sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A defesa do capitalismo liberal



por Prabhat Patnaik [*]

A defesa liberal do capitalismo assume duas formas distintas na teoria económica. Uma declara que o sistema capitalista opera de maneira a assegurar o pleno emprego de todos os recursos e produz um conjunto de bens com "eficiência", a qual é definida como um estado onde nada mais de qualquer bem dentro deste conjunto pode ser produzido sem produzir menos de algum outro bem. Esta afirmação do pleno emprego é tão palpavelmente falsa – como mostra toda a história do capitalismo, marcada pela sistemática coexistência de trabalho desempregado e equipamento ocioso – que aqueles economistas liberais algo mais honestos recorrem a uma segunda linha de argumentação.

Esta segunda linha, se bem que admitindo que o capitalismo realmente não opera da maneira descrita na primeira e que, ao contrário caracteriza-se sistematicamente pela coexistência de trabalhadores desempregados e equipamento ocioso, afirma, entretanto, que a sua operação pode ser rectificada através da intervenção do Estado a fim de fazer desaparecer esta deficiência. Ela encara o Estado como uma entidade externa, a posicionar-se do lado de fora do sistema e a intervir na sua operação "espontânea" a fim de libertá-lo dos seus efeitos danosos.

A tradição keynesiana pertence obviamente a esta segunda linha. Ela partilha com o marxismo a percepção de que o sistema entregue a si mesmo é na verdade assolado por crises e é incompatível com a exigência de uma sociedade humana, mas difere do marxismo na sua crença de que o Estado, mesmo numa sociedade capitalista, pode intervir para libertar o sistema dos seus males básicos. Como afirmou Keynes, não havia qualquer necessidade de propriedade social dos meios de produção como queriam os socialistas; pelo que pretendia a utilização de um conjunto de "controles sociais" para assegurar que o nível de investimento fosse suficientemente elevado a fim de impedir qualquer escassez de procura agregada com pleno emprego. Isso era tudo o que seria necessário para ultrapassar a deficiência básica do sistema capitalista.

Não discutirei aqui a crítica marxista desta posição. Ao invés disso examinarei a lógica desta linha de argumentação nos seus próprios termos e quão longe ela se adequa à realidade do capitalismo contemporâneo. Uma questão óbvia que se levanta é: como pode o Estado intervir para alcançar pleno emprego se os capitalistas se opõem a tal intervenção? A resposta a esta pergunta, dada por Keynes, era que os capitalistas não se oporiam a tal intervenção uma vez que dela também se beneficiariam. Ou seja, que a intervenção do Estado para promover a procura agregada era um "jogo de soma não zero", no sentido de que toda a gente podia sair-se melhor através de tal intervenção: os trabalhadores através de emprego mais vasto e os capitalistas através de maiores lucros que decorreriam da melhor utilização da capacidade produtiva sob o seu comando. A ainda que os proponentes desta segunda linha admitam que "pleno emprego" no verdadeiro sentido da expressão teria a oposição dos capitalistas, devido ao receio de que um desaparecimento do exército de reserva do trabalho significaria que os trabalhadores ficariam "fora de controle", eles ainda assim sustentavam que a intervenção do Estado pode pressionar um nível de emprego muito mais alto do que se verificaria em economias capitalistas a operarem "espontaneamente".

Mas então pode-se levantar a questão: se a intervenção do Estado para manter altos níveis de actividade é um "jogo de soma não zero", isto é, funciona também em benefício dos capitalistas, então por que não foi tentada mais cedo? A resposta dada por Keynes a esta pergunta era que havia uma falta de entendimento teórico entre os capitalistas, razão pela qual os mesmos encaravam a intervenção do Estado com suspeição ou hostilidade. Uma vez que desenvolvessem um entendimento correcto do que produz deficiência da procura, o qual ele pensava que a sua teoria providenciara, então desapareceriam os obstáculos contra a intervenção do Estado na "administração da procura", que se levantavam devido à oposição dos capitalistas.

Naturalmente, mesmo que estivessem armados com um tal entendimento, os capitalistas, em termos individuais não poderiam ultrapassar a deficiência da procura. Eles têm de actuar em conformidade com as "racionalidade privada" (fazer tanto lucro quanto possível) porque é o que o mercado os força a fazer. Ultrapassar a deficiência da procura exigiria portanto o esforço de uma entidade supra-individual, o Estado capitalista. E os capitalistas, embora incapazes de actuar contra a deficiência da procura em termos individuais, não se oporiam a tal esforço por parte do Estado uma vez que houvessem adquirido um entendimento correcto. Capitalistas individuais, em suma, estavam necessariamente presos dentro do âmago da "racionalidade privada", a única entidade que poderia actuar de acordo com a "racionalidade social" seria o Estado.

O ESTADO COMO ENTIDADE EXTERNA 

Isto entretanto significa necessariamente que o Estado tem de actuar não de acordo com o que dita o mercado, não em conformidade com o critério mercado, não a imitar os participantes do mercado, mas sim de modo totalmente independente do mercado. Ele tem de ser, em suma, um "observador externo" do mercado. E instituições apropriadas têm de ser postas em vigor dentro do sistema para tornar isto possível. Durante vários anos após a guerra o capitalismo teve tais instituições em vigor, dentre as quais pelo menos três merecem ser mencionadas.

A primeira foi o controle estatal sobre fluxos de capital transfronteiriços, o qual assegurava que o Estado podia actuar sem medo de disparar fugas de capital (outflows) , isto é, sem preocupação com aquilo que financeiros "irritados", os quais de outra forma retirariam os seus fundos, pensassem das suas acções. O sistema de Bretton Woods permitia aos países terem controles de capitais e todos eles tiveram tais controles em vigor.

A segunda era que a contracção de empréstimos pelo Estado para financiar o défice orçamental não estava necessariamente dependente de "sentimentos do mercado". O banco central do país, na sua capacidade de subscritor e administrador da dívida pública, obtinha qualquer porção da dívida pública que não fosse subscrita pelo mercado. Isto significava que o governo tinha liberdade de acção para incidir em défices orçamentais sem se preocupar com o que o "mercado" pensasse acerca da dimensão do seu défice.

A terceira era que a despesa do Estado era comprometida em muitas esferas prescindindo do critério aplicado para julgar a validade de despesas aplicado pelo sector privado. Muitas destas esferas em qualquer caso, tais como educação e saúde, estavam primariamente dentro do domínio público, de modo que mesmo a questão de comparar os desempenhos dos fornecedores de serviço público e privado não se levantava. E a ideia de fornecedores públicos terem de fazer lucros, ou levantar seus próprios recursos, nunca foi acolhida. A liberdade do Estado para gastar sem ser constrangido pelo "mercado" dava-lhe uma certa liberdade de movimento para despender como quisesse.

Todas estas instituições agora desapareceram. Agora a globalização da finança significa que o Estado é constrangido em relação às políticas que segue por medo de perder a "confiança" de "investidores internacionais". E uma vez que tais "investidores", como o capital financeiro, tradicionalmente prefere "finanças sãs", isto é, orçamentos equilibrados, ou no máximo incidindo num pequeno défice orçamental (tipicamente 3 por cento do PIB), a maior parte dos países agora tem legislação de "responsabilidade orçamental" que limita a dimensão do défice. Além disso, a "autonomia" do banco central, não apenas de jure mas de facto, significa que a contracção de empréstimos públicos tem de obedecer a "sentimentos do mercado". Na verdade, em agrupamentos como a Eurozona, o facto de que o próprio banco central está completamente fora do alcance do Estado-nação, reforçou ainda mais esta dependência do Estado em relação aos "sentimentos do mercado" para os seus empréstimos. E com a privatização de serviços, ela própria resultante das restrições à despesa do Estado, fornecedores de serviços públicos agora têm de se defender por si próprios e estão portanto em competição com os privados.

PRISIONEIRO DO MERCADO 

O que tudo isto significa é que o Estado, longe de ser um "observador externo" do mercado, longe de ser uma corporificação da "racionalidade social" que poderia intervir para rectificar o funcionamento do mercado o qual constitui o domínio da "racionalidade privada", como os teóricos económicos liberais da segunda linha haviam imaginado, tornou-se ele próprio um prisioneiro do mercado. Ele foi tão absorvido como participante do mercado ao ponto de a [agência] Moody's ter mesmo degradado a classificação de crédito do Estado americano. Em suma, nos termos da perspectiva liberal o Estado foi incorporado dentro do mercado e já não é mais uma entidade externa que possa impor uma "racionalidade" diferente sobre o sistema.

Se a primeira linha de teorização económica liberal fosse na verdade correcta, isto é, não houvesse necessidade da intervenção do Estado e que o capitalismo operasse de um modo que assegurasse pleno emprego e eficiência, então esta "incorporação do Estado dentro do mercado", ou uma "anexação do Estado pelo mercado" (a qual, de uma perspectiva marxista, é nada mais do que o capital financeiro internacional a pressionar o Estado para que actue exclusivamente de acordo com as suas exigências), não importaria. Mas esta afirmação, a qual é realmente avançada como defesa ideológica da "anexação do Estado pelo mercado" é obviamente absurda. A prolongada crise capitalista que ainda hoje mantém pelo menos 11 por cento da força de trabalho desempregada nos EUA (a posição é pior na Eurozona e no terceiro mundo) testemunha o absurdo da afirmação.

Uma vez que a primeira linha da teoria económica liberal em defesa do capitalismo está errada e uma vez que a segunda linha da mesma é infrutífera, porque não se pode recorrer à intervenção do Estado para rectificar os males do sistema – em que deposita suas esperanças – devido à "incorporação do Estado dentro do mercado", segue-se que hoje não há qualquer argumentação liberal contra o socialismo.

O socialismo certamente tem de actualizar a sua própria teoria; e o movimento socialista ainda tem de ganhar impulso. Mas no ambiente no interior do qual ele tem de cuidar destas tarefas já não existe qualquer oposição teórica crível ao socialismo. 
20/Dezembro/2015
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2015/1220_pd/liberal-defence-capitalism . Tradução de JF. 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/patnaik/patnaik_20dez15.html .

"Que lo injusto no me sea indiferente", Mercedes Sosa en "Solo le Pido a Dios"





ESPANHOLPORTUGUÊS
Sólo le pido a DiosEu só peço a Deus
Que el dolor no me sea indiferenteQue a dor não me seja indiferente
Que la reseca muerte no me encuentreQue a seca morte não me encontre
Vacío y sola sin haber hecho lo suficienteVazio e solitária sem ter feito o suficiente
Sólo le pido a DiosEu só peço a Deus
Que lo injusto no me sea indiferenteQue o injusto não me seja indiferente
Que no me abofeteen la otra mejillaQue não me batam na outra face
Después que una garra me arañó esta suerteDepois que uma garra me arranhou esta sorte
Sólo le pido a DiosEu só peço a Deus
Que la guerra no me sea indiferenteQue a guerra não me seja indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerteÉ um monstro grande e pisa forte
Toda la pobre inocencia de la genteToda pobre inocência da gente
Es un monstruo grande y pisa fuerteÉ um monstro grande e pisa forte
Toda la pobre inocencia de la genteToda pobre inocência da gente
Sólo le pido a DiosEu só peço a Deus
Que el engaño no me sea indiferenteQue a mentira não me seja indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantosSe um traidor tem mais poder que um povo
Que esos cuantos no lo olviden fácilmenteQue esse povo não o esqueça facilmente
Sólo le pido a DiosEu só peço a Deus
Que el futuro no me sea indiferenteQue o futuro não me seja indiferente
Desahuciado está el que tiene que marcharDesenganado está o que tem que fugir
A vivir una cultura diferenteA viver uma cultura diferente
Sólo le pido a DiosEu só peço a Deus
Que la guerra no me sea indiferenteQue a guerra não me seja indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerteÉ um monstro grande e pisa forte
Toda la pobre inocencia de la genteToda pobre inocência da gente
Es un monstruo grande y pisa fuerteÉ um monstro grande e pisa forte
Toda la pobre inocencia de la gente.Toda pobre inocência da gente.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Como era Gostoso ser Escravo no Brasil

A Apologia da Servidão Voluntária de Kátia de Queirós Mattoso

Artigo escrito por Mário Maestri, publicado na Revista Crítica Histórica, Ano VI, nº 12, dezembro/2015


“A idealização da escravidão, a idéia romântica da suavidade da escravidão no Brasil, o retrato do escravo fiel e do senhor benevolente e amigo do escravo, que acabaram por prevalecer na literatura e na história, foram alguns dos mitos forjados pelas sociedade escravista na defesa do sistema de que não julgava prescindir.”
Emília Votti da Costa
Da senzala à colônia, p. 270.
CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA LER O ARTIGO NA ÍNTEGRA:

Resumo: Traduzido ao português, em 1982, Ser escravo no Brasil, de Kátia de Queirós Mattoso, apresentou síntese da escravidão no Brasil, do aprisionamento do cativo na África até sua eventual libertação, no Brasil, pela alforria e pela Abolição. Seguindo as grandes teses de Gilberto Freyre, de 1933-36, o livro restringiu a resistência ao cativo incapaz de adaptar-se à sociedade brasileira paternalista, que lhe prometia mesa farta, pouco trabalho e raramente castigo. O trabalho deslocava a resistência-oposição pela integração consensual entre exploradores e explorados que teria garantido a paz social no país. O presente artigo ensaia crítica geral sumária a esse trabalho clássico, de ampla influência em nossa historiografia especializada.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Para download: "La colonialidad del saber:eurocentrismo y ciencias sociales - Perspectivas latinoamericanas"

Edgardo Lander
 (Compilador)

LINK PARA DOWNLOAD:
https://www.tni.org/files/download/La%20colonialidad%20del%20saber.%20Eurocentrismo%20y%20ciencias%20sociales.pdf


Contenido:

Prefacio 7 

Presentación 9 

Edgardo Lander 
Ciencias sociales: saberes coloniales y eurocéntricos 11 

Enrique Dussel 
Europa, modernidad y eurocentrismo 41 

Walter D. Mignolo 
La colonialidad a lo largo y a lo ancho: el hemisferio occidental en el horizonte colonial de la modernidad 55 

Fernando Coronil 
Naturaleza del poscolonialismo: del eurocentrismo al globocentrismo 87

Arturo Escobar 
El lugar de la naturaleza y la naturaleza del lugar: ¿globalización o postdesarrollo? 113 

Santiago Castro-Gómez 
Ciencias sociales, violencia epistémica y el problema de la “invención del otro” 145 

Alejandro Moreno Superar la exclusión, conquistar la equidad: reformas, políticas y capacidades en el ámbito social 163 

Francisco López Segrera 
Abrir, impensar, y redimensionar las ciencias sociales en América Latina y el Caribe. ¿Es posible una ciencia social no eurocéntrica en nuestra región? 177 

Aníbal Quijano 
Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina 201

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A Revolução antes da revolução II (As lutas de classes na França / O 18 brumário de Luís Bonaparte / A guerra civil na França)

Autor:

Karl Marx

Número de páginas:

440

ISBN:

978-85-7743-047-5

Editora:

Expressão Popular

Categoria:

Lançamentos!Clássicos

Peso:

490 g
R$ 30,00





Os textos que apresentamos são os primeiros esforços de Marx e Engels ao afirmar que a verdadeira conquista dos trabalhadores, nas lutas do século 19, não seria a conquista do poder, mas a construção da classe trabalhadora como uma classe, a construção de sua independência, sua autonomia histórica. O grande mérito é trazer essas lutas e a perspectiva histórica do proletariado para o terreno prático dos contextos conjunturais analisados.
 
Todas as experiências, descritas nos textos aqui apresentados, influenciaram decisivamente as revoluções do século 20 e abriram o caminho para que os trabalhadores construíssem sua autonomia histórica e, mais que tirar a poesia do futuro, começassem a escrevê-lo.
 
Textos:
- As lutas de classes na França
- O 18 brumário de Luís Bonaparte
- A guerra civil na França

domingo, 20 de dezembro de 2015

«os professores perderam o controle total sobre o seu processo de trabalho».

Entrevista com a investigadora Kênia Miranda.

1- o que é a escola?

A escola é a instituição que, por excelência, tem a função social de transmitir o conhecimento produzido pela humanidade às novas gerações. Historicamente ela consolidou uma estrutura dual com organizações diferentes para as diferentes classes sociais. Nos termos de Gramsci, poderíamos falar que a educação contemporânea organizou-se em uma escola para formar dirigentes e outra para os dirigidos.

Mas, nem sempre foi assim. O fenômeno educativo já existia nas comunidades primitivas, sem a divisão em classes sociais. Ela era, portanto, de responsabilidade do coletivo, numa experiência essencialmente prática de vivência no grupo, logo, sem a materialização de um espaço escolar formal. É com a mudança no modo de produção e de apropriação do excedente social que a educação passa a ser controlada por uma determinada classe social. Aquela classe que detinha os meios de produção material começou também a exercer o controle sobre os meios de produção espiritual. Na sociedade capitalista, a escola, assim como o Estado, possui evidente caráter de classe e, dada a configuração da luta de classes, apresenta maior ou menor funcionalidade ao capital naquilo que lhe interessa mais diretamente, a preparação de novos trabalhadores. Para tal, o Estado, maior responsável pela educação formal, cumpre papel importante.

Esse permanente movimento do capital em buscar a transformação da educação em mercadoria, formar novos trabalhadores de acordo com as suas necessidades produtivas efêmeras e expropriar o conhecimento daqueles que conduzem o processo educativo, os professores, resulta na explicitação da luta de classes no terreno da formação, em particular da educação formal.

2 – o que deveria ser?

Se a educação formal e o conjunto dos processos de formação humana têm sido, sob o capitalismo, para a maioria esmagadora da classe trabalhadora, espaço de conformação social e de acesso parcial aos conhecimentos – já que os trabalhadores não podem ser totalmente privados do conhecimento, como nos diz Saviani -, sob a crítica negativa da sociedade atual, ela deve ser antagônica a esse modelo.

Ela deve ser pública e unitária, sob o controle dos trabalhadores. Isso que dizer que para pensar e fazer a escola que nos serve, temos que recuperar o que há de melhor na tradição do movimento da classe trabalhadora. A necessidade da luta pela abolição da “escola velha” foi inscrita pelo programa socialista na história por experiências como a Comuna de Paris e a Revolução Russa, assim como em todos os lugares em que uma sociedade autogerida ganhava corpo. A formulação marxiana de Educação Tecnológica ou Politécnica ou, posteriormente, a de Gramsci, de Escola Unitária são as nossas referências de partida.

A formação humana integral de cunho socialista, que Marx e Engels apresentaram como contraproposta à elaborada pelo capital, deveria unificar três tipos de formação, a educação intelectual, a educação corporal e a educação tecnológica, articuladas para oferecer os fundamentos científicos gerais do trabalho, tornando-o princípio educativo e instrumento de análise da realidade.

Ou seja, se a propriedade privada e o trabalho alienado tornaram os homens unilaterais, reduzidos à força de trabalho, a finalidade formativa desta educação é a omnilateralidade, um desenvolvimento completo, multilateral das necessidades e capacidades e humanas, obstaculizadas pelo vil interesse do capital.

Para Marx, esse processo só é possível se a escola for financiada pelo Estado, sem que ele seja o educador do povo. Nós, trabalhadores da educação, estudantes, familiares e trabalhadores em geral, temos que conceber e executar essa escola que perceba, explicite e tensione as contradições entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais de produção e que possibilite aos trabalhadores ferramentas científicas e organizativas que contribuam para dirigir a coletividade.

3- defendes que os professores estão submetidos formalmente e realmente ao capital? Podes explicar isso para leigos?

Como disse, para que o Capital possa avançar em seu projeto de converter a educação em mercadoria e em conformação social, ele necessariamente precisa expropriar o conhecimento daqueles que conduzem o processo educativo. Os professores são os principais alvos, há uma tendência crescente a uma perda progressiva do controle sobre o seu processo de trabalho.

Marx analisou historicamente a perda do controle sobre o processo de trabalho na transição entre o sistema feudal e o capitalista, em que a sociedade passou por dois estágios anteriores à industrialização, propriamente dita, o artesanato e a manufatura. Para ele, na forma especificamente capitalista, há a subsunção real: o trabalhador não possui os meios de produção, não o conhece nem controla o processo de trabalho, tampouco é seu o produto do trabalho.

A partir dessa síntese marxiana comecei a pensar sobre o processo crescente de perda de autonomia do trabalho docente nos dias atuais, concluindo que ele tende a uma subsunção real ao capital, ou seja a uma subordinação ideológica e material ao capital.

O trabalho docente não encontra-se mais na etapa de subsunção formal, uma vez que o professor não é mais um mestre-escola, não é empregador de si mesmo, não possui o controle total de seu processo de trabalho, tampouco os meios e o conjunto dos instrumentos de produção. Restou-lhe o conhecimento parcial de sua área de atuação, alvo de constantes disputas, um conhecimento não patenteado, que está à disposição da sociedade de diversas formas.

Portanto, considero que o trabalho docente encontra-se na fase transitória entre a subsunção formal e a subsunção real dos processos de trabalho, onde a primeira etapa já foi superada e a segunda não se completou. Essa é a tendência que observamos a partir da pesquisa realizada com os sindicatos docentes no Brasil, a de uma subsunção proto-real do trabalho docente ao capital.

O trabalho docente não está subsumido realmente ao capital. A forma da Educação a distância (EAD), expressão mais objetivada da educação, apesar da expansão, não se configurou como expressão hegemônica da educação formal.

Se o grau de subsunção do trabalho docente não chegou a sua forma máxima, a da subsunção real, uma chave explicativa é que os trabalhadores, em particular os da educação, atuaram nesta correlação de forças resistindo às investidas do capital, no que diz respeito aos processos de intensificação da jornada, flexibilização das formas de contratação e inserção de mecanismos meritocráticos e de competitividade, a partir de avaliações externas, ao longo, principalmente, das últimas duas décadas. Mas, certamente, muito avançou a expropriação do conhecimento e do processo decisório dos docentes, acelerando a proletarização docente.

4- que experiências conheces de lutas das escolas?

No Brasil, as lutas sindicais são as mais representativas das lutas por educação, pelo menos desde o final da década de 1970. Antes disso, foram expressivos os movimentos de educação popular, na década de 1960, por alfabetização dos trabalhadores. Naquela conjuntura, tratava-se de uma realidade de cerca de 40% da população analfabeta, em média, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tal realidade tornava-se ainda mais grave nas regiões Norte e Nordeste do país. Dessas lutas também derivaram as lutas por educação dos trabalhadores do campo. Desde a década de 1980, movimentos como o dos trabalhadores rurais sem terra têm conduzido lutas por escola e pelo direito de realizar uma educação para e dirigida pelos camponeses.

Do ponto de vista das lutas sindicais dos trabalhadores da educação, as principais bandeiras foram a expansão do ensino e dos respectivos recursos financeiros, a manutenção de seu caráter público e a garantia de condições de trabalho à comunidade escolar. E o principal instrumento, a greve. De um modo geral, essas lutas sindicais não conseguiram a disseminação de suas pautas ao conjunto da classe trabalhadora, embora, em diversos momentos tenham conseguido convergências com as pautas mais gerais.

As políticas neoliberais de educação, mesmo enfrentando grande resistência, resultaram em precárias condições objetivas de trabalho, realidade da maioria absoluta das redes públicas da educação básica e das universidades brasileiras, e abriram espaço para maior controle sobre o que é ensinado, para a diversificação do financiamento da educação pública e para o crescimento do setor privado.

Se as Jornadas de Junho de 2013, que se estenderam por julho e agosto do mesmo ano, colocaram em questão elementos da ordem vigente, demonstrando, nas ruas de várias capitais do país, a insatisfação com a qualidade dos serviços públicos oferecidos pelo Estado, que dizem respeito ao modo de vida população, tais como aqueles relacionados aos transportes, à saúde e à educação, um poderoso movimento surgiu nas últimas semanas, centrado na educação, cujo epicentro são as escolas paulistas.

Cerca de duas centenas de escolas estaduais paulistas estão ocupadas por estudantes que demonstram resistência ímpar à política educacional do governo do estado de São Paulo, de Geraldo Alckmin (PSDB), que anunciou, para 2016, o fechamento de escolas e transferência unilateral de estudantes. O protagonismo dos estudantes secundaristas deve ser destacado, assim como a originalidade dessa forma de luta no país. Se as ocupações de escolas foram vistas em outros contextos na América Latina, como no Chile e na Argentina, no Brasil, é a primeira vez que acontecem como principal ação tática. As escolas são assumidas pelos estudantes que a partir delas, vão às ruas. A participação docente nessa luta ainda parece aquém do que a realidade interpela. É um momento perigoso para o projeto de educação do capital.

5- podes dar exemplos dessas lutas que reconheças e acertaram e que falharam, ou seja, para ti e, que as lutas erram e como é possível acertar?

Não sou espectadora dessas lutas, participo de parte delas, de seus erros e de seus acertos. Os limites das lutas por educação expressam e são expressão dos limites das lutas gerais da classe trabalhadora. Para avançarmos nas propostas pedagógicas é necessário que o resultado da luta de classes esteja mais favorável aos trabalhadores, não foi assim nas experiências revolucionárias? O que Portugal conquistou a partir da Revolução dos Cravos reverberou também sobre a educação, sobre a formação humana. Isso não quer dizer que as lutas por educação sejam inócuas hoje, não são, muito pelo contrário, podem ser um grande ponto de partida. Se elas não se reduzirem à esfera corporativa, serão lutas importantes, formativas. Para acertar, precisamos de maior capacidade de espraiá-las no conjunto da vida social.

 

sábado, 19 de dezembro de 2015

“El internacionalismo de Marx no era abstracto sino muy concreto”: Entrevista con Kevin B. Anderson

Con la amable autorización de la revista Contretemps

Kevin B. Anderson imparte sociología, ciencia política y estudios feministas en la Universidad de California en Santa Bárbara. Es miembro de la asociación marxista-humanista internacional (http://www.internationalmarxisthumanist.org) – que se inspira sobre todo en los escritos de Raya Dunayevskaya – y colabora con la Marx-Engels Gesamtausgabe. Especialista en Marx y en Hegel así como en el humanismo marxista y en la Escuela de Fráncfort, K. B. Anderson trabaja sobre las relaciones entre clases, razas, géneros y sexualidades. Traducido a varias lenguas, su obra Marx at the Margins: On Nationalism, Ethnicity, and Non-Western Societies [Marx en los márgenes– Obra no traducida al español], publicado en 2015, trata de la etnicidad, de las naciones y de las sociedades no-occidentales. <> (*)

(*): Cf. Jean-Numa Ducange, Marx au-delà de l’Europe. À propos d’un ouvrage de Kevin Anderson[Marx más allá de Europa. Sobre una obra de Kevin Anderson], Contretemps, n° 15.

Contretemps : ¿En qué contexto académico y político decidió usted escribir Marx en los márgenes?

Kevin Anderson: Como casi siempre, el contexto político era bastante conservador, pero no menos conservador que hace veinte años. Después de Seattle y la reciente crisis económica, la gente es un poco más crítica con el sistema. En Estados Unidos se pronuncia la palabra “capitalismo” de vez en cuando, en el movimiento Occupy se tomó conciencia del impacto de las rebeliones árabes, sobre todo en Egipto. En el periodo anterior a estas revueltas, pero sobre todo después de Seattle y la crisis económica [el libro apareció en University Of Chicago Press en mayo de 2010. N. d. T.], la reacción a mi libro fue más importante de lo previsto: aparecieron más de 40 reseñas, de las cuales 30 en inglés y 10 en otras lenguas. Suscitó gran interés, de modo que se anuncia una segunda edición para el año que viene. En referencia al contexto académico, está claro que durante los treinta últimos años el marxismo ha estado en retroceso, y los investigadores se interesaron más por autores como Michel Foucault, Edward Said y otros. Además, los efectos de la desacreditación del marxismo y del socialismo después de la caída del muro de Berlín pesan mucho. Los años 90 han sido muy hostiles para el marxismo. Richard Rorty, un gran filósofo americano, escribió en 1992 que nadie, ningún intelectual serio, cree ya en una gran teoría de los problemas: hay problemas, sí, pero no pueden imputarse al capitalismo ni a un sistema. Nadie cree ya en eso. Ni Habermas ni tampoco Foucault. Y dijo también, calculando cuidadosamente sus palabras, y es un hombre de izquierdas, que para crear valor y riqueza hace falta gente como Donald Trump. A mí esto no me gusta pero es la realidad. Dos años más tarde tuvo lugar la revuelta Zapatista, después la batalla de Seattle y el libro de Hardt y Negri Imperio. Es un libro muy importante – aunque yo no esté de acuerdo con el conjunto de su contenido – porque pone en el centro del análisis el problema del capitalismo y de las clases sociales. El libro critica eso que nosotros llamamos la política de la identidad. Los autores señalan que el capitalismo americano es muy hábil: hay un embajador negro en Kenia, Coca-Cola tiene ejecutivos negros y parece que funciona, pero es siempre capitalismo, es siempre un sistema jerárquico y estructurado por poderes. Desde hace diez años se percibe una mejora y un interés cada vez mayor por Marx y otros pensadores de izquierda como Rosa Luxemburgo; sobre todo entre los jóvenes intelectuales. Hace mes y medio asistí en la New York University a una conferencia de Historical Materialism y había más de 200 participantes, la gran mayoría menores de 35 años. Eran sobre todo estudiantes, jóvenes docentes que están investigando sobre historia, sociología y filosofía marxistas.

CT: ¿Cuáles son las ideas centrales de su libro?

KA: Es, por una parte, un libro sobre Marx, el colonialismo y las sociedades no-occidentales en Asia, África, Rusia y Europa del Este. Por otro lado, se trata de un análisis de lo que Marx escribe sobre la raza, la etnicidad y las clases en los países más industrializados como Estados Unidos e Inglaterra: la cuestión de los negros en EE UU y la cuestión de los trabajadores irlandeses en Inglaterra, por ejemplo en Manchester. Durante decenios Marx ha sido criticado por no haber comprendido el problema del colonialismo. No sólo Edward Said, otros pensadores liberales también han señalado durante décadas que en sus artículos sobre la India de 1853, Marx apoya prácticamente el colonialismo británico como un fenómeno progresista. Marx dice que la inglesa es una civilización superior y que la civilización es una etapa en el desarrollo dialéctico. Pero los intelectuales marxistas especializados en este tema, en la India, por ejemplo (se han publicado centenares de artículos sobre este problema), comprenden que el asunto es mucho más complicado. En 1857 Marx cambió profundamente de opinión y apoyó las revueltas antiimperialistas de aquel tiempo, como la rebelión de los Cipayos en la India y la de los chinos en la Segunda Guerra del Opio que les impusieron los británicos. Yo he seguido atentamente este desarrollo porque estuve trabajando en la MEGA, laMarx-Engels-Gesamtausgabe, y adquirí mi formación marxista de la mano de Raya Dunaevskaya, que había escrito sobre Marx y las relaciones sociales de raza durante la década de 1940. Al final de su vida, Marx escribió los Cuadernos etnológicos, en los cuales toma notas sobre la India, Argelia, Sudamérica, Sri Lanka, Indonesia y otros países más, y además lee a los grandes antropólogos de su época, sobre todo a Lewis Henry Morgan. También escribe sobre el problema de la raza y la familia. Es muy interesante porque durante los años 1920 el gran especialista Riazanov publica las obras completas de Marx, que inmediatamente se publican en Alemania. Uno de los mejores investigadores de Marx, el historiador alemán Hans-Peter Harstick, explica en 1977 que <<los ojos de Marx se desvían del mundo europeo. […] para fijarse en Asia, América latina y África del norte>>. Al final de su vida Marx comienza efectivamente a aprender ruso, lee los textos antropológicos en ruso sobre la India y América latina y los traduce al alemán.

CT: Sin embargo, a menudo los detractores de Marx, y no sólo ellos, le atribuyen una visión lineal de la historia, una perspectiva eurocéntrica. Su libro viene a cuestionar la idea de que Marx sea un pensador determinista, eurocéntrico. ¿Se pueden definir etapas en el desarrollo intelectual de Marx?

K.A: Hay que decir de entrada que existe una continuidad en ciertas cuestiones, como la de la emancipación de los irlandeses o los polacos, a los que Marx y Engels siempre apoyaron. Incluso en el Manifiesto Comunista, aun cuando se cita a menudo la frase <<los obreros no tienen patria>>,(sino que tienen una clase), al final los autores del Manifiesto insisten en el hecho de que los comunistas apoyan la emancipación nacional de Polonia. Es un principio de los comunistas: si se es comunista hay que apoyar la emancipación nacional de Polonia, todas las naciones tienen el derecho de autodeterminación y a la emancipación nacional. Marx y Engels apoyan asimismo a los italianos del norte bajo ocupación austríaca. Ahora bien, en cuanto al colonialismo la situación es diferente. Inicialmente, en sus escritos, Marx sostiene la idea de que hay que saludar los aspectos positivos del capitalismo, lo podemos ver en las cinco primeras páginas del Manifiesto Comunista: el capitalismo crea riqueza, libera el potencial de los seres humanos de una manera nueva, destruye las jerarquías feudales, etc. Lo mismo dice respecto a la India: el capitalismo va a minar el sistema de castas, las antiguas jerarquías, trae el ferrocarril y la industria moderna. Es terrible y mucha gente lo sufre, pero en resumidas cuentas es el progreso. En oposición a los proteccionistas, Marx explica en el Discurso sobre la cuestión del librecambio de 1848 que hay que dejar hacer al capitalismo para barrer todas las antiguas jerarquías y poderíos. En los países capitalistas también hay opresión causada por el capitalismo, por ejemplo las crisis recurrentes cada diez años, que ponen en cuestión todo el sistema: porque, en primer lugar, este sistema no satisface las necesidades de la población y, en segundo lugar, el capitalismo engendra el proletariado, que es enajenado en su trabajo. Dice Marx que el trabajo se hace mecánico y repetitivo y el proletariado sale empobrecido. De modo que el capitalismo es un sistema limitado a causa de las crisis, cada vez más violentas y el proletariado cada vez más numeroso y más enfurecido a causa de este sistema, comienza a organizarse en sindicatos y partidos políticos. En cuanto a India y China, los primeros escritos de Marx no son dialécticos pues no hay contradicciones. Los británicos llegan a la India y traen el progreso. Hay resistencias pero para Marx son reaccionarias. Esta visión cambiará más tarde.

CT : En The politics of combined and uneven development: the theory of permanent revolution (Haymarket, 2010)), Michael Löwy señala que el término revolución permanente empleado por Marx por primera vez en La cuestión judía de 1844, fue utilizado sobre todo para analizar acontecimientos europeos como el golpe de Estado español de 1856. Sin embargo, en la medida en que los debates sobre la estrategia revolucionaria disminuyeron, la cuestión de la revolución permanente pasó a segundo plano. Vuelve a aparecer unos 20 años más tarde cuando Marx analiza las relaciones sociales en Rusia ¿Cómo explica usted el creciente interés de Marx por las sociedades no occidentales?

KA: Existe un gran ensayo sobre la revolución permanente escrito en 1850, al final de la secuencia revolucionaria de 1848. Marx dice que la revolución está en retroceso, que la próxima revolución ya no será sólo democrática, sino una revolución permanente que tiene que cambiar las relaciones de clase y económicas y no sólo las relaciones políticas. ¿Por qué? Existen razones tanto intelectuales como políticas. Podemos encontrar dos periodos en los que Marx se interesa por las sociedades no occidentales: el primero es en los años 1850, después del fracaso de la revolución de 1848. Era un periodo reaccionario en Europa, así que orienta su interés hacia otras partes del mundo. Se hace periodista para el Tribune, lo que supone abordar no solamente temas europeos sino también internacionales, aparte de Estados Unidos. Destaca la revuelta de los Taipings en los años 1850 y más tarde en El Capital dice que en China las cosas se están moviendo de verdad. Así que durante esos años escribe centenares de páginas con notas sobre la India, China y otros países como Indonesia. Durante el segundo periodo ocurre algo parecido; son los años 1870, después de la derrota de la Comuna de París. La publicación del primer libro de El Capital en Alemania había sido un éxito, pero un éxito limitado al movimiento obrero. Marx hubiera querido un éxito como el de Darwin, que generase una gran discusión, pero ésta apenas tuvo lugar. Sin embargo, en Rusia se desencadenó una gran discusión en la que participaron todas las grandes revistas y todos los intelectuales. La primera traducción de El Capital en lengua extranjera fue la versión rusa de 1872; mientras que la versión inglesa vio la luz en 1887, ya después de la muerte de Marx; y la francesa se había terminado en 1875. Marx empieza a aprender el ruso y se interesa en otras partes geográficas del mundo en las que consideró que la situación política pudiera evolucionar significativamente. En Rusia no sólo había intelectuales, eran los tiempos del movimiento populista y un zar había sido asesinado por los revolucionarios. En la novela Germinal de Zola el revolucionario ruso es una figura muy impresionante porque se hace volar con su dinamita y todo salta alrededor. Un revolucionario ruso hace todo por destruir el sistema, arriesga incluso su vida, y los revolucionarios rusos empiezan a escribirse mucho con Marx. Por ejemplo, Marx dialoga con el señor Kovalevsky, un antropólogo ruso que le regaló un ejemplar del libro La Sociedad arcaica de Lewis Henry Morgan – un estudio sobre la familia, la sociedad, los indígenas. Marx redacta sus notas sobre este estudio y Engels escribe El origen de la familia, de la propiedad y del Estado sobre esta base. Mi mentora intelectual, Raya Dunaevskaya, escribió que, puesto que Marx había hecho sus investigaciones sobre la agricultura en Estados Unidos, tal vez Marx hubiera centrado los libros 2 y 3 de El Capital en Rusia y América. Durante los años 1870 Marx emprende investigaciones sobre la agricultura en Rusia, Irlanda y América en las que analiza las transformaciones de la propiedad de la tierra, las costumbres de la gente, la familia, el pueblo y las relaciones de género. Todo ello le interesa mucho, y hasta lee libros sobre los hombres de las cavernas, cuya existencia acababa de ser descubierta en los años 1870. También redacta cuadernos sobre matemáticas; y gran parte delas ciencias puras y sociales ocuparon los últimos años de su vida. Por aquellos años habla de Rusia como potencial punto de partida de la revolución mundial porque ya existe un comunismo primitivo en las aldeas rusas, donde se reparte la tierra de manera colectiva. Al contrario que en Europa occidental, no existe la propiedad parcelaria y regularmente, pasados unos años, se convocaba una reunión para reorganizar el reparto de tierras en función del tamaño de las familias, con el fin de que las tierras se correspondieran con la realidad de la población. Cuando Marx era joven escribió que en la base del despotismo estaba un comunismo bastante conservador y que la disciplina colectiva era muy dura. Incluso en Estados Unidos, en el cuerpo de marines, donde reina la mayor disciplina, todo el grupo es castigado por el escaso rendimiento de un solo individuo, con el fin precisamente de animar a los otros a ayudar al compañero y así actuar mejor colectivamente. Es en cierto modo comunismo, y Marx no idealiza el comunismo. La posición de la mujer en Rusia era muy baja en la jerarquía social, pero comprueba que las comunas están en rebelión mediante la agitación de populistas e intelectuales y que hay posibilidad para una gran revolución agraria en Rusia. Con estas comunas podría eventualmente ser posible saltarse la etapa capitalista y llegar directamente al socialismo si los revolucionarios rusos se ponen en contacto con el movimiento obrero de Europa occidental. Si ambos van de la mano, están dadas las condiciones para una revolución. Yo creo, al igual que otros investigadores que trabajan en las notas de Marx del final de su vida, que él consideraba que en las sociedades en la India o en América latina la propiedad y las relaciones sociales de los poblados estaban organizadas de modo que constituían el punto de partida para las revoluciones no occidentales. Autores como Adolphe Thiers o el jurista británico Henry Summer Maine, que trabajó en la administración colonial en la India, sostenían que hay que extirpar la propiedad comunal, que es algo malo, que bloquea el progreso y que es un peligro para la revolución. En la medida en que el capitalismo se globaliza, el análisis de Marx sobre las posibilidades de un nuevo sujeto revolucionario también se globaliza.


CT: En su libro llama usted la atención sobre dos aspectos a menudo marginados en la lectura de Marx. El mismo Marx evolucionó en el transcurso de su vida hacia una visión multilineal del desarrollo de las relaciones sociales. ¿Qué nos dice Marx en los márgenessobre la manera de leer a Marx?

KA: Yo estoy de acuerdo con Foucault cuando en su Qu’est- ce qu’un auteur? dice que se crea un autor, que se habla de las grandes obras de un gran autor, pero incluso los mismos grandes autores han redactado libros menos interesantes. Se dice que un autor corresponde a sus obras principales y se le distancia de otras obras suyas menos interesantes. En la biblioteca pública de Nueva York, antes de la catalogación numérica [CDU], para encontrar a Marx en el catálogo había que ir primero a ‘economía’ y después a ‘Marx’. Se consideraba a Marx como economista, incluso por parte de los marxistas. Engels mismo se preguntaba desolado por qué Marx no había terminado El Capital. Para Althusser no hay más que El Manifiesto comunista y El Capital, pero Marx no es marxista en 1844; cuando escribe sobre la alienación, sobre la dialéctica de Hegel en términos positivos, en cierto sentido no era Marx. En esta línea, Eugène Genovese, un historiador marxista y antiguo presidente de la Organization of American Historians, especialista en esclavitud, subraya que los escritos de Marx sobre la guerra civil en Estados Unidos no son marxistas. En estos escritos Marx sería más bien liberal porque su oposición emocional a la esclavitud habría condicionado su concepción sobre la misma. Ahora bien, yo creo que hay que releer a Marx en cada época ya que él es un escritor muy sutil, un adelantado en relación con su época. Sartre dijo que no se puede superar a Marx mientras se siga viviendo bajo el capitalismo. En mi libro trato de releer a Marx relacionándolo con cuestiones de hoy. Cuando se hace así se encuentra uno con muchas cosas: en el joven Marx no se encuentran muchos elementos sobre la mundialización o las sociedades no occidentales pero sí pasajes muy interesantes sobre el género, por ejemplo en Los manuscritos de 1844, en La sagrada familia y en La ideología alemana. Una de mis alumnas, Heather Brown, acaba de escribir un libro titulado Marx on Gender and the Family, en cierto modo paralelo a mi libro. Comienza por las obras del joven Marx y termina con los Cuadernos redactados poco antes de su muerte. Es un tema central para Marx. Muchas notas suyas sobre las sociedades no occidentales y sobre la Roma antigua abordan la familia y el género. En la Antigüedad, por ejemplo, la familia incluía a los esclavos así que la familia designaba todo el hogar.

CT: ¿Durante el periodo del Marx “maduro”, que según su libro va de 1872 a 1883, cree usted que Marx una mayor importancia a los individuos, a las luchas, en detrimento de las estructuras? Marx considera que la clase obrera en Europa no es el único sujeto revolucionario y que la revuelta en Irlanda puede también derrocar al capitalismo o que sociedades rurales como las de Rusia, pueden ser el punto de partida de un desarrollo comunista en Europa.

KA: No, yo no creo que su posición cambie, porque Marx siempre tiene presente la relación entre el individuo y las estructuras. El proletariado pierde su individualidad, está casi aplastado por el capital. En el comunismo el proletario va a encontrar su individualidad, en el sentido de individuo creador verdaderamente humano. Se pueden encontrar estas ideas en El Capital. El obrero/la obrera es deshumanizado/a por el capitalismo y se hace mucho más cosmopolita, ya no quiere volver al pueblo, ya es urbanita. Su humanidad se ha desarrollado pero al mismo tiempo también se ha alienado. Hay un pasaje en El Capital en el que el/la obrero/a dice: <<yo he trabajado en seis países y en diez puestos distintos, soy flexible>>, y Marx comenta que el capitalismo ha creado hombres universales pero muy deshumanizados. Marx continúa apoyando las luchas democráticas; en uno de sus discursos de 1881 se dirige a los polacos y les habla de la revolución que viene y de la propiedad comunal en Polonia. Estos escritos sobre el individuo y la sociedad son probablemente los más explícitos. En mi opinión, él no cambia sus concepciones filosóficas y metodológicas más profundas, su Weltanschauung (visión del mundo) no cambia verdaderamente entre 1844 y 1883, al contrario que sus posicionamientos sobre cuestiones precisas como la India o Irlanda. Su aparato conceptual sobre la plusvalía, el trabajo abstracto y concreto, no cambia, incluso si no tiene aún concepciones muy precisas al respecto. Ya dispone de la base que le llevará a estas concepciones. Engels dice de su encuentro con Marx en el verano de 1844: <<Marx me contó casi todo lo que fue desarrollando más tarde>>.

CT: Marx comparó la situación de los irlandeses en Gran Bretaña con la de los negros en Estados Unidos. Al mismo tiempo, ofrece una crítica de las formas restrictivas del nacionalismo, sobre todo las de las versiones irlandesas que se refugiaron en identidades religiosas o que quedaron al margen del pueblo británico. ¿Mediante qué factores pudo Marx distinguir entre un nacionalismo susceptible de contribuir al derrocamiento del capitalismo y las formas restrictivas, conservadoras, del nacionalismo? ¿Qué nos dice Marx de la dialéctica entre las relaciones sociales de clase y de raza?

KA: Para Marx uno de los hilos rojos es saber si en un movimiento se pueden abordar las cuestiones de clase. Por ejemplo, en Polonia muchos hablaban de la emancipación nacional, pero Marx y Engels apoyaban a los que en Polonia querían también cambiar las relaciones en la propiedad de la tierra y liberar al campesinado. En Irlanda, por los años 1860, Marx se interesa particularmente por el movimiento de liberación nacional de los fenianos porque era un movimiento agrario, sin iglesias, que atacaba tanto a los terratenientes irlandeses como a los católicos. Era un movimiento campesino más populista que socialista. Marx apoya el derecho de autodeterminación de las naciones, entonces ¿por qué no apoyaba al Sur en Estados Unidos? No lo apoya porque examinando el contenido social y político de este movimiento ve que es muy reaccionario. Al principio el Norte no está muy adelantado ya que no aborda la esclavitud, pero insiste en la unidad nacional ya que el Norte, piensa sobre todo en los Estados fronterizos como Kentucky, Tennessee y Maryland que tienen esclavos pero que apoyan la causa norteña. El Sur redactó una nueva constitución que proclamaba el derecho al esclavismo, lo consideraba un derecho humano. Por cierto, los imperialistas británicos criticaban como una locura la idea del republicanismo, ya que no habría dado resultados serios ni en Francia ni en Estados Unidos. Al mismo tiempo, algunos proponían eludir el bloqueo del Norte e ir a buscar algodón al Sur con el pretexto de la libertad de comercio. Sin embargo, esto hubiera significado una declaración de guerra contra el Norte. Pues bien, un día el Norte interceptó un barco británico con dos diplomáticos del Sur a bordo que viajaban a Londres, así que detuvieron a la tripulación. Imagínense, por ejemplo, que los iraníes detienen un barco americano en el océano Índico y arrestan a diplomáticos americanos a bordo. Aquello fue como un acto de guerra por parte de Estados Unidos, pero el apoyo al Norte por parte de los obreros ingleses y de muchos intelectuales fue tan grande que los “jingoístas” [equivalente inglés de los ‘chauvinistas” franceses] británicos no fueron capaces de imponerse. Estados Unidos era una sociedad revolucionaria, no en el sentido proletario, pero revolucionaria y democrática. Los años 1870 conocieron la intensificación de esta radicalidad con ideas socialistas. Algunos de los más grandes abolicionistas fueron miembros de la Primera Internacional.

CT: Marx vincula la tendencia universalizante del capitalismo con las particularidades de las sociedades, por ejemplo, de las sociedades no occidentales. Usted subraya que Marx criticaba severamente a los demócratas de Francia y de Europa occidental porque realmente no apoyaron a los polacos en su lucha. ¿Qué enseñanzas nos ofrece Marx sobre el internacionalismo y el vínculo entre internacionalismo y la autodeterminación nacional?

KA: Marx, según la tradición europea, era un internacionalista; también vemos eso en Dante: <>. Su internacionalismo no era abstracto sino muy concreto. Hay naciones y gobiernos reaccionarios y hay otros que son muy reaccionarios, como por ejemplo Rusia. Entonces cuando Inglaterra y Francia están en guerra contra Rusia en Crimea ¿qué dice Marx? ¿qué dicen los socialistas? Marx dice que Napoleón quiere dar la impresión de estar combatiendo el despotismo ruso, pero en realidad no es eso lo que busca; es una guerra falaz. El internacionalismo de Marx y Engels es siempre muy concreto. Inicialmente ellos apoyan a los alemanes en la guerra franco-prusiana. Engels redacta unos escritos casi nacionalistas. Ahora bien, la situación cambia con la Comuna de París: Rusia era considerada como el país más reaccionario, pero el bonapartismo era considerado como más peligroso ¿Por qué? Porque además de ser reaccionario se mezclaba con el movimiento obrero y democrático. El mismo Napoleón III apoyaba a algunos revolucionarios rusos, lo que era muy peligroso. Por eso su caída es importante. Marx y Engels tomaron pues siempre posición según las circunstancias concretas, como en el caso de Irlanda o respecto al Norte en Estados Unidos. Pero no mantuvieron su apoyo a los movimientos en Europa del Este contra los otomanos porque pensaban que estos movimientos eran manejados por Moscú. El paneslavismo era una política reaccionaria y peligrosa, aunque en realidad estas observaciones son exageradas. Putin está jugando este mismo juego con su mundo ortodoxo cuando dice que el mundo eslavo no acepta la homosexualidad; es muy conservador y al mismo tiempo aboga por combatir la hegemonía de Estados Unidos y apoya a los revanchistas en la comunidad rusa de Letonia. Lo mezcla todo.

Marx habla tres lenguas: inglés, francés y alemán. Se dice que una tercera parte de sus escritos están en inglés, pero muchos de sus textos más importantes están en francés: La miseria de la filosofía, sus cartas sobre Rusia a final de su vida y sus escritos sobre Polonia. Así pues, el internacionalismo es un principio general que se puede ver en la estructura de la Primera Internacional. Fue en la Segunda Internacional cuando se llegó a la idea de que cada país debía tener su propia organización. En la Primera cada país tenía su secretario, pero el Consejo general en Londres tomaba las decisiones por toda la organización. Bakunin no estaba de acuerdo porque quería más descentralización. Pero Marx quería, por ejemplo, que los británicos escuchasen lo que decían los otros sobre la cuestión de Irlanda. Los sindicalistas británicos apoyaban a los irlandeses pero no tanto como Marx quería. Un día hubo un gran debate – El London Times escribía artículos sobre cada una de las reuniones del Consejo internacional – y un alemán (o un suizo, no sé) le dice a los ingleses: “todos incondicionalmente apoyamos la independencia de Polonia, hay que hacer lo mismo con los irlandeses. No podemos hacer distinciones entre las naciones”. Todos los ingleses progresistas apoyaban a Polonia, era una de las grandes causas del siglo XIX. De alguna manera la Primera Internacional estaba más centralizada que la Tercera. No es un modelo de organización para nuestro tiempo, pero las ideas de organización de Marx siguen siendo interesantes. Marx no controla la Internacional, tenía mucha influencia, sí, pero también estaban los proudhonianos y los anarquistas. Cuando hablamos de internacionalismo en el movimiento social y político hay que tener presentes grandes congresos como por ejemplo el de hace unos meses en Túnez. Ahí se ve cómo las organizaciones tienen políticas diferentes. Entre los delegados árabes, por ejemplo, que son anticapitalistas y anti-fundamentalistas, muchos apoyan a Assad o dicen que no es tan malo como se piensa. Hay que negociar en torno a estas diferencias pero sin sacrificar el principio ¿Cómo hacerlo? En el manifiesto de la Internacional se debatió cada palabra; Marx escribe en relación con la Primera reunión de la Internacional que tuvo que hacer concesiones, pero no concesiones de principio. Los estatutos de la Primera Internacional subrayan sobre todo que era posible adherirse a ella “sin distinción de color, de credo o de nacionalidad”, y hombres de color como Paul Lafargue se reunían con los obreros de Londres.

CT: La dialéctica entre las relaciones sociales de clase y las relaciones sociales de raza: en el último párrafo de sus conclusiones usted dice que los escritos de Marx sobre las etnias pueden ayudarnos a comprender los acontecimientos de 2005 en los barrios [de Francia] ¿Qué podemos extraer de los escritos de Marx sobre las relaciones entre clase y raza?

KA: Existe un proletariado universal, pero no se trata de una universalidad abstracta. Esta idea de una universalidad abstracta era una idea falsa que el mismo Hegel combatió dialécticamente contra Schelling. Hegel decía que para Schelling durante la noche todas las vacas son negras, sin distinción. En cuanto a este universal abstracto, Hegel subraya que el universal debe particularizarse y es por ello que Hegel habla del espíritu del mundo pensando por ejemplo en Napoleón, Alejandro o Julio César. Estos hombres portaban las ideas universales de su época y las ponían en práctica. Para Hegel, la idea, el absoluto, debe siempre concretarse en una religión, en una filosofía, incluso en un individuo. Para Marx los proletarios del mundo tienen su propia historia, sus propias divisiones, sus prejuicios, experiencias y posibilidades. En tres ocasiones aborda Marx la cuestión del racismo: entre los irlandeses y los británicos porque los irlandeses eran un subproletariado al que los trabajadores ingleses temían por razones de empleo; en Estados Unidos los trabajadores blancos son libres, no son esclavos y tienen derecho de voto; en tercer lugar, con la plebe romana: hay revueltas plebeyas al mismo tiempo que revueltas de esclavos en Asia menor, pero ambos movimientos no están mezclados. En este punto Marx comenta que la plebe romana tuvo la misma actitud que los blancos del Sur en Estados Unidos para con los esclavos. No dice que se trate de razas diferentes, pero esa condición de esclavo, esa condición de inmigrante o hijo de inmigrante, de no tener la ciudadanía, es una condición social. Estos tres momentos, el plebeyo romano, el trabajador blanco del Sur y los proletarios ingleses, son tres ejemplos de esta actitud de superioridad, de condescendencia, que tan problemática es para las luchas sociales.


CT: Subraya usted que Marx se interesa por las formas de organización en los pueblos de la India, de China o de Rusia, y al mismo tiempo se atribuye a menudo a Marx una visión determinista, economicista, ligada sobre todo al prefacio de la Contribución a la economía política, donde se insiste en el hecho de que “las fuerzas productivas materiales de la sociedad entran en contradicción con las relaciones de producción existentes. […] Entonces se abre una época de revolución social”. En los escritos de Marx sobre las sociedades no occidentales se encuentran otras condiciones previas ¿Cómo explica usted que esta visión economicista que se atribuye a Marx siga siendo aun hoy tan persistente cuando Marx tiene un análisis de las relaciones sociales mucho más fino?

KA: Se crea una doctrina marxista post-Marx. La Segunda Internacional creó el marxismo y, al mismo tiempo, pensadores tan originales como Rosa Luxemburg, Lenin o Trotsky estuvieron marcados por ello. Por ejemplo, cuando leen los escritos de Marx sobre el comunismo primitivo, eso no les interesa en tanto que fuente de sujetos revolucionarios. Luxemburg también escribe sobre la comunidad agrícola, había leído a Kovalevsky, pero su Introducción a la economía política – muy interesante – está marcada por un cierto esquematismo según el cual la comunidad agrícola debe acabarse porque esa es la marcha de la historia. Ella nunca esgrimió argumentos deterministas; como justamente señala Michäel Löwy, Luxemburg rompió con la concepción de progreso de la Segunda Internacional en sus escritos sobre la Primera Guerra mundial, por ejemplo, cuando ella habla de “socialismo o barbarie” (otros como Kautsky utilizaron también esta fórmula, incluso Marx va en esta dirección en el Manifiesto comunista cuando habla de “la destrucción de las dos clases en lucha”). De modo que Luxemburg dice en El Folleto Junius que la barbarie es un fin posible del capitalismo moderno. Ahora bien, ahí persiste un esquematismo; ella no había estudiado directamente a Hegel. Al contrario, Marx escribe, por poner un ejemplo, en una carta a Engels fechada en 1858, que <> y que había vuelto a leer La ciencia de la lógica, lo que le dio ganas de escribir un ensayo sobre la dialéctica de Hegel. Marx leía regularmente los grandes escritos dialécticos para refrescar su manera de pensar pero muchos marxistas no han hecho lo mismo. Pensar dialécticamente es un esfuerzo que debe sostenerse a lo largo de toda la vida. Hay que nadar en la dialéctica. Por supuesto que tenemos a Marx, pero tampoco él pudo abordar algunos problemas contemporáneos. Marx no escribió nada sobre la homosexualidad – excepto algunas notas bastante heteronormativas – y hoy, sin embargo, discutimos sobre sexualidad y género. Pensadores como Foucault redactaron obras muy originales sobre la sexualidad y la homosexualidad. Eventualmente se pueden integrar aspectos de este pensamiento en el marxismo. Nos hace falta un análisis marxista del género, de la ecología – Marx los abordó y Michael Löwy y Joel Kovel no han dejado de subrayarlo. The Enemy of Nature de Kovel está fuertemente influenciado por Marx, los marxistas y principalmente por la Escuela de Fráncfort. Hay formas de nacionalismo que son progresistas y revolucionarias, hay religiones y nacionalismos muy reaccionarios; nuestra tarea es distinguirlos con el fin de saber con quién se puede trabajar políticamente. Muchos libros de sociología abordan el género, el transgénero, el racismo y el colonialismo, pero no en función de un esquema de análisis marxista. Hay que leer esos libros desde un punto de vista marxista, dialéctico.

Declaraciones recogidas por Benjamin Birnbaum
Traducción para Marxismo Crítico de  J.Mª Fdez. Criado


Contretemps num. 27, p. 143.