volta a destacar que “Luiz Carlos Prestes tinha as obras de Comte na prisão” e, em citação de Alfredo Bosi, repete “não será apenas aleatório o fato de o pai de Luiz Carlos Prestes, o capitão Antônio Prestes, ter sido, juntamente com Protásio Vargas, irmão de Getúlio, um dos fundadores do Centro Positivista de Porto Alegre em 1899...”[8]
            Em obra que veio à luz este ano, Mauro Malin reproduz declarações de Armênio Guedes, ex-dirigente do PCB, em que este afirmava ser Luiz Carlos Prestes “um ideólogo cheio de positivismo na cabeça”.[9]
A respeito do suposto positivismo de Luiz Carlos Prestes, é necessário, entretanto,esclarecer alguns aspectos:
     1) Embora o pai de Luiz Carlos Prestes, Antônio Pereira Prestes, tenha aderido à filosofia de Augusto Comte, sob a influência de Benjamin Constant, do qual foi discípulo na Escola Militar da Praia Vermelha e seguidor no movimento republicano, não foi ele fundador do Centro Positivista de Porto Alegre. Seu fundador foi um tio de Prestes, Joaquim José Felizardo Júnior, irmão de Leocadia Felizardo Prestes, a mãe de Luiz Carlos, mulher esclarecida e enérgica, que jamais permitiu a adesão do marido à Igreja positivista.
       2) Quando Antônio Pereira Prestes faleceu, seu filho tinha apenas dez anos de idade e sua formação foi influenciada principalmente pela mãe, conforme ele sempre reconheceu. Do pai, Luiz Carlos herdou a célebre “biblioteca positivista”, da qual constavam desde as obras dos principais filósofos da Antiguidade até as dos iluministas do século XVIII, como Diderot, Voltaire, Rousseau, etc. Essa biblioteca muito contribuiria para sua formação humanística e para suas futuras convicções filosóficas materialistas.
       3) No que se refere às obras de Comte que Prestes possuía na prisão, é interessante consultar carta por ele dirigida à mãe, em 26/6/1938, na qual relata que haviam pertencido ao falecido tio Joaquim José e enviados por sua avó, Ermelinda Felizardo, residente em Porto Alegre.[10]
      Ademais de duas ou três obras de A. Comte, presentes entre seus livros da prisão – recentemente doados por mim à Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (SP) da parte que foi possível preservar após tantos anos de constantes perseguições policiais –,havia as obras completas de Diderot (enviadas de Paris por Leocadia, assim como muitas outras), assim como livros de Maquiavel, Voltaire, Rousseau, Condorcet, Descartes, Feuerbach, Hegel, Kant, Bertrand Russel, etc.
      4) Seria bom lembrar que pesquisas históricas revelaram há tempos que, diferentemente da geração que passou pela Escola Militar da Praia Vermelha, cuja simpatia pela filosofia positivista é conhecida, a geração dos “tenentes”, que estudou na Escola Militar do Realengo, havia abandonado tal influência e sua maior preocupação se tornara profissional.[11] Segundo Boris Fausto, “os ‘tenentes’ pagam tributo à indefinição ideológica que se abre com a perda da influência do positivismo e o predomínio da velha retórica liberal”[12].
     5) Com dezoito anos, Prestes atravessou uma “crise filosófica” – segundo palavras suas -, ou seja, tendo se mantido agnóstico até aquele momento, concordou, por influência de um de seus professores, Joaquim da Silva Gomes, em ser batizado na Igreja católica. Durante as férias, frequentou as aulas de catecismo na Igreja da Cruz dos Militares e, no dia 19 de março de 1916, batizou-se na Igreja de São José. Contudo, era difícil para o jovem conciliar a formação científica que já adquirira com os dogmas da religião. Além disso, decepcionado com o padre da igreja que passara a frequentar, resolveu abandoná-la ao cabo de três meses. Não consta, portanto, que fosse adepto da ideologia de Augusto Comte.
     6) Vale a pena consultar a correspondência de Prestes durante os nove anos de prisão para perceber quais eram seus interesses intelectuais e, em particular, suas opções filosóficas.[13] Evidencia-se o interesse preferencial de Prestes pelas obras de Diderot e Hegel, que as solicita com frequência aos parentes e amigos, na medida em que as autoridades carcerárias, que proibiam o recebimento de qualquer livro marxista ou comunista, o permitissem.
Em carta à sua irmã Lygia (28/8/1941), Prestes escrevia:
Em vez de acompanhar a atualidade histórica, que me estava parecendo uma formidável confirmação prática das leis dialéticas de Hegel, faço o estudo teórico destas leis pelos próprios livros de Hegel. Já estou, porém, chegando a um ponto em que sinto cada vez mais a necessidade de conhecer outras obras do grande filósofo alemão. Creio que brevemente não poderei deixar de tentar comprar as “Lições de filosofia da história”, que sei haver sido publicada em francês há uns três anos e que talvez se encontre por aqui. Não serias também capaz de descobrir por aí, em espanhol, inglês ou alemão, algumas das obras de Hegel, tais como “Geschichte der Philosophie”, “Wissenschaft der Logik” e “PhoenomenologiedesGeister”? E algum livro sobre Hegel, tais como Rosenkranz, “LebenHegel’s” ou K,Fischer, “Hegel’sLebeundWerke”?[14]

                        Pouco tempo depois, em carta dirigida à mãe (11/9/1941), Prestes escrevia:
Hegel foi, sem dúvida, um gênio e o cérebro mais enciclopédico de sua época, de maneira que as suas obras, para quem dispõe de tempo bastante e de energia suficiente para conseguir estudá-las com cuidado, são um manancial de ideias geniais. Isso, tanto em História, como em Ciências naturais. Não há exageros em dizer que os maiores sábios depois de Hegel, todos aqueles que fizeram grandes descobertas, foram consciente ou inconscientemente hegelianos.[15]

Quando Lygia esteve em Havana, Prestes lhe solicitava (26/8/1943):
Se, ao receberes esta, ainda estiveres em Havana, procura em suas livrarias (de livros velhos) o que haja de Hegel, especialmente “Ciência da Lógica” e “História da Filosofia”. (...) O livro de Hegel – “Science ofLogic” é o que, no momento, mais me interessa e que, em último caso, me disponho a ler assim mesmo em inglês, se bem que prefira em francês, espanhol, italiano.[16]           

Em março de 1944, Prestes escrevia à irmã (24/3/1944), que conseguira “afinal a “Filosofia da História” de Hegel, que tanto desejava ler. (...) Como vês, estou de parabéns.”[17]
A respeito de Diderot, Prestes registrou em carta à mãe (27/5/1942):
            Quanto a leituras, aproveito no momento o livro sobre Diderot, que me mandaram da Argentina, para reler e aprofundar o estudo de diversas obras do meu filósofo predileto. Vim saber agora que, além dos 20 volumes de suas Obras Completas, foram posteriormente publicados diversos inéditos de grande valor num livro de Tourneux – “Diderot etCaterine II”. Foi à Catarina, que queria passar por ser a “Semiramis do Norte”, amiga de Voltaire e protetora das artes, que Diderot disse cara a cara: “Qualquer governo arbitrário é mau; não faço exceção nem mesmo para o governo arbitrário de um senhor bom, firme, justo e ilustrado.” Também Catarina, que convidara o filósofo para visitar sua Capital, dizia, mais tarde, que, se tivesse ouvido os conselhos de Diderot, teria transtornado por completo seu pacífico império com as “fantásticas teorias” do enciclopedista.[18]

  É interessante o comentário que Prestes faz em carta à mãe (8/7/1942) sobre Feuerbach, Hegel e Diderot:
No momento leio Feuerbach, o jovem hegeliano que passou ao materialismo ou, melhor, que com o seu livro “A essência do cristianismo” reduziu a pó a contradição entre o idealismo filosófico de Hegel, ainda dominante na Alemanha, e a crítica religiosa dos materialistas franceses que tinham sido arrastados aos jovens hegelianos pela necessidade prática da luta política nas vésperas da revolução democrática alemã de 1848. Feuerbach não tem a irreverência de Diderot, mas, se este põe a nu impiedosamente os absurdos da religião, o primeiro explica suas origens psicológicas: se Diderot nos faz rir, Feuerbach nos convida a meditar sobre a ignorância dos homens. Isto basta para que possas calcular o prazer que me causa esta leitura.[19]

Em outra ocasião, Prestes escreve à irmã (22/4/1943):
Como geralmente acontece nas épocas de maior preocupação, volto a Diderot e Hegel, que são os dois amigos que mais meprendem e sempre conseguem dominar por algum tempo meu pensamento vagabundo (...)[20]

Ao corresponder-se com um cientista dedicado à Física, o professor Paul Schurmann, de Montevidéu (25/11/1941), Prestes após citar Diderot e Hegel, escrevia:
Antes de falar em descontinuidade da matéria ou da energia, não seria conveniente que os cientistas meditassem mais profundamente a respeito dos conceitos de grandezas contínuas e descontínuas? Hegel a este respeito muito nos ensina; e Diderot, o menos mecanicista ou o mais dialético dos materialistas franceses do século XVIII, já afirmava que “ladivisibilité de lamatière a untermedans da lanature, quique’elle n’enaitaucundansl’entendement”.[21]

Em carta a uma amiga uruguaia, Nair Labarthe Fernández (19/5/1942), Prestes lhe encomenda obras de Hegel e Feuerbach:
De Hegel desejaria especialmente as “Lições de Filosofia da História” e a “Ciência da Lógica”; da primeira sei que há uma tradução francesa de 1936 ou 37 e outra espanhola um pouco anterior, da editorial da “Revista do Ocidente” de Madri. (...) Já possuo algumas obras de Hegel, como “Enciclopédia”, “Filosofia do Direito”, etc.[22]

Ao corresponder-se com outro amigo uruguaio, TeodosioLezama (1/7/1942), Prestes tece considerações sobre as leituras filosóficas que vinha empreendendo:
Conhecia Feuerbach através da leitura de Engels e há muitos anos que desejava tomar conhecimento direto de suas obras a fim de melhor compreender a evolução do pensamento filosófico alemão, no qual Feuerbach ocupa singular posição entre Hegel e Marx. (...) Este livro sobre “a essência do cristianismo” é, segundo creio, um dos mais difundidos de Feuerbach e de todas as suas obras a que, na época, maior sensação causou, a todos enlouqueceu, como diz Engels, mas o seu valor, nos dias de hoje, é quase exclusivamente histórico; “suas mais belas passagens”, na opinião do mesmo Engels, expressada em 1886, já então “se tinham tornado inteiramente ilegíveis”.
Parece que acontece com Feuerbach, de maneira inconsciente, o mesmo que se passa com Augusto Comte: ambos, quando se trata dos fenômenos da natureza, são materialistas, por mais que não aceitem esta classificação (uma espécie de materialistas envergonhados, na feliz expressão de Engels a respeito dos agnósticos ingleses do século XIX), mas ao entrarem no terreno dos fenômenos sócias, transformaram-se em puros idealistas e constroem uma sociologia, uma moral, uma ética, para um homem abstrato e ideal, que só pode existir em suas mentes de sonhadores. Penso, por isso, que é justamente naquelas obras de Feuerbach em que ele faz a crítica materialista, senão a destruição, do idealismo de Hegel, que se poderá encontrar o que há de perene em sua filosofia: refiro-me aos “Princípios da Filosofia do Futuro”, em que expõe a sua teoria do conhecimento, e às “Teses preliminares para a reforma da filosofia”.[23]

              Diante dos fatos e argumentos apresentados, podemos verificar o quanto é absurda a caracterização de Luiz Carlos Prestes como positivista. Caracterização, cuja utilizaçãoé usada, em geral, por certos autores com o objetivo evidente de denegrir sua imagem, de pôr em causa sua adesão às ideias de Marx, Engels e Lenin, o que, certamente, não significa transformar o marxismo em dogma, em panaceia a ser aplicada sem levar em consideração cada situação concreta em que se devaatuar politicamente.

*Anita Leocadia Prestes é doutora em História Social pela UFF e professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ.




[1]Publicado em MOURO (Anuário de Crítica Social – Núcleo de Estudos d’O Capital), n.13, São Paulo, IDEO grafos, janeiro de 2019, p. 191-199.
[2]BARROS, João Alberto Lins de. Memórias de um revolucionário. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1953, p. 195; MORAES, João Quartim de.  A esquerda militar no Brasil. Volume II: da Coluna à Comuna. São Paulo, Siciliano, 1994, p.50.
[3]MORAES, João Quartim de, “A evolução da consciência política dos marxistas brasileiros”, in MORAES, João Quartim de (org.). História do marxismo no Brasil. Vol. II. Campinas (SP), Editora da UNICAMP, 1995, p. 56.
[4]BARATA, Agildo. Vida de um revolucionário (memórias). 2ª ed. São Paulo, Alfa-Omega, 1978, p. 326-328.
[5] Ver, por exemplo, SECCO, Lincoln. A batalha dos livros - Formação da Esquerda no Brasil. Cotia (SP), Ateliê Editorial, 2017, p.14.
[6]PINEHRIO, Paulo Sérgio. Estratégias da Ilusão: a Revolução Mundial e o Brasil, 1922-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 13 e 213.
[7]ROIO, Marcos Del, “Os comunistas, a luta social e o marxismo (1920-1940)”, in RIDENTI, Marcelo e REIS FILHO, Daniel Aarão (orgs.). História do marxismo no Brasil. Vol. V. Campinas (SP), Editora da UNICAMP, 2002, p. 41.
[8]SECCO, Lincoln. A batalha dos livros – Formação da Esquerda no Brasil. Cotia (SP), Ateliê Editorial, 2017, p. 14.
[9]MALIN, Mauro. Armênio Guedes: um comunista singular. Rio de Janeiro, Ponteio, 2018, p. 379.
[10]PRESTES, Anita Leocadia e PRESTES, Lygia (org.). Anos tormentosos. Luiz Carlos Prestes: correspondência da prisão (1936-1945). Rio de Janeiro, APERJ; São Paulo, Paz e Terra, 3 volumes, 2000 – 2002; v. I, p. 189.
[11]CARVALHO, José Murilo, “As forças armadas na Primeira República: o poder desestabilizador”, in Boris Fausto (org.). História Geral da Civilização Brasileira, S.P., R.J, Difel, 1977, p. 199; ver também DRUMMOND, José Augusto. O movimento tenentista. Rio de Janeiro, Graal, 1986, p. 55.
[12]FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930. São Paulo, Brasiliense, 1970,p. 63.
[13]PRESTES, Anita Leocadia e PRESTES, Lygia (org.). Anos tormentosos. Luiz Carlos Prestes: correspondência da prisão (1936-1945). Rio de Janeiro, APERJ; São Paulo, Paz e Terra, 3 volumes, 2000 – 2002.
[14]Ibidem, v. I, p. 463.
[15]Ibidem, v. I, p. 507.
[16]Ibidem, v. II, p. 261-262.
[17]Ibidem, v. III, p. 46-47.
[18]Ibidem, v. II, p.77.
[19]Ibidem, v. II, p. 95-96.
[20]Ibidem, v. II, p. 217-218.
[21]Ibidem, v. III, p. 483-487.
[22]Ibidem, v. III, p. 494.
[23]Ibidem,v. III, p. 502-503; negrito meu.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Retrato de Olga Benario Prestes feito por Candido Portinari

Pela primeira vez o quadro será exibido ao público no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro



No dia 13 de janeiro de 2019, dentro da programação do aniversário de 82 anos do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), será realizado o ato de doação do acervo da historiadora Anita Prestes ao museu, que consiste no quadro Olga Benario Prestes, pintado por Candido Portinari, e na escultura da cabeça de Luiz Carlos Prestes, obra de Honório Peçanha.

A historiadora justifica a doação dizendo que “essas obras de arte pertencem ao povo brasileiro e precisam ficar em exibição em um museu público”, conforme divulgado por Ancelmo Gois, no Blog da Turma da Coluna, em 19/08/2018.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

121 anos do nascimento do Cavaleiro da Esperança

Por meio da trajetória de vida de Luiz Carlos Prestes (1898-1990), é possível realizar uma extensa e detalhada viagem pelo Brasil do século XX, do movimento tenentista à redemocratização pós-ditadura militar.

Sobre a relevância histórica e política de Luiz Carlos Prestes, consultar os diversos materiais disponíveis no site do INSTITUTO LUIZ CARLOS PRESTES, clicando no link abaixo:




"O legado de Luiz Carlos Prestes, ao apontar para a necessidade de considerar possíveis formas de transição ou de aproximação do poder revolucionário, que venha a abrir caminho para a revolução socialista, constitui uma contribuição valiosa para as forças de esquerda que hoje estão empenhadas na luta por transformações profundas da sociedade brasileira, na luta por mudanças que não sirvam aos desígnios dos políticos das classes dominantes, interessados em que “tudo mude para que tudo permaneça como está”, conforme a célebre fórmula do “O Leopardo” de Lampeduza." (Trecho de "A ATUALIDADE DO LEGADO DE LUIZ CARLOS PRESTES E OS CAMINHOS DA REVOLUÇÃO SOCIALISTA NO BRASIL". Texto da historiadora Anita Prestes, apresentado em evento comemorativo dos 120 anos de Prestes e 110 anos de Olga, IFCS, 5/4/2018)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Para download: La filosofía de la educación en el pensamiento educativo del Dr. Fidel Castro (1945-1981)

Descargar Libro: 

La obra contribuye a la teoría de la filosofía de la educación en Cuba en tanto determina las influencias principales, las etapas y los períodos del proceso de formación de la filosofía de la educación de Fidel entre 1945 y 1981; ofrece una sistematización de su filosofía de la educación y establece la contribución que realizó a la teoría de dicha ciencia en Cuba durante esos años.

En el primer capítulo se determinan las principales influencias en el proceso de formación de su proyecto sociopolítico y la filosofía de la educación. En el segundo capítulo se ofrece la periodización, sistematización y contribución de la personalidad que se estudia a la filosofía de la educación en Cuba.

Autor: Casañas Díaz, MirtaAldama del Pino, Miguel Ángel
Editorial: 
Editorial Universitaria, La Habana, Cuba
Fecha: 
2016






terça-feira, 1 de janeiro de 2019

60 anos do triunfo da Revolução Cubana






Por Atilio Boron

Comienza un año muy particular: se cumplen 60 años del triunfo de la Revolución Cubana. Para mí es una fecha muy especial y la conmemoración de esa gran victoria popular y la derrota del imperialismo norteamericano eclipsan cualquier otro tipo de consideración, sea personal, institucional o colectiva. Esa victoria convierte, en este caso, las salutaciones tradicionales de fin de año en una tontería. Con la Revolución Cubana Nuestra América salió de la prehistoria y comenzó a escribir su propia historia. La luz irradiada aquel 1° de Enero de 1959  llega potente y vibrante hasta nuestros días gracias al internacionalismo, la solidaridad y la porfiada y difícil construcción del socialismo aún bajo las peores condiciones posibles. 

Si la historia lo absolvió a Fidel, como premonitoriamente lo había anunciado,  la tenaz resistencia de la Revolución Cubana ante las agresiones del mayor imperio de la historia, del más poderoso ejército jamás conocido, convirtieron a esa isla heroica en un  luminoso ejemplo para todo el mundo. Pese a sesenta años de agresiones y de un criminal bloqueo integral en su contra, ejemplo único en la historia universal, Cuba sigue siendo una fuente de inspiración para todos los que luchan contra la injusticia , la confirmación de que no estamos irremisiblemente condenados a ser colonias de un imperio que ha perpetrado las mayores atrocidades de las que se tenga noticia. Hiroshima y Nagasaki son crímenes sin parangón pese a lo cual ningún presidente estadounidense tuvo la entereza moral de asumir y, por lo menos, enviar una nota al pueblo japonés diciendo aunque sea una sola palabra:  “perdón”.  ¡Nada! 


Contra esa monstruosa impunidad ha luchado Cuba, para honor de los pueblos de Nuestra América y para eterna deshonra de tantos malos gobiernos que optaron, y todavía optan, por arrastrarse ante el Goliat vencido que echar su suerte, como diría Martí, con el David valeroso e inteligente que de la mano de Fidel, del Che, de Raúl, de Camilo, de Haydé, de Vilma, de tantos y tantas revolucionarios y revolucionarias de Cuba, brindaron a la humanidad un ejemplo que, en este año que comienza brilla con renovada fuerza moral. Por eso esta breve recordación y este poco convencional mensaje de fin de año, y una invitación para ver este corto video de Fidel con sabias palabras dichas cuando, desintegrada la Unión Soviética, la isla rebelde quedó sola frente al imperio, y salió airosa de tan crucial desafío.
 Feliz Año Nuevo, ni un paso atrás en nuestras luchas  y … ¡Hasta la victoria siempre! 




Olga Benário Prestes: A alemã que lutou contra o fascismo, até a morte

A filha da comunista alemã morta pelos nazistas discute seu legado na luta moderna contra a extrema direita.

Artigo de Gouri Sharma
21/12/2018

Uma foto da comunista alemã Olga Benario Prestes que foi morta em um centro de eutanásia nazista em abril de 1942 [Imagem cortesia da Galeria Olga Benario em Berlim, Alemanha]


Em sua carta final ao marido, Luís Carlos Prestes, e sua filha Anita, dois meses antes de sua morte, em 1942, Olga Benário Prestes escreveu: "Eu lutei pelos justos e pelos bons, para tornar o mundo melhor. Se agora devo dizer adeus, eu prometo que não vou te dar nenhum motivo para ter vergonha de mim, não para o meu último suspiro".

Assassinada em um centro de eutanásia nazista, pouco depois de completar 34 anos, as palavras do comunista alemã aludiram à sua luta contra o fascismo ao longo da vida.

Ela é uma história de bravura e resistência que fala sobre os vários momentos em que foi contada e que deixou um legado na Alemanha, no Brasil e além.

Para a filha, Anita Leocádia Prestes, hoje professora aposentada e historiadora radicada no Rio de Janeiro, é um legado que precisa ser lembrado.

A senhora de 82 anos diz à Al Jazeera: "É importante divulgar combatentes como [Olga] Benário para que as pessoas entendam que é necessário parar a ascensão do fascismo e evitar tragédias similares. Seu exemplo é inspirador para jovens que querem lutar contra o fascismo, e por justiça social e liberdade ".


Uma lição inicial de justiça social

Nascido em 1908, Olga era a mais nova de dois irmãos de uma família judia de classe média de Munique. Sua mãe Eugenie fazia parte da alta sociedade bávara, enquanto seu pai, Leo, era membro do Partido Social-Democrata Alemão e advogado. Ele costumava representar os trabalhadores de fábrica pobres de graça, e foi através dele que Olga aprendeu sobre a justiça social.

Sua relação com a mãe, no entanto, era "tensa", já que, desde muito jovem, Olga questionou - e rejeitou - o conforto que acompanhava sua criação de classe média.

Olga Benario nasceu em 1908 numa família judia de classe média em Munique [Imagem cortesia da Galeria Olga Benario em Berlim, Alemanha]


Em 1923, no mesmo ano em que um austríaco chamado Adolf Hitler iniciou o Putsch da Cervejaria - uma tentativa fracassada de derrubar a República de Weimar em Munique - Benário, de 15 anos, entrou para a Organização da Juventude Comunista (KJVD).

Suas atividades com o grupo, incluindo a colocação de cartazes revolucionários ilegais pela cidade, levaram a polícia local a registrá-la como "agitadora comunista".

Ela logo entrou em um relacionamento com Otto Braun, um colega comunista sete anos mais velho que ela. Quando Olga tinha 18 anos, a dupla partiu para se juntar ao movimento comunista maior em Berlim e ela assumiu atividades semelhantes em seu papel como um dos principais membros da KJVD no bairro da classe trabalhadora de Neukölln.

Sua prisão sob a acusação de "preparativos para alta traição", seguida por sua tentativa bem-sucedida de libertar Braun da prisão em 1928, fez de Olga uma figura bem conhecida em toda a cidade.

Uma foto de cabeça de Olga Benario tirada quando ela foi presa em Berlim em 1926 [Imagem cortesia da Galeria Olga Benario em Berlim, Alemanha]


Katinka Krause, 64, é dona de uma livraria que se ofereceu como voluntária na Galeria Olga Benario, uma galeria baseada em Berlim, por mais de 30 anos.

"Havia cartazes dela por toda a cidade e imagens mostradas antes de exibições de cinema oferecendo 10.000 marcos para encontrá-la. Muitos trabalhadores deram a ela uma casa e as portas foram feitas em lugares diferentes para que ela pudesse escapar a qualquer momento", diz Krause.

Agora um alvo para as autoridades, o par foi para a União Soviética, onde Olga se juntou à Juventude da Internacional Comunista, um ramo da Internacional Comunista (Comintern).

Sua relação com Braun logo acabou, ela passou por um intenso período de treinamento militar e estratégico, um conjunto de habilidades que incluía aprender inglês, francês e russo, além de praticar skydiving, andar a cavalo e pilotar.

Ela também provou ser bem sucedida em missões internacionais pela Europa Ocidental, sendo presa em Paris e Londres por sua participação em protestos.


'Um presente' para Hitler

Em 1934, em Moscou, Olga recebeu a tarefa de acompanhar o líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, então exilado em Moscou, de volta ao Brasil.

Olga seria seu guarda-costas em meio a preparativos para derrubar o líder brasileiro Getúlio Vargas, que parecia estar deslizando em direção à ditadura. Disfarçado como um casal de portugueses casados ​​durante sua longa jornada por lá, o casal alcançou a nação sul-americana em amor.

Em 1934, Olga Benario foi acusada de escoltar Luis Carlos Prestes, que estava no exílio em Moscou, de volta ao Brasil [Imagem cortesia da Galeria Olga Benario em Berlim, Alemanha]


A revolução contra o Vargas falhou em 1935 e Olga acabou sendo capturada. Vargas embarcou de volta para a Alemanha como "um presente" para Hitler.

O historiador e escritor suíço-alemão Robert Cohen escreveu três livros sobre Olga Benário. O mais recente, Der Vorgang Benario. Die Gestapo-Akte 1936-1942, (O Processo Benário: O Arquivo da Gestapo 1936-1942) examinou os 2.000 documentos da Gestapo sobre ela que vieram à luz há três anos. De acordo com Cohen, é provável que seja o maior dossiê de documentos sobre qualquer vítima do Holocausto.

Cohen descreve Olga como fisicamente e mentalmente resistente, e diz que ele procurou representá-la de uma perspectiva feminista.

"Ela assumiu papéis que só os homens deveriam fazer, e era tão corajosa e experiente. Quando Prestes foi preso, a polícia brasileira teve a ordem de atirar nele. A essa altura, Benário estava grávida de dois ou três meses, mas ela entrou em cena na frente dele e a polícia não sabia o que fazer. Ela não fez isso apenas por amor, ela fez isso porque era o seu trabalho."


Resistência em Ravensbruck

Logo após seu retorno à Alemanha em 1936, ela deu à luz Anita em uma prisão de Berlim. Após 14 meses, mãe e filha foram separadas e, em 1939, Olga foi transferida para o campo de concentração de Ravensbruck, situada a 90 km de Berlim, no norte do país.

Um campo de concentração apenas para mulheres, foi construído para abrigar presos considerados 'desviantes'. Até o seu fechamento em 1945, mais de 130.000 mulheres e crianças, incluindo aristocratas, prisioneiros políticos e espiões foram mantidos lá. Olga estava entre o primeiro grupo de mulheres a chegar.

Uma fotografia de Olga Benario Prestes na exposição "Mulheres de Ravensbruck - Retratos de Coragem", com curadoria de Rochelle Saidel para o Museu do Holocausto da Flórida. Obras de arte à direita por Julia Terwilliger


Rochelle Saidel é fundadora e diretora executiva do Instituto Remember the Women, uma organização sediada em Nova York que apoia projetos culturais e de pesquisa que visam incluir mulheres na história.

"Ela foi chicoteada, colocada em um bunker de punição e trabalhou como operária de escravos na fábrica da Siemens, que era uma das principais empresas de trabalho escravo no campo", diz Saidel.

"Além disso, ela estava muito quebrada quando eles levaram o bebê para longe dela. Por um ano e meio ela não sabia o que tinha acontecido, tudo o que ela sabia que o bebê poderia ter sido dado a uma família nazista. Apesar disso, ela continuou ajudando outras pessoas e permaneceu idealista".

Olga foi nomeada Blockalteste, ou líder do bloco [do campo de concentração]. Ela fez um pequeno atlas secreto para ensinar outros prisioneiros sobre geografia e guerra, colaborou em um jornal clandestino e montou um atlas detalhado que permanece nos arquivos hoje.

Então, em fevereiro de 1942, ela foi levada para a clínica de eutanásia de Bernburg, onde foi levada à morte em abril.

Olga Benario Prestes tinha 34 anos quando foi morta pelos nazistas [Imagem cortesia da Galeria Olga Benario em Berlim, Alemanha]


Sua filha diz que manteve uma postura firme em relação aos seus captores até o final.

"Ela nunca vacilou diante do inimigo, afirmando que 'se outros se tornassem traidores, ela nunca seria'. Ela pagou com sua vida por tal firmeza, já que se ela fosse enganar seus companheiros, ela teria tido a chance de tomar asilo na Rússia, no México ou na Inglaterra."


A política da memória

Autores, cineastas, curadores e diretores de teatro procuraram contar sua história. Saidel diz que as várias maneiras em que foi narrada são um exemplo claro da política da memória.

"Depende de quem, por que e quando eles estão lembrando", diz ela.

A parte judaica de sua identidade em particular provocou muita discussão. Como comunista, Anita considera sua mãe mais como prisioneira política do que uma vítima judia dos nazistas.

Cohen diz que ele vê os dois. "Benário nunca insistiu em seu judaísmo, na verdade, como comunista, ela estava muito distante dele", diz ele. "Quando a capturaram em 1936, os documentos mostravam que a tratavam principalmente como comunista e membro do Comintern, de quem podiam aprender segredos sobre o que a União Soviética e outros comunistas estavam fazendo. Mas a partir de 1940, eles se referem a ela quase exclusivamente como judia".

Anita foi salva por sua avó paterna Leocádia Prestes e se reuniu com seu pai em 1945. Desde então, ela escreveu sobre seus pais extensivamente. Seu último livro, Olga Benário Prestes: Uma comunista nos arquivos da Gestapo foi publicado no ano passado em português e, junto com os documentos da Gestapo, apresenta cartas entre seus pais.

Anita Leocadia Prestes, filha de Olga, é uma professora aposentada e historiadora que escreveu sobre seus pais [Foto cedida pela editora Boitempo, com sede em São Paulo, que publicou o livro mais recente de Anita]


Anita diz que no Brasil, sua mãe é vista como um "símbolo da luta dos combatentes da liberdade e dos comunistas". O filme brasileiro de sucesso de 2004, Olga, foi a submissão do Brasil para o 77º Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, embora não tenha sido aceito como candidato.

Na Alemanha, durante a Guerra Fria, ela foi considerada uma heroína no leste do país, com escolas, casas de repouso, fábricas e ruas em homenagem a ela.

Ser uma heroína comunista no Oriente significava que o Ocidente a ignorava. Krause, o voluntário da galeria na ex-Berlim Ocidental, diz que agora está mudando e mais pessoas estão aprendendo sobre ela em todo o país.

Para Cohen, o legado de Olga Benário, particularmente hoje, à medida que os movimentos de extrema direita ganham destaque em grande parte do mundo, é claro.

"Resistimos. Não podemos aceitar o que está acontecendo. Olga Benário fez isso de duas maneiras. Ela lutou contra o fascismo enquanto estava livre, e então resistiu aos nazistas por mais seis anos. Isso é quase inimaginável."

Em toda a Europa, a extrema direita está em ascensão e tem algumas das comunidades mais diversas do continente em sua mira.

Na extrema direita, esses bairros são "zonas proibidas" que desafiam sua noção do que significa ser europeu.

Para aqueles que vivem neles, eles são a Europa. Veja-os contar suas histórias em This is Europe.

* Traduzido por Eduardo Lima