terça-feira, 24 de novembro de 2015

Para download: "História: Novos Problemas"

Textos de: Michel de Certeau, Pirre Vilar, François Furet, Georges Duby, entre outros.

LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (orgs.). História: novos problemas. 4 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

LINK PARA DOWNLOAD:
https://drive.google.com/file/d/0Bwo1dt0vJKZAVE5peGRKYnFCenc/view


SUMÁRIO
Apresentação de Jaeques Le Goff e Pierre Nora

A operação. histórica, Miehel de Certeau

O quantitativo em história, François Furet

A história conceitual, Paul Veyne

Os caminhos da história antes da escrita, André Leroi-Gourhan

A história dos povos sem história, Henri Moniot

A aculturação, Nathan Wachtel

História social e ideologia das sociedades, Georges Duby 

História marxista, história em construção, Pierre Vilar

O retorno do fato, Pierre Nora


sábado, 21 de novembro de 2015

Entrevista da historiadora Anita Prestes no "Novo Jornal" de Natal (RN)

 Novo Jornal, Natal, sábado, 21 de novembro de 2015, caderno Política, página 3.


CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA LER A REPORTAGEM E A ENTREVISTA COM ANITA PRESTES:



ASSISTA TAMBÉM AO VÍDEO: "Anita Prestes defende legado do seu pai, 80 anos após revolução"


 

Fotos da Conferência de Anita Leocadia Prestes no auditório da Biblioteca Central da UFRN e da audiência pública como atividade dos 80 anos da Insurreição Comunista na Câmara Municipal de Natal.

Conferência de Anita Leocadia Prestes no auditório da Biblioteca Central da UFRN (20/11/2015).





Audiência pública como atividade dos 80 anos da Insurreição Comunista na Câmara Municipal de Natal (20/11/2015).







FONTE: Facebook de Ana Lucas

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O que houve em Palmares?

Versão dos vencedores não dá conta da organização política de uma sociedade que se manteve por mais de meio século

Por Laura Perazza Mendes Nascimento*

Panorâmica do Parque Memorial do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, que desde 2007 reconstitui o cenário do antigo Quilombo.




Corria pelos engenhos e senzalas da capitania de Pernambuco a notícia de que, para o lado das serras, na região dos palmares, havia um refúgio. Um lugar onde era possível viver fora do poder dos senhores de engenho e manter vivas tradições africanas recriadas na América. Lá, uma nova sociedade era construída: guerreiros, agricultores, comandantes de guerra, líderes religiosos e uma linhagem real que determinava os rumos políticos e militares.


Aquelas povoações foram chamadas de mocambos, acampamentos que poderiam ser desmontados e montados em outras regiões, como estratégia de fuga ou de busca por melhores terrenos. Chegar a essa zona de vegetação de palmares não era tarefa fácil. Após fugir dos engenhos ou das vilas, era necessário trilhar caminhos íngremes e fechados pela mata. Qualquer descuido poderia resultar em recaptura ou morte, pois havia pessoas dedicadas especialmente à perseguição de escravos fugitivos, como os capitães do mato. Mesmo assim, muitos conseguiram chegar ao local, incluindo índios e pessoas livres. Foi mais fácil fugir para os mocambos no início do século XVII, quando a produção de açúcar foi desorganizada pela invasão dos holandeses (1630) e, mais tarde, pelas batalhas de expulsão desses estrangeiros (1645-1654).

Como era feito em Angola, os habitantes extraíam dos palmares a vegetação que deu o nome para os mocambos, fibras e palmito, além de produzir vinho e óleo. Não viviam isolados da sociedade colonial, mas buscavam reagir ao escravismo governando a si próprios.

Mas quem contou a história dessa sociedade? Infelizmente, não há nenhum registro escrito por habitantes dos Palmares. O que chegou até nós foram documentos produzidos por representantes da Coroa portuguesa que governaram a capitania de Pernambuco, e relatos de pessoas que lutaram contra os negros dos mocambos durante o século XVII. Por causa disso e de uma interpretação preconceituosa dos primeiros historiadores de Palmares, a sua história foi contada do ponto de vista da destruição. Era a versão dos vencedores.

O principal meio tentado pelos governadores de Pernambuco e pela Coroa portuguesa para pôr um fim em Palmares foi enviar expedições militares. Elas deveriam encontrar o caminho dos mocambos e fazer o máximo de prisioneiros possível. Os prisioneiros seriam devolvidos a seus antigos senhores ou vendidos para fora da capitania, para que não retornassem aos mocambos. Poderiam render um bom lucro, mas durante os confrontos muitos morriam ou ficavam feridos. Como meio de se defender dos ataques, os habitantes de Palmares faziam emboscadas e levantavam acampamento, mudando os mocambos de local.

Um dos primeiros estudiosos do assunto, o escritor Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), dividiu a história de Palmares em três fases. A primeira corresponde ao período da invasão holandesa, no qual o número de habitantes dos mocambos cresceu rapidamente. Seu marco seria o ano de 1644, data do confronto entre os negros amocambados e a expedição comandada por um holandês chamado Rodolfo Baro. O próximo marco escolhido por Nina Rodrigues foi uma expedição militar comandada pelo capitão Fernão Carrilho, em 1677. Vindo de Sergipe especialmente para fazer uma guerra contra Palmares, o militar promoveu um grande ataque. Segundo relatos posteriores, 200 habitantes de Palmares foram feitos prisioneiros, incluindo a rainha e filhos do rei, chamado Gana Zumba. Muitos morreram ou ficaram feridos, mas sobre estes não há números. Importava mais aos vencedores contar aqueles que poderiam ser vendidos. A fase final de Palmares foi a da morte do líder Zumbi, em 1695, seguida pela destruição dos mocambos remanescentes. Mas o salto na história promovido por Nina Rodrigues não dá conta de explicar a mudança da liderança do rei Gana Zumba para Zumbi. Muitas coisas acontecerem nesse meio-tempo: acordos de paz, mudanças nas localizações dos mocambos, diferentes posicionamentos políticos.

Como a maioria decidiu contar essa história a partir da destruição, o foco escolhido foi a morte de seu líder mais famoso. No final do século XVII, o governo de Pernambuco, cansado das expedições militares que fracassavam na luta contra os mocambos, decidiu investir no contrato de um tipo diferente de tropa: as bandeiras paulistas. Liderados por Domingos Jorge Velho, os indígenas e descentes de europeus que compunham essa tropa assinaram um contrato se comprometendo a destruir os mocambos de Palmares. Em troca, receberiam prisioneiros, terras e benefícios da Coroa, chamados de mercês.

Em 1694, os homens de Jorge Velho atacaram o mocambo principal de Palmares, localizado no Outeiro do Barriga, juntamente com homens da capitania de Pernambuco. Lá estavam Zumbi e seu exército, na capital conhecida como Macaco, protegidos por uma cerca alta que rodeava o local, à espera do ataque. Para rompê-la, os paulistas decidiram subir até o local carregando dois pesados canhões. Após horas de combate entre os que estavam do lado de fora e do lado de dentro da cerca, as tropas a serviço da Coroa conseguiram entrar em Macaco. Seu principal objetivo era capturar ou matar Zumbi, para provar que Palmares havia sido derrotado. Mas não o encontraram. Estaria ele morto? Teria escapado?

Os primeiros historiadores de Palmares acreditaram na versão de que Zumbi havia se suicidado pulando de um penhasco. Teria preferido morrer assim a ser capturado ou morto pelos inimigos. Posteriormente, foram encontrados documentos que relatam a morte de Zumbi um ano depois.

Inconformado por não poder atestar a morte de Zumbi à Coroa e a todos que viviam em Pernambuco, o governador da capitania, Caetano de Melo e Castro, decidiu enviar mais uma tropa aos mocambos. Em 1695, um habitante de Palmares que havia sido capturado anteriormente foi coagido a ajudar os homens a serviço da Coroa, e informou onde Zumbi estava escondido. Em uma emboscada, o líder palmarino foi capturado e morto. Sua cabeça foi exposta em Recife, para que todos soubessem – principalmente os escravos – que o refúgio de Palmares estava definitivamente destruído.

Quase todos os historiadores posteriores adotaram esses marcos cronológicos, mas quantos outros episódios importantes ficaram de fora da história contada pelos vencedores? Em 1678, após a expedição comandada por Fernão Carrilho, Gana Zumba decidiu enviar representantes seus para negociar um tratado de paz com o governo de Pernambuco. Sua embaixada era formada por 11 pessoas, entre elas seus filhos e importantes líderes militares. Em Recife, a comitiva de Gana Zumba foi recebida com a pompa e a circunstância dignas de uma negociação entre chefes de Estado. Cartas e presentes foram trocados entre os governantes de Palmares e de Pernambuco.

Gana Zumba aguardou em Palmares os resultados das negociações. O governador de Pernambuco desejava que os mocambos fossem esvaziados e os escravos que lá viviam fossem devolvidos a seus senhores. Já Gana Zumba esperava que os palmarinos pudessem escolher um novo local para viver e que os nascidos nos mocambos fossem considerados livres.

As condições foram acertadas entre as partes, e os habitantes de Palmares, liderados por Gana Zumba, mudaram-se para um local chamado Cucaú. Porém uma parte dos palmarinos foi contra o acordo. Liderados por Zumbi, decidiram permanecer nos antigos mocambos e resistir aos ataques das novas expedições. Outras tentativas de acordo de paz foram feitas com Zumbi, mas nenhuma obteve sucesso. Algum tempo depois da mudança para Cucaú, Gana Zumba morreu, provavelmente assassinado por seus opositores políticos. A nova povoação foi então desfeita. Alguns retornaram a Palmares e outros foram feitos escravos pelos senhores locais, sendo vendidos para fora de Pernambuco.

O acordo feito em 1678 comprova que os habitantes de Palmares estavam organizados politicamente e que seu governo, com base em conhecimentos acumulados na África e na América, soube conduzir uma negociação com os representantes da Coroa portuguesa. A destruição de Palmares apaga uma história de mais de meio século de organização social e resistência política.

*Laura Perazza Mendes Nascimentoé autora da dissertação “O serviço de armas nas guerras contra Palmares: expedições, soldados e mercês” (Unicamp, 2013).

SAIBA MAIS
GOMES, Flávio dos Santos. Palmares: escravidão e liberdade no Atlântico Sul. São Paulo: Contexto, 2005.
GOMES, Flávio dos Santos Gomes (org.). Mocambos de Palmares: histórias e fontes (séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: 7Letras, 2010.

Dias de Branco e Dia de Preto





Dias de Branco

Por Jonathan de Oliveira Mendonça

Hoje é dia de branco
aplicar a medicina
Hoje é dia de branco
comprar em loja granfina
Hoje é dia de branco
estar na universidade
Hoje é dia de branco
da Zona rica da cidade
Hoje é dia de branco
virar juiz, advogado
Hoje é dia de branco
rei de latifúndio e gado
Hoje é dia de branco
lucrar com o agronegócio
Hoje é dia de branco
ter o governo de sócio
Hoje é dia de branco
do ramo imobiliário
Hoje é dia de branco
fazer o povo de otário
Hoje é dia de branco
ter um salto financeiro
Hoje é dia de branco
jogar avião de dinheiro
Hoje é consciência negra
- Que papo é esse bacana?
Não tem que ter dia de preto
Mas de consciência humana - 



Hoje é dia de branco...


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Anita Prestes falando no programa "Faixa Livre"

Programa Faixa Livre - 17/11/2015

Paulo Passarinho - Apresentador
Anita Leocadia Prestes - Professor da UFRJ
Tema: Livro dela sobre Luiz Carlos Prestes

OUÇA A ENTREVISTA CLICANDO NO LINK ABAIXO:
https://soundcloud.com/programafaixalivre/fl-17112015_3-anita-leocadia-prestes-tema-livro-dela-sobre-luis-carlos-prestes?in=programafaixalivre/sets/2015-11_17-programa-faixa-livre




Anita Prestes em Garanhuns/PE: Palestra e lançamento do livro "Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro"

Palestra: "Os 80 anos da insurreição de 1935"
Palestrante: Anita Leocadia Prestes (Doutora em História Social pela UFF, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes - www.ilcp.org.br)
Lançamento do livro: Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (Boitempo Editorial)
Local: Centro de Convenções do Garanhuns Palace Hotel.
Dia: 26 (quinta-feira) de novembro de 2015.
Horário: 19:30 horas.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Na eleição argentina, encruzilhada da América do Sul

Por Atílio Boron*

 Não necessariamente os setores populares que melhoraram sua situação sócio-econômica e cultural graças à ação dos governos progressistas e de esquerda os recompensarão com seu voto, e na Argentina do primeiro turno presidencial isso foi perceptível.







O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais na Argentina, no dia 25 de outubro, não foi um raio em dia sereno. Um difuso mas penetrante mal estar social já vinha se instalando na sociedade, em meio à crise geral do capitalismo, devido às restrições econômicas impostas à Argentina com o esgotamento do boom das commodities, e à tenaz ofensiva midiática para desestabilizar o governo. Era apenas questão de tempo para que esta situação se expressasse no terreno eleitoral.


Já nas eleições primárias, realizadas em 9 de agosto, havia um sinal de alerta, mas que não foi percebido e nem analisado pelos apoiadores do governo com o rigor requerido pelas circunstâncias. Prevaleceu uma atitude que, para sermos benévolos, poderíamos qualificar como “negacionista”, em que a autocrítica e a possibilidade de fazer correções  estiveram ausentes. As consequências, estamos hoje lamentando.

Me concentrarei, nesta breve análise, em alguns aspectos mais relacionados com a estratégia e a tática de luta política adotada pela Frente para la Victoria – FpV [coalização formada pelo governo da presidente Cristina Kirchner, em torno do candidato Daniel Scioli) nestes últimos meses.

Deixo para outro momento um balanço da experiência kirchnerista em sua integralidade e com suas múltiplas contradições: renda básica paga segundo número de filhos ("asignación universal por hijo") e concentração empresarial; extensão do regime de aposentaria e regressão tributária; desenvolvimento científico e tecnológico (ARSAT I e II – satélites argentinos) e a substituição dos cultivos tradicionais pelo plantio de soja na agricultura; orientação latinoamericanista da política externa e a “estrangeirização” da economia. Já disse coisas a este respeito no passado e não vem ao caso reiterá-las nesta ocasião. Voltarei à este tema em textos futuros, sem a pressão do momento atual.

Tampouco vou me referir, por exemplo, a questões que remetem a um arco temporal que transcenda a atual conjuntura eleitoral, como, por exemplo, a chamativa incapacidade para construir um sujeito político e fazer do movimento “Unidos y Organizados” uma verdadeira força plural e frentista e não uma concha vazia cuja única missão foi apoiar, sem nenhuma eficácia prática, as medidas do governo.

Ou mesmo a assombrosa incapacidade de preparar, ao final de doze anos de governo, uma liderança de mudança que não fosse Daniel Scioli, um político nascido nas entranhas do menemismo. Ou a atitude suicida, mantida até há poucos meses, de desqualificar e até ridicularizar aquele que, ao final, era o único candidato com o qual contava o kirchnerismo para enfrentar a arriscada sucessão presidencial. Ou seja, atacou-se um personagem contra a qual não se poupou nenhum tipo de ofensa ou humilhação, sem que se percebesse, na alegre ofuscação dos cortesãos do poder, que ele era a única carta que contavam e que pouco depois teriam de vergonhosamente grudar-se a ele, numa tentativa desesperada de “salvar o projeto”. Deixo para a imaginação dos leitores a qualificação desta atitude.

Mais recentemente cometeram-se vários erros de estratégia política com projeções incalculáveis: para começar, a decisão de não apoiar Martín Lousteau no segundo turno da eleição municipal de Buenos Aires contra Horacio Rodríguez Larreta, o pupilo daquele que hoje aparece como o provável carrasco do kirchnerismo. Se Lousteau tivesse sido apoiado, deixando de lado um fundamentalismo absurdo, os partidários conservdores do candidato presidencial Maurício Macri teriam perdido a cidade de Buenos Aires e a própria candidatura de seu líder estaria muito enfraquecida.

Essa cegueira da FpV, da qual participaram desde a Casa Rosada até o último militante, foi uma benção para a direita já que a permitiu nada menos do que conservar sob seu poder a cidade de Buenos Aires e salvar sua principal lança política. Poucos casos de miopia política podem se igualar a este. 

Mas a corrida de erros não parou por ai. Com a intenção de garantir a pureza ideológica da fórmula kirchnerista, e diante da desconfiança suscitada pelo candidato governista Daniel Scioli, e sua sinuosa trajetória política, não houve melhor ideia que a de propor Carlos Zannini como candidato a vice-presidente. A preferência pelo secretario legal e técnico da Presidência configurou uma “fórmula kirchnerista pura”, boa para apaziguar a ansiedade dos próprios militantes, mas absolutamente incapaz de captar um único voto fora do universo político do kirchnerismo.

Esta decisão passou longe de tudo o que ensinam os manuais da sociologia eleitoral, que dizem que para se obter uma maioria é preciso apresentar uma proposta política capaz de atrair a vontade não apenas dos já convencidos – o núcleo duro de uma força partidária – mas também daqueles que podem ser atraídos por outras razões: rejeição às forças anti-kirchneristas, cálculo oportunista ou tendência de “votar no vencedor”, entre muitas outras. Mas a chapa Scioli-Zannini fechava todas estas portas, como se comprovou no dia das eleições e era incapaz de evitar o temido segundo turno.

Antes ainda, agrega-se outro erro inexplicável: a teimosia em propor como candidato a governador da crucial província de Buenos Aires, que com quase 38% dos votos nacionais é a mãe de todas as batalhas políticas na Argentina, o chefe da Casa Civil da Presidência, Aníbal Fernández. Este foi vítima de uma tenaz e imoral campanha de desprestígio que o converteu no personagem com a maior imagem negativa da província. Apesar disso insistiu-se numa candidatura que apenas representava os próprios governistas e que perdia completamente de vista o complexo panorama eleitoral da província.

O resultado foi uma derrota final pelas mãos de uma candidata opositora, María Eugenia Vidal, que carecia de experiência neste distrito já que havia sido durante os últimos oito anos vice-chefa de governo da cidade de Buenos Aires, acompanhando Maurício Macri.

É justo reconhecer que nesta derrota existem responsabilidades concorrentes: a má imagem de Aníbal se encontrou com a pobre gestão de Scioli na província. Se esta tivesse sido um pouco melhor, Vidal não teria alcançado o governo. Por exemplo, se no lugar de dotar a província com os tão publicizados 85 mil novos policiais Scioli tivesse designado um valor igual de novos professores, certamente haveria outro resultado. De todas as formas, é difícil entender as razões de tão perniciosa e custosa teimosia de se manter a candidatura de Aníbal Fernández nestas circunstâncias.

Por último, nesta breve história, outro erro foi a decisão de fazer com que Scioli se desdobrasse para ser o mais parecido possível com Cristina em sua campanha, cujo eixo central foi a árdua defesa da gestão presidencial, sem nenhuma projeção ao futuro. Contra aqueles que propunham como slogan a mudança – daí o nome da alinça direitista: “Mudemos” -, Scioli aparecia como um político triste e titubeante, na defensiva, e historicamente maltratado pela presidenta e seu entorno.

Debilitado pelas críticas vindas da Casa Rosada, do movimento La Cámpora, da Carta Abierta, e com um livreto que o condenava a posicionar-se como um fiel defensor do “projeto”, sem a menor possibilidade de alusão a tudo o que faltava fazer no mesmo, como uma reforma tributária integral, a estatização do comércio exterior e a implementação de uma política heterodoxa anti-inflacionária que evitasse que se espremesse uma parte nada desdenhável do numeroso investimento social do governo de Cristina Fernández. Os resultados estão à vista.

Haveria outras questões a apontar, como a não presença nos debates com os outros candidatos presidenciais, e o anuncio oportunista, feito em cima da hora, de duplicar a faixa de salários isenta de impostos, algo que o governo deveria ter feito há muito tempo. Em todo caso, parece que algumas mudanças ocorridas na estrutura social argentina e no clima cultural imperante no país, fortemente impulsionados pelo terrorismo midiático lançado pela direita; mudanças produzidas precisamente pelas políticas de inclusão social do governo de Cristina Fernández, não operaram na direção de dar maior sustentabilidade ao projeto. Ao contrário, reproduziu-se a tendências já observada em países como Brasil, Bolívia, Equador e Venezuela: ela certamente não haveriam de passar longe da Argentina.

Não necessariamente os setores populares que melhoraram sua situação sócio-econômica e cultural graças à ação dos governos progressistas e de esquerda os recompensarão com seu voto, e na Argentina do dia 25/10 isso foi perceptível. Há tempos que advertimos que, diante da ausência de uma trabalho sistemático de conscientização e de formação ideológica – a célebre “batalha das ideias” de Fidel – a explosão do consumo não cria hegemonia política — ao contrário, termina engrossando as fileiras dos partidos de direita.
Dito isto, reverter o que ocorreu no primeiro turno desta eleição aparece como algo bastante difícil mas não impossível. Deve-se tentar, para evitar que a Argentina seja a ponta de lança de um processo que, agora sim, poderia ser o início do “fim do ciclo” progressista na região, algo que até poucos dias parecia improvável.

Se o candidato kirchnerista for derrotado no segundo turno, [marcado para 22/11], será a primeira vez que um governo progressista ou de esquerda é vencido nas urnas desde a vitória inaugural de Hugo Chávez, em dezembro de 1998. Até agora, todos estes governos foram ratificados nas urnas e seria lamentável que a Argentina rompesse com esta tendência positiva. Temos uma resposibilidade regional da qual não podemos nos esquivar: uma vitória de Macri seria uma golpe mortal para a União de Nações da América do Sul (Unasul), a Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe (Celac) e até mesmo o Mercosul.

Além disso, a Argentina se realinharia incondicionalmente ao império e este, por sua vez, redobraria sua ofensiva contra os governos bolivarianos, cada vez mais privados de apoios externos.

Como latino-americano e marxista não posso ser indiferente ante a ameaça que representa um eventual governo de Macri, que se uniria imediamente à Álvaro Uribe, José M. Aznar e seus mentores norte-americanos em sua persistente cruzada para erradicar da face da terra o chavismo, os governos de Evo e Correa e para promover uma “mudança de regime” em Cuba. Quer dizer, para liquidar definitivamente todo rastro de anti-imperialismo na América Latina.

Ninguém genuinamente situado na esquerda política poderia contemplar distraidamente esta possibilidade sem empenhar-se em enfrentá-la com todas as forças. Desgraçadamente, chegado a este ponto, não temos melhores opções que apoiar a FpV para espantar o risco de um mal maior, sabendo, contudo, que se lograrmos triunfar neste empenho teremos a tarefa de imediatamente construir uma verdadeira alternativa política de esquerda — porque o kirchnerismo, com seus acertos, seus erros e suas limitações ideológicas, não é e nem pode ser esta alternativa.

Scioli conseguirá vencer seu adversário no segundo turno? Dependerá de como desenhe sua estratégia de campanha. Os dois debates com Macri podem ser a chave do triunfo, se for capaz de passar à ofensiva e demonstrar que por trás da vagueza discursiva de seu oponente esconde-se um brutal programa de “ajuste”. Mas isso não será suficiente.

Scioli terá também que deixar de circunscrever seu discurso à defesa da obra do kirchnerismo (algo para o qual a presidenta Cristina Fernández não precisa de ajuda, porque o faz infinitamente melhor que ele); definir novas prioridades e sair com propostas concretas em matéria econômica, social, cultural e internacional que lhe permitam persuadir a opinião pública de que ele será o presidente que começará a fazer tudo aquilo que o kirchnerismo, em outros momentos, reconhecia que ainda restavam para ser feito e que não fez.

E que diga com convicção, sem pedir permissão de ninguém e nem esperar cumprimentos afetuosos da Casa Rosada. É uma tarefa difícil, mas não impossível. À sua frente não está um De Gaulle, ou um Churchill, mas um insosso produto de um marketing político astuto, apoiado no aparato publicitário da direita imperial. Repito: é difícil, mas está longe de ser impossível. Espero que se dê bem porque, apesar de alguns se empenharem em negar, neste segundo turno também está em jogo o futuro dos processos emancipatórios e das lutas anti-imperialistas na América Latina.

*Atílio Boron é sociólogo e jornalista argentino, com doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard. É autor de diversos livros de orientação marxista com um compromisso claro com o socialismo na América Latina.

**Tradução Akira Pinto Medeiros, para o Outras Palavras.


Unesp lança "Lenin: teoria e prática revolucionária"

Livro da Oficina Universitária da FFC está disponível para download gratuito


O livro "Lenin: teoria e prática revolucionária", que acaba de ser publicado pela Oficina Universitária, selo do Laboratório Editorial da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, Câmpus de Marília é o resultado de um esforço coletivo que teve início com o "VI Seminário Internacional Teoria Política do Socialismo - Lenin 90 anos depois: política, filosofia e revolução" realizado em 2014.

Disponível para consulta e download gratuito, em PDF, a obra é organizada pelos docentes Anderson Deo, Antonio Carlos Mazzeo e Marcos Del Roio. No site da Oficina Universitária também é possível solicitar a impressão do livro por demanda e consultar outros títulos do selo.

Sobre o livro

A iniciativa para organização do evento partiu do Grupo de Pesquisa Núcleo de Estudos de Ontologia Marxiana - Trabalho, Sociabilidade e Emancipação Humana (NEOM), do Grupo de Pesquisa Cultura e Política do Mundo do Trabalho, do Instituto Caio Prado Júnior, do Instituto Astrojildo Pereira e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unesp de Marília.

Os capítulos que compõem a obra resultam das comunicações e debates ministrados pelos conferencistas durante esse seminário, realizado no ano que marca a efeméride do nonagésimo aniversário da morte de Lenin. O livro é uma importante iniciativa para o resgate e difusão da problemática teórica e prática proposta por Lenin, sobretudo entre as novas gerações, e traz um prefácio de Miguel Vedda, professor titular regular de Literatura Alemã, da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, e membro do conselho editorial da revista Herramienta.

- Clique aqui para fazer o download de "Lenin: teoria e prática revolucionária"

 Lenin: teoria e prática revolucionária
Assunto: Ciências Sociais
Organizadores: Anderson Deo; Antonio Carlos Mazzeo & Marcos Del Roio
ISBN: 978-85-7983-680-0
Páginas: 418
Ano: 2015


domingo, 15 de novembro de 2015

Estado Islâmico surgiu da invasão do Iraque pelos EUA, diz autor americano




O que está na origem do surgimento do Estado Islâmico (EI) não é a religião muçulmana, mas questões políticas relacionadas ao histórico ocidental colonialista, ao apoio dos EUA a regimes autocráticos no Oriente Médio e à invasão americana do Iraque, avalia o professor de religião Todd Green, que acaba de lançar o livro The Fear of Islam: An Introduction to Islamophobia in the West(O Medo do Islam: Uma Introdução à Islamofobia no Ocidente).
“Não podemos contar a história do ISIS separada da política externa dos Estados Unidos”, disse ao Estado, usando uma das siglas pelas quais o grupo é conhecido. Segundo ele, a gênese do EI está na invasão do Iraque pelos Estados Unidos, que abriu caminho para o surgimento da Al Qaeda no Iraque, a organização precursora do grupo que hoje controle parte dos territórios daquele país e da Síria.
Professor de religião do Luther College, em Iowa, Green é crítico da ativista Ayaan Hirsi Ali, que nasceu na Somália, foi submetida à mutilação genital e hoje vive nos Estados Unidos. “Ela ignora a história de violência ocidental, incluindo o colonialismo”, afirma. “Ela coloca toda a culpa nos muçulmanos e no islã e há muitos no Ocidente que a adoram por isso.”
A seguir, trechos da entrevista:
O sr. escreveu um artigo no qual disse que perguntar se o Estado Islâmico é islâmico ou não é uma questão equivocada. Por quê?
É uma pergunta simplista e a resposta não é tão relevante como se supõe. O grupo muitas vezes invoca ensinamentos do islã para tentar justificar o que está fazendo. Mas isso não nos diz nada sobre o que realmente motiva o ISIS (outra sigla pela qual o grupo é conhecido).
A presunção por trás da pergunta é a de que se nós entendermos o aspecto religioso, nós entenderemos o que motiva o ISIS e poderemos derrotá-lo. Nós temos o mesmo pressuposto em relação à Al Qaeda.
A maneira mais fácil de complicar essa questão é perguntar como o islã pode produzir o ISIS e, ao mesmo tempo, Malala Yousafzai, a mais recente vencedora do Prêmio Nobel da Paz? Ambos se baseiam no islã como fontes de inspiração. O que o foco no islã realmente nos diz sobre o que move um grupo como ISIS? Há muitas forças mais complicadas, sociais, econômicas e políticas. São as condições políticas que levam à emergência do ISIS.
A pergunta também é problemática porque desvia nossa atenção de uma questão mais perturbadora: qual o papel da política externa dos Estados Unidos em criar as condições que levam ao surgimento do ISIS. Não haveria ISIS se não fosse pela invasão e ocupação do Iraque pelos EUA, que abriu a porta para a Al Qaeda no Iraque, o grupo precursor do ISIS. Não podemos contar a história do ISIS separada da política externa dos Estados Unidos.
A principal força é política?
Sim. E o mesmo ocorre com a Al Qaeda. Quando você lê e estuda os textos de Osama bin-Laden, vê que ele se refere com frequência à Palestina, às tropas americanas, à Arábia Saudita, a intervenções militares americanas, à história do colonialismo americano. Isso não torna o que ele faz correto, da mesma maneira que não justifica os atos do ISIS. Mas se nós queremos explicar como esses grupos emergem, nós precisamos ser honestos em relação às circunstâncias políticas que dão origem a eles.
Uma das histórias interessantes em relação ao ISIS envolve o jornalista francês Didie François, mantido em poder do grupo por cerca de dez meses e libertado há um ano. Quando ele fala de sua experiência, ele diz que quase todas as suas conversas com membros do ISIS eram políticas, não eram religiosas.
Se é uma questão política, qual a melhor maneira de enfrentá-la?
Se vemos como um problema político, nós focamos em soluções políticas. Mas se vemos como um problema do islã, a resposta é a de que essa é uma questão que os próprios muçulmanos devem resolver. Os Estados Unidos tendem a ignorar essas realidades políticas. Se você lê o relatório da Comissão do 11 de Setembro, a conclusão final sobre por que ele ocorreu está relacionada ao islã, a um problema interno do mundo islâmico. Não há nenhuma reflexão naquele documento sobre o papel desempenhado pelos Estados Unidos, incluindo nosso apoio a regimes autocráticos e terríveis, que é amplamente conhecido no Oriente Médio.
E o conflito Israel-Palestina?
Até que haja uma boa solução para esse conflito sempre haverá tensões. Mas não vejo vontade política suficientes nos Estados Unidos para fazer o que é necessário para resolvê-lo. O apoio a Israel ainda é pouco questionado na elite política.
Qual é sua resposta para Ayaan Hirsi Ali (que nasceu na Somália e hoje vive nos EUA), para quem a violência do Estado Islâmico e de outros grupos extremistas tem raízes no islã e há uma necessidade de reformá-lo?
No meu livro eu falo bastante de Ayaan Hirsi Ali. Ela é uma ex-muçulmana que usa seu status de iniciada para criticar o islã. Sua audiência não são os muçulmanos. Sua audiência é o Ocidente. Mas quando examinamos seus argumentos, eles se desmontam rapidamente. Em primeiro lugar, houve vários movimentos de reforma do islã, principalmente a partir do século 19. Em segundo lugar, a ideia de que a violência é conectada de maneira orgânica ao islã pressupõe que 1,6 bilhão de pessoas no mundo interpretam os textos e tradições do islã da mesma maneira, o que não é verdade. Na última década, três vencedores do Prêmio Nobel da Paz eram muçulmanos. O Corão tem passagens que encorajam atos de violência ou guerra justificada, mas encontramos isso na Bíblia também.
Minha maior crítica em relação a Hirsi Ali é que ela ignora a história de violência ocidental, incluindo o colonialismo. Ela ignora a predominância do racismo na história do Ocidente. Ela coloca toda a culpa nos muçulmanos e no islã e há muitos no Ocidente que a adoram por isso.
Eu trato da questão da violência do islã no meu livro, mas também abordo a questão da violência ocidental. A percepção de muitos políticos e de pessoas como Ayaan Hirsi Ali é a de que o islã equivale à violência e o Ocidente, à paz. O Ocidente tem uma história de escravidão, de exploração de populações nativas e algumas tentativas de genocídio. Nós torturamos, e não apenas na guerra ao terror. Isso é violência e é parte da percepção que as pessoas têm dos Estados Unidos em outras regiões. Mas nós não falamos disso. Nós falamos do islã e a violência.
E qual é a solução?
É necessário ter uma significativa reavaliação da política externa no Ocidente, em especial nos Estados Unidos. Nós temos um histórico muito ruim quando se trata de apoiar democracias no Oriente Médio. Nós favorecemos muitos regimes autocráticos em razão da estabilidade que eles nos oferecem.
Em casa, nós temos que construir mais relações entre muçulmanos e não-muçulmanos. Nos Estados Unidos quase dois terços da população diz que não ter uma relação pessoal com alguém que é muçulmano. Quando você não conhece um muçulmano, é fácil permitir que toda a sorte de desinformação preencha esse vácuo. Mas quando tem amigos, vizinhos e colegas de trabalho que são muçulmanos é mais fácil contextualizar a situação diante do ISIS. Outra questão é a educação. Nós não sabemos o suficiente sobre o islã.
O fracasso da Primavera Árabe acaba justificando essa visão mais realista e pragmática da política externa americana, não?
Certamente há muita desilusão com a Primavera Árabe. Mas seu fracasso não decorre do fato de a maioria da população não querer a democracia, mas sim do enraizamento desses regimes autocráticos no Oriente Médio e da ambivalência do Ocidente em relação a quem apoiar na região. No começo da Primavera Árabe no Egito, a administração Obama estava fortemente ao lado de (Hosni) Mubarak, que era um clássico ditador, com um histórico horrível na área de direitos humanos. Hillary Clinton o chamava de amigo da família. Só dias antes de ele deixar o poder é que os Estados Unidos começaram a adotar um tom diferente.
Quando olhamos para pesquisas Gallup, nós vemos que há uma grande parcela da população no Oriente Médio que quer democracia. Isso para mim é promissor. Mas regimes autocráticos enraizados não desaparecem facilmente.
Como o sr. define islamofobia?
Minha definição básica é o medo, hostilidade e ódio em relação aos muçulmanos e ao islamismo e as práticas discriminatórias e excludentes que decorrem disso. E um sentimento enraizado na mentalidade de muitos governos e nações ocidentais, onde essas ansiedades são proeminentes em amplos segmentos da população. Há uma longa história, que remonta à Idade Média e obviamente vem até o Século 21. Não é um medo novo, ainda que algumas das forças que o movam hoje sejam um pouco distintas do que eram 500 ou 600 anos atrás.
E quais são essa forças?
Eu atribuo a atual islamofobia a três forças. A primeira é política. Há uma longa história de imperialismo ocidental que constrói os muçulmanos como o inimigo. Em parte pela percepção de que muçulmanos ficam no caminho de ambições imperialistas, seja no choque com o Império Otomano no século 16, no colonialismo europeu do início do Século 20 ou no imperialismo americano do século 21. Os muçulmanos são percebidos como um grande obstáculo e frequentemente são desumanizados.
As outras duas causas são a falta de conhecimento que muitos ocidentais têm em relação ao islã. Muito poucas pessoas nos Estados Unidos ou na Europa realmente sabem alguma coisa sobre tradições e história islâmicas. A maioria do que pensamos que sabemos vem principalmente da mídia, que tende a associar o islã à violência e ao terrorismo.
Ou vêm de pessoas dedicas a produzir medo, como Pamela Geller. É o que chamo no meu livro de indústria da islamofobia. Isso cria um vácuo de ignorância que faz com que seja mais difícil ver os muçulmanos como humanos, como pessoas que compartilham muitos dos valores, esperanças e medos que nós temos.
Qual o papel de Pamela Geller nessa indústria?
Às vezes me refiro a isso como islamofobia profissional. Quase sempre são ativistas ou blogueiros de direita, às vezes políticos na Europa e nos Estados Unidos, que ganham a vida demonizando e desumanizando muçulmanos. Nós não saberíamos quem eles são além de sua devoção a esse empreendimento. Não é um grupo de pessoas que ocasionalmente critica o islã. São pessoas que se beneficiam financeira e politicamente do esforço de demonizar muçulmanos.
O atentado contra a revista Charlie Hebdo na França e a tentativa de atacar o concurso de caricaturas de Maomé no Texas facilita a vida dos que promovem a islamofobia, não?
É difícil não concluir que isso impulsiona a carreira de alguém como Pamela Geller. Eu acredito que ela explora esse tipo de tragédias. O concurso de caricaturas de Maomé no Texas era uma resposta ao tiroteio contra a Charlie Hebdo em Paris. De muitas maneiras, o evento era uma exploração da grande tragédia que ocorreu.
Como o sr. compara os dois episódios? Geller apresentou o seu evento como uma defesa da liberdade de expressão.
Eu não acredito que nenhum dos eventos deve ser tratado como uma questão de liberdade de expressão. Certamente não acredito que esse é o tipo de discussão que deveríamos ter em relação ao evento de Geller. Não era sobre liberdade de expressão. Geller gostaria que falássemos de que isso é um conflito entre a proibição da liberdade de expressão do islã. Mas não é sobre isso. É sobre ódio e é sobre isso que deveríamos falar em relação a Geller.
No caso do Charlie Hebdo é um pouco mais complicado porque a revista se dedica à sátira e ela não é dirigida apenas contra muçulmanos. Tenho uma série de críticas em relação à Charlie Hebdo e tenho uma divergência fundamental quanto à definição do que é sátira. E não penso que tudo o que eles fazem é sátira. Mas eles não criticam apenas muçulmanos, enquanto Geller só ataca muçulmanos.
Se o que Charlie Hebdo faz não é sátira, o que é?
É humor ruim. Não sei nem se humor é a palavra correta. Certamente é comentário político, mas minha definição, sátira tem por alvo pessoas em posição de poder ou privilégio. E os muçulmanos na França e no restante da Europa não estão em posição de poder e privilégio. Eles integram comunidades marginalizadas, não têm muitos líderes proeminentes e tendem a não ter voz. Focar uma comunidade que já é marginalizada fica fora do propósito da sátira política. Sátira é realmente sátira quando atinge aqueles que estão em posição de poder e privilégio.

A Charge Explica Tudo...

A Explosiva Política Externa de François Hollande


“A luta de classes nunca tirou férias neste país”, afirma o professor da UFRJ José Paulo Netto

Em entrevista ao Brasil de Fato e aos Jornalistas Livres, o pesquisador e professor da UFRJ, José Paulo Netto, analisa as recentes manifestações de ódio contra determinados setores da sociedade a partir da formação social e da cultura política brasileira.

Por Camilla Hoshino e Leandro Taques,
De Veranópolis (RS)

Manifestações de ódio, racismo, declarações machistas e ameaças verbais e físicas contra lideranças da esquerda têm sido constantes no último período no país. Segundo o professor José Paulo Netto, essas atitudes têm relação com a tentativa das classes dominantes de “afastar a massa do povo dos centros de decisão política”.  
José Paulo Netto é doutor em serviço social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi vice-diretor da Escola de Serviço Social da UFRJ e do seu Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, tendo título de professor emérito na instituição. Tradutor e organizador de textos de autores clássicos como Marx, Engels, Lênin e Lukács, em que se destaca como grande especialista, produziu obras teóricas e políticas sobre o capitalismo, serviço social e marxismo. É membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e atua em parceria com movimentos sociais, como o MST.  
Em entrevista ao Brasil de Fato e aos Jornalistas Livres, ele  faz uma análise das classes dominantes a partir da formação social brasileira, fala sobre o quadro político atual no país e sobre como atuam as elites em face da crise do capitalismo contemporâneo.
Para Netto, é justamente em momentos de tensões políticas e econômicas que “todo esse porão da sociedade brasileira, com um forte sentimento antipovo, antipopular, antimassa, racista e discriminador, vem à tona”.
Brasil de Fato - Estamos presenciando a todo o momento ataques da direita brasileira que deixam explícitos o preconceito, o racismo e o sentimento de ódio contra determinados setores da sociedade. Como a nossa formação social pode nos ajudar a compreender essas atitudes? 
José Paulo Netto - Se analisarmos com cuidado a história brasileira, vamos encontrar algumas constantes que são traços constitutivos da nossa formação social e que, portanto, são elementos constitutivos da cultura política brasileira. Um traço muito visível de meados do século XIX em diante tem sido a capacidade das franjas das camadas mais ativas das classes dominantes em afastar a massa do povo dos centros de decisão política. Mesmo quando tivemos, ao longo do século XX, momentos de institucionalização mais ampla da participação política, tivemos elementos, mecanismos, meios e modos que constrangeram ou limitaram essa participação política a processos adjetivos. Costumo dizer que tivemos no Brasil um processo tardio, lento, desigual e sinuoso de socialização da política.
Isso ganhou certa magnitude com a derrota da ditadura instaurada em 1964. A constituição de 1988 consagrou direitos políticos essenciais, abriu caminho para se repensar direitos civis e, sobretudo, ampliou o leque dos direitos sociais no país. Com todas as desigualdades e assimetrias, creio que se pode dizer que no pós-1988 tivemos formalmente a institucionalização da cidadania moderna no Brasil. Entretanto, se observarmos o processo de luta contra a ditadura, de crise da ditadura e de transição democrática no Brasil, teremos a clara percepção dessa capacidade das franjas mais ativas das classes dominantes de encontrar meios de excluir a massa do povo de processos decisórios. Tivemos um processo de socialização da política, mas nem de longe um processo de socialização do poder político. Isso tem relação com o que eu chamo de linhas de continuidade na nossa história.
O senhor pode citar alguns exemplos disso? 
O Brasil foi um país escravocrata. Em 1888 tivemos uma abolição inteiramente formal, em que não se criou nenhuma pré-condição para que o liberto pudesse construir sua vida autonomamente. Da noite para o dia foram libertos, mas sem ter terra, sem ter nada. Esta cultura escravocrata não desapareceu. Há exemplos recentes. As camadas médias (não necessariamente camadas oligárquicas) reagiram negativamente em face da legislação acerca do trabalho doméstico. Poderíamos citar outros exemplos como o acesso à universidade, historicamente elitista. É só observar a dimensão das nossas universidades e a população em condições etária e formal de ingressar ali.
Deste modo, podemos perceber que a sociedade foi construída para que muito poucos usufruíssem dos direitos formais que ela veio (bem ou mal) escrevendo no seu ordenamento jurídico-político. Em momentos de crise ou em momentos de tensão, em que se agudiza abertamente a luta de classes (para utilizar um jargão da esquerda), todo esse porão da sociedade brasileira, com um forte sentimento antipovo, antipopular, antimassa, racista e discriminador, vem à tona. O processo de transição da ditadura fez com que amplos setores tivessem vergonha do seu conservadorismo. Mas isso acabou.
Qual foi o impacto do PT na mudança dessa atmosfera política? 
Eu diria que o PT teve um papel duplo. Pensando no PT como força de governo, a partir de janeiro de 2003, foram tomadas providências de caráter emergencial, mas que foram apresentadas como políticas duradouras de Estado e que beneficiaram objetivamente a massa mais pobre. Isso foi muito positivo. Ao mesmo tempo, isso foi feito no marco de uma orientação macroeconômica que privilegiou os grupos financeiros do país, que não restringiu em absoluto a fome lucrativa dos monopólios nacionais e internacionais. Isso criou uma situação paradoxal que pode ser observada ao cabo do mandato do Lula. Mas as elites jamais suportaram o significado simbólico de ter um trabalhador que tomava cachaça e falava errado na Presidência da RepúblicaO efeito PT (quando Lula se elege) é enorme do ponto de vista simbólico. Enfim um sujeito aparentemente igual à maioria da população chega lá.
“Marolinha”
Lula elege sua sucessora no marco de uma crise econômica internacional gravíssima, a qual ele caracterizou como uma “marolinha”.  Só que os efeitos daquela crise rebateram na periferia de formas distintas. Sob o governo dele, uma orientação macroeconômica conseguiu driblar bem esses efeitos. A articulação de economia política que funcionou nos dois governos dele não funcionou no governo Dilma. Não foi por incompetência da equipe gestora. Houve sim falhas técnicas, mas elas não são as mais importantes. Mas é que a “marolinha” virou um “tsunami”. Neste momento, aqueles mesmos grupos que foram altamente beneficiados no governo Lula põem para fora todo o seu preconceito de classe que vem acompanhado de manifestações de ódio de classe, de marcas racistas e, sobretudo, de uma entrada em cena, sem qualquer tipo de maquiagem, do velho elitismo brasileiro. Penso que este é o quadro em que estamos vivendo hoje.
Como este elitismo se expressa? 
Penso que o processo eleitoral mostrou isso com clareza. Tivemos uma vitória eleitoral democrática que mostrou uma sociedade dividida. Não ponho em dúvida a legitimidade de vitória de Dilma. Mas não há duvida nenhuma que há uma legitimidade expressa eleitoralmente muito estreita em termos de maioria e que, portanto, é muito vulnerável. Exatamente sobre esta vulnerabilidade atuam as elites. Também operam através de uma mídia historicamente oficialista e porta voz de tudo aquilo que atravanca a conquista, a realização e a ampliação de direitos.
De 1888 a 2015, quando se tem uma crise (não no sentido de possibilidade de quebra do regime, mas uma crise financeira do Estado), se não há orientações claras e políticas claras em face desta dificuldade, o momento se torna ideal para que os segmentos mais retrógrados se apresentem como são. Temos uma composição do legislativo que me parece a mais anódina e amorfa dos últimos trinta anos e, portanto, facilmente catalisada com propostas de oportunismo meramente eleitoral. Os que querem desestabilizar tem um prato feito. Não sei como vai se desdobrar esse processo governativo, mas tenho a impressão de que a presidente Dilma vai travar uma guerrilha diária. Não se satisfaz a fome de leão do PMDB com alface.
O senhor utilizou os termos “luta de classes”, “ preconceito de classe” e  “ódio de classe”. Com toda a complexidade da divisão socioeconômica e das ramificações do trabalho na nossa sociedade, ainda podemos falar em classes sociais?
Não tenho a menor dúvida. Classe social é uma categoria teórica que expressa elementos fundamentais da realidade em uma sociedade como a nossa. A sociedade brasileira tem hoje uma estrutura de classes muito complexa e eu desconheço qualquer estudo rigoroso e sério sobre isso. Não estou falando daqueles estudos publicitários que separam a nossa sociedade em classes A, B, C, D, etc., mas de estudos que tragam relações com os meios de produção e com a consciência de um projeto político. A luta de classes nunca tirou férias neste país. Ela esteve latente ou expressa ao longo desses últimos doze anos em manifestações referentes a determinados projetos de políticas públicas e em como fazer a orientação macroeconômica. Isso foi uma luta que atravessou o governo Fernando Henrique, o governo Lula e atravessa o governo Dilma. O que temos agora é uma emersão clara das posições de classe.
E como é possível mediar essas tensões?
Eu percebo um dilaceramento do tecido social brasileiro do ponto de vista político. O que é preocupante, porque não estão em jogo projetos políticos, mas projetos de nação. Que sociedade nós queremos? Nós queremos uma sociedade onde quem tem orientação diferente é objeto de espancamento e onde o dissenso político é resolvido com ameaças físicas? Vivemos uma conjuntura internacional difícil, com ajustamento na divisão internacional do trabalho. Nós vamos nos inserir nisso de maneira subalterna ou soberana? Temos que vir a público para determinar com clareza que tipo de sociedade nós queremos e para chegar lá são possíveis vários meios.
Estamos com problemas que não vieram do governo Dilma, do governo Lula ou do governo Fernando Henrique. Eles vêm da nossa transição interrompida. Eu espero que tenhamos firmeza de princípios e sabedoria para resolvê-los sem romper um pacto civilizatório que fizemos pelos menos em 1988 e que, na minha opinião, está ameaçado por expressões de preconceito e ódio de classe. Não podemos repetir experiências traumáticas do passado, cujos resultados foram desastrosos para a massa do povo brasileiro, ainda que tenham sido excelentes para as suas elites.
Nesse sentido, penso que temos que olhar a política brasileira para além das expressões institucionais abastardadas, onde se troca ministério por voto no Congresso Nacional. Isto não é o Brasil. Isto é a expressão institucional da política brasileira. A política brasileira está nas universidades, nas fábricas, nas usinas, nos escritórios, no comércio e nas ruas.
O senhor é um grande especialista da obra de Marx, um nome que causa arrepio nas elites e nos setores mais conservadores da sociedade. Os intelectuais que se utilizam deste referencial teórico tem sido acusados de promover “doutrinação ideológica” nas universidades.  O que o senhor pensa disso? É possível resgatarmos Marx para analisar a sociedade contemporânea?
Uma das coisas que mais tem me divertido na exposição do pensamento da direita brasileira (se é que ela pensa) é imaginar que os comunistas estão no poder. Isso é coisa do Olavo de Carvalho, não é? É uma calúnia contra o PT e contra os comunistas, mas deixemos isso de lado. Primeiro, eu diria que no universo cultural, resultado de experiências históricas e da batalha de ideias sob a hegemonia burguesa, o marxismo andou muito desprestigiado e muito desacreditado. No final da década de 1990 houve um acantonamento do pensamento marxista. Isso mudou nos últimos dez anos na universidade e fora dela. Houve um interesse renovado pelas ideias de Marx, não apenas no Brasil. Segundo, eu acho que Marx é um incômodo contemporâneo para nós. Essa crise sistêmica que o capitalismo está experimentando (pelo menos desde o início do século) está trazendo a discussão sobre uma série de projeções que Marx fez. Ele é extremamente atual. É impossível tentar compreender com seriedade as mutações econômicas dos últimos 30,40 anos sem Marx.
Socialismo 
Não há solução para a crise do capitalismo. Ela é global não no sentido do globo, mas por ser uma crise ética, política, econômica e ecológica. O padrão de civilização capitalista se exauriu. Não adianta dar carros para todo mundo, pois não haverá lugar para jogá-los fora. Nós não podemos continuar nessas cidades que crescem loucamente sem nenhum planejamento. O capitalismo só tem a oferecer mais insegurança, mais instabilidade e mais violência. Nesse sentido, esgotado o capitalismo, a única alternativa para ele é o socialismo. Não posso ser original: “Ou o socialismo ou a barbárie”. E a barbárie já está aí pertinho. Sob esse aspecto, o socialismo é extremamente atual. Agora a questão é se essa atualidade é transformada em viabilidade. E eu não vejo essa viabilidade em curto prazo. O que me torna muito pessimista, pois quanto mais tardia a alternativa do socialismo, maior será a destruição que o capitalismo pode realizar.
Por que o senhor não vê essa alternativa no horizonte?
Porque o socialismo não resulta da crise e da exaustão do capitalismo, mas de um duro, longo e difícil processo em que massas organizadas de homens e mulheres mudam o curso da vida coletiva e individual. Eu não vejo isso se desenhando em curto prazo no horizonte. Vou dizer algo que já foi dito por Antônio Gramsci e que é adequado para pensar o agora: “Quando aquilo que é velho ainda não morreu e aquilo que é novo ainda não emergiu, nesses tempos de transição, revelam-se fenômenos que são verdadeiras sociopatias”. Estou convencido de que a ordem do capital, que é o velho, ainda não morreu e a ordem do futuro ainda não emergiu. Então estes são períodos históricos que oscilam entre o trágico e o dramático.
A esquerda fala em revolução, em protagonismo da classe operária e em tomada de consciência pela massa. Mas também defende que qualquer tipo de transição radical passa por uma formação séria dos trabalhadores. Como o senhor vê isso? E como essa formação de caráter teórico se transforma em prática?
Eu não penso que as massas revolucionárias serão massas teoricamente muito ilustradas. O que leva os trabalhadores a querer mudar de vida é o momento em que suas vidas se tornam insuportáveis. É evidente que camadas de trabalhadores letradas e informadas são muito mais capazes de tomar consciência dos seus interesses do que camadas trabalhadoras rústicas, mantidas na ignorância pelas classes dominantesAcredito que a questão central seja a formação política dos militantes. Líderes e dirigentes não fazem a revolução. É inteiramente irrealista imaginar que o conjunto das classes trabalhadoras vai se transformar em líderes da transformação social. Segmentos que vão constituir as suas vanguardas (no plural) é que podem dirigir um processo de transformação social. O investimento na formação desses segmentos é absolutamente essencial. É preciso formação política com base teórica. Aqui não me refiro à agitação e propaganda ou doutrinação, mas sim a conhecimentos de teoria social que permitam discernir e distinguir o essencial do acessório, o substantivo do episódico.
Teoria e prática 
A teoria é absolutamente indispensável para a formação de vanguardas que sejam capazes de, em momentos de ruptura e de tensão social, dar orientações claras, lúcidas, sérias e responsáveis às massas. Rupturas sociais são sempre processos traumáticos. Não apenas no sentido da violência material, mas elas envolvem rupturas ideológicas, intelectuais, éticas, etc. Se lideranças não tiverem competência teórica e sabedoria política, o resultado dessas rupturas pode ser catastrófico. Pode ser a derrota de bandeiras e demandas generosas e legitimas. Isso significa que ninguém avança no domínio do progresso social, da universalização de direitos, da criação de condições de uma consciência e de uma nova cultura política só pela militância operativa. É preciso formação teórica e cultural. Eu me atreveria a dizer que sem isso não caminharemos.
Queria ser original, mas alguém já disse há cerca de 110 anos que “sem teoria revolucionária, não há revolução” [Lênin]. É preciso estudar, estudar e estudar para poder mobilizar e organizar com competência. Uma revolução não pode ser o arrebentar de uma represa de demandas reprimidas e de esperanças humilhadas. É sobre esse chão, sobre a indignação e sobre a revolta que corre a possibilidade de outro mundo. Mas ele tem que ser construído com cientificidade, competência e com uma palavra que está desgastada que a sabedoria.