terça-feira, 10 de novembro de 2015

Biografia restaura trajetória política de Luiz Carlos Prestes

Entrevista - Anita Leocádia Prestes  - revista Carta Capital - 10/11/2015.

A autora, filha do biografado, fez uma reconstituição da história do político que passou pelo exército e se tornou comunista

Por Thaís Barreto

Prestes chega à capital de Pernambuco para participar de comício

Após mergulhar por 32 anos em documentos e relatos, a historiadora Anita Leocádia Prestes concluiu a biografia do pai. A autora de Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro(Boitempo Editorial, R$ 48) afirma que a obra não é definitiva. São, contudo, mais de 500 páginas de rigorosa apuração sobre a trajetória de um dos mais destacados políticos brasileiros que aderiu ao comunismo. A preocupação de Anita foi apresentar para as novas gerações a história de um personagem que “foi sempre caluniado ou silenciado pelos donos do poder”.
Filho de militares, Prestes foi criado pela mãe – o pai faleceu cedo, quando tinha 10 anos. Estudou em escola militar e, em 1920, aos 22 anos, tornou-se segundo-tenente e foi servir no subúrbio do Rio de Janeiro. Foi quando teve a primeira imagem do povo brasileiro, segundo a autora. Via rapazes de 18 anos chegarem ao exército analfabetos, e acompanhava a rotina de humilhações que os superiores impunham aos mais novos. Prestes dedicou 70 anos à vida política e viveu até os 92 anos. Leia os principais trechos da entrevista com Anita Leocádia Prestes, filha de Prestes e Olga Benário:
O 1º encontro de Prestes com a filha, nascida numa prisão da Alemanha nazista
CartaCapital: Como foi o processo para escrever a biografia de Luiz Carlos Prestes?
Anita Leocádia Prestes: Comecei o trabalho no início dos anos 1980, e à época não tinha certeza se ia conseguir escrever a biografia dele.
Meu pai tinha uma excelente memória, principalmente sobre a Coluna Prestes. Daí nasceu a preocupação de gravar um depoimento dele. Entrei no mestrado e doutorado em História e fui pesquisar a Coluna Prestes. Utilizei não só a entrevista dele, mas muitos outros arquivos listados no livro.
CC: Como foi pesquisar o próprio pai?
Anita: Pesquisei a vida política dele e também o Partido Comunista Brasileiro (PCB), pois se entrelaçam. Tive que estudar profundamente a história do Brasil no século XX e relacionar com a história mundial. Foram 11 livros publicados em diferentes períodos. Nesses últimos anos parti para escrever a biografia propriamente dita. No meu trabalho, a banca examinadora da minha tese de doutorado reconheceu que eu tinha conseguido alcançar objetividade. Fui criada na minha família sem mitificar o meu pai.
CC: Que pontos são essenciais para compreender a vida política de Prestes?
Anita: A preocupação de Prestes, desde muito jovem na Escola Militar, foi com os subordinados dele, o que não era comum. O que imperava no Exército era a violência, os castigos corporais por parte dos oficiais, extremamente autoritários e elitistas. Ele tinha a preocupação que os soldados estudassem, queria uma vida digna para eles.
No Rio de Janeiro ele criou três escolas: uma de alfabetização, outra para soldados e outra para sargento. Ele mesmo era o professor e dava aulas. Ninguém fazia isso no Exercito na época. Quando ele foi transferido para o Rio Grande do Sul fez a mesma coisa, tanto que isso foi muito importante na preparação até do levante da Coluna Prestes.
CC: No livro você detalha como surgiu o movimento tenentista nos anos 1920, o qual pretendeu, entre outras coisas, tirar do poder o presidente Artur Bernardes, que representava exclusivamente a oligarquia brasileira. A partir daí foi formada a Coluna Prestes...
Anita: A palavra de ordem do movimento tenentista era o voto secreto, pois a eleição no Brasil era totalmente fraudada. Quando Prestes participou da Coluna, na medida em que ele conheceu o interior do Brasil, se convenceu de que aquele programa não ia resolver os problemas do país, pois a miséria era assustadora.
Ele achou que era preciso encontrar uma solução. Encerrou a Coluna e foi para o exterior. Primeiro ficou um ano na Bolívia, depois foi para Buenos Aires, o grande centro do movimento comunista. Veio ao Brasil para dois encontros muito rápidos, por insistência dos tenentes que queriam que ele apoiasse o Getúlio Vargas.
Era muito duro para ele não conseguir convencer os colegas para suas posições comunistas. Ele veio com o objetivo de desmascarar Getúlio, mostrar que ele não queria fazer revolução nenhuma, mas Getúlio era muito hábil, prometeu até armas e dinheiro para o movimento.
CC: Como está no livro, Prestes deixou claras suas posições para Getúlio e este fingiu concordar?
Anita: Exatamente. Prestes ficou isolado, um general sem soldado. Os tenentes aderiram ao movimento liberal, depois se tornam marionetes. Alguns até viraram marechais, ministros de Getúlio e até da Ditadura após 1964.
CC: Essa constatação do Prestes sobre as necessidades do povo foram a semente para o que ele se tornou dali em diante?
Anita: Ele chegou à conclusão que não era possível assistir tudo aquilo e ficar de braços cruzados. A partir daí, estudou o marxismo e constatou que a teoria permitiria realizar essa transformação. Essa ruptura que ele faz em 1930 com os tenentes é algo que as classes dominantes do Brasil nunca perdoaram. 
Foi um momento em que o Prestes saltou sobre a trincheira da luta de classes, abandonou qualquer possibilidade de ser uma liderança a serviço da classe dominante, e se colocou ao lado dos trabalhadores, dos explorados. Ele nunca quis voltar para o Exército, tinha uma avaliação muito negativa e nunca aceitou a Anistia. Prestes encerrou a carreira de militar e passou a ser um político revolucionário.
FONTE: CARTA CAPITAL

 
 

Cinco mapas e quatro gráficos que ilustram segregação racial no Rio





Um estudante de geografia da USP (Universidade de São Paulo) tem chamado a atenção de internautas, jornalistas estrangeiros e professores de universidades brasileiras pelos mapas que criou mostrando a distribuição racial da população de capitais brasileiras --e que, no caso do Rio de Janeiro, por exemplo, ilustram o quadro de segregação social da cidade.




Os pontos coloridos no mapa acima representam a quantidade de brancos (pontos azuis), negros (pontos vermelhos) e pardos (pontos verdes) que habitam todo o Rio de Janeiro, segundo dados do Censo de 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 




O trabalho detalhado foi feito pelo estudante de geografia Hugo Gusmão, 29, morador da zona leste de São Paulo. Mas a ideia não surgiu durante pesquisas sobre o Brasil, e, sim, sobre os Estados Unidos, para um trabalho da USP.

 


"Meu grupo estava fazendo um trabalho sobre guetos e desigualdade racial e eu fiquei de pesquisar sobre a realidade americana. Encontrei um mapa como esse sobre Chicago, que dá uma boa ideia da distribuição espacial das pessoas. Vim pesquisar para ver se tinha alguma coisa do tipo no Brasil, mas não tinha, então resolvi fazer", disse à "BBC Brasil".

 



Suas primeiras experiências foram com os distritos do Morumbi e de Vila Andrade, em São Paulo, mas a iniciativa do governo do Estado do Rio de Janeiro --que, após arrastões na capital em setembro, decidiu fazer bloqueios a ônibus para evitar que "jovens suspeitos" chegassem às praias da zona Sul - fez com que sua atenção se voltasse para a cidade.






"Minha ideia inicial era fazer de São Paulo inteira, mas vendo as notícias no Rio dos bloqueios da polícia para revistar jovens, quis ver a composição racial da zona Sul. Em Copacabana e Ipanema quase só tem brancos e aí tem os morros no meio", afirma.
 

"Quando esses mapas foram feitos nos Estados Unidos, houve um debate grande. Aqui não tivemos segregação institucional legal, mas a social existe. Minha ideia é mostrar que os negros têm menos acesso às partes mais ricas da cidade. Em um país em que 50% da população é negra ver bairros com 80% a 90% de brancos é uma prova de como a segregação econômica e social existe."

 


Em quatro gráficos, ele também transformou as porcentagens de pretos, pardos e brancos na cidade do Rio, na zona Sul, no bairro da Lagoa e no Morro do Cantagalo, em grupos de 100 bonequinhos, para ajudar a visualizar melhor os números (veja abaixo).

 

Gusmão já era tecnólogo formado em redes de computadores, e diz que a experiência o ajudou a enfrentar o desafio de realizar os mapas. "Eu trabalhava com tecnologia, mas queria mesmo mudar de área. Quando vi esses mapas, me encontrei", diz. "Os softwares para elaborar mapa são muito usados na geografia, mas minha ideia é usá-los para denunciar a desigualdade, como se fosse uma cartografia com fundo social."

 

Mas como é possível que os mapas mostrem onde está cada pessoa na cidade? Gusmão diz usar como base os dados de setores censitários - as menores unidades territoriais estabelecidas pelo IBGE para coletar o Censo. O programa utilizado pelo estudante permite distribuir, em cada um destes setores dentro dos bairros, o número de pessoas que se autodeclararam brancos, pretos e pardos.



Capitais, polícia e universidade

 


Gusmão publica seus mapas no blog Desigualdades Espaciais, e foi ali que eles começaram a chamar a atenção de internautas, jornalistas estrangeiros e professores de universidades brasileiras, que o convidavam para colaborações - até agora, nenhuma delas se concretizou.
 

"As pessoas começaram a comentar que seria legal ver do Rio inteiro e aí resolvi fazer. A ideia do blog era fazer de todas as capitais brasileiras e mostrar que isso não é só algo do Rio, levantar esse debate. O próximo que vou lançar é o de Recife, que já está pronto. E o de São Paulo virá logo em seguida. E já pensei em Salvador."

 

Além dos dados sobre a distribuição racial nas capitais, ele planeja visualizações de dados sobre a violência policial em São Paulo e sobre estatísticas de prisão por tráfico e por uso de drogas.

 

Para o estudante, o surpreendente foi a falta de interesse de pesquisadores da própria USP em seu projeto. "Nenhum professor de lá entrou em contato, foram todos de fora. Talvez não interesse à USP mapas desse tipo. Mas quero fazer um sobre a própria universidade, pegar as estatísticas da Fuvest e saber quantos brancos entraram. Acho que o mapa será impactante", promete.






Na capital fluminense, brancos são 52% da população, pardos, 37% e pretos, 11%
 
 Na zona sul --bairros de Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, Gávea, Jardim Botânico e Lagoa--, brancos são 83% da população, pardos, 13% e pretos, 4%

 No bairro da Lagoa, brancos são 91%, pardos, 7% e pretos, 2% da população

Na mesma zona sul, o Morro do Cantagalo tem 32% de brancos, 49% de pardos e 19% de pretos



FONTE: UOL notícias 
       

sábado, 7 de novembro de 2015

Documentário histórico; "Do Czar a Lênin" (1937)


Título Original: Tsar to Lenin
  Gênero: Documentário | Histórico
  Ano de Lançamento: 1937
  Duração: 68 min
  País de Produção: EUA
  Diretor(a): Herman Axelbank

 

“O marxismo brasileiro precisa se renovar”: entrevista com Marcelo Badaró e Alvaro Bianchi

Por Daniela Mussi
Em 1998, ano em que o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels completou seu 150 oaniversário, surgiu no Brasil a Revista Outubro. Seu manifesto de lançamento editorial apresentava uma revista marxista independente, cuja vocação estava na publicação de artigos e resenhas dedicados à atualização da pesquisa teórica e empírica crítica do mundo capitalista. Seu corpo de colaboradores era formado por pesquisadores e professores experientes e jovens acadêmicos e era principalmente do trabalho dedicado destes últimos que a revista retirava sua vitalidade e dinâmica.
A Revista Outubro nasceu com a meta de agregar e divulgar o pensamento de intelectuais marxistas em um contexto cujo ambiente acadêmico e a opinião pública brasileira se mostravam fortemente refratários à contribuição teórica e analítica destes. Seu desafio era o de enfrentar, por um lado, o agressivo avanço das ideologias do “fim da história” e da morte do ideário socialista e revolucionário, sob as quais se erguiam e sustentavam governos neoliberais ao redor do mundo. Por outro, o de compreender e enfrentar as forças centrípetas e centrífugas que desagregavam e desorganizavam o que restara da cultura marxista e criavam polos efêmeros de atração intelectual, cujo alcance se esgotava na estação seguinte.
Hoje, passados pouco mais de 15 anos, a Revista Outubro decidiu disponibilizar todo o material produzido na Internet e passará a publicar suas próximas edições exclusivamente online. São dezenas de artigos e resenhas acessíveis gratuitamente, com pesquisas e comentários bibliográficos a respeito de diversas tradições marxistas brasileiras e internacionais. O objetivo é dinamizar a produção e divulgação de seu material, bem como democratizar o acesso de antigos e novos leitores e leitoras ao conteúdo da revista.
Leia a seguir a entrevista com dois fundadores da Outubro, os professores Alvaro Bianchi (Unicamp) e Marcelo Badaró (UFF), sobre a trajetória desta revista, a atualidade do marxismo e os desafios para o futuro.
Como surgiu a Revista Outubro? Quem fazia parte dela? O que motivou seu lançamento?
Alvaro Bianchi – A revista Outubro surgiu da percepção de que no final dos anos 1990 existia uma renovação do pensamento socialista e uma reativação dos movimentos sociais. O sinal havia sido dado pela greve geral na França, em 1996, e pela revolta em Chiapas, no México, em 1994. A revista foi lançada em outubro de 1998 e  em novembro de 1999 ocorreu a grande manifestação contra a Organização Mundial do Comércio, em Seattle. Acho que nossa caracterização estava certa.
No início reuníamos quatro grupos diferentes. O primeiro era formado por professores da Universidade Estadual de Campinas, como Edmundo Fernandes Dias, Márcio Bilharinho Naves e Ângela Tude, que haviam se afastado da revista Crítica Marxista, depois que Edmundo foi excluído de seu comitê editorial. O segundo era de professores e ativistas do Rio de Janeiro, como Marcelo Badaró Mattos, Juarez Duayer, Marina Barbosa e Elisa Guimarães, os quais estavam envolvidos na criação de um centro de formação política e sindical chamado Instituto de Estudos Socialistas (IES). O terceiro era organizado por Robério Paulino e reunia ativistas do IES de são Paulo. O último desses grupos era de jovens pós-graduandos da Universidade Estadual de Campinas, dentre os quais estávamos Ruy Braga e eu.
Marcelo Badaró – A revista surgiu em 1998, a partir da iniciativa de um grupo de professores (universitários e do ensino básico), estudantes e militantes políticos associados ao Instituto de Estudos Socialistas, fundado com o objetivo de promover cursos de formação política e difundir o debate teórico marxista. A nossa principal motivação era ocupar o que diagnosticávamos como uma lacuna entre os periódicos marxistas disponíveis.
Pretendíamos construir uma revista capaz de aprofundar o debate sobre a teoria marxista e as grandes questões da luta de classes hoje, que fosse ao mesmo tempo consistente do ponto de vista das contribuições ao debate e interessante para um público leitor militante que iria além dos espaços acadêmicos.
É muito comum encontrar no ambiente acadêmico e na opinião pública brasileira a ideia de que o “marxismo morreu”, que as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels não possuem atualidade alguma. Como você localiza o pensamento marxista nos debates teóricos e políticos atuais?
Alvaro Bianchi – É um processo que tem um desenvolvimento desigual e combinado. Houve nos últimos anos uma importante expansão das universidades públicas brasileiras e isso permitiu o ingresso no sistema de ensino superior de novos professores e pesquisadores. Se nossa caracterização estivesse errada o pensamento marxista não teria sido beneficiado por essa expansão, mas o que ocorreu é que um número considerável dos jovens professores, principalmente na área de humanas, tinham passado pelo movimento estudantil ou sindical e eram influenciados de alguma forma pelo pensamento marxista. Nos anos 2000 cresceu muito o número de revistas, de centros de pesquisa e de encontros acadêmicos marxistas.
Mas como disse esse é também um processo desigual. Houve de alguma maneira uma ruptura nos anos 1990 que separou as gerações atuais das gerações precedentes. As razões são várias e eu destacaria duas: o avanço da ideologia neoliberal e o processo de absorção de muitos intelectuais promissores pela máquina de administração estatal petista. Dessa maneira as novas gerações de intelectuais marxistas tiveram que recomeçar seu trabalho praticamente do zero. Isso teve um preço bastante elevado. Em minha opinião  teoria marxista produzida hoje no Brasil está aquém daquela dos anos 1960 e 1970. O marxismo brasileiro é muito influente, mas precisa renovar-se e estar mais atento ao debate internacional, particularmente àquele que tem lugar na Inglaterra e nos Estados Unidos, que são hoje os centros dinâmicos de desenvolvimento da teoria marxista.
Marcelo Badaró – Acredito que a fase mais dura do antimarxismo nos debates públicos foi vivida nos anos 1990. Desde 2008, com a nova etapa de manifestação mais aguda da crise capitalista, os nomes de Marx e Engels voltaram a ser reconhecidos, ao menos como analistas relevantes da economia capitalista, muitas vezes até por porta vozes de um pensamento econômico liberal.
No entanto, o estrago produzido pelo antimarxismo acadêmico dominante desde anos 1990 foi forte o suficiente para que as novas gerações de professores e estudantes de pós-graduação tenham sido formadas, na maior parte das vezes, com uma visão estereotipada e preconceituosa do marxismo, que se reproduz amplamente nas áreas de Ciências Humanas e Sociais. Daí a importância dos centros de estudos marxistas e de revistas como Outubro, que se constituíram em trincheiras de resistência, aglutinaram marxistas dispersos em vários departamentos e instituições e ajudaram a formar uma nova geração de intelectuais críticos e militantes que teve muito pouco contato com o marxismo nas suas salas de aula.
O que é a renovação do marxismo hoje?
Alvaro Bianchi – A renovação do marxismo significa, a meu ver, enfrentar dois desafios hoje. Primeiro, o de um novo retorno crítico à obra de Marx e Engels, à luz das descobertas que a nova edição da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA) tem permitido.  Temos hoje no Brasil novas traduções de importantes obras, as quais tem permitido estudos mais atentos às sutilezas do texto marxiano. Os primeiros passos tem sido dados nessa direção. Mas ainda há dívidas a serem saldadas, por exemplo, com a obra de Engels, frequente e injustamente desvalorizada, e com os escritos históricos e políticos que Marx produziu na década de 1860 e 1870.
Significa, em segundo lugar, ir além dessa obra e enfrentar, com o método de Marx e a partir de suas pistas, quatro críticas que considero fundamentais: a crítica da economia política contemporânea, a crítica da política presente, a crítica da atual divisão do trabalho e a crítica das ideologias pós-modernas. Para renovar-se, ou seja, para enfrentar esses desafios, o marxismo brasileiro precisa  internacionalizar-se e superar seu apoliticismo.
O marxismo brasileiro é ainda provinciano. Precisa colocar-se em diálogo com as correntes mais férteis do marxismo no mundo. E necessita, também, sair das universidades e vincular-se de maneira mais íntima aos movimentos sociais e aos partidos de esquerda. Sem essa internacionalização e sem a politização a renovação enfrentará limites intransponíveis.
Nos últimos anos, assistimos a um ciclo de revoltas e revoluções ao redor do mundo em que a juventude desempenhou um importante papel importante, bem como a Internet e suas redes sociais. Como pensar esse novo momento de um ponto de vista marxista?
Marcelo Badaró – Penso que a nós cabe o desafio de compreender em que medida tal participação da juventude, com suas potencialidades e limites, se relaciona à dinâmica da luta de classes, ou seja, de que forma podemos entender como as novas configurações do conflito entre capital e trabalho potencializa revoltas dessa natureza. Por exemplo, compreendendo como os protagonistas de muitos desses movimentos foram/são jovens com formação escolar mais elevada que seus pais trabalhadores, mas que apesar disso, em quadros sociais de avanço do desemprego e da precarização, já não possuem sequer a perspectiva do trabalho regular, quanto mais a de ascensão social. Isso, no entanto, não os faz identificarem-se automaticamente como parte da classe trabalhadora e, especialmente, os leva muitas vezes a rejeitar genericamente todas as organizações tradicionais da classe, como os partidos e os sindicatos. O que, diga-se de passagem, é um sentimento reforçado pelo percurso errático da maior parte dessas organizações nas últimas décadas.
Alvaro Bianchi –  O número 22 da revista Outubro trará um interessante artigo de Colin Baker que permite pensar esses processos políticos e sociais. Em vez de falar de “movimento sociais”, como boa parte da literatura tem feito, enfatizando as particularidades de cada um, ele propõe retornar à formula marxiana de “o movimento social em geral” para apreender as formas e manifestações variadas de revolta popular contra o atual desenvolvimento capitalista. Eu acho essa uma fórmula promissora que pode ajudar a compreender esse ciclo de revoltas e revoluções de um ponto de vista marxista. O que o marxismo permite é uma análise desses movimentos do ponto de vista da totalidade, como diz Lukács, apesar de sua heterogeneidade interna.
Não foram poucos os que tentaram explicar esses processos políticos e sociais. E nem sempre os marxistas acertaram. Algumas formulações que tentam atribuir a esses movimentos o caráter de “movimentos de classe média” são, a meu ver, claramente deficitárias teórica e empiricamente. Mas as melhores respostas foram dadas pelos marxistas e eu fico muito feliz em perceber que alguns deles são colaboradores da revista Outubro.
No caso brasileiro eu estou convencido de que foi um membro do Conselho Editorial da revista Outubro, Ruy Braga, quem matou a charada das revoltas de junho de 2013. O conceito de precariado que ele desenvolveu para explicar traços importantes das classes trabalhadoras brasileiras, permitiu compreender as principais características dessas revoltas: a juventude de seus integrantes, o fato da maioria deles trabalhar, a espontaneidade do movimento, sua radicalidade e, também, seu caráter ideologicamente confuso.
O nome da revista, Outubro, faz uma referencia ao processo revolucionário de 1917, na Rússia, quando os trabalhadores tomaram o poder do Estado, dirigidos por figuras como Lenin e Trotsky. Quase cem anos depois, é possível dizer que aquele “outubro” se mantém como referencia? Em que sentido?
Alvaro Bianchi – Nós estávamos em uma daquelas discussões intermináveis sobre o nome da revista, quando Márcio Bilharinho Naves sugeriu Outubro. Foi um consenso instantâneo. Porque, de certa maneira, Outubro sintetiza nosso programa. A revista tem um perfil anticapitalista, antirreformista e antiburocrático. Seu programa é, também, o programa da revolução Russa de 1917. Acho importante destacar que em outubro de 1917 teve início um período riquíssimo de desenvolvimento da teoria marxista. Algumas correntes dogmáticas tentaram reduzir esse desenvolvimento a este ou aquele líder soviético. Mas o que a revolução permitiu foi um impressionante movimento de ideias e o surgimento de correntes intelectuais inovadoras: o pensamento jurídico de Stuchka e Pashukanis; a linguística de Bakhtin e Volossinov; a teoria econômica de Rubin e Preobrazhenski; a historiografia da escola de Pokrovski; além é claro, do desenvolvimento do pensamento político de Lenin e Trotsky.
Isso sem falar das vanguardas estéticas na poesia, na literatura, na música e nas artes plásticas, das quais gosto muito. Descobri há pouco algo que deveria ter conhecido há muito, a opera de Shostakovich, Lady Macbeth  do Distrito de Mtsensk, inspirada na obra de um narrador russo que Walter Bejnamin apreciava muito, Nicolai Leskov. A obra de Shostakovich é impressionante, de uma complexidade notável. Como muitos, esse compositor foi perseguido pelo stalinismo, que não lhe perdoou o fato de ter começado sua carreira com o apoio do comandante do Exército Vermelho, o grande estrategista Mikhail Tukhachevsky, executado em 1937 por ordem de Stalin.
Essa tradição teórica e cultural está longe de ter esgotado todo seu potencial e pode continuar a estimular um marxismo laico, livre de todo culto à personalidade. Por isso a revolução de outubro é não apenas uma referencia política, é, também, uma referencia intelectual.
Marcelo Badaró – Para nós, no momento de fundação da revista, o nome Outubro indicou um horizonte político claro: o de um marxismo comprometido com a transformação socialista, que só pode ser alcançada pela via da ruptura revolucionária. É nesse sentido que a revolução de 1917 continua a nos inspirar.
A orientação marxista revolucionária da revista nunca foi construída de forma dogmática ou sectária. Pelo contrário, nossa intenção sempre foi tomar a experiência soviética como objeto de reflexão. Temos como ponto unificador do coletivo a perspectiva crítica ao estalinismo, mas procuramos não receitar fórmulas revolucionárias definitivas. Por isso mesmo, o debate sobre as estratégias revolucionárias é outro ponto aberto nas discussões da revista.

Colóquio Gramsci: a centralidade da política

Data: Dias 17 e 18 de novembro de 2015 
Local: prédio de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo.
A programação do evento contará com duas mesas e uma sessão de comunicações. O evento é organizado pelo Grupo de Pesquisa "Pensamento e Política no Brasil", coordenado pelos profs. André Singer e Bernardo Ricupero e contará com a participação de dois membros da coordenação nacional da IGS-Brasil, os professores Marcos Del Roio e Alvaro Bianchi.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Anita Prestes lança biografia política de Luiz Carlos Prestes

São Paulo, Natal, Mossoró, Florianópolis, Rio de Janeiro
A historiadora Anita Leocadia Prestes lança a biografia política de seu pai, o "Cavaleiro da Esperança", líder da Coluna Prestes, em uma série de cidades do Brasil. Confira aqui a agenda completa.
http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Eventos/visualizar/lancamento-de-luiz-carlos-prestes-um-comunista-brasileiro


O MODECON convida a todos para a palestra da Professora Anita Leocádia Prestes e lançamento da biografia sobre Luiz Carlos Prestes: "Luiz Carlos Prestes, um comunista brasileiro."
DATA: 16/11/2015 – segunda-feira 17:00 horas.
LOCAL: Prédio da ABI - Rua Araujo Porto Alegre, 71, 7º andar. Centro, Rio de Janeiro.


I Curso Livre György Lukács acontece em São Paulo entre 10 e 27 de novembro


A Boitempo realiza, em parceria com o Programa de Estudos Pós-Graduados em História e com o Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a primeira edição do Curso Livre György Lukács, entre os dias 10 e 27 de novembro. A iniciativa contará com 10 aulas gratuitas, sem inscrição prévia, apresentadas por alguns dos maiores especialistas brasileiros na obra lukácsiana.

A aula inaugural será marcada por uma cerimônia de celebração do aniversário de 20 anos da editora e de estreia da coleção Biblioteca Lukács, coordenada por José Paulo Netto, com o lançamento de Reboquismo e dialética: uma resposta aos críticos de História e consciência de classe, do filósofo húngaro. O curso dá continuidade a uma tradição de cursos livres organizados pela Boitempo, tendo a primeira edição de seu prestigiado Curso Livre Marx-Engels sido realizada em 2008, também em parceria com a PUC-SP.

O evento conta com o apoio da APROPUC (Associação dos Professores da PUC-SP), CACS (Centro Acadêmico de Ciências Sociais); CEHAL – Centro de Estudos de História Latinoamericana), HIMEPE (História, Memória e Pensamento Econômico), NEAM (Núcleo de Estudos e Aprofundamento Marxista), NEHTIPO (Núcleo de Estudos de História: Trabalho, Ideologia e Poder), NETRAB (Núcleo de Estudos e Pesquisa Trabalho e Profissão) NEPEDH (Núcleo de Estudo e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos), NEPI (Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Identidade), Colegiado de Ciências Sociais da Fundação Santo André (FSA) e do Grupo de Estudos “Filosofia Política Contemporânea”.

As aulas acontecem na Sala 117A do Prédio Novo da PUC-SP (Rua Monte Alegre, 984), das 19h30 às 22h30. Confira abaixo a programação completa:

Lukács: em Defesa do Realismo
Aula inaugural com Celso Frederico (USP)
10/11 | terça-feira | das 19h30 às 22h30

Reboquismo e dialética: o Lenin de Lukács
com Antonio Carlos Mazzeo (PUC-SP)
11/11 | quarta-feira | das 19h30 às 22h30
Lançamento do livro Reboquismo e dialética de György Lukács (Boitempo Editorial)

Arte realista: Balzac e Goethe
Livia Cotrim (FSA) e Carlos Eduardo Ornelas Berriel (UNICAMP)
12/11 | quinta-feira | das 19h30 às 22h30

Crítica ontológica do direito
com Vitor Bartoletti Sartori (UFMG) e Rodolfo Costa Machado (NEHTIPO)
13/11 | sexta-feira | das 19h30 às 22h30

Trabalho e Democracia da vida cotidiana
com Beatriz Costa Abramides (PUC-SP) e Claudinei Cássio de Rezende (NEHTIPO)
16/11 | segunda-feira | das 19h30 às 22h30

Ideologia e política no último Lukács
com José Paulo Netto (UFRJ) e Ronaldo Vielmi Fortes (UFJF-MG)
17/11 | terça-feira | das 19h30 às 22h30

O Romance Histórico
com Arlenice Almeida da Silva (UNIFESP)
18/11 | quarta-feira | das 19h30 às 22h30

Momento ideal e ideologia
com Maria Angélica Borges (PUC-SP) e Felipe Ramos Musetti (NEHTIPO)
23/11 | segunda-feira | das 19h30 às 22h30
SALA 333

Via prussiana, imperialismo e a crítica ontológica da economia política
com Antonio Rago Filho (PUC-SP) e Ivan Cotrim (FSA)
25/11 | quarta-feira | das 19h30 às 22h30

O estranhamento religioso na ontologia lukacsiana
com Ester Vaisman (UFMG)
27/11 | sexta-feira | das 19h30 às 22h30

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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lançamento Boitempo: Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro





Nesta aguardada biografia, a historiadora Anita Leocadia Prestes, filha do líder com a também comunista Olga Benario Prestes, narra os momentos-chave da atuação política de seu pai, um dos grandes personagens da história brasileira. Sua participação no movimento tenentista – especialmente na Marcha, entre 1924 e 1927, da Coluna que levou seu nome – e no levante antifascista contra Getúlio Vargas inscreveu o nome desse revolucionário singular na trajetória político-social do país. Confira, abaixo, o texto de orelha do livro assinado por José Luiz Del Roio, e o texto de quarta-capa, assinado por Fernando Morais.


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Difícil, muito difícil a vida de um comunista no Brasil. Quando o brilhante jornalista Astrojildo Pereira – reunindo um grupo de companheiros – fundou o Partido Comunista em Niterói, em março de 1922, não podia imaginar que esse agrupamento político iria permanecer ilegal até 1985, com a exceção de apenas dois anos entre 1945 e 1947. Ou seja, 61 anos de clandestinidade, fato único em todo o planeta! Pertencer a esse partido significava exclusão social, perda de emprego, exílio, prisão, tortura e morte. Mesmo assim, muitos militantes afluíram a suas filas, convencidos de que era o melhor instrumento para conseguir um Brasil digno, independente e igualitário. Por mais de quatro décadas, Luiz Carlos Prestes foi para esses militantes o líder a ser admirado e seguido. Seu prestígio espraiou-se além das fronteiras, tornando-se conhecido em plagas distantes. Sua longa vida foi pontilhada por decisões complexas e mesmo dolorosas. Seguramente cometeu erros de análises e de ação, porém jamais traiu, nem por um minuto, os ideais que abraçou nos anos 1930.

A autora deste livro teve a coragem e o desafio de enfrentar o trabalho gigantesco de fazer aflorar o pensamento e a prática política de Luiz Carlos Prestes. E isso com uma profundidade teórica e uma riqueza de fontes impressionante – a historiadora Anita Leocadia Prestes, além de filha, foi por anos secretária do Cavaleiro da Esperança. Inúmeros são os aspectos que merecem ser esmiuçados. Aceno a apenas um deles: o caráter da ditadura implantada em 1964. Esse é um assunto que divide os historiadores até os dias de hoje. Na direção e na militância do PCB desenvolveu-se um animado debate sobre o tema, definindo-o, de forma nebulosa, como regime fascistizante, de tipo fascista, fascismo dependente ou militar fascismo. Pode parecer uma questão secundária, mas a correta definição do regime condicionava a política de alianças, a tática, o tipo de organização clandestina necessária e mesmo perspectivas estratégicas à época. São elementos que acabaram por contribuir com a ruptura do partido e condicionaram a transição democrática nos anos 1980.

Como diz Anita, esta é uma biografia política, com acenos ao pessoal. Permitam-me, então, dizer algo sobre este último aspecto. Frequentemente a figura do biografado é vista como autoritária, fechada, distante. Não foi a minha experiência nas muitas vezes que o encontrei. Recordo-me que em 1967, depois de uma áspera discussão no Comitê Estadual do PCB de São Paulo, tive de ficar de guarda à noite. Prestes procurou-me para discutir a questão da luta armada, que eu defendia. Falou-me da Coluna, de 1935, das dificuldades em trilhar o caminho armado. Eu era um jovem dirigente, que contava muito pouco, mas ele encontrou tempo para fornecer suas experiências e vi em Prestes uma verdadeira angústia de que nós, jovens, enveredássemos por um caminho que nos levaria à morte. Não me convenceu, mas fiquei grato, por toda a vida, por aquele gesto.
José Luiz Del Roio
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Confira também a entrevista que o jornal português Público fez com a autora, sobre o livro. O texto é de São José Almeida, e o vídeo de Ricardo Rezende:



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Leia abaixo, o texto de quarta-capa do escritor por Fernando Morais

Durante décadas muitos autores brasileiros de não ficção alimentaram a esperança de fazer uma biografia de Luiz Carlos Prestes. Eu mesmo, desde o dia em que o conheci, num ensolarado 1º de maio, em Havana, em 1977, tentei em várias ocasiões seduzir o Cavaleiro da Esperança para o projeto. Em todas as vezes, a resposta era a mesma: não. O privilégio de escrever a biografia de Prestes recaiu sobre sua filha, a respeitada historiadora Anita Leocadia Prestes. Além da circunstância familiar, Anita trabalhou como assistente do pai de 1958 até sua morte, em 1990. Durante esses 32 anos ela teve a possibilidade de se aprofundar “no estudo de cada período da vida desse personagem singular da história do Brasil”. Com este livro, Anita supre uma lacuna acerca de uma existência que, a partir de 1930, se confunde com a do Partido Comunista Brasileiro. Pela narrativa, é possível acompanhar os bastidores de seis décadas de vida do PCB com seus rachas internos, conferências clandestinas, purgas e autocríticas. Este, porém, não é apenas um livro sobre Prestes ou sobre o Partidão, mas sobre o Brasil. Para muitos biógrafos, um personagem só se torna importante se, por meio de sua trajetória, for possível contar uma história do Brasil que nos tenha sido sonegada nos bancos de escola. Se isso é verdade, este livro cumpre sua função. Pela mão de Prestes, Anita Leocadia realiza uma extensa, minuciosa e detalhada viagem pelo Brasil do século XX, do movimento tenentista à redemocratização pós-ditadura militar. A soma desses ingredientes torna Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro uma obra indispensável.
Fernando Morais







terça-feira, 3 de novembro de 2015

Seminário 80 anos da Insurreição Comunista de 1935

Com a presença da historiadora Anita Prestes, proferindo a Conferência "As lições do levante de 1935" e lançando, o seu mais recente livro, Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (Boitempo Editorial, 2015). Confira a agenda:


  • Conferência de Anita Prestes em Natal
Data e horário: 20/11 | sexta-feira | 19 horas
Local: Biblioteca Central Zila Mamede da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) | Av. Sen. Salgado Filho, 3000 
Apoio: UFRN, UFERSA, Depto de História e depto de Ciências Sociais da UFRN

  • Conferência de Anita Prestes em Mossoró
Data e horário:21/11 | sábado | 19 horas
Local:Auditório da Estação das Artes Elizeu Ventania | Avenida Rio Branco, S/N
Organizadores, realizadores e apoiadores: UFRN, UFERSA, Depto de História e depto de Ciências Sociais da UFRN



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil"

Por Wagner Moura*

Essa é a frase mais célebre do livro “Minha formação”, do abolicionista brasileiro Joaquim Nabuco. Esse livro foi escrito no final do século XIX, portanto pouco mais de uma década depois de abolida a escravidão no Brasil. Em 1888, o Brasil foi o último país ocidental a livrar-se oficialmente do trabalho forçado. A escravidão tornou-se mesmo parte fundamental da alma do nosso país. Creio que mesmo Nabuco, que se antecipou a Gilberto Freire nas reflexões sobre a influência do trabalho escravo na cultura brasileira, talvez não supusesse que no ano de 2015 suas palavras ainda fariam tanto sentido.

A população negra brasileira ainda é a grande maioria nos bolsões de pobreza e a sofrer violência policial. Recentemente, a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro resolveu impedir que ônibus vindos das periferias da cidade chegassem às praias dos bairros nobres, sob pretexto de evitar assaltos. Jovens negros eram, sem qualquer justificativa, retirados dos ônibus. Ainda seguimos com plantas de apartamentos com “quartos de empregada”, quartinhos escuros e sem janelas perto da cozinha. As empregadas domésticas brasileiras, em sua grande maioria mulheres negras, somente há alguns anos foram incorporadas ao mundo das leis trabalhistas. Muitas delas ainda moram nas casas de seus patrões, trabalhando da hora que acordam até a hora de dormir. A quantidade de pessoas negras nas universidades é consideravelmente inferior à de brancos. Homens e mulheres negras ganham salários menores do que os brancos. As políticas afirmativas enfrentam grande resistência no meio político e entre a classe alta brasileira, também em sua grande maioria formados por brancos. A maior parte dos pobres de nosso país tem a pele escura. Ou seja, a escravidão dos séculos XVIII e XIX está evidentemente refletida na pobreza de afro-descendentes no século XXI.

Mas essa é uma via de mão dupla, porque a pobreza é hoje a maior responsável pela escravidão contemporânea. E, claro, a maioria dos escravos contemporâneos no Brasil é formada por negros e mulatos. Embora o país tenha avançado muito nos últimos anos no campo social, continuamos com altos índices de pobreza e, especialmente, de desigualdade. Para mim, não faz nenhum sentido ser a oitava economia do mundo e septuagésimo nono em Índice de Desenvolvimento Humano. Pobreza, sem dúvida, leva as pessoas a uma situação de vulnerabilidade em relação ao trabalho escravo contemporâneo. Ninguém se submete a uma condição degradante de trabalho se tiver uma outra opção.

Combater o trabalho escravo é, então, combater a pobreza e criar um ambiente de justiça social, onde todos tenham as mesmas oportunidades e erros históricos possam ser corrigidos. Claro que combater a pobreza no mundo é uma tarefa complexa, que envolve uma mudança gigante na ordem mundial. Mas enquanto a vacina contra a pobreza e a desigualdade não fica pronta, existem muitos remédios capazes de erradicar o trabalho escravo contemporâneo, seu efeito colateral. São vários: fiscalização, responsabilidade social por parte dos patrões, leis trabalhistas eficientes, punição exemplar aos infratores, amparo às vítimas, entre outros. Na minha opinião, porém, nenhum remédio é mais poderoso do que a informação. Porque é a informação que vai fazer com que alguém deixe de achar normal haver pessoas trabalhando em condições degradantes. Muitos trabalhadores sequer sabem que são vítimas dessa prática. Muita gente de bem no mundo inteiro sequer acredita que a escravidão ainda exista, pois associa-a, com alguma razão, aos navios negreiros de um passado distante.

Quando eu disse, com pesar, que a escravidão faz parte da cultura brasileira, também posso dizer, com orgulho, que o Brasil é um dos países líderes no combate a essa prática nefasta. Uma das ferramentas mais importantes na luta contra a escravidão é a divulgação de uma lista com os nomes de pessoas físicas e jurídicas que foram apanhadas fazendo uso desse tipo degradante de mão de obra, a “lista suja do trabalho escravo”, como é chamada. No entanto, esse extraordinário instrumento, infelizmente, foi, há pouco tempo, suspenso pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro, que, por sua vez, respondeu a pressões das forças interessadas na não divulgação da lista. Ninguém vai a público dizer que é a favor do trabalho escravo, mas é impressionante o lobby que existe a favor de sua manutenção. Vinte e um milhões de pessoas são vítimas dessa prática no mundo, gerando uma receita ilegal de US$ 150 bilhões por ano. A quem interessa a suspensão da lista suja? A quem tem medo de ver seu nome publicado nela, claro.


A definição brasileira de trabalho escravo é a mais avançada do mundo! Aqui, qualquer pessoa que trabalhe em condição degradante, em jornada exaustiva ou que trabalhe por dívida é considerada vítima do trabalho escravo. Já há uma pressão forte no Congresso (talvez o mais reacionário e conservador da História deste país), por parte desses interesses organizados, para que a definição brasileira seja mudada e para que seja considerado escravo apenas o sujeito proibido, por força, de deixar seu local de trabalho. Se, de fato, conseguirem mudá-la, estaremos dando mais um passo gigante para trás, como fizemos com a aprovação do novo código florestal e com a redução da maioridade penal. A quem interessa mudar a definição de trabalho escravo brasileira que tanto gera elogios no mundo inteiro? Aos que submetem os trabalhadores às condições compreendidas nela, isso também está claro.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) está lançando uma campanha mundial chamada 50 for Freedom, que espera que, até 2018, líderes de 50 países ratifiquem seu novo protocolo, muito específico na condenação à prática do trabalho forçado. Parece fácil, mas não é. Até agora, só o Níger assinou. Que exemplo bonito seria se o Brasil fosse o segundo país a fazê-lo! Encontrei a presidente Dilma em Bogotá e obtive dela a garantia de que o Executivo fará a proposta chegar ao Congresso o mais rápido possível e de que ela vetará qualquer tentativa de mudança na definição brasileira de trabalho análogo ao escravo. Serão ações como ratificar essa carta que farão o Brasil seguir sua vocação progressista e se tornar exemplo no que se refere à igualdade dos direitos civis, direitos humanos e sustentabilidade. Esse, no final das contas, é o caminho que importa. E livremos os brasileiros das próximas gerações da profecia de Joaquim Nabuco.

*Wagner Moura é ator

FONTE: O Globo

65 filmes de Charlie Chaplin para download ou visualização on-line

O Open Culture, o maior guia de mídia livre da internet, disponibilizou uma lista com 65 filmes do ator, diretor e produtor britânico Charlie Chaplin (1889-1977) para visualização on-line ou download.

Os filmes estão disponíveis nos formatos: MPEG4, Ogg Vídeo e Cinepack. Para fazer o download basta clicar sobre o formato desejado e mandar salvar.
A Burlesque On Carmen — (1915)
A Busy Day — (1914)
A Day’s Pleasure — (1919)
A Dog’s Life — (1918)
A Fair Exchange — (1914)
A Film Johnnie — (1914)
A Night in the Show — (1915)
All Night Out — (1915)
A Woman — (1915)
Behind the Screen — (1916)
Between Showers — (1914) 
By the Sea — (1915)
Caught in a Cabaret — (1914)
Charlie Shanghaied — (1915)
Charlie’s Recreation — (1914)
Charlotte et Le Mannequin — (1914)
Cruel Cruel Love — (1914)
Face on a Barroom Floor — (1914)
Gentlemen of Nerve — (1914)
His Favorite Pastime — (1914)
His New Job — (1915)
His Prehistoric Past — (1914)
His Trysting Place — (1914)
In the Park — (1915)
Kid Auto Races at Venice — (1914)
Laughing Gas — (1914)
Mabel’s Busy Day — (1914)
Mabel’s Strange Predicament — (1914)
Making a Living — (1914)
Musical Tramps — (1914)
One A.M. — (1916)
Police — (1916)
Shoulder Arms — (1918)
Sunnyside — (1919)
The Bank — (1918)
The Champion — (1915)
The Count — (1916)
The Fatal Mallet — (1914)
The Fireman — (1916)
The Floorwalker — (1916)
The Gold Rush — (1914)
The Immigrant — (1917)
The Kid — (1921)
The Knockout — (1914)
The Landlady’s Pet —  (1914)
The Masquerader — (1914)
The New Janitor — (1914)
The Pawnshop — (1916)
The Property Man — (1914)
The Rink — (1916)
The Rival Mashers — (1914)
The Rounders — (1914)
The Tramp — (1915)
The Vagabond — (1916)
Tillie’s Punctured Romance — (1914)
Triple Trouble — (1918)
Twenty Minutes of Love — (1914)
Work — (1915)

 FONTE: Revista Bula
 

domingo, 1 de novembro de 2015

Disponible para descarga libre: "Prefigurar lo político: disputas contrahegemónicas en América Latina"

LINK PARA DOWNLOAD: 
http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20150707041754/Prefigurar.pdf



Colección Ensayo e Investigación

Prefigurar lo político. Disputas contrahegemónicas en América Latina
Paula Camara, Armando Chaguaceda, Blanca S. Fernández y Florencia Puente
[Coordinadores]
Prólogo
Marcelo Argenta Câmara

Buenos Aires, 2015

“…Desde el punto de vista organizativo, las contribuciones del libro se reúnen en tres bloques: “Pensar lo político más allá de la institucionalidad dominante”, “Disputas contra-hegemónicas desde los movimientos sociales” y “Ensayos sobre la construcción de conocimientos, el Estado y las sociabilidades emergentes” a partir de los elementos comunes que encontramos en los mismos. En este sentido, los textos nos permiten examinar condiciones sociales y políticas desde sus vicisitudes pero también retomar posibilidades teóricas que responden al objetivo de matizar la pluralidad de las movilizaciones sociales. Proponemos, además, integrar enfoques diversos –no apologéticos– para establecer un diálogo fecundo acerca de los procesos políticos en curso en América Latina; en especial en lo referente a las movilizaciones sociales, la aparición de “nuevos” actores contestatarios a las dominaciones vigentes y la exploración de modos de producir, participar y reflexionar, que incitan perspectivas críticas de las lógicas hegemónicas del Estado y el Capital …”