terça-feira, 28 de maio de 2019

“El fascismo en América Latina”

Artigo de Shaffik Handal



Ao buscar explicação para os regimes autoritários que se estabeleceram na América Latina durante os anos 1960-1970, o dirigente comunista de El Salvador, Schafik Handal, deu valiosa contribuição ao lembrar que "o fascismo acima de tudo é uma contrarrevolução".

Shafik Handal destacava o papel modernizador do fascismo na América Latina, em comparação com a função dos "regimes tradicionais", "conservadora, visando favorecer as oligarquias latifundiárias e burguesas", acrescentando:

a função do fascismo é salvar o capitalismo dependente frente à revolução e modernizá-lo, favorecendo os consórcios transnacionais e os burgueses locais seus associados, salvar e consolidar a hegemonia política e militar do imperialismo ianque, ameaçada de colapso em nossa região.

Shafik Handal, “El fascismo en América Latina”, em América Latina (Moscou, Progreso, 1976), n. 4, p. 121-46
















Ver o artigo "BRASIL: EXISTE AMEAÇA FASCISTA?", da historiadora Anita Leocadia Prestes.

domingo, 26 de maio de 2019

Dois marxismos?

Por Greg Godels

O Google sabe que tenho um interesse permanente no marxismo. Consequentemente, recebo links frequentes para artigos que os algoritmos do Google seleccionam como populares ou influentes. Sistematicamente, no topo da lista, estão artigos de ou sobre o irreprimível Slavoj Žižek. Žižek dominou os truques de um intelectual público – divertido, pomposo, escandaloso, calculadamente obscuro e amaneirado. A pose desalinhada e a barba desgrenhada somam-se a uma quase caricatura do professor europeu, a presentear o mundo com grandes ideias profundamente embebidas em camadas de obscurantismo – uma maneira infalível de parecer profundo. E uma maneira infalível de promover o valor comercial do entretenimento. 

Seguidores próximos do "mestre" até postam vídeos de Žižek a devorar hot dogs – um em cada mão ! Ele está actualmente a ganhar dinheiro com um debate público com um congénere de direita que é um saco vazio, o qual supostamente torna obscenos os preços dos ingressos. O marxismo como empreendedorismo. 

Žižek é uma das mais recentes repetições de uma longa linhagem de académicos em grande parte europeus que constroem uma modesta celebridade pública a partir de uma identificação com o marxismo ou a tradição marxista. De Sartre e o existencialismo até o estruturalismo, pós-modernismo, pós-essencialismo, pós-fordismo e política identitária, académicos apropriaram-se de partes da tradição marxista e afirmaram repensar aquela tradição, enquanto mantinham uma distância segura e bem medida em relação a qualquer movimento marxista. Eles são marxistas quando isso lhes traz uma audiência, mas raramente respondem ao chamado à acção. 

O curioso sobre este marxismo intelectual, de salão de conversa, o marxismo diletante, é que nunca é completo; é marxismo com reservas sérias. O marxismo é bom se for o do Marx "primitivo", do Marx "humanista", do Marx "hegeliano", do Marx dos Grundrisse, do Marx sem Engels, do Marx sem a classe trabalhadora, do Marx antes do bolchevismo, ou antes do comunismo. Compreensivelmente, se quiser ser o próximo grande domador de Marx, deve separar-se da manada, deve repensar o marxismo, redescobrir o Marx "real", mostrar onde Marx errou. 

Gerações anteriores de estudantes universitários bem-intencionados, mas com confusão de classe, foram seduzidas por pensadores "radicais" que oferecem um gostinho de rebeldia num pacote académico sexy. Estudantes carregam montes de livros não lidos, mas livros de autores na moda como Marcuse, Althusser, Lacan, Deleuze, Laclau, Mouffe, Foucault, Derrida, Negri e Hardt – autores que compartilhavam características comuns com livros de títulos exóticos e provocativos e prosa impenetrável. Livros que prometiam muito, mas entregavam trevas. 

Com uma nova geração de jovens de mentalidade radical em busca de alternativas ao capitalismo e curiosos acerca do socialismo, é inevitável que muitos estejam a olhar para Marx. E para onde se voltam? 

Um professor de Yale desavergonhadamente apresenta na badalada Jacobin Magazine uma cartilha para iniciantes intitulada Como ser um marxista . O professor Samuel Moyn actualmente exerce na cadeira Henry R. Luce [1] de jurisprudência. Aparentemente, Moyn não se sente desconfortável em possuir uma cadeira dotada por um dos mais notórios editores anti-comunistas e anti-marxistas do país quando apresenta o seu guia para o marxismo. 

A pretensão de Moyn de guiar os que não têm conhecimento do marxismo não se justifica nem se explica. No entanto, ele sente-se confiante para recomendar dois académicos recentemente falecidos, Moishe Postone e Erik Olin Wright (juntamente com o ainda vivo Perry Anderson), como representando os últimos da "…geração de grandes intelectuais cujas experiências da década de 1960 levaram-nos a dedicar a vida inteira a recuperar e re-imaginar o marxismo". 

Confesso que a sua escolha de Moishe Postone deixou-me desconcertado. Deveria eu ficar embaraçado por dizer que nunca conheci o trabalho do professor Postone ou que não o conheci como marxista? Quando encontrei no YouTube uma entrevista com o estimado Professor Postone, descobri rapidamente que ele enfaticamente e sem reservas nega ser marxista. Além disso, Postone pretende que a maior parte do que chamamos de marxismo foi escrita por Frederick Engels. Postone admite que Engels era "realmente um bom rapaz", mas que Engels nunca entendeu Marx adequadamente. Postone, por outro lado, sim. E o seu Marx não "glorifica" a classe trabalhadora industrial. 

Estou no entanto familiarizado com o outro alegado exemplar de uma devoção de "grande intelectual" ao marxismo, Erik Olin Wright. Wright foi um membro consagrado e proeminente da chamada escola do "Marxismo Analítico". Wright, como os demais membros desse movimento intelectual, tentou colocar o marxismo numa base "legítima", onde a legitimidade era obtida submetendo o marxismo aos rigores da ciência social anglo-americana convencional. O conceito de que a ciência social anglo-americana é sem viézes ou que nada tem a aprender com o método de Marx jamais é questionado com essa gente. Mas, para crédito de Wright, ele lutou com unhas e dentes para apreender o conceito de classe social. 

A fim de "salvar a esquerda de se meter em vários becos sem saída", o professor Moyn oferece o último livro de seu "colega brilhante", Martin Hägglund. Moyn assegura-nos que "This Life: Secular Faith and Spiritual Freedom" ("Esta vida: Fé laica e libertação espiritual") é excelente para começar por aqueles que querem estimular a teoria do socialismo, ou mesmo construir a sua própria teoria de uma variante marxista dela". 

Basta apenas um breve momento para verificar que Martin Hägglund e seu admirável colega estão a levar-nos a outros becos sem saída, alguns pisados por muitas gerações anteriores. A jornada de Hägglund revisitaria o existencialismo, Hegel e as tradições cristãs em busca do evasivo "sentido da vida". Embora muitos de nós pensassem que Marx oferecia uma análise profundamente informada da mudança social e da justiça social, Moyn / Hägglund, seguindo Postone, avançam com "as perguntas finais que todos devem fazer: que trabalho deveria eu fazer? Como deveria gastar meu tempo finito?" Acumular capital contrapõe-se, sugerem eles, a "maximizar... o tempo livre individual a despendê-lo como lhe agradar..." 

Assim, a luta pela emancipação, neste repensar do marxismo, não é a emancipação da classe trabalhadora, mas o arrebatar de tempo livremente descartável das garras do trabalho. Os professores admitem que esta luta é muito mais fácil para académicos do que para os "miseráveis da terra". 

"E finalmente", conclui Moyn, "há a proposta de Hägglund de que os marxistas podem abandonar o comunismo – que, em qualquer caso, Marx descreveu vagamente – em favor da democracia. Não está totalmente claro o que Hägglund quer dizer com democracia, algo que nem o próprio Marx nem muitos marxistas optaram por investigar teoricamente. Assim, Hägglund destila "marxismo" numa rejeição do comunismo e num abraço de uma vaga "democracia". Eu teria de concordar com Moyn quando ele diz: "Na verdade, é notável quão poucas pessoas pensaram que a teoria marxista tornara-se a tentativa de Hägglund de recomeçá-la no nosso tempo". Aparentemente, o segredo agora revelado de se tornar um marxista é descartar Marx 

Tal como muitos auto-proclamados "marxistas", que antecederam Postone, Hägglund e Moyn, a intenção dos mesmos parece ser mais a de defraudar o marxismo do que a de promovê-lo. 

Ideias perigosas 

A verdade nua e crua é que o marxismo – desde a época da censura de Marx e das suas múltiplas expulsões de diferentes países – é uma ideia perigosa. A incapacidade de Marx de assegurar nomeações académicas e a sua constante vigilância e perseguição por parte das autoridades provou ser um precursor do destino de quase todos os intelectuais marxistas autênticos. O capitalismo não dá àqueles que defendem a destruição do capitalismo honra académica ou celebridade. E aqueles "marxistas" que se tornam aclamados por académicos, que obtêm lucrativos negócios de livros, que desfrutam de exposição nos media, raramente representam grande ameaça ao sistema. 

É um facto revelador que, embora a história tenha produzido muitos marxistas "orgânicos", marxistas com raízes na classe trabalhadora e em movimentos que desafiam o capitalismo, suas contribuições raramente povoam as bibliografias de professores universitários, a menos que sejam para ridicularizá-las. O emprego universitário raramente está disponível para fornecedores de ideias perigosas ou para a defesa de uma versão de Marx que apele a mudanças revolucionárias. 

Um historiador marxista como o falecido Herbert Aptheker – que fez mais do que qualquer outro intelectual para desafiar a representação distorcida, em Nascimento de uma nação / E tudo o vento levou, de um Sul benévolo e da sua heróica defesa de um nobre estilo de vida – não conseguiu encontrar trabalho em universidades dos EUA. Na verdade, até foi preciso um movimento pela liberdade de expressão para que lhe fosse permite falar nos campi dos EUA. Seus livros desapareceram da circulação e poucos estudantes de história afro-americana têm acesso às suas contribuições. 

Ninguém elaborou uma história do movimento trabalhista americano que rivalizasse com a do falecido marxista Phillip Foner , os 10 volumes de History of the Labor Movement. Os cinco volume de The Life and Writings of Frederick Douglass , também de Foner, restabeleceram Douglasse como uma figura proeminente na abolição da escravatura nos EUA. Uma universidade historicamente negra, a Lincoln University, corajosamente contratou Foner após anos de listas negras. Infelizmente, hoje, suas obras são amplamente ignoradas nos campos em que foi pioneiro. 

As sérias contribuições de muitos outros intelectuais marxistas dos EUA podem ser encontradas em edições antigas de publicações como Science and Society , Political Affairs, Masses, Masses and Mainstream e Freedomways a descansarem em prateleiras recônditas e poeirentas, diminuídas pelo macarthismo, pelas listas negras, pela covardia académica e pelo anticomunismo grosseiro. 

As portas e o discurso público da academia e dos mass media foram igualmente fechados aos marxistas da classe trabalhadora (a menos que renunciem a seus pontos de vista!). Apesar de sua liderança dos movimentos da classe trabalhadora e de escrever prolificamente, os trabalhos marxistas de William Z. Foster sobre organização, estratégia e tácticas trabalhistas e economia política estão em grande medida esquecidos, a menos que reapareçam como o pensamento de outra pessoa. A outras importantes figuras marxistas responsáveis por alguns dos melhores momentos da força de trabalho e pela sua interpretação, como Len De Caux e Wyndham Mortimer, é-lhes negada a entrada no clube. 

Analogamente, pioneiros marxistas nos movimentos de igualdade dos negros e das mulheres, como Benjamin Davis, William Patterson e Claudia Jones, não são nem louvados como tais nem são apresentados como exemplos de "Como ser um marxista". 

A obra do economista político marxista Victor Perlo na identificação dos mais altos limites do capital financeiro e da teoria económica do racismo estão curiosamente ausentes de qualquer conversação académica relevante. 

O que todos esses marxistas compartilham é uma vida política activista no Partido Comunista dos EUA, um distintivo orgulhoso, mas denegrido pela maior parte dos intelectuais americanos. 

Os melhores escritos da venerável Monthly Review sofrem a mesma marginalização. Seus fundadores foram ameaçados o suficiente para serem vitimizados pelo Red scare . E o seu co-fundador Paul Sweezy, um sério economista político marxista, nunca foi entusiasticamente recebido nos círculos académicos. 

Hoje, Michael Parenti é o mais perigoso intelectual marxista nos EUA. Sei disto porque apesar de incontáveis livros, vídeos e palestras, apesar de um compromisso intransigente com uma interpretação marxista da história e dos acontecimentos actuais, apesar de um profundo, mas fundamentado ódio ao capitalismo, e apesar de um estilo admiravelmente acessível e com grandes ideias, ele não tem emprego em universidades e é-lhe negado acesso a todos os media, excepto os mais à esquerda ou marginais. 

Outro impressionante estudioso marxista dos EUA, Gerald Horne , embora desfrutando de estabilidade académica, merece ser estudado por todos os "esquerdistas" nos EUA pela integridade, acessibilidade e qualidade do seu trabalho. 

O marxismo autêntico, em oposição ao marxismo da moda, do modismo, ou do marxismo caprichoso, é implacável, agressivo e inspirador de acção. Ele disseca diligentemente o funcionamento interno do sistema capitalista. É implacável e impiedoso na sua rejeição ao capitalismo. Ele desafia o pensamento convencional, fazendo poucos amigos na imprensa capitalista e abalando a gentileza e a colegialidade do liberalismo tranquilo da academia. O marxismo não é um avanço de carreira, mas um compromisso ingrato. 

Os marxistas reais são necessariamente anómalos (outliers). Até as condições para mudanças revolucionárias amadurecerem, eles são frequentemente sujeitos a cepticismo, desinteresse, até escárnio e hostilidade. Os que posam como marxistas são alérgicos a organizações políticas, activismo e risco intelectual, ao passo que marxistas comprometidos são obrigados a buscar e unir movimentos pela mudança. Eles são levados a servir a muito citada tese de Marx e raramente atendida na décima primeira tese sobre Feurbach: "Os filósofos só interpretaram o mundo de várias maneiras; a questão no entanto é mudá-lo". 

30/Abril/2019

[1] Magnata da imprensa, en.wikipedia.org/wiki/Henry_Luce 

O original encontra-se em https://mltoday.com/two-marxisms/ 

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Autoritarismo e Fascismo no Brasil Contemporâneo

Conferência da historiadora Anita Prestes na Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Quinta-feira, 23 de maio de 2019, às 19:00 .
AUDITÓRIO 5R A/B Campus Santa Mônica UFU

Mais informações na página do evento: 


quarta-feira, 8 de maio de 2019

Bolsonaro e a destruição deliberada das universidades públicas

Por Paulo Moreira Leite


Mais recente protagonista do circo de horrores em exibição em tantos países neste momento, o correto entendimento dos horizontes políticos de  Jair Bolsonaro é um aspecto crucial da luta política de 2019.

Desde 1 de janeiro, a democracia e o bem-estar dos brasileiros encontram, no Planalto, um adversário que está longe de ser banal. A prova mais recente ficou clara no debate em torno das universidades públicas, que levou alunos e professores a organizar a paralisação nacional marcada para 15 de maio.   

Num editorial (4/5/2019), o Estado de S. Paulo observa que Bolsonaro "mostra desconhecimento, despreza estatísticas e comete erros factuais" em seus tuítes sobre ensino superior no país. Tentando justificar um corte drástico de 30% ele escreveu que "poucas universidades públicas têm pesquisas e, dessas poucas, grande parte está na iniciativa privada."

O jornal lembra que, entre as 50 universidades brasileiras mais ativas no plano científico, 36 são universidades públicas federais, 7 são universidades públicas estaduais, 5 são institutos de pesquisa ligados ao governo federal, uma é um instituto federal de ensino técnico. Apenas uma entre as 50 é privada.

Sonho de consumo dos vira latas da equipe econômica, a OCDE informa que os gastos do Brasil com ensino superior já são ridiculamente  baixos, o que mostra a estupidez de cortar recursos de nossas instituições mais produtivas.  Entre 39 países, o Brasil encontra-se no último lugar, com gastos de US$ 3720 por ano por aluno, atrás de Portugal, India, Colombia e Costa Rica -- sem falar nos primeiros da lista, Luxemburgo, Estados Unidos e Reino Unido (Blog de Jamil Chade, 4/5/2019).

Embora esses fatos tragam argumentos que, num debate racional, deveriam reduzir o programa de Bolsonaro a pó, é ingenuidade aguardar uma mudança de atitude do governo em função disso. A discussão aqui é outra.

Do ponto de vista do "bolsonarismo", a  destruição das universidades públicas não constitui um acidente de percurso, nem um erro a ser corrigido. Tampouco é uma contingência desagradável imposta por uma conjuntura difícil. Num governo que faz do anti-intelectualismo uma prioridade permanente, é  um fim desejado, buscado e justificado por qualquer meio, inclusive a violência e a mentira.

Do ponto de vista do governo, as universidades públicas não passam de aparelhos ideológicos destinados a produzir o "marxismo cultural" e alimentar o "politicamente correto" que constituem o inimigo que precisa ser vencido de qualquer maneira, em nome da prometida reconstrução do país. São centros de doutrinação e formação de quadros. 

Nesta visão, em vez de desempenhar um papel inegável no progresso do país, alunos e professores insistem em levar adiante uma atuação nociva na conjuntura brasileira, em linha de continuidade com a postura de crítica e resistência à ditadura de 64 -- passado que Bolsonaro e seus aliados protegem e  reverenciam em todas as oportunidades, sem esquecer aspectos sórdidos e mais repulsivos.   

O básico é compreender que o confronto aqui não se dá no plano das ideias e argumentos que, com base no conhecimento científico e na razão, constituem o saber acumulado e pactuado de uma sociedade ao longo de uma história plural, com avanços, recuos, guinadas e possíveis alterações de rota.

O artigo "Bolsonaro e os Quartéis: a loucura com método", do professor da UFRJ Eduardo Costa Pinto, debatido numa entrevista a TV 247 disponível no Youtube, mostra qual é o debate real.

A raiz ideológica do governo Bolsonaro é parte de uma doutrina militar herdada da Guerra Fria, a "teoria da guerra revolucionária". Traduzida e supostamente atualizada pelos ideólogos do ultra-conservadorismo norte-americano que patrocinam o ambiente reacionário de nossos dias, essa visão alimenta-se de dogmas que podem nos parecer -- e são -- absurdos, sem conexão  com realidade brasileira e mundial. 

Nas fantasias ideológicas do bolsonarismo, porém, envolvem noções arraigadas e essenciais, a começar pela  visão grotesca de que a grande ameaça enfrentada pela humanidade de nossos dias não mudou grande coisa  depois do colapso da URSS e da conversão da China à economia de mercado.

Como acontece desde sempre, o perigo se encontra na atividade perversa do velho Movimento Comunista Internacional e seus aliados. Em circunstâncias diversas, impostas pelo colapso da União Soviética, hoje travam uma guerra cultural contra os valores legítimos e autênticos da civilização -- e por essa via alcançaram o poder em áreas inteiras do planeta. 

Instalada no núcleo que comanda o governo, essa visão tem lá suas nuances mas a força é de caráter absoluto.  Não permite o debate que procura consensos e convivências mutuamente enriquecedoras entre contrários -- mas exige a eliminação do outro, aqui tratado como inimigo a ser derrotado e eliminado. (A "teoria da guerra revolucionária" era usada para justificar a prática de tortura do Exército francês na guerra Argélia, que depois seria divulgada e ensinada em vários países sul-americanos, inclusive no Brasil do regime militar).

Eduardo Costa Pinto mostra que, embora Olavo de Carvalho seja uma voz barulhenta e influente, o essencial se encontra nas elaborações do general Avellar Coutinho, um dos últimos formulares da extrema direita militar brasileira, referência real do Alto Comando que assistiu e contribuiu para a derrocada de Dilma, a prisão de Lula e a sustentação de Bolsonaro, na eleição e na formação de seu governo.

Cronologicamente, Avellar Coutinho não pode ser descrito como um homem das cavernas. Seus trabalhos mais conhecidos vieram à luz em 2002 e 2003,  uma década e meia após o naufrágio da ditadura militar. Pretendem responder a um país que, após oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, iria enfrentar 14 anos de governos Lula e Dilma, demonstração única de democracia e alternância de poder na história política brasileira -- numa transição marcada, sabemos todos, pelos partidos que maior presença  possuíam nas universidades públicas do país de então.   

A lógica do combate à "guerra revolucionária" é um traço essencial do governo Bolsolnaro e ajuda a entender a reação do ministro Abraham Weintraub diante da reação inconformada das universidades atingidas pelos cortes -- eram três, inicialmente. Em vez de  abrir o debate o governo aumentou a aposta. Anunciou um corte de igual teor no conjunto das universidades federais, deixando claro que não queria perder a oportunidade de avançar ainda mais num ataque cujo efeito previsível  será paralisar essas instituições no país inteiro. 

O deslocamento e por fim destruição das universidades públicas também é a prioridade das forças que sustentam Paulo Guedes e por essa via tentam conectar o apoio à Bolsonaro aos interesses de mercado.

Há mais de meio século elas estão de  olho nos centros de excelência do ensino público, principal barreira a sua penetração num país que abriga uma das dez maiores economias do planeta. Grandes multinacionais de educação privada já escancararam o mercado brasileiro em anos recentes. Mesmo atingido parcialmente pela lógica privatizante,  o centro nervoso de nosso ensino superior não foi comprometido.

Essa é a fronteira que, no plano cultural e econômico, pretende-se atravessar agora, gerando pelo menos um resultado previsível. Se a investida não for paralisada no curto prazo, em breve a falta deliberada de recursos elevará a pressão para requentar o velho projeto de cobrança de mensalidade nas universidades públicas -- cujo resultado, sabemos todos, é  recriar o velho elitismo de tempos anteriores aos programas que abriram vagas a estudantes de baixa renda familiar.   

O processo de hoje só tem equivalente, no país, aos ataques de envergadura às universidades públicas ensaiados logo após o golpe de 64, os chamados acordos MEC-USAID, repelidos pela vigorosa mobilização da juventude estudantil entre 1966-1968.   

Força destrutiva, versão popularizada e vulgar de dogmas políticos, o preconceito é uma vergonha e um insulto na vida cotidiana.   

Na luta política, é um instrumento de poder. Empobrece e condiciona o debate. Também conduz a tragédias previsíveis quando chega ao comando do Estado, pois dogmas e preconceitos só podem sobreviver enquanto forem alimentados e reafirmados por medidas concretas -- agora com os recursos de governo, que incluem o uso da força para atingir seus fins.

Em seus momentos mais bestiais, estes governos podem superar a própria capacidade de causar dano e produzir o mal, como ensinam as páginas mais dolorosas da história de povos e países.    

Alguma dúvida?

FONTE: Brasil 247

terça-feira, 7 de maio de 2019

VICTOR ALLEN BARRON: HEROICO COMUNISTA NORTE-AMERICANO ASSASSINADO PELA POLÍCIA DE FILINTO MÜLLER EM 1936

Por Anita Prestes
  
O jovem comunista norte-americano Victor Allen Barron (16/3/1910 – 5/3/1936) chegou ao Rio de Janeiro em 1935 em missão da Internacional Comunista (IC), atendendo a solicitação da direção do Partido Comunista Brasileiro (PCB), para colaborar com o movimento antifascista então em curso no Brasil, que ganhava força e importância a partir da fundação da Aliança Nacional Libertadora (ANL).


Victor Allen Barron



sexta-feira, 3 de maio de 2019

Baixe livro gratuito, ilustrado por Ziraldo, que ajuda a conhecer quem foi Chico Mendes

Publicação pode ajudar as novas gerações a não passarem pela vergonha de não saber quem foi o seringueiro defensor da Amazônia



Conhecer o meme que tá bombando, saber qual é o próximo hit do Verão, ter escutado o novo álbum daquele(a) cantor(a) pop inteirinho e estar em dia com as séries mais descoladas do momento não representa problema algum. Afinal, entretenimento, lazer e diversão também são dimensões das nossas vidas que precisam de atenção.

Agora, ter contato com alguns conteúdos fundamentais sobre conhecimentos gerais, política e meio ambiente também é algo que a gente não pode deixar pra segundo plano.

Muito mais do que estudar pra fazer um vestibular, estudar pra ir bem na redação do Enem ou para ser aprovado num concurso público e alcançar aquele emprego supostamente estável, o conhecimento também serve pra influenciar as nossas decisões a serem mais críticas, deixar nossos argumentos bem fundamentados, nos tirar da ignorância que faz muitas pessoas acreditarem na versão única sobre determinado fato, confrontar as fake news (notícias falsas) e também para que possamos compartilhar esse conhecimento com outras pessoas sempre que necessário. E antes que eu me esqueça: ajuda a não passar pela vergonha de ocuparmos um dos mais altos cargos – que define as diretrizes políticas de meio ambiente e sustentabilidade – sem conhecer as personalidades mais emblemáticas que defenderam relevantes pautas socioambientais do país: a preservação da floresta Amazônica.

Pensando nisso, o portal Universo Educom disponibiliza pra você, o link para fazer o download completo do livro infantil “A história de Chiquinho”, criado numa parceria entre o Instituto Chico Mendes e o cartunista e escritor Ziraldo. A obra ajuda a compreender, de um jeito sensível e adequado à faixa etária infantil, a síntese da vida e atuação de Chico Mendes.

Recentemente, no dia 11/02/2019 (uma segunda-feira), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disparou declarações de deixar qualquer ambientalista brasileiro estarrecido. “Eu não conheço Chico Mendes e tenho dificuldade de falar sobre coisas que não conheço” e “O fato é que ele é irrelevante! Que diferença faz quem é o Chico Mendes nesse momento?!” são alguns exemplos de falas grosseiras que, além de terem sido reprovadas pela comunidade científico-ambiental também repercutiu amplamente na imprensa nacional. [...]

Para evitar que a garotada cresça sem conhecer personalidades que tiveram importância histórica para o nosso país e para o mundo, é sempre bom buscarmos meios interessantes de incentivá-las a lerem, assistirem e ouvirem o que essas personalidades fizeram de relevante para a sociedade. [...]

Que tal começar baixando o livro e lendo para o seu filho, hein? Projetar na sala de aula e promover uma leitura coletiva também pode ser uma iniciativa super prática. Os mais animados podem pensar em elaborar cenários, figurinos e adaptação de roteiro para apresentar uma peça de teatro inspirado na publicação. Enfim, a criatividade é que manda!


Leitura dramatizada "K.relato de uma busca"

Por Militantes em cena

A saga de um pai em busca de sua filha desaparecida durante a Ditadura Militar no Brasil.

Dia 07/05, às 11h, no Salão Nobre do IFCS



segunda-feira, 29 de abril de 2019

DOCUMENTO INÉDITO REVELADOR DO DESEMPENHO DO ALUNO LUIZ CARLOS PRESTES NA ESCOLA MILITAR DO REALENGO (RJ)

Por Anita Leocadia Prestes  
via ILCP 


Após a conclusão do curso do Colégio Militar do Rio de Janeiro, Luiz Carlos Prestes, em 1916, aos dezoito anos, ingressou na Escola Militar do Realengo. Logo no início do curso, era necessário seguir a disciplina de Geometria Analítica com o professor José Pio Borges de Castro, considerado o terror dos alunos, pois costumava reprovar em massa e raramente atribuía a alguém grau dez.

Para espanto geral dos seus colegas e de toda a Escola Militar, Luiz Carlos Prestes obteve nota dez na primeira sabatina promovida pelo prof. José P. Borges. O jovem Prestes só recebeu grau nove uma vez, mantendo a avaliação máxima o curso todo.

O desempenho de Prestes durante o curso na Escola Militar sempre foi comentado e admirado por seus contemporâneos e por várias gerações de oficiais que frequentaram essa Escola[1], mas só agora foi possível obter o documento original comprobatório da história que reverberara durante décadas. A caderneta do prof. José Pio Borges de Castro com a relação dos alunos e suas respectivas notas referente ao ano de 1916 foi encontrada pelo filho do professor, que leva seu nome, entre os guardados do pai, falecido há muitos anos. Esse documento até agora inédito (ver reprodução a seguir) me foi cedido pelo Dr. José Pio Borges de Castro Filho, junto ao qual assumi o compromisso de doá-lo à Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos. Nessa instituição encontra-se o acervo de Luiz Carlos Prestes que estava aos meus cuidados após o falecimento da minha tia Lygia Prestes, responsável pela sua preservação durante muitos anos.



Será mais um documento franqueado ao público para que as novas gerações de brasileiros possam conhecer a vida do Cavaleiro da Esperança – figura legendária que marcou a História do Brasil no século XX.

Rio de Janeiro, abril/2019

[1] Por exemplo, o depoimento do capitão José Rodrigues, contemporâneo de Prestes na Escola Militar, in José Rodrigues, Luiz Carlos Prestes: sua passagem pela Escola Militar (Fortaleza, Typographia Minerva, 1927).


quarta-feira, 17 de abril de 2019

Aula pública da historiadora Anita Prestes na UERJ-CAXIAS

Uma análise dos golpes de Estado de 1964 e de 2016 no Brasil

O Grupo de Estudos de História da Educação Local (EHELO) convida para a abertura do Ciclo de Debates, cuja temática deste ano é Estado, Igreja e Militares na História da Educação Brasileira.

A série de debates terá início dia 26 de abril, sexta-feira, às 9h, no auditorio da FEBF, com a palestra da professora Anita Prestes, que abordará o seguinte tema:´"O conceito de hegemonia em V.I. Lenin e A. Gramsci na análise dos golpes de Estado de 1964 e de 2016 no Brasil".

Faculdade de Educação da Baixada Fluminense
Rua General Manoel Rabelo s/n,
Vila São Luís, Duque de Caxias, RJ




terça-feira, 16 de abril de 2019

Campanha de arrecadação de livros para os assentamentos e acampamentos do MST

Olá, companheiros e companheiras!

A Associação dos Amigos da ENFF vem divulgar a campanha de arrecadação de livros para os assentamentos e acampamentos do MST, com o objetivo de ampliar a formação dos e das camaradas do movimento!

Se encontra em algum dos estados listados no card e tem livros parados em casa? Ajude nessa empreitada levando eles até o Armazém do Campo mais próximo!





Contamos com a sua solidariedade!

Abraços fraternos.


domingo, 31 de março de 2019

As origens ideológicas do nazismo

Cinco especialistas alemães explicam as bases ideológicas da ditadura nazista, que era centrada no racismo, no antissemitismo e no nacionalismo e contrária ao comunismo e aos sindicatos.

Por Gabriel Bonis
29.03.2019
DW - Deutsche Welle*
ALEMANHA


 



Nazistas ocupam um sindicato em Berlim, em 2 de maio de 1933


Basta uma rápida olhada nas origens do movimento nazista para descartar completamente a ideia de que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) fosse de esquerda, afirma o historiador Jürgen Zarusky, do Instituto para História Contemporânea Munique-Berlim. "[O nazismo] era profundamente enraizado em tendências extremistas de direita que já existiam ao fim da Primeira Guerra Mundial", explica.

E essa é uma posição há muito consolidada entre especialistas. "Nenhum historiador profissional classificaria a ditadura nazista como de esquerda. O Nacional-Socialismo e o conceito de volksgemeinschaft (comunidade nacional) eram antiliberais, racistas e nacionalistas", diz o historiador André Postert, do Instituto Hannah Arendt, de Dresden.

O debate sobre a orientação ideológica do nazismo se espalhou pelas redes sociais nos últimos anos, e ganhou força no contexto da polarização política no Brasil durante as eleições. A teoria de que o nacional-socialismo teria sido um fenômeno de esquerda, que é considerada um absurdo na Alemanha, chegou a ser ecoada peloatual ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

O movimento nazista era contra o capitalismo praticado nos EUA, mas críticas a esse modelo econômico eram comuns na época devido à crise financeira de 1929. O nazismo também se opunha fortemente ao marxismo e ao bolchevismo por associá-los – assim como o capitalismo liberal – à "luta dos judeus pelo poder mundial". "Não tinha nada que ver com ideologias de esquerda", afirma Zarusky.

Logo, apesar de carregar o termo socialista em seu nome, o NSDAP estava bem distante do socialismo. "O rótulo 'socialista' e o tom amigável ao trabalhador ajudaram Hitler a ganhar amplo apoio entre essa parcela da população", conta o pesquisador Paul-M. Rabe, do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional-Socialismo.

Ala à esquerda foi expurgada

O Deutsche Arbeiterpartei (Partido dos Trabalhadores Alemães), que antecedeu o NSDAP, foi criado em 1919 inspirado pela Sociedade Thule para solucionar um "problema": a classe trabalhadora pendia para a esquerda. "O começo do Nacional-Socialismo está numa sociedade secreta, claramente de direita e que tinha entre seus membros integrantes da aristocracia alemã", diz Zarusky.

Adolf Hitler entrou no partido e logo se tornou sua figura principal, transformando-o no NSDAP. Sob o seu comando, o partido se opôs à teoria marxista da luta de classes e defendeu a formação de uma comunidade nacional alemã que integrasse os trabalhadores. "Na visão fascista, marxistas e comunistas dividiam a comunidade nacional, cuja construção era o objetivo político nazista", afirma o historiador Michael Wildt, professor da Universidade Humboldt, de Berlim.

O partido nazista até possuía correntes à esquerda, mas todas elas concordavam com a abolição do sistema liberal da República de Weimar, com o antissemitismo e com o nacionalismo. Nesse núcleo estavam Gregor e Otto Strasser e, inicialmente, Joseph Goebbels, o poderoso ministro da Propaganda da Alemanha nazista.

Nos 1920, o programa do NSDAP incluía elementos mais radicais ao capitalismo para atrair os trabalhadores. Contudo, antes mesmo de chegarem ao poder, em 1933, os nazistas eliminaram essa ala à esquerda. O então chanceler Kurt von Schleicher buscou rachar o movimento nazista em 1932, tentando formar uma ponte entre o setor de Gregor Strasser, visto como um competidor de Hitler, e os sindicatos, os social-democratas e partes dos militares.

A estratégia falhou. "Gregor Strasser, Ernst Röhm e muitos outros, que se apresentaram como revolucionários sociais, foram mortos na Noite das Facas Longas, em junho de 1934. Hitler sabia que precisava das elites conservadoras, das classes médias altas e dos industriais para seus planos expansionistas", diz Postert.

Após chegar ao poder, Hitler passou leis emergenciais para restringir a liberdade pessoal, o que lhe permitiu perseguir e prender líderes comunistas e banir deputados comunistas, sindicatos e todos os demais partidos políticos.

Sociedade ariana

Apesar de carregar o termo em seu nome,
o NSDAP estava bem distante do socialismo
O conceito de socialismo de Hitler era completamente oposto ao da União Soviética, tendo a raça como base. Em 1932, o líder nazista disse: "O comunismo não é socialismo. O marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. O socialismo é uma antiga instituição ariana e germânica […] Para nós, Estado e raça são um."

A volksgemeinschaft seria, assim, algo exclusivo da etnia germânica. Esse racismo estava presente também na tentativa de implementar um Estado de bem-estar social, usado como ferramenta para garantir apoio entre os trabalhadores. O sistema excluía imigrantes, judeus, opositores e aqueles considerados "sem valor", como deficientes e homossexuais.

Antes mesmo de 1933 foram criadas organizações de massa, como a Frente dos Trabalhadores Alemães e a Força pela Alegria, para garantir a lealdade dos trabalhadores. Entrar para o partido nazista também abria oportunidades. "Ainda que o regime não tenha tocado na propriedade privada e a situação da classe trabalhadora não tenha mudado fundamentalmente, os nazistas integraram grande parte dos trabalhadores em sua utopia social, enquanto destruíam as estruturas e organizações da esquerda política", diz Postert.

Uma das tentativas de consolidação da comunidade nacional foi a construção de pequenas casas e apartamentos nos anos 1930. "Quem quisesse essa habitação tinha que provar nunca ter sido membro de organizações de esquerda ou não ser de origem judia", explica Zarusky.

Mas, na realidade, completa o historiador, esse tipo de projeto não era a prioridade dos nazistas. O mais importante era a guerra, e o conflito logo resultaria na destruição dessas casas.

Racismo era central

A ideologia racista, o antissemitismo e o imperialismo (a única forma de aumentar as exportações alemãs, segundo Hitler, era a conquista de território) superavam o sentimento anticapitalista. A ditadura nazista impôs algumas medidas para centralizar a economia e focá-la na preparação para a Segunda Guerra mundial, mas não confiscou propriedade privada de alemães, não proibiu o acúmulo de riqueza nem aboliu o capitalismo.

"Essas 'credenciais' socialistas do regime nazista baseavam-se na rejeição do capitalismo financeiro e não no socialismo", afirma o historiador Arnd Bauerkämper, da Universidade Livre de Berlim.

O regime pretendia construir um modelo que funcionasse para a Alemanha e, naquele momento, a prioridade era aumentar a capacidade bélica do país. Assim, a ditadura nazista aliou-se aos industrialistas para produzir armamentos e consolidar seu poderio militar.

O sistema econômico foi, contudo, "arianizado", com o confisco de propriedades de judeus. "Numa abordagem racista, não importa se alguém é capitalista. É muito mais relevante que esse capitalista seja alemão e não judeu", diz Wildt.

Dessa forma, os nazistas poderiam ser contra os "capitalistas judeus malvados", ao mesmo tempo em que incluíam os "bons empresários e mercadores alemães" na volksgemeinschaft. "A maioria das grandes companhias e empresários não demonstrou dúvidas razoáveis sobre o regime. A resistência ao nazismo veio dos antigos partidos da classe trabalhadora, dos comunistas, dos social-democratas e da esquerda", conclui Zarusky.


* A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.


terça-feira, 26 de março de 2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

Artículo de José Martí a la muerte de Marx en el 14 de marzo de 1883

"Karl Marx ha muerto. Como se puso del lado de los débiles merece honor."
José Martí



En las páginas del diario “La Nación”, José Martí publicó el 29 de marzo de 1883, una nota sobre Karl Marx, con motivo de su fallecimiento, donde relata un acto realizado en Nueva York en homenaje al ilustre pensador revolucionario. El artículo de Martí fue reproducido en los años treinta por la 'Revista Socialista', de Buenos Aires y fue incluida en el tomo 9 de las 'Obras Completas' del prócer (La Habana, 1963).

José Martí e Karl Marx


 Como corresponsal del diario “La Nación” de Buenos Aires escribió en 1883 las siguientes líneas en ocasión del fallecimiento de Karl Marx.



Ved esta gran sala. Karl Marx ha muerto. Como se puso del lado de los débiles merece honor. Pero no hace bien el que señala el daño y arde en ansias temerosas de ponerle remedio, sino el que enseña remedio blanco al daño. Espanta la tarea de echar a los hombres sobre los hombres. Indigna el forzoso abestiamiento de unos hombres en provecho de otros. Mas se ha de encontrar salida a la indignación de modo que la bestia cese sin que se desborde y espante. Ved esta sala la preside, rodeado de hojas verdes, el retrato de aquel reformador ardiente, reunidor de hombres de diversos pueblos, y organizador incansable y pujante. La Internacional fue su obra: vienen a honrarlo hombres de todas las naciones. La multitud, que es de bravos braceros cuya vista estremece y conforta, enseña más músculos que alhajas, más caras honradas que paños sedosos. El trabajo embellece. Remoza ver a un labriego, a un herrador o a un marinero. De manejar las fuerzas de la naturaleza, les viene ser hermosos como ella.
New York va siendo a modo de vorágine: cuanto en el mundo hierve, en ella cae. Acá sonríen al que huye; allá le hacen huir. De esta bondad le ha venido a este pueblo esta fuerza. Karl Marx estudió los modos de enseñar al mundo sobre nuevas bases, y despertó a los dormidos, y les enseñó el modo de echar a tierra los puntales rotos. Pero anduvo de prisa; y un tanto en la sombra, sin ver que no hacen viables, ni de senos de pueblos en la historia, ni de senos de mujer en el hogar, los hijos que no han tenido la gestación natural y laboriosa.
Aquí están buenos amigos de Karl Marx, que no fue sólo movedor titánico de las cóleras de los obreros europeos, sino veedor profundo en la razón de las miserias humanas, y en los destinos de los hombres, y hombre comido del ansia de hacer el bien. El veía en todo lo que en sí propio llevaba: rebeldía, camino a lo alto, lucha. Aquí está en Lecovitch, hombre de diarios; vedle como habla: llegan a él reflejos de aquel tierno y radioso Bakounia: comienza a hablar en inglés; se vuelve a otros en alemán: 'Dah dah', responden entusiastas desde sus asientos sus compatriotas cuando les habla en ruso. Son los rusos el látigo de la Reforma; mas no, no son aún estos hombres impacientes y generosos, manchados de ira, los que han de poner cimientos al mundo nuevo; ellos son la espuela, y vienen a punto, como la voz de la conciencia, que pudiera dormirse; pero el acero del acicate no sirve bien para martillo fundador. Aquí está Swinton, anciano a quien las injusticias enardecen, y vio en Karl Marx tamaños de mente y luz de Sócrates. Aquí está el alemán John Most, voceador insistente y poco amable y encendedor de hogueras, que no lleva en la mano diestra el bálsamo con que ha de curar las heridas que abra su mano siniestra.
Tanta gente ha ido a oírles hablar, que rebosa en el salón y da a la calle. Sociedades corales, cantan. Entre tantos hombres hay muchas mujeres. Repiten en coro, con aplauso, frases de Karl Marx, que cuelgan cartelones por los muros. Millot, un francés, dice una cosa bella: 'La libertad ha caído en Francia muchas veces; pero se ha levantado más hermosa de cada caída'. John Most habla palabras fanáticas: 'Desde que leí en una prisión sajona los libros de Marx, he tomado la espada contra los vampiros humanos'.
Dice un Magure: 'Regocija ver juntos, ya sin odios, a tantos hombres de todos los pueblos. Todos los trabajadores de la tierra pertenecen ya a una sola nación y no se querellan entre sí, sino que todos juntos contra los que los oprimen. Regocija haber visto, cerca de la que fue en París Bastilla ominosa, seis mil trabajadores venidos de Francia y de Inglaterra'. Habla un bohemio. Leen una carta de Henry George, famoso economista nuevo, al aire de los que padecen, amado por el pueblo aquí, y en Inglaterra famoso. Y entre salvas de aplausos tonantes, y frenéticos hurras, pónese en pie, en unánime movimiento, la ardiente asamblea, en tanto que leen desde la plataforma en alemán y en inglés dos hombres de frente ancha y mirada de hoja de Toledo, las resoluciones con que la junta magna acaba, en que Karl Marx es llamado el héroe más noble y el pensador más poderoso del mundo del trabajo. Suenan músicas, resuenan cantos; pero se nota que no son los de la paz.


FUENTEQueHacer

sábado, 16 de março de 2019

Publican libro sobre población aborigen cubana

Por Orfilio Peláez

Dibujo sobre la población aborigen en la Isla. Imágen: Referencial.


Tras varios años de cotejar datos, juntar una amplia gama de resultados investigativos, intercambiar criterios y poner a punto las imprescindibles coordinaciones, el libro Cuba: Arqueología y Legado Histórico, publicado recientemente por Ediciones Polymita, llena un vacío en la literatura científica nacional.

Conformada por más de 200 páginas de texto bien ilustradas con gráficos, tablas y excelentes fotografías, en las cuales resalta la amplia muestra de pictografías y petroglifos localizados en más de 300 estaciones de arte rupestre documentadas en el país, y los diversos objetos de madera empleados por nuestros aborígenes, la obra recoge los aportes de 29 reconocidos especialistas de las más disímiles disciplinas, que incluyen arqueólogos, biólogos, antropólogos, químicos, ingenieros, genetistas, historiadores, médicos y lingüistas.

En opinión del Doctor en Ciencias Armando Rangel Rivero, director del Museo Antropológico Montané, de la Facultad de Biología de la Universidad de La Habana, y editor científico de la publicación, se trata de un libro excepcional que ofrece respuestas fundamentadas a distintas interrogantes referidas a las características y modo de vida de los primeros grupos poblacionales del archipiélago cubano, su clasificación, fecha de asentamiento en nuestras tierras, tipo de alimentación, sitios arqueológicos aborígenes reportados, la presencia aborigen en el patrimonio genético de la nación cubana, costumbres funerarias y conocimientos de medicina, entre otros tópicos.

“Cada uno de los autores contribuyó con sus conocimientos sobre los temas específicos abordados en los distintos capítulos, pero a la vez respetó el criterio de los demás investigadores involucrados en el proyecto.

Es fruto del esfuerzo colectivo, aquí no hubo líderes individuales”, subrayó.

Para el profesor Rangel Rivero, más allá de reconocer la presencia del legado aborigen en la identidad nacional cubana y ofrecer novedosos aportes a la ciencia en materia de arqueometría, estudios de ADN, dataciones y análisis históricos, por citar algunos ejemplos, el mérito principal del libro radica en ser auténticamente cubano, escrito solo por cubanos y en idioma español.

“La casi totalidad de los disponibles hasta ahora sobre la Cuba precolombina fueron elaborados por científicos foráneos, aunque ello no demerita para nada la excelencia de algunos de ellos”, manifestó.

Dentro de los capítulos sobresale el relacionado con la medicina de nuestros aborígenes, que se apoya en los planteamientos hechos en el siglo XIX por los galenos cubanos Enrique López Veitía, Antonio de Gordon y Acosta, y Arístides Mestre Hevia, tres de las personalidades científicas de la época que más tiempo dedicaron a indagar y escribir sobre el asunto.

Según valoraciones de López Veitía incorporadas a la publicación, los aborígenes sabían de la existencia de los huesos y que el cuerpo estaba sostenido por el esqueleto óseo. No duda en señalar que conocieran también las funciones del oído, el olfato, el gusto y el tacto.

Refiere que una de las prácticas más utilizadas por aquellos primitivos pobladores consistía en administrar purgantes para los problemas estomacales, en particular los preparados a partir del fruto del manzanillo, la resina del guacasí, las guayabas maduras y el bejuco.

En cuanto a la higiene personal, decía que tenían la costumbre de recortarse el cabello y el baño era frecuente, mientras las mujeres no realizaban el coito con la menstruación y se abstenían sexualmente al parir.

La obra también alude a lo expresado por el doctor Antonio de Gordon y Acosta, ilustre médico y miembro de la Academia de Ciencias Médicas, Físicas y Naturales de La Habana, acerca de que los taínos disecaban los cadáveres de las personas importantes hasta dejarlos como momias, pero  conservando los huesos. Lo anterior hace suponer que conocían la posición de las vísceras.

Igualmente, aislaban a los enfermos presuntamente para evitar el contagio, y sus principales tratamientos fueron el hidroterápico, el sugestivo y el evacuante. Este último proceder era de uso común y se valían de distintos medios que indujeran el vómito, entre ellos el aceite de higuerilla o palmacristi.

Otras plantas empleadas con fines medicinales por los aborígenes cubanos eran la higuereta, el guayacán, el tabaco, la piña, la güira y el almácigo.

Un hecho relevante recogido en el libro radica en la confirmación por estudios de ADN nuclear de que los cubanos de hoy conservan una alta proporción de genes nativo americanos heredados a través de las madres.

Tan interesante investigación, cuya autora principal es la Doctora en Ciencias Beatriz Marcheco Teruel, directora del Centro Nacional de Genética Médica, esclarece, además, que las provincias con mayor porcentaje de genes nativo americanos por vía materna son Holguín y Las Tunas, en tanto Matanzas, Cienfuegos y Pinar del Río muestran las proporciones más bajas.

Como enunció el doctor Eusebio Leal Spengler, historiador de La Habana, en la presentación de Cuba: Arqueología y Legado Histórico, el libro contribuye a explicar muchas cosas desde los distintos ángulos en que la investigación se llevó a cabo y la variedad de puntos de vista plasmados en sus páginas por numerosos especialistas.

Su contenido nos recuerda que lo indio está detrás de nosotros, perdura en nuestra sangre; enaltece, asimismo, la huella aborigen que rescata del olvido y reivindica, aseveró.

(Con información de Granma)

FUENTE: Cubadebate

sexta-feira, 8 de março de 2019

Deve-se ensinar ‘coisas de mulher’ aos meninos?


"A escola livre luta contra todos os preconceitos que arruínam a vida das pessoas. O preconceito de que a tarefa doméstica é digna apenas de seres com necessidades menores abala a relação entre homens e mulheres, introduzindo nela um princípio de desigualdade. Tal preconceito não martirizou apenas uma mulher, não gerou alienação e discórdia em apenas uma família."


Nadiéjda Krúpskaia (1869-1939)


Por Nadiéjda Krúpskaia.

Exatamente 150 anos atrás, dia 26 de fevereiro de 1869, nascia Nadiéjda Konstant Ínovna Krúpskaia. Pedagoga, militante revolucionária e uma das pioneiras da luta pela emancipação feminina na Rússia soviética. Em homenagem a essa figura excepcional, o Blog da Boitempo recupera uma breve intervenção dela escrita no início do século passado, mas que possui atualidade redobrada em uma era de “meninas vestem rosa, meninos vestem azul”. Publicado originalmente em Svobódnoie Vozpitánie/Свободное воспитание [Educação Livre], n. 10, 1909‑1910, a tradução é de Priscila Marques e integra antologia A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética, organizada por Graziela Schneider.


* * *


No relatório da Comissão para a Educação Popular de São Petersburgo no ano de 1908, um dos especialistas, ao emitir um parecer sobre o ensino de bordado, diz:

Acerca dos bordados, devo atestar com a mais profunda alegria que em quase todas as escolas mistas eles eram apreciados não apenas por meninas, mas por meninos, e os últimos desempenhavam essa tarefa com tanto gosto que em algumas escolas seus resultados superavam o das meninas, por exemplo, na costura e no trançado.

Esse trecho do relatório supracitado foi inserido na edição de dezembro do ano passado do boletim de educação, na seção de crônicas; o autor da crônica expressa certa dúvida quanto à utilidade de se ensinar meninos a costurar.

Gostaria de dizer algumas palavras sobre esse tema.

Antes de tudo, colocarei a questão de forma mais geral: deve-se ensinar aos meninos aqueles trabalhos que até então eram considerados exclusivamente femininos, como costurar, cozinhar, lavar, cuidar de crianças etc.?

Na sociedade contemporânea, a vida familiar está ligada – e isso provavelmente continuará assim por muito tempo – a uma série de pequenos cuidados que se relacionam com a concretização de afazeres domésticos isolados. A futura reformulação da produção e a alteração das condições da vida em sociedade introduzirão significativas mudanças nesse âmbito, mas enquanto a vida familiar estiver ligada a tarefas como cozinhar o almoço, limpar a casa, remendar o uniforme, educar os filhos etc., todo esse trabalho recairá integralmente sobre a mulher.

Nas famílias que possuem meios, esse trabalho cabe a uma empregada contratada: cozinheira, faxineira, babá. A mulher de posses liberta-se de tais tarefas, encarregando outra mulher que não tem, ela mesma, chance de se libertar. De uma forma ou de outra, todo o trabalho doméstico recai exclusivamente sobre a mulher. No meio operário, o marido às vezes contribui com a esposa nos afazeres. A necessidade o obriga. Ao retornar do trabalho, nos feriados, nos dias de folga, o trabalhador por vezes vai até a mercearia, varre o chão e cuida das crianças. É claro, nem sempre e nem todos fazem isso; além do mais, muitos nem sequer sabem fazê-lo (costurar, lavar), e a esposa, que às vezes também passa o dia trabalhando fora de casa, quando volta, põe-se a lavar roupa, a limpar o chão e fica até tarde da noite costurando, quando o marido há muito está dormindo. Mas se entre os trabalhadores às vezes ocorre de o marido ajudar a esposa com o trabalho doméstico, nas assim chamadas famílias da intelligentsia, por mais desprovidas que sejam, o homem nunca participa desse serviço, deixando que a esposa faça suas “coisas de mulher” da maneira como ela sabe. Um “intelligent” limpando o chão ou remendando a roupa branca seria alvo de gozação de todos à sua volta.

Na imprensa burguesa (em especial do Ocidente), fala-se muito que o trabalho doméstico é um campo no qual a mulher pode empregar suas forças de maneira mais produtiva. A pessoa só cria algo verdadeiramente grandioso atuando na esfera que melhor corresponde à sua individualidade, e os pequenos cuidados domésticos são os mais apropriados à individualidade da mulher. Ela deve se preocupar em ser uma dona de casa exemplar, e não se esforçar para deixar a vida familiar nem concorrer com o homem no campo do trabalho intelectual. Não se trata de desprezar a função de tirar o pó e remendar meias-calças; são tarefas que merecem todo respeito e de forma alguma desprezo.

A hipocrisia desse discurso é evidente, uma vez que os homens que saem por aí anunciando seu grande respeito pelo trabalho doméstico jamais se rebaixam a efetivamente realizá-lo. Por quê? Pois, no fundo de sua alma, desprezam essa tarefa, consideram-na coisa de seres menos evoluídos, possuidores de necessidades mais simplórias.

Todas essas conversas sobre a mulher ser “naturalmente predestinada” à execução dos afazeres domésticos são bobagens semelhantes ao discurso que, na época, os donos de escravos faziam sobre estes serem “naturalmente predestinados” à condição de escravos.

Em essência, não há nada no trabalho doméstico que faça com que ele seja uma ocupação mais adequada para a individualidade da mulher do que para a do homem. Certos trabalhos que exigem grande força física estão acima da capacidade das mulheres, mas por que o homem não pode realizar afazeres domésticos junto com a esposa? A questão não é que esse trabalho seja inerente à esfera das mulheres, mas sim que o marido precisa trabalhar durante a maior parte do tempo fora de casa para garantir o sustento. Enquanto isso acontecer, haverá algum fundamento para que as tarefas de casa sejam realizadas exclusivamente pelas forças femininas. Mas, à medida que a mulher é cada vez mais forçada a também se dedicar a assegurar seu ganha-pão, os afazeres domésticos tomam um tempo adicional, e não é justo que os homens não contribuam para a sua realização. Da mesma forma, se a profissão do marido permite que ele tenha muito tempo livre, não é justo que ele considere indigno se dedicar ao trabalho doméstico em pé de igualdade com a esposa.

A escola livre luta contra todos os preconceitos que arruínam a vida das pessoas. O preconceito de que a tarefa doméstica é digna apenas de seres com necessidades menores abala a relação entre homens e mulheres, introduzindo nela um princípio de desigualdade. Tal preconceito não martirizou apenas uma mulher, não gerou alienação e discórdia em apenas uma família. A escola livre é uma ardente defensora da educação conjunta, uma vez que considera que o trabalho coletivo e as condições iguais de desenvolvimento favorecem a compreensão mútua e a aproximação espiritual dos jovens de ambos os sexos e, assim, servem de garantia para relações saudáveis entre homens e mulheres. A partir desse ponto de vista, a escola livre, ao ensinar trabalhos manuais, não deve diferenciar crianças de sexos distintos. É preciso que meninos e meninas aprendam da mesma forma a fazer todo o necessário no trabalho doméstico e não se considerem indignos de realizá-lo.

Quem já observou crianças sabe que na primeira infância os meninos se dispõem com tanto gosto quanto as meninas a ajudar a mãe a cozinhar, a lavar a louça e a realizar quaisquer tarefas domésticas. Isso parece tão interessante! Mas, em geral, desde os primeiros anos começa a haver uma diferenciação no interior da família. As meninas recebem a incumbência de lavar as xícaras, de arrumar a mesa, enquanto para os meninos dizem: “O que você está fazendo aqui na cozinha? Por acaso isso é coisa de homem?”. As meninas são presenteadas com bonecas e louças; os meninos, com trens e soldadinhos. Na idade escolar, eles já aprenderam em suficiente medida a desprezar “as meninas” e suas tarefas. É verdade que esse desprezo ainda é muito superficial e, se a escola seguir outra abordagem, essa depreciação por “coisas de mulher” rapidamente desaparecerá. Com tais objetivos, é preciso ensinar aos meninos, juntamente com as meninas, a costurar, a fazer crochê, a remendar a roupa branca, ou seja, tudo aquilo sem o qual não se pode viver e cujo desconhecimento torna a pessoa impotente e dependente de outros. Se essa aprendizagem ocorrer como se deve, há razões para pensar que os meninos a realizem com prazer, como se pode observar no exemplo das escolas de Petersburgo (é característico que esse experimento tenha sido realizado em escolas mistas). Sendo assim, é preciso encarregar alternadamente as próprias crianças (sem separação do trabalho entre meninos e meninas) da tarefa de preparar o café da manhã coletivo, de lavar a louça, de arrumar as salas, de limpá-las etc. O desejo de ser útil, de realizar bem a função que lhe foi atribuída, o entusiasmo pelo trabalho farão com que o menino logo se esqueça do seu desdém pelas “coisas de mulher”.

É claro que seria ridículo esperar grandes consequências de se ensinar “coisas de mulher” aos meninos, mas trata-se de um daqueles detalhes que compõem o espírito geral da escola e aos quais é preciso atentar.


***

Nadiéjda Krúpskaia nasceu em São Petersburgo, em uma família aristocrática, foi pedagoga, crítica literária, memorialista e revolucionária. Iniciou sua atividade revolucionária nos anos 1890 frequentando círculos de estudantes marxistas e operários e logo entrou para a União da Luta pela Libertação da Classe Operária. Em 1896, foi presa e, em 1898, no exílio, casou‑se com Lênin. A partir de 1903, passou a atuar no Partido Operário Social‑Democrata Russo como secretária da redação do Ískra [Faísca], jornal do partido, e, em 1905, do Comitê Central. Retornou à Rússia por um breve período, mas, após a Revolução de 1905, mudou‑se para a França, onde passou vários anos. Depois da Revolução de Outubro, tornou‑se deputada do Comissariado para a Educação, mais especificamente da Divisão de Educação para Adultos. Em 1920, assumiu o Comitê de Educação; em 1924, ingressou no Comitê Central do Partido Comunista e, em 1927, na Comissão de Controle. Entre 1929 e 1939, trabalhou como Comissária da Educação e, em 1931, entrou para o Soviete Supremo e recebeu o título de cidadã honorária. Colaborou também para a fundação do Komsomol e do movimento dos escoteiros. Seus textos estão reunidos na antologia A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética (Boitempo, 2017), organizada por Graziela Schneider.








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