domingo, 25 de dezembro de 2011

O perfeito imbecil politicamente incorreto


No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo.

Por Cynara Menezes.



Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.


 
Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:



 

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.




 
2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.



 

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

 
 
 
 

Ai, ai, ai!!! Se não comer, não ganha presente do Papai Noel!!!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Conto de Natal – Maria e José na Palestina em 2010



por James Petras



Os tempos eram duros para José e Maria. A bolha imobiliária explodira. O desemprego aumentava entre trabalhadores da construção civil. Não havia trabalho, nem mesmo para um carpinteiro qualificado.



Os colonatos ainda estavam a ser construídos, financiados principalmente pelo dinheiro judeu da América, contribuições de especuladores de Wall Street e donos de antros de jogo.



"Bem", pensou José, "temos algumas ovelhas e oliveiras e Maria cria galinhas". Mas José preocupava-se, "queijo e azeitonas não chegam para alimentar um rapaz em crescimento. Maria vai dar à luz o nosso filho um dia destes". Os seus sonhos profetizavam um rapaz robusto a trabalhar ao seu lado… multiplicando pães e peixes.



Os colonos desprezavam José. Este raramente ia à sinagoga, e nas festividades chegava tarde para fugir à dízima. A sua modesta casa estava situada numa ravina próxima, com água duma ribeira que corria o ano inteiro. Era mesmo um local de eleição para a expansão dos colonatos. Por isso quando José se atrasou no pagamento do imposto predial, os colonos apropriaram-se da casa dele, despejaram José e Maria à força e ofereceram-lhes bilhetes só de ida para Jerusalém.



José, nascido e criado naquelas colinas áridas, resistiu e feriu uns tantos colonos com os seus punhos calejados pelo trabalho. Mas acabou abatido sobre a sua cama nupcial, debaixo da oliveira, num desespero total.



Maria, muito mais nova, sentia os movimentos do bebé. A sua hora estava a chegar.



"Temos que encontrar um abrigo, José, temos que sair daqui… não há tempo para vinganças", implorou.



José, que acreditava no "olho por olho" dos profetas do Antigo Testamento, concordou contrariado.



E foi assim que José vendeu as ovelhas, as galinhas e outros pertences a um vizinho árabe e comprou um burro e uma carroça. Carregou o colchão, algumas roupas, queijo, azeitonas e ovos e partiram para a Cidade Santa.



O trilho era pedregoso e cheio de buracos. Maria encolhia-se em cada sacudidela; receava que o bebé se ressentisse. Pior, estavam na estrada para os palestinos, com postos de controlo militares por toda a parte. Ninguém tinha avisado José que, enquanto judeu, podia ter-se metido por uma estrada lisa pavimentada – proibida aos árabes.



Na primeira barragem José viu uma longa fila de árabes à espera. Apontando para a mulher muito grávida, José perguntou aos palestinos, meio em árabe, meio em hebreu, se podiam continuar. Abriram uma clareira e o casal avançou.



Um jovem soldado apontou a espingarda e disse a Maria e a José para se apearem da carroça. José desceu e apontou para a barriga da mulher. O soldado deu meia volta e virou-se para os seus camaradas. "Este árabe velho engravida a rapariga que comprou por meia dúzia de ovelhas e agora quer passar".



José, vermelho de raiva, gritou num hebreu grosseiro, "Eu sou judeu. Mas ao contrário de vocês… respeito as mulheres grávidas".



O soldado empurrou José com a espingarda e mandou-o recuar: "És pior do que um árabe – és um velho judeu que violas raparigas árabes".



Maria, assustada com o caminho que as coisas estavam a tomar, virou-se para o marido e gritou, "Pára, José, ou ele dispara e o nosso bebé vai nascer órfão".



Com grande dificuldade, Maria desceu da carroça. Apareceu um oficial do posto da guarda, a chamar por uma colega, "Oh Judi, apalpa-a por baixo do vestido, ela pode ter bombas escondidas".



"Que se passa? Já não gostas de ser tu a apalpá-las?" respondeu Judith num hebreu com sotaque de Brooklyn. Enquanto os soldados discutiam, Maria apoiou-se no ombro de José. Por fim, os soldados chegaram a um acordo.



"Levanta o vestido e o que tens por baixo", ordenou Judith. Maria ficou branca de vergonha. José olhava para a espingarda desmoralizado. Os soldados riam-se e apontavam para os peitos inchados de Maria, gracejando sobre um terrorista ainda não nascido com mãos árabes e cérebro judeu.



José e Maria continuaram a caminho da Cidade Santa. Foram frequentes vezes detidos nos postos de controlo durante a caminhada. Sofriam sempre mais um atraso, mais indignidades e mais insultos gratuitos proferidos por sefarditas e asquenazes, homens e mulheres, leigos e religiosos – todos soldados do povo Eleito.



Já era quase noite quando Maria e José chegaram finalmente ao Muro. Os portões já estavam fechados. Maria chorava em pânico, "José, sinto que o bebé está a chegar. Por favor, arranja qualquer coisa depressa".



José entrou em pânico. Viu as luzes duma pequena aldeia ali ao pé e, deixando Maria na carroça, correu para a casa mais próxima e bateu à porta com força. Uma mulher palestina entreabriu a porta e espreitou para a cara escura e agitada de José. "Quem és tu? O que é que queres?"



"Sou José, carpinteiro das colinas do Hebron. A minha mulher está quase a dar à luz e preciso de um abrigo para proteger Maria e o bebé". Apontando para Maria na carroça do burro, José implorava na sua estranha mistura de hebreu e árabe.



"Bem, falas como um judeu mas pareces mesmo um árabe", disse a mulher palestina a rir enquanto o acompanhava até à carroça.



A cara de Maria estava contorcida de dores e de medo; as contracções estavam a ser mais frequentes e intensas.



A mulher disse a José que levasse a carroça de volta para um estábulo onde se guardavam as ovelhas e as galinhas. Logo que entraram, Maria gritou de dor e a palestina, a que entretanto se juntara uma parteira vizinha, ajudou rapidamente a jovem mãe a deitar-se numa cama de palha.



E assim nasceu a criança, enquanto José assistia cheio de temor.



Aconteceu que passavam por ali alguns pastores, que regressavam do campo, e ouviram uma mistura de choro de bebé e de gritos de alegria e se apressaram a ir até ao estábulo levando as suas espingardas e leite fresco de cabra, sem saber se iam encontrar amigos ou inimigos, judeus ou árabes. Quando entraram no estábulo e depararam com a mãe e o menino, puseram de lado as armas e ofereceram o leite a Maria que lhes agradeceu tanto em hebreu como em árabe.



E os pastores ficaram estupefactos e pensaram: Quem seria aquela gente estranha, um pobre casal judeu, que chegara em paz com uma carroça com inscrições árabes?



As novas espalharam-se rapidamente sobre o estranho nascimento duma criança judia mesmo junto ao Muro, num estábulo palestino. Apareceram muitos vizinhos que contemplavam Maria, o menino e José.



Entretanto, soldados israelenses, equipados com óculos de visão nocturna, reportaram das suas torres de vigia que cobriam a vizinhança palestina: "Os árabes estão a reunir-se mesmo junto ao Muro, num estábulo, à luz das velas".



Abriram-se os portões por baixo das torres de vigia e de lá saíram camiões blindados com luzes brilhantes, seguidos por soldados armados até aos dentes que cercaram o estábulo, os aldeões reunidos e a casa da mulher palestina. Um altifalante disparou, "Saiam cá para fora com as mãos no ar ou disparamos". Saíram todos do estábulo, juntamente com José, que deu um passo em frente de braços virados para o céu e falou, "A minha mulher Maria não pode obedecer às vossas ordens. Está a amamentar o menino Jesus".



O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1831&more=1&c=1 . Tradução de Margarida Ferreira.



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
 
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Abundância pra uns...

K - A história do pai que descobriu tudo



Por Marcius Cortez

 

“K” é um romance de vultos vivos – pouco importa se um deles não está mais entre nós. São três os personagens principais. Um é o K., o pai, que está em movimento de odisséia; o outro, a filha, que no silêncio da morte também de certa maneira perfaz o périplo de Ulisses; e o terceiro é o vil, a assombrosa figura sem rosto mas articuladíssima e em plena energia de tramar maldades para depois arder em risos, mascando espinhos, protegido pelo criminoso aparato da Lei, no aconchego de seu espaço. Certamente o leitor já matou a charada: estamos falando das barbaridades da ditadura no Brasil. Este é o contexto do romance de Bernardo Kucinski, recentemente lançado pela Editora Expressão Popular



 
Sua escrita vem com dor, mas abre espaço para um significativo sorriso pela beleza da determinação do pai de refazer os últimos momentos da filha “desaparecida política”. Ela, que não tem nome, (talvez comece pela letra “A”), personifica a ficção, pois como se trata de alguém que desapareceu pode igualmente ser alguém que nunca existiu na realidade. É cruel, monstruoso, tirano. Na página 27 está lá o exasperante registro: “Até os nazistas, que reduziam suas vítimas a cinzas, registravam os mortos”.


 
O papai K., tal qual o agrimensor K., bate na porta do Castelo, mas ninguém atende, embora não lhe passara desapercebido o barulho da portinhola lateral e a metade do rosto de Jesuína Gonzaga a espreitá-lo. Jesuína Gonzaga, a testemunha-bomba, aquela que viu com os olhos bem abertos o “açougue” da Casa da Morte, em Petrópolis, onde os assistentes do Dr. Sérgio Paranhos Fleury serravam os corpos dos ativistas políticos mortos em tortura antes de ensacá-los e “desaparecê-los”.

 

A vida é sinistra? Ou é a realidade que se torna sinistra? K. encontra-se em um jogo de cartas marcadas. Logo o Conde Westwest, autoridade do Castelo, lhe fará pesadas ameaças. Ocorre que K., personagem de severa interioridade, não lhe dará ouvidos, decidido a se manter ocupado em derrubar as máscaras dos verdugos. O pai encarna o real: ele não se abate com o horror em devir. O K. do Castelo (Das Schloss, 1926) e o Joseph K. do Processo (Der Prozess, 1925) sentem medo. Esse último então alimenta aquela loucura que morrerá como um cão e se enrosca nesse labirinto. No entanto, com o K. de Kucinski se dá o contrário: a tragédia da filha o enche de coragem e ele obstina-se a dignificar seu destino.


 
O Estado-inseto lhe seqüestrara as energias, porém, o homem resiste, despido de qualquer forma de temor que iniba sua busca por reconstituir o crime contra “A”, a professora de Química que a USP teve o mau-caratismo de demitir por abandono de emprego. “Selva selvaggia” diria o próprio K., e dando de ombros voltaria para sua ilha de confiança, quem sabe até feliz na sua crença de pai. A crítica viu em “O Castelo” um lado religioso do ateu Franz Kafka e de certa maneira isso se reproduz nas páginas de “K.”; há ali uma celebração à força da natureza, ao ciclo da vida, pai/começo/fim e filha/fim/começo. Inquietações religiosas? Bom, a literatura é o terreno ideal para se discutirem essas coisas...

 

Nos dias de hoje, Kafka detém a marca de ser o autor do qual mais se escreve, que mais inspirou teses universitárias, e em segundo lugar aparece, com uma razoável diferença entre os dois, o nome de William Shakespeare. Certo estudioso do escritor tcheco, em ensaio complexo, deixou escapar uma frase que para uma resenha cabe muito bem por ser de rápido entendimento. Diz a frase: “a ficção de Kafka é um relâmpago que desvela o que não se via”. Shakespeare escreveu a mais bela e a mais trágica história de amor do mundo; escreveu sobre o maldito enigma do ser ou não ser, imortalizado na figura do príncipe que matara o pai, o rei da Dinamarca; escreveu sobre o mal e o bem em luta sanguinária pela conquista ou manutenção do poder. O interesse que ambos despertam no nosso mundo tecnológico é, portanto, um fato óbvio: o sentimento trágico da existência humana mantém acesa a chama de sua força. Essa atração pelo trágico vem de muito longe. A pintura de Hieronymus Bosch não só eternizou o desespero como se transformou numa das mais permanentes referências da história da arte.


O romance de Bernardo Kucinski tem o mérito de contribuir para o entendimento do nosso trágico e da nossa agonia por vivermos em um país onde a democracia é um mero arremedo, uma meia sola batida por um sapateiro “sem-vergonho” que vendeu sua alma à ilusão. Movidos pelo fervor da leitura, chegamos aos derradeiros capítulos e em um deles lemos a epígrafe de H.N.Bialik, traduzido por Jacó Guinsburg: “De que valem mil mortos por dia? Morre de vez, em paz encerra tua agonia”. O capítulo chama-se “No Barro Branco”. Esse trecho do livro deve ser lido como se tivesse sido escrito em imitação de uma pintura, a bela ilustração de Enio Squeff que aparece sozinha na página seguinte de número 171. Naquele vulto tão plástico é possível ver em sua expressão o universal esplendor dos seres que palmilharam os caminhos da dor sem dobrar a espinha nem se intimidar diante das bravatas das bestas feras que comandam os destinos do Castelo.

 

Finalmente, o Post Scriptum. Não ocupa nem a página inteira, mas a sua contundência é avassaladora. A vontade que nos dá no fim desses escritos é a de sonhar com a justiça para os baixos instintos que metamorfosearam nossos entes queridos em sombras sem voz.

 

Ficha técnica do livro

Título: K
Autor: Bernardo Kucinski
Editora: Expressão Popular
Ano: 2011
Páginas: 177
Preço: R$ 15,00



FONTE: Correio da Cidadania
 
 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Lenin e a educação


Ciclo de Conferências Socialismo e Educação, UFMG, Novembro, 2010. Conferência do Prof. Dr. Antônio Carlos Mazzeo (UNESP) intitulada "Lenin: a política como educação revolucionária".


Mafalda e o comunismo

Luta para derrubar o capitalismo e não para seu embelezamento [*]


Partido Comunista da Grécia - KKE



Ao Partido Comunista da Espanha e à "Izquierda Unida"



Camaradas,



Lemos a sua carta, já publicada, em que se pergunta em que se baseiam as afirmações do artigo no nosso jornal Rizospastis, publicado na edição de 22 de Novembro, sobre as recentes eleições na Espanha, que menciona: "A Izquierda Unida levou aos eleitores a ilusão de uma 'melhor gestão' do sistema capitalista".



É certo que a própria participação do Partido Comunista da Espanha (PCE) na presidência do chamado "Partido da Esquerda Europeia", que nos documentos da sua fundação aceitou a salvaguarda dos "princípios da União Europeia (UE)" e se baseia em posições que defendem a gestão do capitalismo, já é uma resposta.



Entretanto, depois de sua carta, é necessário para nós deixar claro certas questões básicas citando apenas alguns dos muitos trechos que podem ser encontrados no programa eleitoral da "Izquierda Unida" (IU), que fundamenta e confirma a crítica específica do artigo no nosso jornal.



Mais concretamente, o programa da IU:



- não menciona em nenhuma parte, como condição para o bem-estar do povo, a derrubada do poder do capital e a construção do socialismo. Ao contrário, fomenta uma série de ilusões de que pode existir uma saída para a crise dentro da via capitalista de desenvolvimento favorável ao povo.



O objetivo da "boa gestão" do sistema é proclamado de forma muito clara na página 6 do programa: "… não renunciamos à gestão do imediato". Estrategicamente, isto é evidenciado na página 18 com a "construção de um novo modelo produtivo", mas sempre apoiado em velhas, ultrapassadas e exploradoras relações de produção capitalistas. Na página 6 não se coloca o objetivo de derrubar o capitalismo, mas de "ultrapassar o atual modelo social, político e cultural dominado pelo neoliberalismo". Em outras palavras, todo o enfoque se concentra no problema de um modo de gestão capitalista (neoliberalismo) e aponta para outra gestão, supostamente melhor. Para falar sem rodeios, o centro do programa da IU remete-se a uma gestão socialdemocrata.



- Promove a ideia de que o Estado capitalista pode ser um escudo para os direitos da classe operária e do povo. Contra a própria realidade, que demonstra que o Estado capitalista é um Estado de classe, que está a serviço dos monopólios e, nas condições de liberalização do capital, que promove a barbárie nas relações laborais e nos salários, ataca todos os direitos da classe trabalhadora.



- No quadro do embelezamento do Estado capitalista, o programa faz a seguinte referência relevante na página 22: "propomos um Estado Social Participativo, em que, mantendo a centralidade do setor público, se promova o interesse coletivo, a igualdade, a solidariedade …"



E seguindo a mesma linha: "O Estado deve reequilibrar o mercado, não apenas corrigi-lo". Defende-se a utopia de que a economia capitalista, o apodrecido sistema capitalista e a sua anarquia podem ser domesticados, "ser equilibrados" e que isso pode beneficiar o povo trabalhador. Esta afirmação cria, sem dúvida, a confusão entre os trabalhadores, impede o empenho da militância e leva à cooptação das forças populares para os objetivos das forças do capital.



Na página 7 se coloca o objetivo de: "criação de emprego pelo setor público porque atualmente as empresas têm muitas dificuldades para criá-lo sem ajuda". No momento em que a classe trabalhadora é levada à pobreza e à miséria, o programa da IU expressa a sua… ansiedade pelas "muitas dificuldades" que os capitalistas têm. Na verdade, legitima as suas exigências de dinheiro estatal novo, um apoio que funciona como um instrumento para reduzir e/ou abolir as compensações ao desemprego em nome do "subsídio ao trabalho", que é um princípio da UE (União Europeia), do qual a IU (Izquierda Unida) é uma firme apoiadora. Também não deve haver nenhuma dúvida quanto às relações de trabalho que se aplicarão neste emprego, porque o programa declara na página 7, utilizando a terminologia da UE e das associações de industriais: "a redistribuição e a racionalização do emprego existente". Para a classe trabalhadora isso significa que a IU dá luz verde ao horário flexível de trabalho, à abolição dos acordos coletivos e à generalização do trabalho de tempo parcial.



- É reproduzida a perspectiva burguesa e oportunista sobre a crise capitalista como sendo uma crise da dívida, quando a causa da crise capitalista é a sobreacumulação de capital. A dívida é apresentada como um problema que deve preocupar a classe operária e o povo, quando, na verdade, não são estes os responsáveis por ela, e quem deve pagá-la é a plutocracia.



Assim, de forma enganosa, sustenta a ideia de que os povos têm a ganhar com a renegociação da dívida e a emissão de títulos da UE (pág. 18). Não é isto uma solução "charlatã" para os impasses do sistema capitalista? No entanto, o povo grego tem uma experiência amarga quanto aos novos empréstimos que é chamado a pagar, como aconteceu com o bem conhecido corte de 50%, assim como com a proposta de setores da plutocracia de emissão de títulos da UE.



- O seu programa está firmemente orientado para o apoio à UE imperialista, que é um inimigo do povo e irradia a preocupação com o seu salvamento e "correção", ao invés da sua dissolução.



- Refere-se a uma "mudança total no modelo da construção da UE" (página 17), sobre "o empenho na mudança substancial da atual política externa (…) da UE", sem questionar, nem por uma só vez, esta união imperialista interestados e, além disso, sem mencionar a necessidade de saída da UE.



De fato, legitima plenamente os critérios de Maastricht e dos Pactos de Estabilidade, que constituem uma alavanca para a promoção da política antitrabalhadores, através da proposta de "aumentar o prazo para a redução da dívida em 3% até 2016" (página 18). Também declara conformidade com os critérios do grande capital com o objetivo de reduzir ainda mais o preço da força de trabalho.



- Indica que: "a UE deve comprar a dívida pública dos Estados membros e emitir títulos na medida que seja necessário para evitar a especulação" (página 18). Isto é, promove a lógica de que a UE pode assumir um caráter pró-povo e que pode haver uma saída da crise através da UE que beneficiará a classe operária e as camadas populares pobres. Ao mesmo tempo, é de amplo conhecimento que, por um lado, a UE foi construída pelos governos burgueses para defender os monopólios europeus na sua competição internacional com os estadunidenses, os russos, os japoneses e os chineses e, por outro, para explorar com maior intensidade e coordenação os trabalhadores, protegendo o poder burguês através de novos mecanismos políticos e repressivos. Esta é a UE, uma união a serviço dos monopólios! Não pode ser corrigida por dentro, porque os monopólios são as suas "células" e o poder burguês é a sua "espinha dorsal"! A única perspectiva positiva para o povo trabalhador é desligar os países dessa união, com a instauração do poder popular que conduzirá à socialização dos meios básicos de produção, ao planejamento central e ao controle dos trabalhadores. Só este poder pode libertar o povo da imensa dívida pública, sobre a qual não tem qualquer responsabilidade.



- O seu programa apela à própria UE para abrir uma exceção à livre circulação de capitais entre os Estados membros e os paraísos fiscais (página 12). Portanto, não luta contra a liberdade de movimento dos capitais no geral (um princípio fundamental do Tratado de Maastricht que é apoiado pelo Partido da Esquerda Europeia e pela sua presidência, da qual o PCE faz parte), mas pede uma exceção à regra geral que deverá continuar a ser aplicada e que, certamente, constitui uma ferramenta nas mãos do capital para esmagar as conquistas e os direitos dos trabalhadores e do povo. Mais uma vez, as propostas visam à gestão da barbárie capitalista em vez de sua derrubada.



- De fato, o seu programa embeleza o capitalismo e promove a ideia de que o capital e o seu poder, que se baseiam na exploração capitalista, podem supostamente tornar-se "ético" e "justo".



Que outra coisa pode ser a seguinte posição (página 51) senão uma descrição de uma suposta "boa gestão" do capitalismo? "Em caso de se iniciar o processo de privatizações, a IU compromete-se a lutar contra elas em cooperação com os sindicatos e os movimentos sociais, exigindo que esta decisão seja tomada, pelo menos, de modo transparente e democrático através duma participação efetiva dos cidadãos afetados", assim como na página 18, o objetivo de "aceitação dos acordos comerciais com respeito aos direitos humanos… um modo ético e transparente, um… capitalismo moral que seja possível de acordo com o programa da IU e as posições do Partido da Esquerda Europeia".



Camaradas,



O que é mencionado acima é apenas uma amostra das posições que confirmam a crítica do jornal do KKE. Estas posições não têm nada a ver com a luta para derrubar o poder capitalista. Ao contrário, fornecem um álibi ao capitalismo, alimentam ilusões e servem à sua perpetuação, ainda mais num período em que um número cada vez maior de trabalhadores, gente da labuta, está percebendo o impasse e procura uma alternativa à barbárie capitalista.



Esta alternativa não pode ser o chamado "socialismo do século XXI" [confira na carta do PCE], que constitui uma negação do socialismo científico, do poder dos trabalhadores, da socialização dos meios de produção e do planejamento central e, de fato, é na essência um capitalismo humanizado impossível de existir.



Por último, na sua carta dirigida ao nosso partido, também afirma que "chegou a hora da unidade da esquerda consequente com o objetivo da convergência". O conceito socialdemocrata de gestão de um capitalismo "humanizado", a negação do socialismo que foi construído no século XX mediante posições anticientíficas, anti-históricas – é a base ideológica e política da chamada "unidade da esquerda". Estas opções colocam obstáculos à luta de classes, à concentração das forças populares e sociais contra a via capitalista do desenvolvimento. E acontece no momento em que se torna imprescindível a atividade coordenada da classe operária, dos trabalhadores autônomos, dos pequenos e médios agricultores, das mulheres, dos jovens, a fim de reforçar a aliança do povo e a luta pelos interesses do povo trabalhador para derrubar o poder dos monopólios.



Esta linha também é confirmada pela nossa experiência, pelo desenvolvimento da luta de classe na Grécia onde, como bem se conhece, foram organizadas 22 greves gerais e inúmeras confrontações de classe de várias formas, em que a PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores da Grécia) desempenhou o papel principal, com base na palavra de ordem "sem vocês, trabalhadores, nenhuma máquina funciona, mas vocês podem fazê-lo sem os patrões" e se concentrou na organização da luta nas fábricas e nos locais de trabalho.



Camaradas,



Em resposta ao seu pedido vamos publicar a sua carta e a nossa resposta no nosso jornal Rizospastis, para informar os trabalhadores quanto às posições de cada partido a fim de que tirem as suas próprias conclusões.



A Seção de Relações Internacionais do CC do KKE



5/dezembro/2011



[*] Resposta da Seção de Relações Internacionais do Partido Comunista da Grécia ao Partido Comunista de Espanha e à Izquierda Unida



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O original encontra-se em www.kke.gr/...

 
Fonte: http://resistir.info/ – 10/dez/2011



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Esta página encontra-se em http://www.cecac.org.br/

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

Meritocracia

Debate e Lançamento do livro "A privataria tucana"


Um dos assuntos mais comentados nos últimos dias, o livro “A privataria tucana”, de Amaury Ribeiro Jr, será tema do debate “A Privataria Tucana e o Silêncio da Mídia”, promovido pelo Centro de Estudos Barão de Itararé, na próxima quarta-feira (21/12). Para o debate também estarão presentes o jornalista e blogueiro Paulo Henrique Amorim, e o deputado federal autor do pedido da instalação da CPI da Privataria Protógenes Queiroz.

 

Na ocasião, também haverá o coquetel de lançamento do livro e festa de confraternização de fim de ano do Centro de Estudos Barão de Itararé. O evento acontecerá no Sindicato dos Bancários de São Paulo (Rua São Bento, 413), a partir das 19h.
 
 
 
 
FONTE: Centro de Estudos Barão de Itararé 
 
 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Revisitando a Venezuela: Sobre a ideologia da Revolução Bolivariana




Por Miguel Urbano Rodrigues



Registei com satisfação a abertura dos organizadores à crítica construtiva de facetas do processo revolucionário venezuelano. Carmen Bohorquez, que foi a organizadora principal do Foro, em representação do Ministério da Cultura, não hesitou em dizer-me que era mais útil para a Venezuela Bolivariana a reflexão crítica dos amigos com ela solidários do que a apologia incondicional do processo.


No final de Novembro e início de Dezembro participei a convite do Ministerio da Cultura da Venezuela no VI Foro Internacional de de Filosofia de Maracaibo, que se desdobrou pelos 23 Estados do país e cuja sessão de encerramento se realizou em Caracas.


O título do evento pode confundir porque muitos dos participantes (metade venezuelanos) e dos estrangeiros, vindos de quase trinta países da America, Asia, Africa e Europa eram sociólogos, historiadores e escritores.


Não foram apresentadas comunicações. O Foro promoveu debates em quatro Mesas sobre o tema central do Encontro: Estado, Revolução e Construção de Hegemonia.


Tudo foi atípico numa iniciativa que reuniu intelectuais com formações muito diferentes que encaram as transformações da sociedade, as rupturas revolucionárias e o socialismo como alternativa ao capitalismo sob perspectivas não coincidentes.


O Foro, dedicado a Frantz Fanon, abriu com uma conferência de Garcia Linera, o vice-presidente da Bolívia, e fechou com a aprovação de uma Declaração Final numa sessão presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros.


Aos participantes estrangeiros foi oferecida a oportunidade de visitar em equipas de dois, as capitais dos Estados da Republica onde pronunciaram conferências sobre o tema geral do Foro e conviveram com colectivos de conselhos comunais.


À margem do programa foi para mim gratificante e importante reencontrar amigos da América Latina que não via há anos.


Registei com satisfação a abertura dos organizadores à crítica construtiva de facetas do processo revolucionário venezuelano. Carmen Bohorquez, que foi a organizadora principal do Foro, em representação do Ministério da Cultura, não hesitou em dizer-me que era mais útil para a Venezuela Bolivariana a reflexão crítica dos amigos com ela solidários do que a apologia incondicional do processo.


A UTOPIA DO HOMEM NOVO


Revolução jovem, a venezuelana, empenhada na construção de uma sociedade de bem-estar colectivo, livre da exploração do homem, retoma o mito da revolução perfeita como desfecho desejável e possível da caminhada para um socialismo de novo tipo.


Não me surpreendeu por isso a ênfase posta em múltiplas intervenções na criação do homem novo, filho da revolução, o cidadão despojado dos vícios que nas sociedades capitalistas transformam os trabalhadores em instrumentos passivos do sistema de opressão e os robotizam progressivamente.


Falou-se naturalmente muito de Che Guevara como paradigma do revolucionário ideal, fonte de inspiração do chamado Socialismo do Século XXI.


Para os que assim pensam será o homem novo, que estaria a surgir, o agente da transformação social, o motor da construção do socialismo.


Predomina a tendência para o esquecimento de lições importantes da Historia. Esquece-se que na Rússia, desagregada a União Soviética, reapareceram de repente milhões de homens velhos com a reimplantação do capitalismo. O mesmo ocorreu nos países da Europa Oriental, da Estónia à Roménia. Mesmo em Cuba, como lembrou Fidel, a ameaça maior à Revolução vem hoje do interior e não de fora, apesar da agressividade imperialista. Porque no tecido social reaparece também ali o homem velho. Esquece-se que a tomada do poder por um partido revolucionário e a substituição do modo de produção capitalista pelo socialista não destrói a cultura da burguesia cujas sementes hibernam como superstrutura. Esquece- se que o homem como ser social mudou muito pouco desde a Grécia de Péricles, apesar da diversidade das culturas e das prodigiosas conquistas da ciência e da técnica.


Os paladinos do homem novo, que seria forjado na transição, invertem o movimento da Historia. Imaginam um ser que não existe. O homem novo somente pode tornar-se realidade após a erradicação do planeta do capitalismo e do imperialismo.


A criação do poder comunal na Venezuela é muito positiva. O governo incentiva as comunas. Nos meios rurais e em muitos Estados as cidades comunitárias desenvolvem-se numa atmosfera humanizada. Mas é romântica a convicção de que o sistema pode alastrar a todo o país, alterando fundamentalmente o comportamento da população. Em Caracas e em grandes metrópoles como Maracaibo, Valência e outras, o espírito comunitário seria contaminado pelo contacto quotidiano com as trituradoras e enraizadas engrenagens capitalistas. A cultura da burguesia e a contra-cultura que promove a alienação contaminariam as comunas.


A VIA INSTITUCIONAL


A conferência de Garcia Linera, na abertura do Foro, foi, pela mensagem transmitida, uma tentativa de demonstração da viabilidade da transição para o socialismo pela via institucional.


O vice-presidente da Bolívia é um orador excepcional com um poder de comunicação incomum. Foi aclamado com entusiasmo pela grande maioria das centenas de pessoas que o ouviram no anfiteatro do Centro de Arte de Maracaibo.


Recorrendo no preambulo a uma definição do Estado incompatível com as de Marx e Lenine (nele inclui a musica, a literatura e outras frentes da cultura) passou a historiar fases da revolução na Bolívia e do seu avanço numa luta permanente contra a oligarquia e o imperialismo estadounidense marcada por contradições inseparáveis da superação de cada confronto.


Sem subestimar os obstáculos a ultrapassar e a ameaça exterior, afirmou que a conquista do poder político num Estado capitalista pode ser decisiva para a transformação radical da sociedade capitalista rumo ao socialismo.


No final declarou-se bolchevique, mas o seu brilhante discurso, marcado por concessões ao indigenismo, não foi o de um comunista. Citou muito Marx mas nas suas referências a Lénine deturpou-lhe o pensamento, nomeadamente na referência ao Comunismo de Guerra. Para ele a palavra socialismo é irrelevante; quem não a apreciar pode chamar «comunitarismo» ou governo do «viver bem» ao sistema alternativo ao capitalismo.


A adesão dos venezuelanos progressistas à tese central de Linera é compreensível. Os ideólogos da Revolução Bolivariana e o Presidente Chavez optaram pela via institucional como caminho para o socialismo. A ampla divulgação que têm no país os livros de Enrique Dussell, um filósofo hegeliano argentino que defende a convergência da «democracia participativa com a democracia representativa», é esclarecedora da convicção de que a Venezuela pode construir o socialismo pela via institucional, também designada por via pacifica, através de sucessivas etapas em choque com a antiga classe dominante.


A confusão principia no uso abusivo da palavra democracia. Na União Europeia as democracias burguesas são na realidade ditaduras da burguesia de fachada democrática. Nos EUA toma forma uma sociedade monstruosa que robotiza o homem transformando-o num ser passivo, inofensivo para o sistema.


Em conversa com quadros do PSUV lembrei-lhes que a Historia não apresenta um único exemplo que confirme a validade da via institucional para o socialismo. O caso do Chile é o mais rico de ensinamentos. O desfecho foi sangrento. A burguesia não é definitivamente derrotada sem uma confrontação final, violenta, com as forças que apoiam o poder politico revolucionário.


O SOCIALISMO DO SECULO XXI


Foi Chavez quem divulgou a expressão Socialismo do Século XXI em discurso pronunciado em 25 de Fevereiro de 2005. (1)


O Presidente venezuelano não é marxista e com esse neologismo pretendia incentivar o debate orientado para a criação de um «socialismo humanista». Segundo ele, a transformação económica funcionaria como agente da democracia participativa na assumpção de uma ética socialista «baseada no amor, na solidariedade e na igualdade entre os homens as mulheres, entre todos». O carácter utópico da tese transparece da reivindicação da originalidade da «criação heróica» que identifica no desejado «socialismo bolivariano, cristão, robinsoniano, indo-americano».


O projecto exige na prática, para a sua execução, um rápido definhamento do Estado que delegaria em ritmo acelerado muitas das suas funções sociais no poder popular à medida que a propriedade social adquirisse um papel protagónico, substituindo a estatal e a privada.


A contradição no discurso oficial é patente porque no contexto venezuelano as cidades comunitárias e o poder comunal somente puderam surgir por decisão de um Estado forte. Se ele «definhasse» seriam rapidamente destruídas.


Imaginando a travessia parar o socialismo do futuro tal como o concebem, os ministros e dirigentes do PSUV invocam muito Marx e a necessidade de conquistar a hegemonia em termos gramscianos. Chavez afirma que «a mente e o coração» se adquirem na prática, ajudando os trabalhadores explorados a entender o projecto revolucionário.


Mas os gramscianos venezuelanos deturpam o fundamental do pensamento do grande comunista italiano; e da obra do genial autor de «O Capital», muito citado, utilizam sobretudo textos do jovem Marx que incidem sobre o papel do individuo e o apagamento gradual do Estado nas sociedades em que este, desaparecidas as classes sociais, seria desnecessário.


Lénine porém é praticamente esquecido por esses intelectuais. Citam-no mas para se distanciarem da sua concepção do Partido Comunista e exorcizarem o centralismo democrático. A aceitação de teses anarquistas aflora por vezes na apologia do Socialismo do Século XXI que teria muito de uma autogestão exemplar.


Muitos dos quadros dirigentes da Revolução Bolivariana na sua crítica demolidora à União Soviética satanizam os partidos comunistas revolucionários e assumem uma posição anticomunista não consciencializada.


O denominador comum nesse discurso sobre a superioridade e o carácter inovador do Socialismo do Século XXI é a convicção profunda de que a via institucional adoptada pela Venezuela Bolivariana na transição para o socialismo é a única correcta no actual contexto histórico. O Socialismo do Século XXI seria assim uma fonte de inspiração para as experiencias revolucionárias em curso na América Latina.


Hugo Chavez, quando é recordado o desfecho trágico da via pacifica para o socialismo no Chile, argumenta que a Unidade Popular tentou levar adiante uma revolução desarmada enquanto a venezuelana é uma revolução armada, apoiada pela grande maioria das Forças Armadas. Subestima o significado do golpe militar de 2002, patrocinado pelo imperialismo estadounidense, e reafirma que as instituições criadas pela burguesia para servir os objectivos do capitalismo podem ser transformadas de modo a funcionarem a serviço dos trabalhadores como sujeito da transição para o socialismo.


Independentemente do que se pense da Revolução Bolivariana, das suas opções e do seu rumo o processo em curso é apaixonante.


Uma certeza: sem Hugo Chavez, a Revolução dificilmente poderia sobreviver. Depende excessivamente do líder carismático que a tornou possível. O seu pendor populista e a imprevisibilidade das suas decisões não apagam a evidência: a Venezuela Bolivariana é hoje a vanguarda revolucionária da América Latina.


Ampliar a solidariedade com a pátria de Bolívar é portanto dever de todos os homens e mulheres progressistas na Europa, como na Asia, na África como na América. Eles estão a lutar pela Humanidade.



(1) O sociólogo chileno Tomas Moulian empregou pela primeira vez a expressão no seu livro «Socialismo do Século XXI -a Quinta Via» nos anos 80 do seculo passado.



Vila Nova de Gaia, 12 de Dezembro de 2011

FONTE: ODiario.Info
 
 

Os Direitos Humanos em Cuba. Fatos, Não Palavras!!!





Documentário que faz um Raio-X da democracia e do sistema político de representação popular de Cuba. Através dele é possível conhecer o processo eleitoral cubano e os meios de intervenção do povo nos rumos sócio-econômicos da nação. Liberdade de expressão e batalha de idéias são conceitos discutidos por populares, intelectuais, artistas e líderes políticos do país. O sistema prisional e de seguridade social também são investigados e vistos de perto. Trata-se de um filme que presta um grande serviço a favor da disseminação do que ocorre, verdadeiramente, em Cuba. Rompendo o bloqueio midiático orquestrado pelos EUA -- interessados na falência e na maculação de uma Revolução que trouxe diversas benesses a um povo vítima de mais de 400 anos de exploração e subdesenvolvimento -- o documentário joga uma luz muito forte em cima de questões que pontuam, sistematicamente, as críticas (feitas pela imprensa alienada ou muito bem "remunerada") em direção à ilha caribenha.



Fatos, não palavras! Os direitos humanos em Cuba

(Hechos, no palabras. Los derechos humanos en Cuba)

Gênero: Documentário

Diretor: Carolina Silvestre

Duração: 93 minutos

Ano de Lançamento: 2007

País de Origem: Argentina

Idioma do Áudio: Espanhol
 
 

Poema "Prestes" de autoria da Sylvia Grabois







Fidel Castro é pessoa que mais sofreu tentativas de assassinato



HAVANA, 15 dez 2011 (AFP) -O líder cubano Fidel Castro, afastado do poder desde 2006 por razões de saúde, entrou no livro dos recordes, o Guinness, por ser "a pessoa que mais vezes foi alvo de tentativas de assassinato", em 638 ocasiões, disse nesta quinta-feira um portal oficial cubano.



"O líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro, é a pessoa que mais vezes foi alvo de tentativas de assassinato, segundo registrou o Livro dos Recordes, o Guinness, e certamente os arquivos da CIA dos Estados Unidos, principal promotora dessas tentativas de homicídio", afirmou o site Cubadebate (http://www.cubadebate.cu/).



"Fidel entra no Livro dos Recordes, o Guiness", disse o Cubadebate, afirmando que até 2006, quando entregou o comando do governo a seu irmão Raúl, "somavam 638 as tentativas de assassinato contra ele, promovidas quase todas pela CIA".



"Os métodos adotados para matá-lo eram diversos, apesar de todos terem fracassado: desde franco-atiradores, explosivos colocados em seus sapatos, veneno injetado em um charuto, até uma pequena carga explosiva dentro de uma bola de baseball, entre outras variantes", completou.



Afirmou ainda que "desde o momento que liderou a triunfante Revolução Cubana em 1959 começaram a planejar" seu assassinato, e "entre os mais interessados" em eliminá-lo "estavam as agências americanas de espionagem e subversão".



O Guinness World Records é um livro publicado anualmente com uma coleção de recordes mundiais, e está entre os mais vendidos do mundo junto com a Bíblia.

 
 

Niemeyer comemorou 104 anos nesta quinta-feira (15/12). Parabéns, companheiro!!!


"Não ser comunista é que é uma merda!"
 (Oscar Niemeyer)


O arquiteto Oscar Niemeyer em seu escritório em Copacabana, no Rio, onde comemorou seus 104 anos


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

E a Líbia virou uma democracia?



Por Mouzar Benedito



Não se fala mais da Líbia. Kadhafi está morto, pronto, assunto resolvido. Virou mesmo uma democracia, como queriam os interventores e supostamente queriam também os que derrubaram o governo? Estou curioso.



Independente do bem e do mal que se falava do governo Kadhafi, achei desde o começo muito estranho o apoio da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – aos rebeldes. Apoio que incluiu muitos bombardeios, inclusive o que resultou na morte de Khadaffi.



Ex-aliados incondicionais, como Berlusconi, que segundo ele mesmo dizia participou de orgias com Kadhafi, viraram inimigos totais. Europeus que mamaram nos petrodólares líbios, de repente se tornaram moralistas que excomungam o governo que lhes abasteceu os cofres.



E me incomodava mais ainda ver ex-ministros do governo Kadhafi, virando repentinamente defensores da democracia – e líderes da revolta – quando o regime começou a balançar. Lembrei-me de José Sarney aqui, ex-presidente da Arena, partido da ditadura, virar vice-presidente (e assumir como presidente por causa da morte de Tancredo) do governo que selava o fim dessa mesma ditadura. E com ele, continuaram como expoentes na política brasileira seus companheiros arenistas ACM, Bornhausen, Marco Maciel, Paulo Maluf e outros “democratas”.



Esse preâmbulo é para falar de um livro escrito pelo repórter dos velhos tempos Mário Augusto Jakobskind.



Soube que ele ia ver o que estava acontecendo na Líbia pela Folha de S. Paulo, quando a coisa começava a engrossar por lá. Ele fazia parte de uma delegação brasileira convidada, segundo a Folha, pelo governo Kadhafi (que virou Ghadaffi ou algo assim, conforme cada jornal), para mostrar a realidade segundo o governo líbio.



Entre os membros da delegação, seguiam o deputado Protógenes Queiroz, do PC do B, e o “jornalista esquerdista” Mário Augusto Jakobskind.



A delegação não conseguiu entrar no país, foi barrada na fronteira com a Tunísia, porque a guerra já estava instalada, os bombardeios eram frequentes. E o repórter inquieto ficou no entorno, estudando a questão Líbia e o comportamento não só da OTAN e aliados, mas principalmente o tratamento que a mídia dava ao assunto.



Escreveu então o livro Líbia – barrados na fronteira (o que não saiu na mídia sobre a invasão da Líbia) , em que começa relatando a viagem e garantindo que o convite para ir lá e escrever um relatório que seria entregue à ONU foi de uma ONG, e não de Kadhafi, e ninguém da comitiva recebeu dinheiro nenhum, cada um custeou sua viagem.



O livro de Mário Augusto aborda, além do comportamento da mídia, a história do país, o interesse pelo petróleo líbio e a composição do Conselho Nacional de Transição (CNT). Sobre o comportamento de países europeus, que mudaram de posição radicalmente em relação ao regime, a questão – segundo ele – não era o petróleo, que já estava sob controle desses países, por uma concessão de Kadhafi para ficar bem com eles.



O principal motivo, segundo um economista egípcio entrevistado por Jakobskind, é que os Estados Unidos mantêm um comando militar voltado para a África, chamado Africom, mas sua sede é na Alemanha. Khadafi estaria acertando a transferência da sede do Africom para seu país, tirando a Europa da jogada, Criaria uma ponte direta EUA-África.



Enfim, o livro merece ser lido para se entender um pouco mais o que acontece por lá – concorde-se ou não com ele.



Mário Augusto, que foi meu colega no Versus e no Pasquim, repórter da sucursal da Folha no Rio e depois editor de política internacional na Tribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes. Mas por suas posições não tem mais espaço na grande mídia, é um jornalista que nada contra a corrente. Tem vários livros escritos, entre eles Cuba: apesar do bloqueio, relatando sua experiência na Ilha, publicado em 1985 e reeditado com atualizações agora, em 2010. É outro livro importante. Ambos – o da Líbia e o de Cuba – publicados pela Book Link, trazem informações e análises que obviamente não estão nos nossos jornais diários, nas revistas semanais nem nos telejornais.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia).


 
 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Bandeira da Palestina é hasteada na Unesco






A bandeira da Palestina foi hasteada nesta terça-feira na sede parisiense da Unesco, a primeira agência da ONU que reconheceu esse território como membro de pleno direito.



O hasteamento ocorreu em um ato solene que contou com a presença do presidente palestino, Mahmoud Abbas, e a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova.
 
 
 
Em 31 de outubro, a Conferência Geral da Unesco admitiu a Palestina como membro número 195 da organização.



A adesão foi oficializada no último dia 23, quando a Palestina aceitou a Constituição da Unesco nos Arquivos Nacionais de Londres.



A admissão da Palestina na Unesco foi realizada contrariamente à opinião de alguns países, entre eles os Estados Unidos, que anunciou o congelamento de sua contribuição à organização.



No ato de hasteamento da bandeira também esteve presente o ministro das Relações Exteriores palestino, Riyad al-Maliki; a presidente da Conferência Geral da Unesco, Katalin Bogyay, e a do Conselho Executivo, Alissandra Cummins, entre outras personalidades.