domingo, 7 de janeiro de 2018

A COLUNA PRESTES E A HISTÓRIA OFICIAL: A FALSIFICAÇÃO DA HISTÓRIA

Por Anita Leocadia Prestes
historiadora



Ao considerarmos que vivemos numa sociedade dividida em classes antagônicas, na qual a burguesia detém o poder de Estado e controla os principais meios de comunicação, somos obrigados a reconhecer que a história oficial – aquela que é ensinada nas escolas e difundida pelos principais veículos de divulgação – expressa os interesses dos setores dominantes nesse Estado burguês.

            Dessa forma, os “intelectuais orgânicos” (expressão cunhada por Antônio Gramsci) da burguesia, ou seja, os intelectuais que consciente ou inconscientemente servem aos interesses dessa classe são sempre levados a elaborar a história oficial. Abdicam, portanto, de qualquer compromisso com a “supremacia da evidência”, que, para o historiador, segundo Eric Hobsbawm, deve ser o “fundamento de sua disciplina”.[1]

            A história oficial da Coluna Prestes – a epopeia brasileira da Marcha que percorreu 25 mil quilômetros pelo Brasil, durante mais de dois anos na década de vinte do século passado, sem sofrer nenhuma derrota, vencedora de dezoito generais do Exército brasileiro, lutando objetivamente contra o domínio do poder de Estado pelas oligarquias agrárias – é mais um exemplo dessa falta de compromisso com a “supremacia da evidência”.

            Na minha tese de doutoramento, publicada posteriormente em livro, reeditado em quatro edições[2], pude demonstrar, através de pesquisa realizada em numerosas fontes documentais, que a formação da Coluna Prestes teve lugar no Noroeste do estado do Rio Grande do Sul, no final de 1924. Em manobra que inaugurou a original estratégia da chamada guerra de movimento, os 1.500 combatentes sob o comando de Luiz Carlos Prestes, então jovem capitão do Exército, romperam o cerco da cidade de São Luiz Gonzaga, constituído por 14 mil homens das tropas governistas, considerado então intransponível. Tinha início a Marcha da Coluna Invicta, à qual, por escolha dos seus participantes, Prestes emprestaria seu nome.[3]

À frente da Coluna Prestes, chega ao encontro dos rebeldes paulistas. Benjamin Constant, oeste do Paraná, 11 de abril de 1925.


            Vencendo toda sorte de dificuldades e sob o fogo constante das forças militares mobilizadas pelo governo de Artur Bernardes, a Coluna Prestes atravessou os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, chegando vitoriosa, em abril de 1925, à região de Foz do Iguaçu no estado do Paraná. Enquanto isso, acossados pelas tropas federais comandadas pelo general Cândido Mariano Rondon, os rebeldes paulistas que haviam se levantado na capital de São Paulo em julho de 1924, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes e do major da Força Pública desse estado Miguel Costa, encontravam-se nessa região desde agosto daquele ano. Em contraste com a estratégia que fora inaugurada pela Coluna Prestes, era adotada por eles a chamada guerra de posição, tradicionalmente empregada pelo Exército brasileiro, o que resultara em repetidas derrotas frente ao poderoso inimigo, a mais grave na cidade de Catanduvas.[4]

            Durante reunião realizada com a participação de Prestes e dos chefes militares paulistas, ficaria evidente que estes se consideravam derrotados e, na sua maioria, pretendiam optar pelo exílio. Era uma solução inaceitável pelos combatentes da Coluna Prestes que, vitoriosa, pretendia dar continuidade ao périplo pelo Brasil. O major Miguel Costa e alguns poucos chefes paulistas aceitaram os argumentos de Prestes e decidiram incorporar as tropas rebeldes paulistas à Coluna Prestes, então reorganizada com a participação de gaúchos e paulistas. Foi criada a 1ª Divisão Revolucionária, constituída pelas brigadas “São Paulo” e “Rio Grande”. Por ser o oficial mais velho entre os que permaneceram na Marcha, Miguel Costa foi nomeado seu comandante. Prestes seria o chefe do Estado Maior. Devido à liderança por ele exercida, Miguel Costa na prática lhe viria a entregar o comando da Coluna. No Paraná, na realidade, houve a incorporação das tropas paulistas à Coluna Prestes.[5]   

            Embora as conclusões apresentadas em minha tese de doutoramento sejam de conhecimento público há quase trinta anos, a história oficial insiste em ignorar os acontecimentos relacionados com o rompimento do cerco de São Luiz Gonzaga, a formação da Coluna Prestes no Rio Grande do Sul, sua marcha vitoriosa até o Paraná, as derrotas sofridas pelos rebeldes de São Paulo e a incorporação das tropas paulistas à coluna comandada por Luiz Carlos Prestes.

            Na medida em que Prestes aderiu ao comunismo e, a partir dos anos trinta, tornou-se a liderança comunista mais destacada no Brasil, as classes dominantes do país e seus intelectuais orgânicos desenvolveram – e continuam a desenvolver – esforços para apagar seu protagonismo na história do século XX e produzir uma história oficial em que tanto a Coluna Invicta quanto outros episódios desse período são deliberadamente distorcidos e falsificados.

Em texto recentemente publicado pelo Instituto Moreira Salles[6], mais uma vez se afirma que “as colunas, unidas, resolveram iniciar uma nova marcha, que se torna o ponto de partida da chamada Coluna Miguel Costa-Prestes”[7], reiterando a versão consagrada pela história oficial, segundo a qual não são reconhecidos os sucessos da Coluna Prestes formada no Rio Grande do Sul, as derrotas dos paulistas no Paraná e a incorporação destes às tropas chegadas do Sul. É a forma encontrada de minimizar o protagonismo de Luiz Carlos Prestes não só à frente da Marcha da Coluna, mas também sua atuação destacada durante os anos que se seguiram, privando as novas gerações do conhecimento de suas propostas e do seu legado revolucionário voltado para a solução dos graves problemas enfrentados pelo povo brasileiro.

Outro exemplo retirado do mesmo texto diz respeito ao episódio protagonizado por Lampião e pelo Padre Cícero, quando o sacerdote atraiu o chefe cangaceiro a Juazeiro do Norte para oferecer-lhe, em nome do presidente Artur Bernardes, a patente de capitão do Exército, assim como dinheiro, armamento, munição e fardamento ao seu bando, com o objetivo de que participasse da perseguição à Coluna Prestes. Segundo o relato de Prestes[8], Lampião optou por não combater os rebeldes da Marcha, afirmação que, contudo, é posta em dúvida no referido texto. Mais um exemplo do empenho da história oficial em promover o descrédito do comandante da Coluna.[9]

Numerosos exemplos de falsificação pela história oficial de acontecimentos históricos que contaram com a participação de Luiz Carlos Prestes e dos comunistas poderiam ser citados. No texto publicado pelo Instituto Moreira Salles, volta-se a repetir o chavão de que Prestes teria apoiado o movimento “queremista”[10], que durante o ano de 1945 demandava uma “Constituinte com Getúlio”, quando pesquisas realizadas em documentos desse período revelam que isso não corresponde à realidade, pois a posição dos comunistas e de Prestes à época era de luta por uma Constituinte livremente eleita e democrática.[11]

Diante do exposto, cabe aos historiadores e aos cientistas sociais, alinhados com a perspectiva de que a produção historiográfica deva contribuir para o avanço dos setores sociais que se batem por um futuro de justiça social e liberdade para toda a humanidade, não poupar esforços no combate às manifestações resultantes de narrativas marcadas pela falsificação da história de acordo com os interesses antipopulares e espúrios dos donos do poder.

Defendamos uma história comprometida com a “supremacia da evidência”, conforme postulava Eric Hobsbawm.

                                                                                                Em janeiro de 2018.



[1] Eric Hobsbawm, Sobre a história (São Paulo, Companhia das Letras, 1998), p.286.
[2] Anita Leocadia Prestes, A Coluna Prestes (São Paulo, Paz e Terra, 1997), 4ª edição.
[3] Ibidem, capítulo III.
[4] Ibidem, capítulo IV.
[5] Idem.
[6] Angela de Castro Gomes, “A República dos bombardeios”, em Angela Alonso e Heloisa Espada (org.), Conflitos: fotografia e violência política no Brasil, 1889-1964 (São Paulo, IMS, 2017), p.149 a175.
[7] Ibidem, p.158.
[8] Anita Leocadia Prestes, A Coluna Prestes, cit., p.245-246, 252.
[9] Angela de Castro Gomes, “A República dos bombardeiros”, cit., p.159-160.
[10] Ibidem,  p.172.
[11] Ver Anita Leocadia Prestes, Os comunistas brasileiros (1945-1956/58): Luiz Carlos Prestes e a política do PCB (São Paulo, Brasiliense, 2010), p. 73-74.

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"Este é um livro há muito esperado. Sobre os assuntos aqui tratados, sua autora já escreveu numerosos artigos e capítulos em coletâneas, alguns dos quais retirados da tese de doutorado que deu origem à presente publicação. Africanos livres aprofunda e expande a tese e se destaca pelo admirável trabalho de pesquisa, a vasta bibliografia consultada e a qualidade interpretativa. Trata-se de obra enciclopédica sobre seu tema central, que são os cerca de onze mil cativos resgatados do tráfico ilegal que ganharam no Brasil o título de “africanos livres”, mas também das centenas de milhares que o contrabando conseguiu sorrateiramente introduzir no país.É preciso dizer logo na entrada ao leitor que “africano livre” foi, antes de mais nada, vítima de um eufemismo jurídico, pois se trata de expressão tipicamente ideológica que esconde uma realidade bem diversa da enunciada. Pois, como aqui demonstrado à exaustão, os africanos livres eram submetidos a um regime de trabalho forçado, com o suposto objetivo de educá-los para a liberdade, um longo aprendizado de catorze anos, em tese, mas que na prática, de modo sistemático, ultrapassava essa marca, sobretudo para aqueles empregados no setor público.A própria concepção de liberdade que se procurou impor aos africanos representava uma afronta aos valores que conheceram lá do seu lado do Atlântico. Liberdade para os africanos era pertencer a uma comunidade, a uma linhagem, no interior da qual, a cada fase do ciclo de vida, se submetiam a rituais significativos de iniciação e se verificava sua inserção no processo produtivo. A liberdade que se impôs aos africanos resgatados do tráfico no Brasil e outras regiões do continente americano era de outra natureza e tinha dois componentes axiais: a mercantilização da força do trabalho — e não mais do trabalhador enquanto corpo escravizado — e a colonização da mente pela cristianização e outras formas de pensamento e comportamento, um artifício de reeducação semelhante ao que se fazia com o escravo. Esse, naturalmente, era o plano. Na prática, o que se verificou foi o consumo voraz de uma mão de obra baratíssima posta à disposição de arrematadores privados e do Estado, e este, ao mesmo tempo que controlava a distribuição desses trabalhadores, se servia deles em instituições públicas, obras e projetos de interiorização e modernização através do país." (trecho do prefácio do historiador João José Reis)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

¿ES ISRAEL UN ESTADO TÓXICO?

Por Alejo Brignole *

Cualquier verdadero humanista estará de acuerdo en que el pueblo hebreo, esa entidad sociocultural y étnica llamada Israel, debe gozar de un territorio propio y vivir bajo un Estado-Nación que sirva de cobijo y referencia geográfica a un pueblo perseguido, segregado y aniquilado durante milenios.

Fue la Shoá u Holocausto perpetrado por Alemania durante el nazismo el que sirvió para concretar el viejo proyecto sionista de poseer una tierra, un espacio que diera cohesión territorial a un pueblo en la diáspora.

A partir de entonces, Israel tuvo la gran oportunidad de erigirse en un anhelado ejemplo de tolerancia entre los pueblos, de respeto a la dignidad humana y de la concordia como base fundamental para el progreso humano. Sin embargo Israel —sus políticos, gobernantes y los sectores religiosos más radicales— decidió perder para el mundo esta ocasión inmensa, bella y perdurable: decir nunca más a los genocidios, al odio racial y a la persecución de unos pueblos contra otros. 

Incluso haciendo un muy sencillo análisis histórico-político desde su fundación en 1948, el Estado de Israel no solamente reiteró con sus vecinos palestinos los crímenes aberrantes que padeció en los últimos dos mil años, sino que además copió algunas metodologías de sus verdugos alemanes. La terrible paradoja reside además en que muchos de aquellos judíos sionistas impulsores del nuevo Estado fueron los que padecieron en sus carnes los rigores del Auschwitz, Sobibor o Treblinka.

Tristemente, ello no bastó para abrazar con fuerza un humanismo a ultranza. Por el contrario, Israel fue perfilándose como una nación agresora, promotora de la tortura y del terrorismo de Estado. Con los años, Israel fue mutando en un Estado peligrosamente militarista que abandonó el concepto de su legítima defensa y puso su aparato bélico al servicio de su propio lebensraum, aquel espacio vital que los nazis buscaban hacia el Este europeo y que concluyó con el Holocausto de 6 millones de judíos polacos, alemanes, checoslovacos y de muchas otras nacionalidades.

Esa ambición expansionista alemana que Israel supo replicar en su ideología y en sus métodos hoy la padece el pueblo palestino, obligado a una convivencia atroz con un Estado que margina y arrasa a sus vecinos. Que los reduce a ghettos como la Franja de Gaza y los presiona instalando asentamientos de colonos ilegales que avanzan sobre un territorio palestino establecido y reconocido por la Resolución 181 de la ONU de 1947, entre otros protocolos.

Curiosamente, aquellos que critican los crímenes contra la humanidad que Israel perpetra casi a diario son inmediatamente acusados de antisemitismo. Acusación aplicada también a los defienden la idea de un Estado de Israel autónomo y soberano. Bajo este endeble escudo dialéctico, Israel justifica sus horrores y renueva así el pathos que el mundo debe erradicar y cuyo epítome fue aquel Holocausto de la II Guerra Mundial.

En 2002, el premio Nobel de Literatura el portugués José Saramago fue considerado persona non grata en Israel, por comparar la política israelí contra los palestinos con el campo de exterminio de Auschwitz. En respuesta a la reflexión del escritor, el Estado de Israel decidió censurarlo retirando todos sus libros a la venta en el país.

Teniendo en cuenta el ideario político y moral del autor portugués fallecido en 2010, reflejado además en toda su obra y en su pensamiento escrito (siempre en defensa de un humanismo a ultranza), difícilmente podemos acusar a Saramago de antisemita o con vestigios de cualquier postura racista o contraria a los valores humanos más universales.

Mucho antes de este episodio, el escritor italiano Primo Levi —sobreviviente de la Shoá y en cuya obra narra todo aquel horror— se fue distanciando política y emocionalmente del nuevo Estado de Israel por considerar que su deriva filosófica y política contradecía todo lo que él defendía: la tolerancia y el diálogo como punto de partida para una construcción civilizatoria.

La creciente brutalidad del terrorismo de Estado aplicado contra los palestinos produjo también severas grietas internas en el propio Ejército israelí. Muchos objetores de conciencia (también patriotas y amantes de un Israel soberano) comprendieron que algunas prácticas eran claramente genocidas y de lesa humanidad. Este movimiento denominado Omat LeSarev (Valor Para Negarse), también conocido como Refúsenik, aglutina a oficiales, pilotos militares y efectivos varios, que rehúsan ser parte de una guerra de expansión colonial, de matanzas sistemáticas y vulneraciones metodológicas de la dignidad humana. Al respecto, resulta imprescindible la lectura del libro Rompiendo Filas - Negarse a Servir en Gaza y Cisjordania, escrito por la periodista israelí Ronit Chacham, en el que reúne testimonios de soldados y oficiales de rango que repudian el giro fascista de su país.

Pero también en el campo diplomático Israel avanza por fuera del derecho internacional, siempre con la anuencia y el apoyo de Estados Unidos, al cual le debe su supremacía militar y estratégica (siempre a cambio de defender y sostener los intereses de Washington en Oriente Próximo).

Días pasados, Donald Trump reconoció oficialmente a Jerusalén como capital israelí y aseguró que EEUU trasladaría allí su Embajada. Acto seguido, el primer ministro israelí, Benjamín Netanyahu, propuso unilateralmente trasladar las embajadas internacionales a Jerusalén, cuando en realidad la ciudad goza de un estatus tutelado por las Naciones Unidas establecido por la Resolución 181 ya señalada y los Acuerdos de Camp David de 1978, bajo el auspicio de la Administración Carter (1977-1981), por ser una ciudad santa para las tres grandes religiones monoteístas. Al igual que la comunidad judía, el Islam y la fe católica tienen allí sus lugares más sagrados.

Con esta maniobra, Washington intenta legitimar lo que aún está en disputa diplomática y sujeto a resoluciones de la ONU, que no reconoce la soberanía de ningún Estado sobre la parte Oriental de la ciudad. Cuando Israel se anexionó formalmente en 1980 la parte Este de la Ciudad Santa después de haberla ocupado en la guerra de 1967, las representaciones diplomáticas establecidas en Jerusalén  —de las cuales 12 eran latinoamericanas— obedecieron la Resolución 478 del Consejo de Seguridad de la ONU y se fueron de allí. Hoy Washington promueve el camino contrario e incurre en una de sus muchas violaciones a los mandatos de la ONU.

Apenas siete países votaron a favor de la irresponsable propuesta de Trump el jueves 21 de diciembre en la Asamblea General de la ONU. Hubo en cambio 128 naciones que repudiaron la invitación de Trump, mientras que 35 se abstuvieron y otras 21 no ejercieron su voto. Y todo ello bajo las amenazas de Donald Trump de castigar a los que se pronunciaran en contra de las intenciones de Washington. Al respecto, el presidente Evo Morales escribió en Twitter: “Trump quisiera tener Estados sumisos, sin embargo, con los resultados de esta votación sobre Palestina en Naciones Unidas, tenemos Estados soberanos que representan a sus pueblos con dignidad e identidad. ¡Que viva la liberación de los pueblos del mundo!”.

Por fortuna, esas 128 naciones demostraron que el peso de la hegemonía estadounidense se encuentra en clara decadencia y que Israel es identificado, cada vez más, como un Estado tóxico para la convivencia internacional.

* Escritor y periodista

FUENTE: Cambio 

120 ans de la naissance de Carlos Prestes héros populaire, communiste brésilien : entretien avec Anita Prestes

Brésil – Il y a 120 ans naissait l’un des principaux héros populaires du Brésil moderne, Carlos Prestes. Militaire soucieux de défendre les valeurs de liberté et d’égalité pour son peuple, Carlos Prestes est l’un des leaders de la célèbre colonne victorieuse, également appelé de son nom Colonne Prestes, cette marche rebelle qui va parcourir au mitan des années 1930 tout le Brésil, sur plus de 25 000 kilomètres et conduire au renversement du régime oligarchique. L’une des plus grandes épopées de ce 20e siècle.

Suite à cette expérience, Prestes poursuit sa lutte comme dirigeant du Parti Communiste. Un engagement communiste qu’il n’abandonnera jamais malgré les pires adversités, y compris lorsqu’à la fin de sa vie il prend ses responsabilités et quitte le PCB dont il dénonce alors publiquement la mutation réformiste. Fort de relations avec plus de 120 partis communistes dans le monde, les militants du PRCF ont des liens solides et réguliers avec les communistes brésiliens. En ces jours anniversaires, www.initiative-communiste.fr publie l’échange entre Georges Gastaud et Anita Prestes, fille du grand leader communiste brésilien et militante communiste.

Prezado camarada Georges Gastaud. Cher camarade Georges Gastaud, Merci pour l’occasion qui m’est ainsi donnée d’évoquer la mémoire de Carlos Prestes. Avec mes meilleurs vœux et mes salutations communistes, Anita, L. Prestes.

Georges Gastaud : Quel souvenir gardes-tu de ton père sur le plan humain ?

Anita Prestes: Mon père était un grand humaniste et, pour cette raison même, il a consacré sa vie à la lutte pour la transformation du monde, qu’il considérait possible seulement à travers la réalisation de la révolution socialiste et la construction d’une société où règnent la justice sociale et la démocratie pour tous les hommes et femmes

Georges Gastaud : Pour nos lecteurs français, peux-tu résumer sa trajectoire politique et militaire au service des travailleurs brésiliens ?

Anita Prestes: La pertinence de la figure de Luiz Carlos Prestes dans l’histoire du Brésil au XXe siècle est devenue indiscutable. Sa participation à la vie politique nationale s’étend sur une période de 70 ans, coïncidant avec le «bref vingtième siècle», défini et analysé par E. Hobsbawm. Calomnié ou réduit au silence par les propriétaires du pouvoir pendant sa vie, après sa mort, Prestes a vu son histoire falsifié par ceux la mème qui prétendaient légitimer les intérêts politiques qu il a toujours combattus. . Plusieurs exemples peuvent être cités, qui contribuent tous à faire du sauvetage de sa trajectoire politique et en particulier de son héritage révolutionnaire des enjeux importants et très pertinents.

Dans le parcours de Prestes, l’enfance et la jeunesse constituent des périodes importantes. L influence décisive de sa mère Leocadia Prestes, qui se révèle dans la formation de son caractère, l’incitation à cultiver un intérêt constant pour l’évolution politique au Brésil et dans le monde, par exemple une préoccupation constante pour les problèmes sociaux et la solidarité totale avec l’engagement de sont fils dans la lutte révolutionnaire est un aspect fondamental pour expliquer les caractéristiques les plus frappantes de Prestes au cours de sa vie d’adulte.

Une deuxième phase dans la vie de Luiz Carlos Prestes est constituée par sa participation aux mouvement des Lieutenants et, en particulier par son rôle d’avant garde à la tête de la Colonne Invincible qui a pris son nom (colonne prestes, lire ci après ndlr). A ce stade, ou il devient un patriote indigné par les abus des puissants, Prestes devient un leader révolutionnaire qui a combattu les armes à la main contre le pouvoir oligarchique établi lors de la Première République. Au cours de la marche de la Colonne, il devient convaincu que la proposition libérale des « lieutenants » n’a pas été la solution aux graves problèmes sociaux du peuple brésilien – en particulier pour les travailleurs agricoles, avec qui ils entrent en contact tout au long de leur 25 000 km du parcours de la colonne à l’intérieur du pays.

Se référant à  l’expérience d’Euclides da Cunha se plongeant à l’intérieur du Brésil, le sociologue Francisco Weffort a souligné « l’expérience dramatique de l’intellectuel républicain venu d’une grande ville qui découvre une nouvelle vision du pays à regarder la misère et la grandeur des « compatriotes grossiers indomptables. ” Un quart de siècle plus tard, Prestes découvre le Brésil en traversant l’intérieur du pays, la révolte avec la majorité des Brésiliens et le constat du “crime” du gouvernement du pays selon les termes de Euclides da Cunha est commune a Prestes et Antonio de Siqueira Campos [1], son camarade et ami, pour qui il a une admiration profonde.

Les années d’exil en Argentine et en Uruguay donnent à Prestes l’occasion d’étudier le marxisme et d’approcher le mouvement communiste en Amérique latine, ainsi que les représentants de l’Internationale communiste (IC) à travers son bureau sud-américain.

L’année 1930 a une grande signification dans la vie de Prestes : c’est le moment où, face à la pression d’assumer la direction du mouvement que l’on pourrait appeler la “révolution des 30”, il rompt avec ses anciens camarades, les “lieutenants”, et se prononce publiquement en faveur du programme du Parti communiste . C’est le moment où Prestes repousse la perspective de devenir un leader au service des intérêts des élites oligarchiques et / ou bourgeoises, optant pour l’engagement avec “ceux d’en bas”, les exploités et les opprimés, les travailleurs. Prestes adopte alors le marxisme comme la théorie directrice de sa vie et du communisme comme un objectif auquel il se consacrerait jusqu’à la fin de ses jours.

À partir de 1934, lorsque Prestes est finalement accepté dans les rangs du PCB, sa vie s’identifie de plus en plus à l’histoire de ce parti. Dans sa biographie politique, la relation établie entre le Parti communiste et une direction nationale, de grand prestige et charismatique, a une importance significative. Il s’agit d’une relation entre parti fondé en 1922 qui a eu une action importante dans plusieurs moments de l’histoire contemporaine du pays – les travailleurs Paysans du Bloc (BOC) en 1928 à 1930, le mouvement anti-fasciste et l’Alliance de libération nationale (ANL) en 1934-1935, la politique de “l’union nationale” en 1938-1947, etc. – et le Chevalier de l’Espérance, accepté dans le PCB avec une grande réticence des dirigeants. Ceux-ci, craignant son immense prestige populaire, l’accueilleront en raison de la détermination de l’Internationale Communiste. Plus tard il sera reconnu que grâce au prestige et au charisme de son leadership de sa direction, Prestes a contribué de manière décisive à l’avancement de ANL et plus tard aux succès de la politique de « l’unité nationale », ainsi que pour assurer l’unité du parti dans des moments de crise, comme ce fut le cas en 1958 et après le coup d’État civil-militaire de 1964.

Nous sommes confrontés à un phénomène singulier: un dirigeant charismatique et populaire est incorporé dans le Parti communiste, devenant son principal dirigeant, ainsi que la principale référence du communisme au Brésil. Une telle imbrication des trajectoires du PCB et de Luiz Carlos Prestes confirme à la fois qui a été nommé par les classiques du marxisme comme ce qui est révélé dans la pratique des processus révolutionnaires sur la scène mondiale: le rôle important de la personnalité dans l’histoire. Il n’y a aucun processus révolutionnaire connu sans chefs éminents, comme Lénine dans la révolution russe, Fidel Castro dans la Révolution cubaine et, plus récemment, Hugo Chavez dans les luttes du peuple vénézuélien. Ceux qui font l histoire sont les masses populaires mais ce “faire” n arrive pas sans l intervention des dirigeants, qui expriment leurs préoccupations et agissent dans les circonstances historiques concrètes, permettant de conduire à des victoires, mais aussi des défaites la tournure des événements n’étant jamais tracée d’avance. Tout dépend de la corrélation des forces à chaque instant.

La direction de Luiz Carlos Prestes est identifiée à la lutte pour le socialisme et le communisme au Brésil, ce qui s”explique par la cohérence révolutionnaire dont il a fait montre durant soixante ans depuis son Manifeste de mai 1930 [2] jusqu’à sa mort en 1990. L’engagement de Prestes était toujours en faveur du socialisme révolutionnaire. Sa vie politique a été marquée par la répudiation constante des tendances réformistes, à savoir la possibilité qu il considérait illusoire d atteindre le socialisme par des réformes. Considéré par les libéraux comme un politique inflexible et maladroit, il a provoqué la haine des classes dominantes et de leurs intellectuels organiques (comme A. Gramsci ) puisqu’il n a jamais abdiqué des idéaux auxquels il a dédié sa vie. Sa rupture en 1930 avec les détenteurs du pouvoir était un geste inacceptable pour les classes dirigeantes au Brésil, qui ne lui pardonneront jamais son choix pour les travailleurs et, en général, pour les exploités. Voilà pourquoi ils ont eu recours de façon systématique à la calomnie contre le leader communiste, quand ce n’était pas au silence ou à la falsification de sa carrière comme un moyen d’effacer l’héritage du Chevalier de l’espérance de la mémoire des nouvelles générations de Brésiliens.

On peut dire que Luiz Carlos Prestes était le principal intellectuel organique révolutionnaire du XXe siècle au Brésil, si l’on reprend le terme d’intellectuel organique proposé par le philosophe et dirigeant communiste italien Antonio Gramsci, nous considérons comme tels intellectuels les militants qui luttent pour des transformations radicales de la société exprimant les intérêts des secteurs sociaux révolutionnaires ou potentiellement révolutionnaires. Cette qualification est justifiée, puisque Luiz Carlos Prestes a joué un rôle décisif à l’avant garde de la colonne invincible, qui a parcouru le Brésil durant de deux ans, préparant les conditions pour le renversement de la République oligarchique en 1930. Prestes était le chef le plus important du mouvement antifasciste au Brésil dans cette décennie et, à partir des années 1940, est devenu le leader communiste le plus important du pays. Plus tard, convaincu que les objectifs révolutionnaires du PCB avaient été abandonnés et remplacés par le réformisme, Prestes n’a pas hésité à rompre avec la direction du parti, rendant publique sa lettre aux communistes en Mars 1980 et a consacré les dix dernières années de sa vie à la lutte pour la formation d’un parti révolutionnaire dans notre pays.

Tout comme Fidel Castro et les révolutionnaires cubains comptaient sur l’héritage révolutionnaire de José Marti, la révolution brésilienne ne peut pas avancer sans s’appuyer l’héritage de Luiz Carlos Prestes.

Georges Gastaud : À ton avis, comment cet héritage révolutionnaire peut-il fructifier aujourd’hui ?

Anita Prestes: Je pense qu’aujourd’hui, la meilleure façon de préserver l’héritage révolutionnaire de Prestes est de suivre sa détermination insistante à ce que les forces communistes et les forces de gauche  se consacrent principalement à l’organisation populaire autour de leurs revendications les plus profondes, contribuant à la formation de nouveaux leaders révolutionnaires et la conscientisation de larges secteurs de notre peuple.

traduction depuis le portugais www.initiative-communiste.fr – commission internationale du PRCF

[1] Le Lieutenant Antônio de Siqueira Campos, héros du “18 du Fort” et commandant du 3ème Détachement de la Colonne Prestes.

[2] Document dans lequel Prestes, sans se déclarer communiste, a adopté le programme d’une «révolution agraire et anti-impérialiste» proposée par le PCB.

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Ocean Sur
Una editorial latinoamericana

COLECCIÓN HISTORIAS DESDE ABAJO
Coordinador: Néstor Kohan

Los monopolios de la (in)comunicación recrean día a día la hegemonía de la historia oficial. Hartos de esos discursos globalizados y apologéticos, necesitamos nadar contra la corriente y recuperar la tradición revolucionaria. ¡Basta ya de aplaudir a los vencedores! ¡Basta ya de legitimar lo injustificable! Frente a la historia oficial de las clases dominantes, oponemos una historia radical y desde abajo, una historia desde el ángulo de los masacrados, humillados y desaparecidos.

En cada acontecimiento de la historia contemporánea se esconden la guerra de clases, la lucha entre la dominación y la rebelión; entre el poder, la resistencia y la revolución. Cada documento de cultura es un documento de barbarie. Debajo de la superficie, laten y palpitan las rebeldías de los pueblos sometidos, la voz insurrecta de las clases subalternas, los gritos de guerra de las explotadas y los condenados de la tierra.

Esta colección, de autores jóvenes para un público también joven, pensada para las nuevas generaciones de militantes y activistas, se propone reconstruir esas luchas pasándole a la historia el cepillo a contrapelo. La contrahegemonía es la gran tarea del siglo XXI.



LUCIANA LARTIGUE
2011

La Revolución mexicana ha trascendido como una gesta heroica que marcó el inicio de las grandes conmociones sociales del siglo XX. Este proceso, que ejerció una profunda influencia en las luchas de América Latina, potenció la creación de organizaciones campesinas y obreras, de partidos políticos socialistas, de movimientos nacionalistas, antiimperialistas, anarquistas e indigenistas e inspiró a los precursores del pensamiento marxista latinoamericano.

Al calor de los combates militares que condujeron Emiliano Zapata y Pancho Villa, los campesinos mexicanos acumularon el poder necesario para emprender transformaciones de carácter social y político sin precedentes en nuestro continente. Sin embargo, aunque la Revolución mexicana ocurrió hace ya un siglo, las causas esenciales de su estallido continúan vigentes.









25 poetas con la España revolucionaria en la Guerra Civil
Selección y prólogo: MARIANO GARRIDO

Es esta una antología de 25 poetas revolucionarios españoles y latinoamericanos que lucharon por la causa republicana durante la Guerra Civil española. Poetas que pusieron su pluma al servicio de la vida: contra el fascismo, por la defensa de la causa popular, y en muchos casos, por la revolución.

En esta selección hay poesías que exaltan la batalla por la libertad, que apuestan al triunfo, que lloran a los caídos o que lamentan el destierro. Poetas que escribieron y que tomaron las armas. Poesía que se escribe con la pluma; poesía que se escribe con el plomo.  

Sus páginas incluyen un texto introductorio que defiende a la poesía militante y de denuncia como un arma en las luchas de los pueblos frente a la poesía como «arte puro» al margen del devenir histórico.

Reúne obras de notables intelectuales como Miguel Hernández, Pedro Garfias, León Felipe, Antonio Machado, César Vallejo, Pablo Neruda, Vicente Huidobro, María Luisa Carnelli y Nicolás Guillén, entre otros.



La otra cara del capitalismo
PATRICIA AGOSTO
2008

Una breve historia del ascenso y caída del nazismo, el mayor régimen criminal y genocida que ha conocido la humanidad.

Un examen de las causas internas e internacionales de la consolidación del nazismo, así como una radiografía de los sectores que acumularon capital y se enriquecieron en medio de los campos de concentración y exterminio. 

Enfatiza también en aquellas fuerzas sociales y de resistencia que se opusieron al atroz régimen. Las experiencias históricas muestran que siempre frente a regímenes totalitarios han surgido voces de resistencia a pesar del silencio cómplice de muchos. Son las mismas voces que hoy siguen resistiendo frente a las imposiciones de un sistema, del que el nazismo formó parte, que tiene mucho de totalitario, aunque se disfrace de defensor de la democracia y de los derechos humanos.






AGUSTÍN PRINA
2008 

Una breve narración de la epopeya de Vietnam y sus combatientes. Relata las victorias sobre Japón, Francia y los Estados Unidos; la lucha armada y política de esta pequeña nación y su indoblegable espíritu. Rescata las enseñanzas políticas de Ho Chi Minh y el general Giap, así como la repercusión de la causa vietnamita en las juventudes occidentales, el movimiento antibelicista norteamericano e internacional, y la cultura toda.

El autor emprende un ilustrativo análisis del escenario internacional en el  momento en que ocurre la intervención militar de los Estados Unidos en Vietnam. La naturaleza expansionista del imperialismo se inscribe así en el contexto de la guerra fría y el intento de aniquilación de los focos comunistas en el Tercer Mundo. Sin embargo, ante esta arremetida el pueblo vietnamita supo organizarse y derrotar a un inmenso poder militarista, poseedor de la más avanzada tecnología de guerra.

La guerra de Vietnam integra en sus páginas un amplio recorrido histórico por el país asiático, una minuciosa cronología, y diversos anexos que incluyen manifiestos, discursos, poemas y canciones.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Todas as crianças podem aprender?

Por Luiz Carlos de Freitas
Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.

Esta é a típica questão equivocada que a reforma introduziu para o público em geral com a finalidade de legitimar-se. Quando colocada nos meios educacionais profissionais, é respondida positivamente e não produz grandes polêmicas. É pensamento consolidado neste campo de estudo. A questão é introduzida como polêmica pela reforma empresarial da educação que, alegando falar em nome das crianças mais pobres, usualmente com maior dificuldade para aprender, insiste em polemizar com a finalidade de culpar a escola e seus profissionais pela não aprendizagem destas, tentando com isso justificar sua política educacional de controle sobre a escola. A escola está sendo intensamente disputada.

No entanto, nos meios educacionais, a questão é outra. Como educadores, tratamos o problema por um outro ângulo: quais são as condições que temos que criar para que todas e cada uma das crianças possam de fato aprender? Essa tem sido uma luta histórica dos educadores, que agora a reforma tenta subverter e chamar para si.

A reforma empresarial, ao contrário dos educadores, proclama a possibilidade e necessidade de todas as crianças aprenderem e, ato seguido, minimiza a importância das reais condições necessárias para a aprendizagem, substituindo-as por “controle”. Tal controle envolve a ação do professor no interior de uma gestão forte, com materiais didáticos definidos, objetivos a serem atingidos e testes de avaliação com consequências para alunos, professores e gestores. Ultimamente, a reforma tem apostado nas teses da privatização como forma de implementar seu controle.

De fato, os empresários somente agora, com o desenvolvimento acelerado das forças produtivas baseadas em alta tecnologia, lembraram-se da educação. Enquanto a produção (e o consumo) não a demandou em maior escala, não se viu empresário clamando por mais educação, pois trabalhador com maior formação é trabalhador mais caro. Enquanto o capital não engendrou uma solução para este problema, não demandou educação para todos.

Os reformadores não negam a existência de outras condições de aprendizagem, mas também não as afirmam como necessárias e por vezes, as desqualificam. Essa forma de pensar os leva frequentemente à tese de que é o “professor que faz a diferença”, mesmo em condições adversas. De fato, o professor pode muito, mas não pode tudo em quaisquer condições – especialmente com turmas grandes, maiores de 20 estudantes que retiram sua condição de lidar com a diversidade dos estudantes.

A reforma frequentemente está procurando alguma escola que atenda crianças mais pobres e tenha um IDEB mais alto para elevá-la à condição de exemplo nacional que comprove sua tese sobre a supremacia do “professor empenhado” ou “sob controle”. Outra não é a razão pela qual os reformadores americanos desenvolveram uma forma de pagamento dos professores baseada em “valor agregado”, ou seja, o salário depende de quanto o aluno demonstra ter aprendido em testes padronizados.

No Brasil, como nos Estados Unidos, tais teses receberam o endosso dos conservadores e estão desenhando um arcabouço liberal/conservador que restabeleceu, no MEC, a aliança já efetuada por tais forças durante o governo de Fenando Henrique Cardoso. O diferencial é de datas. Hoje, os processos de acumulação de riqueza estão exigindo uma radicalidade maior do que naqueles anos 90. Os liberais entram com as teses de “livre mercado” e os conservadores com as teses da “moralidade” e dos “bons costumes”. Uns e outros de olho na configuração do que a escola vai ensinar em termos tanto de conteúdo como de habilidades sócio-emocionais. A supervisão do processo é da OCDE.

Para quem está em contato com a realidade das escolas, independentemente da questão do salário, que não abordaremos aqui, as condições vão além do empenho dos profissionais da escola. Segundo Diane Ravitch, Arthur Goldstein em seu blog, resume as condições diretamente envolvidas na aprendizagem:

“Primeiro, os alunos devem estar dispostos a fazer o esforço para aprender. Em segundo lugar, o tamanho das turmas não deve ser muito grande. Em terceiro lugar, é absurdo esperar que cada aluno aprenda as mesmas coisas do mesmo modo e ao mesmo ritmo.”

Estas, sem dúvidas, são condições essenciais ligadas à aprendizagem nas escolas. Elas são tão óbvias que custa acreditar que os reformadores não as conhecessem. Conhecem, mas por postura ideológica não podem colocá-las em cena.

A razão de ocultar tais condições óbvias só pode ser esclarecida de fora da escola, a partir de uma análise sociológica da sociedade que a cerca, que complemente a análise cultural, pedagógica e psicológica do fenômeno educativo.

Toda educação é instituída em um determinado tempo e espaço social, os quais tentam conflitivamente determinar os objetivos gerais do processo educativo para atender finalidades postas por tal sistema social. Que em algum lugar e momento possamos fugir a isso, é apenas uma confirmação da regra geral que os reformadores procuram, agora, zelosamente fortalecer com suas propostas, com receio de perder o controle da escola. A escola é um espaço em disputa. Vivendo em uma sociedade estratificada socialmente e em rápido desenvolvimento tecnológico potencializado pela competição inter-empresarial, a escola é demandada a manter tal estratificação, seja em sua forma absoluta, seja relativa.

Estamos assistindo neste momento, por exemplo, o nascimento do “precariado”: um trabalhador relativamente mais informado e treinado, no entanto mais explorado ainda. Uma das variáveis que pospõem a crise do capital é o aumento da exploração combinada com “maior qualificação” exigida pelo avanço das forças produtivas. Márcio Pochmann explica o precariado:

“Como o país não tem condições de criar empregos de qualidade, porque não tem em curso uma política de criar empregos de qualidade, nós vamos gerar agora o desemprego de alta escolaridade. As pessoas estão se formando e não tem emprego compatível com a formação”.

“À luz de outras experiências internacionais o que se verifica é justamente o fracionamento de contratos de trabalho já existentes, dois ou três novos para um posto de trabalho já existente. Isso vai significar mais pessoas sendo contratadas com jornadas menores, os níveis de emprego, as necessidades da economia do capital em relação ao uso mão de obra se mantém o mesmo, o que acontece é que terão jornadas menores de trabalho e portanto mais pessoas serão contratadas.” 
Leia mais aqui.

Uma das maneiras de se manter, pela escola, a estratificação social é exatamente tratar desiguais como se eles fossem iguais: uma vocação clássica da escola capitalista que unifica os tempos de aprendizagem e produz, como consequência, a estratificação dos desempenhos, o que serve de base para criar as “trilhas” de progressão dos estudantes no sistema educacional. Eis porque a reforma empresarial padroniza o processo educativo, seus tempos e espaços, de forma a produzir como resultado a manutenção da estratificação com as características que a sociedade demanda, criando filtros (testes padronizados, por exemplo), entre outras formas.

No entanto, os reformadores desqualificam esta análise como “ideologia de esquerda” e frequentemente a descartam no debate sob o argumento de que “são variáveis que não estão sob controle da escola”. Porém, os fatores externos à escola explicam mais da metade do desempenho acadêmico dos estudantes e isso não pode ser deixado de lado quando se trata de analisar causas da não aprendizagem.

Por definição, o liberal e o conservador não podem reconhecer que a diferenciação na aprendizagem possa ter, também, um componente social forte, proveniente da própria organização da sociedade. Mesmo que existisse, diriam, cabe à escola compensar. Caso reconhecessem o peso desta diferenciação na escola, estariam admitindo os problemas sociais que a esquerda denuncia.

De fato, também cabe à escola lidar com a diferenciação social, mas não para naturalizá-la ou ocultá-la como desejam os reformadores. E claro, é preciso criar as condições para que os professores lidem com tal diferenciação. A ocultação das diferenças não ajuda a resolver a questão. Ajuda menos ainda, assumir autoritariamente que a escola e os professores são os responsáveis por interromper a lógica social dominante. Na realidade, estas são formas de não se resolver o problema.

Instrumentos culturais como a base nacional curricular comum (fixando habilidades, conceitos, sequência e série para aprender de forma unificada e obrigatória), livros didáticos articulados a ela, testes e mais testes, impõem para a educação a função de tratar desiguais como se fossem iguais.

A BNCC aprovada e a reforma do ensino médio, projetos centrais para o governo atual, têm esta função. A BNCC do ensino médio não será diferente da BNCC da educação infantil e do fundamental. Nascerá determinada pela natureza da já realizada reforma do ensino médio, cuja vocação é manter a estratificação social. Isso termina por reduzir a necessária margem de flexibilidade que o professor necessita para desenvolver seu trabalho em sala de aula e contribui para manter a escola dentro dos marcos que interessam à sociedade atual, reduzindo riscos para o sistema.


PARA DOWNLOAD: "A condição histórica da mulher: contribuição da perspectiva histórico-crítica na promoção da educação sexual emancipatória"

De Cláudia Bondim
Prefácio de Dermeval Saviani
Navegando Publicações, 2018

Link para download:

Bonfim, Cláudia. A condição histórica da mulher: contribuição da perspectiva histórico-crítica na promoção da educação sexual emancipatória. Uberlândia: Navegando Publicações, 2018.



Sumário

Prefácio
Dermeval Saviani

Introdução

CAPÍTULO I

Esclarecimento das categorias basilares

CAPÍTULO II

A luta da mulher no século XX

2.1. O itinerário burguês

2.1.1. O movimento feminista sufragista
2.1.2. O Existencialismo e Feminismo Radical de

Simone de Beauvoir

CAPÍTULO III

A original trajetória socialista: o marxismo e sua

contribuição para a superação da opressão da mulher

e a constituição dos estudos de gênero

3.1. Os escritos precursores de Friedrich Engels

3.2. A contribuição ímpar de Rosa Luxemburgo para pensar

politicamente a condição da mulher

3.3. Algumas possíveis conquistas institucionais e legais

sobre a condição da mulher na sociedade socialista russa e

seus desdobramentos – as contribuições de Lenin

CAPÍTULO IV

Alexandra Kollontai e a condição feminina no contexto

de uma sociedade superando as dominações

4.1. Sobre a social condição da mulher, a moral sexual

e a nova mulher

4.2. Sobre o amor como fator social e o matrimônio

4.2.1 O Amor na Sociedade Patriarcal

4.2.2. O Amor na Sociedade Feudal

4.2.3. O Amor na Sociedade Burguesa – a idealização

do amor “romântico”

4.2.4. O Amor na Sociedade Socialista – O amor camaradagem

CAPÍTULO V

A contribuição da pedagogia histórico–crítica para a superação da desigualdade de gênero e a promoção da educação

sexual emancipatória numa perspectiva marxista

Considerações Finais

Referências

Sobre a autora


Editora brasileira lançará livros para apresentar as ideias de Karl Marx às... crianças

POR ANCELMO GOIS
16/12/2017

Marx para miúdos

Em 2018, quando o nascimento de Karl Marx completará 200 anos, sairão, pela Boitempo, dois títulos infantis para apresentar as ideias do filósofo alemão aos miúdos. Ambos pelo selo Boitatá: “O capital para crianças”, de Lilian Fortuny, sobre a obra mais importante de Marx, de 1867; e “O Deus dinheiro”, de Maguma, sobre “Manuscritos econômico-filosóficos” (1844).

Ao todo, a Boitempo lançará mais de dez livros como parte do “Ano Marx”.

FONTE: ANCELMO.COM


Para conhecer o pensamento e a prática política de Luiz Carlos Prestes

3 de janeiro de 2018 - 120 anos do nascimento do Cavaleiro da Esperança


"Este não é apenas um livro sobre Prestes ou sobre o Partidão. É um livro sobre o Brasil." – Fernando Morais



Sua participação no movimento tenentista – especialmente na Marcha, entre 1924 e 1927, da Coluna que levou seu nome – e no levante antifascista contra Getúlio Vargas inscreveu o nome desse revolucionário singular na trajetória político-social do país.

Baseada na metodologia marxista, a obra se diferencia das demais biografias de Prestes já publicadas pela diversidade de documentos originais aos quais a autora teve acesso ao longo de mais de trinta anos de pesquisa. Para além do acervo pessoal, a historiadora realizou vasta investigação em arquivos nacionais e estrangeiros, podendo, assim, consultar fontes primárias fundamentais. Nos arquivos da antiga URSS, Anita perscrutou toda uma série de documentos referentes à atuação política do Cavaleiro da Esperança e a dinâmicas e discussões internas ao Partido Comunista, como relatórios e atas de reuniões, que ora integra a obra e a qualifica como a mais completa radiografia política de Prestes. 

A biografia traz fotos e manuscritos de correspondência pessoal, algumas até então desconhecidas do público, que ilustram diferentes momentos da trajetória do biografado. Com 19 capítulos e mais de 500 páginas, a obra é leitura fundamental para quem deseja entender o legado revolucionário de Luiz Carlos Prestes para o Brasil.

título: Luiz Carlos Prestes - um comunista brasileiro
autora: Anita Leocadia Prestes
orelha: José Luiz Del Roio
quarta capa: Fernando Morais
selo: Boitempo Editorial 
páginas: 608
peso: 867 gr 
ano de publicação: 2015 
ISBN: 9788575594490

MAIS INFORMAÇÕES:

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Para pensar politica e historicamente: os 120 anos de nascimento do Cavaleiro da Esperança

Segundo Florestan Fernandes, Luiz Carlos Prestes foi "o único herói brasileiro que não forjou o pedestal de sua glória." (Texto "O Herói Sem Mito", publicado no encarte da revista Trilha Socialista - 1990)

"Luiz Carlos Prestes entrou vivo no Panteon da História" (Romain Roland, 1936, Prêmio Nobel de Literatura)



Por Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro*


O presente texto é uma adaptação e reprodução de trechos de alguns livros da historiadora Anita Prestes (ver referência bibliográfica) e  do texto "Luiz Carlos Prestes, uma história a ser contada: por ocasião dos 24 anos de sua morte"

Luiz Carlos Prestes nasceu em 03/01/1898, em Porto Alegre (RS), e faleceu em 07/03/1990, no Rio de Janeiro, aos 92 anos de idade. Indiscutivelmente, sua figura teve grande relevância na história do Brasil do século XX. Sua participação na vida política nacional abrangeu um período de setenta anos, o qual coincide com o "breve século XX" definido e analisado pelo historiador Eric Hobsbawm.

Nos anos 1920, liderou a Coluna que adotou seu nome.  No ano de 1930, rompeu com seus antigos companheiros, os "tenentes", repelindo a perspectiva de tornar-se uma liderança a serviço dos interesses das elites oligárquicas e/ou burguesas e optando pelo compromisso com os "de baixo", os explorados e os oprimidos, os trabalhadores. Nesse momento, adotou o marxismo como teoria norteadora de sua vida e o comunismo como objetivo ao qual se consagraria até o final de seus dias. Foi um momento em que o Prestes saltou sobre a trincheira da luta de classes, abandonou qualquer possibilidade de ser uma liderança a serviço da classe dominante, e se colocou ao lado dos trabalhadores, dos explorados.

Graças ao prestígio e ao carisma de sua liderança, Prestes deu uma contribuição decisiva para o avanço da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Tornou-se a liderança mais destacada do movimento antifascista no Brasil na década de 1930. Com o fracasso dos levantes de novembro de 1935, iniciou-se um período de repressão intensa. Prestes foi preso em 5 de março de 1936, juntamente com sua companheira , a comunista alemã Olga Benario Prestes. Diante dos tribunais de exceção, Prestes adotou uma posição de firmeza inabalável e assumiu toda a responsabilidade pelo movimento que liderara, sendo condenado a mais de 47 anos de prisão. Sua companheira, Olga, foi deportada para a Alemanha nazista no sétimo mês de gravidez. Após dar à luz, numa prisão em Berlim, a sua filha Anita Leocadia, Olga foi assassinada numa câmara de gás no campo de concentração de Bernburg, em abril de 1942. Prestes permaneceria preso durante 9 anos, a maior parte do tempo no mais absoluto isolamento.

A partir dos anos de 1940, se transformou no líder comunista mais importante do país e durante quase quatro décadas foi o dirigente máximo do Partido Comunista. Direta ou indiretamente, esteve envolvido com os grandes acontecimentos políticos no Brasil até o seu falecimento em março de 1990.

Com sua longa trajetória de luta, que envolveu acertos e erros, Luiz Carlos Prestes foi sempre coerente consigo mesmo e com os ideais a que dedicou sua vida, sem jamais se dobrar diante de interesses menores ou de caráter pessoal. Por isso, despertou o ódio dos donos do poder, que se esforçariam por criar uma História Oficial deturpadora tanto de sua trajetória política quanto da história brasileira contemporânea. Assim foram forjados e intensamente difundidos alguns estereótipos mais conhecidos a respeito de Prestes.

Sua participação nos levantes antifascistas de novembro de 1935 é apresentada como causa de uma suposta “Intentona Comunista”, designação pejorativa, que sempre visou desvirtuar o caráter patriótico desse movimento, atribuindo-lhe o propósito de estabelecer o comunismo no Brasil, sob a égide de Moscou.

Seu apoio a Vargas, no momento em que o ditador, sob a pressão dos acontecimentos internacionais e do movimento de opinião pública no Brasil, adotava uma política de ruptura com as potências do Eixo e se aliava às forças antinazistas no cenário da guerra mundial, enviando nossos “pracinhas” para lutarem na Itália, é maldosamente interpretado como uma suposta aliança, que jamais existiu, com o principal responsável pelo assassinato de sua com panheira.

Em 1945, sua luta à frente do PCB pela eleição de uma Assembleia Constituinte livre e democrática é intencionalmente distorcida, para ser confundida com a campanha, levada adiante pelos getulistas, de “Constituinte com Getúlio”. Na realidade, os comunistas jamais levantaram tal bandeira. Consideravam que, naquele momento político, a tarefa mais importante de todas as forças efetivamente democráticas deveria ser garantir a eleição da Constituinte, evitando o golpe militar que estava sendo preparado pela direita, com o apoio da embaixada norte-americana. Golpe que afinal teve lugar a 29/10/1945.

Quando senador da República, também seria deturpada declaração feita por Prestes em resposta a pergunta formulada durante sabatina pública, de que, no caso de uma guerra contra a União Soviética, os comunistas se levantariam contra o governo que adotasse tal medida, pois essa guerra só poderia ter um caráter imperialista e agressor, uma vez que a União Soviética não ameaçava nenhum país do mundo, e o povo brasileiro não deveria prestar-se ao papel de bucha de canhão para os objetivos imperialistas. Prestes passava a ser acusado de pretender empunhar armas contra a própria pátria a serviço dos interesses de Moscou. Tal provocação anticomunista foi, na época, desmascarada pelo próprio Prestes, mas a versão fabricada por seus inimigos permaneceria com foros de verdade até hoje.´

Outros exemplos poderiam ser citados, todos reveladores da preocupação das classes dominantes do país de desvirtuar a personalidade de Luiz Carlos Prestes para combatê-la com maior eficácia. Mesmo após seu falecimento, Prestes continua a incomodar os donos do poder, o que se verifica pelo fato de sua vida e suas atitudes não deixarem de serem atacadas e/ou deturpadas, com insistência aparentemente surpreendente, uma vez que se trata de uma liderança do passado, que não mais está disputando qualquer espaço político. Num país, em que praticamente inexiste uma memória histórica, em que os donos do poder sempre tiveram força suficiente para impedir que essa memória histórica fosse cultivada, presenciamos um esforço sutil, mas constante, desenvolvido através de modernos e possantes meios de comunicação, de dificultar às novas gerações o conhecimento da vida e da luta de homens como Luiz Carlos Prestes, cujo passa do pode servir de exemplo para os jovens de hoje.

Queiram ou não os seus adversários e críticos de plantão, Luiz Carlos Prestes nos deixa um legado político, entendido como um conjunto de valores e princípios de modo a formar uma cultura política. Dos pilares dessa cultura política, o historiador Lincoln de Abreu Penna enumera três, ao participar do Seminário "Prestes - 20 anos sem o Cavaleiro da Esperança", realizado pela UFRJ, em setembro de 2010: o repúdio às injustiças sociais e a luta para superá-las; o primado do altruísmo, da solidariedade, sobre o individualismo; a vontade política voltada às transformações como motivação das ações na vida pública. Sobre eles, Lincoln traça os seguintes comentários:

O primeiro pilar esteve presente no engajamento de Prestes quando ainda jovem oficial do exército. Revoltou-se e liderou ao longo da década de vinte o movimento tenentista;O segundo acompanhou toda a sua trajetória de vida. O altruísmo e a solidariedade aos companheiros e aos segmentos sociais ligados ao mundo do trabalho sempre deixaram em segundo plano eventuais desejos individuais;E no que se refere ao terceiro pilar, a postura revolucionária o levou a trilhar uma das mais destacadas vidas no campo das lutas em defesa do ideário socialista;É por essa razão que a esperança foi intensamente representada pela figura do seu Cavaleiro, a percorrer o Brasil de Norte a Sul, de Leste à Oeste, levando a bandeira da libertação.

O historiador Lincoln Penna, conclui afirmando que de Prestes devemos guardar alguns princípios e ensinamentos:

O princípio da coerência ideológica;O ensinamento de que o compromisso com a causa da revolução supera os eventuais interesses individuais;O princípio e o ensinamento do dever cívico, que passa pela defesa da soberania nacional e do internacionalismo;A integridade moral diante das adversidades;A capacidade de contrariar maiorias, tendências dominantes, em nome da determinação da luta.
Nesse sentido deve ser entendida a seguinte afirmação: "Da mesma maneira que Fidel Castro e os revolucionários cubanos ao lutarem pela emancipação do seu povo se apoiaram na herança de José Martí, a revolução brasileira não poderá avançar sem resgatar o legado de Luiz Carlos Prestes" 

Conhecer a vida de Luiz Carlos Prestes é, nas palavras de Fernando Morais, uma "viagem pelo Brasil do século XX, do movimento tenentista à redemocratização pós-ditadura militar".

Para quem  quer contribuir para a construção de uma outra História, que possa contribuir para que sejam postas na ordem do dia as condições para transformações profundas da sociedade no sentido de um mundo mais justo e igualitário, é fundamental resgatar a memória daqueles sujeitos históricos, individuais ou coletivos, que, mesmo não conseguindo alcançar a vitória, deixaram um legado importante para as gerações subsequentes no que consiste na luta por um mundo melhor, em que a exploração do homem pelo homem tenha sido abolida para sempre e, consequentemente, as injustiças sociais, a fome, a miséria, o desemprego e o desamparo de milhões de pessoas tenham desaparecido. 

Nesse sentido, uma obra indispensável, que não é apenas um livro sobre Prestes ou sobre o Partidão, mas também sobre o Brasil, é a biografia "Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro" (Boitempo, 2015), de autoria da historiadora Anita Leocadia Prestes. Considerando que devemos primar pela honestidade intelectual, o livro escrito pela filha de Prestes está muito distante de ser classificada como "uma hagiografia", como sugerem alguns críticos. Ao longo da leitura do livro, fica evidente tratar-se de um trabalho de história política, fundamentado em uma extensa, minuciosa e detalhada documentação. Portanto, uma biografia política, que faz aflorar o pensamento e a prática política de Luiz Carlos Prestes. "A escrita de uma biografia desse viés, centrada na abordagem preferencial dos principais momentos  da atuação política do personagem retratado, não deve, contudo, desprezar suas características individuais, na medida em que elas podem contribuir para explicar as atitudes adotadas por esse personagem nas distintas faces de sua vida" (Prestes, A. L. Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, p. 16). E mais, "ao mesmo tempo, a biografia deve retratar a época em que viveu e atuou o personagem estudado, procurando explicar seu interagir com o contexto histórico", entendendo que "o homem é fruto do meio social, mas também age permanentemente sobre ele, transformando-o" (idem). 

* Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro é professor adjunto de História da Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ - campus Duque de Caxias, Faculdade de Educação da Baixada Fluminense), professor de história da rede municipal de educação pública de Rio das Ostras (RJ) e membro do Instituto Luiz Carlos Prestes.

Referência bibliográfica

Prestes, Anita Leocadia. Luiz Carlos Prestes: patriota, revolucionário, comunista. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

____ . Luiz Carlos Prestes e a Aliança Nacional Libertadora: os caminhos da luta antifascista no Brasil (1934/35). São Paulo : Brasiliense, 2008.

____ . Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro. São Paulo: Boitempo, 2015.