quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

OBRAS ESCOGIDAS DE MARX Y ENGELS EN PDF

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Para download: livros do historiador Peter Burke

Peter Burke.
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Peter Burke - A escola dos Annales - A revolução frances da historiografia.pdf
Peter Burke - A escrita da história.pdf
Peter Burke - A Historia Cultural das Imagens.pdf
Peter Burke - Cultura Popular na Idade Moderna (2).epub
Peter Burke - Cultura popular na Idade Moderna.epub
Peter Burke - Cultura popular na Idade Moderna.pdf
Peter Burke - Formas de Historia Cultural.pdf
Peter Burke - Gilberto Freyre e a nova história.pdf
Peter Burke - Hibridismo Cultural.pdf
Peter Burke - Que Es La Historia Cultural.pdf
Peter Burke - Signos Em Rotação.pdf
Peter Burke - Uma história social da mídia - de Gutenberg à Internet.pdf
Peter Burke - Variedades de Historia Cultural.doc
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Para download: HISTORIA DE LA HUMANIDAD DESDE EL PAPEL DE LA ENERGÍA (PERO NO SOLO)

En la espiral de la energía


Volumen I: 
Historia de la humanidad desde el papel de la energía (pero no solo)

Ramón Fernández Durán
Luis González Reyes



Volumen II: 
Colapso del capitalismo global y civilizatorio



Fidel rompe silêncio e diz que não confia nos EUA, mas não critica acordo histórico

AFP
Em Havana (Cuba)


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O líder cubano Fidel Castro disse nesta segunda-feira (26) que não confia nos EUA e que não conversou com Washington, rompendo, assim, o silêncio de mais de um mês sobre a histórica aproximação anunciada por seu irmão e sucessor Raúl Castro e pelo presidente Barack Obama.
"Não confio na política dos Estados Unidos, nem troquei uma palavra com eles. Isso não significa - longe disso - uma rejeição a uma solução pacífica dos conflitos", disse Fidel, de 88 anos, afastado do poder desde 2006, em uma carta dirigida à Federação Estudantil Universitária. [LEIA AQUI "Para mis compañeros de la Federación Estudiantil Universitaria"]
Com a data de hoje (27), a carta foi lida pelo presidente da Federação, Randy Perdomo, esta segunda à noite na televisão cubana.
O pai da Revolução Cubana não criticou o acordo anunciado por Raúl e Obama em 17 de dezembro passado, por meio do qual ambos pretendem normalizar as relações bilaterais. O acontecimento foi saudado em todo o mundo.
"O presidente de Cuba deu os passos pertinentes de acordo com suas prerrogativas e com as faculdades que a Assembleia Nacional e o Partido Comunista de Cuba concedem a ele", escreveu Fidel Castro.
"Defenderemos sempre a cooperação e a amizade com todos os povos do mundo e, entre eles, os dos nossos adversários políticos. É o que estamos reivindicando para todos", completou Fidel Castro, o grande ausente no histórico processo de aproximação entre ambos os países, após meio século de inimizade.
No longo texto, Fidel fala dos mais diversos tópicos, indo da Grécia Antiga à incursão militar cubana na África, nas décadas de 1970 e 1980, e encerra com seus comentários sobre a reaproximação com os Estados Unidos.
O silêncio de Fidel voltou a alimentar rumores sobre sua saúde e sobre sua morte no início do mês, até que o ex-jogador de futebol argentino Diego Maradona, seu amigo pessoal e que estava de visita em Havana, anunciou há duas semanas ter recebido uma carta do líder cubano.
A última aparição pública de Fidel foi em 8 de janeiro de 2014, quando assistiu à inauguração de uma galeria do artista cubano Alexis Leyva "Kcho", também seu amigo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Órfãos e sem Vaticanos

Entrevista a Nestor Kohan

Por Marcela Pisarello e Sílvia Acevedo Montilla

Um dos grandes desafios do marxismo do Século XXI consiste em desmontar a falsa homologação de mercado e democracia. Para poder concretizá-lo há que ESTUDAR. E para decifrar os enigmas não resolvidos há que superar o divórcio entre um marxismo académico e um saber militante abnegado e esforçado mas que não estuda, não lê, não está informado e suplanta a falta de formação da militância de base com palavras de grande efeito.

MP e SAM: Que papel desempenham hoje em dia os meios alternativos de comunicação perante o domínio planetário do capital?

NK: Um papel fundamental. Vivemos uma ditadura mediática sem precedentes na história. Os meios maciços monopolizaram-se de um modo impensável há meio século. As televisões por cabo, por exemplo, variam o número de canais que oferecem. Aquela a que eu tenho acesso na Argentina tem mais de 70 canais, mas só em dois ou três se pode ver algo diferente… e ainda por cima com limitações institucionais, porque essas escassas excepções dependem por sua vez de estados e de sua diplomacia externa. Noutras televisões há mais de 300 canais, mas as alternativas não são mais de três ou quatro. A relação assimétrica é indefinida. Existem as páginas webs alternativas, mas na realidade devemos assumir a sua marginalidade extrema. Sofremos de um totalitarismo absoluto da informação e da comunicação, disfarçado de «pluralismo» e «democracia». A «sociedade aberta» que Karl Popper pregava e muitos outros cúmplices do seu bando malsão ao pensamento oficial ocidental durante a guerra-fria é um mito e do pior modelo.

MP e SAM: Que achas do discurso do presidente Obama sobre as novas medidas a respeito de Cuba? Abre-se uma esperança?

NK: Nicolo Maquiavel, um rapaz do meu bairro, costumava lembrar que os poderosos andam entre a raposa e o leão, com a astúcia e a violência, com o consenso e a repressão. Nunca abandonam nenhum dos meios de dominação. Todos os imperialismos e sistemas totalitários reprimiram e ao mesmo tempo tentaram criar consenso. Obama passa a vida a sorrir, impassível, a vender pasta de dentes. Faz de «polícia bom» para Cuba, e simultaneamente ameaça castigar a Venezuela bolivariana com dureza ou a qualquer outro dissidente (externo ou interno) que o desafie. Promete erradicar definitivamente a tortura mas acaba por reconhecer que a tortura continua. Agora chamam-lhe «interrogatório forte». Consegue o Nobel da Paz, enquanto invade países, derruba governos populares, assassina líderes opositores, suborna, compra, intervém descaradamente noutras sociedades sem respeitar a sua soberania, espia e vigia cada gesto quotidiano do seu próprio povo norte-americano como faz com todos os povos do mundo. Alguns dos seus próprios agentes (já afastados) e alguns poucos dos seus próprios intelectuais que não perderam a dignidade denunciam-no publicamente. Desde Snowden até Assange e Chomsky.

Cada um portanto é livre de oferecer a outra face? Mas nós também temos o direito e a possibilidade de não o acreditar.

A nova política anunciada para a Revolução Cubana apresenta um reconhecimento de facto de que os brigões do quarteirão, os gorilas do bairro, os gangsters e mafiosos do «mundo livre», não conseguiram pôr de joelhos o povo cubano, insubmisso e rebelde. Não podemos perde-lo de vista nem por um segundo. O nosso grande abraço a esse povo heróico que resistiu à potência mais poderosa, cínica, desavergonhada e impiedosa do planeta. Todo o nosso carinho e o nosso reconhecimento. Todo o nosso respeito.

Mas suspeitamos que o Pentágono, os circuitos do complexo militar-industrial, os grandes fabricantes e traficantes de armas da elite norte-americana, o Departamento de Estado e os polvos da hierarquia financeira americana estão prontos a esmagar e engolir Cuba por outros meios. Não acreditam na paz, no diálogo com pluralismo. Só trocaram um bispo por um cavalo,
Mas não abandonaram a intenção de dar xeque-mate. A estratégia continua a ser contra-revolucionária e está destinada a controlar numa situação de crise capitalista mundial e escassez de recursos naturais — todo o «pátio traseiro» à escala continental minando as defesas inimigas. Batendo onde mais dói e atacando o lado mais fraco da revolução, a sua economia. Quem quiser acreditar no lobo está no seu direito. Quem pretender «fazer teoria», legitimando uma situação de facto com grandes malabarismos verbais e citações doutrinais sacadas da manga, que o faça. Porque não?

Os que amamos a vida e não queremos que o lobo nos devore, também temos o direito de usar a cabeça e de ter um pouco de memória. Adolfo Hitler deu-se ao luxo de fazer pactos de entendimento com a União Soviética. Foi para garantir a paz e respeitar a diversidade dos sistemas sociais? Não, a continuação teve 20 milhões de mortos do povo soviético. O povo cubano e o seu governo revolucionário estiveram meio século separados e treinados com a arma na mão e de olho na mira, quadra a quadra, casa a casa, contra uma possível e previsível invasão militar dos gringos. Não só os militares. Cada cozinheira, cada professora, cada médico, cada pedreiro, cada motorista sabia manejar a sua arma e sabia onde tinha de colocar-se para disparar contra o invasor militar imperialista se este pusesse a sua bota suja na ilha.

Estará o povo preparado para resistir à invasão de dólares e artigos de consumo? Terão feito exercícios de treino para resistir a uma invasão de turistas com dinheiro, disparos de remessas milionárias, ataques de surpresa nocturnos das inversões de capitais, prostíbulos, casinos e a importação de todo um estilo de vida — onde o dinheiro manda e o ser humano obedece — da american way of life? Oxalá que sim, de todo o coração o desejamos! Por eles e por elas, mas sobretudo por nós. Se Cuba for engolida e regurgitada pelo império, será um golpe duríssimo para o imaginário rebelde da Nossa América e do Terceiro Mundo e para as esperanças dos nossos povos.

Mas se Cuba não conseguir resistir a esse outro tipo de invasão (mais subtil mas não menos agressivo) muito cuidado para não os acusar de «traição». Se o fizerem é porque ficaram isolados, porque não triunfaram outras revoluções socialistas (anticapitalistas e anti-imperialistas) no continente. Nós também somos responsáveis pelos retrocessos eventuais que possa sofrer a transição para o socialismo na ilha. Se tivéssemos triunfado contra as nossas burguesias e o seu patrão imperialista, o cenário seria hoje bem diferente.


MP e SAM: Segundo reconheceram os presidentes de Cuba e dos Estados Unidos o Papa Francisco teve um papel fulcral nesta nova relação. Tem orgulho em que o novo Papa seja argentino?

NK: Não me sinto orgulhoso e tenho muita vergonha. Este Papa é muito reaccionário, ninguém se engane. Vem cumprir a obra que Wojtyla começou transformando os países do leste europeu e apoiando a contra-revolução na Nicarágua sandinista. Porque elegeram naquela altura um Papa polaco quando a Polónia no conjunto das nações europeia sempre esteve na segunda ou terceira linha, e nunca conseguiu sequer uma independência nacional? Porque através do catolicismo tradicionalista polaco se podia atacar duramente esses governos burocráticos, impopulares, debilitados pelos seus problemas sociais internos e pela corrida armamentista imposta por Reagan e Thatcher, os dois amigos de João Paulo II. Através da retórica oficial do catolicismo Vaticano, hierárquico, tradicionalista e eurocêntrico, dava-se cobertura «decente» aos contra da Nicarágua, financiados pelo narcotráfico e pelas armas sujas dos Estados Unidos.

E porque trinta anos depois os poderosos elegem um Papa latino-americano quando todos conhecem o eurocentrismo galopante que o Vaticano sempre exerceu, para dentro e para fora? Porque precisavam de por nos eixos a Venezuela, quebrar Cuba, subordinar o movimento campesino no Brasil (de forte ligação religiosa) e neutralizar todo o movimento popular latino-americano, uma das reservas rebeldes à escala mundial potencialmente mais explosiva e «perigosa» para a geopolítica do pátio traseiro ianque.

O Papa Bergoglio-Francisco não veio libertar ninguém. Que ninguém acredite nos seus dribles à Garrincha (jogador de futebol) do Brasil que parecia ir para um lado e acabava indo para outro) nem as suas meditadas guinadas de olhar? É verdadeiramente um jogador de truco (jogo de naipes argentino onde ganha o que sabe mentir melhor). Com o seu tradicionalismo disfarçado de «renovador» Bergoglio-Francisco vem modernizar, aceitar e renovar a dominação, espiritual e material, dos nossos povos. Não só se calaram os rumores de maneira escandalosa e vergonhosa dos tempos sangrentos do general Videla (embora a posteriori tenham pretendido construir histórias «honoráveis» pouco credíveis para gente minimamente informada em terrenos dos direitos humanos na Argentina).

De resto nada tem que ver com a mensagem profética e rebelde das comunidades de base daquele jovem barbudo de origem judaica que andava a pé e com sandálias humildes enfrentando o poderoso império romano, questionando os grandes mercadores do templo e denunciando o fetiche do dinheiro e do mercado, enquanto falava e partilhava o pão com os seus companheiros e companheiras. Bergoglio-Francisco que eu saiba, não dissolveu o Banco Ambrosiano nem repartiu as fortunas incalculáveis da Igreja Católica entre ninguém. Com dois ou três gestos intranscendentes, minimalistas e microscópicos que não mudam uma estrutura hierárquica e sacerdotal de fundo (com milénios de história ao lado dos poderosos, desde as Cruzadas e a Inquisição, a caça às bruxas e Colombo, até Hitler, Videla e Pinochet), Bergoglio vem pôr na ordem não só Cuba mas todos os rebeldes latino-americanos e do Terceiro Mundo.

Devo confessar que o que mais me dói é ver alguns pensadores da teologia da libertação que respeitava e amava (continuo a respeitá-los, embora me doa vê-los assim), numa atitude submissa e obediente, desfazendo tudo o que se havia acumulado desde Frei Bartolomeu de las Casas até Camilo Torres. No fim, a mensagem profética ressurgirá, não tenho a menor dúvida. Até o poder mais absoluto (militar, económico ou simbólico) é passageiro e transitório na história. O poder do Vaticano, na aparência hoje inexpugnável, não é excepção. As igrejas empresariais e televisivas (que compram cinemas milionários e caríssimos canais de televisão com dinheiro de…?…) e a auto-ajuda também não são a alternativa. O respeito autêntico pelas pessoas humanas e a verdadeira espiritualidade está — tem que estar — para além do mercado, do dinheiro e do capital. Continuo a acreditar que a verdadeira espiritualidade virá com o socialismo como projecto integral, plural e revolucionário, onde crentes ou ateus lutaremos juntos, lado a lado, mão na mão, ombro a ombro, contra os grandes moinhos de vento do capital e das suas instituições.


MP e SAM: Neste novo contexto mundial quais são os desafios das lutas dos povos na transformação da América Latina?

NK: Continuar a resistir! Não se desmoralizar nem perder a bússola em meio da tormenta e da neblina. Teimar com tenacidade, com força, com convicção por que não? Com fé, como pedia José Carlos Mariátegui) na verdade histórica, nos projectos revolucionários culturais sociais, integrais e radicais, na revolução mundial socialista. A confusão e desmoralização são, se as avaliarmos em termos de longa duração, passageiras. O poder dos capitalistas, embora pareça hoje inexpugnável, tem data de vencimento a curto prazo, como a maionese. Vivem para o dia-a-dia, arruinando o planeta de forma acelerada. O nosso projecto, pelo contrário, é a longo prazo e permanente. Não devemos retroceder. Não devemos entregar-nos. Que as sereias continuem a cantar e a tentar seduzir, nós devemos caminhar em busca da terra prometida de Moisés e procurando encontrar um lar comum (sem mercado de exploração) que Ulisses perseguia, compartilhando pão como Jesus pregava. A longo prazo isso é o que perdura na história. Não se trata do lado em que há mais dinheiro» mas de que lado está o dever. Às crianças Deus os vomita? Os confusos, os cansados, os vacilantes, os que nadam contra a corrente do momento e se acomodam sempre onde brilha o sol ou se colam à onda da moda com a melhor cara de aniversário e ar feliz perdem-se no pó anónimo, cinza e difuso da história. Espártaco, Tupac Amaru e Rosa Luxemburgo, pelo contrário continuam ao nosso lado… unidos e em relevo, com dignidade e de pé. Quem se lembra hoje dos que vacilaram e se entregaram?

O movimento popular da Nossa América deve — devemos continuar a lutar a partir das nossas próprias histórias e tradições, cada um a seu modo, preparando-se para todas as formas de luta sem nos ligarmos a nenhuma. Aprendendo com todas as armadilhas e manobras sujas com que assassinaram Emiliano Zapata e Augusto César Sandino, Martin Luther King e Malcom X.


MP e SAM: Que papel desempenhou o marxismo nos últimos 30 anos na Argentina desde que os militares do general Videla e do almirante Massera se retiraram até hoje?

NK: O nosso marxismo foi primeiro esmagado, aniquilado, queimado nas pessoas, nos livros e produções culturais. O nosso marxismo não perdeu qualquer debate de ideias, fomos aniquilados e assassinados da forma mais perversa, que é algo completamente diverso. Fogueira, tortura, violação, aniquilamento e os desaparecidos, vieram as becas, as insígnias, os politiqueiros, os editoriais prestigiosos, a cooptação. Mas hoje há uma nova geração que ronda os 20 anos e que está à procura. Reaparecem dispersos, mas reaparecem os ecos nunca apagados de todo, os sinais e símbolos da tradição insurgente e do marxismo rebelde. Está a nascer algo novo. O nosso papel modesto e microscópico é apoiar o novo que nasce, tratar de orientar, dar elementos para que essa nova geração faça o seu caminho, construa a sua experiência, não escute e desobedeça à voz do dono. E que sobretudo se inteire de que a luta não parte do zero. Antes de nascermos e andarmos de fraldas ou a tirar o ranho do nariz já havia muita mas muita gente a lutar. Há que conhecer esses homens e mulheres. Há que estudá-los para pode aprender e recriar um novo imaginário rebelde, radical, insurgente e revolucionário, à escala nacional, continental e mundial. Sem memória e sem história, sem fortalecer a nossa identidade e a nossa cultura, estamos perdidos antes de começar.

MP e SAM: Como vê o marxismo latino-americano à escala continental?

NK: Muito melhor que há 20 anos! Há vinte anos, ninguém, nem os mais radicais se animavam a mencionar duas palavrinhas-chave «socialismo» e «imperialismo». Hoje são moeda corrente. Tudo está em discussão, mas o que está claro é que o imperialismo continua a existir, vigiando, controlando, violando a soberania de outros países, reforçando o domínio do capital onde quer que esteja, enquanto continua de maneira tradicional e enlouquecida destruindo o nosso planeta. Também está fora de questão que o neoliberalismo não continue, que outro mundo seja possível e que esse mundo é e deva ser o socialismo. Qual socialismo? O que está aqui, pelo menos por agora, não resulta. Será socialismo em capítulos privados, mercado generalizado, consumo desenfreado e competição entre as empresas ou será pelo contrário uma planificação socialista e participativa dos recursos sociais, ecológica, antipatriarcal, anti-imperialista e anticapitalista? É evidente que a disputa está aberta e o marxismo de Marx e de Che Guevara tem muito que dizer a esse respeito… Ou é hoje impensável uma sociedade que não esteja regulada pelo mercado?

Causa dó e até um pouco de pena, para não dizer vergonha, ouvir ou ler apologias do mercado em mil tons, melodias e cores, realizadas em nome do socialismo. O modelo mercantil do «cálculo económico» contra o qual batalhou pacientemente Che Guevara nos anos 60 é hoje um jogo de crianças ao lado das argumentações que circulam citando as autoridades mais diversas, desde Nicolas Bukharin a Deng Xiaoping, desde Charles Bettelheim a Alec Nove, entre muitos outros e outras. Um dos grandes desafios pendentes do marxismo do Século XXI consiste em desmontar a falsa homologação de mercado e democracia. Para poder concretizá-lo, como mínimo, há que ESTUDAR. As ordens já não chegam. E para decifrar os enigmas não resolvidos há que superar o divórcio entre um marxismo académico (erudito mas impotente e inoperante, que vibra e dança segundo a última música da academia parisiense ou nova-iorquina) e um saber militante abnegado e esforçado mas que não estuda, não lê, não está informado e suplanta a falta de formação da militância de base com palavras de grande efeito ou com a importância acrítica ou mágica do «modelo chinês», do modelo «jugoslavo» ou qualquer outro ensaio de gabinete.


MP e SAM: caducaram as formas de luta radicais no novo contexto regional e mundial?

NK: Estou muito mal e muito pouco informado. Quase não vejo TV nem ouço rádio nem leio os jornais, não vejo a Internet. Mas… segundo as poucas notícias que chegam ao meu bairro e os meus vizinhos me contam na loja, o Pentágono não se dissolveu. A CIA não aposentou ninguém. A NSA não enviou os seus milhares de agentes para veranear e beber uns copos. As forças armadas não desapareceram. A polícia multiplica-se. As prisões não se transformaram em salas de baile e de festas. As leis «antiterroristas» existem. Talvez tudo isto tenha acontecido e eu não o tenha visto na televisão, mas suspeito que não aconteceu. Então…? Porque deve o movimento popular resignar-se à mansidão?

Há dados históricos inegáveis. Não podemos fazer como o avestruz que esconde a cabeça e finge que não vê. Os nossos irmãos com maiúsculas de Cuba dissolveram o antigo Departamento de Libertação Nacional, já denominado Departamento América, onde actuavam Manuel Piñero Losada, popularmente conhecido como Barbaruiva, com muitos amigos. Bom, têm todo o direito do mundo. Continuamos a gostar deles, a admirá-los e a respeitá-los. Não julgamos. Não opinamos. Não abrimos a boca.

Mas o resto do movimento rebelde, popular, insurgente e radical da Nossa América porque tem que dissolver-se? Hoje há muito mais pobreza, exploração, desemprego e exclusão que nos anos 60. Porque deveríamos renunciar à perspectiva, ao projecto, à estratégia da revolução se os nossos inimigos continuarem firmes sem abandonar as suas posições? Tenho a sensação de que hoje já não temos nem pais nem avós, nem Mecas nem Vaticanos ideológicos (utilizo agora estas expressões em sentido metafórico). Estamos «órfãos». Com toda a história às costas, que reivindicamos com orgulho e com humor, sem renegar absolutamente nada de nada, mas já sem «estados guias», nem Vaticanos ideológicos. Nem Moscovo, nem Pequim, nem Albânia, nem Havana, nem Paris. Perdão, não queremos ofender ninguém, dizemo-lo com todo o respeito do mundo. E quem quiser dar conselhos que o faça, tem todo o direito. Mas nós só ouvimos, não obedecemos.

Hoje há muitas novas potências emergentes (assim lhes chamam nos noticiários) que talvez possam dar apoio circunstancial aos inimigos dos seus inimigos, mas nenhuma destas potências tem um projecto anticapitalista nem anti-imperialista sério. No melhor dos casos tem disputas geoestratégicas e geopolíticas, mas de nenhum modo se propõem construir uma sociedade socialista ou comunista à escala planetária. Nem por sombras! Não nos enganemos.

Sim somos realistas, hoje o movimento popular só pode contar com as suas próprias forças. Devemos recriar o imaginário rebelde e revolucionário preparando-nos e mentalizando-nos para uma luta longa e difícil que não se resolverá dentro de seis meses. Aquele garoto do meu bairro de que lhes falei, Nicolo Maquiavel, garantia que lutar desta maneira é muito mais difícil. Custa muito mais construir uma força própria sem muletas alheias. Mas quando se consegue construir torna-se indestrutível, porque não se depende de ninguém.


MP e SAM: Quais são em tua opinião as tarefas das novas gerações de jovens militantes na Nossa América e no mundo?

NK: Precisamente essa é a principal tarefa para as novas gerações. Aprender do passado, apropriar-se de toda a história de luta, resistência, internacionalismo, heroísmo e abnegação, valorizar, conhecer, reconstruir, mas já sem Vaticanos. Necessitamos de construir uma força popular e revolucionária de alcance, no mínimo, continental, que seja própria. Sem aplicar já «modelos» passados, nem o ataque súbito ao palácio de Inverno, nem a longa marcha, nem o internacionalismo centrado unicamente em Paris e Bruxelas, nem o foco rural do Caribe nem o sindicalismo economicista, nem a esquerda exclusivamente parlamentar e institucional. Pensar uma estratégia para os novos tempos, talvez até combinando e articulando todas estas formas, sem nos ligarmos mecânica e dogmaticamente a nenhuma delas de modo excluente como se fosse um catecismo. Os nossos inimigos manejam todas as formas de luta! Essa é uma tarefa da nova geração. Uma tarefa imensa, mas apaixonante.

E acabaria dizendo a um garoto ou uma garota de 20 anos: esta tarefa pendente, se quisermos, é não só necessária e urgente, também é uma experiência «divertida» e «atraente». Muito mais atractiva e apaixonante do que qualquer experiência medíocre e opaca que oferece o capitalismo para a nossa vida quotidiana. O marxismo rebelde da Nossa América e as aventuras e desventuras da revolução socialista oferecem hoje mais que três doses de droga, que 5 igrejas evangélicas, que 17 livros de auto ajuda, que 35 jogos electrónicos, e que oito camiões de cerveja. Nós temos tarefas estratégicas que só podem ser realizadas pelos jovens do Século XXI. Temos toda a confiança do mundo que poderão assumir semelhante tarefa. Se o conseguirem, nós vamos segui-los e apoiá-los contentes e felizes.


Tradução: Manuela Antunes

FONTE: ODiario.info

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Nossa anistia foi ampla, geral e irrestrita?

A lei não anistiou os crimes violentos, e quando foi promulgada, os guerrilheiros já haviam sido punidos. Apenas os terroristas do Estado ficaram impunes.

Por Damião Azevedo

Anistia ampla, geral e irrestrita. Esse foi o lema da campanha pela anistia aos presos políticos do Regime de 64. Contudo, o resultado real obtido, após a aprovação da lei, foi exatamente o oposto do que aquele lema pregava.

A recente conclusão do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) mexeu nesse vespeiro, ao sugerir a necessidade de responsabilizar os agentes do Estado pelos crimes de tortura.

Imediatamente surgiram críticas à CNV, alegando-se que, depois de tanto tempo, a ideia de se rever a Anistia seria puro revanchismo. Afirma-se que, para uma revisão da Anistia, seria necessário responsabilizar não apenas os militares, policiais e dirigentes do Estado, mas também os opositores do Regime, por terem recorrido à guerrilha, luta armada, sequestros e atentados à bomba.
Isso talvez pudesse fazer sentido a não ser por um detalhe: os crimes cometidos pela oposição ao Regime Militar já foram todos apurados, esclarecidos e seus responsáveis foram devidamente condenados. Isto é, só as próprias autoridades do Regime ainda têm o que revelar.

A Anistia, Lei 6.683/79, não tratou os crimes de ambas as partes de forma equânime, nem tampouco beneficiou igualmente todos os autores de atos de violência política cometidos durante o Regime Militar. Eis seu primeiro artigo:

Art 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexos com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de Fundações vinculadas ao Poder Público, aos servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares.§ 1º Consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política.§ 2º Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal.

O caput do art. 1º inicialmente dá a entender que todos os crimes políticos ou conexos – de qualquer das partes conflagradas – teriam sido anistiados. Entretanto, o seu parágrafo segundo exclui as pessoas que já haviam sido condenadas criminalmente pelos crimes ali elencados. Ocorre que, em 1979, só haviam sido legalmente apurados os crimes de uma das partes. Só os opositores do regime, só os militantes da luta armada, é que tiveram seus crimes investigados e processados.


Quando da aprovação da lei, os movimentos de luta armada já haviam sido vencidos. O auge da guerrilha urbana acorreu entre 1968 e 1970. A partir de 1971 os grupos são esfacelados, com a execução, prisão ou banimento da maioria de suas principais lideranças. As últimas ações armadas da guerrilha urbana ocorreram em 1973. Também entre 1973 e 1974 foram executados todos os militantes que ainda permaneciam no Médio Araguaia, única guerrilha rural que chegou a promover ações de combate armado ao Regime.

Por isso, quando veio a Anistia, os guerrilheiros que recorreram à luta armada durante o Regime Militar já haviam sido sentenciados e penalmente responsabilizados. A maioria dos condenados por crimes políticos não-violentos, como a presidente Dilma Roussef, já estavam em liberdade em razão de progressão de regime. Mesmo os que conseguiram se exilar, foram julgados e condenados à revelia.

Diferente do que se costuma divulgar na imprensa, os presos políticos que cumpriam pena em 1979 não saíram da prisão em decorrência da Lei de Anistia, mas por benefícios processuais decorrentes da nova Lei de Segurança Nacional de 1978, que reduziu as penas-base previstas na legislação anterior.

Em 1979, permaneciam presos praticamente apenas os condenados por crimes violentos aos quais a Anistia não se aplicava, de modo que sua libertação foi obtida em processos judiciais de revisões individuais de penas, baseados na Lei de Execuções Penais. Tratou-se de simples progressão de regime e não de extinção de penas. Por exemplo, José Roberto Rezende, que participou do sequestro dos embaixadores alemão e suíço, teve suas três condenações reduzidas para catorze anos, o que lhe permitiu sair em liberdade condicional, mas bem depois da Anistia.

O mesmo vale para o retorno dos exilados que participaram da luta armada. Alfredo Sirkis, que se exilara em 1971, não retornou por causa da Anistia. Mas porque beneficiado pela regra de redução da pena por ser menor de 21 anos quando dos crimes pelos quais fora condenado. Caso emblemático foi o de Herbert Daniel, que só pôde retornar ao Brasil depois de prescritas suas penas, dois anos depois da Anistia.

É certo que as revisões de pena foram feitas no contexto geral da abertura política, quando já se ensaiava a transição do regime. Entretanto, os processos judiciais de revisão de pena não tiveram fundamento na Lei de Anistia.

Portanto, não se pode dizer que, depois dos benefícios da Anistia terem sido gozados pelos presos políticos, a CNV pretenderia agora negar esses mesmos benefícios aos combatentes do outro lado do front. Isso é completamente falso, pois os guerrilheiros condenados por atos de terrorismo, sequestro e homicídio nunca foram anistiados. Suas penas foram cumpridas ou prescreveram. Jamais foram anistiadas.

Isso faz emergir um aspecto delicado e que pode constituir um fundamento constitucional para a responsabilização criminal dos agentes do Regime de 64 não apenas pelos crimes de tortura, mas também pelos crimes de natureza política, a princípio abrangidos pela Anistia. Trata-se do conceito de auto-anistia, cunhado pelo Direito Internacional, que ocorre quando o Estado anistia somente a si próprio ou seus próprios agentes e autoridades públicas. É um ato de auto-indulgência, por meio do qual o poder público exclui sua responsabilidade sobre fatos que só ele teria competência para investigar.

Se a Lei 6.683/79 excluiu os crimes dos guerrilheiros, isso significa que só os agentes e autoridades do Estado foram beneficiados pela Anistia. Na prática, a Lei da Anistia se converteu num pretexto para não se apurar nenhum tipo de responsabilidade por parte dos agentes do Estado, arquivando-se definitivamente as denúncias feitas por presos políticos e também por organizações internacionais. É em razão desse aspecto tão crucial que a Anistia de 1979 pode ser considerada uma auto-anistia.

A ideia da anistia política é firmar um compromisso de inimputabilidade penal entre partes conflagradas. A legitimidade de uma norma jurídica que exclui a imputação penal por atos criminosos encontra-se na necessidade de preservação da própria possibilidade de convivência. Por isso, mais que um ato de indulgência do poder soberano para com os cidadãos, é um pacto coletivo pelo qual as partes admitem, a partir de determinado momento, abrir mão de suas pretensões de assalto ao poder e se comprometem reciprocamente a reconhecerem-se como legítimos protagonistas do cenário político, ainda que adversários.

A legitimidade das anistias demanda um caráter multilateral das responsabilizações. Sem esse aspecto, não há propriamente anistia política, mas auto-indulgência, perdão do autoridade pela própria autoridade. Esse é o motivo pelo qual a Corte Interamericana de Direitos Humanos, de São José da Costa Rica, firmou o entendimento que leis de auto-anistia não são válidas perante o Direito Internacional.

Uma vez admitido que a Lei 6.683/79 pode ser caracterizada como auto-anistia, isso seria um argumento constitucionalmente sólido para se sustentar que essa lei não foi recepcionada pela Constituição de 1988, por ser incompatível com o sistema de direitos humanos nela consagrado. Assim, seria plausível rever a aplicação da Anistia, com base na tese da sua não recepção constitucional.

Não há dúvidas que a afirmação contemporânea dos Direitos Humanos não pode ficar presa aos problemas herdados da ditadura. Não obstante, as críticas feitas pela CNV à Lei de Anistia podem nos dar a oportunidade para um exercício coletivo de autocompreensão e amadurecimento político.

Isso não significa revanchismo, nem expurgos revisionistas. Não é um debate voltado para o passado, mas para o futuro, no sentido de que a memória também é algo em permanente construção. Somos as nossas lembranças. Quando somos impedidos de saber o destino dos nossos mortos, nossa própria capacidade de aprender com a experiência fica aprisionada em ressentimentos mal resolvidos.

Acredito que Hanna Arendt estava certa ao defender que o perdão é um ato político. Porém, perdão não significa esquecimento. E é a própria Hanna Arendt que afirma que “os homens não podem perdoar aquilo que não podem punir”. A responsabilização é condição para se alcançar a paz e a conciliação, que só são obtidas pelas verdadeiras anistias.

Compreender a Anistia como perdão, superação política, exige que todas as partes envolvidas – agentes do Estado e seus opositores – reconheçam publicamente a responsabilidade pelas consequências de suas escolhas e decisões. Só assim seremos capazes de lembrar e reconhecer as mazelas autoritárias de nosso passado recente para nos engajarmos, nos comprometermos, com a permanente construção de um futuro democrático.


FONTE: Carta Maior

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cuadernos de Formación (colección pensamiento socialista)


★ Colección pensada para familiarizar a las jóvenes generaciones con la teoría de la revolución social marxista y leninista, desde una perspectiva contemporánea. Sus textos aportan un cuerpo conceptual para el análisis crítico de la sociedad que queremos transformar y la formulación de objetivos, estrategias y tácticas de los proyectos contrahegemónicos. ★


ONU: 121 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola


Marcelo Brandão
Da Agência Brasil, em Brasília


Um relatório lançado nesta segunda-feira (19), em Londres, mostra que 121 milhões de crianças e adolescentes, de 6 a 15 anos, no mundo inteiro desistiram de frequentar a escola ou sequer começaram a fazê-lo. O documento foi feito pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e contrasta com a promessa da comunidade internacional de alcançar a Educação para Todos até 2015.
O relatório, intitulado "Reparação da promessa quebrada de Educação para Todos: resultados da Iniciativa Global Crianças Fora da Escola", mostra que houve pouco progresso na melhora desse cenário desde 2007. Além disso, o documento revela que 63 milhões de adolescentes, com idades entre 12 e 15 anos, não estão na escola. Esse número mostra que há muito mais adolescentes nessa situação do que crianças. Enquanto uma a cada 11 crianças em idade escolar de nível primário não frequentam a escola, um em cada cinco adolescentes está na mesma situação.
De acordo com a  diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, os métodos tradicionais de ampliar o acesso à educação, baseados em mais professores, mais livros didáticos e mais salas de aula, não é mais eficaz. Na opinião de Irina, os métodos têm que considerar formas de incluir crianças menos favorecidas.
"Precisamos de intervenções específicas para alcançar as famílias deslocadas devido a conflitos, as meninas que são forçadas a ficar em casa, as crianças com deficiências e as milhares que são obrigadas a trabalhar. Porém, essas políticas têm um custo. Este relatório serve de alerta para mobilizar os recursos necessários para garantir a educação básica para cada criança, de uma vez por todas".
O relatório mostra também que as mais afetadas pela falta de acesso à educação são as crianças que vivem em áreas de conflito, as que trabalham e aquelas que enfrentam discriminação baseada em etnia, gênero ou deficiência. A pobreza, contudo, é o maior vilão da educação, diz o estudo. Na Nigéria, por exemplo, dois terços das crianças em áreas mais pobres não vão à escola. E 90% delas, provavelmente nunca o farão. Os índices mais elevados de crianças fora da escola são encontrados na Eritreia e na Libéria, onde 66% e 59% das crianças, respectivamente, não frequentam a escola primária.
O diretor-executivo da Unicef, Anthony Lake, enumera três prioridades de investimento em três áreas. A primeira delas é aumentar o número de crianças frequentando a escola primária; a segunda é  ajudar mais crianças, principalmente as meninas, a permanecer na escola durante todo o nível secundário; e a terceira é melhorar a qualidade da aprendizagem.
"Não deve haver discussão a respeito dessas prioridades: nós precisamos realizar as três, porque o sucesso de cada criança – e o impacto do nosso investimento em educação – depende de todas elas", avalia Lake.

"A escala da desigualdade global é chocante"

Riqueza de 1% deve ultrapassar a dos outros 99% no mundo até 2016, diz ONG


A partir do ano que vem, os recursos acumulados pelo 1% mais rico do planeta ultrapassarão a riqueza do resto da população, segundo um estudo da organização não-governamental britânica Oxfam.

A riqueza desse 1% da população subiu de 44% do total de recursos mundiais em 2009 para 48% no ano passado, segundo o grupo. Em 2016, esse patamar pode superar 50% se o ritmo atual de crescimento for mantido.

O relatório, divulgado às vésperas da edição de 2015 do Fórum Econômico Mundial de Davos, sustenta que a "explosão da desigualdade" está dificultando a luta contra a pobreza global.

"A escala da desigualdade global é chocante", disse a diretora executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima.

"Apesar de o assunto ser tratado de forma cada vez mais frequente na agenda mundial, a lacuna entre os mais ricos e o resto da população continua crescendo a ritmo acelerado."

Desigualdade

A concentração de riqueza também se observa entre os 99% restantes da população mundial, disse a Oxfam. Essa parcela detém hoje 52% dos recursos mundiais.

Porém, destes, 46% estão nas mãos de cerca de um quinto da população.

Isso significa que a maior parte da população é dona de apenas 5,5% das riquezas mundiais. Em média, os membros desse segmento tiveram uma renda anual individual de US$ 3.851 (cerca de R$ 10.000) em 2014.

Já entre aqueles que integram o segmento 1% mais rico, a renda média anual é de US$ 2,7 milhões (R$ 7 milhões).

A Oxfam afirmou que é necessário tomar medidas urgentes para frear o "crescimento da desigualdade". A primeira delas deve ter como alvo a evasão fiscal praticada por grandes companhias.

O estudo foi divulgado um dia antes do aguardado discurso sobre o estado da União a ser proferido pelo presidente americano Barack Obama.

Espera-se que o mandatário da nação mais rica - e uma das mais desiguais - do planeta defenda aumento de impostos para os ricos com o objetivo de ajudar a classe média.

FONTE: UOL Economia

domingo, 18 de janeiro de 2015

Paradoxos do liberalismo (Pensar o atentado ao Charlie Hebdo)

Sistema falha em proteger seus valores


Por SLAVOJ ZIZEKTRADUÇÃO CLARA ALLAIN

RESUMO Após os acontecimentos recentes na França, o filósofo esloveno Slavoj Zizek diz que é hora de pensar. Ele argumenta que o fundamentalismo é uma reação falsa e mistificadora contra o que seria uma falha real do liberalismo, cujos valores fundamentais precisariam ser " salvos" por uma "esquerda renovada".



Agora, quando estamos todos em estado de choque após a orgia de mortes na redação do "Charlie Hebdo", é o momento certo para criarmos coragem para pensar. Agora, e não mais tarde, quando as coisas se acalmarem, como procuram nos convencer os proponentes da sabedoria barata: o difícil é justamente combinar o calor do momento com o ato de pensar. Pensar na calma e frieza do dia seguinte não gera uma verdade mais equilibrada; em vez disso, normaliza a situação, permitindo que evitemos enxergar o fio cortante da verdade.

Pensar quer dizer avançar além do "páthos" de solidariedade universal que explodiu nos dias seguintes ao acontecimento e culminou no domingo, 11 de janeiro, com a visão de grandes nomes políticos de todo o mundo se dando as mãos, desde Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas. Se alguma vez houve uma imagem de falsidade hipócrita, foi essa. O verdadeiro gesto digno do "Charlie Hebdo" teria sido publicar em sua capa uma grande caricatura satirizando esse evento de modo brutal e de mau gosto, com desenhos de Netanyahu e Abbas, Lavrov e Cameron e outras duplas abraçando e beijando-se com paixão, ao mesmo tempo em que afiam facas pelas costas.

Devemos, é claro, condenar os assassinatos inequivocamente, enxergando-os como um ataque contra a própria tessitura de nossas liberdades, e condená-los sem quaisquer condicionais ocultas (do tipo "mas o 'Charlie Hebdo' estava provocando e humilhando demais os muçulmanos"). Devemos rejeitar toda e qualquer referência semelhante a um contexto mitigador mais amplo: os irmãos atiradores foram profundamente afetados pelos horrores da ocupação americana do Iraque (ok, mas então por que não atacaram alguma instalação militar dos EUA, em vez de um semanário satírico francês?), os muçulmanos no Ocidente são uma minoria explorada e mal tolerada (os africanos negros são tudo isso, ainda mais, mas não detonam bombas nem matam) etc.

O problema com tal evocação do pano de fundo complexo é que ele pode muito ser usado também com relação a Hitler: também ele conseguiu mobilizar a injustiça do tratado de Versalhes, mas, mesmo assim, foi plenamente justificado combater o regime nazista com todos os meios que tínhamos à disposição. O importante não é se as queixas que condicionam os atos terroristas são fundamentadas ou não. O importante é o projeto político-ideológico que emerge como reação contra injustiças.

SUPEREGO Tudo isso não basta: precisamos pensar mais à frente, e esse pensar a mais não guarda nenhuma relação com a relativização simplista do crime (o mantra de "quem somos nós, no Ocidente, responsáveis por massacres terríveis no Terceiro Mundo, para condenar tais atos"). Tem menos relação ainda com o medo patológico que muitos esquerdistas liberais ocidentais têm de serem islamófobos. Para esses falsos esquerdistas, qualquer crítica ao islã é denunciada como expressão de islamofobia ocidental, Salman Rushdie foi denunciado por ter provocado os muçulmanos desnecessariamente, logo foi responsável (pelo menos parcialmente) pela "fatwa" que o condenou à morte etc. O resultado dessa posição é o que se pode esperar em tais casos: quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais se afundam no sentimento de culpa, mais são acusados por fundamentalistas muçulmanos de serem hipócritas que tentam ocultar seu ódio pelo islã. Essa constelação reproduz perfeitamente o paradoxo do superego: quanto mais você obedece ao que o Outro exige de você, mais você é culpado. É como se, quanto mais você tolerasse o islã, mais forte fosse a pressão do islã sobre você.

É por isso que também considero insuficientes os chamados por moderação na linha da afirmação feita por Simon Jenkins, no "Guardian" de 7 de janeiro, de que o que precisamos fazer é "não reagir exageradamente, não divulgar demais o dia seguinte ao acontecido. É tratar cada acontecimento como um acidente passageiro de horror". O ataque ao "Charlie Hebdo" não foi um mero "acidente passageiro de horror", ele seguiu uma agenda religiosa e política precisa e, como tal, evidentemente fez parte de um quadro muito maior. É claro que não devemos reagir exageradamente, se com isso se quer dizer sucumbir à islamofobia irrestrita. Mas precisamos analisar a fundo o quadro maior.

Muito mais necessário, mais forte e mais eficiente que a demonização dos terroristas e sua retratação como fanáticos suicidas heroicos é desmistificar esse mito demoníaco. Muito tempo atrás Nietzsche percebeu como a civilização ocidental se deslocava na direção do Último Homem, um ser apático, destituído de grande paixão ou engajamento. Incapaz de sonhar, cansado da vida, ele não assume riscos, buscando apenas o conforto e a segurança, uma expressão de tolerância uns com os outros: "Um pouquinho de veneno de quando em quando: isso garante sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para uma morte agradável. Eles têm seus pequenos prazeres para o dia e seus pequenos prazeres para a noite, mas se preocupam com a saúde. 'Descobrimos a felicidade', dizem os Últimos Homens, e piscam".

Pode realmente parecer que a cisão entre o permissivo Primeiro Mundo e a reação fundamentalista contra ele segue cada vez mais as linhas da oposição entre viver uma vida longa e satisfatória, cheia de riqueza material e cultural, e dedicar a vida a alguma causa transcendental. Não seria esse antagonismo o mesmo que Nietzsche descreveu como a oposição entre o niilismo "passivo" e o "ativo"? Nós, no Ocidente, somos os Últimos Homens nietzschianos, imersos em estúpidos prazeres diários, enquanto os radicais muçulmanos se dispõem a arriscar tudo, engajados na luta até sua autodestruição. O poema "The Second Coming" (A segunda vinda), de William Butler Yeats, parece expressar nosso dilema atual à perfeição: "Falta aos melhores convicção, enquanto os piores /Estão cheios de ardor apaixonado" [em tradução de Péricles Eugênio]. É uma excelente descrição da divisão atual entre liberais anêmicos e fundamentalistas intensos. "Os melhores" não conseguem mais engajar-se plenamente, e "os piores" se engajam com o fanatismo racista, religioso e sexista.

Mas será que os fundamentalistas terroristas realmente se enquadram nessa descrição? O que faz falta evidente a eles é um elemento que é fácil discernir em todos os fundamentalistas autênticos, desde budistas tibetanos até os amish, nos Estados Unidos: a ausência de ressentimento ou inveja, a indiferença profunda em relação ao modo de vida dos não crentes. Se os chamados fundamentalistas de hoje realmente acreditam ter encontrado o caminho que conduz à Verdade, por que se sentem ameaçados por não crentes, por que deveriam invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele não o condena. Apenas observa, com espírito gentil, que a busca de felicidade do hedonista encerra em si mesma as sementes de seu próprio fracasso.

Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudofundamentalistas terroristas se sentem profundamente incomodados, intrigados e fascinados pela vida pecaminosa dos não fiéis. Percebe-se que, quando combatem o outro pecaminoso, estão combatendo sua própria tentação.

É aqui que o diagnóstico de Yeats não cobre por completo a situação atual: a intensidade e paixão dos terroristas aponta para uma ausência de convicção real. Quão frágil deve ser a crença de um muçulmano se ele se sente ameaçado por uma caricatura estúpida publicada num semanário satírico? O terror fundamentalista islâmico não é baseado na convicção dos terroristas de sua própria superioridade e seu desejo de proteger sua identidade cultural-religiosa do ataque da civilização consumista global. O problema dos fundamentalistas não é que nós os consideremos inferiores a nós, mas que eles próprios, secretamente, se enxergam como sendo inferiores. Por isso nossas afirmações politicamente corretas de que não sentimos superioridade em relação a eles só os enfurecem mais, alimentando seu ressentimento.

IDENTIDADE O problema não é a diferença cultural (o esforço deles para preservar sua identidade), mas o fato oposto de que os fundamentalistas já são como nós --que, em segredo, eles já internalizaram nossos padrões e já se medem por eles. Paradoxalmente, o que falta realmente aos fundamentalistas é precisamente uma dose daquela verdadeira convicção "racista" de sua própria superioridade.

As vicissitudes recentes do fundamentalismo muçulmano confirmam a velha ideia de Walter Benjamin de que "cada ascensão do fascismo é testemunha de uma revolução falida": a ascensão do fascismo é a falência da esquerda, mas, ao mesmo tempo, uma prova de que existiu um potencial revolucionário, uma insatisfação, que a esquerda não conseguiu mobilizar. E a mesma coisa não se aplica ao chamado "islamofascismo" de hoje? A ascensão do islamismo radical não se correlaciona exatamente com o desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos? Quando, na primavera de 2009, o Taleban assumiu controle do vale do Swat, no Paquistão, o "New York Times" informou que o grupo arquitetou "uma revolta de classes que explora divisões profundas entre um grupo pequeno de latifundiários ricos e os sem-terra que arrendam suas terras". Mas se o Taleban, ao "tirar vantagem" da situação dos camponeses, "gera preocupação com os riscos disso para o Paquistão, país ainda em grande medida feudal", o que impede democratas liberais no Paquistão e nos EUA de igualmente "tirar vantagem" da situação e tentar ajudar os camponeses sem-terra? A triste implicação é que as forças feudais no Paquistão são as "aliadas naturais" da democracia liberal.

Então como ficam os valores fundamentais do liberalismo --liberdade, igualdade etc.? O paradoxo é que o próprio liberalismo não é forte o suficiente para proteger seus valores contra o ataque fundamentalista. O fundamentalismo é uma reação --uma reação falsa, mistificadora, é claro-- contra uma falha real do liberalismo, e é por isso que ele é gerado repetidas vezes pelo liberalismo. Deixado por conta própria, o liberalismo vai lentamente solapar a si mesmo; a única coisa capaz de salvar seus valores fundamentais é uma esquerda renovada. Para que esse legado crucial possa sobreviver, o liberalismo precisa da ajuda fraterna da esquerda radical. Essa é a única maneira de derrotar o fundamentalismo, de lhe tirar o chão.

Pensar em resposta à matança de Paris quer dizer abandonar a autoconfiança arrogante de um liberal permissivo e reconhecer que o conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é, em última análise, um conflito falso --um ciclo vicioso de dois polos que geram e pressupõem um ao outro. O que Horkheimer disse a respeito do fascismo e do capitalismo já na década de 1930 --que quem não quer falar criticamente sobre o capitalismo também deveria se calar em relação ao fascismo-- também se aplica ao fundamentalismo de hoje: posso defender seu direito de publicar alguma coisa e ainda assim condenar o que você publica. Posso defender o que você diz e ainda dizer que está errado.

    FONTE: Folha de São Paulo, Caderno Ilustríssima,18 de janeiro de 2015.