domingo, 17 de abril de 2016

"Gramsci na Pesquisa Histórica"

Núcleo de Pesquisas Estado e Poder no Brasil convida para a mesa redonda "Gramsci na Pesquisa Histórica"
. Sônia Regina Mendonça (PPGH-UFF)
. Rodrigo Lamosa (PPGEduc-UFRRJ)
. André Guiot (SME-Duque de Caxias).
09/05/2016 - 18:30 h
UFF - Bloco "O" - Auditório
Inscrições serão realizadas no próprio dia do evento.
MAIS INFORMAÇÃO: 
https://www.facebook.com/events/1154815681195252/


NYT diz que Dilma será julgada por “gangue de ladrões”

Segundo o jornal mais influente dos Estados Unidos, “60 % dos 594 membros do Congresso brasileiro são processados por sérias acusações”

Tatiana Marotta

Eduardo Cunha é um dos citados no jornal norte-americano. Foto: Marcelo Camargo/Fotos Públicas (01/04/2016)


A capa do jornal norte-americano The New York Times da sexta-feira (15/04) destaca que a presidenta Dilma Rousseff está sendo julgada por políticos que estão longe de ser irrepreensíveis, pois ou são alvos de escândalos de corrupção, ou foram processados por acusações graves. [Dilma Rousseff Targeted in Brazil by Lawmakers Facing Scandals of Their Own]

Entre a lista dos nomes evocados pelos jornalistas Simon Romero e Vinod Sreeharsha está o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na origem do processo de impeachment é “processado pelo Supremo Tribunal Federal por ter supostamente embolsado milhões de reais em “suborno”.

Também aparece na matéria o nome do deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), “tão ocupado com seus próprios escândalos que é comumente lembrado pelo slogan ‘rouba, mas faz’”. O jornal comenta que o deputado se diz indignado com toda a corrupção no Brasil, embora seu nome tenha sido incluído na lista de “procurado pela Interpol” por supostamente ter recebido “mais de US$ 11,6 milhões em propina”.

De acordo com a análise do NYT, Dilma faz parte de uma categoria rara dos políticos brasileiros, pois “não é acusada de ter ‘roubado’ para si própria, ao contrario de parte daqueles que a acusam”.

Os jornalistas citam na matéria dados compartilhados pela ONG Transparência Brasil, segundo o qual “60% dos 594 membros do Congresso são processados por graves acusações como remessas ilegais de dinheiro para o exterior, fraude eleitoral, desmatamento ilegal, rapto e homicídio”.

Trata-se então, de acordo com jornalistas, de “um debate nacional sobre a hipocrisia entre líderes brasileiros”. “Alguns dizem que o impeachment tem menos a ver com a luta contra corrupção do que com a vontade dos legisladores de tomar o poder”, comentam.

Quanto à Dilma, os jornalistas dizem que “ninguém pode contestar que ela é muito impopular no País”, uma vez que sua gestão registra “a pior crise econômica em décadas, passa por um gigante escândalo de corrupção envolvendo a estatal de petróleo e de ter devolvido milhões de brasileiros da classe média à pobreza”.

De acordo com o jornal, parte da estratégia da defesa da presidenta é justamente o descrédito dessas pessoas que pedem o impeachment:  “Dilma e seus apoiadores questionam como o processo de impeachment pode ser dirigido por alguém que vai ser julgado por corrupção [a exemplo de Eduardo Cunha]”.

sábado, 16 de abril de 2016

Mi vida con Lenin, por Nadiezhda Krúpskaya

Fonte biográfica de Lenin escrita por sua esposa

Edição argentina: Nadiezhda Krupskaya, Lenin, su vida, su doctrina, Buenos Aires: Editorial Rescate, 1984.

LINK PARA DOWNLOAD: 

Quando surgir a página do MEGA clique em "Baixar através do seu navegador".


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Há quanto tempo a gente luta e a luta nos educa...

Dia 18/4, às 19h, sala 107, na UERJ-Caxias

Venha discutir a história do associativismo docente latino americano!

EXIBIÇÃO E DEBATE DO DOCUMENTÁRIO 
“Granito de arena”


“A luta é necessária. Com nossas marchas e mobilizações estamos colocando nosso pequeno grão de areia para a transformação desde país.”

Esta atividade, que tem um título adaptado do poema “Luta educadora” do professor Jonathan Mendonça, visa fazer uma discussão acerca da história do movimento docente no Brasil a partir do documentário “Granito de arena”. 

“Granito de arena” trata da história de luta e organização dos professores mexicanos em defesa da escola pública, diante de projetos de privatização da educação colocados em curso pelo governo de seu país.

Ao trazermos a experiência de outro país da América Latina, pretendemos refletir em que medida as bandeiras dos educadores brasileiros também estão conectadas às lutas de educadores em outras partes do mundo. 

Não temos a pretensão de apresentar um histórico completo do assunto, nem de buscar as origens, mas de apresentar questões históricas que nos ajudem a compreender a constituição da profissão docente por meio de suas lutas, tendo em vista que as evidências demonstram que o movimento docente não é algo recente na história da educação.

Amália Dias, Angélica Borges e Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro, professores do Departamento de Ciências e Fundamentos da Educação, da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF), campus Duque de Caxias da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Local do Evento: FEBF
End.: Rua General Manoel Rabelo, s/nº –  Vila São Luiz – Duque de Caxias – CEP: 25065-050.


terça-feira, 12 de abril de 2016

Maestros de América Latina

Documentales sobre José Martí, José Carlos Mariátegui, Paulo Freire, Simón Rodríguez, Domingo F. Sarmiento, Gabriela Mistral, Jesualdo Sosa, José Vasconcelos.

"Maestros de América Latina" busca caracterizar los principales nudos y problemas político-pedagógicos de la historia de la educación latinoamericana, para ir develando sus huellas y legados actuales.


Gabriela Mistral. Maestra y poeta.

Domingo F. Sarmiento. Sembrar escuelas en el desierto.

Jesualdo Sosa. La escuela nueva del campo

José Carlos Mariátegui. Indigenismo y pedagogía marxista

José Martí. Educar para la revolución

Paulo Freire. Educar al oprimido

Simón Rodríguez. Una pedagogía para la emancipación latinoamericana

José Vasconcelos. Una escuela para la raza cósmica

FUENTE: http://www.encuentro.gob.ar/sitios/encuentro/programas/ver?rec_id=129008

“Venezuela y Nuestramérica, entre la crisis del Capitalismo y la geopolítica imperial”. XII Encuentro de Intelectuales y Artistas en Defensa de la Humanidad

VIDEO: Discurso completo de Atilio Borón en el Encuentro de Intelectuales: “Golpes blandos por etapas, éxito en Argentina”


El politógo y sociólogo argentino, Atilio Borón, destacó este viernes [9/4/2016] la importancia de promover la cultura de resistencia, para explicar por qué la agresión contra Venezuela (de parte del imperio estadounidense), y por qué ese empecinamiento tan brutal para promover la guerra económica y el terrorismo mediático. Así lo señaló en el primer foro público del XII Encuentro de Intelectuales y Artistas en Defensa de la Humanidad, que tuvo como tema “Venezuela y Nuestramérica, entre la crisis del Capitalismo y la geopolítica imperial”.

Los procesos políticos de la región y el presunto giro a la derecha del continente mucho tienen que ver con la injerencia de Estados Unidos desde su punto de vista.

Borón explicó que ese giro todavía no se ha consumado porque Evo Morales aún tiene tres años más de gobierno en Bolivia, las encuestas dan ganadora a la Alianza País en Ecuador para el próximo año, mientras que el gobierno de Nicolás Maduro con enorme dificultades sigue adelante “es una muestra de resistencia y de lucha”, lo que sí ha cambiado, asegura, es el tono político de América Latina.



El acercamiento de Barack Obama a la Argentina es muestra de ello, porque es el único país que tuvo cambio de gobierno. Estados Unidos tiene un nuevo aliado en Suramérica que viene a reemplazar a Colombia que ya venía muy desgastada, sobretodo con la presencia de Uribe.

A Mauricio Macri, por su parte, le sirve porque es un espaldarazo, ya que es la primera vez que un presidente estadounidense visita un país a poco más de 100 días de ser electo, “un gesto inusual que revela la desesperación de Obama de buscar aliados en la región”.

A propósito de la decisión del gobierno de Macri de retirar a teleSUR de la Argentina, Borón lamentó el hecho. “teleSUR es un canal que ningún gobierno de la derecha quiere que se vea, en Chile mismo está bastante restringido, en Colombia no se ve, por ejemplo. La idea de que la derecha favorece el pluralismo informativo es un absurdo, lo que quiere es imponer un modelo y punto. No le interesa ningún debate público”.

FUENTE: Alba Ciudad

domingo, 10 de abril de 2016

PT só se lembrou dos movimentos sociais na hora de apagar incêndios, diz Frei Betto

Emanuel Colombari
Do UOL, em São Paulo

O escritor Carlos Alberto Libânio Christo, conhecido como Frei Betto


Frei Betto foi um dos primeiros nomes de destaque dos governos do PT. Escolhido para coordenar a Mobilização Social do programa Fome Zero, um dos pilares sociais do partido desde 2003, o escritor ocupou o cargo de assessor especial do ex-presidente Lula entre 2003 e 2004.

O religioso, porém, durou pouco no governo. Já em 2004, insatisfeito com as alianças feitas entre partido e mercado financeiro, afastou-se. Desde então, tornou-se um crítico das Presidências de Lula e Dilma, cobrando uma maior pauta social nos governos petistas.

Em entrevista por e-mail ao UOL, Frei Betto diz que o PT precisa "fazer uma séria autocrítica" e "tentar recuperar seus três capitais simbólicos perdidos": a classe trabalhadora, a ética e as reformas estruturais.

Para Frei Betto, é fundamental que as manifestações populares que eclodem pelo Brasil desde 2013 apresentem também propostas. Segundo ele, o volume de críticas sem uma contrapartida política pode criar um perigoso vácuo de poder.

"Sem proposta alternativa ao que está aí, fundada em programa consistente de reformas estruturais, o Brasil não tem futuro, exceto o risco de passar do Estado de Direito para o 'Estado da direita'", avalia.

Mesmo diante das críticas que faz ao segundo governo de Dilma Rousseff, Frei Betto é contrário à renúncia da presidente ou à proposta de novas eleições – para ele, "se [o PT] aceitar antecipar novas eleições estará, de fato, renunciando".

"Qualquer interrupção do mandato da presidente é golpe branco, como já ocorreu em Honduras e Paraguai. E, se o governo não completar seu mandato até 2018, abriremos um precedente que favorecerá, em mandatos futuros, permanente instabilidade política", afirmou.

UOL - O ex-presidente Lula pode assumir a vaga de ministro-chefe da Casa Civil do governo Dilma. Como o senhor vê este fato? Acha que ele funciona como uma espécie de "salvador da pátria", podendo reverter o quadro pró-impeachment?

Frei Betto - Não penso que Lula foi chamado em função da possibilidade de impeachment. O governo Dilma está sem rumo e Lula, devido ao êxito de seus dois mandatos, foi convocado para tentar salvá-lo. Por outro lado, como tem muita habilidade política e de negociação - o que falta a Dilma - sem dúvida ele já contribui para evitar o impeachment. Ainda que não lhe permitam virar ministro, ele passa a ser, de fato, o primeiro-ministro...

Diante das opções cogitadas pela oposição ao governo Dilma, como impeachment, renúncia e novas eleições, o que o senhor avalia como o mais provável? Qual o impacto disso na situação política do Brasil até 2018? 

Entre as vozes das ruas e as das urnas, fico com as últimas. Embora crítico do governo Dilma, sobretudo pelo excessivo ônus do ajuste fiscal sobre o segmento mais pobre da população, julgo que qualquer interrupção do mandato da presidente é golpe branco, como já ocorreu em Honduras [com Manuel Zelaya, em 2009] e Paraguai [Fernando Lugo, em 2012]. E, se o governo não completar seu mandato até 2018, abriremos um precedente que favorecerá, em mandatos futuros, permanente instabilidade política.

O senador Aécio Neves considerou "utópica" essa ideia de novas eleições. Dilma chegou a dizer que precisaria primeiro convencer o Congresso. O senhor acha a proposta factível? 

Dilma diz e repete que não renuncia. Ora, se aceitar antecipar novas eleições estará, de fato, renunciando. E isso significará um reconhecimento público, por parte do PT, de que ele fracassou na condução deste país. O governo tem ainda dois anos e oito meses pela frente. Se o PT fizesse autocrítica e redefinisse os rumos do governo, implementando reformas estruturais que sempre prometeu e nunca realizou, o mandato da Dilma e a credibilidade do partido ainda teriam esperança de recuperação.

O senador Cristovam Buarque defende que seria bom para o PT voltar a ser oposição. O senhor também acredita nesta avaliação? 

Desde que Caim matou Abel, ninguém quer largar o osso do poder. Vide o PMDB: consegue a proeza de manter um pé no governo e o outro na oposição... Assim, tenta garantir o presente e o futuro. O PT só voltará à oposição se assim exigirem as urnas.

A imagem do PT com o eleitorado sofreu um considerável desgaste diante dos escândalos mais recentes. O senhor imagina a possibilidade de uma recuperação do partido? 

Às vezes tenho a impressão de que a ficha do estrago até agora não caiu para o PT. Seus dirigentes presos, são culpados ou inocentes na opinião do partido? A política econômica do governo é de Dilma ou do partido? Como sugerem Tarso Genro e Olívio Dutra, o PT precisa, urgentemente, fazer uma séria autocrítica. E tentar recuperar seus três capitais simbólicos perdidos: ser o partido de organização da classe trabalhadora, ser o partido da ética e ser o partido das reformas estruturais do Brasil. Fora disso, o PT estará condenado a integrar a geleia geral da estrutura partidária brasileira.

O PMDB apoiou oficialmente o governo federal por 13 anos, antes de anunciar seu rompimento neste ano. Como o senhor vê o futuro do partido? 

O PMDB é o único partido com futuro garantido nessa institucionalidade política viciada por fisiologismo, nepotismo e corrupção. Se ficar, o bicho toma posse; se correr, assume o poder... Enquanto não houver uma séria reforma política, o PMDB será o grande fiel da balança desse circo chamado Congresso Nacional brasileiro.

Frei Betto e Lula, em missa celebrada por Dom Claudio Hummes na cidade de São Bernardo do Campo (2004)

A esperada 'guinada à esquerda' do PT ainda é alcançável? Ainda é possível uma conciliação do partido com uma pauta mais ligada a movimentos sociais? 

Julgo que é muito difícil. Ao longo de 13 anos de governo, o PT só se lembrou dos movimentos sociais - que lhe deram origem - na hora de apagar incêndios. Não valorizou os movimentos sociais como valorizou os empresários; pouquíssimo fez em defesa da reforma agrária, dos povos indígenas e dos quilombolas; mantém uma carga tributária altamente prejudicial ao consumidor pobre; constrói Belo Monte e outras hidrelétricas sem respeitar as populações locais, sobretudo indígenas e ribeirinhos; aprovou um Código Florestal vergonhoso para um país que fala em preservação ambiental etc. Enfim, o PT no governo agarrou o violino com a esquerda e tocou com a direita... Embora eu considere os dois primeiros mandatos de Lula e o primeiro de Dilma os melhores de nossa história republicana.

Diante de um processo de impeachment e tantos escândalos de corrupção, qual o caminho para a esquerda brasileira se viabilizar numa próxima eleição?

Que esquerda? Cadê o trabalho de base, a formação de novos militantes, o projeto histórico? Milhões de brasileiros, desde 2013, ocupam as ruas para fazer protestos, e não para trazer propostas! Sem proposta alternativa ao que está aí, fundada em programa consistente de reformas estruturais, o Brasil não tem futuro, exceto o risco de passar do Estado de Direito para o Estado da direita.

Se Dilma conseguir evitar o impeachment, como governar com uma base tão fragilizada? 

Vejo apenas uma saída: fazer o que fez Evo Morales na Bolívia, que hoje conta com o apoio do Congresso, da população e do mercado; apoiar-se em seus pilares de origem, os movimentos sociais. Fora disso, temo que queira recompor sua base política à base da receita tradicional do "toma lá, dá cá" - e não faltarão deputados federais e senadores que, no dia seguinte à reprovação da proposta de impeachment, estarão na fila do beija-mão na porta do Planalto.


Processo de Direitização e Periferias: uma análise da conjuntura atual

Com Marcela Pronko e Virgínia Fontes
Na UERJ Caxias
Faculdade de Educação da Baixada Fluminense - FEBF
End.: Rua General Manoel Rabelo, s/nº –  Vila São Luiz – Duque de Caxias 


sexta-feira, 8 de abril de 2016

"A cidade, a casa e os livros", texto inédito de Antonio Candido

Inédito de Antonio Candido cita raridade “escabrosa” de Oswald de Andrade

Rodrigo Casarin

Para comemorar os dez anos do Festival Literário de Poços de Caldas – a Flipoços, que neste ano chega a sua 11ª edição entre os dias 30 de abril e 8 de maio -, a organização do evento convidou 15 escritores renomados para escreverem sobre as relações que tiveram com a cidade no sul de Minas.

Enquanto “Poços é uma Festa”, o livro com essas peças, permanece sem previsão para lançamento, a Flipoços autorizou que o Página Cinco publicasse um dos textos até então inéditos, de autoria do crítico literário e sociólogo Antonio Candido, hoje com 97 anos, um dos nomes mais importantes das letras no país.

Em “A Cidade, A Casa e Os Livros”, Candido lembra da sua infância e juventude na cidade, remonta parte da sua formação como leitor e cita quando se deparou com a primeira edição de “Serafim Ponte Grande”, uma raridade de Oswald de Andrade, responsável por palavras e cenas “escabrosas”, segundo o crítico.

Eis o texto:

A cidade, a casa e os livros

(Memórias)

Antonio Candido

Para mim, Poços de Caldas está associada de modo essencial à ideia do livro e da leitura. A cidade tinha 12.000 habitantes quando nela fomos morar, em janeiro de 1930. Eu ia pelos onze anos e meio e era um pequeno leitor compulsivo, atraído pelos livros de modo um pouco maníaco. Tendo lido até então, desde os seis anos, livros infantis e já alguns para adultos, mergulhei nestes em Poços, encontrando condições favoráveis para isso.

Meu pai era médico, mas além dos livros ligados à sua profissão tinha uma biblioteca de filosofia, história e literatura. Ela ficara na maior parte guardada alguns anos no Rio de Janeiro, enquanto morávamos na cidade sul-mineira de Cássia. Abrindo os caixotes, meus irmãos e eu fomos vendo sair deles centenas de volumes, nas suas brochuras leves ou em sólidas encadernações. Nossos pais nos estimulava, a lê-los, nos puxando sempre para cima, isto é, para obras destinadas a adultos, das quais meu pai costumava nos ler e comentar trechos depois do jantar, antes de ir para o escritório e seus estudos.

Em Poços fui aluno de um curso de admissão o ginásio da notável educadora D. Maria Ovídia Junqueira, senhora muito culta, que eu escolheria no futuro remoto para se patrona da cadeira que tenho o privilégio de ocupar na Academia Poçocaldense de Letras. Ela orientou minhas leituras com o mesmo espírito de “puxar para cima” de meus pais. Seu marido, Afonso Junqueira, falecido prematuramente havia pouco quando chegamos, era grande leitor, como ela, e ficara com uma pequena parte da biblioteca de Pedro Sanches de Lemos, seu cunhado. Eu tinha livre acesso a ela e a aproveitei muito. D. Maria Ovídia foi em seguida minha professora de inglês no curso ginasial. Criada por uma tia cujo marido era pastos presbiteriano norte-americano, era bilíngue e me iniciou na cultura de língua inglesa, complementando assim a maciça influência francesa que meus irmãos e eu recebemos em casa e numa longa estadia na França.

A uma amiga italiana de D. Maria Ovídia e de minha mãe, frequentadora semanal de nossa casa, D. Teresina Carini Rocchi, devo a iniciação da cultura de seu país. Era socialista, antifascista intransigente, lia sem parar, mas não conservava os livros, para que, ao circularem, difundissem o saber, guardando apenas os de consulta e de leitura constante, como os poemas de Giacomo Leopardi. Sobre a sua personalidade vulcânica e admirável publiquei faz muito tempo em texto longo.

Além disso, Poços de Caldas proporcionou a mim e meus irmãos o acesso a uma livraria pequena, mas de qualidade a Vida Social, situada na antiga Rua Bahia, atual Prefeito Chagas, onde podíamos comprar não apenas livros em português, mas em francês e inglês. Os livros brasileiros se enquadravam na maior parte do grande movimento renovador dos anos 1930 e 40, quando o Brasil estava, por assim dizer, mudando de pele. Foi o tempo da produção de obras importantes de economia, política, estudos sociais, bem como de incorporação do Modernismo e fecundação das literaturas regionais. Nós, adolescentes de Minas, íamos conhecendo por essas vias um Brasil diferente, – nos romances de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Raquel de Queirós, Amando Fontes, Érico Veríssimo e outros hoje esquecidos. E também estudos históricos, sociológicos, antropológicos, políticos de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Artur Ramos, Caio Prado Júnior, tudo em geral disponível na Vida Social.

Meu parceiro fraterno nessa aventura foi com colega de ginásio, neto de Pedro Sanches, sobrinho neto de Afonso Junqueira e, portanto, de D. Maria Ovídia: José Bonifácio de Andrada e Silva. Volta e meia íamos rondar a Vida Social na altura das cinco da tarde, quando chegava o trem e com ele, quem sabe, o livro que estávamos esperando e o encarregado da livraria, João Vilela, extrairia dos pacotes. No caso positivo, nós pegávamos e talvez fôssemos depressa começar a leitura ali perto, nalgum banco da Praça Pedro Sanches, com a incomparável sofreguidão literária da adolescência.

A Vida Social tinha singularidade, a maior das quais talvez tenha sido, como percebi muitos anos depois, o fato de ter sido a única, em toda a minha vida de frequentador contumaz de livrarias, onde vi posto à venda, em 1934, o Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, magra brochura editada à custa do autor, com tiragem creio que de apenas 500 exemplares pouco distribuídos. Muito divertidos com seu humor esfuziante e desbragado, José Bonifácio e eu o folheamos male mal na própria livraria com licença do amigo João Vilela, pois não ousaríamos levá-lo para casa à vista das muitas cenas e palavras “escabrosas”, como dizia então. O que diriam os pais? Quanto ao público, só teve acesso fácil ao Serafim na 2ª edição, de caráter regular, quase quarenta anos depois…

Outra singularidade para uma livraria de cidade do interior eram os livros que vendia nas línguas originais, como referi. Livros franceses clássicos da Editora Garnier, de Paris, livros modernos da Plon e da Stock, bem como livros ingleses da Tauchnitz e outras. Orientado por minha mãe, comprei lá em belas encadernações os “moralistas franceses” dos séculos XVI a XVIII, que foram fundamentais ao longo dos anos para a minha concepção do homem.

****

Meu pai morreu prematuramente em 1942 e minha mãe foi morar em São Paulo, onde já estavam os filhos, mas conservamos a casa e nela íamos sempre. Minhas filhas e meus sobrinhos a frequentaram até a maturidade e depois foi a vez dos netos. Minha filha Ana Luiza contou a sua experiência caldense no livro que escreveu sobre a sua infância: O pai, a mãe e a filha. Como disse com precisão poética em um dos seus livros meu irmão Roberto, “a casa era a nossa epiderme de alvenaria”, e até 1989, quando a vendemos, uma espécie de sede da família. Para mim, foi sempre um remanso onde eu ia ler e escrever até que um dia os livros e as pessoas migraram e ela própria acabou desaparecendo fisicamente. Mas para nós, é como se, lembrando o verso de Manuel Bandeira, continuasse

Intacta, suspensa no ar.

Cumprimentos cordiais

Antonio Candido de Mello e Souza


Fidel Castro reaparece em ato público depois de nove meses. VEJA O VÍDEO.

Fidel fala com estudantes em escola de Havana em sua primeira aparição pública em nove meses

Perto de completar 90 anos, Fidel Castro, o líder da Revolução Cubana, reapareceu nesta quinta-feira (7), em seu primeiro ato público em nove meses, no qual falou dos benefícios da escola pública na Ilha comunista.

O noticiário da televisão estatal divulgou imagens e declarações do líder da revolução cubana durante homenagem a Vilma Espín, esposa de seu irmão Raúl, falecida em 2007 e considerada uma das heroínas da revolução.

CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA VER O VÍDEO DE FIDEL CASTRO:

Fidel teve um encontro com alunos e professores com os quais falou sobre temas relacionados com a educação, a saúde e a alimentação.

"Estou certo de que, em um dia como hoje, Vilma estaria muito feliz, porque estaria vendo: sacrificou sua vida. Todo aquele que morre lutando pela Revolução vai deixando energia", declarou Fidel.


O comandante da Revolução Cubana falou da escola de seu país, que é gratuita e atende a 100% da população.

O líder da Revolução Cubana ressurgiu em um ato público antes da realização do VII Congresso do Partido Comunista, em 16 de abril próximo. 


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Há quanto tempo a gente luta e a luta nos educa...

Venha discutir a história do associativismo docente latino americano!
EXIBIÇÃO E DEBATE DO DOCUMENTÁRIO 
“Granito de arena”
“A luta é necessária. Com nossas marchas e mobilizações estamos colocando nosso pequeno grão de areia para a transformação desde país.”
Esta atividade, que tem um título adaptado do poema “Luta educadora” do professor Jonathan Mendonça, visa fazer uma discussão acerca da história do movimento docente no Brasil a partir do documentário “Granito de arena”. 

“Granito de arena” trata da história de luta e organização dos professores mexicanos em defesa da escola pública, diante de projetos de privatização da educação colocados em curso pelo governo de seu país.

Ao trazermos a experiência de outro país da América Latina, pretendemos refletir em que medida as bandeiras dos educadores brasileiros também estão conectadas às lutas de educadores em outras partes do mundo. 

Não temos a pretensão de apresentar um histórico completo do assunto, nem de buscar as origens, mas de apresentar questões históricas que nos ajudem a compreender a constituição da profissão docente por meio de suas lutas, tendo em vista que as evidências demonstram que o movimento docente não é algo recente na história da educação.

Amália Dias, Angélica Borges e Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro, professores do Departamento de Ciências e Fundamentos da Educação, da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF), campus Duque de Caxias da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Local do Evento: FEBF
End.: Rua General Manoel Rabelo, s/nº –  Vila São Luiz – Duque de Caxias – CEP: 25065-050.



"Por enquanto, não pensamos em maldades contra o servidor", afirma o governador interino Francisco Dornelles .

Governo vai parcelar salários de março dos servidores públicos do Rio



Por Nelson Lima Neto, jornal Extra

O governo deve anunciar, até o fim da semana, o parcelamento dos salários dos servidores públicos do estado. As receitas que entrarão no caixa da Secretaria de Fazenda, nos próximos dias, definirão como será feita a divisão dos vencimentos. A tendência é que seja adotada a mesma receita que foi colocada em prática no pagamento dos salários de novembro (quitados em dezembro). Na época, todos os servidores receberam R$ 2 mil. Quem recebia valor superior, aguardou o depósito ao longo do mês.

Entre os membros do Executivo, somente um ‘milagre’ fará com que a folha seja quitada totalmente em 14 de abril. Um deles é a liberação, por parte da Fazenda Nacional, do empréstimo de R$ 1 bilhão para financiar o Rioprevidência, e assim bancar os benefícios dos 153.463 inativos e 94.835 pensionistas. Nesta terça-feira, em entrevista ao EXTRA, o governador interino Francisco Dornelles garantiu, apenas, que todos receberão no dia 14, sem definir se de forma integral.

— Que vai ser pago um percentual, vai. E será avisado com antecedência ao servidor. No mais tardar até o final da semana. O nosso maior sofrimento é não pagar alguém que conta com um salário que não vem. Vamos fazer todo o esforço até a última hora. Temos uma arrecadação maior em abril dos aumentos de impostos do fim do ano passado. Agora, é analisar o comportamento dessa arrecadação — disse Dornelles.

A tendência é que o governo estipule um teto para o pagamento no 10º dia útil do mês. A prioridade, em meio à situação complicada que o estado vive, é que os funcionários com salários mais baixos sejam os menos prejudicados.

— Temos de analisar o que está à nossa disposição. A tendência é essa. Pagar o valor mínimo que pudesse fazer com que 50% do funcionalismo receba o salário integral. De forma que as pessoas de menor renda não sejam prejudicadas — completou.

Hoje, os servidores iniciam uma greve geral com prazo indeterminado. O secretário de Governo, Affonso Monnerat, terá uma reunião com membros do Movimento Unificado dos Servidores Públicos do Estado do Rio (Muspe), que lideram a paralisação do funcionalismo.

Confira a entrevista com o governador interino Francisco Dornelles

A situação poderia ser ainda pior caso não houvesse a esperança no aumento de receita?

A situação seria bem pior. Quero deixar claro que a nossa maior preocupação é pagar o funcionalismo. A esperança é que a economia volte a crescer. Acho que, se o país não voltar a crescer, a situação em todos os estados vai ficar caótica.

Os servidores podem sofrer caso a economia siga em queda?

Por enquanto, não pensamos em maldades contra o servidor. Temos de acreditar que a economia vai crescer. Esperar como será o dia a dia. Temos que tirar ovo de cartola. O problema que a cartola está acabando.

O senhor concorda com a greve geral que começa hoje?

Desde que não seja na base do encapuzado, é normal. O problema é que grande parte desses camaradas que lideram greves de professor, nem professores são.

Sobre as ocupações de escolas, o governo já tem uma solução?

A única coisa que garanto é que a polícia não entrará. De jeito nenhum. Os alunos têm de se acertar com os professores e a secretaria. Se não aceitarem, ficam sem aula. Mas tenho certeza de que o secretário vai achar uma solução.

E se não achar?

Vai achar.

FONTE: Extra

Dia da Baixada 2016 e Jornada Universitária em defesa da Reforma Agrária

Tema: TERRA E SOCIEDADE NA BAIXADA FLUMINENSE
Datas do Evento: 10 e 11 de maio de 2016
Local do Evento: FEBF
End.: Rua General Manoel Rabelo, s/nº –  Vila São Luiz – Duque de Caxias – CEP: 25065-050.
Público-alvo: professores, alunos e pesquisadores.

As inscrições são gratuitas para apresentação e publicação de trabalhos completos e serão aceitas dos dias 14 de Março a 04 de abril de 2016. Este prazo foi prorrogado para o dia 15 de Abril de 2016.
As inscrições para ouvintes são gratuitas e serão aceitas de 14 de Março a 05 de Maio de 2016.
Os interessados deverão preencher a Ficha de Inscrição disponível no link abaixo, e enviá-la para o e-mail do PINBA: pinba.uerj@gmail.com no período de inscrições.
Áreas temáticas para apresentação de trabalhos:
  • Terra e Sociedade na Baixada Fluminense;
  • História e Memória na Baixada Fluminense;
  • Educação na Baixada Fluminense.
OBS: OS TRABALHOS PODERÃO SER SOBRE QUALQUER TEMÁTICA REFERENTE À BAIXADA FLUMINENSE
Programação:
10 de Maio de 2016
Manhã: Ruralismo e lutas pelas terras da Baixada Fluminense
Noite: Escola do MST na Baixada Fluminense
11 de Maio de 2016
Apresentação dos trabalhos selecionados

quarta-feira, 6 de abril de 2016

ENTREVISTA DE ANITA PRESTES À UNIVESP TV / TV CULTURA SOBRE O LIVRO "LUIZ CARLOS PRESTES: UM COMUNISTA BRASILEIRO

A historiadora Anita Leocádia Prestes fala a Ederson Granetto sobre a biografia Luiz Carlos Prestes - Um Comunista Brasileiro, publicada pela Editora Boitempo. Filha do mais importante líder comunista brasileiro, Anita trabalhou com o pai durante três décadas e pesquisou documentos e arquivos no Brasil e no exterior para escrever este livro.

CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA ASSISTIR O VÍDEO COM A ENTREVISTA DE ANITA PRESTES:




domingo, 3 de abril de 2016

Relatório revela privatização da educação pública no país

Estudo aponta que é cada vez maior a atuação de sistemas privados no ensino fundamental nos municípios brasileiros


A compra de serviços educacionais ofertados pelo setor privado por prefeituras, como a formação ou treinamento de professores e apostilas, vem crescendo no Brasil: em alguns casos, grupos empresariais chegam a, para todos efeitos práticos, assumir a orientação da política de educação do município, criando situações que violam aspectos importantes do direito à educação, como a adaptabilidade e a acessibilidade. É o que diz estudo coordenado pela ONG Ação Educativa e desenvolvido com a participação do Grupo de Estudo e Pesquisas em Políticas Educacionais (GREPPE) da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, USP e Unesp, e realizado com apoio da Open Society Foundations e da Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação.

O relatório publicado sobre o assunto, intitulado “Sistemas de Ensino Privados na Educação Pública Brasileira: Consequências da Mercantilização para o Direito à Educação”, aponta que “a municipalização abrupta e mal planejada do ensino fundamental nas últimas duas décadas (...) explicitou a precariedade de muitas das administrações locais, gerando um promissor mercado para assessorias privadas nos campos pedagógico e de gestão”.

O texto prossegue notando que essa situação estimula uma “proliferação da lógica privada na educação pública e a incidência dos atores empresariais na gestão da política educacional”, o que se dá “em detrimento dos mecanismos de participação democrática e do fortalecimento de atores comprometidos com a estruturação de sistemas públicos de educação”.

O trabalho pode ser obtido, online, no site do Observatório da Educação, projeto da ONG Ação Educacional. Esse mesmo site traz também um mapa dos municípios onde se sabe que foram adotados sistemas privados de ensino na rede pública municipal: http://www.observatoriodaeducacao.org.br/mapas .

Expansão

A pesquisadora Theresa Adrião, da Faculdade de Educação, conta que grandes grupos educacionais privados, que já ofereciam conteúdo para cursinhos pré-vestibular e escolas de ensino médio, passaram a ver nos municípios – responsáveis pela educação infantil e fundamental – um novo mercado.

“Esses grupos encontraram mesmo um novo ‘filão’ para o seu mercado. Num determinado momento, expandiram seus sistemas, seus formatos de ensino padronizado, porque voltado para a preparação para vestibulares competitivos, para escolas privadas ‘franquiadas’”, disse. “Essa mesma lógica agora foi expandida para a rede pública”.

“Através da adoção dos sistemas privados padronizados enfatiza-se o planejamento centralizado dos aspectos pedagógicos, que são assim terceirizados para agentes privados de fora da rede de ensino local”, aponta, por sua vez, o relatório.

O trabalho chama ainda atenção para o fato de que é difícil levantar dados concretos sobre quantos municípios, exatamente, adotam esses sistemas, e quais são os sistemas usados em cada cidade. “É preciso ressaltar a dificuldade de acesso a informações sobre a adoção de sistemas privados de ensino pelos municípios brasileiros, uma vez que não existem dados consolidados pelas instâncias de governo em nível federal, e o país é dividido em 5.570 municipalidades”, explica o texto. “Tal configuração impossibilitaria, nos limites deste trabalho, uma checagem município a município. Ao mesmo tempo, os Tribunais de Contas de Estados e Municípios que, por analisar contratos dos entes federados com prestadores de serviços privados, poderiam ter dados mais abrangentes, em sua maioria não estão preparados para organizar e disponibilizar estas informações ao público”.

“Tivemos uma dificuldade muito grande, a despeito da Lei de Acesso à Informação (LAI), de obter informações, apesar de serem recursos públicos”, acrescentou Theresa. “As empresas, quando contatadas, não respondem, e as prefeituras, também não. A não ser aquelas com que já tínhamos algum tipo de contato no Estado de São Paulo. Tínhamos, numa pesquisa anterior feita em 2010, 345 municípios, que optaram por esse tipo de política, [o Estado de São Paulo conta com 645 municípios]. Ou seja, mais de 50% dos municípios paulistas já adotavam sistemas privados há seis anos”.

“O que se sabe hoje é que o avanço da lógica privada sobre o setor público afeta o direito humano à educação, tendendo a produzir, na maior parte dos casos, aumento das desigualdades educacionais, com maior prejuízo para as populações em situação de maior vulnerabilidade”, disse Gustavo Paiva, da ONG Ação Educativa e coautor do trabalho. “Neste contexto, o estudo se propôs a analisar quais são os impactos da adoção de sistemas privados de ensino para a realização do direito humano à educação. A conclusão é de que estes sistemas tendem a reduzir a disponibilidade de recursos, reduzir a capacidade do poder público de planejar e gerir seus sistemas educativos e reduzir a autonomia de professores, além de não haver garantia de melhoria na qualidade e o devido controle social”.



Recursos

Theresa lembra que o governo federal já mantém um Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que oferece material gratuito para as redes municipais de ensino, o que faz com que parte dos gastos das prefeituras em material didático privado possa ser encarado como desperdício.

“E a gente tem um mercado que é disputado por grandes grupos, mas também por inúmeros outros pequenos grupos que veem nas redes públicas esse “filão’”, disse ela. “Ocorre que o recurso público destinado para a aquisição desse material, e acho que esse é um dos principais alertas desta pesquisa, é o mesmo que seria destinado para pagamento de professor, ou mesmo para construção de escolas. São gastos que concorrem entre si e, num período de escassez de recursos como o que estamos vendo hoje, isso é seríssimo”.

A pesquisadora relata que as prefeituras contatadas oferecem alguns argumentos, “com base na realidade objetiva”, para adotar dos sistemas privados. “As nossas escolas não oferecem a educação que seria necessária para os seus estudantes, têm muitos problemas, então há uma preocupação legítima, por parte dos gestores, em ofertar um ensino de qualidade para essas pessoas”, reconhece.

“Entretanto, para muitos gestores, a ideia de qualidade é aquela vendida por essas empresas, é uma qualidade que se baseia fundamentalmente numa padronização curricular”, afirma. “Então, a questão da padronização como condição para melhoria do ensino é a justificativa de alguns dos gestores”. Há casos, no entanto, em que a adoção desses sistemas é uma decisão política do prefeito e independe da posição de secretários ou gestores da área.

Serviços

As empresas, explica a pesquisadora, oferecem pacotes de serviços cuja composição varia com o interesse e a capacidade de pagamento das prefeituras. “Vão desde o material instrucional, as apostilas, que são padronizadas para todos, ignorando uma questão que para qualquer educador é fundamental, que é considerar objetivamente o grupo com o qual ele trabalha”, disse. “Depois, oferece-se formação ou qualificação para o uso desse material, e ao mesmo tempo um call-center para atender à escola, caso haja dúvida em como usar o material. O que entra no lugar da formação que deveria ser oferecida pelos gestores”.

“Também se vendem modelos de avaliação: avaliação das escolas, dos estudantes – sistemas de avaliação da própria empresa, para além dos testes de avaliação a que as escolas já são submetidas”, acrescentou Theresa. “E há cestas de serviços que incluem um tipo de supervisor na escola: vai um representante da empresa na escola ver se o professor está adotando o material segundo a orientação da empresa”.

“Verificamos que esse tipo de compra de serviço acaba incorrendo num problema grave que é substituição da política educativa dos municípios pela política educacional da empresa”, disse.

Custo e qualidade

A adoção desses sistemas pode representar uma queda de custos para as prefeituras, mas Theresa define o resultado como um “barateamento no mau sentido”. “Com isso, os governos na verdade não precisam investir na formação e na profissionalização de um corpo técnico para acompanhamento dessas escolas”, disse.

“No lugar de ter uma equipe de supervisores ou um núcleo de formadores na estrutura da secretaria, você compra isso e cada prefeito que muda, muda eventualmente o programa, muda a empresa”, aponta. “Já indagamos a alguns profissionais: tudo bem, a prefeitura não teria recurso para investir num corpo técnico, então por que não contatam as universidades públicas que, enfim, poderiam cumprir essa função?” Uma resposta possível, segundo a pesquisadora, é que “há uma sedução por parte dos grupos empresariais”. “Eles vão às prefeituras, oferecem muito fortemente esses produtos e serviços para os prefeitos e secretários e acabam envolvendo, muitas vezes, os gestores”.

Quanto à promessa de qualidade, argumento de venda oferecido pelas empresas com base no renome dos cursinhos pré-vestibular em que algumas se baseiam, ela nem sempre é cumprida, e é de difícil mensuração. “Uma das pesquisas anteriores que fizemos, lá no começo dos anos 2000, viu quais os municípios que essas empresas apresentavam como ponta de lança em suas ações de propaganda, municípios então bem colocados em rankings e indicadores nacionais de educação. Eram municípios com alto IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal). Portanto, já tinham condições, do ponto de vista educacional, de apresentar melhor qualidade que a média. Ou seja, tem um viés de seleção aí”.

FONTE:

Para download: "Política e educação: ensaios", de Paulo Freire.

Política e educação : ensaios / Paulo Freire. – 5. ed - São Paulo, Cortez, 2001.
(Coleção Questões de Nossa Época ; v.23)

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sábado, 2 de abril de 2016

Para download: "Imperialismo cultural en América Latina: Historiografía y praxis"

Imperialismo cultural en América Latina: Historiografía y praxis 
Robert Austin (editor)

Este libro constituye el primer tomo en la serie “Historia y Cultura de Nuestra América”. Representa la obra generada por un grupo de intelectuales mayormente de Cuba, además de Argentina, Jamaica, Brasil, y Australia que se reunieron en distintas conferencias en la Universidad de Matanzas “Camilo Cienfuegos,” Cuba, en la víspera del siglo XXI. 

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O fantasma do golpe de 1964: pois comparar não é acreditar que a história se repita

Por Demian Melo

Aquela conhecida passagem do Marx sobre a história se repetir a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa vez por outra é incrivelmente interpretada como se o autor estivesse mesmo considerando que a história se repetisse.[1] O próprio título 18 Brumário de Luís Bonaparte parte da comparação entre dois golpes de Estado que na história da França tiveram sentidos muito diferentes: enquanto o original 18 Brumário de 1799 conduziu à entronização de um personagem que esteve à frente de um governo de força que consolidou as bases da Revolução Burguesa de 1789 e que pela via militar expandiu as luzes para boa parte do continente europeu, Luís Bonaparte liderou um golpe de Estado em 2 de dezembro de 1852 num contexto resultante da derrota da revolução proletária. Em síntese, as comparações históricas são mais eficientes quando sua pretensão não é a de encontrar um padrão regular, que inevitavelmente é ahistórico, e sim, a partir da comparação, iluminar as particularidades da conjuntura.
As comparações de processos históricos podem iluminar aspectos do processo político em curso, desde que isso não seja feito na expectativa de que a história possa se repetir (o que nos levaria para a antiga visão cíclica da história). A insistência na comparação entre a atual conjuntura brasileira e aquela que precedeu o golpe de 1964, feita especialmente por setores que apoiam o governo federal, não obstante a alta dose de anacronismo, manipulação, contrassenso etc., carregam, sim, alguns momentos de verdade (como, aliás, é típico das ideologias). É bem verdade que algumas comparações têm sido feitas elegendo fatos daquele contexto que demonstram similitude com o processo atual, mas sempre descontextualizando-os e desconsiderando aspectos essenciais, especialmente a natureza profundamente diversa da dinâmica da luta de classes e dos projetos políticos completamente diferentes representados pelos governos de João Goulart e do ciclo Lulista.
Todavia, segue válido comparar aqueles dois contextos, como de resto de vários outros ocorridos na América Latina durante o século XX, de modo a iluminar a natureza da crise contemporânea. Afinal, esse é um continente dos golpes de Estado, de golpes de natureza bastante diversa, desde os mais lembrados pronunciamentos militares como no Brasil em 1964 e no Chile em 1973, mas também resultantes de conspirações promovidas pelos vice-presidentes da República, como a de Café Filho contra Vargas no Brasil em 1954, e ou de René Barrientos contra Victor Paz Estenssoro na Bolívia em 1964, também articulados com setores das Forças Armadas, sem falar nos mais recentes golpes conduzidos pelo Legislativo e Judiciário, em Honduras (2009) e no Paraguai (2012). Esse clima de golpismo presente na atmosfera do processo político brasileiro não é só um jogo retórico, e inevitavelmente nos remetem a alguns destes episódios da história latino-americana.
Numa das mais recentes escaramuças promovidas pelo atual processo de derrubada do governo no Brasil, a condução coercitiva do ex-Presidente Lula da Silva pela Polícia Federal no último dia 4 de março e o inconsistente pedido de prisão preventiva do mesmo alguns dias depois, que só serviu para insuflar a ida em massa das camadas médias urbanas às ruas do país no último dia 13 de março, me lembrou outro destes episódios da história de NuestraPatria Grande. Em 12 de Outubro de 1945, o coronel Juan Domingos Perón foi preso, levado para a ilha de Martín García, no rio da Prata. Contra isso, a CGT decidiu convocar uma greve geral de protesto para o dia 18, mas ainda no dia 17 uma multidão plebeia, calculada em 200 mil pessoas, ocupou a Plaza de Mayo, no centro de Buenos Aires. A notícia de que Perón havia sido transferido para o Hospital Militar da capital mobilizou a população em todo o país, que assim como em Buenos Aires saiu às ruas para pedir a libertação do caudilho. Quase a meia noite, Perón apareceu na sacada da Casa Rosada, sede do governo, estabelecendo um intenso discurso perante a multidão. A mística do peronismo tem nesse episódio um dos seus maiores símbolos, tendo o 17 de Outubro se tornado uma data cívica deste movimento.
A multidão de 100 mil pessoas na avenida Paulista em 18 de março, que compareceram para ouvir o discurso de Lula me fez lembrar mais uma vez daquele episódio emblemático do Peronismo e daquilo que muitos cientistas sociais caracterizaram de populismo latino-americano. O conceito de populismo tornou-se muito impopular na historiografia desde os anos 1990, sendo regularmente acusado de ser generalista e negligente quanto às diferenças nacionais. No entanto, ao contrário do que pontifica essa objeção, as tais diferenças nacionais não passaram desapercebidas por analistas que o utilizaram e utilizam. Por exemplo, como acertadamente notou Perry Anderson ainda nos anos 1970, a grande diferença entreo Getulismo e o Peronismo foi que o segundo sempre esteve ligado à mobilização, enquanto o primeiro só recorreu as bases operárias como última tábua de salvação: “o Getulismo foi uma mística, enquanto o Peronismo foi uma organização”, definiu o historiador britânico.[2]
Contudo, foi ao longo do governo verdadeiramente reformista de Jango – que se constituiu numa experiência radical do Getulismo sem Getúlio – que o aspecto mobilizatório do populismo brasileiro ficou mais evidente. Disposto a lançar mão da mobilização política das ruas para combater seus adversários e a se articular com a esquerda e os movimentos sociais – mesmo que essa relação seja bem mais tensa que aquela que figura nas explicações clássicas do fenômeno do populismo, como a de Francisco Weffort, o governo Jango não optou apenas por manobras palacianas e parlamentares. A política governamental tornou-se uma política de ruas. A sua própria chegada ao poder, aliás, se deu em meio a uma ampla mobilização popular (campanha da legalidade), a qual, em agosto/setembro de 1961, derrotou a tentativa golpista assestada pelos ministros militares e os setores mais reacionários da burguesia a partir da renúncia de Jânio Quadros. Em 1962, primeiro ano do mandato de Goulart, ainda que tolhido pelo parlamentarismo casuisticamente implantado para esvaziar seus poderes, o governo contou com o apoio ativo dos movimentos dos trabalhadores organizados, que protagonizaram duas greves gerais políticas que o ajudaram a liquidar com o parlamentarismo. Contou também com o apoio de parcela da oficialidade militar identificada com a corrente nacionalista, que deu, por exemplo, uma espécie de “cobertura militar” a essas greves políticas.[3] Além disso, tinha ao seu lado parte da intelectualidade, o movimento estudantil, as alas progressistas do cristianismo e da mobilização no campo pela reforma agrária, galvanizados pela proposta das Reformas de Base, o que naturalmente alimentava também a mobilização das direitas, constituindo a crescente radicalização política que marcou todo o seu mandato. Assim, os mais lembrados episódios da radicalização de março de 1964, o Comício pelas Reformas no Rio de Janeiro e a passeata golpista em 19 daquele mesmo mês em São Paulo inserem-se num contínuo de aprofundamento das contradições de classe que solaparam as bases daquele regime político, criando as condições para o triunfo do golpe de Estado.
O apelo recorrente com a qual os apoiadores do governo Dilma recorrem à memória de acontecimentos de meio século atrás, de modo a tornar eficiente a denúncia das atuais manobras da oposição de direita como golpista parece sensato, mas esconde muitas mistificações. Não só a situação é muito diferente no plano internacional e no interno, quanto a posição dos atores políticos é muito diferente. Jango caiu prometendo realizar reforma agrária, limitar a remessa de lucros para o exterior, encampando as refinarias de petróleo em favor da Petrobrás, prestando solidariedade as lutas dos povos da periferia do mundo contra o neocolonialismo, ele que foi um dos homens mais ricos do Rio Grande do Sul, um membro autêntico da classe dominante brasileira com a qual esta se indispôs politicamente.
Como René Dreifuss e Moniz Bandeira demonstraram de forma bastante documentada, o golpe de Estado fora planejado e apoiado pelas classes dominantes brasileiras com o apoio do imperialismo estadunidense, não se tratando simplesmente de uma mera operação militar,[4] como já é quase um truísmo afirmar.[5] Já uma eventual queda do governo do PT, diferentemente, será um golpe da burguesia contra um governo compromissado com banqueiros, empreiteiras, agronegócio, o pagamento religioso da dívida pública, um ajuste fiscal insano, além das ocupações militares no Haiti e na favela da Maré. Se 1964 simbolizou uma grande desmoralização da esquerda pelo fato do governo Jango ter caído sem resistência (como um castelo de cartas), ao menos esse gozava de uma reserva moral progressista difícil de se encontrar no Lulismo em crise.
Voltando à comparação feita por Perry Anderson, e correndo muitos riscos, não pude deixar de pensar na utilidade que uma comparação entre o Lulismo com o chamado Bolivarianismo, em termos similares. De forma exploratória penso ser possível notar, antes de tudo que o Bolivarianismo sempre foi muito mais forte em seu aspecto mobilizador e organizativo, como o foi o Primeiro Peronismo,[6] enquanto o Lulismo, como fica evidente na atual crise, só parece recorrer à mobilização quando se encontra completamente encurralado. Tem sido também muito fraco em capacidade organizativa, decorrente da verdadeira estatização de importante faixa dos movimentos populares que simplesmente não sabem mais como se organizar e mobilizar suas bases sociais, mesmo numa conjuntura em que as direitas voltam a ganhar as ruas. O grande segredo de polichinelo da crise atual remete ao que pode existir de fôlego no Lulismo: recobra forças como reação ao ataque direito à figura de Lula, ou vai desmoronar?
Mas afinal, há um golpe de estado se desenhando no horizonte brasileiro?
Do que se disse até aqui, no âmbito da esquerda tanto os que querem caracterizar o atual processo como um golpe em curso, quanto aqueles querem negar tal característica, recorrem com frequência à situação do Brasil em 1964. Ou seja, mesmo aqueles que acusam de “governistas” e “manipuladores do passado” os que defendem a hipótese de que há um golpe em curso nos dias atuais acabam, de certa forma, comparando a situação atual com aquela do Brasil em 1964, nem que seja para afirmar as evidentes diferenças. Mas ao atribuir o epiteto de “governistas” a grupos e forças sociais que têm participado das lutas sociais do último período, localizando-se evidentemente como parte da Oposição de Esquerda, os acusadores encontram um bom motivo para esconder as bases rasas de suas próprias análises, além da impotência e, em alguns casos, irresponsabilidade de suas posições na conjuntura.
Talvez a melhor forma de superar esse impasse seja a de buscar trabalhar com conceito consistente de golpe de Estado, e daí conseguir produzir, na medida do possível, uma análise mais objetiva do processo em curso. Num artigo recentemente publicado no Blog Junho, Alvaro Bianchi buscou oferecer um conceito consistente de golpe de Estado: “o golpe de estado é uma mudança institucional promovida sob a direção de uma fração do aparelho de Estado que utiliza para tal de medidas e recursos excepcionais que não fazem parte das regras usuais do jogo político.”[7]
Parece-nos incontestável que todo esse processo de impeachment fere frontalmente as regras usuais do jogo político, com flagrantes episódios de abuso de parte do Judiciário e de uso de procedimentos violentos. Assim, embora o impeachment esteja previsto nas regras do jogo, não há um crime configurado contra a presidente da República que possa justificar sua deposição. Afinal, as tais pedaladas fiscais no plano federal foram assinadas pelo vice-Presidente conspirador, assim como similarmente pelos governadores estaduais. E não estamos diante de um movimento de derrubada de todos esses governos, como sonham certos setores da esquerda. Alegar que o estado de direito nunca existiu para boa parte da população brasileira pode fazer muito sucesso, mas não ajuda a entender como que para a vida desta mesma população que nunca experimentou a tal democracia isso pode significar uma situação ainda pior. Como bem afirmou um dos organizadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) no Rio de Janeiro:
“Num país que tem a terceira maior população carcerária do mundo, num país que em três décadas matou mais de um milhão de pessoas com uma seletividade étnico-racial, espacial e econômica bem delimitadas, vulgarizar a prisão provisória, relativizar o direito de ampla defesa, relativizar o princípio do contraditório, relativizar o princípio do juízo natural, e outros cortejos de garantias constitucionais é jogar combustível numa grande máquina mortífera de encarceramento que funciona nesse país desde que ele surgiu.”[8]
Alegar que o atual governo não tem qualquer compromisso com a manutenção dos direitos democráticos conquistados pelos trabalhadores, uma verdade incontestável evidenciada pelos constantes ataques implementados desde 2003 (com a Reforma da Previdência) até a atual Lei Antiterrorismo, não deve nos impedir de entender que, após cumprir esse papel nefasto, o governo do PT agora está sendo descartado pela grande burguesia brasileira. Os exemplos não faltam, desde o engajamento de grandes entidades patronais no processo de derrubada do atual governo, como a FIESP, a Associação Brasileira do Agronegócio e os grandes conglomerados da mídia (especialmente a Globo). Discreto até o momento, os representantes do capital bancário já insinuam uma saída para a crise que implica no apoio à deposição de Dilma, como se pode ver na recente declaração de Roberto Setúbal, presidente do grupo Itaú, que recomendou a realização de eleições para a Presidência da República.[9] O silêncio ensurdecedor do sistema financeiro parece que começa a ser quebrado. No plano institucional, só o fato do processo de impeachment estar sendo conduzido por notórios corruptos que inexplicavelmente continuam à frente do Congresso Nacional, numa conspiração aberta conduzida pelo vice-Presidente que pretende não ser mais “decorativo” e de seu partido PMDB, agora explicitamente rompido com o governo federal e negociando o futuro governo com a liderança da oposição de direita, o PSDB, derrotados nas últimas eleições presidenciais, ainda que por pequena margem, configura o golpe.
Podem acreditar, trata-se de um golpe de Estado. Por enquanto não um golpe que vá além da derrubada do governo.Ao contrário de 1964é possível que em vez de uma derrubada do regime venha a consolida-lo como uma mais acabada “democracia blindada”,[10]onde as pressões dos movimentos dos subalternos estejam alijadas de qualquer capacidade de influência do jogo político. Por enquanto o que parece se desenhar é um golpe de governo. Mas é preciso que o processo se feche, para que evidencie sua forma.
Notas
[1] “Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011, p.25.
[2] Tendo trazido essa reflexão do historiador britânico para o público brasileiro, o cientista político Francisco Weffort em sua tese de livre docência Sindicato e política (Universidade de São Paulo, São Paulo, 1972) anota de forma displicente a referência como “Tese de doutorado inédita de Perry Anderson”, na página 4. Não encontramos o título original.
[3] Estudei essas greves gerais políticas em minha tese de doutorado, buscando destacar a autonomia que a liderança da classe trabalhadora possuía no pacto de classes com o governo Goulart. MELO,Demian Bezerra de. Crise orgânica e ação política da classe trabalhadora brasileira: a primeira greve geral nacional (5 de julho de 1962). Tese de doutorado em História, Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.
[4] DREIFUSS, René Armand. 1964 – a conquista do Estado. Petrópolis (RJ): Vozes, 1981. MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. O governo João Goulart e as lutas sociais no Brasil. 8ª Ed. São Paulo: Ed. UNESP, 2010.
[5] Embora alguns historiadores contemporâneos cheguem perto de afirmar que o caráter civil-militar do golpe de 1964 é uma grande descoberta, tal noção figura entre as próprias narrativas produzidas pelo governo ditatorial e apoiadores, como é um caso flagrante o preâmbulo do primeiro Ato Institucional.
[6] Chama-se Primeiro Peronismo a fase do primeiro governo do coronel Perón, entre 1946-1955.
[7] BIANCHI, Alvaro. O que é um golpe de Estado? Blog Junho, 26 mar. 2016. Disponível em http://bit.ly/1ZOOsgB
[8]Fala de Felipe Brito no Encontro pela Frente da Esquerda Socialista no Rio de Janeiro, 23 mar. 2016. Disponível em http://bit.ly/1ZOOjd0
[9] “Setúbal vê eleição como única chance de reformas.” Valor, 17 mar. 2016. http://bit.ly/1VcHIID

[10] DEMIER, Felipe. Democracias blindadas nos dois lados do Atlântico: formas de dominação político-social e contrarreformas no tardo-capitalismo(Portugal e Brasil). Libertas, Juiz de Fora, v.12, n.12, 2012. Disponível em http://bit.ly/1q7grMz
FONTE: Blog Junho