domingo, 10 de julho de 2011

"Nova História em Perspectiva"

História esmigalhada

A encruzilhada da escola historiográfica que já experimentou análise e narração



RESUMO

A antologia "Nova História em Perspectiva" retraça a evolução da corrente historiográfica formatada na esteira da crise de 29, desde a busca da "história total" até o flerte com um viés narrativo. Em entrevista, os organizadores apontam os limites da tendência e opinam sobre o ensino de história no país.



ELEONORA DE LUCENA



ESCREVER HISTÓRIA com foco em datas e homens. Ou nos grandes movimentos em torno do poder e da luta de classes. Ou em torno das migalhas do cotidiano, dos amores e dos humores. Nas entrelinhas de cada maneira de trabalhar a história há um pensamento, uma teoria, um debate acadêmico, político, científico, ideológico -todos encharcados de história.


 
Na esteira da crise global de 1929, formou-se, em torno de nomes como Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956), uma escola de historiadores batizada de "Annales", por causa da publicação que editavam na França. Porosa às emergentes ciências sociais, a "nova história" se contrapunha ao positivismo, à história como gênero literário, e consagrou uma dimensão analítica.


 
A partir daí, vieram nomes como Fernand Braudel (1902-1985) e Jacques Le Goff. A escola tornou-se hegemônica na academia e nas escolas. Ganhou o mundo. Ao longo do tempo, transformou-se e ruminou contradições. Mais recentemente, cristalizou-se em torno de uma abordagem mais narrativa, menos explicativa, fixando-se em temas pontuais e abandonando a "história total" de suas origens. Bateu de frente com o marxismo.


 
Para tratar da história dessa história, Fernando Antonio Novais, 77, e Rogério Forastieri da Silva, 64, lançam nesta semana "Nova História em Perspectiva" [Cosac Naify, 552 págs., R$ 79]. O livro é uma antologia de textos que embasaram essa corrente em suas diversas fases. Para apresentar a coletânea, os organizadores -"historiadores marxistas, na periferia do capitalismo", como se definem- produziram uma densa introdução. Nela, cuidam da tensão entre materialismo histórico e "nova história" no desenrolar do tempo. Discutem os limites da "história em migalhas" e os impasses do marxismo, identificando transformações mais recentes. Tratam especialmente dos contextos desses movimentos e do debate teórico em torno do fazer história.


 
Na obra, 20 autores (como Braudel, Le Goff, Carlo Ginzburg e Paul Veyne) se debruçam sobre seus métodos, dilemas e escolhas. Haverá um segundo volume com novos nomes do grupo. Um terceiro, só com autores brasileiros, está em projeto. Novais e Forastieri falaram à Folha sobre o livro.


Folha - O que é a "nova história"?

Fernando Novais - É a tendência dominante entre os historiadores no mundo. Nasceu na França em 1929, com a fundação da revista "Annales". Passa a dominar na segunda metade do século 20. Resolvemos nos posicionar sobre isso. É como falar para um economista brasileiro se posicionar entre monetaristas e estruturalistas.

Rogério Forastieri - O trabalho diz respeito a um setor específico da história: a historiografia, a história da história. Quem cursou história ouviu que a nova história é a melhor coisa que se produziu. Que antes havia uma coisa perigosa, execrável chamada positivismo. Procuramos situar esse movimento do ponto de vista da historiografia e tratar desse debate.



O livro mostra que, em sua primeira fase, a nova história dialogou com as ciências humanas, especialmente com a sociologia. Depois, convocou a economia, conversando mais com o marxismo e sendo mais analítica. Na terceira fase, a atual, a antropologia tem mais peso. É mais narrativa, com menos contexto, uma "história em migalhas". Qual o desenrolar dessa história com a crise atual?

Novais - A antologia pretende apresentar textos das formulações, dos desdobramentos e dos questionamentos. A novidade é examinar isso dentro da história geral da historiografia. A história da historiografia normalmente é considerada de duas maneiras: a tradicional e a moderna. A historiografia moderna é científica; a tradicional, não. Ser científico é ser explicativo. A outra era apenas narrativa. É como se a historiografia moderna não tivesse nada a ver com a tradicional. O nosso ponto de vista é que tem.

Não é só uma distinção temporal. É que a história moderna dialoga com as ciências sociais. A tradicional não dialogava por um motivo muito simples: não existiam as ciências sociais.

A historiografia anterior ao século 19 entendia que se reconstitui a vida diretamente pelos registros, pelos documentos. A moderna não diz o contrário. É preciso ter documentos. Mas diz que, para reconstituir, é preciso explicar. O historiador explica para reconstituir; o cientista, qualquer que seja, reconstitui para explicar. Essa é a diferença. A "nova história" acentuou o lado não analítico, o lado narrativo, esmigalhado.

Forastieri - Tem um autor que fala que é um positivismo arejado.

 
Isso perdura? Há alguma mudança?

Forastieri - Uma das poucas coisas que a prática da historiografia ensina é a não fazer previsões. É a crise dos paradigmas, não só na história, mas na ciência em geral -até nas ciências exatas.

 
O sr. poderia explicar a crise dos paradigmas?

Novais - A crise dos paradigmas é a crise da ciência, quando conceitos mais gerais foram abandonados. É a crise do estruturalismo. Em história, o que mudou? Foi uma mudança de assunto. Em vez de estudar Estados, estruturas, produção, consumo e poder, a história passou a estudar os modos de sentir, os amores e os humores. As obras ficaram mais bonitas.

Nós nos perguntamos quais são as implicações disso. Nas ciências humanas, houve uma mudança de conceitos. Na economia, por exemplo, em vez de estudar desenvolvimento e subdesenvolvimento, passaram a estudar ciclos. Passou do macro para o micro. Nas ciências sociais, houve uma mudança de conceitos. Na história, houve o abandono desses conceitos, uma desconceitualização -que é a característica da "nova história".

Mas está mudando. Os debates da terceira parte do segundo volume mostram isso. Um grande historiador como Carlo Ginzburg, um pilar da "nova história", ultimamente insiste que cada vez mais é preciso retomar o caráter analítico da história. Tem que haver um equilíbrio entre narração e análise. História profissional é mais complicado. Todo mundo acha que sabe de história. Pior, todo mundo acha que pode fazer história.

 
Como os srs. veem o fato de muitos livros de história que vendem bem não serem de historiadores?

Novais - E não são livros de história. O mercado tem as suas leis. Se perguntar para o mercado quem é bom, Guimarães Rosa ou Paulo Coelho, a resposta será Paulo Coelho. Quem mais imagina que pode fazer história são os jornalistas. Não tenho nada contra eles. A divergência é em relação a conceitos, não a pessoas.

 
Mas esses livros são malfeitos?

Novais - Alguns são, outros não. Outros são muito bem-feitos. Nenhum é livro de história. Porque, para fazer história, tem que ser profissional. Tem que conhecer história, não só do assunto que se está estudando. História é situar uma coisa no tempo. Precisa conhecer o tempo. Em história, o último livro não é necessariamente o melhor.

 
Como avaliam a qualidade dos livros didáticos e a maneira como se ensina história hoje no Brasil?

Novais - Acho que a "nova história", descontextualizante, acabou tendo efeito no livro didático e no ensino secundário. Minha neta de dez anos me disse que começou a estudar a escravidão vendo a escravidão hoje. Fazem história de trás para frente, ao contrário. Isso para mim é uma maluquice.

 
Não é uma questão de atração?

Novais - A influência da "nova história" na maneira pela qual se ensina foi maléfica. Contrariando a expectativa dos autores -que achavam que esse sistema de estudar os amores, os humores iria chamar a atenção-, tenho a impressão de que o prestígio da história entre a moçada não é tão grande como era antes.

Falavam que era só "decoreba" e que o aluno não gostava. Mas podia ensinar história sem grandes decorações. Também não se deve dizer que não precisa saber as datas. Isso deve ser sabido. Memória é importantíssima para o conhecimento histórico e para a vida.

Noto um desprestígio. Faço revisão na Fundação Carlos Chagas [que prepara provas de vestibular e concursos de admissão] há anos. O número de questões de história diminuiu em todos os testes.

Forastieri - A história lida com uma das dimensões fundamentais da existência humana: a temporalidade. A história está preocupada com a reconstrução dos eventos. O evento é importante. O grande problema -e sobre o qual a "nova história" teve responsabilidade- é a negação de que existe uma estrutura subjacente, [o discurso de] que a estrutura é uma camisa-de-força. O grande problema é a opção pelo voo curto. Não é tanto o fato de estudar especificamente uma coisa ou outra. Acho legítimo. Mas é preciso mostrar que existe um nexo entre evento e estrutura.

 
Vocês não se consideram adeptos da nova história. São historiadores marxistas.

Novais - De um certo marxismo. No texto, procuramos situar duas coisas: a formulação teórica do materialismo histórico, dos clássicos, e depois como é que fica a historiografia que se inspira no materialismo histórico diante dessa periodização da história geral. Na crise dos paradigmas, a "nova história" aparece como sendo a derrota do comunismo e do marxismo. É bom pensar o seguinte: a crise atual mostra que quem tinha razão? Segundo a economia clássica, o mercado resolve as coisas. Parece que não aconteceu assim.

 
A crise trouxe de volta o marxismo?

Novais - [O crítico literário] Roberto Schwarz, há algum tempo, fez uma observação muito boa: se o capitalismo está vitorioso, isso vai exigir a volta de Marx. Porque até os conservadores confessam que quem entende de capitalismo é Marx. Sabem que Marx dizia que ia ter crise; eles diziam que não ia ter crise. Mas a crise do capitalismo está na primeira página dos jornais.

 
Qual a posição dos senhores sobre o sigilo de documentos?

Novais - O ideal é que todo documento seja público, e o historiador tenha acesso. Mas é preciso um mínimo de realismo: não vai ser assim em parte alguma. Vai ter limitação. Mas tem que ser mínima e para um tipo de documento. Quem vai saber se o documento é muito confidencial? Não pode ser o governo. Tem que ter representantes da sociedade que definam isso: quais documentos e por quanto tempo [serão confidenciais].

FONTE: Folha de São Paulo, 10 de julho de 2011.
 
 
Nova História em Perspectiva - Sinopse
 
 
EDITORA COSACNAIFY



Organização: Fernando A. Novais, Rogerio Forastieri da Silva


Textos: André Burguière, Carlo Ginzburg, Emmanuel Le Roy Ladurie, Fernand Braudel, Hayden Whit, Jacques Le Goff, James Harvey, Joyce Appleby, Lucien Febvre, Lynn Hunt, Margaret Jacob, Massimo Mastrogregori, Maurice Aymard, Michel Vovelle, Natalie Z. Davis, Philippe Ariès, Pierre Chaunu, Pierre Nora, Stuart Clark




Nova história em perspectiva reúne em dois volumes 41 textos – a maior parte inédita em português – onde se delineia a revolução que a historiografia viveu a partir do surgimento da Escola dos Annales em 1929. Mas além dos primeiros manifestos de combate, passando por ensaios clássicos, desdobramentos, até interpretações mais recentes – assinados por figuras centrais como Lucien Febvre, Fernand Braudel, Jacques Le Goff, Carlo Ginzburg e Hayden White - o leitor encontrará um balanço crítico e uma tomada de posição dos organizadores, contribuição brasileira substantiva para a bibliografia internacional.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Crise terminal do capitalismo?

Por Leonardo Boff



Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários países europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.


Leonardo Boff é teólogo e escritor.

 
FONTE: Carta Maior

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Como ensinar com manuscritos antigos

Arquivo Público do Estado de São Paulo lança site que ajuda professores a utilizar em sala de aula documentos históricos escritos à mão

 
por Pietro Henrique Delallibera



Cartas, testamentos, processos penais, atas de reuniões, anotações em agendas e até bilhetes colados em geladeiras. Todos esses documentos têm uma coisa em comum: foram escritos à mão. E o Arquivo Público do Estado de São Paulo decidiu reunir e digitalizar mais de 140 deles para montar uma mostra virtual sobre as mudanças que os registros feitos à pena ou à caneta sofreram ao longo dos últimos séculos de história brasileira.

 
O resultado foi o site Manuscritos na história, no qual o internauta pode conferir todos esses documentos divididos por tema em dez ambientes diferentes. A mais antiga das relíquias é um testamento escrito em 1707, mas o visitante também pode entrar em contato com o texto original da Constituição Política do Estado de São Paulo de 1891, com o manuscrito do poema Círculo vicioso, de Machado de Assis, ou com uma carta de Júlio Prestes escrita em 1942.

 
O ponto alto do site é a seção “Atividades pedagógicas”. Nela, o Arquivo do Estado elaborou nove propostas de uso em sala de aula dos materiais disponibilizados pelo site voltadas turmas para o ensino fundamental. As atividades trabalham principalmente questões ligadas às aulas de português e de história.


terça-feira, 5 de julho de 2011

As três mortes de Osama Bin Laden

Quando, finalmente, os Estados Unidos anunciaram, em 2 de maio de 2011, a morte física de Osama Bin Laden, o líder da Al-Qaeda já era um cadáver político. Sua terceira, e definitiva morte em Abottbad, seguia-se a sua morte estratégica no Iraque e a sua morte política nas ruas do Cairo, Tunis e Bengazi.


Por Francisco Carlos Teixeira*



A mídia internacional, não sem razão, deu amplíssimo destaque ao ataque pontual, preciso e letal de um comando militar americano ao esconderijo-fortaleza de Osama Bin Laden. De forma aparentemente insuspeita o líder da Al-Qaeda ocultava-se não muito longe de capital do Paquistão, numa área de segurança militar e com acesso direto – conforme a análise dos celulares capturados no local – ao notório ISI (Inter Service Inteligence), o serviço de informações e inteligência paquistanês – órgão pretensamente aliado aos Estados Unidos. Passado algum tempo de sua morte podemos, agora, fazer um balanço sobre o impacto do jihadismo militante e terrorista da Al-Qaeda sobre o mundo muçulmano e sobre as estratégias políticas mundiais.



A Al-Qaeda como eixo da política mundial

Desde os cruéis ataques de 11 de setembro de 2001 o governo dos Estados Unidos – com George W. Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Robert Bolton e outros representantes do chamado “neoconservadorismo” – adotou a tese de que a maior ameaça global (bem à frente das demais “Novas Ameaças” inerentes ao globalismo) era o terrorismo jihadista (derivação da palavra Jihad, guerra santa dos muçulmanos, mas também chamado de terrorismo islâmico ou fundamentalista ou ainda mujahidin - da expressão árabe “guerreiro santo”). Neste caminho, já em 14 de setembro de 2001, na sua primeira fala pós-impacto, Bush declarou uma “cruzada” contra o terrorismo. Em face da gafe – afinal as cruzadas foram terríveis e não provacados ataques do mundo cristão contra um Islã, em seu conjunto, então complacente e tolerante. Como uma corrigenda, a Casa Branca renomeou sua estratégia como “Guerra global contra o terrorismo internacional”. Para a consecução de seus objetivos a Administração Bush buscou todos os meios da grande potência americana: ações encobertas das tropas especiais; tribunais secretos; seqüestros internacionais; tortura (aberta e direta em Abu Graib, no Iraque, e sutil e humilhante em Guantánamo, Cuba); controle de viagens internacionais; listas de simpatizantes e de “neutros” perigosos; construção de uma incrível rede de segurança centrada no novo departamento de segurança doméstica (o “Home Security”) e, acima de tudo, e em primeiro lugar, a represália bélica em larga escala. Foi assim que Bush desencadeou, em 2001, a guerra contra o Afeganistão e, em 2003, a Guerra no Iraque. Por pouco, muito pouco mesmo, não completou sua obra com um ataque ao Irã.

Na ocasião valia, para as relações internacionais, a máxima de amigo incondicional dos Estados Unidos – ou seja, seguidor da política de Bush - ou inimigo dos americanos. Todos os motivos – e qualquer boa mentira –, desde a destruição de supostos estoques de armas de destruição em massa até a imposição de políticas de democratização forçada de ditaduras do Oriente Médio, serviam para tornar o “mundo um lugar mais seguro”.

Tudo isso deveria garantir a segurança dos Estados Unidos.

Ao longo da Administração Bush, no entanto, os ataques terroristas, de tipo jihadista, aumentaram em número e em ousadia. Madrid, Londres, Marrakesh, Bali, Mumbai e Karachi e outras grandes cidades foram atingidas. Dezenas de pessoas foram seqüestradas e mortas. No Iraque – onde temos alguns dados, mesmo que incertos – um número superior a 100 mil e inferior a 900 mil pessoas foram mortas e cerca de três milhões fugiram do país. Enquanto isso os Estados Unidos e seus aliados perderam no país 4.787 militares e tiveram 11.191 homens gravemente feridos, muitos a maioria de forma incapacitante. Algumas fontes autônomas julgam que em verdade o número de mortos nunca será exatamente conhecido.

Fontes dos serviços de saúde iraquiana falam em outras 1.690.903 pessoas seriamente feridas (alguns com seqüelas permanentes devido aos armamentos usados pelos terroristas ou mísseis norte-americanos). No Afeganistão, desde 2001 – mesmo com a derrocada do regime dos talibãs, que davam cobertura a Al-Qaeda – constituiu-se um regime corrupto, inseguro e liberticida e, além de tudo, incapaz de controlar sequer 30 quilômetros em torno de Cabul, a capital. Neste país 2.564 militares da coalizão ocidental foram mortos em combates contra os talibãs e a Al-Qaeda ( até julho de 2011 ), enquanto as operações militares dos Estados Unidos e da OTAN mataram 19.629 afegãos e feriram outros 48.644. Durante todo esse banho de sangue os Estados Unidos, que estiveram por vezes próximo de capturar (ou matar) Bin Laden, falharam em seu compromisso. A maior parte dos fracassos americanos deveram-se a uso de tropas locais afegãs, a intromissão da inteligência paquistanesa e, depois de 2003, na divisão de meios entre o teatro de operações do Afeganistão e do Iraque.

A Al-Qaeda, duramente atingida em 2001/2 pode, então, reestruturar-se e criar franquias – a famosa “nebulosa Al-Qaeda – expandindo-se para o Iraque, o norte da África, o Sudão, o Sahel ( Niger, Mali e Tchad ) e no Sudeste Asiático. Por um momento, entre 2007 e 2009, parecia que o terrorismo mujahidin estava em avanço.

Como afirmou Thomas Ricks, correspondente americano no Pentágono, as guerras de Bush foram um “fiasco”.

Terrorismo e Guerra

O terrorismo, em sua acepção mais lata, enquanto uma ação violenta contra a população civil visando obrigar um governo a fazer ou deixar de fazer algo (implementação de políticas) é um ato vil e covarde. Pouco importa o que o Estado norte-americano faz no mundo, ou a forma com a qual a Índia ocupa a Caxemira, ou Israel ocupa a Palestina, explodir civis em locais públicos é injustificável ( atenção leitor: por favor, não pare de ler aqui... continue! ). Muitas vezes, dada a desproporcionalidade de forças e/ou a crueldade da força superior ou potência dominante, a ação terrorista ganha foros de heroísmo. Com muito clareza, Karl Marx, na sua pouca conhecida correspondência com revolucionária russa Vera Zasulich (1849-1919) comentando a prática terrorista dos anarquistas russos, sob a terrível ditadura do czar, condenou a ação terrorista como nefasta, inútil e cruel. Algumas entidades terroristas, visando à libertação nacional (mesmo que, sob vários aspectos, de forma muito discutível) como o ETA e o IRA assumiram o terrorismo como forma dominante de ação. Nestes casos, entretanto, não houve atentados em massa, contra alvos civis desprotegidos. Estas entidades determinavam alvos que deveriam, em tese, representar o “Estado” inimigo, tais como soldados, policiais, juízes e políticos.


Mesmo nestas condições as populações a serem “libertadas” não aceitaram de forma inequívoca a forma escolhida de luta – no mundo real as pessoas são gente como a gente, para além de suas funções, como o caso do jovem soldado Gilad Shalit. Em especial, a existência de um estado de direito – como na Espanha pós-Franco, ou na Alemanha Federal ao tempo do grupo Baader-Meinhof – desautorizava as ações terroristas. Em outro extremo, casos de levantes populares maciços – como as “Intifadas” palestinas ou os levantes nacionalistas na Índia à época de Gandhi – foram denominados abusivamente de terroristas. O poder dominante nestas condições – britânicos ou Israel – usou de força desproporcional, abusiva e de forma cruel, caracterizando terrorismo de Estado.


Em outras situações o Estado, não só superior por natureza – o detentor do monopólio da violência – e por relação em face dos movimentos sociais, agiu de forma a produzir o medo maciço na população civil, visando desmobilizar os protestos populares. Em várias destas ocasiões como em Amritsar (Índia), 1919, pelos britânicos; em Soweto (África do Sul) em 1976, ou Gaza em 2008 ou nas cidades sírias desde o inicio de 2011 estamos diante de uma atuação terrorista por parte do estado constituído, que falta e agride a norma da “Responsabilidade de Proteger” como definida pela ONU (ver Resolução 1973, de 2011).


Assim, vemos que a questão do(s) terrorismo(s) é complexa e abarca um amplo leque de ações e responsabilidades. Mas, no conjunto das análises existentes há um consenso de especialistas de que os meios investigativos são mais eficazes do que o uso extensivo de uma panóplia militarista. Em especial quando nos referimos ao terrorismo de pequenos grupos bem organizados, com finanças eficazes, inteligência estratégica e grande capacidade de proselitismo – o que denominamos de “Estado-Rede” – o enfrentamento e o desmantelamento de tais redes não poderia ser chamada de “guerra”. Potências importantes e democráticas, que historicamente enfrentaram o terrorismo – como a Índia, França ou Alemanha – buscaram meios inteligentes, tais como controle de fluxos de capital, de material explosivo e de informações digitais para pautar sua ação, o que resultou numa resposta justa e mais pacifica.


Não nos referimos a nenhuma operação tipo “Corações e Mentes”, no mais fracassadas, como no caso do Vietnã ou da Nicarágua. Aí não havia terrorismo e sim uma guerra civil, com intervenção estrangeira, de tipo nacional e social. Na verdade, o caso do IRA e a pacificação – ainda incompleta – da Irlanda seria um exemplo bem melhor.

A opção de George Bush

Ora, George Bush nunca pensou, sequer por um minuto, neste longo rol de experiências históricas. Sua decisão, rápida, superficial e, no limite, irresponsável dirigiu-se desde o primeiro momento pela necessidade da guerra, de uma resposta bélica – pouco importava onde - capaz de criar uma onda nacionalista nos Estados Unidos que sustentasse uma longa continuidade da “revolução conservadora” que se apossara do país. Seymour Hersch, jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer, descreve em detalhes como Bush escolheu voluntariamente a guerra.

Pior de tudo é que a escolha de Bush, além de errada, era inconsistente e ineficaz. Milhares de pessoas morreram em razão de tal escolha. É verdade, temos que admitir, que a escolha de Bush estava em paralelo – embora não fosse condicionada ou enquadrada - pela visão de mundo de Bin Laden e de seus seguidores, mantenedores e simpatizantes ( desde os milionários do Golfo Pérsico até as forças militares paquistanesas ). Mas, decididamente, não era a única resposta possível. Talvez estivesse bem mais condicionada pela forma do agir político da direita militarista americana – paradoxalmente mais representada por civis como Dick Cheney e Donald Rumsfeld do que por militares profissionais americanos. Em seu conjunto eram homens claramente prisioneiros de uma visão de mundo expressa em finais cinematográficos do tipo “Ok Corral” ou “Independence Day”.

Obama e Osama

A chegada de Barack Obama ao poder mudaria muito claramente a forma desse agir político – e de sua expressão militar de tipo duelo do “bad boy contra o good boy”. Enredado nas suas promessas de campanha eleitoral – muitas das quais muito (muito mesmo!) mais difíceis de por em prática do que de falar, tais como fechar a prisão “sem lei” de Guantánamo - Obama buscou uma solução para as guerras herdadas de Bush. No Iraque será encenado um arranjo político com a oposição sunita, que gradualmente abandonaria as ações militares contra os Estados Unidos e a maioria xiita, para criar um espaço de ação comum no interior do novo estado oriundo da catástrofe de 2003.

Este é o momento em que Osama Bin Laden começava a morrer.


As tribos beduínas iraquianas, hostis a qualquer estrangeiro e seguidoras de Saddan Hussein, haviam se lançado claramente na insurgência anti-norte-americana desde 2003. A mesma coisa acontecera com os quadros da Guarda Nacional do Partido Baath (de Saddam Hussein) e com boa parte do exército regular iraquiano, de maioria sunita. Os anos seguidos de guerra civil e de insurgência foram então aproveitados pela Al-Qaeda para ferir moralmente e fisicamente os americanos no Iraque. O número de mortos americanos confirma a lógica da nova estratégica do terrorismo mujahidin. Em vez de enfrentar todas as dificuldades de atacar (mais uma vez) em Nova York (ou qualquer outra cidade americana) ficara mais fácil matar americanos na velha Mesopotâmia. Entretanto, neste jogo cruel entre Bush e Bin Laden morriam milhares de civis iraquianos – além dos jovens soldados de diversas nacionalidades que lá estavam presentes.


A matança discriminada de civis – em grande parte vítimas em uma primeira hora da coalizão norte-americana, como em Bagdá ou Falluja – e em seguida vítimas das centenas de atentados da Al-Qaeda enojaram, cansaram, e saturaram os insurgentes iraquianos. Entre 2008 e 2010 a maioria da insurgência nacionalista iraquiana estava farta dos atentados terroristas contra mesquitas, delegacias, escolas e postos médicos. A guerra podia ser americana, imposta e injusta, mas as vítimas eram iraquianas.


As televisões Al-Jazeera e Al-Arabya transmitiam de forma incansável a crônica de mortes em nome da Guerra Santa e do Islã. Foi demais. No próprio Iraque, mas também no Cairo, em Beiruth, em Argel ou Rabat as pessoas estavam exaustas e não aceitavam as desculpas esfarrapadas de que as vítimas eram mártires e seriam recompensadas por Allah.


Deu-se, então, a primeira morte de Osama Bin Laden.


Não estranhamente quando a população de Túnis, em 17 de dezembro de 2010, revoltou-se contra o regime corrupto do seu país – e assim lançou uma faísca de indignação, revolta e de busca da liberdade que se espraiaria de Rabat (Marrocos) até Sanaa (Iêmen), explodindo no Cairo, em Trípoli e nas cidades sírias, com inesperadas repercussões em Madrid e Paris, o grande ausente era Osama Bin Laden.


Nas manifestações populares massivas que encheram – e ainda lotam – as praças das maiores cidades árabes (incluindo aí Cairo, Alexandria, Bengazi, Trípoli, Beiruth e Rabat) não se viu sequer um retrato de Osama Bin Laden. Seus slogans cheios de ódio estavam ausentes. Nem sequer uma bandeira de Israel ou dos Estados Unidos foi queimada ou se escandiam versos pela destruição da “entidade sionista”. A pregação da Al-Qaeda não convencera as massas árabes. A revolta popular era contra a cleptocracia de seus países. Pedia-se liberdade, mais empregos e o fim da corrupção. Havia sim simpatia pelos palestinos – estes não poderiam ser esquecidos. Mas, mesmo em Gaza e Ramallah, sentiu-se a necessidade inadiável de reformas e de um entendimento nacional, aproximando finalmente o Hamas e o Al Fatah em busca de negociações pela paz. No Cairo, na Praça Tahrir, ninguém lembrava de Bin Laden.


Os únicos a lembrar da Al-Qaeda e de Bin Laden foram, paradoxalmente, seus inimigos. Os ditadores Ben Ali, Ali Saleh, Muamar Kadaffi advertiram fortemente o ocidente que após a derrocada de seus regimes o que se seguiria seria o domínio da Al-Qaeda. O ocidente deveria continuar apoiando, armando, financiando (com suas compras de petróleo e/ou ajuda militar) as velhas ditaduras árabes, posto serem elas o último “dique” ao fundamentalismo religioso. Vozes na Europa e nos Estados Unidos, bem como no Partido Likud em Israel, declarariam abertamente preferirem os ditadores “conhecidos” ao “risco Al-Qaeda”. Argumentou-se contra a viabilidade da democracia no mundo árabe, onde inexistiria uma sociedade civil para sustentar regimes representativos.


Todas as previsões, e diagnósticos, mostraram-se errôneas. Egito, Tunísia e Marrocos caminham em direção a regimes mais livres, representativos e onde a população pode, cada vez mais, pedir contas dos atos de seus governantes. A Líbia embrenha-se num conflito de interesses do próprio ocidente. Na Síria, Iêmen, Bahrein e Argélia a população insiste e resiste em nome de reformas urgentes.


Mas, em nenhuma das praças e ruas árabes Bin Laden esteve presente. Na verdade, para as massas árabes Bin Laden já estava politicamente morto. Nada representava para além da chantagem (bem aceita) que os ditadores de plantão faziam ao ocidente. A paga pela conivência Bin Laden/Guerra ao Terrorismo/Ditaduras era o duro sofrimento das populações de mais de um a dezena de países. Para os jovens da Praça Tahrir, mesmo para aqueles que se declaravam religiosos e paravam os protestos para orar, Bin Laden nada mais era que um estorvo.


Bin Laden morria, pela segunda vez, no centro da Praça Tahrir.


Quando, finalmente, os Estados Unidos anunciaram, em 2 de maio de 2011, a morte física de Osama Bin Laden, o líder da Al-Qaeda já era um cadáver político. Sua terceira, e definitiva morte em Abottbad, seguia-se a sua morte estratégica no Iraque e a sua morte política nas ruas do Cairo, Tunis e Bengazi. Mais irônico de tudo –e também o mais amargo – foi o fato de Bush ter feito uma guerra cruel no Iraque para impor a democracia. Além de ter falhado, ao custo de milhares de vidas humanas, foi nas ruas de Túnis e do Cairo, graças à revolta espontânea do povo, que a democracia emergiu no Oriente Médio.


Referências no artigo:



HERSH, Seymour. Cadeia de Comando. Rio, 2004

RICKS, Thomas. Fiasco: the american military adventure in Iraq. Londres, 2006.


Filmes: Gunfight at the Ok Corral (Sem lei, sem alma), direção de John Sturges, 1957

Independence Day, direção Roland Emmerich, 1996.



Seriado: Over There, de Steven Bochco e 20th Century Fox, 2005/6

*Professor de Relações Internacionais da Universidade do Brasil

domingo, 3 de julho de 2011

E a Grécia, hein!!!


“O POVO DEVE COM AS SUAS PRÓPRIAS MÃOS RETOMAR O QUE ELES LHE DEVEM E QUE LHE PERTENCE".Aleka Papariga (Secretária-geral do Partido Comunista Grego, discurso no encerramento da manifestação de 16 de Junho) - http://www.odiario.info/?p=2112


 

BRASILIANA ELETRÔNICA


A célebre coleção publicada pela Companhia Editora Nacional entre 1931 e 1993 está sendo digitalizada pela UFRJ, para consulta gratuita na internet. Os 415 volumes abrangem de história e antropologia a ciências naturais e linguística e são oferecidos em fac-símile e em texto com a ortografia atualizada. Cerca de 120 obras já estão disponíveis.

http://www.brasiliana.com.br/


A verdade e o erro

Por MARCELO GLEISER


No domingo passado, o jornalista Carl Zimmer publicou um artigo no "New York Times", no qual argumentou que, na prática, a ciência é bem menos eficiente em corrigir seus erros do que se acredita. Ele cita uma série de exemplos da literatura científica recente, quando um resultado publicado gera uma série de críticas de membros da comunidade, mas raramente uma tentativa de duplicação no laboratório. Essa questão, de fato, toca a essência do método científico.


A refutação de um resultado experimental ocorre apenas após outros grupos falharem na tentativa de replicá-lo. Por outro lado, a repetição de um experimento requer imenso cuidado. As condições experimentais devem ser replicadas exatamente, incluindo os vários compostos químicos usados.


Está claro que a reprodução de um resultado experimental é problemática. Ademais, o ganho em fazê-lo não é dos maiores. Afinal, cientistas querem ser os primeiros a descobrir algo de novo, e não a provar que a descoberta de um colega é incorreta. Porém, mesmo sem ter o mesmo glamour, a refutação experimental é extremamente importante. Sem ela a ciência simplesmente não funcionaria.


Na prática, nenhum experimento pode ser exatamente duplicado. Temos que nos contentar com o melhor possível. Um cínico (ou um pós-modernista) poderia argumentar que esse é o calcanhar-de-aquiles da ciência: se não é possível duplicar exatamente um experimento, como podemos nos certificar de que seu resultado está certo? Como descobertas científicas podem ser consideradas como a "verdade"?


Isso me lembra o ditado atribuído ao filósofo grego Heráclito: não podemos entrar no mesmo rio duas vezes. Felizmente, em ciência ao menos, isso não é necessário. (Aliás, quando é? Tudo na Natureza está em fluxo constante, que é o que Heráclito quis dizer com sua filosofia.)


Todo resultado científico inclui margens de erro que representam a precisão do procedimento. Nenhuma medida é exata. Por exemplo, quando você mede seu peso numa balança com uma escala graduada em meio quilo, a precisão da medida será no máximo de um quarto de quilo, 250 gramas; ou seja, metade da menor graduação. (Portanto, o pessimista fazendo dieta pode dizer que ganhou 250 gramas, enquanto que o otimista diria que perdeu.)


Medidas experimentais sempre incluem margens de erro. Se o resultado estiver correto, outros grupos poderão reproduzi-lo dentro do intervalo de erro aceito. Para diminuir erros experimentais (existe um outro tipo de erro, o erro sistemático, que é mais complicado), é necessário aumentar a precisão das medidas, usando equipamento melhor ou um número maior de medidas. Mesmo assim, não existe um valor final, "verdadeiro": apenas o mais preciso dentro do que é possível com a tecnologia existente.


Talvez não sejamos a medida de todas as coisas, conforme sugeriu Protágoras em torno de 450 a.C. Mas somos as coisas que podem medir. Mesmo que nossas medidas não sejam exatas, o fato de que temos um procedimento universal para distinguir o certo do errado é notável. A ciência pode não ser perfeita; mas a alternativa, o subjetivismo descontrolado, é muito pior.

 
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
 
 
FONTE: Folha de São Paulo, 03 de julho de 2011.

sábado, 2 de julho de 2011

Monólogo das Mãos

O "Monólogo das Mãos", por Bibi Ferreira, no Programa do Jô.

Projeto da UnB cria 'Google Earth' para Brasil da era colonial

Historiadores e geógrafos estão unindo mapas que vão do século 16 ao 19 com as imagens digitais de satélites

 
Versão inicial já pode ser acessada de graça; ideia é criar ferramenta para estudar dinâmica espacial do povoamento

 

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE

 
Além de ajudar gente conectada a achar restaurantes ou fugir do trânsito, o Google Earth está dando uma mãozinha a historiadores e geógrafos que querem criar um mapa mais preciso dos altos e baixos do Brasil colonial.


O projeto, coordenado pela UnB (Universidade de Brasília) e com participação de várias outras universidades federais, está fundindo os recursos do Google Earth com cerca de 2.000 mapas do império colonial português.

 
VERSÃO ALFA

Já é possível conferir parte do resultado no endereço eletrônico atlas.cliomatica.com. "Ainda é uma versão beta; aliás, é quase uma versão alfa", brinca Tiago Gil, do Departamento de História da UnB, referindo-se às letras gregas usadas para designar versões preliminares de um programa de computador.


Uma forma mais polida do site deve estar disponível no mês que vem, afirma Gil, que coordena o projeto, batizado de Atlas Digital da América Lusa, ao lado de Leonardo Barleta, da UFPR (Universidade Federal do Paraná).


A ideia dos pesquisadores é sobrepor os mapas do Brasil-Colônia às imagens de satélite atuais, empregando também recursos interativos.


Em vários casos, vai ser possível ver como o povoamento avançou e mapear com precisão os ciclos regionais de prosperidade (e bancarrota) durante a era colonial.


Um caso emblemático é o de São João Marcos, vila do século 18 que prosperou com a lavoura de café mas acabou sendo engolida por uma represa nos anos 1940.

 
CIDADES PERDIDAS

"Uma das pesquisas que o projeto está tocando, desenvolvida pelas bolsistas Mariana Leonardo, Rafaela do Nascimento e Luiza Moretti, é justamente sobre essas 'cidades perdidas', localidades que ou não cresceram ou tiveram sua ascensão e queda", diz Gil.


"É o caso de vários outros pontos da América Lusa, particularmente nas regiões mineradoras, como Minas, Mato Grosso e Goiás", explica.


Felizmente, o sumiço de São João Marcos sob as águas é um caso extremo.


"O mais frequente é a estagnação dos espaços, que muitas vezes são incorporados por regiões metropolitanas ou simplesmente se mantém como pequenas povoações", afirma o pesquisador.


No Rio Grande do Sul, por exemplo, foi uma mera decisão política a responsável por transformar "Porto Alegre de Viamão" na capital da região.


Já a própria Viamão hoje é mera cidade-dormitório de Porto Alegre. Do mesmo modo, pouca gente hoje em dia conhece Mostardas e Bojuru, localidades gaúchas que eram relevantes no século 18.


Segundo o especialista da UnB, a escassez de fontes não tem sido um grande problema. Nas áreas urbanas, o material até que é farto. Bem mais difícil é colocar num mapa moderno as fazendas coloniais.


"Você pode ver isso nas descrições de limites de propriedades: a terra começa no pé de um morro, fazendo limite com um pântano, por um lado, e com a terra do vizinho, por outro. E o vizinho diz a mesma coisa", conta.

 
COLABORATIVO

Além do seu lado Google Earth, o atlas também tem uma faceta que lembra a Wikipédia, a enciclopédia da internet que pode ser editada por leigos mundo afora.


"O projeto é colaborativo. Queremos que ele seja uma rede de contatos sobre a história colonial do Brasil. Isso pode incluir genealogistas, historiadores locais e outras pessoas", afirma Gil.


Portugal tinha excelência em cartografia

DO EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE


O projeto do atlas indica que não é justo pintar os portugueses como conquistadores relativamente relapsos de seus vastos domínios na América do Sul. Os esforços da Coroa para mapear o Brasil foram consideráveis.


Segundo Tiago Gil, da UnB, é preciso levar em conta a diferença de potencial que portugueses e espanhóis viam em suas conquistas.


"É certo que temos mais fontes para os séculos 16 e 18 para a América espanhola. Se tomarmos o conjunto dos documentos existentes sobre o Brasil no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, veremos que a quantidade de papéis aumentou de forma absurda na virada do século 16 para o 17", conta.


Para ele, a chave está no fato de que os portugueses descobriram metais preciosos no Brasil bem depois do que os espanhóis o fizeram em seus territórios, e a descoberta do recurso é que deflagrou a necessidade de documentação.


"Em termos de mapas, por outro lado, temos muito mais informação sobre o mundo luso para o século 16 do que o produzido por qualquer outra potência da época, já que a cartografia portuguesa nesse período está bastante desenvolvida e conta com preciosa e exclusiva informação de campo, dos marinheiros que voltavam com informações do ultramar" explica.


Gil diz esperar que o projeto ajude as pessoas a "pensar problemas históricos no tempo e no espaço". (RJL)

 
FONTE: Folha de São Paulo, 02 de julho de 2011.
Projeto da UnB cria 'Google Earth' para Brasil da era colonial




Historiadores e geógrafos estão unindo mapas que vão do século 16 ao 19 com as imagens digitais de satélites

Versão inicial já pode ser acessada de graça; ideia é criar ferramenta para estudar dinâmica espacial do povoamento



REINALDO JOSÉ LOPES

EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE



Além de ajudar gente conectada a achar restaurantes ou fugir do trânsito, o Google Earth está dando uma mãozinha a historiadores e geógrafos que querem criar um mapa mais preciso dos altos e baixos do Brasil colonial.

O projeto, coordenado pela UnB (Universidade de Brasília) e com participação de várias outras universidades federais, está fundindo os recursos do Google Earth com cerca de 2.000 mapas do império colonial português.



VERSÃO ALFA

Já é possível conferir parte do resultado no endereço eletrônico atlas.cliomatica.com. "Ainda é uma versão beta; aliás, é quase uma versão alfa", brinca Tiago Gil, do Departamento de História da UnB, referindo-se às letras gregas usadas para designar versões preliminares de um programa de computador.

Uma forma mais polida do site deve estar disponível no mês que vem, afirma Gil, que coordena o projeto, batizado de Atlas Digital da América Lusa, ao lado de Leonardo Barleta, da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

A ideia dos pesquisadores é sobrepor os mapas do Brasil-Colônia às imagens de satélite atuais, empregando também recursos interativos.

Em vários casos, vai ser possível ver como o povoamento avançou e mapear com precisão os ciclos regionais de prosperidade (e bancarrota) durante a era colonial.

Um caso emblemático é o de São João Marcos, vila do século 18 que prosperou com a lavoura de café mas acabou sendo engolida por uma represa nos anos 1940.



CIDADES PERDIDAS

"Uma das pesquisas que o projeto está tocando, desenvolvida pelas bolsistas Mariana Leonardo, Rafaela do Nascimento e Luiza Moretti, é justamente sobre essas 'cidades perdidas', localidades que ou não cresceram ou tiveram sua ascensão e queda", diz Gil.

"É o caso de vários outros pontos da América Lusa, particularmente nas regiões mineradoras, como Minas, Mato Grosso e Goiás", explica.

Felizmente, o sumiço de São João Marcos sob as águas é um caso extremo.

"O mais frequente é a estagnação dos espaços, que muitas vezes são incorporados por regiões metropolitanas ou simplesmente se mantém como pequenas povoações", afirma o pesquisador.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, foi uma mera decisão política a responsável por transformar "Porto Alegre de Viamão" na capital da região.

Já a própria Viamão hoje é mera cidade-dormitório de Porto Alegre. Do mesmo modo, pouca gente hoje em dia conhece Mostardas e Bojuru, localidades gaúchas que eram relevantes no século 18.

Segundo o especialista da UnB, a escassez de fontes não tem sido um grande problema. Nas áreas urbanas, o material até que é farto. Bem mais difícil é colocar num mapa moderno as fazendas coloniais.

"Você pode ver isso nas descrições de limites de propriedades: a terra começa no pé de um morro, fazendo limite com um pântano, por um lado, e com a terra do vizinho, por outro. E o vizinho diz a mesma coisa", conta.



COLABORATIVO

Além do seu lado Google Earth, o atlas também tem uma faceta que lembra a Wikipédia, a enciclopédia da internet que pode ser editada por leigos mundo afora.

"O projeto é colaborativo. Queremos que ele seja uma rede de contatos sobre a história colonial do Brasil. Isso pode incluir genealogistas, historiadores locais e outras pessoas", afirma Gil.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um mundo esmagado pela hipocrisia ocidental

por Paul Craig Roberts


As instituições ocidentais tornaram-se caricaturas hipócritas.

 
O Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu estão a violar seus estatutos a fim de salvar bancos privados franceses, alemães e holandeses. O FMI tem poderes só para fazer empréstimos relativos a balanças de pagamentos, mas está a emprestar ao governo grego por razões orçamentais proibidas a fim de que o governo grego possa pagar aos bancos. O BCE está proibido de salvar governos de países membros, mas faz isso de qualquer forma a fim de que os bancos possam ser pagos. O parlamento alemão aprovou o salvamento, o qual viola disposições o Tratado Europeu e da própria Lei Básica da Alemanha. O caso está no Tribunal Constitucional da Alemanha, facto não mencionado nos media dos EUA.

 
O presidente George W. Bush nomeou um imigrante, o qual não se impressionou com a Constituição dos EUA e nem com a separação de poderes, para o Departamento da Justiça (sic) a fim de alcançar a disposição de que o presidente tem "poderes unitários" que o elevam acima da lei estabelecida nos EUA, de tratados e do direito internacional. De acordo com decisões legais deste imigrante, o "executivo unitário" pode violar com impunidade o Foreign Intelligence Surveillance Act, o qual impede espionar americanos sem autorização obtida junto ao Tribunal FISA. O imigrante também dispôs que Bush podia violar com impunidade as leis estatuídas dos EUA contra a tortura bem como as Convenções de Genebra. Por outras palavras, os "poderes unitários" ficcionais transformam o presidente num César.

 
Protecções constitucionais, tais como o habeas corpus, o qual proíbe o governo de reter pessoas indefinidamente sem apresentar acusações e provas num tribunal e que também proíbe o governo de recusar a pessoas detidas o devido processo legal e o acesso a um advogado, foram lançados pela janela pelo Departamento da Justiça (sic) dos EUA e os tribunais federais acompanharam quase tudo isto.

 
Tal como o fez o Congresso, "os representantes do povo". O Congresso aprovou mesmo a Lei das Comissões de Tribunais Militares (Military Tribunals Commissions Act), em 2006, assinada pelo nazi da Casa Branca em 17 de Outubro.

 
Esta lei permite a qualquer um que se alegue ser um "combatente inimigo ilegal" ser sentenciado à morte com base em provas secretas e por "ouvir dizer" [NT] apresentadas no tribunal militar de imitação colocado fora do alcance de tribunais federais dos EUA. Os ensandecidos nazis no Congresso que apoiaram esta destruição total do direito anglo-americano mascaram-se como "patriotas na guerra contra o terrorismo".

 
A lei designa qualquer acusado pelos EUA, sem apresentação de provas, como parte do Taliban, al-Qaeda ou "forças associadas", de ser um "combatente inimigo ilegal", o qual despe a pessoa da protecção da lei. Nem mesmo George Orwell poderia ter concebido uma tal formulação.

 
O Taliban é constituído por povos indígenas afegãos, os quais, antes da intervenção militar dos EUA, combatiam para unificar o país. Os Taliban são islâmicos e o governo estado-unidense tem outro governo islâmico, como aquele no Irão que resultou do fracasso da intervenção dos EUA nos assuntos internos do país. Os americanos da "liberdade e democracia" derrubaram um líder iraniano eleito e impuseram um tirano. As relações entre os dois países nunca se recuperaram da tirania que Washington impôs aos iranianos.

 
Washington opõe-se a qualquer governo cujos líderes não possam ser comprados para actuarem como seus fantoches. Eis porque o regime de George W. Bush invadiu o Afeganistão, porque Washington derrubou Saddam Hussein e porque quer deitar abaixo a Líbia, a Síria e o Irão.

 
O primeiro presidente negro (ou meio branco) da América herdou a guerra afegã, a qual tem perdurado por mais tempo do que a II Guerra Mundial sem qualquer vitória à vista. Ao invés de cumprir suas promessas eleitorais e acaba com esta guerra inútil, Obama intensificou-a com um "incremento" ("surge").

 
A guerra já vai em dez anos e o Taliban controla mais do país do que os EUA e seus fantoches da NATO. Frustrados pelo seu fracasso, os americanos e seus fantoches da NATO assassinam cada vez mais mulheres, crianças, aldeões idosos, polícias afegãos e trabalhadores ajudantes.

 
Um vídeo tomado por um helicóptero artilhado dos EUA, desviado para o Wikileaks e então divulgado, mostra forças americanas, como se estivessem a brincar com vídeo-jogos, a assassinar civis, incluindo o homem da câmara de um importante serviço de notícias, como se estivessem a passear numa rua pacífica. Um pai com uma criança pequena, o qual parou para ajudar vítimas moribundas dos jogos de diversão dos soldados americanos, também foi explodido, assim como a sua criança. As vozes americanas no vídeo atribuem a culpa da morte da criança ao pai por trazer garotos à "zona de guerra". Não era zona de guerra, apenas uma tranquila rua civil com civis a passearem.

 
O vídeo documenta crimes americanos contra a humanidade tão poderosamente quanto qualquer prova utilizada contra os nazis após a II Guerra Mundial nos Julgamentos de Nuremberg.

 
Talvez o máximo de ilegalidade tenha sido atingido quando o regime Obama anunciou que tinha uma lista de cidadãos americanos que seriam assassinados sem o devido processo legal.

 
Alguém poderia pensar que se a lei ainda tem qualquer significado na civilização ocidental, George W. Bush, Dick Cheney, na verdade todo o regime Bush/Cheney, bem como Tony Blair e outros co-conspiradores de Bush, estariam perante o Tribunal Criminal Internacional.

 
Mas foi para Kadafi que o Tribunal Criminal Internacional emitiu mandatos de prisão. As potências ocidentais estão a utilizar o Tribunal Penal Internacional, o qual se supõe que sirva a justiça, por razões de auto-interesse que são injustas.

 
Qual é o crime de Kadafi? O seu crime é que está a tentar impedir a Líbia de ser derrubada por um levantamento armado no Leste do país apoiado pelos EUA, e talvez organizado, o qual está a ser usado para afastar a China dos seus investimentos em petróleo na Líbia oriental.

 
A Líbia é a primeira revolta armada na chamada "Primavera árabe". Reportagens deixaram claro que não há nada de "democrático" nesta revolta. http://www.english.rfi.fr/print/95867?print=now

 
O ocidente pressionou por uma resolução de interdição de voo através da sua organização fantoche, as Nações Unidas. A resolução era limitada à neutralização da força aérea de Kadafi. Contudo, Washington e seu fantoche francês, Sarkozy, rapidamente fizeram uma "interpretação expandida" da resolução da ONU e transformaram-na em autorização para se envolverem directamente na guerra.

 
Kadafi tem resistido à rebelião armada contra o estado líbio, o que é a resposta normal de um governo a uma rebelião. Os EUA responderiam da mesma maneira, tal como o fariam o Reino Unido e a França. Mas ao tentar impedir o derrube do seu país e o seu país de se tornar outro estado fantoche americano, Kadafi foi indiciado. O Tribunal Criminal Internacional sabe que não pode indiciar perpetradores reais de crimes contra a humanidade – Bush, Blair, Obama e Sarkozy – mas o tribunal precisa de processos e aceita as vítimas que o ocidente quer demonizar.

 
Nos nossos tempos pós orwellianos, todos os que resistem ou mesmo criticam os EUA são criminosos. Exemplo: Washington considera Julian Assange e Bradley Manning como criminosos, porque disponibilizaram informação que revelava os crimes cometidos pelo governo de Washington. Qualquer um que simplesmente discorde de Washington é considerado uma "ameaça" e Obama pode ter tais "ameaças" assassinadas ou presas como "terrorista suspeito" ou como alguém "proporcionando ajuda e apoio a terroristas". Conservadores e liberais americanos, que outrora apoiavam a Constituição dos EUA, são todos favoráveis à trituração da Constituição a fim de ficarem "a salvo de terroristas". Eles aceitam mesmo tais intrusões como escanerizações pornográficas (porno-scans) e apalpações sexuais a fim de estarem "seguros" nos voos em aviões.

 
O colapso da lei é geral. O Tribunal Supremo decidiu que é "liberdade de expressão" para a América ser dominada pelas corporações, não pela lei e certamente não pelo povo. Em 27 de Junho, o Tribunal Supremo dos EUA avançou com o estado fascista que os seus "conservadores" estão a criar ao decidir que o Arizona não pode financiar publicamente candidatos a eleições a fim de nivelar o campo de jogo, actualmente desequilibrado pelo dinheiro corporativo. O "conservador" Tribunal Supremo dos EUA considera o financiamento público de candidatos como inconstitucional, mas não o financiamento da "liberdade de expressão" por parte de interesses nos negócios que compram o governo a fim de dominar o país. O Tribunal Supremo dos EUA tornou-se um funcionário corporativo e legitima o domínio das corporações. Mussolini chamou a este domínio, imposto aos americanos pelo Tribunal Supremo dos EUA, fascismo.

 
O Tribunal Supremo também decidiu em 27 de Junho que a Califórnia violou a Constituição dos EUA ao proibir a venda de vídeo jogos violentos a crianças, apesar da evidência de que jogos violentos treinam os jovens para comportamentos violentos. Para o Tribunal Supremo está correcto que soldados, cujas vidas estão em causa, serem proibidos sob as penas da lei de beberem cerveja antes dos 21 anos, mas os idiotas do Tribunal apoiam convencer crianças a serem assassinos, desde que seja no interesse dos lucros corporativos, em nome da "liberdade de expressão".

 
Espantoso, não é, que um tribunal tão preocupado com a "liberdade de expressão" não tenha protegido americanos que protestam contra a guerra de rusgas e prisões inconstitucionais, ou protegido manifestantes de serem atacados pela polícia ou arrebanhados em áreas cercadas distantes do objecto do protesto.

 
Quando se abre a segunda década do século XXI, aqueles que se opõem à hegemonia estado-unidense a ao mal que tresanda de Washington arriscam-se a serem declarados "terroristas". Se forem cidadãos americanos, podem ser assassinados. Se forem líderes estrangeiros, seu país pode ser invadido. Quando capturados, podem ser executados, como Saddam Hussein, ou remetido para o Tribunal Criminal Internacional, como os desafortunados sérvios que tentaram defender seu país do desmantelamento por parte dos americanos.

 
E os acarneirados (sheeple) americanos pensam que têm "liberdade e democracia".

 
Washington confia no medo para encobrir os seus crimes. Uma maioria de americanos agora teme e odeia muçulmanos, pessoas acerca das quais nada sabem excepto a propaganda racista que encoraja americanos a acreditar que há muçulmanos escondidos sob as suas camas a fim de assassiná-los no seu sono.

 
Os neocoservadores, naturalmente, são os alimentadores do medo. Quanto mais temerosos e acarneirados, mais procuram segurança na polícia do estado neocon e mais vista grossa fazem aos crimes de Washington na agressão aos muçulmanos.

 
Segurança uber alles. Isso tornou-se o lema de um povo americano outrora livre e independente, o qual já foi admirado mas hoje é desprezado.

 
Na América a ilegalidade agora está completa. Mulheres podem ter abortos, mas se derem à luz um bebé morto são presas por assassínio. http://www.opednews.com/populum/linkframe.php?linkid=133808

 
Os americanos são um povo tão aterrorizado e abusado que uma mulher idosa com 95 anos a morrer de leucemia e a viajar para uma última reunião com membros da família foi forçada a remover a sua fralda de adulto a fim passar na segurança do aeroporto. http://www.nwfdailynews.com/news/mother-41324-search-adult.html Só uma população totalmente acovardada permitiria tais abusos da dignidade humana.

 
Numa entrevista em 27 de Junho à National Public Radio, Ban Ki-moon, fantoche sul-coreano instalado como secretário-geral das Nações Unidas, foi incapaz de responder porque a ONU e os EUA toleravam a carnificina de civis desarmados no Bahrain, mas apoiavam a indiciação de Kadafi pelo Tribunal Criminal Internacional por defender a Líbia contra rebelião armada. Kadafi matou muito menos pessoas do que os EUA, o Reino Unidos ou os sauditas no Bahrain. Na verdade, a NATO e os americanos mataram mais líbios do que Kadafi. A diferença é que os EUA têm uma base naval no Bahrain, mas não na Líbia.

 
Não resta nada do carácter americano. Só um povo que perdeu a sua alma podia tolerar o mal que tresanda de Washington.

29/Junho/2011

 
[NT] hearsay evidence: prova com base em informação que uma testemunha ouviu de outra ao invés de ser baseada no seu conhecimento pessoal (geralmente inadmissível num tribunal legal uma vez que não é prova directa).

 

Mensagem do Instituto Luiz Carlos Prestes ao presidente Hugo Chavez


Prezado companheiro Edgar Ganzalez.


Desejo transmitir, por seu intermédio, em meu nome e dos companheiros do Instituto Luiz Carlos Prestes, os votos de um rápido restabelecimento da saúde do Presidente Hugo Chavez, assim como do seu regresso o mais rápido possível a seu país, para dar continuidade à direção da Revolução Bolivariana, cujo desenrolar acompanhamos com grande interesse e apoiamos com entusiasmo.

Atenciosamente,

Anita Leocadia Prestes
Presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes

Cada um ganha de acordo com a sua importância

BOPE R$ 2.260,00 Para arriscar a vida;




Bombeiros R$ 960,00 Para salvar vidas;



Professores R$ 728,00 para preparar para a vida;



Médicos R$ 1.260,00 para manter a vida.



E o Sérgio Cabral? Ganha R$17.000,00 para Acabar com a vida dos outros!

Solidariedade a Luta dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro

Caros Amigos,
Acabei de ler e assinar esta petição online:
«Manifesto dos Educadores e Defensores da Causa da Educação Pública em Solidariedade a Luta dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro »
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N11624

Petição Manifesto dos Educadores e Defensores da Causa da Educação Pública em Solidariedade a Luta dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro
 
Para:Governo do Estado do Rio de Janeiro /SEPE
 
MANIFESTO DOS EDUCADORES E DEFENSORES DA CAUSA DA EDUCAÇÃO PÚBLICA EM SOLIDARIEDADE A LUTA DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO DO RIO DE JANEIRO



Após infrutíferas tentativas de negociação, que se arrastam por anos, os profissionais da educação do Estado do Rio de Janeiro, em concorrida Assembléia, realizada no dia 7 de junho de 2011, decidiram deflagrar greve. Atualmente, um professor graduado recebe R$ 750,00 brutos e um funcionário tem piso de 433,00. Somente em 2011, 2,4 mil professores pediram exoneração por completa falta de perspectiva de valorização profissional. A questão afeta a formação de novos professores nas universidades, pois, concretamente, muitos avaliam que a opção pela educação pública implica privações econômicas insuportáveis. As principais reivindicações da greve objetivam criar um patamar mínimo para que a escola pública estadual possa ser reconstruída: reajuste de 26%, incorporação da gratificação do “Nova Escola”, liberação de 1/3 da jornada de trabalho para preparação de aulas, atendimento a estudantes, participação em reuniões etc., eleições diretas nas escolas e melhoria da infraestrutura geral da rede.


Compreendemos que a greve não é episódica e conjuntural. Ao contrário, está inscrita em um escopo muito mais amplo: objetiva sensibilizar a sociedade brasileira para uma das mais cruciais questões políticas não resolvidas da formação social brasileira: o reduzido montante de recursos estatais para a educação pública acarretando um quadro de sucateamento da rede pública e a paulatina transferência de atribuições do Estado para o mercado, por meio de parcerias público-privadas.


Interesses particularistas de sindicatos patronais, de corporações da mídia, do agronegócio e, sobretudo, do setor financeiro arvoram-se o direito de educar a juventude brasileira. Para montar máquinas partidárias, diversos governos abrem as escolas à uma miríade de seitas religiosas retrocedendo no valor da escola laica.


Estamos cientes de que não é um exagero afirmar que o futuro da escola pública está em questão. A luta dos trabalhadores da educação do Rio de Janeiro é generosa, resgata valores fundacionais para uma sociedade democrática e, por isso, nos solidarizamos, fortemente, com a luta em curso. Os recursos existem, desde que a educação seja uma prioridade. Por isso, instamos o governador Sérgio Cabral a negociar de modo verdadeiro com o SEPE, objetivando resolver a referida agenda mínima e a restabelecer o diálogo com os educadores comprometidos com a educação pública, não mercantil, capaz de contribuir para a formação integral das crianças e dos jovens do Estado do Rio de Janeiro.


Rio de Janeiro, 20 de junho de 2011

NOME /INSTITUIÇÃO

Roberto Leher - UFRJ

Carlos Nelson Coutinho – UFRJ

Gaudêncio Frigotto - UERJ

Virginia Fontes –UFF/ Fiocruz

Anita Leocádia Prestes -UFRJ

Ceci Juruá – UFRJ

Anita Handfas –UFRJ

Jailson dos Santos - UFRJ

Lorene Figueiredo –UFF

Ângela Siqueira –UFF

Marcelo Mattos Badaró – UFF

Lia Tiriba, UFF/ UNIRIO

Angela Rabello Maciel de Barros Tamberlini – UFF

José Luiz Antunes –UFF

Cecília Goulart- UFF

Iolanda de Oliveira – UFF

Cristina Miranda -UFRJ

Sara Granemann - UFRJ

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Fernando Celso Villar Marinho - UFRJ

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Lenise Lima –UFRJ

Cleusa Santos –UFRJ

Vera Maria Martins Salim – UFRJ

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Os signatários

Cuba: "A democracia é o poder do povo"

Filha de Che diz temer reformas em Cuba



Aleida Guevara nega que regime mantenha presos políticos e diz não respeitar as 'damas de branco' oposicionistas

Médica afirma que as mudanças econômicas em curso na ilha podem modificar a consciência social da população

 
ELEONORA DE LUCENA

ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Ela se declara apenas uma militante da base do Partido Comunista Cubano, mas carrega o sobrenome de um mito da esquerda. Aos 50 anos, a pediatra Aleida Guevara se ocupa em cuidar da memória do pai e faz uma defesa inflamada do modelo da ilha.


Nesta entrevista, ela expressa seu temor de que as reformas em curso na ilha -que permitiram a venda de imóveis e carros- afetem a consciência social da população. No Brasil para dar palestras, ela fala de política e da herança de Che Guevara.

 
Folha - Como vão as coisas em Cuba?


Aleida Guevara - Buscamos solucionar problemas. O Estado não pode seguir sustentando quem trabalha sem produzir. Quando perdemos o campo socialista europeu, Cuba sofreu uma crise brutal, e o Estado amparou todos por todo esse tempo. A situação da economia interna melhorou -logo, há possibilidades para que essas pessoas trabalhem independentemente.

 
Foi aberta a possibilidade da propriedade privada de imóveis e carros.

Digamos que não é propriedade privada. Se eu tivesse pago por um carro, era meu, mas eu não podia vendê-lo. Agora posso, legalmente.

 
Não acha que isso conflita com o princípio socialista?

Não. O Estado segue sendo socialista porque não há privatização nos grandes meios de produção. Nisso não se tocou e não se vai tocar. O povo cubano segue sendo dono de tudo o que se produz no país.

 
A questão não está em vender a tua casa ou o teu carro, o que é bom que possamos fazer livremente. A questão está em que agora há trabalhadores por conta própria. Esses vão buscar seu benefício pessoal. Meu temor pessoal como cidadã -não tenho nada a ver com a direção do governo cubano; sou uma médica- é que as pessoas que comecem a trabalhar para si mesmas percam um pouco a consciência social. O homem pensa segundo vive. Se você só vive interessado em melhorar sua casa, a vestimenta, em ter dinheiro no bolso, esquece que a escola infantil da esquina, dos seus filhos, precisa de uma mão de pintura.

 
Como a sra. responde à afirmação de que Cuba é uma ditadura?

É total falta de conhecimento da realidade cubana. Temos eleições populares, muito mais democráticas que as de qualquer outro país. O povo elege diretamente seus candidatos, desde a base.

 
Mas o partido é único.

 
O partido não tem nada que ver com as eleições. O partido é o dirigente. As eleições são de baixo, do povo.

 
Não há problema de renovação de lideranças?


O povo cubano conhece a sua gente. Querem que sigam dirigindo. Se fizeram bem até agora, por que mudar? Estamos seguros com Raúl.

 
Como justificar a oposição, os presos políticos?


Presos políticos são presos por ideias. Em Cuba, não existem. Há presos por ações contra o povo, como pôr veneno na água de uma escola, tentar incendiar a telefonia. É terrorismo. Há mercenários pagos por EUA e europeus por passar ao FBI informações que prejudicam o país.

 
E as damas de branco?


São uma vergonha para mim como mulher. O que pedem? Que se deixem livres assassinos, terroristas, pessoas que atacaram a economia de seu próprio povo, mercenários que se venderam aos interesses de EUA e Europa?


Por que não valorizam a sociedade que cuida da pessoa desde que nasce até o fim da vida? Onde a educação é gratuita, não importa se és dama de branco, preto ou verde? Não posso respeitá-las.

 
Há democracia em Cuba?

A democracia é o poder do povo. E um Estado de direitos para todos os cidadãos. Isso em Cuba existe. O que o povo diz é o que se faz. O povo tem sempre a última palavra.

 
O embargo não mudou com Obama?


O bloqueio. Os EUA têm o direito de embargar suas relações com Cuba. Não protestamos contra isso. Protestamos quando os EUA têm o propósito de que nenhum outro país comercialize livremente com Cuba. Isso é o bloqueio.

Acreditávamos que Obama teria outras perspectivas, mas nos equivocamos. Ele responde aos interesses da grande indústria. Prometeu que fecharia a base de Guantánamo e isso não ocorreu até agora. Seguem tendo presos ilegais em nosso território. Essa base é roubada de Cuba.

 
Há quem diga que a Primavera Árabe pode chegar a Cuba. A sra. teme isso?

É muito diferente. A Revolução Cubana é de base, do povo. No mundo árabe, não houve revoluções desde as bases. Hoje, há muita manipulação de grupos incomodados por falta de poder.

 
Como é lidar com o mito Che?

Mito, não. Quando se fala de Cristo, ele é muito distante do ser humano, não se sabe se existiu ou não. Che não pode se converter em um mito. Era um homem como qualquer um de nós. Isso é o que o faz bonito, completo: sendo humano, com todos os problemas e deficiências, soube ser um ser humano melhor. O que queremos é seguir esse exemplo de vida, de ação, de honestidade, de integridade.

 
A sra. quase não conviveu com ele.


Tinha quatro anos e meio quando ele partiu para o Congo. Lembro dos últimos momentos antes da viagem. Meu irmão Ernesto tinha só um mês. Tenho uma imagem de minha mãe, com meu irmão apoiado em seu ombro. Eu estou embaixo, olhando a cena. Meu pai está vestido como militar e tocando com uma mão muito grande a cabecinha do bebê.


Essa imagem sempre me ficou na retina. Sou mãe e me ponho a pensar naquele momento, quem sabe de despedida. Quanta preocupação ele poderia estar tendo com esse bebê, se quando crescer ele iria entender por que ele não estava. [Chora, tentando conter as lágrimas.]


E esse momento me faz pensar em meu pai com muito amor, com muita força. Era um homem capaz de amar com tanta ternura e, ao mesmo tempo, de seguir seu caminho, de saber que era mais útil noutro lugar. É o melhor exemplo de um verdadeiro homem e verdadeiro comunista: oferecer o melhor da sua vida apesar de si mesmo.


Depois, houve outro momento quando ele regressou do Congo, já disfarçado. Não sabia que era papai. Nessa noite eu caí, bati forte a cabeça. Ele me tomou nos seus braços, me protegeu. No fim, eu disse alto: mamãe, acho que esse homem está apaixonado por mim.


Deve ter sido muito duro para ele -não pôde me explicar porque me queria de maneira especial. Mas para mim foi ótimo. Quando soube que era meu pai, senti que me amava de uma maneira muito especial, e isso é bonito para qualquer filho.

 
Esse momento do disfarce está no filme de Steven Soderbergh. A sra. gostou do filme?

Não, porque não se vê meu pai como formador de homens. O filme de Walter Salles [Diários de Motocicleta] é muito melhor, mais real.

 
Como avalia a manutenção da memória sobre o seu pai?

 
Muitas coisas faltam. Uma das mais importantes é que não há publicações suficientes para os jovens. Fazê-las é um dos objetivos do Centro de Estudos Che Guevara.
 
 
FONTE: Folha de São Paulo, 30 de junho de 2011.