sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela, apartheid e a hipocrisia do governo norte-americano




Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas A/RES/42/23 de 20 de novembro de 1987, pela libertação de Mandela, então condenado a prisão perpétua: 129 votos a favor, 3 contra (EUA, Reino Unido, Portugal) e 23 abstenções.




Como presidente, eu observava com espanto como Nelson Mandela tinha a notável capacidade de perdoar seus carcereiros após 26 anos de prisão injusta - a criação de um poderoso exemplo de redenção e graça para todos nós










George H.W. Bush, ex-presidente norte-americano

Os novos instrumentos ideológicos, políticos e sociais utilizados pelas classes dirigentes para boicotar a luta de classes


Prefácio a "O Canto da Sereia"

por James Petras

Este livro, "O Canto da Sereia" [1] , é uma importante contribuição para a clarificação de várias questões políticas e académicas importantes. Antes de mais, os artigos analisam criticamente os novos instrumentos ideológicos, políticos e sociais utilizados pelas classes dirigentes para boicotar a luta de classes.

Especificamente, as contribuições concentram-se no envolvimento das classes dirigentes na luta de classes pela base: o uso das chamadas organizações não-governamentais (ONG) e a manipulação e cooptação de slogans "progressistas" ("delegação", "participação democrática").

No artigo teórico de abertura, Carlos Montaño fornece um enquadramento perspicaz. O artigo "A ilusão ou auto-representação da sociedade civil" relaciona a ascensão do neoliberalismo e o ataque às organizações de classe e ao bem-estar social, com o patrocínio estatal das ONG que se destinam a competir, cooptar e subverter as organizações de classe empenhadas na luta de classes.

Perante o fim e a decadência da ideologia neoliberal convencional e a ascensão da política de classe, após o recuo de regimes autoritários na década de 80, as classes dirigentes imperialistas e nacionais perceberam que não podiam governar apenas pela força e pela violência. Procuraram e encontraram um pequeno exército de activistas ex-esquerdistas, de intelectuais pós-marxistas "renovados", de guerrilheiros arrependidos e de empresários académicos complacentes, dispostos a desempenhar o papel de desviar as organizações de classe da luta pelo poder estatal para a colaboração de classes com vista a micro-mudanças no interior do sistema neoliberal. A estratégia de contra-revolução da classe dirigente foi concebida para "reembalar" o regime neoliberal numa "Terceira Via" entre o "capitalismo desenfreado" e o "socialismo estatal autoritário". Os académicos e activistas "pós-marxistas" asseguraram posições lucrativas, tiveram acesso a uma fundação imperialista e a financiamentos estatais e à protecção do regime contra a repressão. Os homens das ONG receberam donativos generosos para comprar veículos todo-o-terreno, contrataram pessoal, alugaram ou compraram escritórios e edifícios bem mobilados, tudo em nome de "organizar e capacitar as pessoas". Foram pagos para disseminar uma ideologia e uma organização que substituíssem a solidariedade de classe pela colaboração de classes, invocando a delegação do poder individual. Promoveram o "auto-emprego" em vez da propriedade colectiva dos meios de produção. Concentraram-se na "pobreza" e não nas relações exploradoras de classe que dão origem à pobreza.

Através da intervenção estatal, financiaram-se centros de investigação influentes, destacados intelectuais ex-esquerdistas forneceram os instrumentos conceptuais que levaram às "reformas sociais" neoliberais que perpetuaram o poder e os privilégios da classe dirigente. Floresceu o capital extractivo multinacional e os bancos; o estado imperialista colonizou o espaço cibernético, mas os académicos da "Terceira Via" excluíram o imperialismo da sua agenda de investigação.

Com o fim da primeira vaga de dirigentes neoliberais (Cardoso no Brasil, Menem na Argentina, Sanchez de Losada na Bolívia, Gutierrez no Equador), surgiu uma segunda vaga de dirigentes, os chamados "pós-neoliberais", com base nos levantamentos e lutas populares de massas.

Os novos "pós-neoliberais" aprofundaram os seus laços com o capital extractivo e expandiram o papel do capital financeiro para desenvolver a economia e procuraram manter o apoio das massas financiando vastos programas clientelísticos de combate à pobreza. O neoliberalismo social encontrou nos ex-marxistas os soldados ideológicos para justificar e promover o mito de mudanças radicais. Emir Sader, o patrono do CLACSO [Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais], e Walter Pomar, o ideólogo do PT, no Brasil, Garcia Linares na Bolívia e uma série de outros proporcionaram um brilho intelectual para justificar a acomodação entre o regime e o capital.

Ex-esquerdistas da América latina, seguindo as pisadas do autor da "Terceira Via", o sociólogo britânico e conselheiro de Tony "Bombas sobre Bagdad" Blair, Anthony Giddings (Barão Giddings), procuraram denegrir, excluir e menorizar os marxistas críticos que questionavam os regimes "pós-neoliberais".

Felizmente, não tiveram êxito por duas razões importantes, uma "objectiva" e outra "subjectiva". As crises económicas, que começaram em 2008 e continuaram até ao presente, e as políticas pró-capitalistas dos pós-neoliberais geraram protestos e mobilizações de massas que subverteram os pressupostos e afirmações progressistas dos académicos, defensores do "pós-neoliberalismo".

Igualmente importante, os trabalhos académicos, como a presente colectânea de artigos, demonstraram, teórica e empiricamente, a falência intelectual da "Terceira Via" e o fracasso dos seus projectos político-económicos.

Uma crítica completa do projecto pós-neoliberalismo
e da ideologia da terceira via 


A Canção da Sereia é a melhor crítica abrangente da "contra-revolução pela base" – a guerra ideológica para conquistar os corações e os espíritos das massas através das "organizações de base" controladas pela classe dirigente.

A estrutura e a ideologia da "contra-revolução" dirigida pela classe dirigente, assenta em cinco pilares: as ONG, a micro-política, a micro-empresa, o neoliberalismo social e os sujeitos despolitizados. Os artigos nesta colectânea derrubam todos os pilares ideológicos que sustentam os argumentos da Terceira Via. André Dantas e Ivy Carvalho desmistificam a noção de "participação democrática" e de "delegação de poder" – situando os conceitos no seu contexto político e económico mais amplo: como o poder oligárquico contém e reduz o tempo e o espaço do seu significado operacional, esvaziando-os de qualquer conteúdo substantivo.

Carlos Montaño fornece uma análise histórica e estrutural das ONG, ligando-as às crises de domínio pós-militar e à sua função como "bombeiros" neoliberais – organizações destinadas a boicotar a emergente organização de classe e a desviar a luta de classes para a colaboração de classes.

Em três artigos rigorosamente documentados, Soares, Martins e Wellen demonstram o fracasso da política de micro-empresas da Terceira Via, corporizadas nos programas de "auto-emprego" e de "economia solidária" do PT que foram concebidas para reduzir o desemprego e a desigualdade. As continuidades na estrutura económica e na estratégia entre o passado (Cardoso) e o presente (DaSilva/Rousseff) resultaram em ganhos temporários limitados à custa de perdas estruturais estratégicas. O crescimento na "fundação" de micro-empresas é mais do que igualado pelas altas taxas de falências. "Economias de subsistência" no contexto da crescente concentração de riqueza não é um progresso histórico.

A quarta coluna do edifício Terceira Via: "desenvolvimento com justiça social" é brilhantemente criticada em dois artigos por Maranhão e Sigueira. Desmascarando a noção de que o modelo de desenvolvimento do Brasil desbravou novos terrenos aliando o capital extractivo aos programas de combate à pobreza, os autores documentam como a manipulação ideológica do conceito de pobreza feita pela classe dirigente preservou as estruturas do poder que geraram e perpetuam a pobreza.

A quinta coluna da construção ideológica da Terceira Via são os conceitos de "sujeitos autónomos" e de "novos movimentos sociais". Martin demonstra eficazmente que os movimentos mais dinâmicos e influentes que provocam mudanças estruturais são os liderados e dirigidos por ideologias e líderes orientados pela classe.

Os "novos movimentos sociais" foram fenómenos efémeros que se mantiveram à margem das grandes lutas políticas e não desempenharam qualquer papel nas mudanças de regime durante os últimos quinze anos.

Em dois artigos, Martino e Zacarias fornecem dados e uma teoria que demonstra que a dinâmica da luta de classes e da consciência de classe foram os factores determinantes na realização de mudanças consequentes na correlação das forças políticas. Zacarias foca os movimentos ambientalistas, sublinha a importância da análise de classe para a identificação das classes (dirigentes) como o principal agente fundamentalmente responsável pela degradação climática e das classes trabalhadoras e rurais como as mais gravemente afectadas pela poluição ambiental.

No seu conjunto, estes artigos demonstram como a ideologia da Terceira Via e o projecto neoliberal se completam uma à outra, como a classe dirigente neoliberal privatiza a economia e reprime as massas, enquanto as ONG despolitizam e desviam os trabalhadores e os sub-proletários urbanos para organizações colaboracionistas de classe.

Estes artigos reivindicam colectivamente a análise de classes marxista e servem de modelo de erudição crítica no seu melhor. Depois de ler estes artigos, todo o projecto da "Terceira Via" desaba em ruínas. E em seu lugar, temos um novo paradigma e projecto intelectual brilhantes, assentes na análise de classes, que combina a teoria marxista clássica e a sua aplicação criativa a um novo conjunto de condições políticas e económicas. 
20/Novembro/2013



[1] O livro aparentemente ainda não está publicado (não confundi-lo com um recente romance policial com o mesmo título). 

O original encontra-se em petras.lahaine.org/?p=1962 . Tradução de Margarida Ferreira 

Fonte: Resistir.Info 

Nelson Mandela e Fidel Castro, uma relação de admiração mútua

Quando Mandela saiu da prisão, uma das primeiras coisas que fez foi visitar Fidel em Cuba. Quando assumiu a presidência, Fidel foi seu convidado de honra.

Mandela e Fidel em julho de 1991, em Havana (Cuba)


Assista no link abaixo o documentário de Estela Bravo:
http://www.youtube.com/watch?v=BHWYAYttWmQ

Mensagem enviada por Fidel na ocasião da comemoração dos 92 anos de Mandela
Para Mandela, de Fidel (julio de 2010)

Cuba decreta luto oficial pelo falecimento de Mandela

Raúl Castro envia mensagem de condolências pelo falecimento de Mandela


Fidel e Mandela em 1998, na África do Sul


Mensaje de Raúl Castro, presidente de los Consejos de Estado y de Ministros de la República de Cuba al Excelentísimo Señor Jacob Gedleyihlekisa Zuma, Presidente de la República deSudáfrica
La Habana, 5 de diciembre de 2013
Excelencia:
Con profundo dolor, le trasmito las más sentidas condolencias por el fallecimiento del querido compañero Nelson Mandela, en nombre del pueblo y el Gobierno cubanos, que hago extensivas a sus familiares, al Congreso Nacional Africano y a toda la Nación.
Mandela será recordado por la altura de su ejemplo, la grandeza de su obra y la firmeza de sus convicciones en la lucha contra el apartheid, y por su invaluable aporte a la construcción de una nueva Sudáfrica.
Le profesamos profundo respeto y admiración, no solo por lo que hizo por su pueblo, sino por su amistad probada hacia nuestro país.
De Mandela nunca podremos hablar en pasado.
Reciba, estimado Presidente, el testimonio de mi más alta consideración y estima.
 Raúl Castro Ruz
 Presidente de los Consejos de Estado
  y de Ministros de la República de Cuba

K. Marx - El Capital I, En Dibujos e Historietas.

Link para download:
http://pt.scribd.com/doc/188605200/K-Marx-El-Capital-I-En-Dibujos-e-Historietas#download



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Nelson Mandela morre aos 95 anos


Liderança histórica da África Negra e da luta contra a segregação racial


Da aldeia de Mevzo à cela 466/64: morre Nelson Mandela, líder sul-africano

Mandiba foi principal responsável pelo despertar de um povo e a posterior construção de uma nação

"Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer".

Nelson Rolihlahla Mandela (nome de batismo Rolihlahla Dalibhunga Mandela) faleceu nesta quinta-feira (05/12), aos 95 anos. A morte foi anunciada pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma. As palavras acima foram ditas em 1964, durante seu julgamento. Em junho daquele ano, ele seria condenado à prisão perpétua. Enviado para a prisão da Ilha Robben, Mandela passou a ocupar a cela de número 466/64, cujas dimensões eram de 2,5 por 2,1 metros, e uma pequena janela de 30 cm. Viveu ali por 27 anos.

O prolongado período de cárcere ao qual Mandela foi submetido era uma manifestação direta do brutal regime segregacionista do apartheid imposto pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul. De 1948 a 1994, ano das primeiras eleições livres no país – conquistadas pelo líder popular –, os direitos da grande maioria dos habitantes eram cerceados pelo governo, formado pela minoria branca. De fato, a segregação racial data do período colonial, mas o apartheid foi introduzido como política oficial no final dos anos 1940.

Com ele tiveram origem os bantustões, pseudoestados de base tribal criados pelo regime para manter os negros fora dos bairros e terras brancas, mas suficientemente perto delas para servirem de fontes de mão-de-obra barata.

Início da vida política
Pouco tempo antes, o jovem Mandela, membro de uma família de nobreza tribal da etnia Xhosa, nascido em uma pequena aldeia do interior, se mudou para capital, Johannesburgo, com 23 anos e começou a atuar na política. Naquele ambiente cosmopolita, em contraste com o cenário rural no qual havia vivido até então, Mandela se formou em advocacia e passou a liderar a resistência não-violenta da Liga da Juventude do CNA (Congresso Nacional Africano).

Na Fort Hare, primeira universidade da África do Sul a ministrar cursos para negros, Mandela fez muitos amigos com quem mais tarde formaria o núcleo de comando da Liga, movimento de resistência ao apartheid que se transformou em partido político a partir de 1994, o CNA.

Na capital, Mandela trabalhou como vigia de uma mina e conheceu Walter Sisulu, ativista político, em 1941. Sobre o encontro Sisulu diria, mais tarde: "Queríamos ser um movimento de massa, e então um dia um líder de massa entrou no meu escritório."

Alguns anos depois, Mandela se juntou a outro ativista, Oliver Tambo, com quem inaugurou o primeiro escritório advocatício negro do país. Biografias de Mandela analisam que, somente em Johannesburgo, quando já não era mais tratado como um garoto da nobreza tribal, e sim como mais um negro pobre do interior, o jovem percebeu a dimensão do abismo entre brancos e negros. Essa, provavelmente, foi a fagulha determinante para o início da luta contra o racismo.

Em 1951, Mandela é eleito presidente da Liga e no ano seguinte presidente do CNA na província de Transvaal, o que o coloca como vice-presidente nacional da instituição. Em 26 de junho do ano seguinte, é lançada na África do Sul a “Campanha de Desafio”: por todo o país, negros são convidados a usarem os espaços reservados aos brancos – banheiros, escritórios públicos, correios. Ele é condenado, junto a outros 19 companheiros, com base na Lei de Repressão ao Comunismo, a uma pena de nove meses de trabalhos forçados.
Em 8 de abril de 1960, o CNA é banido e Mandela fica preso até o ano seguinte, quando passa para a clandestinidade. Em 1961, ele cria o Umkhonto we Sizwe – "Lança de uma Nação" – também conhecido pela sigla "MK”, braço armado do CNA. O movimento surge em resposta ao Massacre de Sharpville, em 20 de março de 1960, quando 69 negros foram metralhados pelas forças de segurança em um protesto do PAC (Congresso Pan-Africano) contra a Lei do Passe, que obrigava os negros da África do Sul a usarem uma caderneta na qual estava escrito aonde eles poderiam ir.

Segundo Mandela, o treinamento militar seria paralelo ao político, de forma a ficar bem definido que a revolução serviria para tomar o poder, e não para habilitar atiradores. "Nós adotamos a atitude de não violência só até o ponto em que as condições o permitiram. Quando as condições foram contrárias, abandonamos imediatamente a não violência e usamos os métodos ditados pelas condições”, explicou na ocasião. Em 1962, Mandela vai a Londres, onde adquire livros sobre guerra e guerrilha. Ele e Tambo se reúnem com vários políticos e, dali, percorrem diversos países africanos em busca de apoio contra o Apartheid.
As ideias de Mandela passavam pela construção de um exército revolucionário, capaz de conquistar o apoio popular, instalar escolas de doutrinação, coordenação adequada da guerrilha, oportunidades psicológicas das ações etc. Ele retorna ao país de seu périplo internacional após alguns meses, especialmente para relatar aos líderes do CNA e do MK sobre seu aprendizado. Estava com Walter Sisulu quando foram detidos, em 5 de agosto de 1962.
Prisão
Mesmo após ser detido e sentenciado, Mandela é julgado novamente, por acusações ainda mais graves, relacionadas às atividades no exterior. Uma delas era “atuar para promover os objetivos do comunismo”. No julgamento de Rivonia, ele e outros nove líderes sul-africanos são condenados à prisão perpétua.

No decorrer dos 27 anos que ficou preso, Mandela se tornou de tal modo associado à oposição ao apartheid que o clamor "Libertem Nelson Mandela" se tornou o lema das campanhas antiapartheid em vários países.

Durante os anos 1970, ele recusou uma revisão da pena e, em 1985, não aceitou a liberdade condicional em troca de não incentivar a luta armada. Mandela continuou na prisão até fevereiro de 1990, quando a campanha do CNA e a pressão internacional fizeram com que ele fosse libertado em 11 de fevereiro, aos 72 anos, por ordem do presidente Frederik Willem de Klerk.

Centenas de apoiadores o aclamaram na saída, respondendo em júbilo quando ele ergueu o punho fechado no ar, em sinal de vitória. Chegava ao fim o longo cárcere, de mais de 20 anos. A partir dali a história da África do Sul seria outra. "Quando me vi no meio da multidão, alcei o punho direito e estalou um clamor. Não havia podido fazer isso faz 27 anos, e me invadiu uma sensação de alegria e de força”, disse na época. Ele e de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz em 1993.

Como presidente do CNA (de julho de 1991 a dezembro de 1997) e primeiro presidente negro da África do Sul (de maio de 1994 a junho de 1999), Mandela comandou a transição de um regime de minoria no comando, para a democracia multirracial da moderna África do Sul.

Para simbolizar os novos tempos adota um novo hino nacional, que mescla o hino do CNA (Nkosi Sikolele Africa - Deus bendiga a África) com o africâner (Die Stein); também uma nova bandeira é criada, unindo os símbolos das duas instituições anteriores: a bandeira oficial dos brancos, em vigor desde 1928 passou a incorporar as cores da bandeira do CNA - plasmando assim a união de todos os povos da nova nação que surgia - aprovados pela nova Constituição interina.
Em julho de 1995, Mandela cria a Comissão da Verdade e Reconciliação sem poderes judicantes, sob presidência do arcebispo Tutu. Tem início um processo doloroso, principalmente para os sul-africanos negros, após décadas de segregação e violência. Quase 20 anos depois, muitas feridas ainda permanecem abertas, alimentadas pela todavia dificultosa integração entre negros e brancos. Apesar da democratização, o racismo e o preconceito sobrevivem na África do Sul. 

Mandela não viu em vida seu ideal se concretizar em plenitude, mas foi o fundamental e principal responsável pelo despertar de um povo e a posterior construção de uma nação. "Amandla!" ("Poder!"), gritava Mandiba em Xhosa aos seus seguidores, que respondiam "Awethu!" ("Para o povo!"). Morre um revolucionário.

FONTE: Opera Mundi


Livros da coleção 90 Minutos para download


Série de pequenas biografias que trata de filósofos, cientistas e escritores. Cada volume vem no formato de bolso e tem, em média, cem páginas. E pode ser lido em cerca de uma hora e meia. Os livrinhos funcionam bem como ponto de partida para se conhecer os autores e suas obras. Embora não sejam profundos – por motivos óbvios –, eles oferecem retratos corretos e atraentes, trazem informações úteis sobre as principais obras, procurando contextualizá-las e explicam a importância do biografado e do seu trabalho.

Link para baixar os livros da coleção 90 minutos:
https://drive.google.com/folderview?id=0BxF0PJKxgbLIa1FjTWZ4azhZR2c&usp=sharing

CHEGA DE ESTUPROS EM RIO DAS OSTRAS: mobilização pelo fim da violência contra as mulheres

CHEGA DE ESTUPROS EM RIO DAS OSTRAS
Participe da mobilização contra os estupros em Rio das Ostras!

DIA 10 DE DEZEMBRO – Terça feira

Grafite, Intervenção artística e cultural nos muros da UFF/ Rio das Ostras. Artista plástico Lobão
14h: Oficina de cartaz no saguão da UFF
16h: Panfletagem no sinal em frente à UFF

Venha cobrar conosco uma resposta do poder público por um fim a esta violência!

Esta atividade é parte da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres

A UFF Rio das Ostras fica na Rua Recife, s/ nº, Bairro Jardim Bela Vista

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Trabalho e trabalhadores no Brasil (só no Brasil?) de hoje

Por Marcelo Badaró

Portugueses e portuguesas enfrentam hoje uma taxa de desemprego de dois dígitos (17% segundo os dados oficiais, sempre subestimados, a taxa real aponta para 25%) e uma situação de regressão nas condições de vida social minimamente digna, conquistadas a partir do 25 de abril. É nesse contexto social que ganham espaço as avaliações sobre a irreversibilidade do quadro atual de desemprego e precarização das relações de trabalho e o diagnóstico de que as únicas saídas são as políticas sociais compensatórias, do tipo RSI (Rendimento Social de Inserção) e RBI (Rendimento Básico Incondicional).
Pode ser interessante resgatar alguns elementos do quadro brasileiro para pensar parâmetros e evitar armadilhas desse tipo de debate, respeitando, por certo, as especificidades de trajectória histórica (especialmente a recente, visto que Portugal superou a ditadura com um movimento revolucionário, algo muito distinto da transição pactuada pelo alto no Brasil). Nos anos 1990 e princípios da década de 2000, no Brasil, o desemprego atingiu patamares similares aos de Portugal hoje. 12,6% foi a taxa oficial de desemprego em 2002. Naquele momento, os diagnósticos eram sempre pessimistas, apresentando-se o desemprego recente como “estrutural”, irreversível e mesmo “necessário”, segundo os liberais mais sinceros, para garantir “competitividade” à produção nacional frente a um mercado mundial globalizado.
As receitas para garantir maior “empregabilidade” para a força de trabalho nacional eram variadas: cursos de reciclagem e formação profissional para procurarem emprego em outros ramos económicos; “vestir a camisa da empresa” e contribuir para o desafio da elevação da produtividade, demonstrando “flexibilidade”, para os que ainda conservavam o emprego; “empreendedorismo”, para os demitidos que deveriam buscar sustentar-se sem emprego regular; etc. Na prática, os governos avançaram sobre direitos dos trabalhadores, desregulamentando direitos e instituindo aberrações na legislação trabalhista, como a regulamentação do “banco de horas” (eliminando a necessidade de pagamento de horas extra em dobro e entregando às empresas o controle completo do calendário do trabalhador), ou a legislação da Participação nos Lucros e Resultados (que longe de distribuir lucros entre os trabalhadores, representou a criação de uma parcela da remuneração livre dos encargos sociais).

As empresas levaram adiante programas de “rescisão voluntária”, ampliaram a gama de actividades terceirizadas e reduziram salários e direitos. Os sindicatos, em sua imensa maioria, aceitaram a lógica e passaram a reivindicar o “menos mal”, ou seja, a retirada “negociada” de direitos (aceitando a inevitabilidade da retirada) para as parcelas cada vez menores de trabalhadores que conservavam o emprego formal. Mesmo a central sindical que surgira das lutas memoráveis dos anos 1980 (a CUT) aceitou as novas regras do jogo e foi remunerada para isso, na medida em que passou a manejar somas expressivas de recursos (oriundos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, criado para garantir o seguro desemprego) para oferecer cursos de reciclagem profissional aos desempregados.

Diante da ameaça do caos que tal estado de regressão social inaugurava, o Estado actuou em duas frentes: dura repressão sobre os movimentos sociais que teimaram em resistir e intensa e mortífera vigilância policial sobre os espaços de concentração da miséria (as favelas e periferias das grandes cidades) por um lado; e uma tímida política social focalizada, nos moldes preconizados pelos organismos financeiros internacionais, para aliviar a miséria absoluta dos mais pobres entre os mais pobres, com políticas como o “Bolsa Escola” (uma renda mínima, muito mínima, para famílias miseráveis com crianças na escola), criada no governo de Fernando Henrique Cardoso.

A década de 2000 representou uma alteração nesse quadro. A situação da economia internacional favorável à exportação de commodities, a forte vinculação da economia brasileira à economia chinesa pelo caminho da troca desigual (commodities alimentícias e energéticas saindo daqui e produtos industrializados vindo de lá) e a pequena recuperação do mercado interno (movido a crédito fácil, embora caro), criaram o terreno propício para que um governo eleito como opositor ao neoliberalismo fosse eleito e governasse com alguma folga. Mas governasse em que direção? Sobre o terreno arrasado da década anterior, houve um recuo do desemprego, ampliação das políticas sociais focalizadas (como o RSI) para um patamar de massas e uma tímida reversão do quadro de desigualdade crónica da distribuição de renda no país (ao menos quando o novo período é comparado com a década anterior). Isso foi possível, entretanto, sem qualquer reversão significativa na lógica das políticas anteriores. Direitos dos trabalhadores continuaram a ser retirados (no primeiro semestre de seu governo, Lula da Silva “reformou” a Previdência Social, retirando mais direitos dos já trabalhadores já reformados e dos futuros); os novos postos de trabalho criados possuem como característica comum os baixos salários; o processo de terceirização (e a precarização mesmo dos empregos formais) é cada vez mais amplo; as políticas sociais focalizadas diminuíram a miséria absoluta, mas estão longe de criar condições para a vida digna; a repressão aos poucos movimentos que ainda resistem ampliou-se e o controle policial sobre as concentrações urbanas de trabalhadores pauperizados e precarizados tornou-se cada vez mais intenso e violento; e os sindicatos, bom, os sindicatos tornaram-se ainda mais dóceis, com as centrais sindicais (agora já são seis as centrais reconhecidas pelo Ministério do Trabalho) gravitando cada vez mais em torno do Estado e engordando seus cofres com a contribuição sindical compulsória descontada de todos os trabalhadores – sindicalizados ou não.
Em números. Os dados oficiais de desemprego calculam em 5,2% a taxa de desemprego em Outubro passado. Já os dados, mais próximos do real, apresentados pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos) são de 8,1% de desemprego aberto em Setembro (10,3% de desemprego total). A formalização do contrato de trabalho no sector privado no Brasil é medida pela assinatura da “Carteira de Trabalho” pelo empregador. Esse indicador subiu de 39,7% dos ocupados em 2003 para 49,2% em 2012. Já os contribuintes para a Previdência Social somavam cerca de 54% dos trabalhadores ocupados em 2011. Somando-se os quase 50% de ocupados sem carteira ou contribuição previdenciária, ou seja, sem cobertura de direitos do trabalho, aos cerca de 10% de desempregados, temos uma ideia do grau de precarização das relações de trabalho e fragmentação da classe trabalhadora brasileira. Mas, é preciso agregar ainda outros dados. Calcula-se entre 8 e 10 milhões (numa População Economicamente Activa de 105 milhões de pessoas em 2011) os trabalhadores terceirizados, ou seja, contratados formalmente, mas através de empresas prestadoras de serviços para as empresas em que efectivamente trabalham, com salários menores e menor cobertura de direitos.

Já quanto à renda, os dados de rendimento mensal médio da população com mais de dez anos de idade ocupada indicam que, em 2011, quase 30% recebia até um salário mínimo (8,29% recebendo menos que meio salário mínimo), 37,29% recebiam entre um e dois salários mínimos e 14,9% recebiam entre dois e três salários mínimos, ou seja, 82% dos trabalhadores ocupados recebiam até 3 salários mínimos, e menos de 3% recebiam mais de 10 salários mínimos. Aponta-se que o salário mínimo no Brasil cresceu em termos reais, desde 2003, mas tal crescimento apenas retomou seu poder de compra dos anos 1980, quando este já havia sofrido duas décadas de recuo. Considerando-se que o salário mínimo nominal em 2013 está fixado em R$ 678,00 (cerca de 220 euros no câmbio actual) e que para atender ao que define a legislação seria necessário um salário mínimo de R$ 2.860,21, segundo os cálculos do DIEESE, mais de 80% da classe trabalhadora ocupada no Brasil recebe menos do que o necessário para a reprodução minimamente digna de sua existência. Os dados sobre distribuição de renda apurados pelo Censo de 2010 indicam que apesar de pesquisas apontarem quedas sucessivas na desigualdade de renda no Brasil, tais quedas não representaram de fato um avanço significativo em direcção à superação da desigualdade extrema, que ainda é a marca. Afinal, segundo esses dados, os 10% mais ricos no País têm renda média mensal 39 vezes maior que a dos 10% mais pobres. Assim, em 2010 os 10% mais pobres ganhavam apenas 1,1% do total de rendimentos. Já os 10% mais ricos ficaram com 44,5% desse total.

É face a esse quadro de precarização das relações de trabalho, desigualdade gritante e pauperismo elevado que se entende o “sucesso” da política do “Bolsa Família”. O programa, voltado para famílias com renda per capita mensal média de R$ 70,00 (pouco mais de 20 euros), atende hoje a 13,8 milhões de famílias. Ou seja, em torno de 50 milhões de pessoas (cerca de ¼ da população total do país) são atingidas por uma política de governo que paga mensalmente um pequeno benefício, que varia conforme o número de crianças na família e outros fatores (seu valor médio era de R$ 149,00 no primeiro semestre de 2013).
Em síntese, acredito que o exemplo brasileiro seja interessante porque demonstra claramente que uma base de devastação social a partir dos anos 1990, criada pelo desemprego elevado, pelo avanço da contratação precária, pela retirada de direitos do trabalho e pela domesticação das entidades sindicais, criou as condições para, em um quadro internacional distinto, uma retomada do crescimento económico nos últimos dez anos (mas a crise já está aí a bater nossas portas). Porém, ainda que gerando a diminuição do desemprego e a elevação do trabalho formalizado, isto se deu em meio a um quadro de direitos trabalhistas restringidos e salários extremamente rebaixados. Ou seja, trata-se de mais uma ilustração perfeita, numa economia periférica do século XXI, da “lei geral da acumulação capitalista”, formulada por Marx em O Capital, que enxergava claramente como “a acumulação capitalista produz constantemente (…) uma população trabalhadora adicional relativamente supérflua ou subsidiária, ao menos no concernente às necessidades de aproveitamento por parte do capital”. Da mesma forma, que explicava que “o sobretrabalho da parte ocupada da classe trabalhadora engrossa as fileiras de sua reserva, enquanto, inversamente, a maior pressão que a última exerce sobre a primeira obriga-a ao sobretrabalho e à submissão aos ditames do capital.”

Porém, como o próprio Marx adiantava, as “leis” da acumulação capitalista, são tendências, sempre sujeitas a contra-tendências. A mais importante delas decorre das lutas de classes. Em diversos momentos históricos as lutas da classe trabalhadora puseram freios, ou mesmo apontaram alternativas societárias diametralmente opostas, à contínua produção de miséria gerada pela acumulação capitalista. Que os trabalhadores brasileiros, portugueses e do mundo todo se lembrem disso e partam em busca de algo mais que o “menos pior”, seja em cenários de crise aberta ou de crescimento dependente e limitado.