domingo, 4 de junho de 2017

Livro traz revelações do arquivo da polícia nazista sobre Olga Benario

Documentados analisados por Anita Leocadia Prestes, filha de Olga, foram abertos em 2015

POR LEONARDO CAZES
O Globo


O último retrato de Olga Benario Prestes feito pela
Gestapo - Arquivo da Gestapo/Divulgação
RIO - Uma pasta, oito dossiês e cerca de 2 mil folhas dedicadas apenas a uma pessoa: Olga Benario Prestes. O acervo produzido pela Gestapo sobre a militante comunista e judia, chamado pela polícia secreta nazista de “Processo Benario”, é uma coleção impressionante. Inclui relatórios, depoimentos, fotografias e cartas enviadas e recebidas para Olga, desde sua saída do Brasil, em 1936, até sua morte na câmara de gás no campo de concentração de Ravensbrück, em 1942.

Os documentos digitalizados começaram a ser disponibilizados na internet em abril de 2015 e deram origem a “Olga Benario Prestes — Uma comunista nos arquivos da Gestapo” (Boitempo Editorial), escrito pela historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga e Luiz Carlos Prestes e nascida no cárcere alemão.

— Os documentos revelam a truculência dos nazistas, que se dispunham a recorrer a todo tipo de violência para arrancar de suas vítimas as informações que eram de interesse da Gestapo e das autoridades do III Reich — afirma Anita, em entrevista ao GLOBO por e-mail.

Os Arquivos da Gestapo foram apreendidos pelo exército soviético após a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra, em 1945, e levados para Moscou. Na década de 1960, o conjunto foi transferido para o Arquivo Central do Ministério da Defesa da antiga União Soviética e só foi tornado público em 2015, 70 anos após o fim do conflito. A perspectiva é que toda documentação seja digitalizada até 2018, numa parceria entre o Instituto Histórico Alemão em Moscou e a Fundação Max Weber.

— Que eu saiba, em geral, não se tinha conhecimento da existência desses Arquivos da Gestapo — conta Anita. — Há dois anos os arquivos foram disponibilizados, resultado de um acordo entre a Rússia e a Alemanha, que decidiram digitalizá-los para torná-los públicos. Ao tomar conhecimento do seu conteúdo, providenciei a tradução dos documentos para poder trabalhar com eles.

Cartaz da Campanha Prestes que pedia a
libertação de Olga e Anita - Arquivo Pessoal de
Anita Prestes/Divulgação
Entre os documentos do acervo, tornados públicos, está o passaporte emitido pelo consulado alemão para que Olga viajasse, grávida, para o país, em setembro de 1936. Desde sua prisão, em abril daquele ano, a militante recusou-se a fornecer seu nome verdadeiro, declarou que se chamava Maria Prestes e era casada com Luiz Carlos Prestes. Para identificá-la, Filinto Müller, chefe de polícia do governo de Getúlio Vargas, acionou o Itamaraty para conseguir, com a Gestapo, a confirmação do nome de Olga, cuja ficha na polícia secreta foi aberta na década de 1920, por causa de suas atividades consideradas subversivas. A França foi outro país que remeteu informações sobre Olga, a partir das impressões digitais fornecidas pelo governo brasileiro.

Os registros mostram que a comunicação de Olga com Prestes e a família sofreu diversas formas de censura. Após o nascimento de Anita, ela pediu às autoridades carcerárias que enviassem um telegrama ao Brasil para avisar o seu marido, preso no Brasil. Depois, escreveu uma carta com a notícia. As duas mensagens jamais deixaram a Alemanha e a notícia só se espalhou meses depois. Os documentos mostram que Olga também tentou registrar a criança como brasileira na embaixada do país em Berlim, mas seu desejo foi negado pelos governos da Alemanha e do Brasil.

CAMPANHA PRESTES

A relação do regime nazista com a bebê Anita foi marcada por contradições. Por um lado, os oficiais alemães permitiam que Olga recebesse os alimentos enviados por Leocádia e Lygia, mãe e irmã de Prestes, respectivamente. Manter a criança saudável era uma preocupação constante. Por outro lado, todas as tentativas de visita por parte de Leocádia e Lygia foram negadas. Olga também só foi avisada que seria separada da filha, entregue à família do marido, horas antes.

Para Anita, a pressão exercida pela Campanha Prestes, liderada por Leocádia, foi fundamental para garantir um tratamento digno a ela, algo que não ocorreu com os filhos de outras prisioneiras. A sua avó criou uma verdadeira rede internacional de apoio e chegou a viajar à Alemanha com um grupo de senhoras inglesas para tentar interceder pela libertação, mas sem sucesso. Postura oposta à da família de Olga, que vivia em Munique e não se interessou pela sua situação, recusando-se inclusive a receber a comitiva de Leocádia.

Documento de identificação de Anita, cedido pela
Gestapo para ela ser entregue à avó, Leocádia
Prestes - Arquivo da Gestapo/Divulgação
— A pressão exercida sobre as autoridades do III Reich pela Campanha Prestes levou a Gestapo a ter a preocupação de entregar a filha de Olga à avó em boas condições físicas. Por isso recebi um tratamento privilegiado em relação aos filhos de outras prisioneiras. Minha salvação se deveu à solidariedade internacional; razão por que me considero filha da solidariedade internacional — diz Anita.

As cartas trocadas por Olga dão uma dimensão humana à história. Olga, por exemplo, não sabia que sua mãe tinha se recusado a receber a comitiva de Leocádia e chegou a escrever para ela na esperança de obter ajuda. As cartas dirigidas a Prestes mostram um casal apaixonado, apesar da distância e da prisão de ambos. Após Anita ser entregue à avó, foi através das cartas que Olga recebia notícias do desenvolvimento da filha e fotografias. A historiadora diz que as cartas descobertas agora confirmam o que o restante da correspondência, publicada no livro “Anos tormentosos” (Paz e Terra), já apontava.

— Essas cartas atestam o grande amor existente entre meus pais. Conforme foi apontado pelo professor Robert Cohen (pesquisador alemão e autor de livro sobre a correspondência), embora a convivência entre eles tenha durado pouco mais de um ano, “a importância de uma relação não se mede por sua duração. Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benario e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas.”



FONTE: O Globo


Karl Marx: «Acerca del suicidio» (descarga gratis)

Este libro está compuesto de tres artículos de Karl Marx:
«Acerca del suicidio» (título original: Peuchet: vom Selbstmord), 1846;
«El encarcelamiento de Lady Bulwer-Lytton» (título original: The Imprisonment of Lady Bulwer Lytton), 1858;
«El aumento de la demencia en Gran Bretaña» (título original: The Increase of Lunacy in Great Britain), 1858.
Traducción, edición y estudio introductorio de Ricardo Abduca. Publicado en 2012 por Las Cuarenta, Buenos Aires, Argentina.

Link para download:


sábado, 3 de junho de 2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

Para download: HOBSBAWN, Eric. Sobre história

Link para download do livro HOBSBAWN, Eric. Sobre história:

https://drive.google.com/file/d/0B2QTZ6XmnexkSHQ0N19FWDZ3Ukk/view


Encontro com a historiadora Anita Prestes em Ouro Preto e Belo Horizonte (MG)

  • Palestra "A Revolução Russa (outubro de 1917) e a fundação do Partido Comunista no Brasil"
  • Lançamento do livro "Olga Benario Prestes - uma comunista nos arquivos da Gestapo"

Filha de Olga Benario narra morte da mãe a partir de arquivo da Gestapo

MARCO AURÉLIO CANÔNICO, DO RIO

"A descoberta de novos documentos é sempre um acontecimento feliz para o historiador, pois lhe permite completar, aprofundar e corrigir os conhecimentos sobre o tema por ele pesquisado."

A frase com que a historiadora Anita Leocadia Prestes, 80, abre sua obra mais recente define o critério de objetividade com que ela procura se debruçar sobre um tema histórico que lhe é profundamente pessoal: o assassinato de sua mãe, Olga Benario Prestes, pelo regime nazista.

Os documentos a que ela se refere vieram dos arquivos da Gestapo, a polícia secreta do Terceiro Reich alemão, e dizem respeito aos quase seis anos (1936-1942) em que Olga ficou sob o poder dos nazistas, até ser executada em um câmara de gás, aos 34 anos.



Apreendidos pelos soviéticos após o fim da Segunda Guerra e disponibilizados on-line em abril de 2015, foram a base para que a autora escrevesse a recém-lançada biografia "Olga Benario Prestes - Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo".

"Ainda em 2015 fui avisada por um historiador alemão, meu conhecido, da abertura do arquivo da Gestapo na internet", diz a autora à Folha, por e-mail. "Como a maior parte dos documentos está em alemão, contei com a colaboração de vários professores para a sua tradução, cujo conhecimento me motivou a escrever esse livro."

A vida da judia comunista entregue ao regime de Hitler pelo governo de Getúlio Vargas já havia sido tema de uma alentada biografia escrita por Fernando Morais e lançada em 1993 -depois adaptada para o cinema, em 2004.

Anita Leocadia diz que seu livro é "uma complementação" daquele e, nesse sentido, passa rapidamente pelos principais episódios da vida de sua mãe até sua prisão pela polícia de Vargas em abril de 1936 e sua extradição para a Alemanha, mesmo grávida, cinco meses depois.

O novo livro centra-se nos anos que Olga Benario passou sob poder dos nazistas. A quantidade de registros oficiais que as autoridades do Reich produziram sobre a prisioneira mostra a importância que atribuíam à "comunista obstinada e astuta".

São oito dossiês (cerca de 2.000 folhas) que a autora cogita ser "a coleção mais abrangente de documentos sobre uma única vítima do fascismo". Destacam-se no material as correspondências trocadas entre Olga e sua família, num total de 55 cartas.

"Os novos documentos confirmam o que já sabíamos a respeito da minha mãe: sua inaudita coragem e intrepidez revolucionária. Ela jamais delatou alguém, jamais abandonou seus compromissos de comunista convicta."

A papelada agora revelada também confirma algo de que Anita Leocadia já tinha ciência: o desinteresse da mãe de Olga, Eugenie Benario, pelo destino de sua filha e de sua neta, por conta da ligação dela com o comunismo.

"Muitos anos depois daqueles acontecimentos, tive contato com alguns primos distantes que me procuraram, mas os parentes próximos, a avó Eugenie e o tio Otto, morreram em 1943, como tantos outros judeus, em campos de concentração", conta a autora.

AUTOBIOGRAFIA

Concluída a obra sobre sua mãe, Anita Leocadia diz estar agora dedicada a escrever suas próprias memórias, que ela vê como "um complemento válido" à biografia de seu pai que ela publicou em 2015 ("Luiz Carlos Prestes: Um Comunista Brasileiro", ed. Boitempo).

"Em certa medida, se justifica pelo fato de, durante a minha já longa trajetória de vida, ter enfrentado as vicissitudes das perseguições movidas contra meu pai e nossa família", afirma.

Ela pretende narrar os "momentos históricos conturbados" por que passou e que a forçaram a longos períodos no exílio.

"Fui processada e condenada pelos tribunais militares da ditadura, tive os direitos políticos cassados, fui anistiada e acompanhei meu pai nos embates internos do PCB, partido em que cheguei a ser dirigente e do qual me afastei junto com Prestes."

A historiadora diz ainda que sua memória guarda "o registro de múltiplos acontecimentos inéditos e fatos pouco conhecidos ou falsificados pelos meios de comunicação a serviço dos interesses dos donos do poder".


domingo, 28 de maio de 2017

Vídeos da Série Realidade Brasileira

Série Realidade Brasileira: destinada aos estudos em escolas do ensino médio, universidades, bibliotecas públicas, pontos de cultura e movimentos sociais. O principal objetivo desta publicação é disponibilizar para a juventude um material preparado a partir de ampla pesquisa bibliográfica sobre os lutadores sociais brasileiros, contando com a contribuição de especialistas no tema. 

Realização: Editora Expressão Popular e Escola Nacional Florestan Fernandes










Pensando com Florestan Fernandes


Ruy Mauro Marini e a dialética da dependência


Maria Aragão e a organização popular


Pensando com Celso Furtado



Pensando com Paulo Freire


Pensando com Darcy Ribeiro

Pensando com Caio Prado Jr.


Pensando com Madre Cristina




O que se sabe de novo sobre a história de Olga Benario Prestes

Por José Orenstein 

Livro escrito pela filha da líder comunista reúne material inédito encontrada no arquivo da Gestapo, a polícia secreta nazista

ÚLTIMA FOTO DE OLGA, TIRADA EM 1939 NA SEDE DA GESTAPO DURANTE INTERROGATÓRIO EM BERLIM





“Estou de pleno acordo com as decisões tomadas, foram absolutamente necessárias em função da conhecida esperteza dessa comunista  fanática […] Benario se encontra em prisão preventiva e não em um sanatório, em virtude de não ser politicamente confiável, o que já se provou evidente. Benario terá de arcar com medidas mais rígidas e com a revogação de todos os benefícios, caso não se esforce em evitar comportar-se de modo insolente”. 

A “comunista fanática”, no caso, é Olga Benario Prestes, então presa em Berlim. As palavras são de Reinhard Heydrich, oficial nazista da Polícia de Segurança alemã, numa carta de fevereiro de 1938 para o diretor da prisão onde estava Olga. E a “insolência” é porque Olga reclamava que sua filha, Anita Leocadia Prestes, lhe havia sido subtraída, aos 14 meses de idade. 

Episódios como o descrito acima estão entre os achados do novo livro “Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo”, editado pela Boitempo, e lançado em maio de 2017. O livro é escrito pela própria Anita Leocadia Prestes, filha de Olga e Luiz Carlos Prestes. A historiadora, hoje com 80 anos, nasceu na prisão de Barnimstrasse, em Berlim, em 1936. Para escrever seu livro, ela pesquisou o extenso arquivo da Gestapo, a polícia secreta da Alemanha nazista, que começou a ser aberto em 2015. 

O arquivo da Gestapo 

Após a tomada de Berlim pelas forças da União Soviética, em maio de 1945, a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim. Naquele momento, os soviéticos ocuparam a Alemanha nazista. Os arquivos da Gestapo então foram confiscados e mantidos em Moscou até hoje. Trata-se de uma extensa e detalhada documentação das ações da polícia secreta nazista, que funcionou entre 1933 e 1945. 

Os arquivos guardam no total 2,5 milhões de documentos, entre cartas, relatórios, fotos e memorandos, divididos em 28 mil dossiês, que, por sua vez, são separados em 50 catálogos. 

Esse material é conhecido como os “Trophäendokumente”, os documentos-troféus, em alemão, pelo seu valor histórico. Eles começaram a ser digitalizados por institutos de pesquisa russos em parceria com a Fundação Max Weber e o Instituto Histórico Alemão em Moscou. O material está disponível on-line em alemão e em russo e foi aberto à consulta pública em abril de 2015. A digitalização e disponibilização do acervo completo deve ficar pronta em 2018. 

Em meio a todo esse material, chamam atenção 2.000 folhas que perfazem o “Processo Benario”, composto por oito dossiês. Trata-se da mais extensa documentação relacionada a uma única pessoa vítima do regime nazista: Olga Benario Prestes. 

O pesquisador alemão Roberto Cohen comenta a importância da coleção, em trecho citado no livro de Anita: “Esses documentos formam — dialética incontornável — uma abrangente autoapresentação dos criminosos e das ideologias, coações, mecanismos, organismos e estruturas que dirigiam. À medida que cuidam do arquivo do ‘Processo Benario’, dia após dia, os criminosos fazem o que não podem querer fazer: eles dão informações sobre si mesmos”. 

Com a ajuda de tradutores, Anita debruçou-se sobre esse arquivo e selecionou documentos para compor a narrativa sobre a história de sua mãe — que já foi tema de uma biografia de sucesso, “Olga”, de Fernando Morais, de 1985, e reeditado em 1994. A história de Olga também virou filme em 2004. 

A trajetória de Olga 

Olga Guttmann Benario foi uma das mais destacadas figuras revolucionárias do século 20. Nascida em 1908 em Munique, na Alemanha, ainda adolescente, aos 15 anos, aderiu à Juventude Comunista, ligada ao Partido Comunista da Alemanha, onde seu namorado, Otto Braun, era um dirigente importante. 

Perseguidos pelas autoridades policiais da Alemanhã social-democrata, ambos foram exilados para Moscou, onde Olga virou dirigente da Juventude da Internacional Comunista. 

Na União Sovíética, Olga ascendeu na hierarquia comunista e, no fim de 1934, foi encarregada de cuidar da segurança de Luiz Carlos Prestes — que havia comandado a Coluna Prestes nos anos 1920 no Brasil e que, depois, aderira ao comunismo, se tornando a principal liderança comunista no Brasil. Prestes havia se mudado para União Soviética em 1931. 

Prestes e Olga chegaram clandestinamente no Brasil em abril de 1935 e, no caminho, se tornaram um casal. Em novembro daquele ano, a Intentona Comunista agitada pelo casal fracassou e, em março de 1936, Olga e Prestes foram presos e separados. Eles nunca mais se viram. Ou seja, o casal esteve junto por pouco mais de um ano: entre dezembro de 1934 e março de 1936. 

Na prisão, Olga descobriu que estava grávida. Mesmo assim, ela foi deportada para Alemanha em setembro de 1936, com sete meses de gestação, por ser uma agitadora comunista e judia. A extradição autorizada por Getúlio Vargas era vista como uma forma de pressionar Prestes a entregar informações sobre a organização dos comunistas no Brasil. Naquele momento, Vargas flertava com o fascismo em alta na Europa — no ano seguinte, em 1937, ele instauraria a ditadura do Estado Novo. 

Olga ficou na prisão feminina de Barnimstrasse, em Berlim, onde nasceu, em novembro de 1936, Anita Leocadia Prestes — nome em homenagem à revolucionária Anita Garibaldi e a Leocadia Prestes, mãe de Luiz Carlos. Em janeiro de 1938, a pequena Anita foi entregue à avó Leocadia, que vivia em Paris. Olga foi transferida para o campo de concentração de Lichtenburg em fevereiro e, em maio de 1939, foi enviada para o então recém-inaugurado campo de concentração para mulheres de Ravensbrück. Em abril de 1942, Olga foi assassinada na câmara de gás. A família só soube de sua morte em julho de 1945. 

O que o arquivo revela 

A documentação aberta por Anita revela novos episódios sobre a trajetória de Olga. Ao longo do livro, há diversas referências aos movimentos da revolucionária desde que ela é extraditada até sua morte. Ao Nexo, Anita destacou três momentos que a abertura dos arquivos da Gestapo permitiu descobrir: 

1) PASSAPORTE 

Os documentos da Gestapo revelam que o consulado alemão no Rio de Janeiro concedeu um passaporte para Olga em setembro de 1936, pouco antes de sua extradição. Olga se negou a assiná-lo. Ela tentava provar que havia se casado com Prestes — coisa que nunca conseguiu fazer oficialmente, pois ambos eram clandestinos — e que tinha que ficar no Brasil, pois ia dar à luz um filho brasileiro. A emissão do passaporte seguia o trâmite burocrático da época para que Olga fosse extraditada. No documento, está anotado que ela se recusou a assiná-lo.

CÓPIA DO PASSAPORTE EMITIDO PELO CONSULADO ALEMÃO ANTES DA EXTRADIÇÃO EM 1936 DE OLGA





2) CARTA À GESTAPO 

Segundo Anita, é especialmente relevante a carta enérgica que Olga escreveu, em fevereiro de 1938, ao chefe da Polícia de Segurança alemã, ligada à Gestapo, protestando por terem retirado a filha de sua companhia sem aviso prévio e sem que pudesse ter entregado a criança à avó paterna. Anita descreve a carta como “extraordinariamente corajosa”. No documento, que está reproduzido no livro, Olga pede a revisão da sua prisão e, se isso fosse negado, requeria a revogação da prisão solitária, a permissão para receber cartas em francês de sua sogra, Leocadia (que não falava alemão), para saber sobre Anita, e a autorização para receber visitas. Todos os pedidos foram negados pelo chefe da polícia, como mostra carta reproduzida no livro — e cujo trecho está reproduzido acima, no primeiro parágrafo deste texto. 

3) RELATÓRIO DA GESTAPO 

Em agosto de 1937, Heinrich Himmler, o comandante da SS (braço militar nazista que supervisionava a Gestapo), recebeu um detalhado relatório sobre Olga. Nele, conta-se que Olga — presa em Berlim desde 1936 — esteve em Paris, provavelmente como agente da Internacional Comunista em 1933, que casou com Prestes em Moscou, embora não se ache certidão que confirme o fato, e que era cidadã alemã. O relatório afirma que ela é “uma comunista perigosa e obstinada” e que “durante o interrogatório realizado não relatou nada sobre sua atividade comunista; a continuidade de sua permanência na prisão é, por isso, necessária no interesse da segurança do Estado”. O fato desse relatório ter chegado a um dos principais dirigentes nazistas mostra a importância dada a Olga pelo Terceiro Reich. 

Resistência e troca de cartas 

Chama atenção também na documentação da Gestapo a resistência contínua de Olga na prisão e nos campos de concentração. Ela passou por diversos interrogatórios e questionamentos, mas, em nenhum momento, colaborou com o regime nazista. Seguidas vezes, ela nega participação ou envolvimento com as ações da Internacional Comunista, seja na Europa, seja no Brasil. 

A resistência custou-lhe, diversas vezes, castigos e penas físicas duras, como a reclusão em celas solitárias ou a privação de comida, além da restrição na comunicação com parentes e amigos fora da prisão. Em um desses depoimentos às autoridades alemãs, em setembro de 1937, quando confrontada com a delação de um outro militante sobre as atividades de Olga no Partido Comunista alemão, ela desafiou a Gestapo: “Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei”. 

Outro aspecto revelado pela abertura dos arquivos é a troca de dezenas de cartas entre Olga, Prestes e familiares, que até então não era conhecida. No material inédito, nota-se o esforço de Olga para manter-se informada sobre sua filha Anita e a preocupação com Prestes, que estava preso no Brasil e que alimentava correspondência amorosa com sua companheira. 

O livro reproduz nove cartas de Olga para Prestes e oito de Prestes para Olga. Na última carta enviada por Olga, em abril de 1941, ela escreve: “muitas vezes fico triste quando minhas companheiras recebem cartas a respeito de seus filhos e ali, ao lado delas, penso: ‘o que ainda sei de minha filha?’. Mas, sabes, não deixaremos a coragem esmaecer”. 

‘Passei por momentos de grande emoção na pesquisa’ 

Anita Leocadia Prestes foi entregue à avó paterna, Leocadia, e à tia Lygia, com 14 meses de idade. Viveu exilada com elas na França e no México entre 1938 e 1945, até chegar ao Brasil. Formou-se e fez mestrado em química pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em 1964, e, em 1973, foi exilada para a União Soviética, durante o regime militar no Brasil. 

Com a anistia, voltou ao país em 1979. Trabalhou junto com o pai até a morte dele, em 1990. Escreveu 12 livros sobre Prestes e fez doutorado em história social pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Atualmente, é professora de história da UFRJ e respondeu por e-mail a algumas perguntas enviadas pelo Nexo. 

Como foi o processo de pesquisa do arquivo da Gestapo? 

ANITA LEOCADIA PRESTES O Arquivo da Gestapo está há dois anos disponível na internet. Foi necessário traduzir do alemão a maior parte dos documentos (cerca de 2.000 folhas) referentes a Olga Benario Prestes, para então selecioná-los e organizar o livro agora publicado pela Boitempo. 

Por que as autoridades nazistas acompanhavam Olga tão de perto? 

ANITA LEOCADIA PRESTES As autoridades nazistas atribuíam grande importância a Olga por ela ter sido um membro atuante do Partido Comunista Alemão (KPD) e da Internacional Comunista (Comintern), assim como mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes. Isso está registrado nos documentos do Arquivo da Gestapo. 

Como é vista a trajetória de Olga atualmente na historiografia alemã sobre o período nazista? 

ANITA LEOCADIA PRESTES Que eu saiba, atualmente, na Alemanha é conhecido o livro “Olga” de Fernando Morais e dois livros de Robert Cohen recentemente publicados (coletâneas de cartas e documentos), citados no meu livro. 

Do ponto de vista pessoal, qual foi sua reação, como filha de Olga, ao ler as cartas trocadas entre a família reveladas pelo arquivo? 

ANITA LEOCADIA PRESTES Durante a pesquisa, passei por momentos de grande emoção ao tomar conhecimento dessas cartas inéditas trocadas entre meus pais, assim como entre Olga e Leocadia, minha avó paterna, que me resgatou da prisão nazista. 

A figura de Olga é devidamente reconhecida no Brasil? 

ANITA LEOCADIA PRESTES O livro “Olga” de Fernando Morais contribuiu muito para que a história de Olga Benario Prestes fosse tirada do esquecimento ao qual fora condenada durante os mais de vinte anos de ditadura militar.

FONTE: Nexo Jornal


sábado, 27 de maio de 2017

Camarada Miguel Urbano Rodrigues, presente!!!


Miguel Urbano Rodrigues, 02/08/1925 – 27/05/2017

ODiario.info comunica aos seus leitores e amigos a morte do seu fundador e editor Miguel Urbano Rodrigues.

Nascido em Moura, Alentejo, em 1925, filho de pai jornalista e escritor, no seio de uma família de agricultores abastados de tradição republicana, experimentou a implantação da ditadura do “Estado Novo”, enquanto colhia a influência e inspiração das gentes insubmissa de sua terra.

Miguel Urbano Rodrigues cursou a Faculdade de Letras de Lisboa. Veio a ser redactor do Diário de Notícias (com início em 1949) e chefe de redacção do Diário Ilustrado. Jovem dotado de curiosidade e talento intelectual invulgares, e comprometido com as causas do povo, encontrou-se constrangido e ameaçado pelo regime fascista que amordaçava e aprisionava o seu país.

Exilado no Brasil, foi editorialista de O Estado de S. Paulo (1957 a 1974) e editor internacional da revista Visão (1970 a 1974). Durante esse período e acompanhou ou interveio em eventos marcantes da debilitação do regime fascista no plano externo, designadamente o assalto ao “Santa Maria” e a progressão da luta do MPLA e do PAIGC contra o colonialismo Português. Em 1963 aderiu ao Partido Comunista Português.

Regressou a Portugal logo após a o 25 de Abril de 1974, no auge da explosão de entusiasmo popular, incorporando-se na construção do regime democrático, como militante comunista. Foi chefe de redacção do Avante! em 1974 e 1975 e director do jornal O Diário, de 1976 a 1985. Exerceu a presidência da Assembleia Municipal de Moura em 1977 e 1978, foi deputado à Assembleia da República entre 1990 e 1995, e ainda deputado nas Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental.

Enquanto exilado desenvolveu vasta rede de contactos de trabalho e de laços de cúmplice amizade com inúmeras personalidades políticas progressistas da América Latina. De regresso em Portugal desempenhou inúmeras missões de natureza política ou jornalística, e expandiu a sua vasta rede de solidariedades e cooperação internacional.

Miguel Urbano Rodrigues foi fundador do sítio resistir.info em 2002, e do sítio odiario.info em 2006. E foi o principal promotor dos memoráveis Encontros de Serpa “Civilização ou Barbárie” que, nos anos de 2004, 2007 e 2010, reuniram numerosos activistas cívicos e alguns dos mais destacados intelectuais progressistas dos cinco continentes do mundo, em torno das questões da transformação revolucionária da sociedade.

Viajante e observador incansável, intelectual excepcional que contudo se tomava como um homem comum entre os demais em todas as latitudes em que viveu ou visitou, deixa-nos uma obra extensa que abarca géneros diversos, sempre inspirado pela compreensão e exaltação da condição e da acção do indivíduo na transformação revolucionária do homem e da sociedade, na realização suprema da Justiça e da Felicidade.

O corpo de Miguel Urbano Rodrigues vai domingo pelas 14 horas, para o Centro Funerário da Lapa (Igreja da Lapa, Porto), onde ficará em câmara ardente até ao funeral que será pelas 16 horas de 2ª feira.

Os editores de Odiario.info, 27 de maio de 2017.

FONTE: ODiario.info

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Documentário examina trajetória de feminista e educadora perseguida pelo regime Vargas

“Armanda” conta a história da fundadora de escola progressista que em 1921 foi a primeira do país a servir alimentação aos estudantes. Perseguida pelo Estado Novo, ela foi presa ao lado de Nise da Silveira e Olga Benário.

Por Ana Paula Tavares | Agência Café História

Dirigido por Liliane Leroux e Rodrigo Dutra, o documentário “Armanda” estreia dia 31 de maio, às 20h, no III Festival Mate com Angu de Cinema Popular. O média-metragem aborda a trajetória de Armanda Álvaro Alberto, que além de criar uma escola progressista e pública no subúrbio do Rio de Janeiro, fundou também a Associação Brasileira de Educação (ABE) e a União Feminina do Brasil (UFB).

A Escola Proletária de Meriti, que fundou em 1921, era altamente influenciada pelo método pedagógico de Maria Montessori e fundamentada em princípios educacionais de vanguarda, que viriam as ser sistematizados anos mais tarde no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932. Não havia notas, prêmios ou castigos; atuava em horário integral; era uma instituição laica e pública; possuía biblioteca e introduziu a merenda escolar no país – que lhe rendeu o apelido “Mate com Angu”, nome popular na cidade e que batiza seu festival de cinema. Nesse desafio, contou o apoio do marido e também educador, Edgar Süssekind de Mendonça.

Chamada pelo jornal “O Globo” de “Eva agitadora”, que acusava a UFB de ser “um disfarce do Partido Comunista” [1], Armanda ficou presa entre outubro de 1936 e junho de 1937 por causa da associação da UFB com a Aliança Nacional Libertadora (ANL) e acusada de participação na Intentona Comunista de 1935.
O filme conta com entrevistas da historiadora Ana Chrystina Mignot, que escreveu sua tese de doutorado sobre Armanda, e de Anita Prestes, também historiadora, que relembra a relação da educadora com sua mãe, Olga Benário.
“Armanda” foi idealizado de Liliane Leroux e Flavio Machado, e realizado pelo Núcleo de Estudos Visuais em Periferias Urbanas da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Nuvisu – FEBF/ UERJ). O documentário foi produzido pela Dunas Filmes e patrocinado pela FAPERJ.

O lançamento é aberto ao público, na Lira de Ouro, na Rua José Veríssimo n° 72, no Centro de Duque de Caxias (RJ). Confira o trailer em https://www.youtube.com/watch?v=URofGcL3Zcw e mais informações o Festival Mate com Angu aqui.

Notas
[1] O GLOBO, 13/09/1935. In: MORAES, José Damiro. "Armanda Álvaro Alberto: Pensamento e ação nos anos 1930". IV Congresso Brasileiro de História da Educação, 2006.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Um "poder" acima dos outros


Leia o artigo de Luiz Carlos Prestes publicado na imprensa às vésperas da promulgação da Constituição de 1988, em que é desmascarado o "poder militar", acima dos três poderes da República, consagrado no Artigo 142 da nova Constituição. Artigo que foi evocado pela nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) ao tentar explicar o decreto presidencial de 24 de maio de 2017, publicado em uma edição extra do Diário Oficial da União - que prevê o emprego das Forças Armadas na Esplanada dos Ministérios entre 24 e 31 de maio. Segue um trecho da nota da Secom:

“Diante de tais circunstâncias, o Presidente da República, após confirmada a insuficiência dos meios policiais solicitados pelo presidente da Câmara dos Deputados, decidiu empregar, com base no artigo 142 da Constituição Federal, efetivos das Forças Armadas com o objetivo de garantir a integridade física das pessoas, proporcionar evacuação segura dos prédios da Esplanada e proteger o patrimônio público, tal como foi feito anteriormente em vários Estados brasileiros. Restabelecendo-se a ordem, o documento será revogado”, diz a nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom). Ainda de acordo com o comunicado, o presidente “não hesitará em exercer a autoridade que o cargo lhe confere sempre que for necessário”.


terça-feira, 23 de maio de 2017

1917 - Quatro notas no centenário da Revolução Bolchevique

Por Higinio Polo* 


Recordar a revolução bolchevique não é um exercício de nostalgia do passado mas um tempo de aposta no futuro, no socialismo e no carácter social que devem ter as forças produtivas. A revolução de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucionárias no mundo, e a sua contribuição para a construção do socialismo não desapareceu, porque o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade. Aqui reside o valor da revolução bolchevique e da visão de Lénine.





1. 1917 é uma data germinal, que pôs ante os olhos dos trabalhadores do mundo a certeza de que acabar com o capitalismo e construir o socialismo é possível. Nessa data termina o velho mundo burguês que tinha ensanguentado o planeta no século XIX e inicia-se uma nova era, onde a união operária e socialista criada pela revolução bolchevique enfrentará o projecto de modernidade capitalista que foi o nazismo. A revolução bolchevique mudou radicalmente o destino da Rússia e do mundo. Cinquenta anos depois da publicação de O Capital, a Rússia convertia-se numa referência global, e a revolução levou o país a ser uma das duas superpotências mundiais.

O empenho da direita liberal em rebaixar a revolução bolchevique a uma espécie de «golpe de Estado» não tem qualquer credibilidade, para além da utilidade propagandística para a direita, nem resiste à prova dos factos: a revolução de Outubro contou com um impressionante apoio popular que, começando em Petrogrado, percorreu toda a geografia russa, num clima revolucionário onde milhões de trabalhadores, soldados e camponeses se organizavam e se reconheciam nos sovietes. Essa revolução pôs a igualdade entre os seres humanos no centro dos objectivos políticos e das questões universais, pôs mãos à obra na construção de uma sociedade sem classes, no tempo em que eram visíveis as multidões operárias nos combates políticos do século XX.

Também não foi um banho de sangue: esquece-se com frequência, mas a revolução bolchevique apenas causou seis mortos, e foi a intervenção imperialista em ajuda dos restos do czarismo que fez rebentar a guerra civil posterior que causou uma mortandade que superou a da grande guerra. Se de 1914 a 1917 a Rússia sofreu entre dois e quatro milhões de mortos, aquela agressão das potências capitalistas à Rússia revolucionária, depois do fim da guerra, causou mais oito milhões de mortos, por causa dos combates, da destruição das colheitas e da fome. Sobrepor-se a essa situação, reconstruir o país, foi uma tarefa de titãs, mas não seria para a Rússia a pior prova do século XX.

A revolução sofreu um ataque que nenhum outro país no século XX teve que suportar: do ataque dessas treze potências capitalistas (desde os Estados Unidos até à França, a Checoslováquia, a Grã-Bretanha, a Polónia, o Japão) que apoiaram os brancos czaristas na «guerra civil» dos anos vinte, passou-se às ameaças latentes de Londres e de Paris e, depois ao ataque da Alemanha nazi que abriu a Segunda Guerra Mundial onde a URSS perdeu vinte e sete milhões de cidadãos. É costume dar pouca atenção ao que implicou administrar um país que tinha perdido quase quarenta milhões de pessoas num período de trinta anos, e pô-la à cabeça do desenvolvimento no mundo posterior à guerra de Hitler. Além disso, no pós-guerra, quando quase não se tinha iniciado a reconstrução, teve logo que enfrentar a pressão ocidental derivada da doutrina Truman que deu início à guerra-fria.

Depois do «comunismo de guerra» e da NEP, Outubro começou a planificação estatal da economia, impugnando o monopólio burguês que tinha conquistado todos os países. No plano interno, estabeleceu-se a jornada laboral de oito horas, que ficaria posteriormente reduzida a sete horas, asseguraram-se as leis para a igualdade entre homens e mulheres; eliminou-se o analfabetismo; criou-se o primeiro sistema sanitário público e gratuito do mundo, a reforma aos sessenta anos para homens e mulheres, um sistema universal de pensões, garantiram-se por lei vinte meses de baixa por maternidade, e a segurança no trabalho fez com que os trabalhadores não temessem o desemprego, ao mesmo tempo que dispunham de casas cedidas pelo Estado, e tantas conquistas sociais que aqui não podem ser detalhadas. A União Soviética pôs sempre a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, como um dos seus fundamentos, e nunca teve uma política agressiva contra o Ocidente. Essa mentira, repetida e amplificada pela propaganda, teve como objectivo estender o medo entre as populações dos países capitalistas e disciplinar os aliados europeus dos Estados Unidos à volta da NATO, o novo instrumento de intervenção imperialista.

Outubro converteu um país atrasado numa potência industrial e científica em poucos anos, ainda que acompanhada de uma dura repressão de Estaline. O primeiro estado socialista da história teve como conceitos definitórios o trabalho e a função determinante da classe operária na sociedade; a amizade e a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, a justiça social, a cultura e o progresso científico, a rejeição do nacionalismo e da opressão. Houve também traços negativos: a dura repressão política (filha do temor nascido da guerra civil, do acosso militar posterior, da agressão nazi e, secundariamente, das lutas internas de poder), o medo ante os órgãos do Estado, as evidentes insuficiências democráticas, e a ineficácia ligada à burocratização e aos focos de corrupção, bem como o aparecimento de sinais de irresponsabilidade e à negligência no trabalho que, não obstante, não invalidam como pretende a direita o conjunto da experiência soviética. Os laboratórios ideológicos do liberalismo continuam a colocar a ênfase na repressão, ainda que aludam aos mortos causados pela revolução bolchevique e o estado socialista, costumam ocultar a enorme mortandade causada pelo capitalismo tanto na expansão colonial do século XIX, como ao longo do século XX. E as matanças não pararam com o século XXI: aí está o caos do Médio Oriente provocado pelas agressões e guerras dirigidas pelos Estados Unidos.

O mundo não é melhor sem a URSS: nem sequer a ameaça atómica desapareceu, apesar dos supostos «dividendos da paz» que o neoliberalismo prometeu. Nem sequer se reduziram os perigos da guerra: de acordo como o SIPRI [1], o comércio mundial de armas está no ponto mais quente desde o fim da guerra-fria, e o caos criado pelos Estados Unidos no Médio Oriente é uma causa evidente disso, juntamente com a desconfiança pelos propósitos de Washington. Desde logo, o mundo não é melhor para os habitantes do antigo espaço soviético, como o evidenciam todas as sondagens, apesar de um quarto de século de veneno nacionalista ter feito aflorar os traços mais desprezíveis do ser humano em muitos territórios. Como na Ucrânia, onde os grupos paramilitares fascistas percorrem desafiantes as ruas.

2. O caminho aberto por Outubro de 1917 termina abruptamente quando se arreou a bandeira no último dia do triste ano de 1991, enquanto Yeltsin e os seus comparsas se emborrachavam nas estâncias do Kremlin. A reforma iniciada por Gorbatchov, saudada com entusiasmo porque prometia a renovação e o «retorno a Lenine», derivou numa desordem económica e organizativa que, longe de resolver os problemas da União Soviética, os agudizou, fazendo aparecer a escassez e alimentando nacionalismos destruidores e reaccionários.

Depois das vacilações e dos graves erros de Gorbatchov, foram os próprios dirigentes do país, com Yeltsin á cabeça, juntamente com a ambição de personagens como o ucraniano Leonid Kravchuk, o bielorrusso Stanislav Shushkiévich, seguidos pelo uzbeque Islom Karimov, o cazaque Nursultán Nazarbáyev, e o azeri Gueidar Aliev, entre outros, que se lançaram na destruição do país. O Tratado de Belavezha, subscrito por Yeltsin, Kravchuk e Shushkiévich em 8 de Dezembro de 1991, violou a Constituição soviética e desrespeitou a vontade da população, que se tinha pronunciado em referendo de Março de 1991 rejeitando a divisão da URSS, e impôs a destruição do país, oculta com a roupagem da CEI, uma ficção apressadamente criada para encobrir o medo ao vazio. Destruíram também o COMECON e o Pacto de Varsóvia.

A destruição não era uma inevitabilidade, como continua a manter a doutrina liberal. As reformas necessárias na URSS eram possíveis, mas o projecto gorbachoviano apenas conseguiu gerar o descontentamento e o caos. A paralisia política de Gorbatchov na sua etapa final e o estímulo à divisão impulsionado por Yeltsin, Kratchuk e Susshkiévich só podem qualificar-se como traição ao seu próprio país: a retórica nacionalista chegou depois, com o objectivo de consolidar o seu próprio poder em todas as repúblicas órfãs da URSS.

É certo que já tinham aparecido algumas reclamações nacionalistas na Arménia e no Báltico, ainda que essas tensões nacionalistas na Arménia e nas três repúblicas do Báltico tivessem sido estimuladas por dirigentes como Alexander Yakovlev, enquanto no Cáucaso a incompetência governamental permitiu também o crescimento nacionalista: na Geórgia, o conservador e ditatorial Zviad Gamsajurdia pôde alcançar a presidência, graças à negligência e à falta de iniciativa de Edvard Shevardnadze. No Azerbaijão, o traidor e trânsfuga Gueidar Aliev apressou-se a apoderar-se de todos os recursos do poder. Na Arménia, onde existia uma forte consciência nacional, rebentou uma dinâmica de guerra com o Azerbaijão depois da escalada de tensão que teve a sua origem na matança de Sumgaít, onde bandos de azeris atacaram a população arménia, assassinando dezenas de pessoas, numa confusa provocação de que ainda hoje se desconhecem os seus inspiradores. A guerra civil entre arménios e azeris fez o resto: durou três anos, e as feridas ainda não sararam passados que foram vinte e cinco anos. Nas cinco repúblicas soviéticas da Ásia central, onde não havia reclamações nacionalistas, os dirigentes apressaram-se a proclamar a independência depois de se conjurarem para a assinatura do Tratado de Belavezha. No seu conjunto, as guerras e conflitos que então se iniciaram (na Moldávia e na Chechénia, em Nagorno-Karabaj e na Ossétia, no Cáucaso e na Ásia central), causaram a morte de centenas de milhares de pessoas.

Os Estados Unidos olharam com bonomia as ditaduras criadas em muitas das antigas repúblicas soviéticas, fecharam os olhos à corrupção, à repressão política e aos traços grotescos dos novos regimes, que vão desde a corrida ao dinheiro das filhas de Karimov, até à nomeação de Dariga Nazarbayeva, filha do ditador Nazarbayev, como vice-primeira ministro do Cazaquistão; passando pelo filho de Aliev, Ilham Aliev, convertido em novo ditador que, por sua vez, acaba de nomear sua mulher, Mehribian Alieva, vice-presidente do país.

À incompetência e ao oportunismo dos convertidos e trânsfugas que iniciaram a fuga em frente na busca da consolidação do seu próprio poder, juntam-se muitas provocações, a maioria das quais continuam sem clarificação. Conhecemos algumas, como o massacre da torre da televisão em Vilna, capital lituana, em Janeiro de 1991: ali, ocorreu uma matança de catorze pessoas que comoveu o mundo, enquanto as chancelarias e a imprensa internacional acusavam o exército e o governo soviéticos. No entanto, sabemo-lo agora, foi um massacre provocado pelos nacionalistas de Sajudis [2] e pelo próprio governo nacionalista lituano, cujos pistoleiros dispararam contra os seus próprios seguidores, para acusar a União Soviética e precipitar a independência. Tudo isto foi reconhecido anos depois por Audrius Butkevicius, então chefe militar do governo lituano. Não foi a primeira nem seria a última mentira: em 2008, quando o governo georgiano de Míjeil Saakashvili (um oculto agente da CIA que confiava que a sua aventura seria amparada por Washington e a NATO) lança uma provocadora ofensiva militar sobre a Ossétia do sul, acontecimento que originou uma breve guerra com a Rússia, noticiada na CNN acompanhada de imagens de tanques georgianos como se fossem russos, ao mesmo tempo que a destruição causada pelos bombardeamentos da Geórgia na Ossétia era apresentada como se fossem os efeitos de ataques russos na cidade de Gori, onde se passou muito mais do que notícias desvirtuadas. Depois de tudo, esses partidários da mentira têm consumados professores em Washington, um dos quais foi o secretário de Estado Colin Powell que, em 5 de Fevereiro de 2003, chegou a agitar um tubo que dizia poder conter antrax, perante os olhares atónitos dos membros do Conselho de Segurança; a quem também mostrou diapositivos que, segundo o governo norte-americano de Bush, demonstravam que o Iraque tinha «armas de destruição massiva». Era tudo mentira.

É uso recorrer-se à acusação de «teorias conspiratórias da história» para desactivar algumas nefastas evidências. No entanto, as coisas são mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexas: todas as potências internacionais defendem os seus interesses e os seus projectos e utilizam para isso todo o tipo de recursos, da diplomacia à pressão política. Muitas recorrem à mentira, às provocações e à organização de grupos terroristas e, nesse tipo de acções, os Estados Unidos e os seus aliados dão cartas.

Sabemos hoje, por exemplo, que os serviços secretos norte-americanos trabalharam desde Bacu e com a cumplicidade de Aliev para incendiar a Chechénia e criar novos focos de conflito no Cáucaso, e não renunciaram a continuar futuramente a jogar essa cartada. Washington não só conserva em seu poder a capacidade de reactivar conflitos no sul da Rússia, como move os seus peões na Ásia central para dificultar um hipotético reagrupamento das velhas repúblicas soviéticas em torno de Moscovo. Por vezes, basta chegar lume à mecha, e as guerras tomam logo dinâmica própria.

Os problemas que a Rússia enfrentava no final da década de oitenta (devido à incompetência dos governos de Gorbatchov, que os agravaram com projectos e iniciativas que criaram graves disfunções na economia soviética) eram uma brincadeira se comparados com o desastre apocalíptico que chegou na década de noventa, sob a direcção de Yeltsin, Chubais, Gaidar e Chernomirdin (assessorados pelo governo norte-americano, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e peritos estado-unidenses), que destruiu a economia, colonizou a estrutura do Estado e, de acordo com diversas investigações, provocou uma atroz mortandade entre a população soviética: só na Rússia (que contava com metade dos habitantes da URSS), a investigação de David Stucker, da Universidade de Oxford, de Lawrence King da Universidade de Cambridge e Martin McKee da London School of Hygiene and Tropical Medicine, publicada pela revista médica Lancet, chegou á conclusão que a terapia de choque de Yeltsin tinha causado um milhão de mortos. Aquele delirante programa foi possível graças ao golpe de estado de 1993, que causou uma matança em Moscovo e noutras cidades, e que contou com o apoio do Ocidente, que amparou uma espécie de via militar para o capitalismo. A destruição da URSS permitiu às novas elites surgidas da confusão gorbatchoviana e aos seus comparsas apoderarem-se das propriedades públicas e garantir o seu poder em todas as repúblicas.

O golpe de Estado de Yeltsin em 1993, abençoado por Clinton, Major, Khol e Mitterrand, numa irresponsável e delirante operação, levou quase à destruição da própria Rússia como afirma a própria Helène Carrère d’Encausse. Na opinião do Partido Comunista russo, vinte e cinco anos depois do desaparecimento da URSS, as suas consequências continuam por superar. A privatização da economia, levada a cabo por delinquentes, destruiu milhares de empresas e aglomerados industriais, tornou possível que a maior parte da riqueza soviética, quer na Rússia quer nas outras repúblicas, esteja hoje em mãos privadas.

3. Putin representa hoje a nova direita conservadora russa, patriota, de complexa significação: por um lado utiliza os orçamentos públicos e os recursos do país para o seu próprio enriquecimento, criando uma oligarquia obscenamente rica, ao mesmo tempo que se degradam as condições de trabalho, o direito à habitação, à saúde e à educação dos cidadãos; por outro, deteve a destruição do país e iniciou a sua reconstrução, afastando o fantasma da destruição da própria Rússia (objectivo a que não renunciaram os estrategos do Pentágono e dos serviços secretos norte-americanos). Na política interna, Putin não teve dúvidas em aplicar programas neoliberais que prejudicam os trabalhadores e a maioria da população. E ainda que não desistam de privatizar, mantêm importantes áreas de propriedade públicas: o Partido Comunista russo criticava em Fevereiro de 2017 a tentativa do governo de Médvedev de privatizar quase oitocentas empresas de propriedade pública. Putin é um exemplo mais desses dirigentes que fizeram da política e do exercício do poder o centro da sua existência, personagens que se adaptam a qualquer época e que se sustentam em complexos equilíbrios sempre que isso lhes permita manter-se no poder.

Se bem que a sua política externa procure recuperar o protagonismo perdido, não está no centro das suas preocupações combater o imperialismo norte-americano, embora esteja consciente que este, por trás das sangrentas aventuras de Washington no Afeganistão, no Iraque e na Líbia e a expansão da NATO, ameaça as fronteiras da própria Rússia, e enfrente os propósitos imperialistas norte-americanos na Síria, ao mesmo tempo que alinhava uma aliança estratégica com a China, cujo objectivo é limitar o poder estado-unidense no mundo. Uma parte da esquerda pouco prudente, que se alimenta de esquemáticas análises sem matizes, chegou a equiparar a política externa russa com a norte-americana, aludindo a um suposto imperialismo comum, ainda que em confronto, esquecendo que enquanto Washington tem mais de setecentas bases militares nuns cento e vinte países do planeta, Moscovo só tem uma base no exterior. Outra parte confunde Putin com um dirigente comunista.

O partido de Putin, Rússia Unida, navega entre a complexidade e a ambiguidade: o seu nacionalismo leva-o a assumir com orgulho a condição de superpotência da URSS mas, ao mesmo tempo, rejeita que o desenvolvimento e o fortalecimento do país fosse consequência da revolução bolchevique de 1917 e do socialismo. Enquanto Putin continua a trabalhar para limitar a influência comunista no país (as suas agências de inteligência criaram nos últimos anos três partidos «comunistas» para atacar em força o Partido Comunista dirigido Guennadi Ziuganóv), tem muito cuidado para não atacar o frontalmente o socialismo soviético (ao contrário do que acontecia nos anos de Yeltsin), como conhecedor que é das simpatias que o comunismo continua a conservar entre os russos. A revolução bolchevique e o socialismo, a par dos traços negativos que desenvolveu, continuam a ser defendidos pelos trabalhadores: a última sondagem realizada por Levada Center entre a população russa, no final de Janeiro de 1917, revela que a maioria dos cidadãos tem boa opinião de Brejnev e Estaline e, ainda que 22% rejeite a figura do georgiano, apenas 9% têm má opinião do Brejnev, e o apoio ao socialismo é amplamente maioritário, até ao ponto de quererem o regresso da União Soviética. Contraditoriamente, também Putin mantém uma considerável aprovação que, indubitavelmente, é devida ao facto de ele ter acabado com a criminalidade mafiosa nas ruas durante os anos de Yeltsin, e ao seu novo protagonismo que traz peso internacional ao país.

Putin navega entre duas águas: recuperou o hino soviético, o desfile da vitória sobre o nazismo, mantém a bandeira vermelha com a foice e o martelo no exército, enquanto tenta desenvolver uma nova imagem russa, simbolizada na bandeira tricolor, tudo isto sem esquecer que, agora, está previsto dedicar uma rua e erigir um monumento a Fidel Castro; mas também assiste aos ritos da igreja ortodoxa, mantém excelentes relações com o patriarca Kiril, e viu com agrado o município de Moscovo erigir uma estátua ao rival de Napoleão, o czar Alexandre I, muito perto do jardim das muralhas do Kremlin, onde são recordadas as cidades heróicas da resistência contra os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; bem como um monumento, também junto ao Kremlin, dedicado ao príncipe Vladimir, como «reunificador das terras russas», gestos, todos eles, dirigidos ao enaltecimento do orgulho nacional. A nova Rússia não pôde recuperar toda a influência que a URSS exerceu no plano internacional e, ainda que desde a intervenção de Putin na Conferência de Munique de 2007 o seu governo tenha levantado a voz para denunciar a expansão norte-americana para as suas fronteiras, não conseguiu evitar o golpe de Estado em Kiev, nem o perigoso foco de guerra de Donbáss nas suas fronteiras, nem a chegada das forças da NATO à Ucrânia: a recuperação da Crimeia é apenas um prémio de consolação, apesar de ter fortalecido o seu prestígio entre os russos. Ao mesmo tempo, Putin está consciente que o potencial militar russo não é comparável ao soviético, mas conserva uma importante parte do seu poder de dissuasão, graças ao arsenal atómico herdado da URSS, que o governo de Médvedev está a renovar.

São diversos os traços que caracterizam as outras antigas repúblicas soviéticas, e vão desde a existência de uma suposta democracia na Estónia, Letónia e Lituânia, que convivem com a marginalização e a falta de respeito pelos direitos cívicos dos russos ali residentes, a complacência para com os nacionalismos sectários, os grupos nostálgicos do nazismo, até às satrapias do Turquemenistão, Uzbequistão e Cazaquistão, já para não falar da extrema-direita que se apoderou do governo da Ucrânia. Por sua vez, momentaneamente os antigos países socialistas europeus estão convertidos em redutos da direita nacionalista e da ultradireita: da Polónia à Hungria passando pela Roménia, Bulgária e, inclusive a República Checa ou a Eslováquia apresentam inquietantes traços xenófobos, de extrema-direita ou mesmo fascistas.

A União Soviética foi uma referência e um incentivo para o movimento operário mundial, e o ataque às conquistas sociais foi possível em muitas regiões do planeta, também pelo desaparecimento da URSS. Ainda que já se tivesse iniciado o ataque sistemático do neoliberalismo contra os direitos dos trabalhadores, a ausência a URSS estimulou a revanche: o incremento da exploração, a redução dos salários, o aumento da idade da reforma, a perda de direitos na saúde, na educação, a precarização do trabalho, o aumento arbitrário dos horários laborais, a perda de pensões foi a mão de um ambicioso projecto de dominação que os Estados Unidos lançaram em muitas regiões do planeta, desde as guerras na Jugoslávia até à criação do Kosovo, as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e o golpe-de-estado na Ucrânia, isto para citar apenas os mais graves, tal como o acantonamento de novas tropas da NATO e a deslocação do seu escudo antimísseis, bem como o seu programa de contenção da China, agora considerado o novo inimigo global. Esse projecto de dominação, que Washington iniciou depois do desaparecimento da URSS, viu-se entorpecido por dois fenómenos imprevistos pelos seus centros de investigação e pela sua diplomacia: o impressionante fortalecimento chinês depois da sua entrada na OMC, e o novo papel exercido pela Rússia que, com Putin, deixou para trás a subordinação política dos anos de Yeltsin e Kozirev.

4. Uma parte da esquerda social-democrata ou esquerdista celebrou como uma vitória o desaparecimento da União Soviética, evidenciando uma enorme miopia política e uma falta de perspectiva estratégica, que a catástrofe humana com os milhões de mortos causados pelas reformas capitalistas em todo o antigo bloco socialista europeu, não os fez rever. Tampouco os retrocessos posteriores dos direitos sociais no mundo ocidental os levaram a interrogar-se sobre os efeitos da ausência soviética. A destruição da URSS debilitou os partidos comunistas em todo o mundo, ainda que não deva perder-se de vista que a maior organização política do mundo tem essa ideologia: o Partido Comunista Chinês, e que existem relevantes partidos da mesma tendência em todos os continentes que se proclamam filhos da revolução de Outubro. Ao mesmo tempo, para sua surpresa, danificou os partidos social-democratas, cuja cumplicidade com as políticas neoliberais (da França à Grécia, da Espanha à Itália, da Venezuela à Grã-Bretanha) do último quarto de século os levou a uma crise que pode ser terminal.

5. Nestes vinte e cinco anos transcorridos desde o eclipse da URSS, as propostas e a acção do governo dos defensores do capitalismo basearam-se no aniquilamento do chamado Estado de Bem-Estar, nos despedimentos arbitrários de trabalhadores, na precarização do trabalho, na redução unilateral dos salários, no ataque à instrução pública, na tentativa de eliminação dos sistemas públicos de saúde e de pensões pagas pelo Estado; e a esquerda e os sindicatos foram incapazes (apesar das muito honrosas lutas e resistências) de fazer frente a esse programa de devastação da dignidade humana e da confiança num mundo mais justo.

Os laboratórios ideológicos do neoliberalismo tentaram destruir o orgulho e a consciência operária, marcar a fogo os trabalhadores, toscos e grosseiros habitantes da periferia do sistema; pretenderam enraizar a noção de que as ideias de esquerda, de socialismo, de comunismo são escabrosas recordações de um mundo que morreu, e que a modernidade reside na adaptação servil, no consumo do lixo ideológico escarrado por todos os écrans utilizados pelo sistema capitalista e todos os outros mecanismos de controlo da informação. Essa operação fez mossa na esquerda, que viu como se reduziam os seus militantes, como se apagava a memória histórica do movimento operário, como se declaravam obsoletos o marxismo e a luta de classes, se acusava a esquerda impotente para se actualizar, inclusive se declarava desaparecido o mundo operário de ontem (portanto a necessidade de sindicatos e partidos de esquerda), apesar da evidência de existirem mais trabalhadores fabris no mundo que noutro qualquer momento da história.

Os problemas da esquerda já vêm de longe. Achille Ochetto, o artífice da volta della Bolognina que liquidou o Partido Comunista Italiano, afirmou então, com a ardilosa retórica dos que se atribuem sempre o novo para arrojarem os seus opositores para o inferno das ideias mortas da história, o poço escuro do passado obsoleto: «Não temos de continuar pelos velhos caminhos, mas inventar os novos para unificar as forças do progresso». Na realidade, limitaram-se a mudar para os velhos caminhos da submissão ao capitalismo que desembocaram nesse triste e impotente Partido Democrático. Desde então, na Europa apareceram partidos e movimentos que, de maneira confusa, pretendem articular as energias da esquerda, da oposição: desde o Syriza ao Podemos, desde o Movimento 5 Estrelas ao Die Linke, desde o efémero Partido Anticapitalista Francês aos verdes (ontem antagonistas, e hoje integrados), todas essas forças se movem no campo da moderação e do medo: são filhos da derrota, e revelam-se incapazes de romper o cordão umbilical com o capitalismo e, com excepção do Die Linke, de propor um horizonte socialista.

Uma opção é (nunca esquecendo o imprescindível trabalho político nas fábricas e nas empresas) articular amplos blocos sociais para lutarem nas ruas, nas eleições e nos parlamentos, outra muito diferente é apostar na criação de partidos vagamente de esquerda que renunciem a combater pelo socialismo. Porque a miragem que, novamente, se agita perante o rosto dos trabalhadores e dos excluídos, é a de a de voltar a construir uma esquerda tímida, dócil, que renuncie ao socialismo, resignada perante o poder capitalista. Além disso, essa nova e limitada esquerda revela-se incapaz de atrair os trabalhadores que, num mundo cheio de incertezas, sucumbem com frequência aos populismos demagógicos que articulam o discurso da extrema-direita.

Há uma evidência que se impõe: para o conjunto da humanidade, o capitalismo foi incapaz de resolver os seus problemas, os de acumulação e de expansão depredadora e sem limites que pôs o planeta á beira da catástrofe. No entanto, o rebentar da crise criou miragens para uma assinalável parte da população e dos trabalhadores: legiões de cidadãos esperam que a pior parte das dentadas das crises os não afecte, e reagem politicamente perante o medo de perder tudo, perante as novas migrações causadas pelas guerras coloniais, refugiando-se no ninho de víboras da nova extrema-direita, que lhes oferece um regresso à velha segurança, aos estados nacionais, a ilusórias fortalezas onde resistem à chegada de outros trabalhadores mais pobres e a refugiados das guerras. Além disso, essa extrema-direita lança as suas propostas (de Le Pen a Trump, de Ksczsiski a Orbán, de Petry a Wilders), por vezes envolvidas numa retórica que, sem hipocrisia, chega inclusive a parecer «progressista», e reclamam protecção para as indústrias nacionais, olhando-se no espelho dos anos trinta do século XX, sem verem que aquele programa trouxe duras lutas comerciais, novas aventuras coloniais e, por fim, a guerra. As instituições europeias, com a social-democracia e esses novos e vagos movimentos de esquerda revelam-se impotentes para fazerem frente à extrema-direita, mas face ao perigo do novo fascismo é urgente opor um bloco social, como o que levantaram os partidos comunistas entre as duas guerras em muitos países da Europa.

Não é possível reformar o capitalismo, e as opções que se empenham em passar para caminhos dessa natureza, que recuperam velhos esquemas social-democratas estão no caminho do fracasso. A direita pretende, em todos os países, fazer retroceder os direitos dos trabalhadores, privatizar as propriedades públicas, acabar com a saúde e a educação gratuitas, converter os reformados em reféns das companhias de seguros e entidades financeiras. E isso não se combate com tímidas ideias reformistas.

O drama da esquerda, bem presente na Europa, mas também noutros continentes, é que, apesar de estar consciente da impossibilidade da reforma do capitalismo, fica paralisada para propor vias socialistas, devido à pressão do poder e aos meios de comunicação. A democracia representativa burguesa e o parlamentarismo mostraram os seus limites, e o movimento operário e os novos movimentos sociais devem recuperar a acção nas fábricas e incrementar a presença dos trabalhadores na luta das ruas.

A história não é como a esperávamos, mas recordar a revolução bolchevique não é um exercício de nostalgia do passado, mas um tempo de aposta no futuro, o socialismo e o carácter social que devem ter as forças produtivas devem estar no centro das preocupações da esquerda. O novo horizonte dos filhos da revolução bolchevique deve desenvolver, juntamente com a propriedade pública dos meios de produção, quatro aspectos essenciais: a libertação da mulher, a ampliação da democracia e da liberdade, uma justa distribuição do trabalho e do bem-estar no mundo e a catástrofe ecológica.

A revolução bolchevique de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucionárias no mundo, e a sua contribuição para a construção do socialismo não desapareceu, porque o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade, e aqui reside o valor da revolução bolchevique e da visão de Lenine. Essa revolução, mil vezes enterrada, acusada de carências democráticas e libertárias, criadora do país símbolo da vitória contra o nazismo que o fez vítima da matança mais cruel da história; artífice do único país que durante décadas enfrentou solitário o imperialismo ocidental; estímulo de novas revoluções no mundo e sustentáculo da luta anticolonial, continua a fornecer o fermento da revolta, porque, apesar de tudo, o legado bolchevique continua vivo, e a escolha continua a ser entre socialismo ou barbárie.

Notas do Tradutor:
[1] Trata-se da sigla inglesa do Stockolm International Peace Research Institute
[2] Movimento Reformador Lituano, que dirigiu os acontecimentos que levaram à independência da Lituânia, e que mais tarde se transformou em partido político. Dissolveu-se depois de 1993, dando origem a outros partidos reaccionários.
[3] O «giro della Bolignina», considerado o primeiro passo para a passagem do Partido Comunista Italiano (partido revisionista dito eurocomunista) no Partido Democrático, foi apresentado por Achille Ochetto, de surpresa, no 45º aniversário da batalha da Porta Lame em 12 de Novembro de 1989.

* Higino Polo, publicista e historiador é colaborador habitual de El Viejo Topo

Este artigo foi publicado em nº 351 (Abril de 2017) de El Viejo Topo e reproduzido em http://www.lahaine.org/mundo.php/1917-cuatro-notas-en-el

Tradução de José Paulo Gascão

FONTE: ODiario.info