segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Educação e Luta de Classes


Paulo Freire
São Paulo/Brasília, maio de 1987.

(...) Não basta dizer que a educação é um ato político assim como não basta dizer que o ato político é também educativo. É preciso assumir realmente a politicidade da educação. Não posso pensar-me progressista se entendo o espaço da escola como algo meio neutro, com pouco ou quase nada a ver com a luta de classes, em que os alunos são vistos apenas como aprendizes de certos objetos de conhecimento aos quais empresto um poder mágico. Não posso reconhecer os limites da prática educativo-política em que me envolvo se não sei, se não estou claro em face de a favor de quem pratico. O a favor de quem pratico me situa num certo ângulo, que é de classe, em que diviso o contra quem pratico e, necessariamente, o por que pratico, isto é, o próprio sonho, o tipo de sociedade de cuja invenção gostaria de participar.
A compreensão crítica dos limites da prática [educativa] tem que ver com o problema do poder, que é de classe e tem que ver, por isso mesmo, com a questão da luta e do conflito de classes. Compreender o nível em que se acha a luta de classes em uma dada sociedade é indispensável è demarcação dos espaços, dos conteúdos da educação, do historicamente possível, portanto, dos limites da prática político-educativa. (...)
A leitura atenta e crítica da maior ou menor intensidade e profundidade com que o conflito de classes vai sendo vivido nos indica as formas de resistência possíveis das classes populares, em certo momento. (...) A luta de classes não se verifica apenas quando as classes trabalhadoras, mobilizando-se, organizando-se, lutam claramente, determinadamente, com suas lideranças, em defesa de seus interesses, mas, sobretudo, com vistas à superação do sistema capitalista. A luta de classes existe também, latente, às vezes escondida, oculta, expressando-se em diferentes formas de resistência ao poder das classes dominantes. (...)
Às vezes, a violência dos opressores e sua dominação se fazem tão profundas que geram em grandes setores das classes populares a elas submetidas uma espécie de cansaço existencial que, por sua vez, está associado ou se alonga no que venho chamando de anestesia histórica, em que se perde a idéia do amanhã como projeto. O amanhã vira o hoje repetindo-se, o hoje violento e perverso de sempre.
FONTE: FREIRE, Paulo. "Alfabetização como elemento de formação da cidadania". In: Política e Educação. 8 ed. Indaiatuba, SP: Villa das Letras, 2007. pp. 48-52.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Noel Rosa: poeta da Vila, cronista do Brasil

Livro homenageia Noel Rosa
Editora Expressão Popular lança livro do professor Luiz Ricardo Leitão sobre a vida e a obra do Poeta da Vila - http://www.expressaopopular.com.br/

SINOPSE DO LIVRO
Se ainda estivesse entre nós, Noel Rosa completaria em 2010 cem anos de vida. A importância do Poeta da Vila para a música e para cultura popular brasileira pode ser avaliada pelas inúmeras homenagens a que o compositor – precocemente falecido em 1937 – faz jus. Noel foi eleito, inclusive, o tema central do desfile carnavalesco da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, tradicional agremiação do bairro carioca onde o artista nasceu, viveu e morreu.
Velho admirador do músico, o escritor, tradutor e professor Luiz Ricardo Leitão elaborou um estudo sobre o poeta-cronista Noel, inserindo-o na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação socioespacial do Brasil. Assim, o ensaio ora publicado, além de tecer breves observações sobre a biografia do artista, associa a sua criação musical à obra de escritores como Gregório de Matos, Machado de Assis e Lima Barreto, todos eles mestres na arte de interpretar o sentido e a formação do Brasil. O livro é dividido em duas partes: a primeira recapitula a vida e a obra musical do Poeta da Vila; a segunda é uma longa digressão sobre os motes explorados por Noel em suas canções, desde os motivos da metafísica amorosa até os prosaicos dilemas da vida cotidiana e as contradições da imprevisível política da nossa Bruzundanga.
Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil representa, sem dúvida, mais uma valiosa contribuição do meio acadêmico para a difusão desse nome extraordinário da MPB, que, não obstante sua notável produção artística, chegou a ser esquecido por mais de uma década pela mídia e intelligentsia nacionais, após seu desaparecimento em 1937. Redescoberto nos anos 50, depois de superado o longo período de autoritarismo do entreguerras no país, ele hoje é reverenciado por todos aqueles que cultivam e promovem a cultura popular brasileira.

Instituído o Dia Nacional do Historiador


Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos
LEI Nº 12.130, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2009.

Institui o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.

O VICE–PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o É instituído o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 17 de dezembro de 2009; 188o da Independência e 121o da República.
JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA
João Luiz Silva Ferreira

Este texto não substitui o publicado no DOU de 18.12.2009

E tudo mudou...

Luis Fernando Veríssimo

"E tudo mudou...

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos sei
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças"

Acesso ao principal acervo sobre história brasileira do século 20


A partir deste domingo, 20 de dezembro de 2009, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) está disponibilizando a nova versão eletrônica do acervo do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), importante fonte de informações sobre o período republicano.

A remodelagem da página, agora no endereço http:// www.cpdoc.fgv.br/, comemora os 65 anos da FGV, traz três novidades.

A primeira é o mecanismo de busca, agilizando o acesso a 198 arquivos, 5.000 horas de gravação da série História Oral e aos verbetes do "Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro".
Outra inovação é o tamanho do conjunto digitalizado, que passará de cem mil para 480 mil páginas de documentos e de 80 mil para 160 mil fotos.
Por fim, haverá um mecanismo de "anotação colaborativa". O usuário poderá sugerir adendos à classificação ou apontar equívocos. Se confirmada, a informação será incorporada ao arquivo.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Consumption Society


Pensamento do Dia

"O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas." (Anônimo)

"Quem quer fazer alguma coisa encontra um meio. Quem não quer fazer nada encontra uma desculpa" (Provérbio árabe)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O mundo se rende a Morales


Por Diogo Cunha e Taysa Coelho

Quando Evo Morales foi eleito pela primeira vez presidente da Bolívia, a elite daquele país, assim como os governos dos grandes países capitalistas, torceu o nariz. Primeiro presidente indígena a ser eleito lá e integrante de um partido socialista – Movimento ao Socialismo (MAS) –, Morales também gerava polêmicas ao defender o cultivo da coca – planta de enorme importância na econômica local -, por seu posicionamento antiestadunidense e alinhamento ao governo bolivariano de Hugo Chávez.

Assim como as névoas andinas no verão, as polêmicas foram sendo dissipadas ao longo do tempo, à medida que foram sendo implementadas as políticas sociais e econômicas de seu governo. Além de reeleito no primeiro turno, com mais de 60% dos votos, Morales também saiu vitorioso nas eleições do Poder Legislativo, em que o MAS garantiu dois terços das vagas no Congresso Nacional. O líder conquistou a confiança da população de menor poder aquisitivo, através da implementação de programas sociais, e dos mais abastados, com as visíveis melhoras na economia, que, mesmo com a crise internacional, apresentará o maior crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), atingindo 3%.

Mesmo com o aumento na quantidade de votantes das classes média e alta, ainda há sérias divergências entre as províncias majoritariamente indígenas e aquelas dominadas pela elite econômica boliviana, situadas a leste do país, também conhecidas como “províncias da meia-lua”.

No Brasil, o governo Morales ficou marcado pela crise do gás. O líder estatizou duas refinarias pertencentes à Petrobras e, em troca, realizou grandes investimentos no país. Opositores alegam que esse tipo de comportamento pode afastar investimentos estrangeiros, ao passo que seus defensores acreditam que o maior controle dos hidrocarbonetos ajudaria o Estado na distribuição de renda. (...)

Daniel ChavesHistoriador e pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente/UFRJ e um dos autores do livro “Bolívia – passos da revolução”
“A implementação da nova Constituição – que assegura mais direitos e maior participação dos indígenas na política (...) - muda, rigorosamente, em tudo a vida da população boliviana.”
Em comparação às antigas políticas assistenciais dos últimos governos bolivianos, não há sombra de dúvidas de que Evo Morales fez muito. Sempre houve a necessidade de ampliar os mecanismos de assistência social na Bolívia, frente à carência da população miserável que, por sua vez, gera enorme pressão política pela mudança - grande bandeira política do governo. Há de se observar, entretanto, que a perda de apoio político dos sindicatos de médicos e professores indica uma insatisfação sobre o soldo mensal e sobre os mecanismos de implementação dessas mudanças, o que é quase natural, visto que o orçamento do país ainda está se reordenando e que é muito difícil contemplar as agendas de todos os movimentos e grupos sociais.
Depois das quase proféticas falas de George Bush (pai) e de Francis Fukuyama, que, associadas, prescreveriam que viveríamos em um mundo do livre mercado e da democracia liberal, com os EUA jogando o seu papel de policial global da humanidade, já deu para percebermos que o quadro não será bem esse. A história não acabou com o fim da bipolaridade comunista-capitalista. O projeto que surge da ruptura pós-Guerra Fria, o neoliberalismo, se tornou ébrio nessa celebração e produziu governos irresponsáveis, que previam programas políticos acima do limite sustentável e da própria vontade popular. O fenômeno da substituição de neoconservadores por governos de esquerda - com uma nova visão de desenvolvimento econômico, pautado no programa social e sustentável planejado a partir de um Estado atuante que busca atingir os interesses tanto da população quanto do mercado - é a resposta a isso. Em cada país, isso tem uma assunção diferenciada, mas, via de regra, o nacionalismo mais ou menos à esquerda, o anti-imperialismo e o antineoliberalismo são as chaves para se compreender as novas disputas por recursos naturais, desenvolvimento e autonomia.
Em relação à questão do controle cada vez maior dos hidrocarbonetos, simpatizantes do presidente reeleito alegam que o maior controle dos hidrocarbonetos pelo Estado ajudaria a aumentar as rendas, ao passo que seus opositores dizem que a atitude pode ser positiva para a distribuição, porém afastaria investimentos e implementações de melhorias técnicas. A tensão essencial, contudo, não se dá tanto nessa direção, muito focada nas disputas dos grupos sobre o controle do processo. Se o governo converter essa preeminência estatal em comunitária e popular, terá sucesso e a revolução realmente ocorrerá. Caso contrário, como já vimos em 2000 e 2003, o governo enfrentará uma oposição que não é frágil, como a liberal regionalista: o povo. E aí a coisa pode ficar complicada.
Já em relação ao aumento na porcentagem de votos obtidos pelas províncias opositoras, sem dúvida isso tem a ver com o esvaziamento da oposição, hoje muito frágil. Porém, a própria solidez e a maturidade com que Evo conseguiu transparecer para a população também reforçam o quadro: o presidente está progressivamente deixando de ser, para a Bolívia e para o mundo, apenas um sindicalista, para se transformar em um chefe de Estado relevante.
A implementação da nova Constituição – que assegura mais direitos e maior participação dos indígenas na política, dando mesmo status ao sistema judiciário oficial e à Justiça dos índios e descentralizando o poder em quatro níveis de autonomia (provincial, regional, municipal e indígena) -, aprovada no primeiro mandato de Morales e cuja implementação será sua principal prioridade legislativa, muda rigorosamente em tudo a vida da população boliviana, desde os símbolos nacionais até a estruturação jurídica do poder em cada cantão do país. O ‘processo de mudança’ não conta mais com uma oposição negativa nas regiões e nos parlamentos, e agora está nas mãos do partido do governo. Tornar-se uma nova oligarquia ou revolucionar o país é o desafio do MAS, nesse sentido.”

Edson Peterli Guimarães Professor associado do Instituto de Economia/UFRJ
“Enquanto os preços das commodities estiverem altos, os investimentos requeridos podem ser promovidos, mas como será no caso de uma queda de preços?”
O governo de Evo Morales tem se destacado tanto no aspecto social quanto no econômico. Na realidade, os dois andaram juntos, pois as mudanças sociais foram decorrentes, em grande parte, das vantagens econômicas obtidas pelo governo Morales com o aumento dos preços de suas commodities, em especial do gás e, em menor escala, de metais como o estanho, e que permitiram a implantação de políticas públicas e sociais de muita relevância.
O que se pode ver, entretanto, é que o primeiro governo de Morales foi muito marcado pela necessidade de afirmação da sua capacidade de, como indígena, dirigir um país. Tanto é assim que a nova Constituição da Bolívia, marcada por grandes polêmicas, e que veio a ser aprovada em um referendo, passou a tratar a Bolívia como um país plurinacional. Ou seja, como um país formado por várias nações. É como se houvesse diferentes povos vivendo juntos, mas sendo um país unitário, no sentido de que o governo central é forte. Parece um contrassenso, mas é assim que está estabelecido e é essa situação que tem criado tantas dificuldades entre a Meia-Lua (região onde, predominantemente, está localizada a elite econômica do país) e o governo central, uma vez que este tem centralizado recursos e distribuído de forma aleatória e muitas vezes em prejuízo dos não aliados.
De todo modo, é fácil prever que, passada esta primeira fase e consolidado o poder nas mãos do presidente, o segundo governo Morales terá a possibilidade de demonstrar mais claramente a que veio, tanto para o bem quanto para o mal, pois se a Bolívia hoje passa por uma boa fase, não se pode saber até quando ela assim permanecerá.
A situação econômica na Bolívia é bastante complicada. Há setores da indústria que sequer existem. É um país onde a revolução industrial, nos moldes da revolução industrial inglesa no século XVIII, ainda não se estabeleceu.
O governo de Evo Morales tem se mostrado dirigista e dá sinais de que acredita que o Estado pode cumprir a função de promover a revolução industrial, desenvolvendo a indústria pesada cuja demanda derivada (entre empresas) geraria um processo de acumulação endógeno do capital. A questão é como financiar ou induzir esse processo de desenvolvimento industrial. Enquanto os preços das commodities estiverem altos, os investimentos requeridos podem ser promovidos, mas como será no caso de uma queda de preços?
A questão da industrialização da Bolívia esbarra na dificuldade de expansão de um mercado interno de consumo de bens industrializados e da geração de renda doméstica via exportação, que criaria a demanda adequada ao processo industrial pretendido. No primeiro caso, o que se vê é que a Bolívia está passando por um processo de criação de mercado consumidor, porém ainda sem uma demanda que gere um efeito de ‘escala’. É um velho paradigma ainda não de todo absorvido pelos policy makers (formuladores de políticas): o que vem primeiro, a demanda ou a oferta? Na verdade, o que se deseja é um aumento de ambos, que deve ocorrer, no caso das economias menos desenvolvidas, com a intervenção de um terceiro elemento que é o Estado. Devido ao tempo existente entre a criação da oferta e a construção da demanda, realizadora dos lucros, decorrentes das vendas, o Estado acaba sendo o fiador desse processo. Mas como poderá o Estado boliviano financiar esse desenvolvimento eternamente? Por isso a questão do gás é tão importante: se esperava que esse recurso promovesse esse ‘fundo’ para a industrialização.
Já para a segunda possibilidade de industrialização, que seria a exportação, como ocorreu no Sudeste Asiático, a pouca infraestrutura constitui um entrave. A falta de tecnologia e o povo ainda com níveis de escolaridade muito baixos não propiciam a constituição de produtos competitivos. Uma das saídas para essa segunda opção é justamente o Mercosul, que deveria, a exemplo da União Europeia, instituir um Fundo de Promoção Econômico. No caso europeu isso se deu com o Fundo Comum Europeu. No nosso, chegou-se a cogitar sobre alguns instrumentos multilaterais, como o Banco do Sul, mas que, contudo, se parecem muito mais com bancos de investimento do que propriamente fundos para promoção da economia.
Sobre o gás, o grande problema da Bolívia é para onde escoar sua produção. Os principais mercados consumidores do Cone Sul apresentam grandes dificuldades: o Chile tem uma crise histórica com a Bolívia devido à Guerra do Pacífico, o que fez com que decidisse importar gás de outros países e via GNL (muito mais caro); a Argentina tem preços tabelados; o Peru deixou de ser importador e passou a exportador de gás depois das descobertas de Camisea; e o Brasil apresenta um futuro promissor com as suas últimas descobertas de gás que têm ocasionado sobras.
As únicas opções seriam a ‘industrialização’ desse gás, com a construção de usinas de ureia (matéria-prima para outros fertilizantes), ou o polo gás-químico em Puerto Suarez, na fronteira do Brasil, porém elas apresentam problemas de escala ou de falta de mercado (os bens produzidos são destinados a outras indústrias). Ademais, outras opções se mostram distantes em decorrência da pouca infraestrutura do país, como o gás veicular ou o consumo industrial.
A nacionalização das reservas de gás e petróleo significou a renegociação dos termos dos contratos que já existiam entre a YPFB (a estatal boliviana) e as empresas que exploravam e produziam petróleo e gás na Bolívia. Os contratos ficaram muito parecidos com os nossos contratos de concessão em que se tem um programa exploratório mínimo de trabalho e prazo para começar a produção de tais produtos. O que aconteceu é que os termos econômicos mudaram. Foram aumentados os valores das participações governamentais, basicamente dos royalties, e exigido que se acelerasse o início da produção.
Sobre os investimentos estrangeiros, no curto prazo, devem aumentar, em decorrência dos contratos de gás negociados com as empresas e que exigem altos investimentos ou a perda dos direitos de explorar tais jazidas. No médio prazo, contudo, é mais difícil prever como se dará a abertura para investimentos estrangeiros. Não tanto pela questão atual, e mais por uma questão antecedente que é a de definir qual será o grau de abertura para a participação do investimento privado, aí incluído o nacional e o estrangeiro. A questão aqui não é de onde virá o investimento, mas sim se será possível a realização de investimentos por entes privados.
Cada vez que se faz uma nacionalização ou que se diz que determinado setor é monopólio do Estado ou será realizado diretamente pelas suas empresas, o que se vê é que os investimentos privados caem ou até mesmo desaparecem, mas isso é uma decisão estatal. Na Bolívia, o que se discute não é o grau, qual é o tamanho ideal da participação privada, mas sim a natureza, quais setores econômicos podem ou não ter participação de entes privados. Contudo, no caso boliviano se tem um caminho claro, que é o da ‘socialização’ dos investimentos, através das nacionalizações e desapropriações, que por si sós afastam propositalmente o investimento privado.


FONTE: Olhar Virtual, UFRJ, Edição 280, 15/12/2009.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Confissões do Latifúndio

Por onde passei,
plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.
Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...
Por onde passei,
tendo tudo em lei
eu plantei o nada.



(Confissões do Latifúndio - Pedro Casaldáliga)

Máxima do Barão (II)


Leia o livro Barão de Itararé: herói de três séculos, de Mouzar Benedito, da editora Expressão Popular, lançado em 2007.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Asilo Presidencial para Battisti

Exmo. Sr. Presidente do Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva
Os abaixo assinados vimos, muito respeitosamente, oferecer a V. Exa. toda a força e apoio para o vosso governo REJEITAR as intensas e arrogantes pressões que tentam impor a extradição do literato e perseguido político Cesare Battisti.
Pedimos a V. Exa., que chefia o governo mais popular da história do Brasil, que, no momento adequado, CONCEDA ASILO POLÍTICO SOB RESPONSABILIDADE PRESIDENCIAL a Battisti, garantindo-lhe, em seguida, uma fórmula migratória permanente, para que possa trazer a família a este país e nele trabalhar em paz.
Como V. Exa. sabe, Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua sem luz solar (um castigo que já não existe em nenhum país civilizado!) por quatro crimes DOS QUAIS NÃO EXISTE NENHUMA PROVA NEM TESTEMUNHA OCULAR, tendo sido todo seu processo forjado a partir de DELAÇÕES PREMIADAS.
Além de levar os promotores italianos a, ridiculamente, atribuírem a Battisti dois homicídios ocorridos num intervalo de tempo insuficiente para ele transpor a distância entre ambas as cidades, de forma que a acusação teve de ser reescrita quando tal impossibilidade material ficou demonstrada, seu principal delator chegou a ser repreendido pelo magistrado de outro processo pela contumácia com que proferia falsas acusações.
Vossa decisão, Senhor Presidente, será também uma atitude de PROTEÇÃO AO INSTITUTO DO REFÚGIO/ASILO, seriamente ameaçado pela invasão do STF na área do Executivo.
Também se constituirá numa demonstração de afeto para com nosso povo, humilhado, insultado e injuriado obscenamente pelas autoridades italianas, com o apoio das colonizadas e subservientes elites brasileiras (especialmente a mídia).
Battisti escreveu 17 livros, fundou duas revistas virtuais, organizou numerosos congressos culturais e a 1ª Bienal de Artes Gráficas do México. Ele será tão útil para nossa cultura quanto o foi, quando se refugiou no México, o também escritor Gabriel Garcia Márquez (signatário, por sinal, de uma mensagem de apoio a Battisti).
A salvação de Battisti será a coroação de OITO anos de luta pela preservação da dignidade, independência e generosidade de nosso povo.
Atenciosamente,
OS ABAIXO ASSINADOS
http://www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?btstlng

Assine você também essa petição através do link acima.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O retorno da direita latino-americana

Por Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano
Artigo publicado no jornal Página/12, 02-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
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Algo estranho está acontecendo na América Latina. As forças de direita na região estão dispostas de tal forma que podem se desempenhar melhor durante a presidência de Barack Obama do que durante os oito anos de George W. Bush. Este liderava um regime de extrema direita que não tinha nenhuma simpatia pelas forças populares na América Latina. Pelo contrário, Obama lidera um regime centrista que tenta replicar a "política da boa vizinhança" que Franklin Roosevelt proclamou como forma de anunciar o fim da intervenção militar direta dos Estados Unidos na América Latina.
Durante a presidência de Bush, a única tentativa séria de golpe de Estado com o respaldo dos Estados Unidos ocorreu em 2002 contra Hugo Chávez na Venezuela, e essa tentativa falhou. Foi seguida por uma série de eleições em toda a América Latina e no Caribe, onde os candidatos de centro-esquerda ganharam em quase todos os casos. A culminação foi uma reunião no Brasil em 2008 - na qual os Estados Unidos não foram convidados e na qual o presidente de Cuba, Raúl Castro, recebeu tratamento de herói virtual.
Desde que Obama assumiu a presidência, conseguiu-se perpetrar um golpe de Estado: em Honduras. Apesar da condenação que o presidente expressou, a política norte-americana foi ambígua, e os líderes do golpe ganharam sua aposta de se manter no poder até as próximas eleições para presidente. Há apenas pouco tempo, no Paraguai, o presidente católico de esquerda Fernando Lugo pôde evitar um golpe militar. Mas seu vice-presidente, Federico Franco, de direita, está manobrando para obter de um Parlamento nacional hostil a Lugo um golpe de Estado que assuma a forma de um enjuizamento. E os dentes militares se afima em uma série de outros países.
Para entender essa aparente anomalia devemos olhar a política interna dos Estados Unidos e como ela afeta sua política exterior. O Partido Democrata é a mesma coalizão ampla que sempre foi, mas o Partido Republicano se moveu mais para a direita. Isso significa que os republicanos têm uma base menor. O lógico seria que isso significaria muitos problemas eleitorais. Mas, como estamos vendo, isso não funciona exatamente desse modo.
As forças da extrema direita que dominam o Partido Republicano estão muito motivadas e são muito agressivas. Buscam purgar todos e cada um dos políticos republicanos que considerem muito "moderados" e tentam forçar os republicanos no Congresso a uma atitude negativa uniforme para com todas e cada um das coisas que o Partido Democrata, e particularmente o presidente Obama, propuser. Os acertos políticos de compromisso já não são visto como politicamente desejáveis. Pelo contrário. Os republicanos são pressionados para marchar no ritmo de um único tamboreiro.
Entretanto, o Partido Democrata age como sempre agiu. Sua ampla coalizão vai da esquerda para uma certa direita do centro. Os democratas no Congresso investem quase toda a sua energia política na negociação entre uns e outros. Isso implica no fato de que é muito difícil aprovar legislações significativas, como vemos atualmente com a tentativa de reformar as estruturas de saúde norte-americanas.
Então, o que isso significa para a América Latina (e de fato para outras parte do mundo)? Obama tem uma base diversa e uma agenda ambígua. Sua postura pública balança entre uma firme posição centrista e gestos moderados de centro-esquerda. Isso torna sua posição política essencialmente frágil. Obama desilude os eleitores de esquerda, e a realidade de uma depressão mundial faz com que alguns de seus eleitores centristas se afastem dele por medo a uma dívida nacional crescente.
Para Obama, da mesma forma que para Bush, a América Latina não está no topo das prioridades. Ele está muito preocupado com as eleições de 2010 e 2012. E isso não é algo insensato. O que a direita latino-americana faz é tirar vantagem das dificuldades políticas internas de Obama para pressioná-lo. Dão-se conta de que ele não conta com a energia política disponível para freá-los. Além disso, a situação econômica mundial tende a redundar contra os regimes no poder. E na América Latina de hoje são os partidos de centro-esquerda os que estão no poder. Se Obama conseguir triunfos políticos importantes nos próximos dois anos, isso frearia, de fato, o retorno da direita latino-americana. Mas ele irá conseguir esses triunfos?
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Dia Nacional do Samba

2 DE DEZEMBRO
Quem não gosta de SAMBA bom sujeito não é...



A Voz do Morro

Composição: Zé Keti


Eu sou o samba

A voz do morro sou eu mesmo sim senhor

Quero mostrar ao mundo que tenho valor

Eu sou o rei do terreiro

Eu sou o samba

Sou natural daqui do Rio de Janeiro

Sou eu quem levo a alegria

Para milhões de corações brasileiros

Salve o samba, queremos samba

Quem está pedindo é a voz do povo de um país

Salve o samba, queremos samba

Essa melodia de um Brasil feliz
Veja Luiz Melodia cantando a Voz do Morro de Zé Keti:

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dia Mundial de Luta Contra Aids

VIVER COM AIDS É POSSÍVEL. COM O PRECONCEITO NÃO.






Visite o site da campanha “Viver com Aids é possível. Com o preconceito não”, lançada pelo Ministério da Saúde:
http://www.todoscontraopreconceito.com.br/
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Barbárie: produto e condição do progresso

Um mundo de violência


Georges Labica, filósofo francês (1930-2009)

O século que terminou recentemente pode ser caracterizado por um paradoxo espantoso. Por um lado, ele se apresenta como o próprio progresso, com um acúmulo de descobertas, de invenções e de... revoluções técnico-científicas, em todas as áreas de pesquisa, sem precedentes. Por outro lado, foi o século da barbárie mais completa, indo da morte em massa, provocada por guerras e por extermínios étnicos e políticos, a todas as formas de sofrimento também massificadas, quer se trate da generalização da tortura, das deportações de populações ou das epidemias de fome cuidadosamente orquestradas. (...)
Não é preciso recorrer às sutilezas da dialética para entender até que ponto são imbricados e interdependentes o progresso e a barbárie. (...) Conquista-se o espaço e destroem-se os solos mais férteis. (...) Os Direitos Humanos são assunto constante, mesmo enquanto milhões de crianças são condenadas ao trabalho forçado ou à guerra, eventualmente à prostituição e sempre a uma existência encurtada. Abrem-se restaurantes para cachorros e canais de televisão para gatos, enquanto populações inteiras estão desprovidas das condições mínimas de higiene. Tudo isso é perfeitamente conhecido, certamente, mas a verdade oculta por trás do paradoxo não: a humanidade enfim chegou a um estágio desenvolvimento que lhe permite acabar com a escassez a que esteve entregue durante milênios. O acúmulo de riquezas de todos os tipos, da produção de legumes frescos à saúde, à educação e ao conforto residencial, pode garantir a satisfação das necessidades mais elementares e criar, para todos os seres humanos, as condições necessárias a uma vida liberta da fome, das pandemias e das opressões. Em princípio.
[A escassez] não tem mais nenhuma relação com aquela que nossos antepassados longínquos conheceram enfrentando as chagas naturais e lutando pela sobrevivência. (...) As novas formas que ela assume, massivas, recorrentes e continuamente agravadas, são produtos diretos do progresso. Produtos, mas também condições (...) O desperdício desenfreado de água no Norte gera penúria também no Sul. (...) Se é verdade que ainda não existe cura para a AIDS, ao menos pode-se adiar a evolução da doença. Mas os monopólios farmacêuticos se recusam a reduzir seus preços em benefício dos africanos e colocam obstáculos à construção de laboratórios [um ataque aéreo dos Estados Unidos destruiu, sob a alegação de luta contra o terrorismo, o maior laboratório farmacêutico do continente africano]. (...) O par progresso-escassez tem um nome, produtivismo, que, além de matar o mar de Aral, está presente em nossas ruas, no gás carbônico de nossos carros. Assim, a possibilidade, em princípio, de acabar com a escassez não pode se realizar em tal contexto (...) Ouvem-se já os gritos dos especialistas: “Não é possível inverter o progresso!” Decerto não, ao menos esse progresso que tem como destino a lata de lixo. Mas é possível alimentar, tratar e educar todo mundo.
O século que se inicia parece não ficar atrás do precedente. Ao contrário, tudo indica que os danos continuam crescendo.

Fonte: LABICA, Georges. Democracia e Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2009, pp. 14-17.
Nesse livro fica evidente a importância do comunismo e da democracia para Georges Labica. Para este autor - falecido recentemente - democracia e revolução estão estreitamente imbricadas, uma nutre a outra. Processos efetivamente revolucionários exacerbam a exigência e a possibilidade efetiva de democracia; a violência não deriva do impulso revolucionário libertador, mas da potência repressiva recente da ordem estabelecida. Labica não teme as palavras e, menos ainda, a luta - ainda que formidável - que as palavras precisam designar. Se revolução é democracia revolucionária, é preciso enfrentar os burocratismos e o peso crescente do executivo, despertar da anestesia submissa e resignada que dele derivam, livrar-se tanto do estalinismo quanto da dominação burguesa.Retomando a concepção lukacsiana de democratização, reitera que a revolução democrática permanece sendo anseio dos explorados. As impropriamente chamadas de "democracia-modelo" dos países centrais reduzem-se crescentemente a uma ditadura aberta do capital, para dentro e para fora de sua fronteiras. Marx, Lenin e Gramsci são trazidos ao texto para nos lembrar que não basta mudar o condutor da máquina capitalista, mas que é estritamente necessário acabar - quebrar, destruir - essa máquina.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Primavera dos Livros 2009


Os levantes antifascistas de novembro de 1935

A Aliança Nacional Libertadora (ANL) e os Levantes Antifascistas de Novembro de 1935: Alguns ensinamentos
Por Anita Leocadia Prestes

Num período de intensa polarização política no cenário mundial, diante do avanço do fascismo em nível internacional e do integralismo no âmbito nacional, a Aliança Nacional Libertadora (ANL), criada em março de 1935, desempenhou um papel relevante na mobilização de amplos segmentos da sociedade e da opinião pública brasileira em defesa das liberdades públicas, gravemente ameaçadas pelos adeptos da Ação Integralista Brasileira (AIB), liderados por Plínio Salgado.

Nesse processo, a influência dos comunistas mostrou-se decisiva não só na formação da ANL e em sua atividade legal, durante os meses de março a julho de 1935, como, principalmente, na preparação dos levantes armados de novembro daquele ano, realizados sob as bandeiras da ANL. O grande prestígio de Luiz Carlos Prestes - o Cavaleiro de uma Esperança que renascera com o desgaste de Vargas após a “Revolução de 30” - foi um fator fundamental para a difusão e a penetração, junto a setores diversificados da sociedade brasileira, do prograna antiimperialista, antilatifundista e democrático levantado pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) e adotado pela ANL.

A justeza desse programa se evidencia pela aceitação e a repercussão que obteve junto aos setores progressistas e democráticos da opinião pública nacional. Como consequência, a ANL veio a transformar-se, em pouco tempo, na maior frente única popular jamais constituída no Brasil. Seu lema: “Pão, Terra e Liberdade”, inicialmente lançado pelo PCB, empolgou centenas de milhares de brasileiros.

Os comunistas, entretanto, cometeram um grave erro de avaliação ao caracterizarem a situação do país, em 1935, como “revolucionária”, considerando que o desgaste do Governo Vargas seria tal que as suas condições de governabilidade estariam esgotadas. Confundindo os desejos com a realidade, os comunistas e muitos dos seus aliados superestimaram as possibilidades reais de organização e mobilização das massas populares. Consideraram que havia chegado a hora de levantar a questão do poder, lançando a diretiva de um Governo Popular Nacional Revolucionário, formado pela ANL, através de uma insurreição popular. A proposta dos comunistas, assumida pela ANL, mostrou-se fantasiosa e, portanto, inexeqüível, resultando na derrota do movimento.

A inviabilidade de promover uma insurreição das massas trabalhadoras no Brasil, em 1935, aliada à conjuntura de intensa agitação e efervescência política então presente nas Forças Armadas, induziu os comunistas e seus aliados da ANL a sucumbirem à influência das concepções golpistas e de “salvacionismo” dos militares, fortemente arraigadas no imaginário nacional. Tal fenômeno sobreveio, apesar dos esforços desenvolvidos para organizar e mobilizar as massas, assim como das repetidas e insistentes declarações do PCB, de Prestes e da ANL condenando o golpismo.

As Forças Armadas e, principalmente, o Exército passaram a ser vistos pelos comunistas e aliancistas como o instrumento privilegiado para desencadear a almejada insurreição popular, na medida em que a mobilização dos setores civis mostrava-se mais demorada e difícil. O renascimento das concepções golpistas e “salvacionistas” explica o caminho trilhado pela ANL: da amplitude inicial, quando a entidade se manteve dentro da legalidade, ao radicalismo revelado com a eclosão dos levantes armados de novembro de 35.

A persistência de tais concepções pode parecer fruto das influências tenentistas, supostamente trazidas, tanto para o PCB quanto para a ANL, por L. C. Prestes e muitos dos elementos provenientes do tenentismo. Sem negar tais influências, é necessário considerar que o próprio tenentismo foi um movimento marcado pelo vigor das tendências golpistas e “salvacionistas”, resultantes da especificidade do processo histórico de formação da sociedade brasileira. Uma sociedade, na qual as classes dominantes sempre tiveram força para impor aos setores populares um estado de desorganização e desestruturação social, que viria a tornar-se um dos seus traços característicos; uma sociedade excludente e “gelatinosa”, na qual não restariam espaços para que as massas populares fossem ouvidas, nem canais através dos quais elas pudessem fazer valer seus direitos e reivindicações. A expectativa de um golpe “salvador” seria a consequência natural de tal estado de coisas.

Se, em 1935, o golpismo dos comunistas e de muitos dos seus aliados se revelou no fato de haverem delegado aos militares o papel de detonadores da “insurreição das massas trabalhadoras”, deve-se considerar que o conteúdo do programa então defendido - antiimperialista, antilatifundista e democrático - era inteiramente distinto das propostas tenentistas. Sejam as propostas liberais dos “tenentes” dos anos 20, sejam as propostas autoritárias do tenentismo do início dos anos 30. Em 1935, os militares, que iriam desencadear a insurreição projetada, não eram mais tenentistas, mas seguidores de Prestes, que, desde seu Manifesto de Maio de 30, deixara de ser “tenente” para tornar-se adepto das teses levantadas pelos comunistas - as mesmas que seriam encampadas pela ANL.

Mas o revés do movimento antifascista no Brasil, em 1935, não se explica apenas pela influência das concepções golpistas e “salvacionistas”. O Governo Vargas pôde tirar partido de uma conjuntura internacional favorável ao fascismo e aos regimes autoritários para, com o apoio da direita e brandindo as bandeiras do anticomunismo, impor uma grave derrota às forças democráticas e progressistas do país.
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domingo, 22 de novembro de 2009

A origem das espécies em HQ

MARCO DA CIÊNCIA MODERNA, LIVRO DE CHARLES DARWIN É RECRIADO PELO CARTUNISTA E BIÓLOGO FERNANDO GONSALES











FIM
Fonte: Folha de São Paulo, Caderno +Mais!, 22/11/2009.
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nós somos filhos da mesma mãe!

Para despertar sua alma, alterar seus batimentos, apressar seus passos e lhe abrir os olhos. Pois hoje não é um feriado comum, não é só um dia de ócio, praia e festa, mas, principalmente, um dia de luta.

Mãe
Por Mario Luiz

Mãe Negra que na Savana

Deu-me a luz entre os leões

Sob um rubro pôr-do-sol

Que nossa pele inflama.


Mãe Guerreira, protetora e gentil,

Olhai por teus filhos que sangram

Por entre tuas mãos trêmulas,

Submetidos à condição servil.


Mãe Natureza, selvagem e amável,

Aceitai-nos em teus braços.

Saciando a fome de almas esquecidas

E corpos miseráveis.


Mãe Africana, perdão, mamãe... perdão

Se para longe de ti me levaram,

E na terra de Vera Cruz me forçaram

A silenciar tua voz em meu coração.


Que as chibatadas que lambem minhas costas

Possam servir para despertar a força que plantaste em minh’alma.


Oiram Ziul


Fonte: http://www.mosaicoepoesia.blogspot.com/


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Dia Nacional da Consciência Negra

20 de novembro

ZUMBI - A CONSCIÊNCIA NEGRA DA RESISTÊNCIA E DA LIBERDADE