segunda-feira, 2 de julho de 2018

A potência de Marx e da ideia do "capital" para enfrentar as crises de hoje.

Entrevista especial com Marcelo Carcanholo

Por João Vitor Santos, IHU On-Line | 02 Julho 2018




Karl Marx forjou suas reflexões acerca do capitalismo no calor do século XIX. Hoje, em pleno século XXI, 200 anos depois de seu nascimento, o mundo mudou, o capital se transformou e as lógicas do filósofo e economista foram superadas. Correto? Não. Ao menos para o professor Marcelo Dias Carcanholo. Pois, afinal, ainda vivemos numa sociedade capitalista. “Claro, que com as especificidades da contemporaneidade, mas as determinações básicas, gerais, do que é o capitalismo seguem presentes. As leis de tendência dessa sociabilidade, que necessariamente se manifestam por intermédio de determinações conjunturais específicas, seguem caracterizando nossa vida”, analisa. Para ele, é nesse sentido que Marx se mantém atual. “Sua obra, especialmente O Capital, é até hoje a melhor apresentação teórica de uma época social que vivemos até os dias atuais”, completa.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Carcanholo observa que nessa obra não é possível detectar um conceito fechado do que seja o capitalismo e como ele se manifesta no século XXI com todas especificidades. “Mas quaisquer que sejam elas (capitalismo europeu, ou capitalismo brasileiro no segundo pós-guerra etc.), o seu substantivo (conteúdo), o capitalismo, só é possível de ser entendido, em sua totalidade, pela teoria de Marx”, aponta. Assim, defende que se volte a Marx, entendendo suas concepções para que, a partir delas, se consiga movimentar a construção do conceito ao longo dos tempos. “A riqueza desse autor reside justamente no entendimento do processo de acumulação de capital como algo necessariamente cíclico. Por isso ele é tanto inescapável como incômodo, até os dias atuais”, resume. É nessa perspectiva que o professor também reflete sobre as crises das sociedades de hoje e a realidade brasileira. Afinal, por aqui “como na maior parte da economia mundial, o capital procura sair de sua própria crise repassando a conta do ajuste para a classe trabalhadora”.

Marcelo Dias Carcanholo | Foto: UFF
Marcelo Dias Carcanholo é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Economia pela Universidade Federal Fluminense – UFF e doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Atualmente é professor de Economia da UFF, membro do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Marx e Marxismo (NIEP-UFF), pesquisador do Núcleo de História Econômica da Dependência Latino-americana (HEDLA-UFRGS) e professor da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF-MST). Entre seus livros publicados, destacamos Dependencia, Superexplotación del Trabajo y Crisis: una interpretación desde Marx (Madrid: Maia Ediciones, 2017) e Neoliberalismo: a tragédia do nosso tempo (São Paulo: Cortez Editora, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que ler Marx hoje? Que respostas os originais ainda são capazes de fornecer às crises de nosso tempo, diferentes do contexto do século XIX?

Marcelo Dias Carcanholo – É um argumento relativamente comum dizer que Marx, no melhor dos casos, serviria apenas para interpretar o capitalismo “clássico” do século XIX, restringindo a validade de seu pensamento para uma época histórica específica. Implicitamente, este argumento sustenta que seu pensamento seria anacrônico, se o objetivo é entender a realidade específica do século XXI.

Evidentemente que Marx é um autor do século XIX e, como não poderia deixar de ser, seu pensamento apresenta os limites e possibilidades de um ser humano do século XIX. Dessa obviedade, entretanto, não se pode concluir que o seu pensamento seja restrito a esse momento histórico. Justamente sua genialidade e a explicação do porquê ele reluta em falecer, ainda que reiteradamente seus críticos decretem sua morte, está no fato de que seu pensamento transcende as especificidades do século XIX. E isso não porque ele possuísse algum poder mágico de vislumbrar quais seriam as especificidades do século XXI. As razões para tanto são, como não poderiam deixar de ser, objetivas.

Desconsiderando alguns teóricos completamente fora da realidade, não se pode negar que ainda vivemos em uma sociedade capitalista. Claro que com as especificidades da contemporaneidade, mas as determinações básicas, gerais, do que é o capitalismo seguem presentes. As leis de tendência dessa sociabilidade, que necessariamente se manifestam por intermédio de determinações conjunturais específicas, seguem caracterizando nossa vida. Aí reside a genialidade de Marx. Ele ainda é o pensador que melhor conseguiu apreender essas determinações do capitalismo. Sua obra, especialmente O Capital, é até hoje a melhor apresentação teórica de uma época social que vivemos até os dias atuais. Não encontraremos nela a descrição exata do que é, por exemplo, o capitalismo brasileiro no século XXI com todas suas especificidades/adjetivações. Mas quaisquer que sejam elas (capitalismo europeu, ou capitalismo brasileiro no segundo pós-guerra etc.), o seu substantivo (conteúdo), o capitalismo, só é possível de ser entendido, em sua totalidade, pela teoria de Marx.

Outro equívoco muito comum é crer que Marx só ressurge do limbo teórico em momentos de profundas crises da sociedade capitalista, como se ele tivesse apenas a capacidade de explicar estas etapas específicas do ciclo econômico. A riqueza desse autor reside justamente no entendimento do processo de acumulação de capital como algo necessariamente cíclico. Por isso ele é tanto inescapável como incômodo, até os dias atuais.

IHU On-Line – Em que medida podemos afirmar que o marxismo vai transformando o pensamento de Marx? E no que consiste essa transformação?

Marcelo Dias Carcanholo – A melhor maneira de entender essa questão é pensando em que significaria se o marxismo não transformasse o pensamento de Marx. Neste caso, significaria, por um lado, que todas as respostas para o que é a sociedade capitalista, incluindo todas as manifestações conjunturais específicas de suas leis de tendência, já estariam contidas no pensamento de Marx e, portanto, não haveria necessidade de nenhuma reformulação e/ou resgate crítico. Por outro lado, os marxistas ficariam limitados a propagar a “palavra” daquele que, por princípio, já conteria toda “a verdade”. Em síntese, se o marxismo não transformasse o pensamento de Marx significaria que ele seria mais uma religião, algo completamente distinto dos propósitos originais do pensamento do próprio Marx.

Que algumas tradições marxistas tenham embarcado nessa trajetória só nos ajuda a entender, talvez, quando o próprio Marx, ao final de sua vida, percebeu o que se dizia (no já autodeclarado “marxismo”) em seu nome, teria dito que, ele Marx, não era marxista.

Finalidade política

Marx se propôs a interpretar o capitalismo porque tinha uma finalidade política: transformá-lo pela via revolucionária. Para ele, conhecer o sistema social que se busca revolucionar é um pré-requisito básico. Entretanto, esse sistema social, embora tenha suas leis gerais de tendência, se apresenta/manifesta de formas distintas em épocas históricas diferentes. O capitalismo não é apenas histórico, frente a outros sistemas sociais, mas também apresenta historicidade dentro de sua própria trajetória histórica. Isso significa que as contradições, especificidades, questões concretas, só podem aparecer nesses momentos específicos e, portanto, o marxismo – entendido como a tradição, a partir de Marx, que busca entender o capitalismo em sua historicidade, para transformá-lo, a partir dessas contradições com manifestações específicas – obrigatoriamente tem que responder questões concretas específicas, as quais Marx não teria como ter vivenciado, por razões óbvias.

IHU On-Line – A Teoria da História em Marx mostra sinais de esgotamento? Por quê?

Marcelo Dias Carcanholo – Ao contrário, a teoria da história em Marx nunca se mostrou tão robusta! Ocorre que, como costuma suceder com o pensamento do autor, é muito amplo, e difundido, o desconhecimento da teoria de Marx. Quando se fala na teoria da história em Marx, a interpretação mais rasteira entende esta como sendo uma teoria que identifica as transformações históricas a partir da ruptura da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas com as relações sociais de produção de determinada época, abrindo a porta histórica para um novo modo de produção. Com base nisso, a história passaria necessariamente de um modo de produção para outro. O capitalismo, em específico, desenvolveria as forças produtivas como nenhum outro e, necessariamente, as colocaria em contradição com as relações sociais capitalistas de produção, levando necessariamente ao comunismo.

O curioso é que esta visão teleológica, mecânica, determinista, é completamente estranha ao próprio Marx! Mais uma vez, que boa parte do marxismo tenha acreditado nessa “cartilha” só demonstra o quanto Marx é um profundo desconhecido, até dentro de boa parte do marxismo.

Para Marx, os distintos modos de produção contêm sim suas próprias contradições, e estas definem os leques de possibilidade histórica de sua transformação, abrindo a possibilidade de construção social de outros modos de produção. Esta possibilidade não permite, entretanto, concluir pela inevitabilidade. Evidentemente que, uma vez posto o resultado histórico ele obviamente está... posto! Assim mesmo, antes disso, esse resultado era uma mera possibilidade, dentre outras.

Idealista/utópico?

O capitalismo possui suas contradições (as leis de tendência são necessariamente contraditórias, dialéticas), e estas, quando se explicitam, definem um leque de possibilidades históricas: é possível que se engendre uma nova época histórica, ainda capitalista. É possível que ocorra uma transformação social revolucionária, que construa outra sociabilidade. Qual? Seu estabelecimento a priori é impossível, ao menos para Marx. Como pensar uma sociabilidade que ainda nem existe? Isso só é possível para um pensamento descolado da realidade, que a interpreta idealmente (utopicamente) antes que ela mesma exista no concreto. Apesar de ser acusado disso, Marx nunca foi um idealista/utópico. Mais uma vez, ele não tem culpa se boa parte do marxismo transformou tanto Marx que terminou transformando-se em outra coisa.

E o que define, concretamente, para onde a história caminha? Quem é o sujeito histórico? O de sempre! O ser humano, que atua segundo interesses sociais, e consciências sociais distintas. Estas consciências não podem ser diretamente derivadas desses interesses/posições sociais, mas estão necessariamente (embora de forma contraditória) ligadas a eles. Se se prefere sintetizar a teoria da história em Marx como “a luta de classes”, não há problema, desde que seja entendida da forma correta. Marx tem uma teoria da história, nunca uma “filosofia da história”, determinista, mecânica, teleológica. A história, para Marx, é aberta, felizmente.

IHU On-Line – Como compreender o capitalismo contemporâneo? De que forma ele subverte e incide sobre o conceito de capital em Marx?

Marcelo Dias Carcanholo – O capitalismo contemporâneo deve ser entendido como qualquer época histórica específica do capitalismo, a partir de suas questões concretas. O que é o capitalismo contemporâneo? É o capitalismo que se constrói a partir da última grande crise estrutural, na segunda metade dos anos 60 do século passado. De lá para cá, o capitalismo retomou seu processo de acumulação de capital através de um amplo processo de reestruturação produtiva, que elevou as taxas de mais-valia e a rotação do capital, de políticas econômicas com o objetivo explícito de concentração de renda e riqueza, no intuito de retomar as taxas de valorização do capital, com a liberalização e abertura de vários mercados, principalmente os de trabalho (para elevar a taxa de mais-valia) e financeiro (buscando novos espaços de valorização para um capital superacumulado), tudo isso justificado e implementado sob o manto da estratégia de desenvolvimento que caracteriza essa contemporaneidade, o neoliberalismo.

O capitalismo entra em crises simplesmente porque produz em demasia, não propriamente as mercadorias, que são uma forma de manifestação de seu conteúdo (dinheiro e produção são as outras), mas porque há um excesso de capital por si mesmo. Quando capital é superproduzido, em relação à capacidade que ele mesmo tem de se realizar, as taxas de lucro caem, evidenciando a crise. Superacumulação de capital e queda das taxas de lucro são as duas faces do mesmo fenômeno. Como o capital se recupera? Ou as reduções das taxas de lucro desvalorizam o capital em excesso, ou então ele tem que encontrar novos espaços de valorização para esse capital superacumulado. Normalmente ele combina essas duas formas de saída.

O capitalismo contemporâneo se constrói, a partir dos anos 70 do século passado, justamente combinando essas duas formas. Uma das especificidades desta época histórica é que a lógica de valorização passa a ser determinada pelo que Marx chamou de capital fictício. Outro equívoco muito comum é achar que esse capital fictício é o capital financeiro, que se encontra nos mercados financeiros e, portanto, oposto ao capital (do setor) produtivo. Esta interpretação não é Marx! É Keynes [1]! Outra teoria, outra perspectiva teórica e política.

Capital fictício em Marx

O capital fictício é aquele que se constrói – qualquer que seja o mercado específico – através da venda no presente de uma expectativa de apropriação futura de determinado valor, o que se chama de capitalização. Na prática, isso significa que capital (fictício) se está constituindo a partir de uma expectativa de apropriação, que pode nem ocorrer. Constrói-se um direito de apropriação de valor no presente que, diretamente, não contribui para a produção de valor. Está aí o germe da crise que estoura em 2007/2008.

Todo esse processo é inteligível, de forma relativamente fácil, a partir da seção V do livro III de O Capital, em suas determinações mais abstratas, e de toda uma tradição crítica (nem toda ela marxista) para suas determinações mais concretas, e até empíricas. Uma vez mais, a realidade concreta é que coloca as questões que são (ou não) apreendidas teoricamente. O capital (fictício) criando as possibilidades de uma nova época de acumulação de capital que, por sua vez, recoloca as contradições (produção versus apropriação de valor) próprias do capitalismo, dando ao processo de acumulação uma trajetória dialética, contraditória, cíclica.

O que me surpreende é alguém achar como isso subverteria a categoria capital de Marx! A não ser, é claro, que ela seja amplamente desconhecida, confundida, por exemplo, com um conceito (preestabelecido).

IHU On-Line – Como, a partir do conceito de trabalho em Marx, enfrentar as desigualdades advindas da revolução tecnológica que, ao mesmo tempo em que aumenta a capacidade produtiva, aumenta a força produtiva ociosa, pessoas incapazes de acessar o trabalho?

Marcelo Dias Carcanholo – O processo de acumulação de capital, por força da concorrência, obriga os capitais particulares a aumentarem a produtividade (desenvolvimento das forças produtivas). Os capitais, por sua vez, para fazerem isto aumentam as proporções de meios de produção, em relação à força de trabalho, no processo produtivo. Isto implica que cada força de trabalho consegue transformar mais meios de produção em produto final.

O efeito desse aumento de produtividade (aumento da composição técnica do capital, nos termos de Marx) é a elevação da composição orgânica do capital (a composição em valor, refletindo o incremento da composição técnica). Os capitais particulares fazem isso porque isso reduz os valores individuais de suas mercadorias e, como elas são vendidas pelos valores de mercado, eles conseguem se apropriar do que Marx chamou de mais-valia extraordinária.

Outro equívoco bastante comum é inferir desse processo que o capital expulsa força de trabalho do processo produtivo substituindo-a por máquinas. Em primeiro lugar, meios de produção não se restringem às máquinas. Em segundo lugar, o aumento de produtividade requer apenas que a massa de meios de produção no processo produtivo cresça mais do que proporcionalmente ao incremento de força de trabalho, e esta é, em termos absolutos, como tendência, incorporada em maior magnitude, uma vez que é a fonte de mais-valia.

O famoso exército industrial de reserva de Marx não é determinado pela expulsão de força de trabalho do processo produtivo em termos absolutos. Ao contrário, a acumulação requer que mais força de trabalho seja incorporada ao processo produtivo. Apenas que o ritmo de incorporação de meios de produção é superior a isso. O exército industrial de reserva é produzido pelo capital porque este incorpora apenas uma fração de toda a massa de trabalhadores que necessita vender sua força de trabalho no mercado para conseguir sobreviver. O curioso é que, no capitalismo, cresce o número de empregados e, ao mesmo tempo, o exército industrial de reserva, como tendência, o que pode ser limitado/aprofundado pelos movimentos cíclicos da economia.

Que esse desenvolvimento das forças produtivas, na contemporaneidade, seja dado pela tal revolução tecnológica, trata-se apenas de uma manifestação histórica específica do movimento mais geral do capitalismo, da tendência. Quem conseguiu identificar essa tendência do capitalismo? Marx.

IHU On-Line – Que relações podemos estabelecer entre os conceitos de “dependência”, “exploração do trabalho” e “crises”?

Marcelo Dias Carcanholo – “Exploração do trabalho” é apenas outra forma de dizer que o capital, uma vez pago o valor da força de trabalho, consome seu valor de uso no processo produtivo, com o intuito de produzir mais-valia. O valor que percorre esse processo e se incrementa, no próprio processo, é o capital. Como esse capital é uma unidade dialética entre produção e apropriação, e essa dialética se manifesta necessariamente em crises, “capital” e “crises” são dois termos para um mesmo processo de acumulação.

Esse capital, por sua própria natureza, tem a tendência histórica a espraiar-se por todas as partes do planeta. O valor-capital tem, em si, a tendência para a formação do mercado mundial. Isso, entretanto, não significa que as leis de funcionamento do capitalismo se expressem da mesma forma, no mesmo ritmo, no mesmo grau, em todos os espaços. Esse desenvolvimento desigual e combinado do capital, na escala do mercado mundial, é que conforma a dependência. Capitais particulares que operem em determinado lugar, com menor composição orgânica (produtividades) tendem a produzir uma massa de valor maior do que aquela que eles mesmos se apropriam. Capitais com maiores produtividades tendem a se apropriar de um valor maior do que aquele que eles mesmos produziram. De onde vem esse valor “a mais” em sua apropriação? Justamente daqueles capitais com menor produtividade. Isso define um processo de transferência de valor de capitais que operam em determinado espaço, para outros que se encontram em outros espaços. Esta é a base real-concreta da categoria de dependência.

Ao contrário de uma perspectiva mais weberiana, não é que uma nação dependa de outra. A categoria central no marxismo não é a entidade abstrata “nação”. A categoria central no capitalismo é... o capital(ismo)! Isto não significa, entretanto, que os Estados Nacionais não cumpram nenhum papel. Apenas que toda a variedade de funções e papéis que eles cumprem decorre do fato de que Estados Nacionais, no capitalismo, são... capitalistas!

IHU On-Line – No que consiste a chamada “crise do capitalismo” e quais seus efeitos? O que pode emergir a partir desse estado de crise?

Marcelo Dias Carcanholo – A atual crise pela qual passa o capitalismo contemporâneo, do ponto de vista do embate teórico, tem algumas serventias. Em primeiro lugar, ao atestar o caráter meramente apologético das interpretações teóricas hegemônicas que caracterizam estes tempos neoliberais, permitiu que estas passassem de uma fase de extrema arrogância para outra em que se encontram relativamente na defensiva.

Em segundo lugar, a atual crise serve para relembrar aos esquecidos que faz parte da natureza do processo de acumulação de capital a sua trajetória cíclica, isto é, que sempre após uma fase de crescimento advém um momento de crise e, ao mesmo tempo, posteriormente a épocas de crise, o capitalismo consegue reconstruir novas bases para um novo processo de acumulação de capital. Do ponto de vista teórico-ideológico isto desmistifica duas concepções muito comuns: (I) aquela que acreditava (acredita) que pode resolver os problemas do capitalismo com uma mera operacionalização correta dos instrumentos de política econômica, de forma que as crises só ocorrem por falhas nesta última, e que, bem administrada, poderíamos viver em um capitalismo pós-cíclico, como alguns chamam; (II) aquela que aguarda, pacientemente ou não, a crise terminal do capitalismo, a partir da qual todos os sonhos socialistas se realizariam como em um passe de mágica. Ao contrário destas visões, uma interpretação teórica correta do capitalismo tem que reconhecer sua natureza cíclica.

Uma teoria do ciclo deve, portanto, explicar duas coisas. Inicialmente, ela deve fornecer uma explicação dos pontos de inflexão, isto é, do ponto de ruptura que leva à crise e da retomada do crescimento econômico. Em segundo lugar, a teoria deve mostrar como se dá o processo cumulativo que propaga os efeitos das duas inflexões, tornando-os atuantes durante certo período. Brevemente, uma teoria deve explicar os pontos de inflexão e mostrar por que a economia leva algum tempo para chegar ao outro ponto de inflexão, por que a crise leva algum tempo até chegar à depressão e por que a passagem desta para a retomada também leva tempo.

Não bastasse isto, há outra exigência. O fornecimento de uma explicação para os pontos de inflexão é uma condição necessária, mas não suficiente. Além disso, é preciso que o ponto de inflexão seja uma consequência necessária dos efeitos provocados pela inflexão imediatamente anterior. Mais claramente, podemos exemplificar dizendo que a retomada deve ser explicada através dos efeitos provocados pela crise, e esta última deve ser consequência dos efeitos do crescimento econômico induzido pela retomada. Esta exigência metodológica é que define a existência do ciclo como algo regular e necessário.

Acumulação de capital ciclicamente

Se há um consenso na teoria econômica é que o processo de acumulação de capital transcorre, com o passar do tempo, de forma cíclica. O que não há consenso é sobre como explicá-lo. Como, para explicar os ciclos, é necessário explicar que o capitalismo entra em crise porque cresceu, e volta a crescer porque entrou em crise, a teoria econômica explicita seus limites, quando procura explicar esse fenômeno que ela mesma reconhece como necessário. Para explicá-lo é necessária uma perspectiva dialética. Por isso, em primeiro lugar, a teoria econômica hegemônica entra em crise sempre que o capitalismo está em suas crises estruturais. Em segundo lugar, Marx é, uma vez mais, lembrado como o pensador que inicia a única tradição que consegue entender o capitalismo como ele é, cíclico.

O que pode emergir da atual crise do capitalismo contemporâneo? Para ser coerente com a perspectiva materialista, não há como antever certeiramente uma época histórica ainda não posta. Mesmo assim, como se trata de uma crise cíclica, pode-se, em termos mais gerais, arriscar que, de duas uma: ou o capitalismo reconstrói o processo de acumulação de capital em novas bases (históricas), o que requer desvalorizar algo do capital superacumulado e reconstruir novos espaços de valorização (com maior exploração do trabalho, necessariamente); ou o sujeito histórico, o ser humano, dividido em classes sociais, transforma essa sociedade.

Há, ainda, uma terceira possibilidade de curto prazo. O capitalismo continuar buscando se valorizar sob a lógica do capital fictício, o que só aprofunda a contradição entre produção e apropriação do valor, postergando a atual crise por mais tempo ainda e abrindo a possibilidade de um novo, e mais profundo crash. É possível que ainda não tenhamos vivenciado a manifestação mais intensa da atual crise.

IHU On-Line – Quais os limites do olhar macroeconômico como forma de compreender a economia política de hoje? Como uma visada marxista pode ampliar esse horizonte de análise?

Marcelo Dias Carcanholo – Ao contrário de uma visão mais “economicista”, de fundo keynesiano, do ponto de vista da teoria econômica, ou reformista, do ponto de vista político, a política (macro)econômica não pode solucionar as crises, ou, de forma mais ampla, corrigir a trajetória de médio e longo prazo da economia para um tendência de crescimento sem ciclos. Por quê? Porque os ciclos são necessários no capitalismo, é da sua natureza. Portanto, não há política econômica, qualquer que seja sua coloração teórica ou política, que consiga resolver as crises. Não existe capitalismo sem crises. Não existe capitalismo pós-cíclico.

Isso não significa que as políticas econômicas (monetária, fiscal, cambial e de rendas) não tenham nenhum papel. Ao contrário. As políticas econômicas podem antecipar/postergar os pontos de ruptura cíclica, tanto a crise como a retomada. As políticas econômicas podem ainda ampliar/reduzir os efeitos (políticos e sociais), tanto dos processos cumulativos (crescimento ou depressão) como das rupturas. Mas, decididamente, não podem acabar com os ciclos. A única forma de acabar com as crises é acabar com aquilo que necessariamente as contêm, o capitalismo.

IHU On-Line – Como o senhor tem acompanhado a política econômica brasileira dos últimos anos? Como, diante do atual cenário, conceber uma recuperação econômica?

Marcelo Dias Carcanholo – Como já mencionado, embora não possam “resolver” as crises, isto é, garantir uma recuperação econômica, a política econômica pode agravar/aliviar seus efeitos. O caráter restrito das possibilidades da política econômica, em uma economia dependente, como a brasileira, só se potencializa. Em economias dependentes, a margem de manobra da política econômica é menor ainda. Basicamente, porque dois dos preços mais importantes de uma economia, a taxa de juros e a taxa de câmbio, são determinadas pelos fatores externos, justamente reflexos do caráter dependente.

Mesmo com essa especificidade da economia dependente, a política econômica brasileira, em seu sentido mais amplo, isto é, como uma estratégia estrutural de desenvolvimento, vem seguindo os marcos gerais da forma como o capitalismo está tentando sair desta crise estrutural. Por um lado, no curto prazo, promoção de fortes ajustes fiscais, para garantir que o Estado obtenha saldos primários positivos, que lhe permitam financiar a sua atuação nos mercados financeiros, comprando os títulos do capital fictício superacumulado, propiciando que esse excesso de oferta não seja precificado para baixo, desvalorizando esse capital. Por outro lado, no médio e longo prazo, como o problema é maior quantidade de títulos de apropriação sobre um valor não produzido naquela magnitude, deve-se ampliar a produção de valor, o que implica elevar a taxa de exploração do trabalho. Por isso a necessidade de um novo ciclo de reformas, trabalhista, da previdência, e novas privatizações.

O significado disso é que, assim como na maior parte da economia mundial, o capital procura sair de sua própria crise repassando a conta do ajuste para a classe trabalhadora. Se ele for bem sucedido, como parece que está sendo, a síntese que, talvez, caracterize melhor nosso futuro é: “capitalismo e barbárie”.

Notas:

[1] John Maynard Keynes (1883-1946): economista e financista britânico. Sua Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro (1936) é uma das obras mais importantes da economia. Esse livro transformou a teoria e a política econômicas, e ainda hoje serve de base à política econômica da maioria dos países não-comunistas. Confira o Cadernos IHU Ideias n. 37, As concepções teórico-analíticas e as proposições de política econômica de Keynes, de Fernando Ferrari Filho. Leia, também, a edição 276 da Revista IHU On-Line, de 06-10-2008, intitulada A crise financeira internacional. O retorno de Keynes. (Nota da IHU On-Line)

FONTEIHU On-Line

domingo, 1 de julho de 2018

Todo o mundo ocidental vive em dissonância cognitiva

Por Paul Craig Roberts

Neste artigo vou utilizar três das notícias actuais para ilustrar a desconexão que permeia toda a mente ocidental. 

Vamos começar com a questão da separação familiar. A separação de filhos dos pais imigrantes/refugiados/asilados provou tal protesto público que o presidente Trump recuou na sua política e assinou uma ordem executiva terminando a separação familiar. 

O horror a crianças aprisionadas em armazéns operados por negócios privados com lucros extraídos dos contribuintes estado-unidenses, enquanto os pais são processados por entrada ilegal no país, desperta do seu estupor mesmo americanos "excepcionais e indispensáveis" satisfeitos consigo próprios. É um mistério que o regime Trump opte por desacreditar sua política de fiscalização de fronteiras com a separação de famílias. Talvez a política pretendesse deter a imigração ilegal enviando a mensagem de que se você vier para a América os seus filhos lhe serão tomados. 

A questão é: Como é que americanos podem ver e rejeitar esta desumana política de controle de fronteiras e não ver a desumanidade da destruição de famílias que tem sido o resultado predominante da destruição por Washington, no todo ou em parte, de sete ou oito países no século XXI. 

Milhões de pessoas foram separadas das suas famílias pela morte infligida por Washington e, durante quase duas décadas, os protestos têm sido praticamente inexistentes. Nenhum clamor público travou George W. Bush, Obama e Trump de actos clara e indiscutivelmente ilegais definidos no direito internacional estabelecido pelos próprios EUA como crimes de guerra contra os habitantes do Afeganistão, Iraque, Líbia, Paquistão, Síria, Iémen e Somália. Podemos acrescentar a isto um oitavo exemplo: Os ataques militares pelo estado fantoche neo-nazi da Ucrânia, armado e apoiado pelos EUA, contra a secessão de províncias russas. 

As mortes maciças, destruição de cidades e infraestrutura, a mutilação física e mental, a deslocação que lançou milhões de refugiados a fugirem das guerras de Washington para inundarem a Europa, onde os governos consistem de uma colecção de palhaços idiotas que apoiarem os crimes de guerra de Washington no Médio Oriente e Norte de África, não produziram clamor comparável ao da política imigratória de Trump. 

Como é possível que americanos possam ver desumanidade na separação de famílias por imposição do organismo de imigração mas não nos crimes de guerra maciços cometidos contra povos em oito países? Estaremos nós a experimentar uma forma de psicose em massa de dissonância cognitiva

Vamos agora ao segundo exemplo: a retirada de Washington do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. 

Em 2 de Novembro de 1917, duas décadas antes do holocausto atribuído à Alemanha nacional-socialista, o secretário britânico dos Negócios Estrangeiros, James Balfour, escreveu a Lord Rothschild que a Grã-Bretanha apoiava tornar a Palestina uma pátria judia. Por outras palavras, o corrupto Balfour descartava os direitos e as vidas de milhões de palestinos que haviam ocupado a Palestina durante dois milénios ou mais. O que eram estas pessoas em comparação com o dinheiro de Rothschild? Elas eram nada para o secretário britânico dos Negócios Estrangeiros. 

A atitude de Balfour em relação aos direitos dos habitantes da Palestina é a mesma atitude britânica em relação aos povos em cada colónia ou território sobre o qual prevaleceu o poder britânico. Washington aprendeu este hábito e tem-no sistematicamente repetido. 

Ainda outro dia a embaixadora de Trump na ONU, Nikki Haley, a enlouquecida e insana cadelazinha de Israel, anunciou que Washington se havia retirado do Conselho de Direitos Humanos da ONU devido a "um esgoto de viés político" contra Israel. 

O que fez o Conselho de Direitos Humanos da ONU para justificar esta repreensão da agente de Israel, Nikki Haley? O Conselho de Direitos Humanos denunciou a política de Israel de assassinar palestinos – médicos, crianças pequenas, mulheres, idosas e idosos, pais e adolescentes. 

Criticar Israel, não importa quão grande e óbvio seja o seu crime, significa que você é um anti-semita e um "negador do holocausto". Para Nikki Haley e Israel, isto coloca o Conselho de Direitos Humanos da ONU nas fileiras dos nazis adoradores de Hitler. 

O absurdo disto é óbvio, mas poucos, se é que algum, podem detectá-lo. Sim, o resto do mundo, com a excepção de Israel, denunciou a decisão de Washington, não só os inimigos de Washington e do palestino como até os seus fantoches e vassalos. 

Para ver a desconexão é necessário prestar atenção ao fraseamento das denúncias de Washington. 

Um porta-voz da União Europeia disse que a retirada de Washington do Conselho de Direitos Humanos da ONU "arrisca minar o papel dos EUA como um campeão e apoiante da democracia na cena mundial". Pode alguém imaginar uma declaração mais imbecil? Washington é conhecida como um apoiante de ditadura que aderem à sua vontade. Washington é conhecida como uma destruidora de toda democracia latino-americana que tenha eleito um presidente que representasse o povo do país e não os bancos de Nova York, os interesses comerciais dos EUA e a política externa estado-unidense. 

Mencione um lugar onde Washington tenha sido um apoiante da democracia. Só para falar dos anos mais recentes, o regime Obama derrubou o governo democraticamente eleito de Honduras e impôs ali o seu fantoche. O regime Obama derrubou o governo democraticamente eleito na Ucrânia e impôs ali um regime neo-nazi. Washington derrubou os governos na Argentina e no Brasil, está a tentar derrubar o governo da Venezuela e tem a Bolívia na sua alça da mira, juntamente com a Rússia e o Irão. 

Margot Wallstrom, ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, disse: "Entristece-me que os EUA tenham decidido retirar-se do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Ela vem num momento em que o mundo precisa de mais direitos humanos e uma ONU mais forte – não o oposto". Por que razão Wallstrom pensa que a presença de Washington, um conhecido destruidor de direitos humanos – basta perguntar aos milhões de refugiados dos crimes de guerra de Washington que inundam a Europa e a Suécia – fortaleceria ao invés de minar o Conselho? A desconexão de Wallstrom é estarrecedora. Ela é tão extrema que se torna inacreditável. 

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Julie Bishop, falou como o mais bajulador de todos os vassalos de Washington quando disse estar preocupada com o "viés anti-Israel" do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Aqui temos uma pessoa com o cérebro lavado tão absolutamente que é incapaz de se conectar a qualquer coisa real. 

O terceiro exemplo é a "guerra comercial" que Trump lançou contra a China. A afirmação do regime de Trump é que devido a práticas injustas a China tem um excedente comercial contra os EUA de aproximadamente US$400 mil milhões. Esta vasta soma supostamente deve-se a "práticas injustas" por parte da China. Nos factos reais, o défice comercial com a China deve-se à Apple, Nike, Levi e ao grande número de corporações dos EUA que deslocalizaram na China a produção das mercadorias que vendem aos americanos. Quando a produção deslocalizada de corporações estado-unidenses entra nos EUA elas são contadas como importações. 

Tenho apontado isto durante muitos anos, remontando mesmo ao meu testemunho perante a Comissão China do Congresso dos EUA. Tenho escrito numerosos artigos publicados por quase toda a parte. Eles estão resumidos no meu livro de 2013, The Failure of Laissez Faire Capitalism

Os media financeiros presstitutos, os lobistas corporativos, os quais incluem muitos economistas académicos com "nome", e os miseráveis políticos americanos cujo intelecto é quase não-existente são incapazes de reconhecer que o défice comercial maciço dos EUA é o resultado da deslocalização de empregos. Este é o nível da estupidez absoluta que domina a América. 

Em The Failure of Laissez Faire Capitalism, revelo o erro extraordinário de Matthew J. Slaughter, membro do Conselho de Assessores Económicos de George W. Bush, o qual de modo incompetente afirmou que para cada emprego estado-unidense deslocalizado seriam criados dois empregos nos EUA. Também revelei como uma farsa um "estudo" do professor Michael Porter da Universidade de Harvard feito para o chamado Conselho sobre Competitividade, um grupo de lobby para a deslocalização, o qual fabricou a afirmação extraordinária de que a força de trabalho dos EUA estava a beneficiar-se com a deslocalização dos seus empregos de alta produtividade e alto valor acrescentado. 

Os idiotas economistas americanos, os idiota media financeiros americanos e os idiotas responsáveis políticos americanos ainda não compreenderam que a deslocalização de empregos destruiu perspectivas económicas da América e empurrou a China para o primeiro plano 45 anos à frente das expectativas de Washington. 

Para resumir isto, a mentalidade ocidental e as mentalidades dos russos atlantistas-integracionistas e da juventude chinesa pró americana, estão tão cheias de insensatez propagandista que já não há conexão com a realidade. 

Há o mundo real e há o mundo propagandístico inventado que encobre o mundo real e serve interesses especiais. Minha tarefa é fazer com que o povo saia do mundo inventado e entre no mundo real. Apoio meus esforços. 

21/Junho/2018

O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/... 



sexta-feira, 29 de junho de 2018

SALVADOR ALLENDE, 110 AÑOS

Comparto nota en homenaje a la memoria de un enorme personaje de Nuestra América en el 110 aniversario de su nacimiento.



"ALLENDE: EL PRECURSOR OLVIDADO"

Por Atilio A. Boron

Es bien sabido que con el triunfo de la Revolución Cubana en 1959 América Latina y el Caribe reanudaron su marcha hacia su Segunda y Definitiva Independencia. El ascenso de Hugo Chávez a la presidencia de lo que luego sería la República Bolivariana de Venezuela es usualmente considerado como el segundo hito en esta larga marcha. Esto es indudable, pero pasa por alto una importantísima etapa intermedia, breve pero de enorme importancia: la que aportara el gobierno de Salvador Allende y la Unidad Popular en Chile, entre 1970 y 1973 y que es imprescindible rescatar del olvido en que ha sido sepultada por el inmenso aparato propagandístico de la derecha tanto dentro como fuera de Chile.



Allende llega al Palacio de la Moneda con un programa de gobierno que nada tiene que envidiar al que luego procurarían implementar -en un contexto internacional, económico y político mucho más favorable- los gobiernos bolivarianos de Venezuela, Bolivia y Ecuador. Hombre de inconmovible convicciones socialistas Allende no demoró un segundo en aplicar el programa de la UP, adoptando trascendentales medidas como la nacionalización de las riquezas básicas de Chile: la gran minería del cobre, hierro, salitre, carbón y otras, en poder de empresas extranjeras –entre ellas los gigantes de la industria cuprífera: la Anaconda Copper y la Kennecott- y de los monopolios nacionales. Con una inversión inicial de unos 30 millones de dólares al cabo de 42 años la Anaconda y la Kennecott remitieron al exterior utilidades superiores a los 4.000 millones de dólares. No contento con esto Allende nacionalizó casi la totalidad del sistema financiero del país: la banca privada y los seguros, adquiriendo en condiciones ventajosas para su país la mayoría accionaria de sus principales componentes. Nacionalizó a la International Telegraph and Telephone (IT&T), que detentaba el monopolio de las comunicaciones y que antes de la elección de Allende había organizado y financiado, junto a la CIA, una campaña terrorista para frustrar la toma de posesión del presidente socialista. Recuperó la gran empresa siderúrgica, creada por el estado y luego privatizada. Aceleró y profundizó la reforma agraria, que con su predecesor democristiano había avanzado con pasos lentos y vacilantes. Una casi olvidada ley de la fugaz República Socialista de Chile (4 de Junio-13 de Septiembre de 1932) facultaba al presidente a expropiar empresas paralizadas o abandonadas por sus dueños. Se constituyó un “área de propiedad social” en donde las principales empresas que condicionaban el desarrollo económico y social de Chile (como el comercio exterior, la producción y distribución de energía eléctrica; el transporte ferroviario, aéreo y marítimo; las comunicaciones; la producción, refinación y distribución del petróleo y sus derivados; la siderurgia, el cemento, la petroquímica y química pesada, la celulosa y el papel) pasaron a estar controladas por el estado. Todo esto hizo Allende en los pocos años de su gestión, aparte de crear una gran editorial popular, Quimantú, para acercar la cultura universal a chilenas y chilenos y de devolver la dignidad a un pueblo por décadas sometido al yugo de una feroz oligarquía neocolonial.



Y todo, absolutamente todo, lo hizo el gobierno de la UP sin salirse del marco constitucional y legal vigente, pese a lo cual la oposición: la vieja derecha oligárquica y sectores progresivamente mayoritarios de la democracia cristiana se arrastraron sin el menor recato por el fango de la ignominia, arrojando por la borda su (siempre escaso) respeto por las normas democráticas para fungir como agentes locales de las maniobras criminales de la reacción imperialista. Aquéllas habían sido desatadas por Washington la misma noche del 4 de Septiembre de 1970, cuando aún se estaban contando los votos que darían el triunfo a la UP. Furioso, el bandido de Richard Nixon, ordenó sabotear a cualquier precio al inminente gobierno de Allende. El asesinato del general constitucionalista René Schneider, poco antes que el Congreso Pleno ratificara su triunfo, fue apenas el primer eslabón de una tétrica cadena que con la dictadura de Pinochet sembraría muerte y destrucción en Chile. La permanente solidaridad de Allende con la Revolución Cubana y con todas las causas emancipatorias de la época, antes y después de asumir la presidencia, fue otro de los factores que encendió las iras de la Casa Blanca y su terminante decisión de acabar con él. En 1967, y en su calidad de Presidente del Senado de Chile Allende había acompañado en persona a Pombo, Urbano y Benigno, los tres sobrevivientes de la guerrilla del Che en Bolivia, para garantizar su seguro retorno a Cuba. Por eso el desafío que planteaba el médico chileno: la construcción de un socialismo “con sabor a vino tinto y empanadas”, precursor del socialismo del siglo veintiuno, era viscerablemente inaceptable para Washington y merecedor de un ejemplar escarmiento. Especialmente cuando el imperio, agobiado por la inminencia de una derrota catastrófica en Vietnam, sentía la necesidad de asegurar la incondicional sumisión de su “patio trasero”. Pero Allende, un marxista sin fisuras, no cedió un ápice, ni en sus convicciones ni en las políticas que perseguía su gobierno. Y lo pagó con su vida, como lo dijera en su alocución final por radio Magallanes ese aciago 11 de Septiembre de 1973. Y este 26 de Junio, al cumplirse 110 años de su nacimiento, se impone un sentido homenaje a esa figura universal, querible e imprescindible de Nuestra América, el gran precursor del ciclo de izquierda que se iniciaría en diciembre de 1998 en Venezuela.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Crivella veta lei que declara Quilombo da Pedra do Sal Patrimônio Imaterial do Rio

Especialistas consideram medida uma afronta à cultura e ao movimento negro

   
POR ELIS BARTONELLI


Pedra do Sal é palco de manifestações artísticas do Rio - Gabriel de Paiva / Agência O Globo




RIO - O prefeito Marcelo Crivella vetou, nesta quarta-feira, dia 27, o Projeto de Lei nº 346, que declara o Quilombo da Pedra do Sal Patrimônio Cultural Imaterial do Município do Rio de Janeiro. Situado na Zona Portuária do Rio, era ali que escravos africanos descarregavam sal importado de Portugal. Foi naquele local também que nasceu a região da Pequena África, principal reduto da comunidade afro-brasileira no Rio, e onde surgiram e a ainda acontecem diversas manifestações culturais da cidade, como ranchos carnavalescos e o samba.

A medida acirra ainda mais a série de atritos envolvendo o chefe do executivo da cidade e bens imateriais referentes ao movimento negro no município. No ano passado, a prefeitura do Rio e a Secretaria municipal de Cultura suspenderam o patrocínio do Jongo da Serrinha, tombado em 2005 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pelos 50 anos dedicados à preservação do jongo como Patrimônio Imaterial do Sudeste.

FONTE: O Globo

Domenico Losurdo (1941-2018)

Perda imensurável para o pensamento crítico mundial, o filósofo italiano Domenico Losurdo deixa um precioso legado para o pensamento marxista. Leia aqui as páginas finais de sua última obra publicada em vida: "O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer".

Domenico Losurdo na sede da Boitempo em 2017. Foto de Heleni Andrade.
É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de Domenico Losurdo, um dos maiores e mais originais filósofos marxistas da atualidade, querido amigo e camarada. Ele nos deixou nesta manhã de quinta-feira, dia 28, aos 77 anos, vítima de um súbito câncer cerebral. Perda imensurável para o pensamento crítico mundial, Losurdo deixa um precioso legado para o pensamento marxista. Suas reflexões, sempre afiadas e eruditas, concentram-se na crítica radical ao liberalismo, ao capitalismo, ao imperialismo e à “tradição colonialista”. Sua última obra publicada em vida é O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer. Como forma de homenagem, disponibilizamos abaixo as páginas finais da obra, em que Losurdo reflete sobre as condições para o renascimento do marxismo no ocidente. A TV Boitempo está atualmente preparando a publicação de uma série inédita de vídeos com ele sobre comunismo e revolução no século XXI.

Oriente e Ocidente: do cristianismo ao marxismo

Por Domenico Losurdo.

Nascido no coração do Ocidente, com a Revolução de Outubro, o marxismo se difundiu por todo o mundo, penetrando com força em países e áreas em condições econômicas e sociais mais atrasadas e com uma cultura muito diferente. Tendo atrás de si a tradição judaico-cristã, o marxismo ocidental, como vimos, não poucas vezes evoca motivos messiânicos (a espera por um “comunismo” concebido e sentido como a resolução de todos os conflitos e contradições e, portanto, como uma espécie de fim da história). Mas o messianismo está francamente ausente numa cultura como a chinesa, em geral caracterizada, em seu desenvolvimento milenar, pela atenção reservada à realidade mundana e social.

A expansão planetária do marxismo é o início de um processo de distanciamento, que é a outra face de uma retumbante vitória. É aquilo que historicamente se verificou no caso das grandes religiões. No que se refere ao cristianismo, que não por acaso Engels insistentemente compara com o movimento socialista, a divisão entre ortodoxos, de um lado, e protestantes e católicos, de outro, corresponde, grosso modo, à divisão entre Ocidente e Oriente. A certa altura, entre o fim do século XVII e o início do século XVIII, o cristianismo parecia prestes a se expandir amplamente também no Oriente asiático: gozavam de grande prestígio e exerciam notável influência na China os missionários jesuítas, que levavam consigo conhecimentos médicos e científicos avançados e, ao mesmo tempo, se adaptavam à cultura do país que os hospedava, rendendo homenagem a Confúcio e ao culto dos antepassados.

Porém, diante da intervenção do papa em defesa da pureza originária da religião cristã-católica, o imperador chinês reagiu fechando as portas do Império do Meio aos missionários. O cristianismo era bem-vindo quando aceitava sua sinificação e promovia o desenvolvimento científico, social e humano do país em que era chamado a operar; era, no entanto, repelido como corpo estranho quando visto como uma religião que promovia uma salvação sobrenatural nem um pouco respeitosa com a cultura e os laços humanos e sociais vigentes no país em que se encontrava.

Algo semelhante aconteceu com o marxismo. Já com Mao, o Partido comunista chinês promoveu a “sinificação do marxismo” e com isso ganhou impulso para a luta de libertação do domínio colonial, para um desenvolvimento das forças produtivas capaz de possibilitar a realização da independência também no plano econômico e tecnológico, para o “rejuvenescimento” de uma nação de civilização milenar, submetida pelo colonialismo e pelo imperialismo ao “século de humilhações” iniciado com as guerras do ópio. Longe de ser negada, a perspectiva socialista e comunista é orgulhosamente proclamada pelos dirigentes da República Popular da China: tal perspectiva, porém, está despida de todo caráter messiânico; além disso, sua realização está ligada a um processo histórico muito longo, no decorrer do qual a emancipação social não pode ser separada da emancipação nacional. E, de novo, o repúdio provém do Ocidente, guardião da ortodoxia doutrinária, do marxismo ocidental.

Este, agora, fustiga o marxismo oriental, que é pintado como desprovido de credibilidade e, portanto, banal do ponto de vista de um marxismo fascinado pela beleza do futuro remoto e utópico que ele mesmo evoca, e cujo advento parece ser independente de qualquer condicionamento material (quer se trate da situação geopolítica ou do desenvolvimento das forças produtivas), por ser determinado exclusivamente ou de modo absolutamente prioritário pela vontade política revolucionária.

O desencanto, o distanciamento, a cisão de que aqui se fala não visam somente a China: seguido pelo marxismo ocidental com atenção partícipe e apaixonada enquanto opunha resistência épica a uma guerra colonial de décadas que teve como protagonistas, primeiro, a França, depois, os Estados Unidos, embora hoje quase sepultado no esquecimento, é o Vietnã que está empenhado na prosaica tarefa da edificação econômica. A própria Cuba já não suscita o entusiasmo dos anos em que lutava contra a agressão militar executada (sem sucesso) em 1961 e por longo tempo preparada por Washington. Agora que o perigo da intervenção militar passou a ser remoto, os dirigentes comunistas de Cuba almejam reforçar a independência no plano, também e sobretudo, econômico, e para alcançar esse resultado sentem-se obrigados a fazer algumas concessões ao mercado e à propriedade privada (inspirando-se de modo bastante cauteloso no modelo chinês). Pois bem, a ilha, que já não se assemelha à utopia em pleno desenvolvimento, mas se revela às voltas com as dificuldades próprias do processo de construção de uma sociedade pós-capitalista, mostra-se bem menos fascinante aos olhos dos marxistas ocidentais. Quando estava em seu estágio inicial, aquele da luta militar pela independência política, a revolução anticolonial raramente suscitou no marxismo ocidental a atenção empática e o interesse teórico que ela merecia; agora que a revolução anticolonial está em seu segundo estágio, o estágio da luta pela independência econômica e tecnológica, o marxismo ocidental reage com uma postura marcada pelo desinteresse, pelo desdém, pela hostilidade.

A cisão entre os dois marxismos se deu pela incapacidade do marxismo ocidental em reconhecer a guinada da guinada ocorrida no século XX. Enquanto se adensam as nuvens de uma nova grande tempestade bélica, tal cisão se mostra ainda mais lamentável. É hora de dar cabo dela. Naturalmente, nem por isso se dissiparão as diferenças que subsistem entre Oriente e Ocidente no que se refere à cultura, ao estágio do desenvolvimento econômico, social e político, e às tarefas a serem enfrentadas: no Oriente, a perspectiva socialista não pode abrir mão de concluir, em todos os níveis, a revolução anticolonial; no Ocidente, a perspectiva socialista passa pela luta contra um capitalismo que é sinônimo de aprofundamento da polarização social e de crescentes tentações militares.

No entanto, não vemos motivos para a transformação de tais diferenças em antagonismo. Sobretudo agora que a excomunhão do marxismo oriental pelo marxismo ocidental promoveu o fim, não do excomungado, mas do excomungador. A superação de todo comportamento doutrinário e a disponibilidade de se confrontar com o próprio tempo e de filosofar em vez de profetizar são a condição necessária para que o marxismo possa renascer e se desenvolver no Ocidente.



terça-feira, 26 de junho de 2018

O Marxismo Ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer

Novo livro de Domenico Losurdo, lançamento da Boitempo Editorial

Nascido no coração do Ocidente, o marxismo se disseminou, com a Revolução de Outubro, por todos os cantos do mundo, desenvolvendo-se de maneiras diferentes e contrastantes, de acordo com o contexto histórico, social e econômico. À diferença do oriental, o marxismo ocidental perdeu o vínculo com a revolução anticolonialista mundial – ponto de virada decisivo do século XX – e acabou sofrendo um colapso. 

Em seu novo livro, Domenico Losurdo conta a parábola do marxismo ocidental: seu nascimento, sua evolução e sua queda. Uma obra polêmica e combativa, que pode ser considerada uma espécie de acerto de contas com o percurso do marxismo ocidental, repassando toda a sua trajetória até suas figuras atuais, como Slavoj Žižek, David Harvey, Alain Badiou, Giorgio Agamben e Antonio Negri, sem deixar de visitar pensadores já clássicos como Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, György Lukács, Herbert Marcuse, Louis Althusser, Ernst Bloch e Jean-Paul Sartre. Losurdo diagnostica a “morte” do marxismo ocidental, retraça sua gênese e coloca questões decisivas: seu renascimento seria possível nos dias atuais? Sob quais condições?



Trecho da obra

“A história que me proponho reconstruir começa a se delinear entre agosto de 1914 e outubro de 1917, entre a eclosão da Primeira Guerra Mundial e a vitória da Revolução de Outubro. Na esteira desses dois acontecimentos históricos, o marxismo conhece uma difusão planetária que o projeta para além das fronteiras do Ocidente em que permanecera confinado na época da Segunda Internacional. No entanto, há o outro lado da moeda desse triunfo: o encontro com culturas, situações geopolíticas e condições econômico-sociais tão distintas entre si estimula um processo interno de diferenciação, com o surgimento de contradições e conflitos antes desconhecidos. Para compreendê-los, somos obrigados a nos questionar sobre as motivações de fundo que levam à adesão ao movimento comunista e marxista que toma forma naqueles anos.”


quinta-feira, 21 de junho de 2018

Entrevista Completa de Anita Prestes à Revista Escrita da História

Entrevista gravada em 06 de abril de 2018, em Botafogo, Rio de Janeiro - RJ



Na décima primeira edição da série  de entrevistas "Caminhos da História", recebemos, para compartilhar sua trajetória e suas pesquisas, a professora doutora Anita Leocadia Prestes. Graduada na Escola Nacional de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1964, e mestre em Química pela mesma instituição em 1966, Anita Prestes doutorou-se em Economia Política no Instituto de Ciências Sociais na Rússia, em 1975, e doutorou-se em História na Universidade Federal Fluminense em 1989. Atualmente, é professora do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Currículo Lattes de Anita Prestes: http://lattes.cnpq.br/9123702879001302

Todos pela Educação Pública

Em época de eleição, cobre de seu candidato o compromisso com a defesa da escola pública de gestão pública, contra a terceirização e a privatização. É preciso distinguir quem de fato está disponível para defender nossas escolas públicas, no momento em que o Brasil aperta o passo em direção à retomada neoliberal privatista.

COMPROMISSO TODOS PELA ESCOLA PÚBLICA: esboço de um programa para defender nossas escolas públicas das forças liberais-conservadoras no Brasil neoliberal

Baixe aqui a íntegra da versão 1.3.



sexta-feira, 15 de junho de 2018

Lançamento: "Anísio Teixeira e o Conselho de Educação Superior nas Repúblicas Americanas: Cooperação ou Intervenção?"

Autoria: Fernando César Ferreira Gouvêa
Paco Editorial, 2018

Sinopse:

Este livro estuda a trajetória do Conselho de Educação Superior nas Repúblicas Americanas (Council on Higher Education in the American Republics – Chear). Uma instituição ainda não explorada pela historiografia da educação brasileira. O Chear foi criado em 1958 e encerrado em 1978 como um Programa Especial no âmbito do Institute of International Education com recursos financeiros oriundos da Carnegie Corporation e da Ford Foundation. O Chear tinha como objetivo o estudo de problemas educacionais relativos ao Ensino Superior e de interesse mútuo para os EUA, América Central e América Latina e estabelecer recomendações e soluções a estes problemas. Dentre os intelectuais participantes, destacamos Anísio Teixeira (Brasil), Juan Gómes Millas (Chile) e Risieri Frondizi (Argentina). A cada ano de existência do Chear, tornou-se mais ativa a participação do Departamento de Estado Norte-Americano, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), da União Pan-Americana e da United States Agency for International Development (USAID), no gerenciamento dos recursos financeiros. Desta forma, o livro tenta responder às seguintes indagações: Como explicar o silêncio sobre o Chear? Como compreender o processo de apagamento institucional se o Chear esteve presente no período democrático de 1958 a 1964? Afinal, houve cooperação ou intervenção? A tentativa de elucidar tais questões remete à compreensão que elas se inserem nos estudos dedicados ao Ensino Superior no Brasil no tempo presente, mesmo que num processo de retrospectiva, no qual a Universidade Pública no Brasil se vê ameaçada por uma onda neoconservadora que não derruba os prédios das universidades e, sim, espera que eles caiam por asfixia e que a noção do público se perca de dentro para fora qual um navio prestes a afundar e alguns são os escolhidos para sobreviver.

Sumário:

Capítulo 1: O Institute of International Education (IIE): A Instituição Gestora do Conselho de Educação Superior nas Repúblicas Americanas; Capítulo 2: O Conselho de Educação Superior nas Repúblicas Americanas: Intelectuais e Projetos à Sombra do Céu Pan-Americano (1958-1978).

Características:

ISBN: 9788546211678
Autor: Fernando César Ferreira Gouvêa
Editora: Paco Editorial
Edição: 1ª Edição
Área: Educação
Idioma: Português
Ano de Publicação: 2018

Número de Páginas: 244
Acabamento: Brochura
Formato: 14x21 cm

Anita Prestes fala sobre os intelectuais e ideologia dominante

Anita Prestes no lançamento do livro "Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo".
Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (Jura), na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
30/05/2018.


"Caminhos da História":entrevista de Anita Prestes à Revista Escrita da História
Entrevista gravada em 06 de abril de 2018, em Botafogo, Rio de Janeiro - RJ

Anita Prestes: Intelectuais e ideologia dominante (Parte 6)


Anita Prestes: Prestes, ruptura com PCB e redemocratização (Parte 5)

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A propósito del 90 cumpleaños del Che

Socialismo es productividad más conciencia

Por Ernesto Che Guevara
 
 
Ernesto Che Guevara (1928-1967)
 
 
Discurso en la entrega de premios a obreros destacados del Ministerio de Industrias el 30 de abril de 1962.

Compañeros:
Compañeros trabajadores de todas nuestras industrias; compañeros trabajadores componentes del coro de la CTC, que nos ha dado una demostración del avance cultural de nuestro pueblo con sus magníficas interpretaciones; compañeros todos:
Realmente quisiera decirles que es un momento emocionante para mí el hablar ante esta asamblea. Hemos visto muchos actos de desprendimiento de la clase obrera, muchos actos de amor por su trabajo, por su patria y por su clase, y vemos cada momento que pasa como no hay otra salida, no hay otra manera de interpretar los hechos, no hay otra forma de actuar para un verdadero revolucionario consciente de sus deberes y, al mismo tiempo, deseoso de arribar al triunfo en el menor tiempo posible, no hay otro camino que el apoyo total, irrestricto en la clase obrera, siguiendo sus orientaciones, pulsando sus opiniones, pulsando sus emociones y tratando, a lo más en algún momento, de interpretar, quizá un ápice mejor la realidad, para ordenar o para insinuar algún pequeño cambio en el camino. Pero quien hace la historia, quien la hace día a día mediante el trabajo y la lucha cotidiana, quien la firma y la convierte en realidad en los grandes momentos, es la clase trabajadora, son los obreros, son los campesinos, son ustedes, compañeros, los creadores de esta Revolución, los creadores y sostenedores de todo lo que tiene de bueno; y es para ustedes, pues, para todo el pueblo trabajador, mi saludo más emocionado y más encendido en esta jornada. (Aplausos.)
(…) Podemos decir que la definición del socialismo es muy sencilla; se define por la productividad que está dada por la mecanización, por el empleo adecuado de las máquinas al servicio de la sociedad, y por un creciente aumento de la productividad y la conciencia, que está dada por el poner los trabajadores todo lo que de sí tienen, en beneficio de la sociedad; productividad, es decir, mayor producción, más conciencia; eso es socialismo, y nosotros, lo que tenemos ahora, es que construir el socialismo, aumentar la productividad y aumentar la conciencia día a día.
(…) Compañeros: Creo que sería obvio explicar el porqué del acto, y también el porqué de este acto en vísperas del Día Internacional de los Trabajadores. Nunca ninguna fecha más honrosa, ninguna fecha mejor recibida por los trabajadores del mundo entero, aun en las peores condiciones de dominio imperialista, que el Primero de Mayo.
Con esta reunión hemos pretendido, compañeros, nada más y nada menos que la dignificación plena del trabajo y la colocación del trabajo productivo en bien de la sociedad como tarea fundamental, digna del más alto elogio y al lado mismo de las otras dos grandes tareas revolucionarias de este momento, que se aúnan y complementan: la defensa del poder conquistado y el estudio, preparándose para nuevas tareas en el porvenir.
(…) esta Revolución ha sido generosa en dar en los primeros años y hoy ya no puede dar con la misma generosidad. Fue quizás algo dispendiosa en sus bienes, pero de eso si no nos arrepentimos, no podemos arrepentirnos de nuestros hospitales y de nuestras escuelas; no podemos arrepentirnos de nuestros becados y de la cantidad de campesinos que reciben, ahora sí, medicinas y atención médica en todos los rincones del país. Podemos quizás arrepentirnos de algún centro turístico demasiado elegante, pero en realidad también de los trabajadores, podemos quizá lamentar algún dinero invertido en una construcción que no era de las más necesarias. Sin embargo, en lo fundamental todo el dinero del pueblo ha ido a construcción de bienes sociales para el pueblo, bienes materiales que no se cuentan en pesos y centavos todos los días, pero que alivian el presupuesto familiar en todos los rincones del país.
Ahora, en este momento, tenemos que organizar uno de los lugares más difíciles, uno de los puntos más difíciles, más conflictivos para todos nosotros, un punto donde los capitalistas trabajan siempre para dividir a la clase obrera: es el salario. Ahora, teníamos que ir nosotros a regularlo otra vez, hacer que los menos, los menos «agraciados» digamos, los que tenían los salarios menores y las condiciones más difíciles, pudieran asegurar condiciones mínimas. Y para el futuro, para los nuevos ingresos de trabajadores, no para los actuales, planteamos, y lo planteamos ahora aquí y lo planteamos hace unos días también y lo plantearemos ante el pueblo entero de Cuba, ante todos los Sindicatos Nacionales y ante todos los Comités Sindicales, en cada lugar, donde haya obreros trabajando, plantearemos nuestra demanda de una regulación total del salario en Cuba, por lo menos en los sectores industriales del Ministerio de Industrias, y en poco tiempo en los otros sectores de la producción.
(…) No habrá diferencias en el futuro para los compañeros que trabajen en una rama u otra, porque partimos de la base que todo el conjunto de la producción industrial es un bien social, es un fondo básico de los trabajadores, y que no debe cargar sobre los trabajadores ni la desgracia de tener que trabajar en una industria poco rentable, ni la gracia excesiva de tener que trabajar en una industria de las muy rentables.
Simplemente, ahora todas las industrias son del pueblo y la rentabilidad media que se logre en ellas será el grado de nuestro desarrollo y medirá el grado de nuestro avance hacia el futuro.
(…) Debo decirles, compañeros, que si podemos ponernos de acuerdo en todo esto que proponemos, y que después se verá detalladamente, habremos dado un paso de avance que nos coloca entre los primeros países del mundo capaces de afrontar el problema de los salarios. Porque el salario es un viejo mal, es un mal que nace con el establecimiento del capitalismo cuando la burguesía toma el poder destrozando al feudalismo, y no muere siquiera en la etapa socialista. Se acaba, como último resto, se agota digamos, cuando el dinero cese de circular, cuando se llegue a la etapa ideal, al comunismo. (Aplausos.)
En salario, es decir, en dinero, se mide la distinta calificación de todos los que reciben algo por trabajar. En dinero se mide también el espíritu de trabajo de cada uno de los que trabajan en sus distintas calificaciones. El dinero es la única medida que puede abarcarlo todo, y en la época de la construcción del socialismo, en que todavía existen relaciones mercantiles, nosotros tenemos que trabajar con el dinero.
Eso sí, tenemos que llevar los salarios a un lenguaje lo más racional posible. Sería vano que yo tratara de explicarles a ustedes lo irracional de los salarios en Cuba, porque ustedes lo conocen mejor que yo, mucho mejor que yo, porque han vivido la injusticia de los salarios, porque saben, con la injusticia inmanente a la clase obrera, que a pesar de que a veces hay compañeros que reciben salarios muy remunerativos por alguna tarea, sin embargo, ha habido grandes sectores de la población que han recibido salarios de miseria durante muchos años.
Cuando nosotros nos quejamos ahora de la falta de cortadores de caña y nos olvidamos de lo duro que ha sido ese trabajo, del odio que ha generado el trabajador cubano hacia esa forma de explotación terrible que era el corte de caña; del hambre que seguía en el tiempo muerto; de las esperanzas cada año siempre frustradas de la clase obrera al llegar la época de la zafra. Nos olvidamos de que hoy los trabajadores quieren hacer cualquier cosa, ir a cooperativas o granjas, a cualquier lugar donde a veces el salario es más alto y donde las condiciones de trabajo son diferentes o donde, por lo menos, se olvidan un poco de hambres pasadas.
Y debemos recordar también el trabajo de los mineros en regiones separadas del país, en regiones aisladas, trabajando bajo tierra en condiciones insalubres, y que en el momento actual han unido a todas las incomodidades propias de su profesión el problema de los abastecimientos.
Y si recorremos así cada uno de los distintos sindicatos nacionales, veremos que la mayoría de los trabajadores de Cuba no tienen motivo ninguno de agradecimiento al capitalismo, ni tienen motivo alguno para recordar con nostalgias tiempos idos; en este presente de hoy, lleno de sacrificios, pero también lleno de esperanzas y de dignidad, es una etapa nueva en la historia de Cuba y es una etapa nueva en la historia de América, en la cual nos ha tocado la enorme dignidad de ser la vanguardia de la liberación. (Aplausos.)
(…) El día Primero de Mayo está ligado y todos lo sabemos, a la clase obrera del mundo entero. A veces nos olvidamos o nos olvidamos por un momento, de la significación de esa fecha. A veces nos olvidamos que Martí mismo fue testigo de la infamia que ha perdurado durante decenas de años, y que se ha convertido después en el símbolo de la lucha de los trabajadores por sus conquistas y por el poder.
El imperialismo naciente asesinaba a obreros un Primero de Mayo para afianzar la dominación de su clase, pero desde aquel Primero de Mayo hasta hoy la humanidad ha caminado muy rápido. Los mártires de Chicago, cada uno de ellos, al morir sentía y lo proclamaba, que estaban muriendo por la construcción de una sociedad nueva, sentían y lo proclamaban que su sacrificio no era en vano, que esa bandera de lucha sería recogida por los trabajadores de su país; y quizás alguno de ellos intuyera que su bandera, su ejemplo y su memoria, sería recogida por los trabajadores del mundo entero.
Pero cuando parecía que todavía por delante del imperialismo había muchos años de dominio completo del mundo, y que sólo éste sería testigo de las luchas entre imperialismos opuestos, entre la Alemania Imperial o la Inglaterra de aquellas épocas, o la Francia, o los Estados Unidos, al final de la primera gran Guerra Mundial surgió el primer Estado Socialista. Desde ese momento todo ha cambiado.
De pronto, los trabajadores de Rusia, dirigidos por el genio de Lenin… (Ovación), los trabajadores de Rusia, compañeros, pudieron tomar el poder y después de años de sacrificio sin cuento, al lado de los cuales nuestra situación actual es más que lo que pudieron soñar en aquellos momentos los luchadores soviéticos que defendían su libertad y el nuevo Estado obrero. Logró la Unión Soviética salir de aquella situación embarazosa, y tras cuatro años de guerra civil ya establecerse y ser reconocida definitivamente como un Estado soberano en el mundo. No lo logró nadie más que la fuerza y la decisión de los obreros. No había nadie que ayudara la decisión de los obreros soviéticos y el espíritu internacional de los obreros del mundo era la única fuerza, mal armada, mal comida, sin armas casi, sin vestidos, teniendo que soportar condiciones de miseria terrible, la clase obrera de la Unión Soviética fue forjando su porvenir allí.
Después de la gran Guerra Mundial -la Segunda- un rosario de países socialistas ya empezaron a hacer comprender al mundo que la era del capitalismo estaba tocando a su fin. La gran revolución china, después de veinte años de lucha de la misma intensidad (aplausos) también conquistaba el poder, aunque divididas, hermanas suyas en el Asia eran las repúblicas de Corea y Vietnam. (Aplausos.) Y el primer día de enero de 1959 huía un dictador de una pequeña isla del Caribe (aplausos), un grupo de guerrilleros románticos, sin ideología, barbudos como única… (Aplausos prolongados.) La barba y el fusil de mirilla eran la única representación que veía el imperialismo de este nuevo movimiento; muchachos jóvenes, fáciles de dominar; un cambio de nombre de los que se suceden a diario en los ámbitos de nuestra pobre América, digamos, una relación Frondizi-Guido (risas) ¡y todos contentos! Sin embargo, compañeros, esta vez los ojos sagaces del imperialismo se enturbiaron completamente (risas), no supieron ver detrás de aquel grupo de jóvenes sucios y barbudos, que entraban a la Habana, la gran avalancha de pueblo (aplausos) y todos nuestros hermanos de América, compañeros, cuando decían que no se podía en estos momentos hacer nada porque las condiciones no estaban maduras, la Revolución cubana les impulsaba al combate, gritándoles: ¡se maduran en el camino las condiciones! (Aplausos.)
Y cuando los compañeros de América razonaban: nuestro ejército es enormemente poderoso, está armado con las armas más modernas y tiene detrás el imperialismo, en la misma América la voz de la Revolución cubana les decía: ¡no hay ejército por poderoso que sea que pueda oponerse a un pueblo en armas! (Aplausos.)
Y cuando nos preguntan, compañeros, en qué pensaba Fidel pocos días después del desastre de Alegría de Pío, la voz de la Revolución cubana les contestaba: ¡pensaba en el poder para la clase obrera! (Aplausos.)
Y repetía nuestro líder una y otra vez: la clase obrera no debe luchar por migajas que le arrojan desde el banquete, la clase obrera tiene que luchar por el poder. (Aplausos.)
(…) Y nosotros, compañeros, ¿seremos espectadores tranquilos de esa contienda? Es que nosotros, compañeros, tenemos responsabilidades enormes; hemos dado el primer grito en América, hemos sido los actores de esta nueva época histórica para nuestro Continente; somos un ejemplo y tenemos responsabilidades de ejemplo. Debemos ser cada vez más firmes, cada vez más conscientes, defender todos nuestros frentes de lucha del enemigo que ataca día a día.
Porque no crea nadie que el enemigo imperialista estará quieto en Cuba porque tenga otra frontera de su largo bastión de iniquidades amenazado por allá por América, o en el otro lado, por el Asia, por el Africa. El enemigo imperialista atacará aquí en una forma u otra, pero atacará. Está buscando a cada momento la oportunidad para destruir a la Revolución.
(…) Debemos de seguir serenos, debemos mantener nuestro paso, debemos luchar por mantener y acrecentar nuestras conquistas y debemos luchar con todas nuestras fuerzas para que las fuerzas de la paz se impongan; debemos mostrar nuestra potencia para que no se equivoquen con nosotros, para que no pongan en peligro la paz del mundo aquí, por nuestra propia seguridad y por todos los pueblos del mundo. La imagen de fuerza que dé Cuba al mundo entero debe ser una advertencia para los imperialistas y debe ser un faro para todos los pueblos semicoloniales. Es decir, compañeros, nuestra responsabilidad es enorme.
(…) Recuerden los tímidos, o los escépticos, el camino enorme que ha recorrido la Revolución cubana, el paso seguro con que ha transcurrido, la misma fuerza que le permite reconocer sus errores ante la opinión pública, mostrar ante los trabajadores sus errores y aprestarse a corregirlos con ellos mismos, con el pueblo entero.
Recuerden, compañeros, ese largo camino; recuerden también que tenemos una fuerza militar organizada para defendernos de cualquier agresión; recuerden los miles y miles de becados que estudian preparándose para el porvenir, y cuando veamos todo eso tendremos una visión cada vez más clara de lo que nos espera, del gran porvenir de la Revolución cubana al lado de todos los pueblos del mundo, y juntos podremos gritar ahora como hemos gritado durante estos últimos años, con todas nuestras fuerzas desde la explosión de La Coubre: ¡Venceremos! (Ovación.)

FUENTE: Cubadebate

sábado, 9 de junho de 2018

"Caminhos da História":entrevista de Anita Prestes à Revista Escrita da História

Entrevista gravada em 06 de abril de 2018, em Botafogo, Rio de Janeiro - RJ

Revista Escrita da História - REH
Na décima primeira edição da série  de entrevistas "Caminhos da História", recebemos, para compartilhar sua trajetória e suas pesquisas, a professora doutora Anita Leocadia Prestes. Graduada na Escola Nacional de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1964, e mestre em Química pela mesma instituição em 1966, Anita Prestes doutorou-se em Economia Política no Instituto de Ciências Sociais na Rússia, em 1975, e doutorou-se em História na Universidade Federal Fluminense em 1989. Atualmente, é professora do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Currículo Lattes de Anita Prestes: http://lattes.cnpq.br/9123702879001302


Anita Prestes: Exílio na URSS e interesse por História (Parte 1)


Anita Prestes: O legado de Luiz Carlos Prestes para o Brasil (Parte 2)

Anita Prestes: O legado de Olga Benário e sua entrega aos nazistas (Parte 3)


Anita Prestes: Golpe de 1964, Jango e militares (Parte 4)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Entrevista de Anita Prestes à TV Universidade - UFMT

A historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, esteve em Cuiabá no dia 30 de maio de 2018 para lançar a obra "Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo" (Editora Boitempo, 2017), no Centrou Cultural da UFMT, durante a Jornada Universitária em defesa da Reforma Agrária (JURA).




Exposição - Luiz Carlos Prestes: “Fragmentos… testemunhos presentes em sua linha do tempo.”

Biblioteca Comunitária da UFSCar promove Exposição de objetos do acervo Luiz Carlos Prestes (um ilustre personagem da história brasileira, que foi militar e político comunista, uma das personalidades políticas mais influentes no país durante o século XX) 1898–1990.

Por Izabel da Mota Franco


O Departamento de Coleções de Obras Raras e Especiais (DeCORE) da Biblioteca Comunitária da UFSCar (BCo) promove a Exposição “Luiz Carlos Prestes: Fragmentos… testemunhos presentes em sua linha do tempo.” O período da exposição será de 08/06 a 09/07/2018 de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h45, gratuita e aberta a todos os interessados. Essa 1ª mostra reúne vários objetos que L.C.Prestes recebeu de presente de familiares, amigos, entre outros em diversas épocas de sua vida. Nota-se que cada objeto indiretamente se manifesta em sua “linha do tempo”, dentre os quais podemos destacar: Miniatura de gráfica clandestina dos comunistas nos anos de 1930 feita pelo artista José Mauro Hid da Silva de Oliveira, como forma de homenagem a Prestes, foto 1; Jogo de xadrez em marfim, chinês, oferecido a Prestes em sua viagem à China, 1959 ( as peças possuem características fisionômicas e culturais dos chineses) foto 2. Esses objetos que pertenceram a Prestes e muitos outros poderão ser conferidos nas Coleções Especiais da Bco/UFSCar.

Vejam fotos da exposição de objetos de Prestes na Biblioteca da UFSCarlos.

















sábado, 2 de junho de 2018

Ditadura abafou apuração de corrupção dos anos 70, revelam documentos britânicos

Papéis detalham como Brasil chegou a abrir mão de indenização por compra superfaturada de navios

Por Daniel Buarque

Documentos confidenciais históricos do governo do Reino Unido revelam que a ditadura brasileira atuou para abafar uma investigação de corrupção na compra de fragatas (navios de escolta) construídas pelos britânicos nos anos 1970. Os fatos narrados nos papéis ocorreram durante os governos dos generais Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1979).

Segundo os registros, em 1978 o Reino Unido estava disposto a investigar denúncia de superfaturamento na compra de equipamentos para a construção dos navios vendidos ao Brasil e se ofereceu para pagar indenização de pelo menos 500 mil libras ao Brasil (o equivalente a quase 3 milhões de libras hoje —ou R$ 15 milhões). 

Em 1º plano, fragata União deixa base em Niterói para atuar no Líbano  - Pedro Carrilho - 6.out.2011/Folhapress


Em vez de permitir e ajudar no inquérito que seria do interesse do Brasil, o regime militar abriu mão de receber o valor e rejeitou os pedidos britânicos para ajudar na investigação —que foi recebido com estranheza em Londres.  

“Os brasileiros claramente desejaram manter o assunto de forma discreta” , diz um dos documentos. “É evidente que eles não gostariam que mandássemos um time de investigadores e não iriam colaborar com um, se ele fosse. O embaixador concluiu que o risco de sérias dificuldades com as autoridades brasileiras, o que poderia ser levantado por uma investigação, não deve ser assumido” , diz outro trecho dos despachos diplomáticos a que a Folha teve acesso.

“Há um mistério até hoje não resolvido, e só agora revelado. Por que, diante de uma investigação detalhada ao Brasil, o governo brasileiro resolveu não apenas impedir a vinda de autoridades britânicas, como não quis o dinheiro que tinha líquido e certo para receber?” , questiona o pesquisador brasileiro João Roberto Martins Filho, responsável pela descoberta dos documentos.

Martins Filho é professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e desenvolveu  pesquisa nos arquivos da diplomacia britânica durante a ditadura brasileira durante período no King’s College de Londres.

Ele é autor do livro “Segredos de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)” (Ed. Prismas), em que revela a conivência do governo em Londres com a tortura no Brasil.

O caso dos navios está registrado em uma pasta de documentos diplomáticos intitulada “Alleged fraud and corruption by Vosper Thornycraft (UK) with government of Brazil” , que contém contém 139 páginas de registros históricos sobre o caso. A pasta foi fechada em 1978, e inclui documentos a partir de 1977 . 

Em entrevista à Folha, Martins Filho disse que teve primeiro contato com a pasta de documentos há dois anos, durante pesquisa em Londres, mas que só agora conseguiu finalizar a análise detalhada dos documentos. “Tem muito historiador que tem documentos que podem ser bombas, mas ninguém teve capacidade de analisar tudo até agora” , disse.

A denúncia revelada por ele diz respeito ao acordo firmado entre Brasil e Reino Unido em 1970 para a compra de seis fragatas, das quais quatro seriam construídas nos estaleiros da firma Vosper, no Sul da Inglaterra, e duas no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). 

O primeiro desses navios, a fragata Niterói, foi lançada ao mar em 8 de fevereiro de 1974 e incorporada a 20 de novembro de 1976. Ela foi seguida pelas fragatas Defensora, Constituição e Liberal. No Brasil, seriam construídas as fragatas Independência e a União.

Cada uma dessas fragatas tinha pouco mais de 129 metros de comprimento e capacidade para uma tripulação de 209 pessoas, com raio de ação de até 4.200 milhas náuticas. Elas continuam em uso pela Marinha brasileira.

FORÇA-TAREFA NO LÍBANO

Segundo o site da Marinha, no fim do ano passado, a Fragata União, por exemplo, regressou ao Brasil após capitanear a Força-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano. No início deste ano, a fragata Independência assumiu o lugar dela no país. Já a fragata Liberal foi recentemente aberta à visitação do público em Santa Catarina.

Segundo a investigação realizada em Londres nos anos 1970, o estaleiro britânico contratado para construir os navios pedia desconto aos fornecedores, que entregavam os equipamentos para a construção das fragatas, mas as notas fiscais saíam com o preço sem o desconto. “O equipamento era fornecido, mas não por aquele preço” , disse o professor.

Os documentos mostram que o governo inglês ficou preocupado porque depois do contrato se tornou o dono do estaleiro e recebeu a denúncia de fraude. Londres havia sido avalista de todas as notas do negócio, explicou Martins Filho, então o governo quis evitar ser acusado de ter responsabilidade. 

“A coisa foi tão séria que chegou ao Ministro de Relações Exteriores e até mesmo ao primeiro-ministro James Callaghan” , disse Martins Filho.

Segundo ele, após uma reunião com o representante do governo brasileiro em Londres, entretanto, os britânicos se mostravam surpresos porque o Brasil não fez nenhuma menção de cobrar reparação pelo que foi desviado. Em determinado trecho, um documento da pasta indica que os brasileiros preferiam que o assunto seja “deixado de lado” o mais rapidamente possível.

“O governo inglês fica sem entender por que o governo brasileiro não queria receber de volta o valor numa ordem de 500 mil libras” , diz Martins Filho.



sexta-feira, 1 de junho de 2018

América monstruosa*

Por António Santos 

Os EUA arrogam-se, em nome dos direitos humanos, o direito de derrubar governos e destruir países. É o “excepcionalismo EUA”. Mas até organizações norte-americanas que escrutinam as suas práticas internas denunciam não apenas as violações de tais direitos, mas o facto de, em vários casos, tais violações configurarem verdadeiros crimes contra a humanidade.

O governo dos EUA é responsável pela sistemática violação dos direitos humanos das crianças presas nos centros de detenção dos Serviços Aduaneiros e de Protecção Fronteiriça (CBP, na sigla inglesa). A conclusão é da centenária ACLU, União Americana pelas Liberdades Civis, e consta de um relatório divulgado na semana passada, baseado em mais de 30 mil documentos internos dos CBP relativos ao período entre 2009 e 2014. [ver "CBP Fails to Discredit Our Report on Abuse of Immigrant Kids"]

Separadas das famílias, as crianças capturadas a cruzar ilegalmente a fronteira com o México são enviadas para estes nebulosos «centros de detenção», pequenos Abu Ghraib onde não entram advogados, nem jornalistas, e presas dentro de «jaulas» (é esta a expressão que consta no relatório) sem cama nem latrina. Depois, os funcionários deitam fora «os pertences pessoais dos imigrantes, incluindo os seus documentos». E então começa a tortura.

«Os funcionários dos CBP recorrem frequentemente à violência contra as crianças», começa por avisar o relatório, mas à medida que se percorre as páginas e se somam às centenas os casos, torna-se difícil conceber que o alvo de uma violência tão monstruosa são adolescentes, crianças e bebés: um funcionário «atirou um jovem de 16 anos ao chão e esmagou-lhe a cabeça com a bota», pode ler-se; outro agente «atropelou uma criança de seis anos durante a detenção partindo-lhe uma perna (…) e recusou-lhe cuidados médicos»; o relatório prossegue «frequentemente, os funcionários disparam as armas de electrochoques contra as crianças, só por diversão».

E depois há os abusos sexuais: «obrigaram uma rapariga de 16 anos a despir-se, abriram-lhe as pernas e tocaram-lhe nas partes íntimas enquanto ela gritava». Outra queixosa, de 15 anos, denunciou que ameaçaram violá-la caso ela se recusasse a assinar um papel de «auto-deportação». No mesmo registo, um menino de 14 anos foi mantido durante uma semana nu na jaula, enquanto o ameaçavam com abusos sexuais, de forma a pressioná-lo a assinar o mesmo documento.

As condições, essas, são sempre infra e desumanas: há «fluídos humanos nas paredes e no chão, onde também se vê papel higiénico usado com fezes (…) o que causa um odor ofensivo»; há relatos de fome e crianças a quem é recusada água; há jovens grávidas a quem é dito que «vêm para aqui contaminar o nosso país» e mães adolescentes que se queixam a guardas indiferentes «de não terem leite para dar aos bebés, que choram de fome»; há crianças mais velhas, a quem é dado «sistematicamente leite estragado, o que causa várias intoxicações alimentares» e há o relato de «um funcionário [que] negou-lhe [a uma menina] analgésicos e pensos higiénicos após uma operação a um quisto nos ovários».

Estes crimes contra a humanidade, porque é isso que são, aconteceram durante o mandato de Obama. Sabe-se que com Trump a situação se agravou: os CBP têm hoje mais opacidade, mais armas de guerra, mais orçamento e mais crianças presas nos seus centros. Lembremo-nos disto da próxima vez que «Estados Unidos» e «direitos humanos» surgirem na mesma frase.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2322, 30.05.2018

FONTE: ODiario.info