terça-feira, 25 de junho de 2013

João Pedro Stédile: "O governo Dilma não é do PT"

João Pedro Stédile, líder do MST, avalia protestos e critica aliança com a burguesia, agronegócio e alimentos transgênicos

 
Ao receber a reportagem da Folha de Caxias, o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, descartou formalidades logo de início. ‘Chamar alguém de senhor é prática herdada da escravidão’, disse ele. Habituado a lutas sociais, Stédile integra o MST desde sua fundação, há 30 anos. Tempo que, para ele, só foi possível graças à política de não submissão a governos. Formado em Economia pela PUC/RS e pós-graduado pela Universidade Autônoma do México, atualmente é diretor nacional do Movimento. A convite dos Diretórios Acadêmicos de Direito e História da Universidade de Caxias do Sul (UCS), ele esteve na cidade na quarta-feira (19). 
 
Para a Folha de Caxias, Stédile falou sobre as relações entre as manifestações atuais, governo e política. O líder social não economizou afirmações sobre o PT, reforma agrária, agronegócio e capitalismo. Em maio, o MST ocupou o Ministério de Minas e Energia por dois dias. Quanto ao assunto, a mídia ‘não deu uma linha’, salientou. Nas próximas linhas você confere a entrevista que Stédile concedeu a Folha de Caxias.  
 
Folha: Acostumado a protestos, como você avalia as mobilizações atuais?
Stédile: Nos pegaram de surpresa. São consequências dos problemas estruturais que há nas cidades brasileiras, é a crise urbana. Sem canais para reclamar, surge de repente como uma faísca que explodiu no aumento da passagem em São Paulo. Foi o estopim de uma bomba já armada. A solução não será apenas a redução da tarifa. Espero que as mobilizações consigam chamar atenção da sociedade porque o governo... os governos perderam a sensibilidade social. 
 
Folha: Seria uma crise do capitalismo? 
Stédile: O capitalismo já está em crise porque transforma tudo em mercadoria e só valoriza o que dá lucro. Mas no meio da sociedade, ele vai projetando problemas específicos como este que surgiu. Acho que a manifestação atinge os governos também porque estamos vivendo uma crise política de representação. Os partidos não conseguem mais canalizar as demandas populares. Então, as mobilizações são contra o que um sociólogo já chamou de peemedebismo, que tomou conta da política brasileira. Tu vota, vota e nunca muda nada.
 
Folha: Tomou conta também do PT? 
Stédile: Claro, o PT é refém dessas alianças que ele fez, nos municípios, nos Estados. O governo Dilma não é governo do PT. Participam 13 partidos. O Maluf, execrado como símbolo da ditadura militar, controla dois ministérios. Então o governo Dilma é um governo de alianças. Não é do PT e muito menos da classe trabalhadora. De certa forma, essa rebeldia é também contra essa forma de fazer política em que os partidos manipulam. Eles escolhem os candidatos e a população é chamada a cada dois anos para votar. Mesmo que vote em algo diferente depois não muda nada. 
 
Folha: As movimentações são apartidárias. Seria sinal de uma nova tendência?
Stédile: Não. Acho que o futuro é democratizar os partidos. Essa forma de eleição e de funcionamento dos partidos é que está em crise. No mínimo deveríamos começar por uma reforma política. A base deveria ser o financiamento público das campanhas. Enquanto continuar esse método de financiamento, na verdade os candidatos são das empresas, não são da população e muito menos dos partidos. O fato de os jovens se declararem apartidários não significa ‘apolíticos’. Pelo contrário, estão fazendo política na rua, disputando ideias. Eles estão dizendo que os partidos não fazem política. No fundo, só administram o poder público em benefício da classe dominante.
 
Folha: Sem lideranças, podem ocorrer mudanças significativas a partir dessas mobilizações?
Stédile: Acho que faz parte desse processo de renascença do movimento de massa. No início, surgem mobilizações sem muita organização, mas à medida que a população vai se envolvendo, vai dando forma. Vão surgir líderes desse processo e tenho esperança nele. Essas mobilizações vieram em boa hora e deve oxigenar a política brasileira. Vão obrigar os governos a tirar a cera do ouvido. 
 
Folha: Você falou de problemas específicos que surgem da crise do capitalismo. A Reforma Agrária tão almejada pelo MST é um deles. Como está essa questão atualmente?
Stédile: Ela está paralisada e isso já há muito tempo. Os governos e o próprio capitalismo priorizou esse modelo do agronegócio e transformou tudo que tem na agricultura em mercadoria. Os fazendeiros só plantam aquilo que dá dinheiro. O que dá dinheiro é soja e gado. Hoje o Brasil virou um grande monocultor de cana, gado e soja. Estamos importando feijão da China, alpiste do Chile, e um monte de produtos alimentícios.
 
Folha: O MST achava que a reforma agrária seria feita com a chegada do PT ao poder?
Stédile: Tínhamos esperança que o governo Lula pudesse abraçar como prioridade, por conta da bandeira histórica do PT. Infelizmente a forma como o Lula ganhou as eleições, em aliança com setores da burguesia, a correlação de forças que se estabeleceram em dez anos, levou o governo a priorizar o agronegócio. Assim, a agricultura familiar ficou em segundo plano. Mas as consequências do agronegócio virão logo, logo. É um modelo que dá lucro para os fazendeiros, mas concentra a propriedade. Hoje 58% de todo o setor sucroalcooleiro está nas mãos de três multinacionais, a Cargill, Burgue e Shell. Estamos usando cinco litros de veneno por pessoa. Em São Paulo toda a farinha de milho no supermercado é transgênica. Atenção gringos! Nossa polenta corre risco.
 
Folha: O MST está ignorado pela mídia?
Stédile: Não só ignorado como combatido. Estão no mural da Globo portarias orientando que não se pode entrevistar alguém ligado ao MST. Nós ocupamos, em 15 de maio, o Ministério de Minas e Energia durante dois dias com 1,2 mil pessoas. O Lobão (Ministro Edison Lobão) fugiu para o Rio de Janeiro. Foi para o leilão do petróleo. Querem entregar um bem que pertence ao povo, mas ninguém deu procuração para o Lobão e a Dilma entregarem o petróleo às multinacionais. Ocupamos o Ministério para protestar, teve notícia disso? Não saiu uma linha. Não querem dar notícias da luta social para não servir de exemplo. Agora quebraram a cara, essa política pode esconder, esconder até que milhares vão para a rua. 
 
Folha: A grande mídia se relaciona assim e o governo?
Stédile: Fez uma opção por conta da sua aliança de classes. Fez opção pelo agronegócio. Não sou eu que digo. A senadora Katia Abreu (PSD-TO), líder dos ruralistas, é sempre recebida pela Dilma e nós, petistas históricos, não. Temos vários senadores que nunca cumprimentaram a Dilma porque ela não recebe. De repente colocou o Pepe (Vargas) no MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário), mas com uma função subalterna. A prioridade do governo são as exportações de commodities. Isso pode deixar o governo bem com os fazendeiros, mas trará graves consequências.
 
Folha: O Pepe foi colocado para acalmar a relação anterior entre o MST e Ministério...
Stédile: Mas temos uma relação de autonomia, não vai adiantar botar ministro A ou B. O fim de qualquer movimento é quando vira subalterno a qualquer governo. Nós existimos há 30 anos porque mantemos essa política, autônomos de todos os governos, inclusive do Lula, que era mais amigo nosso pela trajetória de maior convivência.
 
Folha: E ainda assim a reforma agrária não foi bandeira dele...
Stédile: É. E o PT e MST surgiram juntos. O Lula ia às atividades, era uma relação de afinidade, mas a Dilma teve uma trajetória muito mais de tecnocracia. A política do governo não é de democratização da propriedade da terra. Os governos Lula e Dilma também não fizeram nada porque têm olhos para os fazendeiros. Esse modelo do agronegócio tem que ser revisto para disseminar a agricultura familiar.
 
Folha: O governo lança incentivos de créditos ao agricultor familiar.
Stédile: Mas não pensa um projeto para o Brasil. A pauta dos ministros em Brasília é sempre resolver problemas do dia a dia. Eles são gerentes do capital e não pensadores de um projeto de sociedade. Há letargia na sociedade e o governo é resultado. Mas algum dia vai mudar, está começando com esses jovens. 


Entrevista com Benito Mussolini: autoritarismo, militarismo e violência


No texto abaixo, o filósofo brasileiro Leandro Konder produziu uma entrevista fictícia com Mussolini. Ele inventou as perguntas, mas as respostas foram retiradas de escritos desse líder fascista italiano.

O que é exatamente o fascismo que o senhor fundou?
O fascismo é antes de tudo uma fé. O fascismo é uma grande mobilização das forças morais e materiais.

O que é mais importante o arado ou a espada?
O arado abre o sulco na terra, mas é a espada que o protege.

Quando as massas pensam, elas não se opõem às políticas imperialistas?
O raciocínio jamais será o motor das multidões. A multidão ama os homens fortes. A multidão é mulher.

O que os fascistas pensam sobre a violência?
A violência é imoral quando é fria e calculada, mas não quando é instintiva e impulsiva.

Então a violência fascista não deve ser planejada?
A violência fascista deve ser pensante, racional, cirúrgica.

Não me parece muito coerente, mas vamos adiante. O capitalismo na Itália não precisa da democracia?
É possível que no século XIX o capitalismo tenha precisado da democracia. Hoje, pode muito bem passar sem ela.

(Adaptado KONDER, Leandro. Jornal do Brasil, maio de 2003) 


Investindo em dramaturgia própria

Em "O Patrão Cordial", a Cia. do Latão reafirma filiação a um teatro pedagógico que desperte a imaginação do público

DANIEL SCHENKER - ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S.Paulo
RIO - A Companhia do Latão realiza uma apropriação de O Senhor Puntila e Seu Criado Matti, peça do dramaturgo alemão Bertolt Brecht datada de 1940, no espetáculo O Patrão Cordial, que também nasceu de uma articulação com Raízes do Brasil, livro de Sérgio Buarque de Holanda publicado em 1936. Por meio desses elos, o grupo conduzido por Sérgio de Carvalho busca abordar uma cordialidade já distante - apesar de não totalmente ausente - da elite, que hoje assume de forma mais direta suas tomadas de posição.
Apresentada desde agosto de 2012 em espaços variados (escolas de teatro, colégios da rede pública, assentamentos, regiões na periferia e no interior de São Paulo), a montagem faz sua primeira temporada, a partir de quarta-feira, no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, logo depois de integrar a programação do Festival Cena Brasil Internacional. No segundo semestre, a encenação deverá desembarcar em São Paulo.
Em O Patrão Cordial, Puntila se torna Cornélio e Matti, Vitor. De acordo com o diretor Sérgio de Carvalho, "o primeiro nome tem sonoridade que remete a coronel e o segundo, à crença na esfera do trabalho". A ambientação na Finlândia é substituída pela região do Vale do Paraíba. E a ação é transferida para a década de 1970 (o Brasil de Emílio Garrastazu Médici). Uma época em que havia mais patrões cordiais, ambíguos - como Puntila, mais afetuoso quando embriago e irascível quando sóbrio. O contraste entre a visão de mundo de personagens - alguns pouco vinculados ao plano real, outros comprometidos com uma perspectiva concreta, pragmática - que parecem viver em períodos distintos evoca o universo de Anton Chekhov, autor que Sérgio de Carvalho planeja encenar.
Esse novo espetáculo reúne características centrais da Companhia do Latão, fundada em 1996, como a revisita à figura do homem cordial (presente, anteriormente, em Auto dos Bons Tratos); a verticalização do trabalho sobre a obra de Brecht (que rendeu as montagens de Ensaio sobre o LatãoSanta Joana dos Matadouros e O Círculo de Giz Caucasiano) - ainda que dessa vez canalizada para a produção de uma dramaturgia própria; a filiação a um teatro pedagógico, de natureza didática; e o investimento na imaginação do espectador. Este último elemento pode ser percebido na inserção da música (de Martin Eikmeier) dentro do espetáculo e numa proposta cenográfica (de Cassio Brasil) voltada para o essencial, na qual tablados de madeira são manipulados pelos atores para sugerir ambientes diversos. O Patrão Cordial conta no elenco com dois atores que estão na companhia desde o início: Helena Albergaria e Ney Piacentini.


Uma reflexão estimulada pelo humor

Desmontando fórmulas de pensamento para abrir novas


O Estado de S.Paulo
Sérgio de Carvalho transita por terreno conhecido em O Patrão Cordial, não só dando continuidade à encenação de obras de Bertolt Brecht como por ambientar a história numa região familiar - o Vale do Paraíba, onde seus avós moraram. Ao mesmo tempo, essa montagem da Companhia do Latão lança desafios, como o de produzir uma dramaturgia a partir de O Senhor Puntila e Seu Criado Matti, de Brecht, propondo distanciamento geográfico e temporal.
A localização da peça no Brasil das últimas décadas suscita comparação com os dias de hoje, marcados pela diminuição de uma elite mascarada, que procurava dominar pela cordialidade. A reflexão é estimulada pelo humor, a julgar pela habilidade de Brecht em se valer da comédia clássica, evidenciada nesse texto que ganhou a cena, em 1966, com direção de Flávio Rangel, tendo Ítalo Rossi e Jardel Filho nos papéis centrais.
Por que decidiu adaptar O Senhor Puntila para o Brasil?
Enxerguei parte da paisagem finlandesa no Vale do Paraíba, uma região ligada a um certo tipo de fazendeiro culto, deslocado, saudoso de uma época áurea. Puntila é um fazendeiro atípico. Seu comportamento é de certa cordialidade, próprio de alguém que deseja criar uma intimidade permanente. Ele luta contra a função da exploração. Mas é uma luta falsa, que não se dá na realidade dele, de homem ligado ao mundo do trabalho. Ele é funcionário do capital.
Você considera essas relações informais de trabalho próprias do Brasil?
Não só do Brasil. Mas dizem respeito à periferia do capitalismo. Em todo caso, o recente escravismo brasileiro ajuda a criar percepção fraca de determinados conceitos, como o de indivíduo, a ponto de um sociólogo como Chico de Oliveira dizer que não existe, ou não havia até pouco tempo, indivíduo como categoria social.
A decisão de transportar a ação para a década de 70 está ligada a uma descrença na permanência da figura do patrão cordial nos dias de hoje?
Acho que o patrão cordial ainda existe. Na verdade, hoje as pessoas falam francamente sobre o motivo econômico. Já não têm tanta vergonha em expor o caráter mercantil. E, ao localizar a ação nos anos 70, fica mais fácil perceber o contexto atual. É uma operação ligada, inclusive, à estratégia brechtiana: recuar um pouco para observar.
Em O Patrão Cordial, a música tem função dramatúrgica?
O fato de Martin (Eikmeier) ensaiar conosco todos os dias torna a música dramatúrgica. Ela narra e muda de função ao longo do espetáculo: cria comentários paralelos, conexões entre aspecto interiorano e mundial. É utilizada na contramão das convenções. Martin não tem medo de sacrificar a beleza da música em favor da verdade da cena.
O Latão já encenou algumas peças de Brecht. O olhar do grupo em relação ao dramaturgo mudou ao longo do tempo?
Fomos entendendo cada vez mais o sentido dialético de Brecht. De início, nós nos debruçamos sobre o uso que Brecht fazia do teatro clássico para estranhar o material naturalista. Depois percebemos que essa abordagem formal era insuficiente. Não se trata de estilo, de técnica, mas de usar diversos procedimentos formais para aprofundar contradições do material.
Quais as trocas que o grupo estabelece em apresentações fora do espaço institucionalizado do teatro, como assentamentos e escolas públicas?
São ocasiões em que aprendemos mais do que oferecemos. Você muda a força do debate após uma apresentação teatral. São experiências que desmontam fórmulas de pensamento para abrir novas. O conceito-chave do Latão não é o de obra, mas o de trabalho.
Acredita no poder do teatro como instrumento de transformação, considerando, até mesmo, os protestos atuais no Brasil?
O poder do teatro é pequeno, mas profundo. As experiências teatrais radicais - no sentido de vivas - são decisivas, formadoras. Nos anos 60, o teatro contaminou o cinema, mudou padrões da TV e dos veículos de massa. Atualmente, é difícil estabelecer elos porque passamos a lidar com determinadas separações - como entre trabalho intelectual e braçal. O teatro, pelo menos o coletivizado, exige conexões. Não é à toa que aqueles que experimentam o teatro percebem que há possibilidades diferentes em relação às formas tradicionais de trabalho no mundo mercantil. O mais radical dos teatros não necessariamente mobiliza alguém a ir para a rua. Isso depende de outros fatores. Mas esse teatro pode se conectar a esses fatores. Hoje há um estado meio mortificado, feito de generalizações difusas. / D.S.
FONTE: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 24/6/2013, p. C3.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Che: el Pensador, la Teoría, la Crítica y el Legado

Por Fernando Martínez Heredia*

La obra de Ernesto Che Guevara es una de las cumbres de la historia del pensamiento político cubano; al mismo tiempo, él fue uno de los más prominentes entre los pensadores que participaron en el proceso de universalización del socialismo y el marxismo que sucedió en el siglo XX. Su actuación y su concepción constituyen una de esas expresiones supremas del radicalismo que existen siempre dentro de la compleja diversidad de componentes que contiene el campo de cada revolución. Fue un caso análogo al que constituyó José Martí respecto a la Revolución del 95, que pudiéramos sintetizar mencionando cinco rasgos principales de las ideas y la actuación martianas: el tipo de política insurreccional que promovió –que era a la vez el arma indispensable y la escuela para transformar a los participantes–, y la práctica que hizo de ella; su propuesta de convertir la independencia en una liberación nacional y de forjar una república nueva; el extraordinario y singular cuerpo de ideas que desarrolló, que entre otros aspectos contiene una interpretación pionera de comprensión y crítica del mundo moderno, y postula la necesidad de revolucionarlo desde la perspectiva de los que fueron colonizados; la consecuencia absoluta entre sus ideas y su conducta; y el alcance de los cuatro rasgos citados, que trascendió mucho a un mero enfrentamiento de las circunstancias en que actuó.
Expondré algunos aspectos seleccionados de la actuación y la concepción del Che que dan cuenta de ese papel descollante que tuvo en el pensamiento cubano, en la universalización del socialismo y el marxismo y en el radicalismo revolucionario. Su examen también puede sintetizarse en cinco rasgos, referidos al tipo de política que promovió y practicó, la propuesta que hizo, el extraordinario y singular cuerpo de ideas que desarrolló, la consecuencia absoluta entre sus ideas y su conducta, y el alcance superior de su actuación y su concepción respecto a sus circunstancias. Lo haré en forma más bien telegráfica y destinada a estimular el diálogo.
En el proceso de la insurrección y hasta su muerte durante la primera etapa de la Revolución en el poder –la que va de 1959 a inicios de los años setenta–, el Che compartió con Fidel la colosal aventura de la Revolución y lo siguió siempre, como el líder supremo del proceso y como un pensador radical excepcional. En el transcurso de aquellos años, Fidel debió asumir sobre todo las funciones de dirigente máximo y de educador popular, y el Che, que desempeñó un cúmulo de responsabilidades prácticas en numerosos terrenos, elaboró al mismo tiempo una obra teórica que es el más importante monumento intelectual de la Revolución, obra que ha resultado muy trascendente para la estrategia y el proyecto cubanos hasta el día de hoy, y que lo será en el futuro que alcanzo a pensar.
Las revoluciones son procesos complejos, que para triunfar deben subvertir y negar el orden vigente, demoler sus instituciones y desvalorizar sus símbolos; promover el carácter libertario e implantar disciplinas férreas, hacer de la unidad un valor superior, ser muy desafiantes y llegar a ser respetables, y construir un nuevo orden que reúne creaciones, adaptaciones, nuevas relaciones, instituciones, valores y costumbres, permanencias; en suma, un orden que combina promesa y administración, defensa y autocrítica, novedades y rutina. Si se estudia, se puede historiar el proceso, periodizarlo y hacer valoraciones sobre su curso. Alguna vez se ha propuesto el símil de un péndulo para mostrar el ciclo que suele caracterizar el curso y el mundo ideal de las revoluciones: primero, avances hasta un punto de máximo radicalismo; después, detenciones, retrocesos y estabilización. El péndulo, que había oscilado hasta un punto máximo hacia delante, hace giros cada vez menores y se va deteniendo al centro de la escena, pero el eje que lo sostiene se ha trasladado ya a un punto mucho más adelantado que el que ocupaba al inicio del ciclo. Martí y el Che habrían llevado el péndulo a su máximo punto de avance.
Aunque fueron hombres de acción que con ella colmaron sus vidas y llenaron sus épocas, y esa actuación y sus virtudes constituyen un tesoro moral y un ejemplo imperecederos, cuando volvemos –como hacemos hoy– sobre aquellos líderes radicales, lo principal que atendemos es a sus ideas y sus propuestas, porque en ellas reside lo fundamental de su trascendencia y de la utilidad que podemos obtener de ellos. Por cierto, el hecho de haber sido muy superiores a sus circunstancias les suele acarrear una posteridad inmediata sumamente difícil, precisamente porque resultan irreductibles a las concesiones y retrocesos que forman parte, junto a los avances, de la estabilización que se produce durante las posrevoluciones, mientras que su peso simbólico es enorme y se les identifica con la revolución.
La mundialización de su sistema ha sido un destino inevitable para el capitalismo, un tipo de dominación que es singular en la historia humana. Desde que ella comenzaba, el joven pensador alemán Carlos Marx les planteó a los anticapitalistas el requisito de la mundialización de la revolución para que esta pudiera tener posibilidades de vencer. La consigna final del Manifiesto Comunista no es una frase feliz: es una tesis. Pero el modo fundamental de ser de la mundialización capitalista ha consistido en las colonizaciones de la mayor parte del planeta, y, por otra parte, el ámbito de todas y cada una de las revoluciones sucedidas contra la dominación capitalista ha sido el nacional. Esas dos realidades han sido una gran fuente de tensiones, contradicciones y retos para las concepciones y las prácticas revolucionarias opuestas al dominio capitalista, y más de una vez han tenido inclusive consecuencias trágicas. El socialismo marxista ha vivido desde hace más de un siglo esos desafíos entre las ideas, los movimientos y las luchas que se han representado como prioritarios –o que han asumido en política– los antagonismos de clases sociales o la necesidad de liberar las naciones, o han hecho intentos diversos de combinar esos dos polos.
Otros dos condicionamientos que han marcado la historia del socialismo marxista han sido más graves. El primero y más general es el de la renuncia en muchas situaciones y casos a la pretensión de derrocar al capitalismo e implantar poderes socialistas, y la consecuente adecuación práctica a constituir solamente formas de oposición muy limitadas al sistema de dominación, que le resultan funcionales a este, o incluso a colaboraciones con ese sistema. El segundo, el curso de la experiencia que se inició con el triunfo de la Revolución de Octubre en Rusia y terminó en 1991, llena de eventos y procesos que no puedo tratar aquí. Apunto al menos que entre la segunda posguerra mundial y los años sesenta su impacto general era muy contradictorio. Por un lado, el inmenso prestigio ganado en aquella guerra, el ser para muchos la antítesis del capitalismo imperialista, genocida, guerrerista y sujeto de una crisis prolongada, y la conversión de la URSS en una enorme potencia, rival de Estados Unidos, el nuevo campeón único del campo capitalista. Por otro, la dictadura del grupo que en los años treinta liquidó la Revolución bolchevique, hasta mediados de los años cincuenta, y, desde entonces, tímidas y muy parciales reformas desde arriba. Y una política mundial creciente, pero sujeta al convenio de esferas de influencia de 1945 con el imperialismo, por lo que manipulaba a los movimientos y la ideología de su campo y se guiaba por la razón de Estado en vez de por el internacionalismo.
Ernesto Guevara se crió en un ambiente en que eran muy fuertes la contradicción entre las perspectivas nacional y social, los condicionamientos prácticos de origen internacional y los conflictos que todo esto generaba. El paso decisivo que dio junto a Fidel y sus compañeros hizo que su vida política transcurriera en un medio en que se logró una victoria extraordinaria frente a los grandes obstáculos de la mundialización de las revoluciones: la insurrección y el triunfo de la Revolución cubana, su plasmación como una revolución socialista de liberación nacional y el predominio dentro de ella del socialismo cubano.
El Che fue hijo de la ruptura y la destrucción del orden dominante en Cuba, que permitió movilizar y concientizar a escala permanente y profunda al pueblo, y que unidos poder revolucionario y pueblo se apoderaran del país, lo reorganizaran y repartieran la dignidad humana, las riquezas y las oportunidades a partir de los principios de la justicia social y la igualdad de derechos, base social del edificio político de la Revolución desde entonces hasta hoy. Un proceso que aprendió de inmediato a defenderse, derrotó a sus enemigos y se enfrentó victoriosamente a los intentos de Estados Unidos de acabar con la Revolución, que obtuvo la soberanía nacional plena y tuvo un pensamiento propio, y que se vio obligado a ser crítico y contradecir al tipo de socialismo establecido por el sistema de la URSS, el campo de países y organizaciones que lideraba y el llamado movimiento comunista internacional y la ideología teorizada que llamaban marxismo-leninismo.
Al mismo tiempo, la segunda gran ola revolucionaria del siglo XX se había extendido por el llamado Tercer Mundo y obtenido algunas grandes victorias, combatía en Viet Nam y en otros lugares; y transcurría en el marco de numerosos intentos de consolidar las independencias, lograr desarrollos económicos nacionales y coordinar posiciones en esos tres continentes, y en el de un rechazo virulento a las políticas imperialistas que fue compartido por sectores internos en varios de esos mismos países, los cuales aportaron, además de sus críticas y resistencias, novedades importantes en el campo de la vida social y las relaciones interpersonales. Esa ola también pretendió liberar al pensamiento revolucionario de sus ataduras, por lo que tuvo que incluir la crítica de gran parte de las posiciones y los instrumentos del socialismo existente.
Che 11
Desde aquella coyuntura actuó y pensó Ernesto Che Guevara. Dadas la sólida argumentación y la densidad teóricas con que elaboró y presentó su concepción, elaboró la base de un cuerpo de pensamiento muy rico que todavía necesita, quizás, la mayor parte de su desarrollo, y, sin duda, la mayor parte de su experimentación práctica. La violentación de sus circunstancias en su teoría y en sus prácticas, el comunismo y el internacionalismo en su proyecto, y el socialismo de liberación nacional como vehículo de su actuación, son tres aspectos esenciales para comprender al Che.

DESCOLLANTE EN LA ACCIÓN Y EL PENSAMIENTO
Entre muchas cuestiones que podrían abordarse, quisiera destacar que Che comprende y expone que el radicalismo en la concepción teórica, la posición política y las nuevas creaciones de las personas y las relaciones sociales que él defiende y promueve, pertenecen a una nueva época. En ella les resulta factible a los revolucionarios irse por encima de las insuficiencias del despliegue del capitalismo en sus países, pero ya las revoluciones no pueden proponerse menos que el socialismo y la liberación nacional, conquistarlos en un único proceso, profundizar de manera sistemática en ambas direcciones, y ser internacionalistas. Esta no es una opción entre las adoptables, sino que es la opción, la única forma de evitar el retorno y la reproducción de la dominación capitalista sobre las personas y las sociedades, un destino inexorable que de no asumirse esa alternativa esperaría a la experiencia socialista al final de su camino. A la vez, Che plantea que esa concepción y esa posición práctica deben proveer la escuela imprescindible, el complejo y gigantesco proceso educacional permanente que irá forjando las liberaciones de las personas y las sociedades. Esto es lo que explica su urgencia, su tenacidad sin límites y su descomunal batalla intelectual.
El Che es uno de esos raros casos de una persona que es muy descollante al mismo tiempo en la acción y en el pensamiento. Es bueno recordar que Ernesto comenzó sintiéndose marxista cuando todavía no tenía experiencias políticas, en un ambiente en el que entre los que estaban en su caso predominaba la admiración por la URSS que había vencido a los nazis y por el socialismo y el marxismo de orientación soviética. Pero, ¿por qué este joven no se sumó a los seguidores ni se sujetó a aquella “línea”? Opino que varios factores lo ayudaron. Primero, la vastísima información y la contrastación de tendencias intelectuales y teorías que adquirió, mediante la lectura de una multitud de obras y el ejercicio de escribir sus comentarios a ellas, es decir, una posición activa de pensamiento y de preguntas pertrechada de copiosos estudios.Mientras que la mera asunción de la llamada cultura universal por estudiosos de nuestros países puede hacerlos desembocar en la condición de colonizados mentales, que en buena medida son extranjeros en su propia tierra, una actitud intelectual como la que asumió Ernesto suele ser una vacuna eficaz contra los dogmatismos y la dependencia.
Por otra parte, el joven Ernesto asumió un antimperialismo beligerante que nunca lo abandonará, y lo asoció acertadamente al anticapitalismo, un paso que puede parecer lógico, pero que era en realidad difícil en aquel tiempo, y aún hoy sigue siéndolo. Antes de ser capaz de compartir o enunciar tesis sobre esa cuestión, la resolvió con su praxis: se puso de parte de los humildes. Por el largo camino que recorrió entre Buenos Aires y Guatemala, a través de sus vivencias y sus reflexiones, fue transitando desde el ansia altruista de prestarles servicios a los desposeídos y desvalidos hasta el arduo reconocimiento de que era necesario asumir una posición política. De esa manera pudo identificar al imperialismo y las variantes del colonialismo como enemigos de los pueblos, y al capitalismo como la fuente de aquel sistema y de sus consecuencias de opresión, explotación y enajenación. Conocer ese desarrollo de Ernesto puede ser útil hoy, cuando muchas veces la preocupación por el mejoramiento humano –que es tan valiosa– no quiere o no ve la necesidad de pasar a la actuación política.
Esa posición de Ernesto lo apartó del eurocentrismo que caracterizaba al marxismo-leninismo, y de las formulaciones abstractas que priorizaban al llamado sistema socialista y a la “clase obrera” de los países industrializados como palancas de hipotéticos cambios que sucederían en un futuro indeterminado. Lo hizo inmune también al doloroso proceso de esterilización de su voluntad de entrega y sacrificio de por vida y sus abnegadas prácticas y resistencias, que sufrían tantos militantes. La revolución anticapitalista y antimperialista no estaba en el plan de aquel movimiento político, ni en el de su ideología teorizada. Por eso, lo decisivo fue que Ernesto buscó por el continente una causa revolucionaria a la cual entregarle todo su ser, no solo el pensamiento, hasta que la encontró.
En la etapa que siguió desde que se incorporó a la organización fidelista en México hasta el triunfo de la Revolución, lo fundamental fue la experiencia práctica. Cuando un periodista le pregunta en la Sierra, en febrero de 1958, si él era marxista desde antes de venir a Cuba, el Che le responde que en la guerra él ha tenido que olvidar todo lo que aprendió antes. Es decir, ha sabido desaprender, como un instrumento más de su desarrollo personal. Pero no ha abominado de la teoría, ni la abandonará nunca.
Como otras grandes personalidades, Che comparte diferentes inclinaciones. La vida y las prioridades asumidas le acotan sus campos de labor, pero sus propensiones más fuertes permanecen, reaparecen cada vez que pueden o marcan con su impronta los modos de aproximarse a los problemas y tratarlos. Su vocación teórica es muy poderosa. Ella le ayudará a exigirle su sentido a los hechos, las conductas y los problemas, a ser analítico y problematizar; es decir, a utilizar el único modo de buscar lo cierto, lo esencial y los caminos. Le dará contenidos más trascendentes a su decisión de entregarse a la actuación social y política revolucionaria, le brindará instrumentos para evaluar y para inscribir lo contingente y los eventos en una totalidad de los procesos de liberación social y humana, y trabajar con ellos en el taller de los conceptos y las teorías. El ejercicio permanente de esa vocación le aportará al Che una mayor capacidad para prever y hacer proyectos, para exponer sus ideas y para conducir a sus compañeros. Y por último, pero no menos importante, formará una mente capaz de inquirir, dudar, preguntar, desconfiar, derribar las prisiones de los lugares comunes, lo establecido, la reproducción de lo existente y lo que se considera posible, y atreverse a crear y ser original. En una palabra, ejercer la ciencia más difícil: la de la revolución.
PENSAMIENTO ABIERTO Y PODEROSO
Su elocuencia sencilla y ajena a la estridencia, su lenguaje claro, son los vehículos del pensamiento abierto y poderoso de este hombre que jamás olvida los fosos profundos mediante los que las sociedades de dominación han separado a los que cultivan el intelecto de la masa enorme de la gente común, la gente de abajo. Él siempre es uno con ellos, y ellos lo premian con su devoción, pero al mismo tiempo advierten la densidad de pensamiento que está siempre detrás de la calma decidida con que el Che aborda las cuestiones cotidianas y los grandes desafíos. La huella de la teoría, unas veces expresa y otras no, lo acompañó a lo largo de su vida.
El Che estuvo produciendo teoría marxista a partir del triunfo de 1959, desde puntos de partida que son los naturales para un revolucionario: el análisis de la política, la economía, las ideologías y las teorías, sus contenidos, sus métodos e instrumentos, sus condicionamientos y los conflictos en que participan. Eso hace conveniente aclarar que buena parte de sus proposiciones y su posición teóricas se encuentran precisamente en el conjunto de sus productos escritos y orales, y allí hay que buscarlos. A la vez, el Che estudiaba textos teóricos y los comentaba, y hacía exposiciones propias directamente teóricas. Estudiando unas y otras fuentes podremos encontrar al Che pensador y al filósofo.
Este hombre que se sabía histórico y estuvo tan consciente del papel que desempeñaba y de lo que debía hacer, se puso un límite en cuanto pensador: su entrega a las tareas prácticas y a la causa; y otro en cuanto a la libre exposición de su ideas: sus compromisos como dirigente revolucionario. Pero supo comprender –y este es un aspecto más de su grandeza– que a la Revolución cubana le era indispensable elaborar un pensamiento creador y eficaz, y que esa debía ser una de sus dimensiones importantes, y logró desplegar una actividad intelectual ejemplar al servicio de esa tarea. Che fue elaborando una concepción suya dentro del marxismo, cumplió los requisitos de ese tipo de trabajo y avanzó en el desarrollo de ella hasta donde la vida se lo permitió.
No emplearé tiempo en referirme al contenido de su concepción teórica, que desde hace más de veinticinco años he tratado de exponer en extenso; estoy seguro de que será manejada y debatida en el curso de este coloquio. Solo quiero afirmar que esa concepción, que hoy puede parecerles improcedente a muchos, nos muestra precisamente su carácter trascendente con su capacidad de servir como instrumento para comprender las circunstancias actuales y plantearse conductas y estrategias ante ellas, y para enfrentar el formidable desarme ideológico al que han sido sometidos los pueblos en las últimas décadas.
Por entender que es uno de los aspectos de su legado que puede ser muy útil para Cuba y para la América Latina en la actualidad, voy a referirme a su crítica al socialismo que llamaban “realmente existente”, crítica que evolucionó y se hizo cada vez más dura y fundamentada. Al hacerla, el Che no olvidó en ningún momento su responsabilidad como dirigente cubano. Para situarnos mejor ante su crítica, es preciso tener en cuenta la existencia de dos formas de socialismo en Cuba, que se iniciaron desde la tercera década del siglo XX y han tenido una historia de contradicciones y conflictos, y también de coexistencias y colaboraciones. Esas dos formas son el socialismo proveniente del movimiento comunista internacional y el socialismo cubano.
El movimiento revolucionario insurreccional contra la dictadura dirigido por Fidel –en el cual el Che se incorpora desde los días de México– tuvo que abocarse en la práctica a la victoria para que el socialismo seguidor del movimiento comunista internacional lo admitiera como una opción política decisiva. El carácter de la revolución –una noción que entonces era muy manejada por la izquierda– estuvo determinado por la praxis organizada y consciente de los revolucionarios, y no fue consecuencia de características de la estructura económica del país. Por eso pudo ser una revolución socialista de liberación nacional la que triunfó en 1959. Esos dos choques con los principios de la teoría-ideología del socialismo guiado por la Unión Soviética y el movimiento comunista de su campo pronto fueron seguidos por otros. Se fue haciendo obvio que este evento trascendental por haber sido inconcebible y por su increíble alcance, que conquistó la liberación nacional y social del país, estableció un poder popular fortísimo, enfrentó con éxito a sus enemigos y sus obstáculos y produjo colosales transformaciones de las personas, las relaciones y las instituciones, constituía, además, una herejía dentro del campo de las experiencias y las ideas socialistas.
En octubre de 1963, al planear un seminario de profundización sobre el Sistema Presupuestario de Financiamiento para los cuadros del Ministerio de Industrias, Che orienta relacionar y comparar los sistemas de dirección con la estimulación al trabajo y con la centralización. Comenta que hay que estudiar las relaciones entre el sistema de dirección y los problemas económicos y las concepciones de los países socialistas. Encerrarse en una “falsa concepción de la ley del valor”, dice, les hizo perder contacto con el mundo exterior. La productividad mundial dejó atrás a los países socialistas que, a diferencia de la USSS, dependían del comercio exterior.
En una reunión posterior analizan la norma soviética de premiar o castigar a las empresas si cumplen o no el plan. Se produce una lucha continua entre los aparatos centrales y las empresas, dice el Che, porque estas buscan tener metas menores para sobrecumplir fácilmente o arriesgar menos un incumplimiento; su éxito consiste en obtener mayores premios. “Se está estableciendo entre el aparato central y la empresa una contradicción que no es socialista, una contradicción que atenta contra el desarrollo de la conciencia”. Los dirigentes de empresas socialistas se van convirtiendo así en expertos en engañar al Estado, deformándose como individuos, y ante el obrero, la imagen del buen dirigente es la del que “sabe” organizar para “sobrecumplir” siempre. De ese modo, el sistema se va apartando de sus objetivos y la gente se va separando de aquellos que debían ser capaces de dirigirlos. El Che aprovecha para exponer con vigor las cualidades que debe tener un director de empresa.
En julio de 1964, Che comenta con sus compañeros: “cuando el cálculo económico llega, como debe llegar, a un callejón sin salida, conduce por la lógica de los hechos a tratar de resolverlo por el mismo sistema, aumentar el estímulo material, la dedicación de la gente específicamente a su interés material y por ahí al libre fuero de la Ley del Valor. Y por ahí al surgimiento en cierta manera de categorías estrictamente capitalistas”. Denuncia de manera categórica la apelación a tomar “como arma para luchar contra el capitalismo, las armas del capitalismo”. La autogestión intenta valorar al hombre por lo que rinde, dice, pero el capitalismo es el que sabe hacer eso perfectamente. Las motivaciones de “la sociedad donde la filosofía es la lucha del hombre contra el hombre, de los grupos contra los grupos y la anarquía de la producción” no podrán ser despertadas y utilizadas eficazmente para servir a una sociedad cuya base era el poder socialista. Esta exige control riguroso, control consciente, “la colaboración entre todos los participantes como miembros de una gran empresa (el conjunto de la economía), en vez de ser lobitos entre sí dentro de la construcción del socialismo”.
Che 08
Opina que en vez de ir al fondo de los problemas, la práctica y el pensamiento de estos socialistas se deja llevar a la seguridad aparente de acudir a lo ya probado, reforzar el mercado, sus mecanismos y el estímulo material individual. Las reformas pueden relucir como “descubrimientos” que remediarían la falta de motivaciones suficientes en los actores económicos y lograrían la subordinación de la producción para el consumo a las demandas de sus consumidores, relacionar la rentabilidad con la venta del producto, etcétera. Esos experimentos y ensayos de política económica son, sin embargo, remedos de lo que el capitalismo hace eficazmente, porque lo universaliza y porque corresponde a las relaciones fundamentales de su sistema. Che cree firmemente que el socialismo no puede emplear los métodos capitalistas para resolver hipotéticamente sus problemas económicos a nivel de base, y mucho menos extrapolarlos a escala de la sociedad, porque todo eso contradice lo esencial de su sistema. “El único problema que hay es que cuando eso se traslada de una fábrica a todo el conjunto de la sociedad, se crea la anarquía de la producción y viene la crisis, y después tiene que venir el socialismo de nuevo”.

La última frase retrata al Che teórico revolucionario: existe una lógica de las sociedades, cuyo conocimiento debemos al propio marxismo; si la olvidamos, pagaremos un precio muy caro. Pero el socialismo no es un régimen determinado por el libre juego de las fuerzas económicas: después, tiene que venir el socialismo de nuevo. Es decir, tendrá que imponerse la acción conciente y organizada de los revolucionarios para recuperar el socialismo.
ESPÍRITU CRÍTICO Y EJERCICIO DEL CRITERIO
El Che insiste en desbaratar la imputación que se hace a sus ideas de mantener un desprecio “idealista” por el interés material, un simplismo que busca devaluarlas y rehuir la discusión. Nadie en sus cabales desconoce la fuerza y el arraigo del interés material, instalado a lo largo de la historia de las sociedades de dominación y multiplicado y refuncionalizado por el capitalismo. La elección está entre utilizarlo llana y acríticamente –aunque se pueda declarar o lamentar que sea nocivo–, o utilizarlo como un mal necesario, sin depender de él. Ser creativo desde la situación concreta e inevitable, y organizar un proceso de erradicación paulatina de los comportamientos económicos egoístas e individualistas. Ir forjando otro mundo de actuaciones y valores mediante una red de instrumentos diversos, económicos, sociales, políticos, legales, administrativos.
El Che aprendió –al mismo tiempo– a reflexionar sobre los problemas, la circunstancia en curso, las decisiones y la actuación inmediata; sobre los métodos, la organización y los fines mediatos; y a teorizar acerca de los asuntos fundamentales. La formidable experiencia práctica que realizó al frente de más de doscientos mil trabajadores industriales en esos primeros años sesenta ha sido sometida al olvido. Recuperar el conocimiento de su extraordinaria riqueza contribuiría a aumentar nuestras capacidades actuales. Y permitiría conocer al Che de los cómo, que es tan grande como el Che de los hechos históricos y las ideas expresadas en frases rotundas.
En aquel ámbito que tuvo como centro a Ernesto Che Guevara regía el principio de que la creación de otra realidad desde la existente, sin la cual no hay revolución socialista, tiene que incluir el espíritu crítico y el ejercicio del criterio, el fomento de la independencia y la capacidad de pensar y valorar con cabeza propia. Che estimulaba estas cualidades de manera sistemática. En el aspecto que estoy abordando, es impresionante la profundidad y el alcance del análisis teórico logrado, en medio de la tormenta de la Revolución, un avance que permitía una verdadera autonomía del pensamiento, salvado de no ver los graves peligros de la copia y el seguidismo, y no apto para conocer las deficiencias del socialismo existente y evitar o enfrentar la colonización mental, la apologética y la rutina.
El despliegue simultáneo de su concepción y de la profundización de la Revolución cubana lo llevan a hacer más general y más adversa su crítica del socialismo existente. Rechaza la noción tan repetida de que existe un sistema socialista mundial, porque los países del campo del socialismo también tienen desarrollos desiguales, como los del mundo capitalista: “…la práctica ha planteado el problema de contradicciones insalvables; de índole ideológica a veces, tienen siempre una base material, económica. De allí las posiciones que toman la URSS, China, Rumanía o Cuba, en problemas aparentemente desligados de la economía.” Al examinar conflictos bilaterales entre países del campo socialista, afirma que en la realidad “se dan fenómenos de expansión, de cambio no equivalente, de competencia, hasta cierto punto de explotación y ciertamente de sojuzgamiento de los Estados débiles por los fuertes”. Tacha al CAME de “olla de grillos” y plantea que los precios y la calidad de muchos artículos que venden los socialistas de Europa a los demás serían inaceptables en el mercado internacional capitalista. Reconoce que en este campo y en el de los créditos, la política de la URSS y China es más consecuente con el internacionalismo. Pero aclara que los precios fijos sostenidos a productos de países socialistas menos desarrollados, en el mejor caso, mitigan el intercambio desigual, pero no lo anulan.
No existe una confrontación planetaria principal entre el capitalismo y las supuestas tres fuerzas revolucionarias, como repiten las declaraciones del socialismo “realmente existente”, que las relacionan por orden de importancia: primera, el llamado sistema socialista mundial; segunda, la “clase obrera” de los países capitalistas desarrollados; y tercera, las luchas por la independencia y la democracia nacional en las “jóvenes” naciones del Tercer Mundo. La razón de Estado y los intereses económicos de cada país socialista, las esferas de influencia pactadas, la estrategia de potencias son la regla y la conducta usual. De la unión entre proletarios a escala mundial que preconizan las declaraciones dice el Che: “Falso de toda falsedad. No hay punto de contacto entre las masas proletarias de los países imperialistas y los dependientes; todo contribuye a separarlos y crear antagonismos entre ellos (…) el oportunismo ha ganado una inmensa capa de la clase obrera de los países imperialistas…” Sobre las revoluciones: “También es falso que el proletariado (…) sea el que cumpla el papel dirigente en la lucha de liberación, en la mayoría de los países semicoloniales”. Ya no se puede admitir la idea de que la burguesía nacional sea un factor progresivo en las luchas revolucionarias: “La lucha contra la burguesía es condición indispensable de la lucha de liberación, si se quiere arribar a un final irreversiblemente exitoso.”
También rechaza la consigna de la “crisis general del capitalismo”, supuesta teoría que deben acatar los partidarios del socialismo. No estamos en la “tercera etapa”; en realidad, dice, el imperialismo no agoniza: “ni siquiera ha aprovechado al máximo sus posibilidades en el momento actual y tiene una gran vitalidad (…) La tendencia es a invertir capitales propios en el aprovechamiento de las materias primas o en la industria ligera de los países dependientes”. La aguda competencia “provoca una incesante marea de innovaciones técnicas…”
Los jóvenes de hoy no han escuchado nada del “sistema socialista mundial”, “las tres fuerzas revolucionarias” o la “crisis general del capitalismo”, y seguramente sonríen al escuchar su explicación. Pero en aquel tiempo estaban entre los principales dogmas que debían admitirse como artículos de fe y esgrimirse para entender las cosas más importantes, acallar todo criterio diferente y “vencer en la lucha ideológica”. El Che y los que como él escogían actuar como revolucionarios en aquella época debían salir de esas prisiones y pensar con cabeza propia. Recordar hoy la falta total de asideros en la realidad que tenían aquellas consignas seudocientíficas es una lección contra la tendencia a admitir ser gobernados por frases vacías.
MADUREZ DE LA CONCEPCIÓN TEÓRICA DEL CHE
En los primeros meses de 1965 la madurez de la concepción teórica de Ernesto Che Guevara se hace evidente en El socialismo y el hombre en Cuba, uno de los textos fundamentales de la historia del socialismo en América Latina. Pero enseguida comenzará la última fase de su vida, en la que vuelve a dedicarse a la acción armada, ahora como dirigente internacionalista cubano que intenta contribuir al desarrollo de las revoluciones de liberación. Y ahora emprende también una tarea intelectual que considera indispensable: la necesidad de llegar a conclusiones sobre el socialismo realmente existente, asunto crucial para todos en el mundo, y la de ofrecer una alternativa revolucionaria desde las ideas de los pensadores de los países que han sufrido o sufren el colonialismo y el neocolonialismo, que quieren pelear por la liberación total de las naciones y de las personas, y por el avance de la revolución mundial.
“Es un grito dado desde el subdesarrollo”, escribe en “La Necesidad de este libro”, breve introducción a los Apuntes críticos a la Economía Política, un texto que contiene planteamientos trascendentales. Se refiere a El capital, de Carlos Marx, a las nuevas situaciones de la época imperialista, los aportes extraordinarios de Lenin y la detención ulterior del desarrollo de la teoría marxista. Enseguida expone las razones por las cuales hace la crítica de la Economía Política:
Creemos importante la tarea porque la investigación marxista en el campo de la economía está marchando por peligrosos derroteros. Al dogmatismo intransigente de la época de Stalin ha sucedido un pragmatismo inconsistente. Y, lo que es trágico, esto no se refiere sólo a un campo determinado de la ciencia; sucede en todos los aspectos de la vida de los pueblos socialistas, creando perturbaciones ya enormemente dañinas, pero cuyos resultados finales son incalculables (…) Nuestra tesis es que los cambios producidos a raíz de la NEP han calado tan hondo en la vida de la URSS que han marcado con su signo toda esta etapa. Y sus resultados son desalentadores: la superestructura capitalista fue influenciando cada vez en forma más marcada las relaciones de producción, y los conflictos provocados por la hibridación que significó la NEP se están resolviendo hoy a favor de la superestructura. Se está regresando al capitalismo.
Che confía en que muchos podrán sentirse atraídos por este “intento de retomar la buena senda”. A ellos se dirige el libro, “y también a la multitud de estudiantes cubanos que tienen que pasar por el doloroso proceso de aprender ‘verdades eternas’ en las publicaciones que vienen, sobre todo, de la URSS, y observar como nuestra actitud y los repetidos planteamientos de nuestros dirigentes se dan de patadas con lo que leen en los textos”.
Un largo camino había recorrido Ernesto Guevara en una década. La revolución había sido su maestra. En la guerra y desde el poder revolucionario se desarrolló su estatura como combatiente, dirigente y pensador, y ahora él –como reclamara Lenin sesenta años antes– debía, en justo pago, enseñarle algo a la revolución. Y lo logró. La aventura socialista de un pequeño país aislado producía un pensamiento capaz de continuar el trabajo excepcional mediante el cual Marx había encontrado ideas capaces de subvertir el control de las ideas de la sociedad por la clase dominante. Che escribió: “nosotros aportamos nuestro modesto granito de arena”. Y a los compañeros cercanos más estudiosos les pidió componer un “manual” cubano. Pensó seguramente que los que compartían su posición continuarían la campaña de difusión de las actitudes y las ideas más revolucionarias que con tanto ardor y sistematicidad él llevó a cabo en su última etapa en Cuba.
El acierto y el alcance de los planteamientos del Che acerca de la esencia y el destino del socialismo realmente existente solo se comprobaron veinticinco años después. Pero cuando hacia el final del siglo XX pareció que todo lo logrado por la humanidad se perdería, incluso la esperanza, el Che regresó. Celebramos ese regreso, que evidencia la resistencia de los pueblos y el valor permanente de las ideas y del ejemplo. Sin embargo, el pensamiento del Che ha seguido encontrando escollos y ha tenido que ir ganando espacios paulatinamente. Ese pensamiento es uno de los lugares principales de los combates actuales.
Tomado de la publicación: www.cubadebate.cu
Fernando Martínez Heredia
*(Sancti Spíritus, Cuba) Académico Titular de la Academia de Ciencias de Cuba. Doctor en Derecho, Profesor Titular de la Universidad de La Habana, Investigador Titular. Especialista en Ciencias Sociales, ensayista e historiador.

Autor y coautor de más de diez libros. Los más recientes: “Socialismo liberación y democracia”; “La revolución cubana del 30″ y “El ejercicio de pensar”.

FONTE: CINEREVERSO

domingo, 23 de junho de 2013

Contraponto da Cultura com Anita Leocádia Prestes

Na entrevista concedida ao programa Contrapondo da Cultura, a historiadora Anita Prestes fala sobre vários assuntos: Coluna Prestes, Ditadura Militar, Lei de Anistia, Governo João Goulart, Olga Benario Prestes, União Soviética.

Ouça a entrevista clicando no link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=RsTHfl7XvOg




"O Patrão Cordial", da Cia. do Latão, estréia no CCBB Rio de Janeiro


O PATRÃO CORDIAL ESTRÉIA NO RIO DE JANEIRO

Temporada de 26 de junho a 28 de julho de 2013.
Teatro III do CCBB Rio de Janeiro.
De quarta a domingo, às 19 horas.


O Patrão Cordial é uma comédia sobre a cordialidade brasileira, nos moldes da tradição clássica do patrão e do empregado. O espetáculo narra a vida de um proprietário de terra que tem dificuldades em manter sua posição de classe devido a seu grande sentimentalismo, e acompanha a sua relação contraditória com os empregados da fazenda. O texto tem como ponto de partida o estudo Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e a peça O Senhor Puntila e seu Criado Matti, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. É uma criação coletiva da Companhia do Latão .