quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

3 de dezembro: Queremos comida sem veneno!

Dia Mundial de Luta Contra os Agrotóxicos




Há 30 anos ocorria a catástrofe de Bhopal, na Índia, em que 30 mil pessoas, muitas delas crianças, morreram com o vazamento de 27 toneladas do gás tóxico metil isocianato, químico utilizado na elaboração de um praguicida da Corporación Union Carbide, em uma zona densamente povoada.

Das 30 mil, 8 mil morreram nos três primeiros dias, e outras 560 mil pessoas continuam com sequelas do acidente. Até hoje a corporação, incorporada à Dow Química, não indenizou as vítimas.


Após a tragédia, a data foi estabelecida pela Pesticide Action Network (PAN) como o Dia Internacional de Luta Contra os Agrotóxicos, incorporada no Brasil pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.


Com isso, dezenas de cidades brasileiras realizam nesta quarta-feira mobilizações para denunciar os males causados pelos agrotóxicos e pelo modelo agrícola representado pela Bancada Ruralista, e exigir mais estímulo à agroecologia, uma alternativa à produção de alimentos saudáveis e com capacidade de garantir a segurança alimentar da população através da agricultura familiar e camponesa.


Abaixo, confira a carta ao povo brasileiro:


Brasil, 3 de dezembro de 2014

Manifesto pelo Dia Mundial de Luta Contra os Agrotóxicos


Povo Brasileiro,


Neste dia 3 de dezembro, saímos às ruas em todo o país para denunciar o modelo da morte que domina a agricultura brasileira: o agronegócio.


Há exatos 30 anos, explodia a fábrica de agrotóxicos da Caribe Union, atual Dow Chemical, na cidade de Bhopal, Índia. Na tragédia, mais de 16.000 pessoas morreram, e pelo menos 560.000 foram gravemente intoxicadas.


Bhopal não foi um acidente. Assim como também não foi um acidente a chuva de venenos na escola de Rio de Verde (GO), e tantas outras tragédias anunciadas pela ganância daqueles que afirmam que a comida que nos alimenta só pode ser produzida com muito veneno. Eles lucram muito com isso.


Em 2013, o mercado de agrotóxicos rendeu US$11,5 bilhões. O lucro se concentra em 6 grandes empresas transnacionais: Monsanto, Basf, Syngenta, Dupont, Bayer (fabricante do gás letal usado pelos nazistas) e a Dow, que até hoje não reconhece sua responsabilidade sobre Bhopal.


Ano após ano, o Brasil bate recordes de consumo de agrotóxicos e sementes transgênicas. A população brasileira está sendo envenenada. Nas águas, no solo, nos alimentos, em pequenas doses diárias, ou em chuvas de veneno, temos contato com substâncias que causam câncer, levam ao suicídio, e provocam abortos espontâneos, entre outros vários efeitos.


A ciência comprometida com a saúde pública coletiva não tem dúvidas1. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), é preciso se “mobilizar frente à grave situação em que o país se encontra, de vulnerabilidade relacionada ao uso massivo de agrotóxicos.”


De acordo com estas instituições, os agrotóxicos causam danos à saúde extremamente graves, “como alterações hormonais e reprodutivas, danos hepáticos e renais, disfunções imunológicas, distúrbios cognitivos e neuromotores e cânceres, dentre outros. Muitos desses efeitos podem ocorrer em níveis de dose muito baixos, como os que têm sido encontrados em alimentos, água e ambientes contaminados. Além disso, centenas de estudos demonstram que os agrotóxicos também podem desequilibrar os ecossistemas, diminuindo a população de espécies como pássaros, sapos, peixes e abelhas.”


Por que tanto veneno?


A opção clara da política agrícola brasileira pelo agronegócio é a grande responsável pela situação. O agronegócio utiliza largas extensões de terras, os latifúndios, para plantar uma mesma espécie – normalmente soja, milho, algodão, eucalipto ou cana-de-açúcar. Dessa maneira, destrói a biodiversidade e desequilibra o ambiente natural, facilitando o surgimento de plantas, insetos ou fungos que podem destruir a plantação. Por isso, é uma agricultura dependente química: só funciona com muito veneno. O agronegócio também utiliza maquinário pesado, que compacta o solo, e não gera empregos, favorecendo assim o êxodo rural.


No legislativo brasileiro, um grupo de deputados e senadores de vários partidos formam a chamada Bancada Ruralista, que tem como objetivo incentivar o agronegócio, o trabalho escravo, o desmatamento, lutar contra a demarcação de terras indígenas, quilombolas e contra a reforma agrária.


Kátia Abreu (PMDB/TO), Ronaldo Caiado (DEM/GO) e Luis Carlos Heinze (PP/RS) são alguns dos expoentes desta bancada. Estes políticos se elegem graças a altíssimas cifras doadas nas campanhas pelas empresas do agronegócio, como a JBS, BRF e Marfrig, e na prática agem como empregados destas empresas dentro do congresso e do senado. Os ruralistas também dominam o Ministério da Agricultura, que recebeu a cifra de R$140 bilhões neste ano.


No ano passado, esta bancada aprovou uma lei (12.873/2013) que permite uso de agrotóxicos proibidos no Brasil por serem altamente nocivos, e já conseguiram até demitir funcionários das agências reguladoras que lidam com o tema. Após as eleições de 2014, os ruralistas declararam ter 51% do Congresso Federal. É necessária uma reforma política que decrete o fim das doações eleitorais de empresas para acabar com estas verdadeiras pragas da política brasileira.


Nós construímos uma alternativa: a agroecologia


Camponesas e camponeses do Brasil são aqueles que botam comida na nossa mesa. E somente elas e eles podem praticar a agroecologia. Agroecologia é um jeito de organizar a produção agrícola e a vida no campo em harmonia com a Natureza. Na agroecologia, se produzem diversos tipos de alimentos numa mesma área, fortalecendo assim a biodiversidade e deixando a natureza equilibrada. Desta forma, não é necessário usar agrotóxicos, nem fertilizantes sintéticos, e muito menos sementes transgênicas. A agroecologia também busca uma vida digna no campo, com saúde e educação adequadas à realidade do campo.


Repudiamos a tese de que pobres têm que comer veneno. Não há mais dúvidas de que podemos alimentar a população com a produção agroecológica. Até mesmo a ONU reconhece que a agroecologia é única solução verdadeira para a fome no mundo2, e pode inclusive ajudar a frear as alterações climáticas.


O que queremos?


A população brasileira está unida na luta pela fim dos agrotóxicos e em defesa da vida. Queremos Agroecologia.


Movimentos sociais do campo, da cidade, sindicatos, instituições públicas de pesquisa, estudantes, e inclusive o Ministério Público vem se articulando junto à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.


Nossa luta é por comida sem veneno e um congresso sem ruralistas, que represente de fato os interesses do povo.


De imediato, pedimos:


A proibição da prática criminosa da pulverização aérea, a exemplo do que ocorre na União Europeia;


O banimento de agrotóxicos já banidos em outros países do mundo;


O fim das vergonhosas isenções de impostos dadas aos agrotóxicos;


A criação de zonas livres de agrotóxicos e transgênicos, para o livre desenvolvimento da agroecologia;


Maior controle para evitar a contaminação da água por agrotóxicos.


Convocamos toda a população a se engajar nesta luta, através dos comitês da campanha espalhados pelo Brasil.




Pesquisadora resgata história de quilombo dizimado por suíços em Casimiro de Abreu

Assunto foi tema da dissertação de mestrado de Renata em História, defendida há um ano, e deve virar livro

POR 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Às trabalhadoras" (gravação rara da voz da feminista russo-soviética Aleksandra Kollontay)


Do canal Pan-Eslavo Brasil, no YouTube



Esta é uma gravação muito rara da voz da feminista russo-soviética Aleksandra Mikhaylovna Kollontay, uma das poucas mulheres a ocupar um cargo de comissária do povo (ministra) na antiga URSS. Não encontrei a data exata da gravação, mas conforme indicações indiretas, pode ter sido feita por volta de 1918, e de fato sua voz ainda parece bastante jovem aí.

O discurso foi dado a público pela primeira vez ao ser inserido no audiolivro em russo (o primeiro de confecção soviética) "Sobre Lenin", organizado por um grupo de jornalistas em 1970 e lançado pela editora "Pravda", de Moscou. A obra pode ser baixada aqui: http://goo.gl/zjEeKz. O título em russo é "К работницам" (K rabotnitsam). O áudio e o texto em russo também estão disponíveis nesta página: http://goo.gl/GjfRju. A versão em russo e uma tradução em espanhol também se encontram aqui: http://goo.gl/z0xtqA.

Sucintamente, Kollontay celebra a equiparação, logo depois da Revolução Bolchevique, dos direitos das mulheres aos dos homens, mas lembra que apenas a letra da lei não basta para mudar a realidade, na qual de fato as trabalhadoras continuavam submetidas à dupla jornada do labor externo e dos cuidados com a casa. Por isso, a feminista instiga os operários e camponeses homens a ajudar nessa transformação e compreender o quanto elas são iguais a eles em direitos, e chama as mulheres a tomar a liderança de sua emancipação por meio da ampliação da infraestrutura de apoio familiar e do apoio ativo à luta política dos comunistas.

Речь А. М. Коллонтая «К работницам», записанная около 1918 г., с субтитрами на португальском языке.


"Entre laranjas e letras: processos de escolarização do Distrito-Sede de Nova Iguaçu (1916-1950)"

Título: "Entre laranjas e letras: processos de escolarização do Distrito-Sede de Nova Iguaçu (1916-1950)"
Autora: Amália Dias
Editora: Quartet
Ano: 2014

LANÇAMENTO: dia 9/12/14, às 19h, na Livraria República, localizada no hall dos elevadores da UERJ/Maracanã






"Não discutir impostos sobre riqueza é loucura"

O economista francês Thomas Piketty defende o aumento dos tributos sobre heranças e fortunas e afirma que a fatia de riqueza dos 10% mais ricos está sendo subestimada

por Miguel Martins



No Brasil, a simples menção a um aumento nos impostos é garantia de turbulência para o governo. No caso do tributo sobre grandes fortunas, previsto na Constituição Federal e jamais aplicado, o tema só foi lembrado nas eleições deste ano por partidos de esquerda como PSOL e PSTU. Durante a campanha, Dilma Rousseff nem ousou pisar no terreno espinhoso. Nos países desenvolvidos, cujas fortunas chegam a superar em seis vezes a renda nacional, a criação de taxas para limitar os ganhos de capital já começou. Em 2012, a França aprovou uma alíquota de 75% sobre as maiores riquezas do país.
Não à toa, trata-se da terra natal de Thomas Piketty, economista alçado ao status de celebridade após entrar para a lista dos autores mais vendidos do New York Times por seu livro O Capital No Século XXI, lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O sucesso explica-se não apenas pela densidade de sua base de dados, responsável por atestar o grande aumento da desigualdade de renda nos países ricos do Ocidente a partir da década de 1970. O livro inspira-se na tradição historiográfica francesa ao enxergar política, economia e cultura como dimensões integradas, e as relaciona com notável erudição. Por esse motivo, Piketty se vê mais como um cientista social e menos como um economista.
De passagem pelo Brasil, o pesquisador concedeu uma entrevista a CartaCapital. Simpático, fez questão de reiterar inúmeras vezes a necessidade dos países adotarem impostos mais onerosos às grandes fortunas para impedir a acumulação crescente dos 10% mais ricos no planeta. "A limitação da concentração é a saída para fazer da propriedade privada algo temporário", diz.  "É como dizer: 'Você é o dono, mas não para sempre. Se você continuar investindo e trabalhando, poderá manter essa propriedade. Se mantiver seu capital parado, iremos distribuí-lo.".
Afinado com a realidade política e econômica brasileira, Piketty defende o aumento de impostos sobre as heranças no País, até 10 vezes inferiores aos da Alemanha e dos Estados Unidos, e critica o grande volume de tributos indiretos, a alta taxa de juros e a falta de transparência nos dados da Receita Federal para grandes fortunas. Sobre programas como o Bolsa-Família, defende sua importância na redução da pobreza, mas considera ainda mais relevante a política de valorização do salário mínimo. A dificuldade em debater o aumento dos impostos sobre riqueza e patrimônio no país o surpreende. "Não discuti-los no Brasil é uma loucura. Todos os países têm impostos sobre herança muito superiores ao brasileiro. Você não precisa ser de esquerda para defender essa medida. Por acaso Angela Merkel ou David Cameron são de esquerda?"
CartaCapitalProfessor, um dos aspectos mais interessantes de seu livro é o diálogo apresentado entre a economia e as outras humanidades, em especial a história. Há uma forte base da história social de Fernand Braudel e Geroges Duby em seu trabalho. Trata-se de uma abordagem rara atualmente. Por que é tão difícil encontrar estudos econômicos interdisciplinares no contexto atual?
Thomas Piketty: Eu estou muito feliz que você diga isso, pois eu gostaria que meu trabalho se situasse na tradição de Braudel e outros historiadores franceses. Em 1995, deixei o MIT, nos Estados Unidos, para retornar à França, e fui para a Ecóle de Hautes Etudes en Ciencies Sociales, onde Braudel era o presidente, havia grandes historiadores, sociólogos como Pierre Bourdieu. Mas também fui influenciado por economistas anglo-saxônicos como Simon Kuznets, que foi um dos pioneiros na coleta de dados sobre distribuição. Eu tento combinar essas duas tradições. As fronteiras entre economia, história e sociologia são tênues demais. A divisão é bem menos clara do que os economistas imaginar ser. Me vejo mais como um cientista social.
CC: Seu livro mostra como as duas guerras mundiais e suas consequências econômicas proporcionaram uma forte distribuição de renda. Todavia, em momentos de maior harmonia comercial e econômica entre as potências, como ocorreu na Belle Époque do fim do Século XIX e está ocorrendo atualmente, a riqueza acumulada pode superar e muito a renda nacional. Karl Marx não estava certo sobre o acúmulo infinito de capital ao menos em momentos de paz?
TP: Acho que ele estava um pouco certo, mas também errado em alguns pontos. No tempo em que ele escreveu, havia uma grande acumulação de capital e toda a nossa base de dados indica uma longa estagnação dos salários no Reino Unido e na França, entre 1800 e 1870, mesmo com a revolução industrial. Por isso, foi uma observação tão forte. Mas vejo erros em alguns pontos. A sua primeira limitação é o que ocorreria após a abolição da propriedade privada. Os países que o fizeram não foram capazes de organizar a sociedade e o Estado, foi um grande desastre. É fácil perceber o tamanho da acumulação de capital excessiva, mas é difícil pensar nas boas e democráticas soluções para limitar o poder do capital, entre elas o estabelecimento de impostos progressivos.
Não é por conta do desastre das experiências socialistas que precisamos parar de pensar nisso. A limitação da concentração da riqueza é uma saída para fazer da propriedade privada algo temporário. É como dizer "você é o dono, mas não para sempre. Os impostos vão tirar parte de sua propriedade ao longo do caminho. Se continuar a investir e trabalhar, poderá manter essa propriedade, mas se mantiver seu capital parado, iremos distribuí-lo".
CC: No Brasil, a discussão do imposto sobre grandes fortunas é vista por muitos como uma agenda radical da esquerda. Na campanha eleitoral, Um dos únicos partidos a tocar abertamente no assunto foi o PSOL, cuja representação no Congresso é tímida. O senhor considera a proposta de esquerda?
TP: O Brasil poderia ter um sistema de imposto mais progressivo. O sistema é bastante regressivo, com altas taxas sobre o consumo para amplos setores da sociedade, enquanto os impostos diretos são relativamente pequenos. As taxas para as maiores rendas é de pouco mais de 30%, é tímido para os padrões internacionais. Países capitalistas taxam as principais rendas em 50% ou mais. Os impostos sobre herança e transmissão de capital são extremamente reduzidos, apenas 4%. Nos Estados Unidos é 40%, na Alemanha é 40%. Não discutir a cobrança de impostos sobre a riqueza no Brasil é uma loucura. É tudo muito ideológico. Todos os países têm imposto sobre herança muito superiores ao brasileiro. Você não precisa ser de esquerda para defender essa medida.  Por acaso Angela Merkel ou David Cameron são de esquerda?
O Brasil precisa de um sistema mais progressivo de impostos. Deveria haver uma redução de impostos indiretos. O PT poderia ir nessa direção, é uma forma de ter um sistema mais transparente e trazer mais confiança para o governo. Eu entendo que o PT está buscando um novo projeto para este mandato. Uma grande reforma tributária seria importante.
CC: O caso francês é uma referência?
TP: O imposto sobre a fortuna é uma evolução importante. O problema na França e na Europa é que só agora estamos mudando para um transmissão automática de informação entre os países sobre ativos financeiros transnacionais. Até agora, se você tinha uma conta bancária na Suíça, a receita francesa não possuía a informação. É muito difícil controlar a cobrança de impostos em um continente com tamanha integração econômica e fluxos livres de capital. É necessário mais cooperação, e acho que vamos seguir nesta direção.
CC: No debate da USP, na quarta 26, o senhor discutiu suas ideias com André Lara Resende, ex-presidente do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso, e Paulo Guedes, um dos fundadores do instituto Millenium, dois economistas de posição neoliberal e contra impostos sobre a riqueza. É um tipo de reação comum que o senhor tem testemunhado?
TP: Sempre há grupos de pessoas com diferentes reações. Muitas pessoas no Ocidente querem adiar o imposto sobre a riqueza. Eu entendo que os dois economistas com quem debati são também homens de negócios, talvez não economistas bilionários, mas eles querem adiar o máximo possível. Eles são a favor de um aumento dos impostos sobre herança, o que já é algo. O que me surpreende é ter conhecido muita gente a favor do imposto sobre herança, mas não ver ações concretas neste sentido.
CC: O senhor também comentou no debate sobre suas dificuldades em acessar os dados anuais consolidados da Receita Federal no Brasil, principal fonte de sua pesquisa em 20 países. Quais são os maiores entraves?
TP: Quando há apenas o sistema de pesquisas domiciliares para se medir a distribuição de renda, você tende a subestimar a desigualdade. Os 10% mais ricos em particular não são bem registrados em pesquisas com famílias. Na maior parte dos países, quando há imposto de renda, os governos publicam balanços anuais detalhados. No Brasil, o governo não está publicando estas informações de forma transparente. Fomos capazes de encontrar os balanços de imposto de renda entre 1963 e 1999. A partir desse ano a base parece ter desaparecido. Recentemente, algum acesso foi dado a um grupo de economistas brasileiros, do professor Marcelo Medeiros, da UnB, relativo ao período de 2006 a 2012. O fim da publicação da base de dados em papel pode ter contribuído para isso. Muitas vezes há mais restrição para acessar os dados informatizados.
Em termos gerais, há uma falta de transparência na base de dados do imposto de renda no Brasil. As conclusões preliminares de Medeiros mostram um nível de desigualdade bem maior do que aquele aferido pelas pesquisas domiciliares. Ao tomar como referencia os dados da receita entre 2006 e 2012, houve inclusive um aumento na concentração dos 10% mais ricos, que saltou de 50% para 55% da renda total.
CC: Embora não seja tanto o foco da sua pesquisa, como o senhor vê os programas de transferência de renda no Brasil como o Bolsa Família?
TP: Olho bastante para base a pirâmide. Me preocupo muito no livro com os 50% mais pobres. O Bolsa Família tem sido um imenso sucesso, o que contribui para a redução da extrema pobreza e o aumento da renda dos mais pobres. A parte dos impostos tem peso em meu livro, mas a transferência também. No caso brasileiro, mais importante ainda é a política de valorização do salário mínimo. Isso foi muito positivo. Quaisquer que sejam os dados, a diminuição da miséria no Brasil é um fato, pelas políticas introduzidas pelo PT. Mas é possível ainda que os 10% mais ricos tenham ampliado sua distância. Pode ser ter ao mesmo tempo uma diminuição da pobreza e um aumento da desigualdade. É um erro imaginar que o Brasil já fez o suficiente em termos de redução da pobreza.
CC: O Brasil tem uma taxa de juros alta, superior a 11%. Quais os riscos desse alto patamar para o futuro da distribuição de riqueza no País?
TP: Há limites com o que você pode fazer com política monetária. Precisamos de mais políticas e reformas fiscais. Inflação pode ser importante em alguns casos para distribuir renda, mas muitas vezes não têm funcionado. O Brasil paga muito mais em juros do que está colocando no Bolsa Família. Se você realmente quer distribuir riqueza e limitar o acúmulo e concentração de capital, é necessário um sistema mais progressivo. Para mim, os impostos progressivos sobre riquezas privadas são uma forma civilizada de inflação. A inflação geralmente pune cidadãos com pouco dinheiro em suas contas bancarias.
CC: Qual a sua visão sobre o sistema de Bretton Woods hoje e qual o potencial do banco dos Brics, recém-criado?
TP: Precisamos de um sistema multipolar e faz sentido uma instituição coordenada pelos Brics. Também acredito que esse sistema deveria envolver uma Europa mais forte e o fortalecimento do Euro. Não é bom ter apenas dois países hegemônicos. O poder do dólar é bom para os Estados Unidos, mas não para o resto do mundo. Especialmente pelo sistema legal por trás do dólar. Recentemente, a Argentina teve de pagar uma dívida bilionária da noite para o dia. Na França, o maior banco, o BNP Paribas, foi subitamente acionado a pagar uma multa enorme pelo sistema judicial norte-americano. Isso é errado. Nós todos nos beneficiaríamos de um sistema multipolar, com alternativas. Se você não está feliz com o dólar e o sistema jurídico por trás da moeda, você deve poder recorrer a outros sistemas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Anita Prestes fará palestras em Fortaleza sobre os 90 Anos da Coluna Prestes


O socialismo está em crise? E o capitalismo?

Se a construção prática do socialismo enfrentou problemas, o que dizer dos resultados apresentados pelo capitalismo? Como anda a África, por exemplo?


Por Wadih Damous (*)

A queda do Muro de Berlim e a extinção do bloco socialista na Europa do Leste fizeram a alegria dos defensores do capitalismo. Houve até quem, como Francis Fukuyama, decretasse o fim da história: a partir dali, afirmava ele, não haveria mais solavancos. As coisas aconteceriam sem mudanças radicais na sociedade.

Fukuyama não foi o primeiro a vaticinar o caráter perene de uma determinada situação de hegemonia. O Império Romano já falava nisso. Vindo mais para perto no tempo, poderia ser lembrado também o “Reich dos Mil Anos”, apregoado pelos próceres do nazismo, e que, em vez de mil, mal durou 15 anos...

De qualquer forma – é preciso reconhecer – as experiências socialistas enfrentaram percalços para transformar em realidade os sonhos de milhões de lutadores sociais que as defenderam ao longo dos últimos cento e poucos anos.

Essas dificuldades têm que ser objeto de estudo. A compreensão de suas razões será importante para a construção do futuro.

Questões relacionadas com a democracia e o desenvolvimento da produtividade do trabalho, e das forças produtivas em geral, estão a clamar por respostas. Ao não serem resolvidas, empurraram aquelas sociedades para uma excessiva estatização e uma burocratização que criou camadas privilegiadas e parasitárias – o que lhes foi fatal.

Mas, seria o caso de, por isso, se abdicar do socialismo, de se jogar fora a criança juntamente com a água da banheira?

Penso que não.

Essas dificuldades têm que ser vistas como desafios a serem vencidos para os que não têm o sistema capitalista como solução para os problemas da humanidade.

Por isso, é preciso travar o debate ideológico. E, se a construção prática do socialismo enfrentou problemas, o que dizer dos resultados apresentados pelo capitalismo? Como anda a África, onde, em pleno século 21, milhões de seres humanos são desnutridos e morrem de fome? O que o capitalismo trouxe para essas pessoas.

Mas, deixemos de lado a África - continente que, ainda hoje, enfrenta as consequências da escravidão, que retirou durante mais de três séculos sua força de trabalho mais qualificada. Vejamos o que o capitalismo oferece aos cidadãos na maior potência econômica da história.

Como anda a assistência de saúde nos Estados Unidos? Por incrível que pareça, lá não existe sequer um sistema universal de saúde, algo correspondente ao nosso SUS (mesmo com os problemas que o SUS possa ter). Quem não tem plano de saúde privado está arriscado a morrer diante de um hospital sem ser atendido. Isso é civilização?

Aos incrédulos, eu recomendaria que assistissem ao filme “Sicko”, realizado em 2007 pelo cineasta americano Michael Moore, que mostra o quão excludente é o sistema de saúde nos Estados Unidos.

E nem só de fracassos viveram as experiências socialistas até agora existentes. 

Vejamos Cuba, por exemplo: é um país pequeno, sem grandes recursos naturais e que apresenta alguns indicadores sociais de fazer inveja. Seu índice de mortalidade infantil – critério usado pelas Nações Unidas para medir a qualidade de vida, pois, quando se esta se deteriora as crianças são a parcela da população mais vulnerável – é o melhor da América Latina, sendo superior até mesmo ao dos Estados Unidos.

Por outro lado, seu sistema educacional - que abrange todas as crianças do país, sem exceção - tem recebido os maiores prêmios internacionais da Unesco, à frente de todos os demais países da América Latina.

Cuba é um país pobre. Deve ser comparada não às nações do Norte da Europa, mas às da América Central, como Guatemala, Honduras ou República Dominicana. Quem vive melhor? A população desses países, que são capitalistas, ou o povo cubano, apesar de todos os problemas que tem diante de si?

Assim, a discussão sobre os problemas do socialismo tem que ser enfrentada sem subterfúgios. Mas considerar que, devido às dificuldades (algumas delas oriundas do bloqueio e da sabotagem de países capitalistas, diga-se), a solução estaria no capitalismo é um enorme engano.

Que, nestes tempos de confusão ideológica e amesquinhamento de objetivos, as correntes progressistas não percam essa verdade de vista.

 
(*) Advogado

FONTE: Carta Maior

Dia Mundial de Luta Contra a Aids

De "Filadélfia" a "Boa Sorte", 12 filmes sobre portadores de HIV para discutir as questões relacionadas à vulnerabilidade da doença, o estigma e o preconceito. (Seleção do UOL entretenimento - Cinema)



"Boa Sorte" (Dir.: Carolina Jabor, Brasil/2014) Deborah Secco interpreta Juidth, uma viciada soropositiva que está no final da vida. Embora o HIV não seja o eixo central da trama, a personagem caminha na linha fina entre vida e morte com brilho nos olhos, de quem sabe que nunca é tarde para descobrir a vida -- e o amor. Em cartaz nos cinemas



"Clube de Compras Dallas" (Dir. Jean-Marc Vallée, EUA/2013) O drama sobre a época mais obscura, logo no surgimento da doença ainda na década de 1980, proporcionou prêmios e confetes para seus atores e abordou a questão médica e política. Matthew McConaughey interpreta Ron Woodroof, um eletricista diagnosticado com AIDS e que passa a contrabandear medicamentos alternativos não-aprovados pela FDA para dentro do Texas, distribuindo-os à outros pacientes e estabelecendo, assim, o "Clube de Compras Dallas" 



"Filadélfia" (Dir.: Jonathan Demme, EUA/1993) O filme mais conhecido sobre o tema trata sobre a fobia e a falta de informação em torno da AIDS e dos soropositivos. O longa mostra o promissor advogado (Tom Hanks) que trabalha para um tradicional escritório da Filadélfia e é despedido após descobrir ser HIV positivo. Ele então contrata os serviços de um advogado (Denzel Washington), que supera os próprios preconceito, para conseguir o mínimo de diretos para o seu cliente 


"Carandiru" (Dir.: Hector Babenco, Brasil/2003) Dentro das subtramas do maior presídio da América Latina, há um forte contexto sobre a AIDS. Um médico (Luiz Carlos Vasconcelos) se oferece para realizar um trabalho de prevenção e conhece histórias de violência e preconceito, mas também de amor e solidariedade 


"As Horas" (Dir.: Stephen Daldry, EUA/2002) O drama com histórias paralelas também discute a doença, ao contar a história do escritor Richard (Ed Harris), já bem debilitado pela AIDS. Há o esforço e o carinho dos amigos em mantê-lo otimista, como Clarissa Vaughn (Meryl Streep) faz em uma sequência emocionante, mas há também um paralelo com o romance "Mrs. Dalloway", de Virginia Wolf. O escritor, na fase terminal, é visto como um profeta


"Cazuza - O Tempo Não Para" (Dir.: Sandra Werneck e Walter Carvalho, Brasil/2003) A cinebiografia de Cazuza mostra suas origens e seu surgimento com o Barão Vermelho, mas lá pela metade do filme há uma quebra: o cantor, interpretado com maestria por Daniel de Oliveira, descobre que é soropositivo. O calvário e a coragem de Cazuza, um dos primeiros famosos a assumir a doença publicamente, pesam no contexto histórico


"The Normal Heart" (Dir.: Ryan Murphy, EUA/2014) Telefilme da HBO, ?The Normal Heart? é uma cinebiografia do dramaturgo e ativista americano Larry Kramer, dirigida por Ryan Murphy (criador de "Glee" e diretor de "Comer, Rezar, Amar"). Contando com uma narrativa crua, o diretor não foge dos conflitos e das divergências que marcaram todo o crescimento do movimento gay norte-americano e da propagação do vírus nos anos 80


"Kids" (Dir.: Larry Clark, EUA/1995) O conturbado mundo dos adolescentes americanos passa pela lente do polêmico diretor Larry Clark. Sem rodeios, e com pungência, o cineasta mostra o consumo de drogas e o sexo sem proteção. Entre os personagens, um garoto, que deseja só transar com virgens, e uma jovem, que só teve um parceiro mas é HIV soropositivo 


"Um Lugar para Annie" (Dir.: John Gray, EUA/1994) Drama conta a convivência com um bebê soropositivo de três meses. Abandonada pela mãe, ela é adotada por Susan Lansing (Sissy Spacek), enfermeira do hospital onde Annie estava internada. Após um certo tempo a mãe de Annie, Linda (Mary-Louise Parker), reaparece subitamente pedindo sua filha de volta 


"Meu Querido Companheiro" (Dir: Norman René, Alemanha/1990) Primeiro longa a abordar diretamente o tema. A trama gira em torno de três casais gays e a apreensão com as notícias do surgimento da doença, os primeiros sintomas e a solidariedade que os uniam



"Jeffrey - De Caso Com a Vida" (Dir.: Christopher Ashley, EUA/1998) Existe o drama dos soropositivos, mas o longa de Ashley vai para outro caminho: a comédia. Steven Weber vive o protagonista do título, um homem gay que decide ser celibatário em face da epidemia de AIDS. Após tomar essa decisão, ele conhece seu grande amor 


"Yesterday" (Dir.: Darrell Roodt, África do Sul/2004) Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005, o longa conta a história de Yesterday, uma mulher de uma aldeia Zulu que descobre ser HIV positivo, apesar da fidelidade ao seu marido - que, na verdade, é promíscuo. A relação deles mostra o preconceito, o sexismo e a estigma social entre homem e mulher