segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O legado de 1989 nos dois hemisférios

Por Noam Chomsky

Este ano marcou o aniversário de grandes eventos ocorridos em 1989: "o maior ano da história do mundo desde 1945", como o historiador britânico Timothy Garton Ash o descreve. Naquele ano, "tudo mudou", escreve Garton Ash. As reformas de Mikhail Gorbachev na Rússia e a sua "impressionante renúncia do uso da força" levaram à queda do Muro de Berlim, em 9 de Novembro – e à libertação da Europa Oriental da tirania russa. Os elogios são merecidos, os eventos, memoráveis. Mas perspectivas alternativas podem ser reveladoras.


A chanceler alemã, Angela Merkel, forneceu – sem querer – uma tal perspectiva, quando apelou a todos nós para "usar este dom inestimável da liberdade para ultrapassar os muros do nosso tempo". Uma forma de seguir o seu bom conselho seria desmantelar o muro maciço, superando o muro de Berlim em escala e comprimento, que serpenteia atualmente através do território da Palestina, em violação do direito internacional.


O “muro de anexação”, como deveria ser chamado, é justificado em termos de “segurança” – a racionalização por defeito para muitas das ações do Estado. Se a segurança fosse a preocupação, o muro teria sido construído ao longo da fronteira e tornado inexpugnável. O propósito desta monstruosidade, construído com o apoio dos EUA e a cumplicidade européia, é permitir que Israel se aposse de valiosa terra palestina e dos principais recursos hídricos da região, negando assim qualquer existência nacional viável à população autóctone da antiga Palestina.


Outra perspectiva sobre 1989 vem de Thomas Carothers, um acadêmico que trabalhou em programas de “reforço da democracia” na administração do antigo presidente Ronald Reagan. Depois de rever o registro, Carothers concluiu que todos os líderes dos EUA foram "esquizofrênicos" – apoiando a democracia quando se conforma aos objetivos estratégicos e econômicos dos EUA, como nos satélites soviéticos, mas não nos estados clientes dos EUA.


Esta perspectiva é dramaticamente confirmada pela recente comemoração dos acontecimentos de Novembro de 1989. A queda do muro de Berlim foi comemorada com razão, mas houve pouca atenção ao que aconteceu uma semana mais tarde: em 16 de Novembro, em El Salvador, o assassinato de seis importantes intelectuais latino-americanos, padres jesuítas, juntamente com a sua cozinheira e sua filha, pelo batalhão de elite Atlacatl, armado pelos EUA, fresco do treino renovado na Escola de Guerra Especial JFK, em Fort Bragg, Carolina do Norte.


O batalhão e seus esbirros já tinham compilado um registro sangrento ao longo da terrível década que começou em 1980 em El Salvador com o assassinato, praticamente às mesmas mãos, de Dom Oscar Romero, conhecido como “a voz dos sem voz”. Durante a década da “guerra contra o terrorismo” declarada pelo governo Reagan, o horror foi semelhante em toda a América Central.


O reinado de tortura, assassinato e destruição na região deixou centenas de milhares de mortos. O contraste entre a libertação dos satélites da União Soviética e o esmagamento da esperança nos estados clientes dos EUA é impressionante e instrutivo – ainda mais quando ampliamos a perspectiva.


O assassinato dos intelectuais jesuítas trouxe praticamente o fim à “teologia da libertação”, o renascimento do cristianismo que tinha as suas raízes modernas nas iniciativas do Papa João XXIII e do Vaticano II, que ele inaugurou em 1962. O Vaticano II "deu início a uma nova era na história da Igreja Católica", escreveu o teólogo Hans Kung. Os bispos latino-americanos adotaram a "opção preferencial pelos pobres". Assim, os bispos renovaram o pacifismo radical do Evangelho que tinha sido posto de lado quando o imperador Constantino estabeleceu o cristianismo como a religião do Império Romano – "uma revolução" que, em menos de um século, transformou a Igreja perseguida numa "Igreja perseguidora", de acordo com Kung.


No renascimento pós-Vaticano II, os sacerdotes latino-americanos, freiras e leigos levaram a mensagem do Evangelho aos pobres e perseguidos, reuniram-nos em comunidades, e encorajaram-nos a tomar o destino nas suas próprias mãos. A reação a essa heresia foi a repressão violenta. No decurso do terror e do massacre, os praticantes da Teologia da Libertação foram o alvo principal. Entre eles estão os seis mártires da Igreja, cuja execução há 20 anos é agora comemorada com um silêncio retumbante, praticamente não quebrado.


No mês passado, em Berlim, os três presidentes mais envolvidos na queda do Muro – George H. W. Bush, Mikhail Gorbachev e Helmut Kohl – discutiram quem merece crédito.


"Eu sei agora como o céu nos ajudou", disse Kohl. George H. W. Bush elogiou o povo da Alemanha Oriental, que "por muito tempo foi privado dos seus direitos dados por Deus". Gorbachev sugeriu que os Estados Unidos precisam da sua própria Perestroika.


Não existem dúvidas sobre a responsabilidade pela demolição da tentativa de reavivar a igreja do Evangelho na América Latina durante a década de 1980. A Escola das Américas (desde então renomeada Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação de Segurança) em Fort Benning, na Geórgia, que treina oficiais latino-americanos, anuncia orgulhosamente que o Exército dos EUA ajudou a "derrotar a teologia da libertação" – assistida, com certeza, pelo Vaticano, utilizando a mão suave da expulsão e da supressão.


A sinistra campanha para reverter a heresia posta em movimento pelo Concílio Vaticano II recebeu uma incomparável expressão literária na parábola do Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamazov de Dostoievski.


Nessa história, situada em Sevilha no "momento mais terrível da Inquisição", Jesus Cristo aparece subitamente nas ruas, "de mansinho, sem ser observado, e contudo, por estranho que pareça, toda a gente o reconheceu" e foi "irresistivelmente atraída para ele".


O Grande Inquisidor ordena aos guardas: "prendam-no e levem-no" para a prisão. Lá, ele acusa Cristo de vir "prejudicar-nos" na grande obra de destruir as idéias subversivas de liberdade e comunidade. Nós não Te seguimos, o Inquisidor admoesta Jesus, mas sim a Roma e à "espada de César". Procuramos ser os únicos governantes da Terra para que possamos ensinar à "fraca e vil" multidão que "só será livre quando renunciar à sua liberdade para nós e se submeter a nós". Então, eles serão tímidos e assustados e felizes.


Assim, amanhã, diz o inquisidor: "Devo queimar-te". Por fim, no entanto, o Inquisidor abranda a pena e liberta-o "nos becos escuros da cidade".


Os alunos da Escola das Américas não praticaram tal misericórdia.
Fonte: In These Times
Artigo traduzido por Infoalternativa.org.
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domingo, 27 de dezembro de 2009

Cultura pra quê???


A Reforma Agrária e o MST

Antônio Cechin e Jacques Távora Alfonsin comentam o debate sobre a Reforma Agrária travado no jornal Folha de S. Paulo, entre Zander Navarro e Plínio de Arruda Sampaio.
As opiniões de Zander Navarro e de Plinio de Arruda Sampaio, publicadas na Folha de São Paulo, dia 5 deste mês, a primeira contrária e a segunda a favor da reforma agrária, continuam repercutindo. Já foram analisadas, inclusive pelo Ministro de Desenvolvimento Agrário. Já que a atuação do MST aparece em todas elas como um elemento-chave a ser levado em conta, vale a pena considerar-se o que ficou dito, igualmente, contra e a favor dele.
Zander baseado em seus estudos, como refere no início do seu texto, defendeu nada menos do que treze teses de impugnação da causa, da ideologia, do método de arregimentação dos seus integrantes, da forma como são liderados, e do modo como esse movimento age. Negou que ele seja vítima de criminalização; denunciou, como um dos seus maiores defeitos, o caráter não institucional de que ele se reveste, não lhe reconhecendo, sequer, continuar sendo um Movimento Popular. Dá uma aula sobre o que ele acha que o MST é, e não hesita em dizer como ele deveria ser.
Plínio, ao contrário, preferiu analisar o MST, baseado em fatos e, no que mais interessava ao tema proposto pela Folha, no uso e na exploração da terra. Não ignorou o contexto histórico da realidade hostil e opressiva a que está submetido o povo sem-terra, em nosso país; criticou os poderes públicos, de forma particular o da União, pela preferência que adotou em relação ao nosso modelo agrícola; sublinhou o poder decisivo das transnacionais sobre o campo brasileiro (soja, álcool de cana, carne, madeiras); lamentou a extensão da grilagem (agora legalizada) das terras da Amazônia, o destino suspeito de transposição do Rio São Francisco, as vantagens inerentes à consolidação da agricultura familiar. Identificou o MST como um movimento socialista, impugnando, em números, a versão corrente sobre o que aconteceu na Fazenda Cutrale; conclamou vários atores sociais a se empenharem em favor da reforma agrária até para exigir do Judiciário maior rapidez nas desapropriações e fiscalização das violências praticadas contra as/os sem-terra nas ações de reintegração de posse.
A simples comparação das idéias aí em aberto conflito, parece indicar que a primeira é muito mais acadêmica, teórica e subjetiva do que a segunda. Para Zander o que o MST é, destoa do modelo que a sociologia (ele também, por óbvio) indica que esse Movimento deva obedecer. Para Plinio, o que o MST é, revela simplesmente uma forma de organização social necessária à defesa do povo sem-terra e da reforma agrária.
Desde logo, um primeiro questionamento se impõe à leitura dos dois artigos. O que é mais importante? A conformidade exigida pelo modelo teórico, acadêmico, “científico(?)”, previamente receitado na bula da primeira perspectiva, ou o remédio urgente e necessário de que carece uma doença social grave, vitimando multidões pobres que padecem, historicamente, de desrespeito?
Se as duas opiniões forem testadas à luz dos objetivos da reforma agrária, dos direitos humanos fundamentais do povo sem-terra, e até do modelo que temos de Estado democrático de direito, no Brasil, as treze teses de Zander sofrem de uma auto-suficiência incompatível até com a ciência da qual ele se socorre.
Nem é muito difícil se provar esse fato, podendo se dispensar aqui, até o grau de desigualdade dos serviços que ao povo sem-terra prestaram um e outro dos autores que assinam os artigos publicados pela Folha.
Zander insiste bastante no fato de que um dos maiores defeitos do MST consiste em ele se encontrar à margem da institucionalidade; verbera a circunstância de, usando esse Movimento recursos públicos, os Poderes responsáveis por tais recursos não cobrarem essa institucionalidade, já que com ela, num regime democrático, o MST “obteria alguma tolerância pública.” Ele qualifica como ridícula, por isso mesmo, entre outras razões, a queixa das/os sem-terra relativa à criminalização orquestrada e indiscriminada, no país e no Rio Grande do Sul, contra elas/es; entende que a reforma agrária deve alcançar, se alcançar, apenas o nordeste brasileiro.
Além do desconhecimento que o autor revela aí, do que a Constituição Federal e as leis do país dispõem a respeito da liberdade que o povo, ou parcela dele tem, de se associar, com personalidade jurídica, ou não, algumas contradições do seu libelo contra o MST acabam por desautorizar toda a sua crítica.A começar por um princípio jurídico elementar, respeitado mais por sua obviedade do que pela sua previsão legal (art. 476 do código civil), a ninguém cabe exigir o cumprimento de uma obrigação inserta num contrato, enquanto não cumprir, por sua parte, a obrigação a que se vinculou. A Instituição Estado brasileiro está em mora no cumprimento das suas obrigações para com o povo sem-terra desde que esse país, mal ou bem, foi reconhecido como nação independente no mundo todo. Se não cumpre a obrigação que lhe cabe, que direito lhe assiste de exigir o cumprimento da “obrigação” de suas/seus cidadãs/os?
Outra analogia bem próxima do tema que nos ocupa aqui, pode ser conferida na conduta dos latifundiários brasileiros que, mesmo descumprindo com a sua obrigação de respeitar a função social inerente ao seu direito de propriedade rural, condenam o MST, assim como faz o Zander, por ele não cumprir a “obrigação(?)” de se institucionalizar. Desde o evangelho, todo o mundo sabe que quem tem uma trave no próprio olho não pode censurar o argueiro que se encontra no olho alheio.
Ora, institucionalizado ou não, é justamente pela iniciativa das instituições públicas e as privadas vinculadas aos latifundiários, que as/os agricultoras/es sem-terra, filiadas/os ou não ao MST, têm sofrido historicamente de uma repressão judicial e policial-militar tão duras, ou mais, do que as que sofreram na época da ditadura. E isso, em pleno exercício do modelo de “democracia” que o Zander defende, ou seja, aquele que em vez de respeitar e promover a organização popular lhe outorga (como favor talvez?), “alguma tolerância”.
Como uma democracia a esse nível tem legitimidade ou autoridade ético-jurídica para exigir “institucionalização” de qualquer movimento popular, esse autor não explica, como nem deixa muito claro de resto, o que ele entende por institucionalidade.
Assim, uma primeira e fundamental contradição do seu raciocínio reside nisso. Ele acaba por justificar a ausência de personalidade jurídica, a ausência de um CNPJ para o MST, não só pelo fato de latifundiários e Poder Público descumprirem suas obrigações para com o povo sem-terra, como pelo tipo de democracia que ambos, mais ele, entendam contemplar esse povo; essa espécie de “democracia(?)” já na democracia autêntica aí nem existe. É até bem melhor que o Movimento se defenda desse tipo original de “regime” jurídico-político desenhado pelo autor, tentando quando menos denunciar o quanto há, aí sim, de “intolerável” autoritarismo nesse arremedo de obediência à soberania do povo (art. 1º parágrafo único da Constituição Federal).
Nem seria necessário lembrar, a propósito, que a democracia, para valer, a história o comprova, nasce quase sempre depois de o povo sofrer e até morrer por se insubordinar, exatamente, contra os poderes da “instituição” legalizada dos regimes anteriores. Quem não sabe, ou até viola, o sentido e as referências do que seja instituição, e instituição democrática, não pode exigir que outros se “institucionalizem”.
Ignorando, também, que o poder constituinte do povo não morre, durante a vigência do constituído, o autor reserva para os movimentos populares, exigindo-lhes o que ele entende por institucionalidade, apenas o poder regulatório próprio das Constituições e das leis, castrando todo o poder emancipatório que elas contêm, um vício nada moderno, conservador e até reacionário, como Boaventura de Sousa Santos tem demonstrado, em lições bem menos reducionistas do que a do sociólogo contrário à reforma agrária e ao MST.
A manipulação vergonhosa desse poder regulatório tem sido responsável por não poucas violações dos direitos humanos do povo sem-terra e por muitos prejuízos às organizações populares que o apóiam. A violência e a desonestidade com que a bancada ruralista impôs à Constituição Federal a expressão “propriedade produtiva” no art. 185, inc II da Constituição Federal, como José Gomes da Silva historiou em detalhes na sua obra “O buraco negro”, dá bem um exemplo “institucional” disso. O relatório original da CPMI da terra, igualmente, todo ele feito de apoio à reforma agrária, foi substituído por outro, ao feitio e ao interesse exclusivo daquela bancada, que convenceu a “instituição” Tribunal de Contas da União que toda e qualquer ONG, pessoa jurídica pública ou privada, que apoiasse financeiramente o MST, era suspeita de corrupção ou desvio de dinheiro. Pura mesmo, só aquela bancada, caloteira histórica de dívidas tributárias, defensora de grilagens e de todo o tipo de depredação da terra e de dominação de gente no campo, capaz de obstruir até a votação de projetos contrários ao trabalho escravo.
Assim, a ausência de “institucionalidade” do MST não impediu e nem continua impedindo que as pessoas jurídicas afinadas com os objetivos e a ação da Movimento possam prosseguir celebrando convênios, participando de licitações, obtendo fundos, sejam públicos ou privados, com que ajudavam o MST. Imobilizadas durante meses por fiscalizações de órgãos públicos, têm de desviar toda a sua atenção para responder questionamentos que concluem aberrações do tipo diminuição do valor de diárias (em mais de metade, às vezes) devidas a alunas/os filhas/os de sem-terra, em suas escolas, pelo fato de, por serem pobres, “estarem habituadas com pouco”...
Se isso acontece com pessoas jurídicas “institucionalizadas”, conforme o modelo zanderiano, o que não ocorreria com o MST se ele entrasse em tal armadilha?
Surpreende, por outro lado, numa época em que se estuda e questiona tanto o controle social, a democracia econômica e participativa, como características próprias de um Estado verdadeiramente democrático e de direito, pretender-se enfiar o barrete rígido da institucionalidade justamente num Movimento Popular que goza do prestígio e da companhia atuante de grande parte de personalidades que integram, ou não, pessoas jurídicas públicas e privadas “institucionalizadas” que, não pela informalidade dele, deixam de apoiar e auxiliar em suas iniciativas, exatamente nos momentos em que ele mais sofre de agressão aos direitos humanos de suas/seus integrantes.
Sua militância encontra apoio em outros testemunhos históricos e muito qualificados de defesa das/os sem-terra como a de dezenas de ONGs do Brasil e do mundo, Comissões de direitos humanos, CDDPH (Conselho de defesa dos direitos da pessoa humana), CPT, ADJ (Associação de Juízes para a democracia) Dom Pedro Casaldaliga, Dom Tomas Balduino, Fabio Konder Comparato, Oscar Niemeyer e, entre muitos que já nos deixaram, Paulo Freire, Florestan Fernandes, Milton Santos e José Gomes da Silva, para lembrar apenas algumas das muitas pessoas jurídicas e personalidades a quem o país mais deve.
Todas essas organizações e pessoas, pelo jeito, são tão míopes e ingênuas, fazem parte ou, pelo menos, estimulam um movimento ideologicamente atrasado e ditatorial, como Zander seja, as suas convicções sobre esse Movimento Social? Se ele não se deixa questionar por nada, não é de admirar que o seu posicionamento, já no passado, tenha provocado tanto mal ao povo sem-terra.
Não se pode esquecer que é baseado nos estudos e nas reiteradas críticas de sua autoria ao MST, que a “instituição” Ministério Público do Rio Grande do Sul vem promovendo uma das maiores e mais violentas perseguições oficiais contra as/os sem-terra que o integram. Em 2007, numa decisão unânime do seu Conselho Superior, decidiu “dissolver” (!) o MST, coisa que, posteriormente, foi revogada, tal o absurdo pretensioso, totalitário e inconstitucional que aí se revelava; este ano, no desdobramento dessas iniquidades, o povo sem-terra chora a morte de um dos seus companheiros, Elton Brum da Silva, ocorrida em São Gabriel, efeito de uma “institucional” execução judicial.
Note-se o tamanho da contradição aí presente. Quem condena o MST por ele não se adequar à institucionalidade, é quem fornece ao Poder institucional, dotado da maior agressividade contra as/os sem-terra, as armas ideológicas capazes de causar as maiores perdas, os maiores danos às pessoas pobres do campo, organizadas em defesa das suas vidas, dignidade e cidadania.
Zander jamais quereria esse efeito, como deu a entender numa entrevista constrangida que já tinha concedido a um jornal de Porto Alegre, antes do assassinato do Elton. Nessa oportunidade, solidarizava-se com o MST (?!), depois que outras violências tinham sofrido as/os suas/seus integrantes, também essas baseadas em execuções judiciais sustentadas, quando menos em parte, nas opiniões dele.
Que essas têm pesado bastante, portanto, para seu pesar, no abuso de autoridade e poder que aquelas violências têm revelado, isso pode ser provado no próprio teor das petições redigidas pelos promotores gaúchos. Não adianta, depois, chorar o leite derramado. O esforço retórico que as sustenta têm nesse autor, senão a principal, uma das mais importantes bases argumentativas.
É muito contraditória, igualmente, a defesa da obrigação de o MST se institucionalizar, quando o autor opina sobre a reforma agrária, considerando-a quase como desnecessária. Acontece que essa política pública, ressalvada a hipótese de se desobedecer flagrantemente tudo quanto ainda resta de fundamentação constitucional nela, tem toda a sua execução dependente do exercício institucional do Poder do Estado. Então, é oportuno perguntar-se, questionando o autor da crítica ao MST e à reforma agrária: tudo quanto ele vê como nociva prática do MST, por não se institucionalizar, se transforma em virtude quando o Poder Público não institucionaliza as políticas que tem a obrigação de institucionalizar em favor do povo pobre do campo?
Zander também considera todos os méritos do MST como fictícios, seja em tamanho de poder, seja em prestígio, seja em número dos seus integrantes. Essa é – mesmo se descontando, mais uma vez, quanto há de “distração” ou “esquecimento” aí presentes, sobre os efeitos suprapositivos que a dignidade humana impõe ao próprio ordenamento jurídico, e ainda que se desconsidere o que pode haver de “rancor” nessa crítica, como o ministro de desenvolvimento agrário chegou a denunciar na análise que fez dela – uma contestação àquelas acusações, seguramente bem mais qualificada do que a nossa, já tinha sido antecipada na mesma “Folha”, um dia antes (edição de 4 de dezembro corrente).
Sob o título de “A contra-revolução jurídica”, Boaventura de Souza Santos não usa os mesmos óculos ideológicos de Zander para ver a realidade injusta e ilegal que oprime o povo sem terra, como ela efetivamente é; não como ela precisa ser disfarçada para se acomodar ao que se estuda e pensa sobre ela.
Justamente naquilo que constitui o eixo central da acusação de Zander contra o MST - institucionalidade - o conhecido pensador denuncia o que esse tão valorizado pressuposto legal está fazendo contra o Movimento: “...anulação de turmas especiais de assentados da reforma agrária (convênios entre universidades e Incra), de escolas itinerantes nos acampamentos do MST, de programas de educação indígena e de educação no campo.” (...) “Criminalização do MST. Considerado um dos movimentos sociais mais importantes do continente, o MST tem vindo a ser alvo de tentativas judiciais no sentido de criminalizar as suas atividades e mesmo de dissolve-lo com o argumento de ser uma organização terrorista.”
Finalmente, Zander encerra seu texto, diagnosticando como agonizante a situação atual do MST. Não descarta a sua extinção. Então, já é hora, também, de concluirmos nossa modesta defesa do MST e da reforma agrária. Se for “pelos seus frutos que os conhecereis” como diz o evangelho em nova lembrança oportuna para o caso, parece não haver dúvida sobre quem deve ser ouvido, entre os articulistas da Folha, seja no que se refere ao MST, seja no que se refere à reforma agrária.
Se o mau agouro de Zander se cumprir, coisa muitíssimo improvável, por tudo o que acima se referiu, não será na festa que a CNA e seus súditos fiéis presentes nos parlamentos e nas “instituições” vão fazer, a respeito, nem servirá de seu coveiro, o Plinio de Arruda Sampaio. Os frutos do trabalho deste, pelo testemunho de toda a sua vida, são de vida e não de morte, são de enfrentamento da injustiça social mantida e preservada pelo próprio modelo institucional que se quer impingir ao MST, são expressões de um sonho capaz de criar tudo quanto está ausente no texto que lhe serviu de contraponto, um outro mundo possível, como o Fórum Social Mundial tem ensaiado perseverantemente, uma nova sociedade, na qual se partilhe, com a justiça capaz de construir a paz, para alegria e satisfação de todas/os, a terra, a casa, o pão, a verdade e o amor.
Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais. Jacques Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.

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Tragicomédia

"O capitalismo se especializa na criação de problemas, não em sua resolução. (...) O capitalismo é na essência um sistema parasita. Como todos os parasitas, pode prosperar um tempo uma vez que encontre o organismo no qual explorando possa alimentar-se, mas não pode fazê-lo sem destruir o hospedeiro." ( Livre tradução de trecho do artigo Del capitalismo como "sistema parásito", de Zygmunt Bauman)

Fonte: http://www.rebelion.org/

sábado, 26 de dezembro de 2009

Marx e sua herança política


Por Marcos César de Oliveira Pinheiro

Em 7 de novembro de 1917 (25 de outubro no antigo calendário russo), o mundo capitalista foi surpreendido com a notícia da instalação, na Rússia, de um sistema político inteiramente novo, nunca antes experimentado na História. Um partido revolucionário, cujo principal dirigente era Lênin (1870-1924), passou a exercer seu poder recém-conquistado para fazer reformas radicais, empenhado numa autêntica transformação revolucionária do país. Apoiava-se teoricamente em Marx e Engels, fundadores do materialismo histórico, popularmente chamado de marxismo. Ou ainda filosofia da práxis, segundo o comunista italiano Antonio Gramsci (1891-1937).

A revolução, liderada pelo Partido Bolchevique, se fez sob a bandeira de “Pão, Terra e Paz”. Essa proposta expressava os anseios dos setores populares russos. Em 1917, o país estava imerso na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que agravou drasticamente as já precárias condições de vida do povo russo. A grande aspiração era que acabasse a guerra, que houvesse pão, pois a fome era terrível na Rússia naquele momento, e que houvesse terra para os camponeses. A má distribuição de terras (alta concentração nas mãos de poucos) condenava à miséria 85% da população, que vivia no campo. Foi correta a bandeira empunhada pelos bolcheviques e contribuiu para que se avançasse rumo ao socialismo da recém-criada União Soviética.

Contudo, no percurso histórico da União Soviética foram cometidos graves erros. Em nome da doutrina marxista se ergueu a barbárie do stalinismo, cujo “modelo dogmático” influenciou fortemente o modo como os partidos comunistas de vários países, inclusive no Brasil, interpretaram a realidade em que estavam inseridos e formularam suas ações políticas. Não bastassem os fatores internos. Somava-se a isso o fato de que contra o ideário de Marx se levantaram quase todos os movimentos reacionários do século XX, forçando o movimento comunista internacional a colocar em primeiro plano a defesa da União Soviética das ameaças advindas do mundo capitalista.

Não obstante o fracasso da tentativa de construção do socialismo na União Soviética, que culminou com o seu desaparecimento em 1991, valem as ponderações de Francisco Fernández Buey, no prólogo do seu livro:

“Se continua a haver comunistas neste mundo é porque o comunismo dos séculos XIX e XX, o dos tetravós, bisavós, avós e pais dos jovens de hoje, não foi só poder e despotismo. Foi também, por antonomásia, ideário e movimento de libertação dos anônimos. Há um Livro Branco do comunismo que está por ser reescrito. Muitas das páginas deste Livro, hoje quase desconhecido para os mais jovens, foram esboçadas por pessoas anônimas que deram o melhor das suas vidas na luta pela liberdade em países nos quais não havia liberdade; na luta pela universalização do sufrágio em países nos quais o sufrágio era limitado; na luta em favor da democracia em países onde não havia democracia; na luta em favor dos direitos sociais da maioria onde os direitos sociais eram ignorados ou só concedidos a uma minoria. Muitas dessas pessoas anônimas, na Espanha e na Grécia, na Itália e na França, na Inglaterra e em Portugal, e em muitas outras partes do mundo, nunca tiveram nenhum poder nem tiveram nada a ver com o stalinismo, não oprimiram despoticamente os semelhantes, não justificaram a razão de Estado nem mancharam as mãos com a apropriação privada do dinheiro público.
Ao dizer que o Livro Branco do comunismo está por ser reescrito, não estou propondo a restauração de uma velha Lenda para pôr de lado ou fazer esquecer outras verdades amargas contidas nos Livros Negros. Não é isso. Nem estou falando de inocência. Como sugeriu Brecht num poema célebre, nem mesmo o melhor do comunismo do século XX, o daqueles que gostariam de ter sido amistosos com o próximo, pôde, naquelas circunstâncias, ser amável. A história do comunismo do século XX tem de ser vista como o que é, como uma tragédia. O século XX aprendeu bastante sobre o fruto da árvore do Bem e do Mal, de modo que ninguém pode se atrever a empregar a palavra ‘inocência’ sem mais nem menos. Falo, pois, de justiça. E a justiça é também matéria de historiografia”. (BUEY, 2004: p. 27)

Portanto, a história dos movimentos político-sociais, a partir do século XIX, não comporta uma versão tipo bandidos e mocinhos, como vem fazendo os intelectuais comprometidos com os donos do poder. Com a derrocada do chamado “socialismo real”, pode-se assistir a mais uma ofensiva da ideologia burguesa, a fim de revigorar a tese de que o capitalismo e a democracia burguesa constituem o coroamento da história da humanidade. Uma das manifestações mais emblemáticas dessa ofensiva é, primeiramente, o artigo “The end of history”, em 1989, publicado na revista norte-americana The national interest e, posteriormente, o livro “O fim da história e o último homem”, editado no Brasil pela Editora Rocco, em 1992. Ambos de autoria de Francis Fukuyama. Esse processo de presentificação ou naturalização da história é tratado, com muita propriedade, por Marx no seu texto “O 18 Brumário de Luís Bonaparte” (MARX, 2008).

De imediato, o emaranhado de datas e nomes presentes no texto pode, precipitadamente, induzir o leitor a identificá-lo à tradição positivista da história das datas, dos nomes e da sucessão dos fatos. Ao contrário, em Marx percebe-se que a descrição densa dos acontecimentos encerra sempre um conceito. Trata-se de um texto de particular importância para os historiadores. A problematização, os argumentos e os pressupostos teóricos e metodológicos, que fundamentam Marx no preparo da obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, ensejam a abordagem de várias questões historiográficas. Nele, Marx assume uma reflexão crítica sobre a política liberal, as concepções burguesas sobre a história e sua instrumentalização no jogo político. Isto é, descortina o processo de presentificação da história no “reino da burguesia” (a sociedade capitalista), em que o devir da história é esvaziado, uma vez que a burguesia se apresenta como o fruto e o fim da história. Nos seus Manuscritos econômico-filosóficos (MARX, 2004) , Karl Marx já havia rompido com a idéia de naturalização da história e assumido uma postura crítica, qual seja, o estranhamento do cotidiano como natural, tudo merece ser explicado, nada é natural.

No entanto, em tempos de hegemonia das “modernas democracias de mercado”, a fórmula “marxismo = modelo soviético” encontra-se consagrada e difundida nos meios acadêmicos e na mídia. Juntamente com o fim da União Soviética, decreta-se o fim do marxismo. Porém, como afirma Gramsci, “Marx inicia intelectualmente uma época histórica que provavelmente durará séculos, isto é, até o desaparecimento da sociedade política [o Estado] e o advento da sociedade regulada [sociedade comunista]. Somente quando isto ocorrer, a sua concepção do mundo será superada” (GRAMSCI, 2004: p. 243).

A derrocada do império soviético não inviabiliza a filosofia da práxis. Ela continua importante para analisar a realidade, a situação concreta e transformá-la.

Retomando Francisco Fernández Buey, faz-se necessário distinguir o que Marx fez e disse como comunista e o que outros fizeram, ao longo do tempo, em seu nome. Seria uma injustiça acusar Marx pelos erros e delitos dos que, com boa ou má vontade, continuaram utilizando seu sobrenome. Buey pede que sejamos razoáveis:

"A ninguém ocorreria, hoje em dia, lançar sobre os ombros de Jesus de Nazaré a responsabilidade pelos delitos cometidos, ao longo da história, por todos aqueles que se chamaram cristãos, desde Torquemada até o general Pinochet, passando pelo general Franco. E, com toda a certeza, trataríamos como sectário ou insensato quem pretendesse estabelecer uma relação causal entre o Sermão da Montanha e a Inquisição romana ou espanhola. Não sei se, no século XVI, alguém pensou que Jesus de Nazaré tinha de pedir perdão aos índios da América pelas barbaridades que os cristãos europeus fizeram com eles em nome de Cristo." (BUEY, 2004: p. 25)

Na leitura de Marx deve-se considerar: o rigor filológico, a atenção aos contextos históricos e a total ausência de beatice. Isso vale não só no que se refere a Marx como também no que diz respeito à história do comunismo (idem: p. 26)

Referências bibliográficas:

BUEY, Francisco Fernández. Marx (sem ismos). Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2004.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 1. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In: ____ . A revolução antes da revolução II. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
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2010: apenas o poder

Chico de Oliveira: "não há nada importante em disputa para 2010, apenas o poder"

Escrito por Gabriel Brito, da Redação - http://www.correiocidadania.com.br/
08-Dez-2009

Com a proximidade de mais um final de ano marcado por turbulências e escândalos que seguem a desmoralizar a política diante dos cidadãos, o país se prepara para adentrar mais um ano eleitoral. Com vistas a tratar dos cenários que devem se apresentar em 2010, o Correio da Cidadania conversou com o sociólogo Francisco de Oliveira, professor aposentado da USP.

Em seu entendimento, não veremos nada mais que um jogo de cartas já marcadas, no qual a programática estará descansando em um costado, dando lugar a meras disputas pelo poder, entre correntes que pouco ou nada se diferenciam. É inclusive esse cenário monolítico que conduz o debate para o lado rasteiro de baixarias e escândalos sempre frescos para o público.

Em meio a ideários que se repetem entre correntes outrora antagônicas, Chico de Oliveira ressalva apenas alguns avanços na assistência social (via que não lhe agrada de todo) e numa nova diplomacia nacional. No entanto, alerta que a oposição de direita ainda não se conscientizou de que, deixando desavenças e vaidades internas de lado, pode triunfar.

No que se refere ao que realmente se poderia sentir como novas ondas no mar, o sociólogo pernambucano desestima o fator Marina, sem fôlego para ir longe a seu ver. Por fim, critica duramente a possibilidade de não ser formada uma frente de esquerda similar à de 2006, classificando de "oportunismo e miopia política" uma aliança do PSOL com Marina.

Correio da Cidadania: Como analisa o quadro político brasileiro com 2009 chegando ao final e na perspectiva de um ano eleitoral pela frente?

Chico de Oliveira: Vejo de forma bastante simples na verdade. O quadro já está desenhado, não vai mudar, salvo se o ‘vampiro medroso’ de fato não concorrer, o que não é de se esperar. É uma disputa eleitoral PT-SPDB. Mas só eleitoral, não haverá nada em jogo.

Coisas decisivas, o ponto de vista da economia e da sociedade, não estão nem um pouco em jogo. É por isso que a política tem ficado nessas firulas, ataques, artigo de César Benjamin... Porque realmente não tem nada importante em disputa, apenas o poder, este sempre importante.

CC: O que a oposição de direita deve vir a fazer para tentar virar um jogo que se apresenta desfavorável a eles? Acredita que os escândalos e baixarias serão a estratégia explorada?

CO: É essa a alternativa, pois ela não tem programa alternativo. O paradoxo é que o governo do PT realizou e radicalizou o programa tucano. Salvo algumas perfumarias na área social e na política diplomática externa, muito mais arejada, não tem muita diferença.

Dessa forma, os tucanos não podem atacar a própria criatura, restando a baixaria. Mas está muito difícil, porque o senador Azeredo teve sua denúncia aceita pelo STF e agora Arrudão jogou a pá de cal. Mas o embate vai se desenrolar por esse caminho mesmo, já que no mais eles estão todos de acordo.

CC: Como se encaminha o governo Lula para as disputas de 2010? Acredita que suas bases de sustentação se manterão firmes?

CO: Não, isso ainda não está garantido. Não existe na experiência da história política brasileira nenhuma transferência de votos desse porte. É verdade que a redemocratização ainda é curta, apenas 20 anos, mas, numa experiência anterior, Juscelino, no auge de sua popularidade, não conseguiu eleger seu sucessor.

Não há nada garantido, Dilma não pode ter a certeza da transferência de votos de Lula, ainda que se use a máquina do Estado o quanto puder. Principalmente se os tucanos acordarem e se conscientizarem de que, marchando desunidos como quinta coluna do Aécio, serão derrotados; marchando unidos, têm uma chance alta de derrotar o Lula.

CC: Alta?

CO: Alta, pois os colégios eleitorais de São Paulo e Minas Gerais engolem o resto do Brasil.

CC: No fundo, podemos considerar que dá na mesma PT ou PSDB no governo, ou poderia haver uma diferença, mesmo que sutil?

CO: É difícil responder a essa pergunta, porque para os pobres evidentemente faz diferença o Bolsa Família, embora eu não goste do programa. Mas não posso negar que quem tem fome precisa comer. E também tem uma política externa através da diplomacia que é importante para outros países da região, como Venezuela, Bolívia, Equador, que têm tentado vias democráticas muito particulares. Para eles, o Brasil é uma garantia, seria importante manter e até ampliá-las.

Há alguma diferença; no entanto, no marco mais geral, ela é menor.

CC: Como enxerga a possibilidade da candidatura Marina? Servirá para arejar ou para distrair, sem incomodar o viciado jogo institucional?

CO: Eu acho que ela não vai ter essa votação toda. Quando chegar a reta final e os ânimos estiverem exacerbados, a candidatura da Marina vai murchar, porque os eleitores sabem que ela não é a alternativa. Não tem força para se colocar como tal. Esse discurso verde não pega muito. Ela é muito simpática e ecologista, mas isso não faz um presidente.

Tenho a impressão de que, quando chegar a reta final, ela perderá espaço.

CC: Algum partido de esquerda pode ser alternativa no debate?

CO: No debate sim, mas como alternativa real não há nenhum partido de esquerda. Nem PSOL, nem PCB, nem PSTU... Minha própria posição é de que esses três partidos de esquerda deveriam formar uma frente e reproduzi-la, a fim fazer uma crítica e reapresentar o programa do socialismo à cidadania brasileira.

Trata-se de reapresentar para fazer uma crítica rigorosa, aproveitando o momento eleitoral para isso, mas sem nenhuma chance real de chegar ao governo. Aliás, é bom que Deus nos proteja, porque, se chega a governar um país como esse sem bases políticas reais, não demora um mês no poder.

CC: E a polêmica interna ao PSOL acerca de se lançar candidatura própria ou se aliar a Marina, como enxerga?

CO: Creio ser oportunismo do ponto de vista de quem não quer ter candidatura própria. Em primeiro, porque pensam que a Marina terá um alto desempenho, a exemplo da Heloisa Helena em 2006. Não vai. A impressão que tenho é de que a Marina vai murchar e a Heloisa não vai trocar uma cadeira certa no Senado pela incerteza. Vejo isso, portanto, como oportunismo e falta de visão estratégica.

Em segundo lugar, porque apresentar uma candidatura própria não tira os votos que eleitores do PSOL vão direcionar para eleger deputados com os quais eles já contam. Acho isso uma aventura irresponsável e miopia política.

Gabriel Brito é jornalista.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

UNICEF confirma: Cuba tem 0% de desnutrição infantil

Segundo a ONU, Cuba é o único país da América Latina e Caribe que eliminou a desnutrição infantil severa, graças aos esforços do governo para melhorar a alimentação da população, especialmente dos grupos mais vulneráveis. As duras realidades do mundo mostram que 852 milhões de pessoas padecem de fome e que 53 milhões delas vivem na América Latina. Só no México há 5,2 milhões de pessoas desnutridas. No Haiti, são 3,8 milhões, enquanto que, em todo o planeta, mais de cinco milhões de crianças morrem de fome todos os anos.


Cira Rodríguez César - Prensa Latina

A existência de cerca de 146 milhões de crianças menores de cinco anos abaixo do peso ideal no mundo em desenvolvimento contrasta com a realidade das crianças cubanas que estão livres desta enfermidade social. Essas preocupantes cifras apareceram em um recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), intitulado “Progresso para a Infância, um balanço sobre a nutrição”, divulgado na sede da ONU. Segundo o documento, os índices de crianças abaixo do peso são de 28% na África Subsaariana, 17% no Oriente Médio e África do Norte, 15% na Ásia Oriental e Pacífico, e 7% na América Latina e Caribe. Depois vem a Europa Central e do Leste, com 5%, e outros países em desenvolvimento, com 27%.

Cuba é o único país da América Latina e Caribe que eliminou a desnutrição infantil severa, graças aos esforços do governo para melhorar a alimentação da população, especialmente dos grupos mais vulneráveis. As duras realidades do mundo mostram que 852 milhões de pessoas padecem de fome e que 53 milhões delas vivem na América Latina. Só no México há 5,2 milhões de pessoas desnutridas. No Haiti, são 3,8 milhões, enquanto que, em todo o planeta, mais de cinco milhões de crianças morrem de fome todos os anos.

Segundo estimativas da ONU, não seria muito custoso garantir saúde e nutrição básica para todos os habitantes dos países em desenvolvimento. Para alcançar essa meta, bastariam 13 bilhões de dólares adicionais ao que se destina atualmente, uma cifra que nunca foi atingida e que é exígua se comparada com os bilhões de dólares destinados anualmente à publicidade comercial, os 400 bilhões gastos em medicamentos tranqüilizantes ou mesmo os 8 bilhões de dólares que são gastos em cosméticos nos Estados Unidos.

Para satisfação de Cuba, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) também reconheceu que esta é a nação com os maiores avanços na luta contra a desnutrição na América Latina. O Estado cubano garante uma cesta básica alimentar que permite a alimentação de sua população ao menos em dois níveis básicos, mediante uma rede de distribuição de produtos alimentícios. Além disso, há instrumentos econômicos em outros mercados e serviços locais para melhorar a alimentação do povo cubano e atenuar o déficit alimentar. Especialmente, há uma constante vigilância sobre o sustento das crianças e adolescentes. A nutrição começa com a promoção de uma melhor e mais natural forma de alimentação.

Desde os primeiros dias de nascimento, os incalculáveis benefícios do aleitamento materno justificam todos os esforços realizados em Cuba em favor da saúde e do desenvolvimento de sua infância. Isso tem permitido elevar os índices de recém nascidos que recebem aleitamento materno até o quarto mês de vida e que seguem consumindo esse leite, complementado com outros alimentos, até os seis meses de idade. Atualmente, 99% dos recém nascidos saem das maternidades com aleitamento materno exclusivo, índice superior à meta proposta, que é de 95%, segundo dados oficiais, nos quais se indica que todas as províncias do país cumprem essa meta.

Apesar das difíceis condições econômicas enfrentadas pela ilha, o governo cuida da alimentação e da nutrição das crianças mediante a entrega diária de um litro de leite a todas as crianças até sete anos de idade. Soma-se a isso a entrega de outros alimentos que, dependendo das disponibilidades econômicas do país, são distribuídos eqüitativamente para as idades mais pequenas da infância. Até os 13 anos de idade se prioriza a distribuição subsidiada de produtos complementares como o iogurte de soja e, em situações de desastre, se protege a infância mediante a entrega gratuita de alimentos de primeira necessidade.

As crianças incorporadas aos Círculos Infantis e às escolas primárias com regime de semi-internato recebem, além disso, o benefício do contínuo esforço por melhorar sua alimentação quanto à presença de componentes dietéticos, lácteos e protéicos. Com o apoio da produção agrícola – ainda enfrentando condições de severa seca – e a importação de alimentos, alcança-se um consumo de nutrientes acima das normas estabelecidas pela FAO. Em Cuba, esse indicador não é a média fictícia entre o consumo alimentar dos ricos e dos que passam fome.

Adicionalmente, o consumo social inclui a merenda escolar que é distribuída gratuitamente a centenas de milhares de estudantes e trabalhadores da educação, com cotas especiais de alimentos para crianças até 15 anos e pessoas de mais de 60 anos nas províncias do leste da ilha. Nesta relação, estão contempladas as grávidas, mães lactantes, anciãos e incapacitados, crianças com baixo peso e altura e o fornecimento de alimentos aos municípios de Pinar del Rio e Havana e também para a Ilha da Juventude. Essas regiões foram atingidas no ano passado por furacões, enquanto que as províncias de Holguín, Las Tunas e cinco municípios de Camaguey sofrem atualmente com a seca.

Esse esforço conta com a colaboração do Programa Mundial de Alimentos (PMA), que contribui para a melhoria do estado nutricional da população mais vulnerável da região oriental, beneficiando mais de 631 mil pessoas. A cooperação do PMA com Cuba data de 1963, quando essa agência ofereceu assistência imediata às vítimas do furacão Flora. Até hoje, já foram concretizados no país cinco projetos de desenvolvimento e 14 operações de emergência. Recentemente, Cuba passou de ser um país receptor a um país doador de ajuda.

O tema da desnutrição tem grande importância na campanha da ONU para atingir, em 2015, as Metas de Desenvolvimento do Milênio, adotada em uma cúpula de chefes de Estado em 2000 e que tem entre seus objetivos eliminar a pobreza extrema e a fome. A ONU considera que Cuba está na vanguarda do cumprimento dessas metas em matéria de desenvolvimento humano. Mesmo enfrentando deficiências, dificuldades e sérias limitações pelo bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos EUA há mais de quatro décadas, Cuba não mostra índices alarmantes de desnutrição infatil como ocorre em outros países. Nenhuma das 146 milhões de crianças menores de cinco anos com problemas de baixo peso, que vivem hoje no mundo, é cubana.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Fonte: Agência Carta Maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16298

Nossos Inimigos Dizem

Bertolt Brecht

Nossos inimigos dizem: A luta terminou.
Mas nós dizemos: Ela começou.

Nossos inimigos dizem: A verdade está liquidada.
Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: Mesmo que ainda se conheça a verdade
Ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgamos.

É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda
De nossos inimigos.

Na América Latina o povo dá as costas a quem não é valente

Atilio Borón*, especialista em geopolítica.
(resumo da entrevista à Rebelión)

Atilio Borón é um dos grandes nomes da sociologia latino-americana contemporânea. Nasceu em Buenos Aires em 1943; suas obras se esgotam nas livrarias rapidamente. Talvez porque não seja um professor convencional e suas reflexões insistem na necessidade de transformar a realidade, trabalhando por um mundo melhor. Um mundo no qual este “continente de esperança”, como o definira Salvador Allende, seja um exemplo de que realmente é possível viver sem que o “mercado” regule nossas vidas e nossos sonhos.

Joseba Macías (JM) - Uma novidade significativa na América Latina que você bem conhece, é que boa parte dos países do continente passaram a ser governados por organizações que resultam do que poderíamos chamar de uma “reflexão socialista”. Ritmos, tradições e matizes diversas, sem dúvida, mas algo impensável há pouco tempo atrás.Atilio Borón (AB) - Falando de socialismo em toda a sua extensão, realmente só temos como país socialista, no momento, Cuba. Logo depois há três governos, Venezuela, Equador e Bolívia, que desenvolveram processos de construção da alternativa socialista, processos muito diferentes entre si. E mais, por sorte, no momento no qual já não há mais modelos a copiar. O caso boliviano, por exemplo, se sustenta sobre uma extraordinária capacidade de organização que vem da época pré-colombiana e que deixou em maus lençóis todos os sociólogos pós-modernos que entenderam o ascenso de Evo Morales como uma manifestação precisamente pós-moderna... Na Venezuela, sem embargo, não há uma tradição organizativa nem pré-colombiana, nem pós-colombiana, o que explicaria a importância do papel da liderança de Hugo Chávez. Também Rafael Correa, no Equador, formado no cristianismo progressista da Universidade de Lovina e mais tarde doutorado em Economia em Illinois... Na minha opinião, o resto vai em outra direção. Os governos do Brasil, Argentina, Chile ou Uruguai consideram que a solução dos problemas do capitalismo se encontram no próprio capitalismo. Na Argentina, por exemplo, não resta nenhuma dúvida quando você ouve Kirchner falar. No Brasil, em dois séculos de história do sistema bancário, nunca esse sistema foi tão rentável para o grande capital como nos anos de Lula no poder. Representam mecanismo adaptativos dentro do próprio capitalismo.
Agora: também é certo que estes governos são um suporte fundamental para aqueles outros que citava no início e que estão trabalhando por uma alternativa verdadeiramente socialista. Esse é um fato real e objetivo e a isso não é estranha a forte pressão popular que, desde a base, se desenvolve nos países como Argentina e Brasil. Sem esquecer que todos estes governos da chamada “centro-esquerda” que foram tímidos, pró-capitalistas e amigos dos norte-americanos, correm nos próximos meses sérios riscos de serem desalojados do poder. Entretanto, os governos que levaram adiante com mais audácia processos de mudança, reformando a constituição, a economia, as instituições ou convocando plebiscitos de forma permanente, estão todos muito fortes. Alguma lição haveria de retirar de tudo isso, por exemplo, que quando não és valente, o povo te dá as costas. Os povos preferem o original à cópia.

JM - Gostaria de conhecer também a sua opinião sobre o papel jogado na América Latina pela social-democracia espanhola. Na distância, ao menos, dá impressão de que sua influência é realmente importante na hora de salvaguardar os interesses econômicos das empresas espanholas na região ou de exportar “receitas políticas”.AB - Sem dúvida nenhuma. A socialdemocracia espanhola basicamente é uma cortina de fumaça que esconde a proteção das políticas de saque que estão levando a cabo muitas das empresas espanholas ali localizadas. Ai está o caso da Repsol, por exemplo. Ou o da Iberia, quando comprou os aviões da Aerolíneas Argentinas e seus escritórios por todo o mundo. Esta socialdemocracia nos vendeu também o modelo do Pacto de Moncloa, como exemplo a “exitosa” transição espanhola e vem apropriando-se paralelamente de muitos meios de comunicação em nome do grupo Prisa que ficaram sujeitos aos grandes ditames dos Estados Unidos: rádios, televisões, diários, revistas, livros escolares... Como no Estado Espanhol. Só que, na América Latina, o fato se agrava pelas condições de pobreza, de atraso cultural, etc.

JM - Na longa lista de países nos quais estão presentes estes interesses não podemos esquecer a Colômbia...AB: - Exatamente. Sustentando a presença das empresas espanholas com a ajuda desse criminoso comum chamado Álvaro Uribe. Publiquei diversas reflexões e ensaios sobre Uribe, alguns baseados nos documentos desclassificados pelos próprios EUA. Fica claro que já desde 1991, nos informes do DEA, é o homem que articula as relações entre o cartel de Medellín e o Governo colombiano para facilitar os negócios da droga. E isso o disse o próprio DEA. O dossiê de lá para cá é incrível . E aí está a socialdemocracia espanhola apoiando tudo isso... E sem que possamos chegar a explicar diretamente ao povo espanhol, porque o controle dos meios de comunicação é absolutamente feroz.

JM - Terminando, se lhe parecer adequado, falando desta crise planetária que, paradoxalmente, parece fortalecer uma vez mais as opiniões eleitorais dos partidos conservadores em todo o mundo. Como se explica este fenômeno?AB - Creio que a chave de tudo isso é o reflexo da grande vitória ideológica que o neoliberalismo conseguiu nos últimos quarenta anos. Ficou estabelecido que qualquer alternativa que não seja capitalista representa um delírio, uma aventura, uma salto no vazio. Creio que esta crise não vai ter a forma de um “V”, como dizem alguns, mas um “L” como já ocorreu no Japão a partir da década de 90. Estamos ante uma crise profunda e de muita longa duração. Você acredita que o G20 pode resolvê-la? É absolutamente patético. Nós instruímos os médicos que envenenaram-nos para nos dar o remédio, a curar...
Em definitivo, creio que estamos ante uma crise muito mais grave que as duas crises anteriores, a de 1929 e a de 1973. Em primeiro lugar porque nenhuma destas crises coincidiu com uma crise energética. E mais, em paralelo se desenvolve uma crise alimentar que não tem proporções. Na Europa, na África, na Ásia, na América Latina observamos motins motivados pela fome... Enquanto se utiliza uma área cada vez maior de terra para produção de biocombustíveis. Um exemplo: o pacto Bush-Lula firmado em São Paulo no ano de 2007... E finalmente vamos adicionar o tema das alterações climáticas para entender que esta crise não teve paralelo na história.
Dado este estado de coisas, só podemos pensar na construção de uma verdadeira economia pós-capitalista. Chamemos-lhe como quisermos, se trata definitivamente de avançar no processo de desmercantilização de maneira muito acelerada. Não podemos continuar com critérios mercantis para regular a relação entre nossas sociedades e a natureza. E este deve ser um princípio básico do mundo a construir: desmercantilizar a natureza, a saúde, a educação, a segurança social ....

Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

O original encontra-se em: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=96979

*Politólogo e Sociólogo argentino. Site: http://www.atilioboron.com/

Traduzido por: Dario da Silva

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Educação e Luta de Classes


Paulo Freire
São Paulo/Brasília, maio de 1987.

(...) Não basta dizer que a educação é um ato político assim como não basta dizer que o ato político é também educativo. É preciso assumir realmente a politicidade da educação. Não posso pensar-me progressista se entendo o espaço da escola como algo meio neutro, com pouco ou quase nada a ver com a luta de classes, em que os alunos são vistos apenas como aprendizes de certos objetos de conhecimento aos quais empresto um poder mágico. Não posso reconhecer os limites da prática educativo-política em que me envolvo se não sei, se não estou claro em face de a favor de quem pratico. O a favor de quem pratico me situa num certo ângulo, que é de classe, em que diviso o contra quem pratico e, necessariamente, o por que pratico, isto é, o próprio sonho, o tipo de sociedade de cuja invenção gostaria de participar.
A compreensão crítica dos limites da prática [educativa] tem que ver com o problema do poder, que é de classe e tem que ver, por isso mesmo, com a questão da luta e do conflito de classes. Compreender o nível em que se acha a luta de classes em uma dada sociedade é indispensável è demarcação dos espaços, dos conteúdos da educação, do historicamente possível, portanto, dos limites da prática político-educativa. (...)
A leitura atenta e crítica da maior ou menor intensidade e profundidade com que o conflito de classes vai sendo vivido nos indica as formas de resistência possíveis das classes populares, em certo momento. (...) A luta de classes não se verifica apenas quando as classes trabalhadoras, mobilizando-se, organizando-se, lutam claramente, determinadamente, com suas lideranças, em defesa de seus interesses, mas, sobretudo, com vistas à superação do sistema capitalista. A luta de classes existe também, latente, às vezes escondida, oculta, expressando-se em diferentes formas de resistência ao poder das classes dominantes. (...)
Às vezes, a violência dos opressores e sua dominação se fazem tão profundas que geram em grandes setores das classes populares a elas submetidas uma espécie de cansaço existencial que, por sua vez, está associado ou se alonga no que venho chamando de anestesia histórica, em que se perde a idéia do amanhã como projeto. O amanhã vira o hoje repetindo-se, o hoje violento e perverso de sempre.
FONTE: FREIRE, Paulo. "Alfabetização como elemento de formação da cidadania". In: Política e Educação. 8 ed. Indaiatuba, SP: Villa das Letras, 2007. pp. 48-52.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Noel Rosa: poeta da Vila, cronista do Brasil

Livro homenageia Noel Rosa
Editora Expressão Popular lança livro do professor Luiz Ricardo Leitão sobre a vida e a obra do Poeta da Vila - http://www.expressaopopular.com.br/

SINOPSE DO LIVRO
Se ainda estivesse entre nós, Noel Rosa completaria em 2010 cem anos de vida. A importância do Poeta da Vila para a música e para cultura popular brasileira pode ser avaliada pelas inúmeras homenagens a que o compositor – precocemente falecido em 1937 – faz jus. Noel foi eleito, inclusive, o tema central do desfile carnavalesco da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, tradicional agremiação do bairro carioca onde o artista nasceu, viveu e morreu.
Velho admirador do músico, o escritor, tradutor e professor Luiz Ricardo Leitão elaborou um estudo sobre o poeta-cronista Noel, inserindo-o na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação socioespacial do Brasil. Assim, o ensaio ora publicado, além de tecer breves observações sobre a biografia do artista, associa a sua criação musical à obra de escritores como Gregório de Matos, Machado de Assis e Lima Barreto, todos eles mestres na arte de interpretar o sentido e a formação do Brasil. O livro é dividido em duas partes: a primeira recapitula a vida e a obra musical do Poeta da Vila; a segunda é uma longa digressão sobre os motes explorados por Noel em suas canções, desde os motivos da metafísica amorosa até os prosaicos dilemas da vida cotidiana e as contradições da imprevisível política da nossa Bruzundanga.
Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil representa, sem dúvida, mais uma valiosa contribuição do meio acadêmico para a difusão desse nome extraordinário da MPB, que, não obstante sua notável produção artística, chegou a ser esquecido por mais de uma década pela mídia e intelligentsia nacionais, após seu desaparecimento em 1937. Redescoberto nos anos 50, depois de superado o longo período de autoritarismo do entreguerras no país, ele hoje é reverenciado por todos aqueles que cultivam e promovem a cultura popular brasileira.

Instituído o Dia Nacional do Historiador


Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos
LEI Nº 12.130, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2009.

Institui o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.

O VICE–PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o É instituído o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 17 de dezembro de 2009; 188o da Independência e 121o da República.
JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA
João Luiz Silva Ferreira

Este texto não substitui o publicado no DOU de 18.12.2009

E tudo mudou...

Luis Fernando Veríssimo

"E tudo mudou...

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos sei
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças"

Acesso ao principal acervo sobre história brasileira do século 20


A partir deste domingo, 20 de dezembro de 2009, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) está disponibilizando a nova versão eletrônica do acervo do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), importante fonte de informações sobre o período republicano.

A remodelagem da página, agora no endereço http:// www.cpdoc.fgv.br/, comemora os 65 anos da FGV, traz três novidades.

A primeira é o mecanismo de busca, agilizando o acesso a 198 arquivos, 5.000 horas de gravação da série História Oral e aos verbetes do "Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro".
Outra inovação é o tamanho do conjunto digitalizado, que passará de cem mil para 480 mil páginas de documentos e de 80 mil para 160 mil fotos.
Por fim, haverá um mecanismo de "anotação colaborativa". O usuário poderá sugerir adendos à classificação ou apontar equívocos. Se confirmada, a informação será incorporada ao arquivo.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Consumption Society


Pensamento do Dia

"O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas." (Anônimo)

"Quem quer fazer alguma coisa encontra um meio. Quem não quer fazer nada encontra uma desculpa" (Provérbio árabe)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O mundo se rende a Morales


Por Diogo Cunha e Taysa Coelho

Quando Evo Morales foi eleito pela primeira vez presidente da Bolívia, a elite daquele país, assim como os governos dos grandes países capitalistas, torceu o nariz. Primeiro presidente indígena a ser eleito lá e integrante de um partido socialista – Movimento ao Socialismo (MAS) –, Morales também gerava polêmicas ao defender o cultivo da coca – planta de enorme importância na econômica local -, por seu posicionamento antiestadunidense e alinhamento ao governo bolivariano de Hugo Chávez.

Assim como as névoas andinas no verão, as polêmicas foram sendo dissipadas ao longo do tempo, à medida que foram sendo implementadas as políticas sociais e econômicas de seu governo. Além de reeleito no primeiro turno, com mais de 60% dos votos, Morales também saiu vitorioso nas eleições do Poder Legislativo, em que o MAS garantiu dois terços das vagas no Congresso Nacional. O líder conquistou a confiança da população de menor poder aquisitivo, através da implementação de programas sociais, e dos mais abastados, com as visíveis melhoras na economia, que, mesmo com a crise internacional, apresentará o maior crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), atingindo 3%.

Mesmo com o aumento na quantidade de votantes das classes média e alta, ainda há sérias divergências entre as províncias majoritariamente indígenas e aquelas dominadas pela elite econômica boliviana, situadas a leste do país, também conhecidas como “províncias da meia-lua”.

No Brasil, o governo Morales ficou marcado pela crise do gás. O líder estatizou duas refinarias pertencentes à Petrobras e, em troca, realizou grandes investimentos no país. Opositores alegam que esse tipo de comportamento pode afastar investimentos estrangeiros, ao passo que seus defensores acreditam que o maior controle dos hidrocarbonetos ajudaria o Estado na distribuição de renda. (...)

Daniel ChavesHistoriador e pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente/UFRJ e um dos autores do livro “Bolívia – passos da revolução”
“A implementação da nova Constituição – que assegura mais direitos e maior participação dos indígenas na política (...) - muda, rigorosamente, em tudo a vida da população boliviana.”
Em comparação às antigas políticas assistenciais dos últimos governos bolivianos, não há sombra de dúvidas de que Evo Morales fez muito. Sempre houve a necessidade de ampliar os mecanismos de assistência social na Bolívia, frente à carência da população miserável que, por sua vez, gera enorme pressão política pela mudança - grande bandeira política do governo. Há de se observar, entretanto, que a perda de apoio político dos sindicatos de médicos e professores indica uma insatisfação sobre o soldo mensal e sobre os mecanismos de implementação dessas mudanças, o que é quase natural, visto que o orçamento do país ainda está se reordenando e que é muito difícil contemplar as agendas de todos os movimentos e grupos sociais.
Depois das quase proféticas falas de George Bush (pai) e de Francis Fukuyama, que, associadas, prescreveriam que viveríamos em um mundo do livre mercado e da democracia liberal, com os EUA jogando o seu papel de policial global da humanidade, já deu para percebermos que o quadro não será bem esse. A história não acabou com o fim da bipolaridade comunista-capitalista. O projeto que surge da ruptura pós-Guerra Fria, o neoliberalismo, se tornou ébrio nessa celebração e produziu governos irresponsáveis, que previam programas políticos acima do limite sustentável e da própria vontade popular. O fenômeno da substituição de neoconservadores por governos de esquerda - com uma nova visão de desenvolvimento econômico, pautado no programa social e sustentável planejado a partir de um Estado atuante que busca atingir os interesses tanto da população quanto do mercado - é a resposta a isso. Em cada país, isso tem uma assunção diferenciada, mas, via de regra, o nacionalismo mais ou menos à esquerda, o anti-imperialismo e o antineoliberalismo são as chaves para se compreender as novas disputas por recursos naturais, desenvolvimento e autonomia.
Em relação à questão do controle cada vez maior dos hidrocarbonetos, simpatizantes do presidente reeleito alegam que o maior controle dos hidrocarbonetos pelo Estado ajudaria a aumentar as rendas, ao passo que seus opositores dizem que a atitude pode ser positiva para a distribuição, porém afastaria investimentos e implementações de melhorias técnicas. A tensão essencial, contudo, não se dá tanto nessa direção, muito focada nas disputas dos grupos sobre o controle do processo. Se o governo converter essa preeminência estatal em comunitária e popular, terá sucesso e a revolução realmente ocorrerá. Caso contrário, como já vimos em 2000 e 2003, o governo enfrentará uma oposição que não é frágil, como a liberal regionalista: o povo. E aí a coisa pode ficar complicada.
Já em relação ao aumento na porcentagem de votos obtidos pelas províncias opositoras, sem dúvida isso tem a ver com o esvaziamento da oposição, hoje muito frágil. Porém, a própria solidez e a maturidade com que Evo conseguiu transparecer para a população também reforçam o quadro: o presidente está progressivamente deixando de ser, para a Bolívia e para o mundo, apenas um sindicalista, para se transformar em um chefe de Estado relevante.
A implementação da nova Constituição – que assegura mais direitos e maior participação dos indígenas na política, dando mesmo status ao sistema judiciário oficial e à Justiça dos índios e descentralizando o poder em quatro níveis de autonomia (provincial, regional, municipal e indígena) -, aprovada no primeiro mandato de Morales e cuja implementação será sua principal prioridade legislativa, muda rigorosamente em tudo a vida da população boliviana, desde os símbolos nacionais até a estruturação jurídica do poder em cada cantão do país. O ‘processo de mudança’ não conta mais com uma oposição negativa nas regiões e nos parlamentos, e agora está nas mãos do partido do governo. Tornar-se uma nova oligarquia ou revolucionar o país é o desafio do MAS, nesse sentido.”

Edson Peterli Guimarães Professor associado do Instituto de Economia/UFRJ
“Enquanto os preços das commodities estiverem altos, os investimentos requeridos podem ser promovidos, mas como será no caso de uma queda de preços?”
O governo de Evo Morales tem se destacado tanto no aspecto social quanto no econômico. Na realidade, os dois andaram juntos, pois as mudanças sociais foram decorrentes, em grande parte, das vantagens econômicas obtidas pelo governo Morales com o aumento dos preços de suas commodities, em especial do gás e, em menor escala, de metais como o estanho, e que permitiram a implantação de políticas públicas e sociais de muita relevância.
O que se pode ver, entretanto, é que o primeiro governo de Morales foi muito marcado pela necessidade de afirmação da sua capacidade de, como indígena, dirigir um país. Tanto é assim que a nova Constituição da Bolívia, marcada por grandes polêmicas, e que veio a ser aprovada em um referendo, passou a tratar a Bolívia como um país plurinacional. Ou seja, como um país formado por várias nações. É como se houvesse diferentes povos vivendo juntos, mas sendo um país unitário, no sentido de que o governo central é forte. Parece um contrassenso, mas é assim que está estabelecido e é essa situação que tem criado tantas dificuldades entre a Meia-Lua (região onde, predominantemente, está localizada a elite econômica do país) e o governo central, uma vez que este tem centralizado recursos e distribuído de forma aleatória e muitas vezes em prejuízo dos não aliados.
De todo modo, é fácil prever que, passada esta primeira fase e consolidado o poder nas mãos do presidente, o segundo governo Morales terá a possibilidade de demonstrar mais claramente a que veio, tanto para o bem quanto para o mal, pois se a Bolívia hoje passa por uma boa fase, não se pode saber até quando ela assim permanecerá.
A situação econômica na Bolívia é bastante complicada. Há setores da indústria que sequer existem. É um país onde a revolução industrial, nos moldes da revolução industrial inglesa no século XVIII, ainda não se estabeleceu.
O governo de Evo Morales tem se mostrado dirigista e dá sinais de que acredita que o Estado pode cumprir a função de promover a revolução industrial, desenvolvendo a indústria pesada cuja demanda derivada (entre empresas) geraria um processo de acumulação endógeno do capital. A questão é como financiar ou induzir esse processo de desenvolvimento industrial. Enquanto os preços das commodities estiverem altos, os investimentos requeridos podem ser promovidos, mas como será no caso de uma queda de preços?
A questão da industrialização da Bolívia esbarra na dificuldade de expansão de um mercado interno de consumo de bens industrializados e da geração de renda doméstica via exportação, que criaria a demanda adequada ao processo industrial pretendido. No primeiro caso, o que se vê é que a Bolívia está passando por um processo de criação de mercado consumidor, porém ainda sem uma demanda que gere um efeito de ‘escala’. É um velho paradigma ainda não de todo absorvido pelos policy makers (formuladores de políticas): o que vem primeiro, a demanda ou a oferta? Na verdade, o que se deseja é um aumento de ambos, que deve ocorrer, no caso das economias menos desenvolvidas, com a intervenção de um terceiro elemento que é o Estado. Devido ao tempo existente entre a criação da oferta e a construção da demanda, realizadora dos lucros, decorrentes das vendas, o Estado acaba sendo o fiador desse processo. Mas como poderá o Estado boliviano financiar esse desenvolvimento eternamente? Por isso a questão do gás é tão importante: se esperava que esse recurso promovesse esse ‘fundo’ para a industrialização.
Já para a segunda possibilidade de industrialização, que seria a exportação, como ocorreu no Sudeste Asiático, a pouca infraestrutura constitui um entrave. A falta de tecnologia e o povo ainda com níveis de escolaridade muito baixos não propiciam a constituição de produtos competitivos. Uma das saídas para essa segunda opção é justamente o Mercosul, que deveria, a exemplo da União Europeia, instituir um Fundo de Promoção Econômico. No caso europeu isso se deu com o Fundo Comum Europeu. No nosso, chegou-se a cogitar sobre alguns instrumentos multilaterais, como o Banco do Sul, mas que, contudo, se parecem muito mais com bancos de investimento do que propriamente fundos para promoção da economia.
Sobre o gás, o grande problema da Bolívia é para onde escoar sua produção. Os principais mercados consumidores do Cone Sul apresentam grandes dificuldades: o Chile tem uma crise histórica com a Bolívia devido à Guerra do Pacífico, o que fez com que decidisse importar gás de outros países e via GNL (muito mais caro); a Argentina tem preços tabelados; o Peru deixou de ser importador e passou a exportador de gás depois das descobertas de Camisea; e o Brasil apresenta um futuro promissor com as suas últimas descobertas de gás que têm ocasionado sobras.
As únicas opções seriam a ‘industrialização’ desse gás, com a construção de usinas de ureia (matéria-prima para outros fertilizantes), ou o polo gás-químico em Puerto Suarez, na fronteira do Brasil, porém elas apresentam problemas de escala ou de falta de mercado (os bens produzidos são destinados a outras indústrias). Ademais, outras opções se mostram distantes em decorrência da pouca infraestrutura do país, como o gás veicular ou o consumo industrial.
A nacionalização das reservas de gás e petróleo significou a renegociação dos termos dos contratos que já existiam entre a YPFB (a estatal boliviana) e as empresas que exploravam e produziam petróleo e gás na Bolívia. Os contratos ficaram muito parecidos com os nossos contratos de concessão em que se tem um programa exploratório mínimo de trabalho e prazo para começar a produção de tais produtos. O que aconteceu é que os termos econômicos mudaram. Foram aumentados os valores das participações governamentais, basicamente dos royalties, e exigido que se acelerasse o início da produção.
Sobre os investimentos estrangeiros, no curto prazo, devem aumentar, em decorrência dos contratos de gás negociados com as empresas e que exigem altos investimentos ou a perda dos direitos de explorar tais jazidas. No médio prazo, contudo, é mais difícil prever como se dará a abertura para investimentos estrangeiros. Não tanto pela questão atual, e mais por uma questão antecedente que é a de definir qual será o grau de abertura para a participação do investimento privado, aí incluído o nacional e o estrangeiro. A questão aqui não é de onde virá o investimento, mas sim se será possível a realização de investimentos por entes privados.
Cada vez que se faz uma nacionalização ou que se diz que determinado setor é monopólio do Estado ou será realizado diretamente pelas suas empresas, o que se vê é que os investimentos privados caem ou até mesmo desaparecem, mas isso é uma decisão estatal. Na Bolívia, o que se discute não é o grau, qual é o tamanho ideal da participação privada, mas sim a natureza, quais setores econômicos podem ou não ter participação de entes privados. Contudo, no caso boliviano se tem um caminho claro, que é o da ‘socialização’ dos investimentos, através das nacionalizações e desapropriações, que por si sós afastam propositalmente o investimento privado.


FONTE: Olhar Virtual, UFRJ, Edição 280, 15/12/2009.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Confissões do Latifúndio

Por onde passei,
plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.
Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...
Por onde passei,
tendo tudo em lei
eu plantei o nada.



(Confissões do Latifúndio - Pedro Casaldáliga)

Máxima do Barão (II)


Leia o livro Barão de Itararé: herói de três séculos, de Mouzar Benedito, da editora Expressão Popular, lançado em 2007.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Asilo Presidencial para Battisti

Exmo. Sr. Presidente do Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva
Os abaixo assinados vimos, muito respeitosamente, oferecer a V. Exa. toda a força e apoio para o vosso governo REJEITAR as intensas e arrogantes pressões que tentam impor a extradição do literato e perseguido político Cesare Battisti.
Pedimos a V. Exa., que chefia o governo mais popular da história do Brasil, que, no momento adequado, CONCEDA ASILO POLÍTICO SOB RESPONSABILIDADE PRESIDENCIAL a Battisti, garantindo-lhe, em seguida, uma fórmula migratória permanente, para que possa trazer a família a este país e nele trabalhar em paz.
Como V. Exa. sabe, Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua sem luz solar (um castigo que já não existe em nenhum país civilizado!) por quatro crimes DOS QUAIS NÃO EXISTE NENHUMA PROVA NEM TESTEMUNHA OCULAR, tendo sido todo seu processo forjado a partir de DELAÇÕES PREMIADAS.
Além de levar os promotores italianos a, ridiculamente, atribuírem a Battisti dois homicídios ocorridos num intervalo de tempo insuficiente para ele transpor a distância entre ambas as cidades, de forma que a acusação teve de ser reescrita quando tal impossibilidade material ficou demonstrada, seu principal delator chegou a ser repreendido pelo magistrado de outro processo pela contumácia com que proferia falsas acusações.
Vossa decisão, Senhor Presidente, será também uma atitude de PROTEÇÃO AO INSTITUTO DO REFÚGIO/ASILO, seriamente ameaçado pela invasão do STF na área do Executivo.
Também se constituirá numa demonstração de afeto para com nosso povo, humilhado, insultado e injuriado obscenamente pelas autoridades italianas, com o apoio das colonizadas e subservientes elites brasileiras (especialmente a mídia).
Battisti escreveu 17 livros, fundou duas revistas virtuais, organizou numerosos congressos culturais e a 1ª Bienal de Artes Gráficas do México. Ele será tão útil para nossa cultura quanto o foi, quando se refugiou no México, o também escritor Gabriel Garcia Márquez (signatário, por sinal, de uma mensagem de apoio a Battisti).
A salvação de Battisti será a coroação de OITO anos de luta pela preservação da dignidade, independência e generosidade de nosso povo.
Atenciosamente,
OS ABAIXO ASSINADOS
http://www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?btstlng

Assine você também essa petição através do link acima.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O retorno da direita latino-americana

Por Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano
Artigo publicado no jornal Página/12, 02-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
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Algo estranho está acontecendo na América Latina. As forças de direita na região estão dispostas de tal forma que podem se desempenhar melhor durante a presidência de Barack Obama do que durante os oito anos de George W. Bush. Este liderava um regime de extrema direita que não tinha nenhuma simpatia pelas forças populares na América Latina. Pelo contrário, Obama lidera um regime centrista que tenta replicar a "política da boa vizinhança" que Franklin Roosevelt proclamou como forma de anunciar o fim da intervenção militar direta dos Estados Unidos na América Latina.
Durante a presidência de Bush, a única tentativa séria de golpe de Estado com o respaldo dos Estados Unidos ocorreu em 2002 contra Hugo Chávez na Venezuela, e essa tentativa falhou. Foi seguida por uma série de eleições em toda a América Latina e no Caribe, onde os candidatos de centro-esquerda ganharam em quase todos os casos. A culminação foi uma reunião no Brasil em 2008 - na qual os Estados Unidos não foram convidados e na qual o presidente de Cuba, Raúl Castro, recebeu tratamento de herói virtual.
Desde que Obama assumiu a presidência, conseguiu-se perpetrar um golpe de Estado: em Honduras. Apesar da condenação que o presidente expressou, a política norte-americana foi ambígua, e os líderes do golpe ganharam sua aposta de se manter no poder até as próximas eleições para presidente. Há apenas pouco tempo, no Paraguai, o presidente católico de esquerda Fernando Lugo pôde evitar um golpe militar. Mas seu vice-presidente, Federico Franco, de direita, está manobrando para obter de um Parlamento nacional hostil a Lugo um golpe de Estado que assuma a forma de um enjuizamento. E os dentes militares se afima em uma série de outros países.
Para entender essa aparente anomalia devemos olhar a política interna dos Estados Unidos e como ela afeta sua política exterior. O Partido Democrata é a mesma coalizão ampla que sempre foi, mas o Partido Republicano se moveu mais para a direita. Isso significa que os republicanos têm uma base menor. O lógico seria que isso significaria muitos problemas eleitorais. Mas, como estamos vendo, isso não funciona exatamente desse modo.
As forças da extrema direita que dominam o Partido Republicano estão muito motivadas e são muito agressivas. Buscam purgar todos e cada um dos políticos republicanos que considerem muito "moderados" e tentam forçar os republicanos no Congresso a uma atitude negativa uniforme para com todas e cada um das coisas que o Partido Democrata, e particularmente o presidente Obama, propuser. Os acertos políticos de compromisso já não são visto como politicamente desejáveis. Pelo contrário. Os republicanos são pressionados para marchar no ritmo de um único tamboreiro.
Entretanto, o Partido Democrata age como sempre agiu. Sua ampla coalizão vai da esquerda para uma certa direita do centro. Os democratas no Congresso investem quase toda a sua energia política na negociação entre uns e outros. Isso implica no fato de que é muito difícil aprovar legislações significativas, como vemos atualmente com a tentativa de reformar as estruturas de saúde norte-americanas.
Então, o que isso significa para a América Latina (e de fato para outras parte do mundo)? Obama tem uma base diversa e uma agenda ambígua. Sua postura pública balança entre uma firme posição centrista e gestos moderados de centro-esquerda. Isso torna sua posição política essencialmente frágil. Obama desilude os eleitores de esquerda, e a realidade de uma depressão mundial faz com que alguns de seus eleitores centristas se afastem dele por medo a uma dívida nacional crescente.
Para Obama, da mesma forma que para Bush, a América Latina não está no topo das prioridades. Ele está muito preocupado com as eleições de 2010 e 2012. E isso não é algo insensato. O que a direita latino-americana faz é tirar vantagem das dificuldades políticas internas de Obama para pressioná-lo. Dão-se conta de que ele não conta com a energia política disponível para freá-los. Além disso, a situação econômica mundial tende a redundar contra os regimes no poder. E na América Latina de hoje são os partidos de centro-esquerda os que estão no poder. Se Obama conseguir triunfos políticos importantes nos próximos dois anos, isso frearia, de fato, o retorno da direita latino-americana. Mas ele irá conseguir esses triunfos?
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Dia Nacional do Samba

2 DE DEZEMBRO
Quem não gosta de SAMBA bom sujeito não é...



A Voz do Morro

Composição: Zé Keti


Eu sou o samba

A voz do morro sou eu mesmo sim senhor

Quero mostrar ao mundo que tenho valor

Eu sou o rei do terreiro

Eu sou o samba

Sou natural daqui do Rio de Janeiro

Sou eu quem levo a alegria

Para milhões de corações brasileiros

Salve o samba, queremos samba

Quem está pedindo é a voz do povo de um país

Salve o samba, queremos samba

Essa melodia de um Brasil feliz
Veja Luiz Melodia cantando a Voz do Morro de Zé Keti:

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dia Mundial de Luta Contra Aids

VIVER COM AIDS É POSSÍVEL. COM O PRECONCEITO NÃO.






Visite o site da campanha “Viver com Aids é possível. Com o preconceito não”, lançada pelo Ministério da Saúde:
http://www.todoscontraopreconceito.com.br/
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