domingo, 9 de junho de 2013

Anita Prestes na VI Convenção Mineira de Solidariedade a Cuba



A defesa do socialismo faz parte das lutas de todos que buscam construir uma sociedade justa, igual e fraterna. Na América Latina temos uma pequena ilha que ao longo do tempo tem enfrentado o poderio dos EUA e seus aliados na busca de construir uma sociedade socialista. Nessa região, qualquer projeto de emancipação toma um caráter de traição a nossa eterna condição de colônia, comprovada pela perpetuação dos piores indicadores de desenvolvimento humano e econômico.
 
O sucesso dos partidos comunistas em diversos países no pós-guerra é notório, no Brasil Luiz Carlos Prestes é eleito o grande político ao lado de Getúlio Vargas e nas eleições seguintes o PCB é hegemônico em várias cidades, entre elas o Rio de Janeiro então capital federal e com grande repercussão nacional.
 
Essa afronta aos EUA faz com que os partidos comunistas fossem cassados no Brasil, Argentina e Chile ainda em 1947 e a proposição de cassar todos esses partidos da América é levada para a reunião da OEA de abril de 1948 em Bogotá. Durante o encontro é assassinado o maior líder colombiano, Jorge Gaitán, que se reuniria com o jovem Fidel Castro, dando origem ao Bogotazo e ao período de violência que ainda não cedeu naquele país. Essa violência se repetiu contra Salvador Allende, Hugo Chavez...
 
A chegada ao poder dos jovens do Movimento 26 de julho e sua luta para a construção do socialismo na ilha de Cuba influencia toda a América e coincide com o período analisado pela historiadora Anita Leocádia Prestes em seu último livro “Luiz Carlos Prestes - O combate por um partido revolucionário (1958 - 1990)”.
 
Por isso, a presença em Belo Horizonte de Anita Prestes; do jornalista da TeleSur, Beto Almeida, e do representante do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos – ICAP, Fabio Simeon, na Convenção Mineira de Solidariedade a Cuba é uma oportunidade para debater a integração da América Latina e a conquista por uma sociedade mais justa e mais soberana. 
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

"Tempos Fraturados: cultura e sociedade no século XX": novo livro de Eric Hobsbawm



Hobsbawn, Eric J., 1917-2012
Tempos fraturados / Eric Hobsbawn ; tradução Berilo Vargas
São Paulo : Companhia das Letras, 2013.
Título original: Fractured Times.


Eric Hobsbawm foi um dos principais intérpretes da era moderna. Morto em 2012, ele deixou uma obra vasta capaz de dar sentido a um conjunto importante de transformações políticas e sociais, da Revolução Francesa aos dias de hoje. Os 22 textos reunidos em "Tempos Fraturados" são reflexões abrangentes sobre arte e política que ecoam algumas de suas obras clássicas, como A era dos extremos e Sobre história.

Em ensaios inéditos, resenhas sobre livros de ciência e economia ou conferências em festivais literários, o autor acompanha o florescimento da belle époque, as vertentes do capitalismo moderno na Europa e nos Estados Unidos, a consolidação da sociedade de consumo. Não há aspecto relevante da cultura burguesa que ele não tenha examinado com brilho e elegância. O rumo das artes na atualidade, cultura e política na virada no milênio, Karl Kraus, os judeus e a vida intelectual, economia, ciência, art nouveau, arte pop, caubóis, religião, todos são temas abordados no livro.

A coletânea, finalizada pouco antes da morte do autor, reúne em sua maioria textos escritos a partir dos anos 1990. É o caso de "Os intelectuais: papel, função e paradoxo", de 2011, que lamenta o desaparecimento do intelectual público: nos dias que correm, argumenta Hobsbawm, eles não têm como fazer frente a Bono Vox. É também o caso de "A perspectiva da religião pública", publicado pela primeira vez, que discute a religião no século xx como força política, em oposição ao papel que já exerceu como força intelectual. Mas talvez o texto mais surpreendente da coletânea seja "O caubói americano: um mito internacional?". A partir de um tema do imaginário pop, o historiador discute como uma subclasse empobrecida da região rural americana pôde dar origem a um símbolo de identificação nacional, fato que não se repetiu em outros países. "Tempos fraturados" é um testamento à altura do autor, um dos mais brilhantes intelectuais do século XX.

SUMÁRIO
Agradecimentos .................................... 7
Prefácio ........................................... 9
1. Manifestos ....................................... 17
PARTE I: a difícil situação da “cultura erudita” hoje
2. Para onde vão as artes? ................................. 27
3. Um século de simbolismo cultural? .................. 39
4. Por que realizar festivais no século xxi? ............... 54
5. Política e cultura no novo século .................... 64
PARTE II: a cultura do mundo burguês
6. Iluminismo e conquista: a emancipação do talento
judeu depois de 1800 ................................... 83
7. Os judeus e a Alemanha ................................ 101
8. Destinos Mitteleuropeus .......................... 109
9. Cultura e gênero na sociedade burguesa europeia 
de 1870-1914 ..................................... 121
10. Art nouveau. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142
11. Os últimos dias da humanidade ..................... 158
12. Herança ......................................... 172
PARTE III: incertezas, ciência, religião
13. Preocupar-se com o futuro .......................... 189
14. Ciência: função social e mudança do mundo .......... 200
15. Mandarim com barrete frígio: Joseph Needham ....... 216
16. Os intelectuais: papel, função e paradoxo ............. 226
17. A perspectiva da religião pública .................... 237
18. Arte e revolução ................................. 259
19. Arte e poder ...................................... 266
20. Os fracassos da vanguarda. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 278
PARTE IV: de arte a mito
21. O artista se torna pop: nossa cultura em explosão ...... 299
22. O caubói americano: um mito internacional? ......... 310
Notas ............................................. 331
Índice remissivo .................................... 341


A atualidade da concepção de revolução formulada por Lenin

Lenin e a revolução
JEAN SALEM
Expressão Popular, 2008, 112p.

Caio N. de Toledo*

Jean Salem é autor de vários livros sobre pensadores materialistas (entre outros, Demócrito, Epicuro e Lucrécio); em Lenin e a revolução, pretendeu mostrar a atualidade da concepção de revolução formulada por Lenin – que, atualmente, segundo os fast thinkers, seria um autêntico “cão morto”. (Afinal, a história aqui também se repetiria como farsa pois, na “Alemanha culta do final dos anos de 1850”, Marx havia observado que Hegel também assim era designado.)

Três partes compõem este pequeno livro. Na primeira, “para conquistar a indulgência do leitor”, Salem esclarece como Vladimir Ilitch entrou em sua vida. De forma breve, o autor relata seu encontro, à época com nove anos de idade, com o pai, Henri Alleg – militante comunista que, em 1961, fugira da prisão após ter sido barbaramente torturado, em anos anteriores, por pára-quedistas franceses na Guerra da Argélia –, e suas primeiras experiências intelectuais, no Leste Europeu e na antiga URSS, ao lado de centenas de “filhos de gregos, de iranianos e de outros que tinham sido ... martirizados pelos defensores do ‘mundo livre’”. Segundo ele, foi a partir desse contexto de resistência política que o revolucionário russo introduziu-se em sua vida.

Na segunda parte, Salem busca refletir sobre uma “louca história que os vencedores de hoje balizaram muito estreitamente”: a “história estranha” que faz que o nome de Lenin hoje pareça “maldito” a ponto de ser interdito – inclusive por uma certa esquerda que, segundo o autor, tudo deduz das representações da ideologia dominante. Aqui, de forma irretocável, Salem sintetiza três tipos de imposturas que contribuem para esclarecer as razões do silenciamento do pensamento de Lenin: o que se diz em geral da União Soviética (antes e durante a Segunda Guerra Mundial), sobre o “totalitarismo” (“conceito onde cabe tudo”) 
e, finalmente, sobre o fim da URSS.

Para alguns “especialistas” na chamada sovietologia, os setenta anos pósRevolução de Outubro, do princípio ao fim, nada mais foram do que “um imenso gulag”; ou seja, a totalidade da experiência soviética se identificaria com o fenômeno da chamada stalinização. Contestando essa visão, Salem afirma – diante das evidências das “diferentes fases, das mudanças de direção, das profundas transformações que marcaram a história do socialismo real” –, que se imporia o reconhecimento da existência não de um, mas, antes, de vários regimes soviéticos, como o fazem as criteriosas análises do historiador Moshe Lewin.

O silenciamento de Lenin também teria que ver com uma bem-sucedida operação ideológico-midiática na qual pontificaram intelectuais e literatos (entre eles, H. Arendt, E. Nolte, A. Besançon, F. Furet, J. Ellenstein, A. Glucksmann, M. Voslensky, A. Soljenítsin e outros); essa operação consistiu em difundir a idéia de que o nazismo e o bolchevismo não seriam senão “duas variantes do mesmo modelo”. A prestigiada filósofa Hannah Arendt, ao cunhar o conceito-fetiche de “totalitarismo”, teria sido a grande responsável por essa vitoriosa formulação nos meios políticos e intelectuais do Ocidente. 

Na mesma direção, artigos e livros “negros” se sucederam a fim de provar que, após a contagem dos mortos, o bolchevismo (= stalinismo) levou uma alta vantagem em relação ao nazismo! Assim, depois de concluída a “macabra aritmética” (ou “contabilidade do horror”), estariam enganados, até mesmo, aqueles que colocaram um sinal de igualdade entre stalinismo e nazismo. O autor dessa proeza ideológica foi E. Nolte para quem Auschwitz seria uma “cópia do Gulag”; mas, atenção: uma cópia deformada, pois “mais horrível do que a original”... De forma sintética, nazismo e fascismo teriam constituído a “resposta radical”, a 
“contrapartida” e a “imagem do stalinismo”. Comenta Salem que essa doxa também foi apropriada por setores de esquerda que se destacam pela criminalização da militância comunista.

Ao fim dessa parte, Salem questiona as teses da “queda”, do “colapso” ou da “desintegração” da antiga URSS. Lembrando as lições do historiador Albert Soboul, observa ele que – de modo semelhante ao que ocorreu com o Antigo Regime na França – a URSS, em 1991, “não caiu sozinha”. A destruição de Hiroshima e de Nagasaki (sob o governo H. Truman) e o programa de “Guerra das estrelas” (1983) – lançado por Ronald Reagan (que visava explicitamente “pôr de joelhos a potência soviética”) – passam inteiramente ao largo dessa fraseologia da “implosão” da antiga URSS. Na conclusão desse momento de sua argumentação,Salem afirma que essa mitologia só serve para “coroar os vencedores” que, hoje, 
tornam maldita a obra de Lenin. 

Na terceira parte do livro, comenta seis teses que, segundo ele, podem ser deduzidas das Obras completas de V. I. Lenin:

1) a revolução é uma guerra; e a política é, de maneira geral, comparável à arte militar;
2) uma revolução política é também, e sobretudo, uma revolução social;
3) uma revolução é feita de uma série de batalhas; cabe ao partido de vanguarda fornecer em cada etapa uma palavra de ordem adaptada à situação objetiva ... e reconhecer o momento oportuno para a insurreição;
4) os grandes problemas da vida dos povos nunca são resolvidos senão pela 
força;
5) os revolucionários não devem renunciar à luta pelas reformas;
6) na era das massas, a política começa onde se encontram milhões de homens ... Convém, além disso, assinalar o deslocamento tendencial dos focos da revolução para os países dominados. 

Tendo em vista os limites desta resenha, façamos apenas breves comentários ao conjunto dessas teses. A observação mais geral é a de que Salem apenas na tese seis realiza explicitamente o que escreveu à p.40 do livro: “Eu gostaria de pôr à prova a atualidade dessas teses ... nessa época em que a ordem mundial parece ter regredido até o ponto de voltar ao tempo das conquistas da América, da Ásia, da África e da Oceania”. A rigor, a maioria das teses consiste na elucidação e na fundamentação do pensamento do bolchevique russo na discussão e na tematização da revolução social. Uma reflexão que esteve sempre ancorada nos “fatos cabeçudos” da realidade histórica e foi elaborada – segundo o que ele teoricamente postulava – sob a estrita obediência à “verdadeira substância” ou “alma viva do marxismo”: “uma análise concreta de uma situação concreta”. 

 Embora o autor não correlacione, sistematicamente, as teses com os problemas e as contradições do capitalismo contemporâneo, nem de longe estariam elas “superadas” ou “fora de lugar”. Conclusão oposta, bem se sabe, será a daqueles que se prostram diante do mercado (para eles, lugar privilegiado da liberdade, do pluralismo político, do progresso humano, da convivência civilizada e da democracia...); de forma semelhante, partidos e intelectuais da chamada “esquerda moderna” em todo o mundo também consideram “ultrapassados” alguns aspectos contidos nas teses acima – em particular, a questão do uso da violência ou da força.

Como devem se posicionar os socialistas a respeito dessa clássica questão? De imediato, não deixariam eles de indagar: pode-se desconhecer que transformações estruturais, em profundidade, implicam sempre e necessariamente uma confrontação de forças? Embora o uso da força não deva ser cultuado ou afirmado como inevitável na luta política e social, devem os socialistas ignorar que a política imperialista – sustentada por um aparato bélico crescente e avassalador – promove freqüentes guerras de rapina e violências inomináveis (morte, prisão, tortura etc.) contra a população civil em várias partes do mundo? Em nome do pacifismo e do “diálogo democrático”, devem os socialistas, de forma passiva e silenciosa, aguardar que a ONU e os demais organismos da cúpula mundial condenem verbalmente os permanentes atos de violência das potências imperiais? 

Por outro lado, deve-se desconhecer que a luta revolucionária anticapitalista nunca deixará de apresentar características semelhantes às de uma autêntica guerra? Deve-se também ignorar que, sem um efetivo confronto com os exploradores, uma vitória decisiva sobre o capitalismo é impossível? Sem ilusões pacifistas, os socialistas não negam a “guerra em geral”, pois, como observa Salem – comentando Lenin –, há “guerras que servem para consolidar a opressão de classe e guerras que servem para derrubá-la”. Os que desejam o socialismo não devem temer o momento da revolução, pois, como advertia Lenin, quem tem medo dos lobos “não se meta pelos bosques”... 

Discutindo a sexta tese, o autor lembra uma afirmação do bolchevique, por ocasião do III Congresso da IC: “... a política começa onde existem milhões; a política séria só começa onde existem não milhares, mas milhões (de pessoas)”. Levando adiante a afirmação feita em 1921, pondera o autor que Lenin previu que as lutas sociais que opõem exploradores e explorados de uma mesma nação se transformarão também “em lutas de dimensões planetárias, lutas globalizadas que colocarão em movimento massas de homens cada vez mais numerosas e mais universalmente espalhadas pela face da Terra”. Para Salem, um expressivo sinal dessa realidade foi a manifestação que, em 2003, “reuniu no mesmo dia 15 milhões de terráqueos” (no Japão, na Europa, no Oriente próximo, na Austrália, nos próprios EUA) contra a guerra imperialista no Iraque. 

Lenin e a revolução é um valioso livro que conclui de forma vagamente esperançosa: “estamos convencidos de que vivemos o fim de uma época, e o tempo parece quase ter parado. Sabemos que alguma coisa vai chegar. Mas não sabemos o que é”. 

Lenin, em certo lugar, afirmou que as revoluções são “a festa dos oprimidos e dos explorados”; em posfácio a O Estado e a revolução confessou ele que é mais útil e agradável “fazer a ‘experiência da revolução’ do que escrever sobre ela”. Ainda hoje, socialistas escrevem livros, artigos e resenhas sobre a revolução enquanto milhões e milhões em todo o mundo aguardam o dia para realizar a grande festa de suas vidas. 

* Pesquisador do CNPq.

FONTECrítica Marxista, n.28, p.171-174, 2009

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Polêmica: "revolução síria" ou um "laboratório de forças imperialistas"


Uma esquerda que a direita gosta

Por Mário Augusto Jakobskind
É no mínimo estranho o fato de alguns partidos brasileiros que a todo instante se proclamam legítimos representantes da esquerda apoiem uma chamada “revolução síria”. E isso em um momento em que no país árabe está clara a participação dos países europeus e Estados Unidos com combatentes mercenários e armas em luta contra o Presidente Bashar al Assad.

Está claro também que o país árabe se transformou em laboratório de forças imperialistas desejosas de traçar um novo mapa no Oriente Médio em favor de seus interesses econômicos. Não é por acaso o apoio ostensivo aos “rebeldes”.

No último dia 31 de maio, o PSTU promoveu uma jornada de apoio à revolução síria, esquecendo-se da prioridade em denunciar a presença do vice-presidente norte-americano Joe Biden em território brasileiro. Ou seja, enquanto Biden veio dar o recado do império, o PSTU se voltava para a Síria, na prática fazendo o jogo de quem os Estados Unidos apoiam.

Da mesma forma que o PSTU, setores do PSOL também levantam a bandeira da suposta “revolução síria”, quando a questão principal naquele país é exatamente denunciar a presença de forças mercenárias com o apoio do Ocidente, numa estranha aliança com a participação da Al Qaeda. Se é que é estranha, porque alguns analistas consideram a Al Qaeda, que a soldo da CIA iniciou seus trabalhos no Afeganistão para combater os soviéticos, um braço do imperialismo.

Mesmo que se faça restrições ao Presidente Bachar al Assad, na prática se posicionar ao lado de grupos com o respaldo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pode ser considerado não só meio estranho como basicamente contraditório. E afirmar que ao apoiar a revolução, que denominam de popular, estão contra os dois lados, não passa de sofisma, porque neste momento a estratégia do império é exatamente convencer a opinião pública mundial que o povo está com os “rebeldes” e contra Bashar al Assad.

Aliás, não é de hoje que sobretudo a “dialética” do PSTU tem lançado a divisão na esquerda. Foi assim quando os ideólogos do referido partido denunciavam o que chamavam de “bonapartismo” de Hugo Chávez, na prática também se alinhando com os opositores da revolução bolivariana. E demonstrando também o equivoco na assimilação de ideias levantadas por Leon Trotsky. Em outros termos, fizeram a leitura e a transplantaram mecanicamente para realidades distintas das vividas pelo líder soviético. Trotsky naturalmente rejeitaria tal equívoco.

Questionar o posicionamento do PSTU e de setores do PSOL em relação aos acontecimentos na Síria, é uma necessidade, para evitar que setores da esquerda na prática se alinhem com a direita. Para evitar também a proliferação e o fortalecimento, como dizia Darcy Ribeiro, de uma esquerda que a direita gosta.

Massacre dos povos indígenas: tudo em nome do agronegócio



Santos, a conspiração contra a Venezuela e a Aliança do Pacífico

Tudo indica que o povo e o governo da Venezuela estão bem conscientes da ameaça que pesa contra eles, que saberão resistir e vencer

Por Atilio Boron 

Por mais que se discuta, qualquer acordo econômico é também um compromisso político. O pensamento neoliberal apresenta suas opções políticas (por exemplo, promover um modelo econômico que enriquece os ricos e espolia os pobres) como se fossem resultado de cálculo técnico ou de alguma racionalidade abstrata, quando, na verdade são exatamente o contrário.
Isso vale tanto para os acordos firmados no plano doméstico quanto no plano internacional. Por isso não surpreende a provocação que vem do governo de Juan M. Santos – que agora diz que tudo não passou de “mal entendido” – ao receber o candidato derrotado da direita venezuelana Henrique Capriles. Ao fazê-lo, o presidente colombiano emprestou alguma legitimidade às escandalosas “denúncias” de Capriles – refutadas por sucessivas auditorias que examinaram os resultados das eleições de 14 de abril – e alinhou-se irresponsavelmente com o líder da ala fascista e mais radical e golpista da direita venezuelana.
Mas… só com essa? Não, porque a estratégia de desgaste em que trabalha o antichavismo não é criação original venezuelana, mas expressão da orientação que continua a ser distribuída de Washington, para conseguir concretizar seu projeto de desconstruir o chavismo e apagá-lo para sempre da face da terra. Por isso a Casa Branca ainda não reconheceu a legalidade e a legitimidade do triunfo de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais na Venezuela. A teimosa reação do insólito Prêmio Nobel da Paz não é teimosia pessoal, mas cumprimento meticuloso do projeto para reverter a correlação de forças no hemisfério que, em 2005, já fez naufragar o projeto da ALCA em Mar del Plata.
Componente fundamental desse projeto é o ataque ininterrupto, a tentativa de deslegitimar e de desestabilizar os governos bolivarianos e progressistas da Região. O sonho impossível dos EUA é restabelecer na América Latina a situação que houve antes da Revolução Cubana, quando as ordens da Casa Branca eram obedecidas sem contestação pelos governos da Região.
Esse é o sentido da tão divulgada e propagandeada Aliança do Pacífico, constituída de México, Colômbia, Peru e Chile, que, empurrada por Washington, já organizou nada menos que sete reuniões de cúpula em pouco mais de um ano.
O objetivo desse hiperativismo diplomático é, principalmente, político e, em menor medida, econômico. É político, porque visa a refazer o mapa sócio-político regional, acabando com os governos dos países da ALBA e inclusive com seus aliados, como os governos de Argentina e Brasil, “cúmplices”, segundo Washington, no processo que derrotou a ALCA. E é objetivo econômico, porque a Aliança do Pacífico é a mais importante peça da contraofensiva imperialista destinada agora, de fato, a tentar conseguir uma “outra” ALCA, sob novo nome, e a potencializar o papel dos “cavalos de Tróia” que Washington tem enviado contra os governos “inimigos”, para boicotar, por dentro, projetos que a Casa Branca rejeita visceralmente, como a UNASUR, a CELAC e, um pouco menos, o MERCOSUL.
Não surpreende que governos e políticos os mais reacionários da América do Sul – e também os da Europa! – disputem entre si o duvidoso privilégio de ser o primeiro a unir-se à Aliança do Pacífico, concebida e orquestrada pelos EUA para defender seus próprios interesses, servindo-se de seus peões latino-americanos e europeus.
Que sentido teria que países como Espanha, Austrália e Japão, que hoje têm status de observadores, tenham declarado que solicitarão, ainda em 2013, o direito de converter-se em membros plenos da Aliança do Pacífico? Austrália e Japão precisam talvez desse instrumento norte-americano, para vincular-se ao novo centro de gravidade da economia mundial, que está, não distante, mas precisamente em seu entorno? Ou o fazem exclusivamente porque são países submetidos militar, econômica e diplomaticamente à vontade da Casa Branca e, assim, fazem o que são mandados fazer?
Claro está que é movimento engendrado nos EUA, do qual Santos é o principal articulador (não esqueçamos e a última e fundamental reunião da “aliança” aconteceu há poucos dias, 22-23 de maio, em Cali, Colômbia), e que exige de seus protagonistas submissão abjeta aos éditos e prioridades dos EUA.
Para a Casa Branca, hoje, nada é mais importante que aproveitar o momentâneo desconcerto provocado pela morte de Hugo Chávez para “pôr ordem” no que o secretário de Estado John Kerry chamou de “quintal dos fundos de Washington”– expressão que, de tão reveladora, deixara de ser usada há muito tempo. E Santos obedeceu e recebeu um político desprestigiado e já derrotado nas urnas, que é apoiado pelo que há de pior na direita latino-americana e europeia – principalmente pelo corrupto Partido Popular de España (PPE), cujo chefe clandestino é José M. Aznar – culpado por haver instigado a prática de crimes que culminaram no assassinato de onze chavistas e de mais de uma centena de feridos, além da destruição de clínicas populares de atendimento médico e prédios públicos na Venezuela.
O objetivo do giro latino-americano de Capriles é desprestigiar a qualquer custo o governo de Maduro, inclusive deteriorando ainda mais as já difíceis relações entre Colômbia e Venezuela. É Washington fazendo ver aos seus estados-clientes que não haverá limites éticos ou escrúpulo de tipo algum, para tentar isolar o governo da Venezuela, caracterizá-lo como “estado bandido”, e enfraquecê-lo, no confronto com Washington.
Para isso se combinarão estratégias de sedução hipócrita – Joe Biden elogiando o Brasil como potência já “emergida”, mas sem dizer que o Brasil é o país mais cercado por bases militares dos EUA, de toda a América Latina – e outras estratégias mais brutais, como as que Biden com certeza comunicou ao presidente Santos na visita que lhe fez.
E haverá também iniciativas como a da Aliança do Pacífico, que, por causa dos objetivos que tem e da extraordinária mobilização de recursos, será arriscado não levar em conta. Tudo indica que o povo e o governo da Venezuela estão bem conscientes da ameaça que pesa contra eles, que saberão resistir e vencer.
A Venezuela e o povo venezuelano sabem que contarão com a solidariedade militante da maioria dos povos e governos de Nuestra América, os quais, com suas lutas, derrotarão outra vez a velha ideia da velha ALCA, que agora reaparece com outro nome. No nauseabundo contexto internacional que se configura, deve-se destacar o honrado gesto do presidente Rafael Correa, o qual, por seu Chanceler, informou que o Equador não receberia Capriles.

sábado, 1 de junho de 2013

As FARC-EP, meio século de luta pela paz


Por Miguel Urbano Rodrigues

Os Diálogos para a Paz entre as FARC e o governo colombiano chegaram a um importante acordo sobre a Reforma Agrária. O difícil processo negocial prossegue. As FARC estão conscientes de que a conquista da Paz é inseparável do desmantelamento da oligarquia que utiliza o Estado como instrumento da sua política de classe, marcada por uma repressão feroz.



O comunicado conjunto divulgado em Havana no dia 26 de maio pelas delegações das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia-Exercito Popular e do governo de Bogotá assinalou a abertura de um novo ciclo dos Diálogos para a Paz iniciados naquela cidade.

Após seis meses de conversações difíceis, os representantes da guerrilha e do executivo colombiano assinalaram um acordo para uma «Reforma Rural Integral», primeiro ponto da Agenda em debate.


O documento prevê transformações radicais no mundo agrário. A maioria das principais exigências das FARC foi aprovada. Entre elas as relativas ao acesso e uso da terra, à formalização da propriedade, às terras improdutivas, aos programas de desenvolvimento social (educação, habitação, erradicação da pobreza), ao estímulo à produção agropecuária, ao Fundo de Terras para a Paz, ao ambiente.

No dia 11 de Junho as delegações iniciam a discussão do segundo ponto da Agenda: a Participação Política, que envolve o tema crucial da Democracia.


O presidente Juan Manuel Santos afirmou estar empenhado na continuação do processo «com prudência e responsabilidade».

Numa Declaração emitida simultaneamente em Havana, as FARC-EP consideram positivo o acordo alcançado sobre a Reforma Agrária, mas alertam para as dificuldades do diálogo na Mesa de Negociações sobre os restantes pontos da Agenda, nomeadamente os relativos à droga, ao cessar-fogo e armamentos e à reintegração das populações expulsas dos seus territórios.


As FARC estão conscientes de que a conquista da Paz é inseparável do desmantelamento da oligarquia que utiliza o Estado como instrumento da sua política de classe, marcada por uma repressão feroz.

É significativo que enquanto cresce o apoio popular às iniciativas do Movimento Colombianos para a Paz, liderado pela ex senadora Piedad Córdoba, alguns ministros – entre eles Fernando Carrillo, o do Interior - falam outra linguagem, sugerindo o fim das conversações se até ao Natal não for assinado um Acordo Global.

O alto comando das Forças Armadas também se empenha em sabotar os debates de Havana – apoiados pela Noruega e Cuba- intensificando a guerra. Os 50 drones - os aviões assassinos sem piloto - recentemente adquiridos já teriam sido utilizados em bombardeamentos em La Macarena, Orito, Saravena e Catatumbo.

A posição de Barack Obama é, como habitualmente, ambígua e hipócrita. Diz apoiar os diálogos para a Paz, mas envia o vice Joe Binden a Bogotá para derramar elogios sobre o governo da Colômbia, seu melhor aliado na América Latina, e expressar ali o desejo dos EUA de aderirem à chamada Aliança do Pacifico. Cabe esclarecer que essa estranha Aliança foi concebida em Washington para funcionar como contraponto ao Mercosul. Integram-na por ora o México, o Chile, a Colômbia e o Peru, países cujos governos desenvolvem políticas de submissão ao imperialismo estado-unidense.

O apoio militar à guerra contra as FARC-EP prossegue. Os EUA, que já investiram mais de oito mil milhões de euros no financiamento do Plano Colômbia, instalaram no país sete novas bases militares desde o início da Administração Obama.

MEIO SÉCULO DE LUTA

Ao contrário da imagem edénica de país próspero em acelerado desenvolvimento pela ação de um governo democrático e progressista, imagem que Juan Manuel Santos difundiu na sua visita a Portugal, a situação na Colômbia continua a degradar-se.

O paramilitarismo permanece impune com raras exceções. A corrupção desenfreada e a miséria, na capital e nas grandes cidades, alastram. As mais numerosas e bem equipadas forças armadas da América Latina- meio milhão de militares – absorvem uma fatia colossal do orçamento. A fome, endémica em muitas regiões, atinge oito milhões de pessoas. 15 000 crianças morrem anualmente antes dos cinco anos por desnutrição Dirigentes sindicais são assassinados rotineiramente todos os meses. Mas o número de multimilionários aumenta a cada ano numa das sociedades mais desiguais do mundo.

As FARC-EP, fundadas em Marquetalia apos combates épicos na rutura de um cerco, acabam de comemorar 49 anos de existência e de luta ininterrupta.

Incluídas pela União Europeia e pela ONU na lista de organizações terroristas, caluniadas, acusadas de narcotraficantes por um presidente, Álvaro Uribe, que foi aliado de Pablo Escobar, o rei da coca, as FARC assumem-se como organização revolucionária, marxista-leninista.

«Somos povo – afirmam - que empunha as armas contra as armas do poder e contra a repressão».

Moderadamente otimistas, tudo fazem para que as conversações de Havana permitam a concretização das aspirações de paz do povo colombiano.


Mas não esquecem que uma das cláusulas da Agenda estabelece que o Acordo Geral de Paz somente será possível se todos os pontos neles incluídos forem aprovados. A rejeição de qualquer deles implicaria a anulação dos demais.

Por si só, essa exigência é esclarecedora da falta de transparência e da má-fé que têm sido permanentes nas posições dos delegados do governo na Mesa de Negociações.

Hoje, como sempre, as FARC-EP defendem uma solução política cujo desfecho seja uma Paz definitiva numa Colômbia democrática.

Elas acreditam como Bolivar que as Forças Armadas devem ser o povo em armas, um instrumento de defesa da soberania nacional. Usa-las contra o povo, como acontece na Colômbia, é um crime monstruoso.


FONTE: ODiario.Info


Casa onde viveu Marighella pode virar museu

Memorial da Resistência Carlos Marighella ocupará dois casarões no Pelourinho


Quem passa pela Rua Barão do Desterro, na Baixa dos Sapateiros, não tem ideia de que a casa da esquina, abandonada e com a fachada em ruína, foi  onde o líder comunista Carlos Marighella passou a infância e parte da juventude.

O imóvel  onde o pai de Marighella, o italiano Augusto, criou os sete filhos que teve com a negra Maria Rita e mantinha uma oficina de motores pode ter novo destino: ser transformada em museu.

A ideia é que a antiga casa da família seja integrada ao Memorial da Resistência Carlos Marighella, que vai funcionar em dois imóveis localizados no Pelourinho, cedidos pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) da Bahia.

O memorial é um resgate da história do baiano - morto em São Paulo numa emboscada dos órgãos de repressão, sob o comando do delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, em 1969 - e também daqueles que enfrentaram o golpe militar de 1964.

A instalação da "Casa de Marighella" foi sugerida pelo arquiteto Marcelo Carvalho Ferraz em carta endereçada  ao Ipac,  no mês passado, na qual defende o tombamento do imóvel como patrimônio do Estado da Bahia.

"Humanizar"

O advogado e ex-deputado Carlos Marighella Filho acredita que transformar a casa onde o pai foi criado em um museu vai contribuir para "humanizar" e "aproximar" as pessoas do homem que lutou em defesa da liberdade e da democracia do Brasil.

"A casa tem aquele elemento de emoção, de humanização, de nos tornar próximos daquelas figuras que fizeram história e que admiramos", entende o advogado.

Ele lembra que o pai morou na Baixa dos Sapateiros até por volta dos 25 anos, quando se mudou para São Paulo para comandar o Partido Comunista. Os anos passados na casa da Baixa dos Sapateiros foram marcantes para Marighella.

"Ele falou da casa em seus poemas", informa o filho, lembrando que o pai também era um poeta sensível.
As duas iniciativas - o memorial e a casa - têm por objetivo maior, assinala Marighella Filho, restaurar a verdade sobre a trajetória do líder comunista, apontado pelos órgãos de repressão como "terrorista" e "inimigo público número um".

O primeiro passo neste sentido ocorreu em 5 de dezembro de 2011, data em que se comemorou o centenário de nascimento do ex-deputado federal do Partido Comunista do Brasil [PCB].


Carlos Marighella foi declarado herói nacional ao ser  anistiado "post mortem", em Salvador, pela 53ª Caravana da Anistia do Ministério da Justiça, cujo objetivo é reparar os crimes cometidos pelo último regime militar que governou o Brasil (1964 e 1985).
A implantação do Memorial da Resistência está sendo discutida desde o início do ano por especialistas, para definir os projetos arquitetônico e museológico (documentação, linhas de pesquisa, temáticas expositivas) a serem adaptados nos imóveis.

FONTE: A Tarde

ECOS DA GUERRA FRIA: Cuba repudia inclusão "injusta e arbitrária" em lista terrorista dos EUA

Departamento de Estado mantêm Cuba, assim como Irã, Sudão e Síria, na lista de países que patrocinam o terrorismo

O governo de Cuba criticou nesta quinta-feira (30/05) a inclusão por mais um ano na lista de países patrocinadores do terrorismo elaborada pelos Estados Unidos -- o país aparece no documento desde 1992. Além disso, Havana pediu o fim de uma acusação "injusta" e "arbitrária", cujo único objetivo é justificar o bloqueio norte-americano sobre a ilha.
[Chanceler cubano, Bruno Rodríguez. Ministério das Relações Exteriores do país condenou inclusão em lista dos EUA de patrocinadores do terrorismo]

"Esta decisão vergonhosa foi tomada faltando de maneira deliberada com a verdade e ignorando o amplo consenso e a exigência explícita de vários setores da sociedade norte-americana e da comunidade internacional para que se ponha fim a essa injustiça", afirmou em nota o Ministério das Relações Exteriores cubano.

Após rejeitar "energicamente a utilização com fins políticos de um assunto tão sensível como o terrorismo internacional", Cuba reivindica que "se ponha fim a esta designação vergonhosa que ofende o povo cubano, tem como único objetivo tentar justificar o bloqueio anacrônico e cruel contra Cuba e desacredita o próprio governo dos EUA".

Em seu relatório anual, o Departamento de Estado norte-americano mantêm Cuba, assim como Irã, Sudão e Síria, na lista de países que patrocinam o terrorismo. Washington afirma que Havana "continua proporcionando refúgio a vários membros da ETA" e "em anos passados" permitiu que guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) se refugiassem na ilha ou transitassem por ela com destino a outros países.

Cuba novamente rebateu as acusações, declarando que seu território "nunca foi e nunca será utilizado para abrigar terroristas de nenhuma origem, nem para organizar, financiar ou perpetrar atos de terrorismo contra nenhum país do mundo, incluindo os EUA". Em relação às FARC, Havana classifica de "absurda" a acusação dos EUA e lembra que Cuba está atuando como mediador dos diálogos de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e a guerrilha.

Especificamente sobre o caso dos membros da ETA na ilha mencionados pelo relatório norte-americano, Cuba diz reprovar os EUA por desconhecerem que esses casos correspondem a "uma solicitação dos governos envolvidos na situação". Já em relação à acusação de oferecer refúgio a fugitivos procurados nos EUA, a nação caribenha respondeu que nenhum deles foi acusado de terrorismo.

Uma das asiladas políticas mais famosas é a ativista Assata Shakur, do Partido Pantera Negra, que vive na ilha desde 1984. "Cuba sofreu durante décadas as consequências de atos terroristas organizados, financiados e executados a partir do território dos EUA, com um saldo de 3.478 mortos e 2.099 incapacitados", lembrou a declaração. O governo cubano sustentou ainda que, desde 2002, propôs aos EUA a adoção de um acordo bilateral para enfrentar o terrorismo, oferta que reiterou em 2012, sem ter recebido qualquer resposta.

* Com informações da Agência Efe

FONTE: Opera Mundi