domingo, 15 de julho de 2012

Foro de São Paulo: um balanço de Caracas




Por Atilio Boron

Mesa de clausura del FSP. De izquierda a derecha Ignacio Ramonet, Jean-Luc Melenchon, Rigoberta  Menchú, Ricardo Patiño, Valter Pomar, Presidente Hugo Chávez, Diosdado Cabello, Nicolás Maduro,  José R. Balaguer, Graciela Montaño (fuera de cuadro) y el autor de estas líneas


Na sexta-feira à noite concluíram-se em Caracas as deliberações do Foro de São Paulo. Não haveria exagero se disséssemos que foi a reunião mais concorrida e variada do foro desde a sua criação, na cidade de São Paulo, em 1990. Inúmeros partidos e movimentos sociais da América Latina e do Caribe se reuniram nessa cidade, junto com um significativo contingente de organizações irmãs da Europa, África e Ásia. O balanço final do conclave é, em certo sentido, positivo, embora, em alguns aspectos, que veremos a seguir, haja muitas coisas para melhorar.


Os desafios de Chávez


Positivo porque, no multitudinário evento, reuniu-se uma grande quantidade de partidos e de movimentos que tiveram a possibilidade de trocar opiniões, comparar experiências e realizar uma rica e necessária aprendizagem recíproca. Positivo também porque, perante o conhecido ecletismo ideológico do foro – do qual participam partidos que só um alarde da imaginação poderiam se categorizar como de esquerda –, o discurso de encerramento pronunciado pelo Comandante Chávez fixou uma nova agenda que os partidos e organizações do FSP deveriam considerar muito cuidadosamente em seus próximos encontros.

Em primeiro lugar, perguntando-se, como fez Chávez, citando uma passagem da obra de Marx, pelo caráter e a natureza da transição que deverá substituir o capitalismo por um novo tipo histórico de sociedade. Porque, para além da crítica necessária ao neoliberalismo e sua ainda hoje pesada herança, o problema é o capitalismo, o que deve ser vencido e subvertido é o capitalismo. Ou será que as lutas protagonizadas pelos nossos povos, com os seus tremendos sacrifícios e seus milhares de vidas oferecidas para a construção de uma nova sociedade, foram apenas para passar do liberalismo ao neokeynesianismo, ou ao desenvolvimentismo, ou à miragem de um "capitalismo verde"? Com sua sagaz interrogação, Chávez assinalava uma das principais debilidades teóricas da Declaração de Caracas aprovada pelo FSP.

Segundo, porque, continuando com esse mesmo raciocínio, ele advertia que o socialismo não cairá do céu como produto de um determinismo econômico, como sugeria Edouard Bernstein no fim do século XIX, mas sim pela intervenção do plural e heterogêneo sujeito revolucionário. É claro que, para responder às necessidades da práxis, esse sujeito deve se conscientizar, se educar e se organizar. E ele arrematava a sua incisiva reflexão com uma pergunta: o que farão as forças sociais que vieram a Caracas, no dia seguinte, quando voltarem a seus países? Como organizarão as suas lutas, qual é o plano de batalha, quem assumirá quais responsabilidades na sua execução? Perguntas não só pertinentes, mas também urgentes, porque as burguesias, as oligarquias e o imperialismo não só têm seus fóruns – o de Davos continua sendo o mais importante –, mas também dispõem de instâncias que organizam suas forças e planejam e coordenam as suas próprias batalhas, que são travadas no campo mundial e não tão somente nos espaços nacionais.

Nossos inimigos não só deliberam, mas também agem organizadamente; não poderão ser enfrentados com êxito somente com belas declarações. Esta, nos parece, é uma das fundamentais questões pendentes não só do FSP, mas também da sua organização-irmã, o Fórum Social Mundial. Perante uma burguesia imperial e seus aliados locais fortemente organizados, não podemos opor tão somente a abnegação militante e o grito que denuncia a desumanidade do capitalismo, desentendendo-nos alegremente acerca da problemática decisiva da organização.


Os pontos pendentes


A declaração aprovada em Caracas condena as tentativas golpistas contra Evo Morales, Mel Zelaya, Rafael Correa e a mais recente contra Fernando Lugo. Ela se esquece de assinalar, infelizmente, o golpe perpetrado contra Jean-Bertrand Aristide, no Haiti, em 2004. Falha grave, porque não se pode dissociar esse esquecimento da infeliz presença de tropas de vários países latino-americanos – Brasil, Chile, Argentina, dentre outros – no Haiti, quando na realidade o que faz falta nesse sofrido país são médicos, enfermeiros, professores. Mas disso Cuba se encarrega; seu generoso internacionalismo é um dos sinais mais honrosos da sua revolução.

Por outro lado, teria sido conveniente que a declaração de um foro das esquerdas exigisse o fechamento das bases militares que, em número de 46 – segundo a última contagem do Mopassol (Movimento pela Paz, Soberania e Solidariedade entre os Povos) – se estendem por toda a América Latina e o Caribe. Embora Washington não modifique uma vírgula em sua postura beligerante, uma exigência unânime respaldada por mais de uma centena de partidos políticos – incluindo vários de governo – teria contribuído para ressaltar, perante os olhos da opinião pública latino-americana e norte-americana, as ameaças que envolve a presença dessas bases na Nossa América.

Cabe dizer o mesmo com relação à afirmação que assegura que a nossa região é uma zona desnuclearizada. Isso era verdade até antes da assinatura do tratado Uribe-Obama: agora não sabemos, porque ninguém, exceto a Casa Branca, sabe que tipo de armamentos – nucleares ou não – o Pentágono introduziu na Colômbia, uma vez que, em virtude de tal tratado, esta renunciou a seu direito de inspecionar os carregamentos que entram e saem do seu território.

A declaração fala das "limitadas conquistas dos Tratados de Livre Comércio Bilaterais". Acreditamos que essa redação é infeliz, como comprova a experiência mais madura nessa matéria: o caso mexicano. Antes da assinatura do TLC com os Estados Unidos e o Canadá, o México era autossuficiente em matéria alimentar: hoje, depois de 18 anos de "livre comércio", ele tem que importar 42% dos insumos necessários para a sua alimentação. Antes, sua fatura por conceito de importação de comestíveis era de 1,8 bilhões de dólares; em 2012 será de cerca de 24 bilhões dessa mesma moeda. Não parece muito uma "conquista".

Por último, não se entende como as autoridades do FSP negaram o direito à palavra – não só o ingresso da Marcha Patriótica como organização política filiada ao foro, apesar de todos os avais apresentadas por partidos políticos dentro e fora da Colômbia – à senadora Piedad Córdoba, uma das principais figuras da política latino-americana e considerada em todo o mundo como uma merecidíssima candidata ao Prêmio Nobel da Paz pelos seus denodados esforços para facilitar a libertação dos reféns em poder da guerrilha e para alcançar uma solução política ao trágico conflito colombiana.

Além de informar sobre a dolorosa situação imperante em seu país, Córdoba tinha que denunciar a ameaça de morte, lançada por escrito, há apenas dois dias, contra 13 militantes de diversas organizações de direitos humanos. Argúcias legalistas, inadmissíveis em uma entidade que diz ser de esquerda, nos privaram de escutar o seu testemunho, o que não passou inadvertido ao presidente Chávez.

E o mesmo se fez com os hondurenhos do Liberdade e Refundação (Libre), partido que representa melhor do que qualquer outro a resistência ao governo de Porfirio Lobo, cujo triste recorde em matéria de assassinato de jornalistas (24 desde que ocorreu o golpe), mais os inúmeros crimes e prisões de agricultores e militantes mereceriam do FSP um gesto, mesmo que elementar, de solidariedade, sendo que um dos seus líderes, Rafael Alegría, se encontrava entre nós.


Como conclusão...


Será preciso lutar para que exclusões como essas não voltem a se repetir no futuro. Como se pode inferir a partir dessas linhas, é preciso abandonar o triunfalismo que, às vezes, saturou as deliberações do foro e avançar na constituição de um espaço de discussão fraterna, mas profunda, sem concessões, e a salvo de qualquer classe de travas burocráticas e formalistas que a asfixiem. Discussão ainda mais importante na medida que se supõe que a missão do FSP é mudar o mundo, e não somente interpretá-lo (ou lamentá-lo). E mudar o mundo na direção do socialismo requer uma clareza teórica, porque "não há práxis revolucionária sem teoria revolucionária". E os tempos que correm exigem aos gritos uma revolução.

Convém lembrar, aos espíritos muito comedidos e moderados que circularam pelo FSP, o que dizia Walter Benjamin: a revolução não é um trem fora de controle, mas sim a aplicação dos freios de emergência. O trem descontrolado, que se encaminha para o abismo, é o capitalismo. E, se não o frearmos a tempo, a humanidade inteira vai sofrer as irreparáveis consequências desse desastre. Não há nada pior do que um maquinista temeroso e vacilante na hora de aplicar os freios de emergência. Em uma hora em que se requer, como dizia Dantón, "audácia, audácia e mais audácia", a moderação, longe de ser uma virtude, se converte em um pecado mortal.



FONTE: PCB



A seguir a esclarecedora resposta de A. Boron a Valter Pomar.



El Foro de Sao Paulo y sus desafíos: respuesta a Valter Pomar 

por Atilio A. Boron


El Secretario Ejecutivo del Foro de Sao Paulo, Valter Pomar, escribió una  vitriólica respuesta a mi artículo “Foro de Sao Paulo: balance desde Caracas”. Una cuidadosa lectura del texto no hace sino confirmar el acierto contenido en las tesis centrales de mi artículo, como trataré de fundamentar a continuación. Llama la atención que mientras en mi escrito yo hablo de política Pomar en el suyo hable de psicología. En lugar de discutir los argumentos acerca del “eclecticismo ideológico” del foro o de  las debilidades de la Declaración final (en donde a lo largo de ocho páginas no se dice ni una palabra de las masivas protestas estudiantiles contra la privatización de la universidad que están conmoviendo la política de Chile, Colombia, México, República Dominicana e inclusive Quebec, o apenas si se habla de las bases militares de Estados Unidos en la región, siendo que Pomar es militante de un partido cuyo país es el más completamente cercado por ese tipo de mortíferas instalaciones) lo que sobresale en su pretendida réplica son supuestas caracterizaciones de mi persona y de mi comportamiento. Así dice que es “aterrador” escribir lo que escribí; me califica como supuesto “mensajero” de Chávez; o de “pontificar” en lugar de investigar; “medio descontento” y, más adelante, “malhumorado” con el éxito del foro; de decir “tonterías” al hacer una crítica teórica a la Declaración del FSP; de elaborar “ridículas caricaturas”; o pecar por falta de “tolerancia”; de “simplificar” la situación al comparar al FSP con el Foro Social Mundial (FSM); de actuar con “mala fe” al insinuar una posible relación entre el olvido del golpe contra Aristide con la presencia de la MINUSTAH en Haití; y de “no saber” que las declaraciones finales del FSP “son consensuadas” en las reuniones de Grupo de Trabajo. Brillan por su ausencia las categorías de análisis político o económico mientras que sobran las de tipo psicológico. Por algo será.  

 La verdad es que su actitud no hace sino confirmar la escasa voluntad del Secretario Ejecutivo del FSP de aceptar disidencias y habilitar una discusión sobre temas candentes. Todo, absolutamente todo, debería estar abierto a discusión y revisión, máxime en una organización que pretende representar a la izquierda en América Latina y que supuestamente no admite la infalibilidad de los dirigentes como principio organizativo. Actitud intolerante que se refleja en el hecho de que al menos hasta el día 14 de Julio en el sitio web del FSP sólo aparecía la nota crítica que Pomar dedicara a mi artículo –en castellano y también en una traducción al inglés- sin que los visitantes del sitio pudieran leer la mía.[1] En mi blog, en cambio, desde el primer momento incluí junto a mi propio texto la Declaración final del FSP y la nota de Pomar.[2] Censurar u ocultar opiniones adversas siempre es mala práctica, y en las organizaciones de izquierda sus consecuencias son nefastas. Es hora de que alguien instruya al Secretario del FSP que acabe con las mismas, por el bien del propio foro. En poco tiempo podremos comprobar la suerte que correrán estas líneas.



 Pomar dice que hay “equivocaciones de hecho” en mi nota. En primer lugar cuestiona mi afirmación en relación a la actitud insolidaria y hasta irrespetuosa con la que fuera tratada en las sesiones del FSP Piedad Córdoba, representante de la Marcha Patriótica de Colombia. Lamentablemente para él una Carta Abierta que me dirigieran la ex Senadora Piedad Córdoba y Carlos Lozano Guillén, vocero de Marcha Patriótica, ratifican mis dichos y refutan las explicaciones de Pomar.[3]Lo mismo vale en relación a la actitud, igualmente prejuiciosa e indiferente, en relación a los compañeros hondureños de LIBRE, cuya heroica resistencia durante seis meses en la calle en contra del golpe no fue suficiente para permitirles explicar a los asistentes al XVIII Encuentro  cuáles eran los desafíos que enfrentaba ese partido de cara a las elecciones del próximo año. Un correo que se me enviara el día 13 de Julio Gilberto Ríos Munguía, Coordinador de la Comisión Internacional del partido Libertad y Refundación (LIBRE) pone fin a cualquier especulación. En él se dice textualmente que el “Abogado Enrique Flores Lanza solicitó el uso de la palabra para dirigirse a los asistentes del Foro y le fue negada. No entendemos bien porque no se nos permitió hablar en el plenario, igual agradecemos tu artículo que hace referencia a lo que pareciera una arbitrariedad por parte del compañero Valter, aunque no estamos seguros si tienen que ver con la agenda y los reglamentos; lo cierto es que un minuto en un saludo no debió haberse negado.” En conclusión, lo que Pomar caracteriza como “equivocaciones de hecho” son hechos  irrefutables, corroborados por los actores directamente involucrados o por testigos calificados.[4]  Quien está errado es Pomar. Asunto concluido




El Secretario del FSP  me reprocha que haya escrito que “Chávez colocó una nueva agenda”. Le recomiendo que vea el video y tome nota de las palabras del Comandante, de una claridad meridiana y que en síntesis dicen lo siguiente: “Cuando nos despidamos hoy, y mañana regresemos allá y allá, a nuestros países: ¿dónde está la organización, el comando, el plan de batalla, plan científico como diría Carlos Marx? … Y Lula nos dijo una vez en Manaos: ‘Chávez, si no vencemos la burocracia es imposible la integración’. La burocracia de nuestros gobiernos es una cosa terrible.” ¡Vaya si lo es!, y si hiciera falta alguna prueba más la forma burocrática como el FSP procesó las cuestiones arriba mencionadas aportaría una nueva evidencia confirmatoria de los temores expresados por Lula.[5]  En ese vídeo se verá a Chávez preguntando dónde está Piedad Córdoba y luego exponiendo una agenda que no se encuentra en la Declaración del FSP. En relación también a este discurso Pomar dice que “concuerdo con algunas cosas y difiero de otras que dijo Chávez en el discurso final”. Dado que detenta la Secretaría Ejecutiva del FSP no sería mala idea que expresara cuáles son sus puntos de coincidencia y de discrepancia con lo dicho por el líder de la Revolución Bolivariana. Me parece que no es un asunto menor dado que Chávez no es un activista más que pasó ocasionalmente por el foro sino que está investido de una representación y una gravitación internacional que sería absurdo no tener en cuenta. Y en caso de que hubiera desacuerdos con sus palabras sería bueno conocerlos y no guardarlos en secreto y, por supuesto, someter ambas posturas a una discusión abierta y democrática.




Por último la comparación entre el FSP y el FSM no obedece a ninguna simplificación sino que toma precisamente en cuenta la común ausencia en ambos foros de un pensamiento estratégico acerca de cómo avanzar hacia un horizonte poscapitalista. ¿Basta con llegar al gobierno para construir el socialismo? ¡Claro que no! Los tremendamente difíciles avances registrados en Venezuela, Bolivia y Ecuador y la demora de la puesta en marcha de este proyecto en Brasil, Uruguay y El Salvador –tres países donde gobiernan partidos o coaliciones fundadoras del FSP- son claros síntomas de las enormes dificultades con que tropieza la construcción del socialismo en Nuestra América, un  área que como lo recordaba el Che constituye la “reserva estratégica del imperio.” Es preciso debatir sobre los espinosos temas de la organización del campo popular, la  imprescindible articulación internacional de sus luchas y la estrategia y táctica de la transición, asuntos sobre los cuales no se habla ni en el FSM ni el FSP. En el primero  debido a que predominó en él una absurda actitud de repudio a la política, los partidos y a cualquier tentativa de organizar las energías canalizadas en el foro hacia la conquista del poder, lo que terminó por esterilizar y debilitar irreparablemente a una iniciativa que perdió la oportunidad de consolidarse como una fuerza de positiva gravitación universal en la escena contemporánea. ¿Pueden los pueblos del mundo luchar sin organización ni articulación internacional alguna, confiando tan sólo en la eficacia de la resistencia instintiva contra su explotación, frente a una burguesía imperial que ha perfeccionado al máximo su capacidad organizativa y ejecutiva en el plano mundial?  Las resistencias en el FSP tienen un origen distinto, toda vez que se privilegia de manera excluyente una sola forma de organización, el partido político, y una sola estrategia derivada de esa forma organizacional: la electoral. Sin embargo, los grandes avances democráticos de los últimos tiempos fueron resultados de arrolladoras insurrecciones populares y no del aceitado funcionamiento del sistema de partidos. Tal fue el caso de la creación de un orden democrático en Nicaragua y El Salvador, en los setentas y ochentas del siglo pasado, y en Ecuador y Bolivia en la primera década de este siglo. Y, hace apenas un año, en Túnez y Egipto. En ambos casos la silenciosa premisa que se oculta detrás de estas equivocadas posturas es o bien la ingenua creencia de que el socialismo sobrevendrá como la caída de una fruta madura, lo cual ha sido desmentido por la historia o, peor aún, la cínica convicción de que el socialismo es un proyecto que ya fracasó, que se hundió con la Unión Soviética o con el metabolismo del capital que impera en China, como diría István Mészáros. Lo cierto es que no habrá socialismo sin una revolución anticapitalista. Como recordaba una y cien veces Lenin, “el capitalismo no cae sólo; sólo caerá si se lo hace caer,” y para hacerlo caer se requiere la presencia de un sujeto plural y multifacético pero organizado, consciente y capaz de desplegar las estrategias y tácticas adecuadas para librar la larga batalla por el socialismo. Y si mencioné la advertencia de Chávez sobre este tema no fue para ampararme en su autoridad (como señala Pomar) sino para subrayar con sus palabras  la actualidad de la crítica del marxismo clásico –y especialmente de Lenin y Rosa Luxemburg- al evolucionismo socialdemócrata de Bernstein y su inexorable remate: el reformismo burgués.




El FSP cumplió un papel positivo sus más de dos décadas de existencia, pero los tiempos han cambiado: enfrentamos la peor crisis del capitalismo en toda su historia, una crisis cuya resolución es imposible dentro del capitalismo. Vivimos en una época en donde las contradicciones de ese modo de producción: las que contraponen el capital al trabajo y a la naturaleza, se han potenciado exponencialmente, creando las condiciones objetivas para un salto revolucionario. Los multimillonarios “rescates” con que se ha beneficiado a los causantes  de la crisis han desnudado el carácter de clase de las democracias capitalistas, cuya legitimidad se ha derrumbado irreparablemente. Y el imperio, ante su lenta pero inexorable decadencia, se lanza a una contraofensiva brutal para recuperar el absoluto control de América Latina, procurando vanamente retrotraer la historia al período previo a la Revolución Cubana cuando Estados Unidos prevalecía sin contrapeso en esta parte del mundo. Ante esta situación no podemos seguir pensando o haciendo lo mismo que antes. Tengo la esperanza que en la próxima edición del FSP estos temas puedan ser encarados y discutidos con la profundidad que se merecen. De no ser así, el riesgo que se corre es que el destino de este espacio latinoamericano sea el mismo de tantas otras bienintencionadas instituciones internacionales: primero el rigor mortis de su burocratización y finalmente su desaparición, a causa de su incapacidad para responder a los desafíos de la época.  
                                                                                                                             



[3] Ver “Austeridad, entereza y compromiso”, en Página/12, Jueves 12 de Julio, 2012: http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-198471-2012-07-12.html
[4] Ver las coincidentes observaciones que sobre el tema hace Narciso Isa Conde:” XVIII Foro de Sao Paulo: examen microscópico”, enhttp://www.alainet.org/active/56452&lang=es
[5] El discurso de Chávez puede verse en http://www.youtube.com/watch?v=_7U0j4MVAxU&feature=relmfu, (ir a la marca 3:27:00)


FONTE: Atilio Boron

sábado, 14 de julho de 2012

Game da Reforma Ortográfica




Game da Reforma Ortográfica, uma maneira interativa e divertida de aprender mais sobre as novas regras da língua portuguesa.


O jogo é baseado no livro "Guia da Reforma Ortográfica" idealizado pela FMU e pelo Museu da Língua Portuguesa. 


Confira o game abaixo e aproveite para conhecer mais sobre as alterações da reforma ortográfica.





Marx Na Íntegra

Antônio Carlos Mazzeo é o entrevistado do programa Na Íntegra (TV Cultura). Professor de Ciências Sociais da Unesp de Marília, ele explica os principais conceitos da sociologia de Marx e sugere como o filósofo alemão enxergaria o mundo de hoje, além de comparar a sua teoria com a de outros importantes sociólogos, como Émile Durkheim e Max Weber.




sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eduardo Galeano: “Lo que pasó en Paraguay fue un golpe de Estado mal maquillado”



De La Garganta Poderosa para Cubadebate



Tapa y contratapa del número de julio de la revista La Garganta Poderosa.
Tapa y contratapa del número de julio de la revista La Garganta Poderosa.


En una extensa entrevista brindada a La Garganta Poderosa, la revista de cultura villera escrita, fotografiada, dirigida y financiada por vecinos de distintos barrios marginados de la Argentina, el reconocido y comprometido escritor Eduardo Galeano se refirió a la reciente destitución de Fernando Lugo como presidente de Paraguay: “Claramente, fue un golpe de Estado, que además estuvo mal maquillado. Se cayó la mascarita a los pocos minutos, y son vanas las pretensiones de disfrazar eso cuando dicen “bueno, se trata de un acto legal”. Hasta la propia sentencia que declara culpable a Fernando Lugo, termina aclarando que no hay pruebas, pero que no son necesarias porque se tratan de acontecimientos de público conocimiento, o sea que ellos mismos confiesan que esto es un perfecto mamarracho, y es un mamarracho al servicio de los intereses opuestos a la independencia del Paraguay”.

El autor del libro Las venas abiertas de América Latina explicó por qué se sucedió el golpe contra Lugo: “Hubo un gobierno que quiso recuperar esa tradición de dignidad, que no estaba muerta. Entonces Lugo intentó, muy tímidamente, iniciar algunos cambios destinados a que el Paraguay volviera a ser el país más independiente de todos, el más justo, y eso fue un pecado imperdonable, desde el punto de vista de los dueños del poder. Siempre ocurre algo similar cada vez que hay tentativas de cambiar las cosas, porque eso se vive como una amenaza desde el enfoque de los dueños del orden establecido, que no quieren que nada cambie. Ellos lo viven como un peligro, una amenaza, aunque no sea en realidad un peligro grave, porque ni en Honduras ni en Paraguay había presidentes embarcados en revoluciones muy profundas, ni nada que se les parezca. Apenas anunciaron que empezaban a hacer, o que tenían la intención de hacer, alguna reforma. Si eso bastó para voltearlos, lo que quiere decir es que hay un veto, que yo supongo que viene de más arriba, que está más allá de los gobiernos que nos gobiernan, o que hay quienes gobiernan a esos gobiernos, gobernados desde afuera y desde arriba”.

En la íntima charla llevada a cabo en Uruguay, Galeano, quien en la producción fotográfica posa con una remera de la selección de fútbol paraguaya, que al dorso refleja el lema “LUGO 10″,  opinó sobre el rol que tuvieron los medios de comunicación en el golpe de Estado: “Siempre se crea un ambiente favorable a los golpes, que nunca vienen solos. Vienen acompañados, en todos los casos. No hay golpes aislados. Se van incubando de a poco y con el apoyo de los medios dominantes de comunicación, que tienen que convencer a la población de que hay una amenaza, de que hay riesgos de inseguridad grave, porque el fantasma de la inseguridad es el mejor abono para los golpes de Estado. En un mundo muy dominado por el miedo, el miedo manda, entonces se multiplica el miedo, y después aparecen los salvadores de la patria que vienen a sacarle jugo al poder”.

La Garganta es una cooperativa de trabajo de La Poderosa (www.lapoderosa.org.ar), una fuerza social de militantes anónimos y voluntarios, complementaria a las propuestas partidarias populares, que se construye desde las villas, buscando transformar la realidad a través de la organización y la unión vecinal con asambleas barriales, trabajo colectivo, actividades de educación popular y generación de cooperativas de trabajo, para actuar sobre las problemáticas de los barrios y caminar hacia una sociedad justa e igualitaria.

El encuentro con Eduardo Galeano se publica en el decimoctavo número de La Garganta Poderosa que ya está en las calles argentinas, y que llega a todos los kioscos del país. Además, podés escuchar el grito de La Garganta en twitter @gargantapodero y también en Facebook: “La Garganta Poderosa“.

La edición de julio también tiene en sus páginas, entre otras notas, una entrevista con el escritor y locutor Alejandro Dolina quien se explayó acerca de la actualidad de los medios de comunicación: “Hoy no existen restricciones a la libertad de prensa, sino a la libertad de empresa. Decir que es una limitación a la libertad de expresión es confundir el juego”; además, un íntimo reportaje con la actriz Dolores Fonzi sobre el aborto y la identidad de género: “No importa con qué genitales nacés”. Por si fuera poco, una superproducción con la presencia de varios actores exclamando que no se cierre otro cine nacional: Norman Briski, Laura Azcurra, Gastón Pauls, Carolina Papaleo, Esteban Prol y Arturo Bonín gritan: “Salvemos al Gaumont”.


Eduardo Galeano en el número de julio de la revista La Garganta Poderosa.
Eduardo Galeano en el número de julio de la revista La Garganta Poderosa.
Eduardo Galeano en el número de julio de la revista La Garganta Poderosa.
Eduardo Galeano en el número de julio de la revista La Garganta Poderosa.
Eduardo Galeano en el número de julio de la revista La Garganta Poderosa.
Eduardo Galeano en el número de julio de la revista La Garganta Poderosa.

Piadinha de historiador...

(Texto que andou circulando pela internet)

 
CONSEQUÊNCIAS DA CRISE NA GRÉCIA

1. Zeus vende o trono para uma multinacional coreana.
2. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública.
3. Eros e Pan inauguram prostíbulo.
4. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento.
5. Narciso vende espelhos para pagar a dívida do cheque especial.
6. O Minotauro puxa carroça para ganhar a vida.
7. Acrópole é vendida e aí é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus.
8. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: "Ela tem minhocas na cabeça!".
9. Sócrates inaugura Cicuta's Bar para ganhar uns trocados.
10. Dionisio vende vinhos à beira da estrada de Marathónas.
11. Hermes entrega currículo para trabalhar nos correios. Especialidade: entrega rápida.
12. Afrodite aceita posar para a Playboy.
13. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus libera as ninfas para trabalharem na Eurozona.
14. Ilha de Lesbos abre resort hétero.
15. Para economizar energia, Diógenes apaga a lanterna.
16. Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.
17. Áries, deus da guerra, é pego em flagrante desviando armamento para a guerrilha síria.
18. A caverna de Platão abriga milhares de sem-teto.
19. Descoberto o porquê da crise:os economistas estão falando grego!

De historiador que conhece a crise européia.


terça-feira, 10 de julho de 2012

Escola Nacional Florestan Fernandes promove a socialização do conhecimento


Com matriz curricular alternativa, a escola do MST oferece cursos voltados aos movimentos sociais. 

Organizada como uma espécie de universidade, a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), fundada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e localizada no município de Guararema (SP), oferece cursos alternativos destinados  a grupos organizados da sociedade, como os próprios militantes do MST, os indígenas e também estrangeiros vindos de toda a América Latina e da África.

As atividades e os cursos oferecidos pela escola são organizados para promover a colaboração e a solidariedade por intermédio da socialização do conhecimento e do trabalho.

De acordo com Erivan Hilário, diretor da ENFF, o objetivo da escola é qualificar a luta dos movimentos sociais a partir do conhecimento crítico e da análise da dinâmica social atual. Para isso, a escola oferece cursos que são ministrados por mais de 500 professores voluntários das mais importantes universidades do país – como a Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e a UFF (Universidade Federal Fluminense) – nas áreas de Filosofia Política, Teoria do Conhecimento, Sociologia Rural, Economia Política da Agricultura, História Social do Brasil, Conjuntura Internacional, Administração e Gestão Social, Educação do Campo e Estudos Latino-Americanos.

A ENFF conta ainda com uma estrutura de três salas de aula com capacidade para 200 alunos, uma biblioteca com 40 mil títulos (todos obtidos por meio de doações), dois anfiteatros, alojamentos, refeitórios e uma horta para consumo próprio.  A manutenção desses espaços é feita pelos próprios alunos, Erivan diz que “na ENFF o coletivo realiza o trabalho que será apropriado de maneira coletiva por todos”.

Pela manhã os alunos têm aulas e durante a parte da tarde todos eles trabalham. Enquanto alguns cuidam da horta, outros se encarregam da organização e limpeza dos espaços. Deste modo, a escola busca criar naqueles que participam de suas formações um sentimento maior de pertencimento e consciência social.

Segundo a Associação dos Amigos da ENFF, os recursos para manter as atividades da escola vem de entidades e simpatizantes do movimento, o que garante a autonomia de seu projeto pedagógico. A Florestan Fernandes não oferece diploma sobre os cursos que ministra. Seu objetivo é capacitar pessoas que desejam trabalhar em prol de interesses e direitos coletivos.

Conservação do meio ambiente


O projeto arquitetônico da Escola Nacional Florestan Fernandes, inaugurada no ano de 2005, foi pensado pela arquiteta Lilian Avivia Lubochinskino sentido de reduzir as agressões ao meio ambiente.

Sendo assim, a construção de todos os espaços foi feita com tijolo ecológico, produzido pela própria escola. Esse tijolo, além de ser mais resistente, reduz a quantidade de ferro, cimento e aço utilizados nas construções.

Os prédios da escola também possuem painéis de captação da energia solar para o aquecimento da água e a utilização da energia elétrica. Além disso, a escola tem em seu campus uma central para o tratamento de toda a água utilizada em suas dependências.

Os alimentos produzidos na horta da escola também seguem a linha ecologicamente correta. As verduras cultivadas ali não utilizam agrotóxicos ou transgênicos, favorecendo o meio ambiente e a saúde humana.


FONTE: http://cmais.com.br/educacao/n-a-5


“Dercy Gonçalves, o corpo torto do teatro brasileiro”: a história do teatro popular brasileiro como objeto de pesquisa acadêmica


“Toda a trajetória de Dercy é muito interessante justamente porque através dela se pode vislumbrar boa parte das questões que permeiam a história do teatro popular brasileiro”.É desta forma que a pesquisadora Virgínia Maria de Souza Maisano Namur define a relação entre a atriz e o teatro nacional. Mestre em Comunicação e Semiótica, a professora de Humanidades da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP), foi premiada pelo Capes como melhor tese de doutorado apresentada em 2010, com a pesquisa intitulada “Dercy Gonçalves, o corpo torto do teatro brasileiro”.




Globo Universidade – Sua tese de doutorado teve como título “Dercy Gonçalves, o corpo torto do teatro brasileiro”. Por que você se interessou em pesquisar a vida de Dercy? Que aspectos da carreira da atriz você abordou na tese?
Virgínia Maisano Namur - Minha pesquisa não foi sobre a vida de Dercy Gonçalves, mas sobre seu trabalho no teatro, cinema e televisão, além de sua presença na web, como ícone de um tipo específico de humor e de riso. Se por acaso acabou chegando também a aspectos biográficos, foi porque a carreira da atriz foi tão longeva que cobrindo quase todo o século XX, se prestou magnificamente para o exame não só da evolução do teatro popular do período, mas ainda, por trás dessa evolução, tentando explicar suas atribulações, conquistas e negociações, também da própria história do país. E essa história não é pouca. Passa por duas longas ditaduras, por muita repressão e resistência, além de coincidir com a entrada da cultura de massa e de consumo no país. A tese tem no título “o corpo torto do teatro brasileiro” porque mostra Dercy como representante extrema de um teatro brasileiro, mais especificamente o teatro popular, que infelizmente ainda é pouco valorizado no país. Teatro mambembe, teatro de revista e mesmo a comédia brasileira só há poucas décadas passaram a ser alvo de pesquisa séria. Neyde Veneziano, pesquisadora da Unicamp e minha orientadora na tese, talvez seja a única especialista em revista nos meios acadêmicos. E é importantíssimo reconhecer nossos gêneros populares porque há uma faceta popular em todo o teatro brasileiro e nós nem sempre nos damos conta disso.



GU – De que forma a vida de Dercy Gonçalves esteve atrelada à linguagem cênica do momento político brasileiro? A seu ver, quais características da atriz foram responsáveis por sua notoriedade? Que momentos da vida dela você destacaria?

VMN - Toda a trajetória de Dercy é muito interessante justamente porque através dela se pode vislumbrar boa parte das questões que permeiam a história do teatro popular brasileiro. E evidentemente, essa história diz respeito ao modo como a sociedade e também a política, sobretudo a de caráter cultural, viram e muitas vezes ainda veem esse teatro. Desprovido de qualquer subvenção, esse teatro sempre foi tido como indesejado e menor, embora tivesse público garantido e fosse o único em território nacional a ser capaz de se manter somente à custa da bilheteria. Popular, porém não benquisto pelos intelectuais, sobretudo pela crítica, que praticamente o ignorou, quando se pesquisa os poucos livros existentes sobre História do Teatro Brasileiro, simplesmente não se consegue encontrá-lo. O que se tem, portanto, é uma História parcial do teatro nacional, porque absolutamente centrada apenas nas tentativas que se fez nos palcos nativos para realizar cópias bem sucedidas de modelos nem sempre tão altos e nobres, mas sempre assim idealizados por serem estrangeiros. Nas historiografias oficiais, essa mentalidade colonialista tem maior duração quando se trata de teatro do que de literatura, porque há ainda o agravante da velha concepção de teatro como texto dramático, não como encenação, além das dificuldades de registro. Do teatro popular só são consideradas as revistas de Arthur Azevedo, porque esse era filho do vice-cônsul de Portugal, irmão do romancista Aluisio, e poeta e jornalista conhecido, que se rendeu, não sem críticas dos contemporâneos, às graças do popular. Então, não é de espantar que a carreira de Dercy tenha sido de tropeços e reviravoltas, num teatro absolutamente ignorado pela oficialidade. E que seu inquestionável sucesso de público quase sempre tenha sido considerado resultado de estratégias “baixas” e apelativas, quando ao contrário, se deveu a muito trabalho e disciplina, muita coragem de enfrentar desafios, muita criatividade para improvisar alternativas, muita vontade de sobreviver como artista popular. A essa energia se poderia chamar de resistência, embora não obedeça a nenhum programa político. Trata-se, na verdade, da própria capacidade de sobrevivência popular, sempre em diálogo avesso e corrosivo com a oficialidade que teima em colocá-la sempre à deriva, na marginalidade. E Dercy, como artista de grande sucesso, tanto que centenária ainda se manteve ativa nos palcos e na mídia, é excelente exemplar desse teatro e pode com as estratégias de palco que lhe garantiram sucesso, mas também uma enorme e injusta má fama, revelar muito desse teatro, inclusive nas negociações que este fez com outras mídias como o cinema e a TV.
Dessa forma, não tenho a destacar nenhum momento da vida de Dercy, mas da sua carreira, dos gêneros que adotou, do modo como contornou dificuldades em tempos de ditadura, dando-se por alienada, enquanto ajudava amigos perseguidos pela repressão, como Mário Lago, trazendo-o de volta à televisão; do modo como abraçou as novas mídias, mantendo-se sempre atualizada e exercitando até ao extremo uma estética da precariedade e do improviso que parece ser, sem nenhum desmerecimento que a princípio possam sugerir os termos, a estética de uma arte que mesmo em negociação com a cultura de consumo permanece genuinamente popular.




GU – Você conheceu Dercy Gonçalves pessoalmente? Como era sua relação com a atriz? Atualmente, como as pessoas veem Dercy?
VMN- Infelizmente só conheci Dercy nos últimos anos da sua vida. Demorei a procurá-la, pois tinha enorme medo dela. Tinha medo daquela sua imprevisibilidade, daqueles ímpetos jocosos que conhecia pela mídia. Por isso inventei para mim mesma e para quem me perguntasse, que para o bem da neutralidade científica de minha pesquisa sobre ela, era melhor que não me aproximasse dela. Tinha e tenho até hoje um filtro da web que me informa qualquer referência feita a ela pela mídia. Até hoje, anos após a sua morte, não há um dia sequer sem pelo menos uma citação. Num tempo destes, de quinze minutos de fama, isso é muito raro. Mas houve um tempo em que eu desejava até que ela morresse, pois como ela não parava, vivia aparecendo aqui e ali, com aquela enorme capacidade de improvisação, que a fazia roubar sempre a cena, tinha a sensação que meu trabalho nunca mais iria terminar. Dercy realmente me deu muito trabalho. Um dia, porém, achei que não tinha escapatória, tinha que falar com ela. A mulher não morria e não parava de trabalhar e eu estava começando a escrever sobre ela sem que ela soubesse. Achei uma indignidade. Foi quando eu estava preparando o capítulo do livro A mulher e o teatro brasileiro do século XX, organizado por Ana Lucia Vieira de Andrade e Ana Maria Edelweiss. Telefonei para ela e fui muito bem recebida. Prometi lhe enviar o texto por correio e o fiz. Na verdade, não esperava que ela o lesse, pois Dercy não gostava de ler. Mas com isso estava lhe dando uma satisfação e a partir daí me sentia mais à vontade. No entanto, aconteceu um fato engraçado: o envio do texto coincidiu com o fechamento dos Bingos no Rio e Dercy ficou muito aborrecida por não ter o que fazer às noites e pediu para sua sobrinha ler o texto para ela. As duas me contaram depois que fizeram a leitura em partes, por algumas noites seguidas, como se fosse um folhetim, e Dercy adorou. Daquele momento em diante atendia aos meus telefonemas com grande afetividade. Num deles, me perguntou como é que eu sabia tanta coisa dela e como é que eu compreendia até porque ela fazia assim ou assado, se ela mesma ainda não se compreendia. Achei que era ironia, mas depois percebi que falava com sinceridade, numa espécie de espanto com o fato de uma pessoa perder tanto tempo e se dedicar tanto para entender a sua trajetória e o seu trabalho. Principalmente quando isso não envolvia dinheiro e, portanto, lhe parecia uma atividade estúpida e sem sentido. Contudo, apesar do espanto, respeitava bastante meu trabalho e procurava responder às minhas perguntas à altura. Para resolver certos descompassos e também para se livrar de mim quando se cansava, às vezes dizia que não tinha instrução para compreender o que eu queria saber. Por isso, um dia me deu o telefone de um grande e antigo amigo paulista, Homero Kossac, que segundo ela “era inteligente pra burro” e podia me ajudar nessas coisas de universidade. De fato, Homero me ajudou algumas vezes, fazendo ponte com ela e me cedendo algum material. Animada com isso, decidi me encontrar com ela em uma de suas viagens a São Paulo. Ainda tinha um pouco de medo, mas fiquei imediatamente encantada logo que a conheci. Delicadíssima e sensível, muitíssimo inteligente, era realmente uma grande e bela mulher. Naquele dia, estava vestida num longo rosa, todo rebordado como gostava, mas de extremo bom gosto. E o que mais me causou admiração foi sua inteligência, de tipo esperto, alerta a tudo a sua volta, mesmo quando já não podia contar com bons ouvidos. Percebia tudo e era capaz de dar resposta a tudo, não só desaforadamente, mas também elegantemente. Para falar a verdade, nunca a ouvi falar um palavrão. Os palavrões eram do personagem que ela criou e que com o passar do tempo grudou-se nela, mais do que dela mesma. Outra coisa notável é que Dercy era de um extremo realismo, não tinha nada de romântico ou de piegas. Via a vida como ela é e ainda assim se divertia. Um exemplo disso foi a senha que ela inventou para nunca esquecer meu nome. Quando eu lhe contei que me chamava Virginia, pensou um pouco e soltou: Tive uma grande amiga com esse nome, mas ela pegou fogo! Levei um susto. Depois ela me contou uma história horrível, de uma amiga portuguesa, que também era atriz de revista no Rio, cujo vestido cheio de saia pegou fogo na porta do Municipal do Rio, numa noite de carnaval. Dercy estava com ela e esperavam alguém para entrar no baile. Não se sabe bem como foi, se foi um cigarro de alguém que incendiou o tecido, mas, quando viram, a amiga já tinha virado uma labareda e não puderam fazer mais nada. Evidentemente, detestei a associação. Mas depois a perdoei, porque percebi que Dercy gostara muito dessa amiga. Tanto que sabendo que o maior desejo dela era o de se casar com um namorado que sempre escapara do compromisso, convenceu-o a enfrentar um casamento in extremis. Dercy dizia que pelo menos ela morreu amada e feliz. Essa era Dercy! Transformava até as histórias mais horríveis em suportáveis. Pena que estive com ela por tão pouco tempo, nos vimos poucas vezes. Creio que ela também teve alguma afinidade comigo, pois pouco antes de sua morte, a pedido de Neyde Veneziano, convidei-a para entrar em off numa peça dirigida pela própria Neyde em São Paulo, e ela disse de pronto, sem nem perguntar muito sobre o projeto: Topo! Com você eu vou pra qualquer lugar. Você sabe que eu conheço as pessoas pelos olhos, não sabe?! Achei um elogio. Infelizmente não deu tempo de fazermos a gravação. Marcamos para o dia quatro ou oito de julho, não me lembro bem, sei que era um dia em que ela já viria a São Paulo para outro compromisso, mas em junho ela faleceu. Estive com ela uma semana antes, no talk-show que fez no Bar do Nelson, para entrar no Guiness como a mais velha atriz ainda na ativa. Ela já não estava muito bem naquela noite, mas em momento algum deixou transparecer. Era dura na queda, principalmente quando se tratava da profissão, pois sabia fazer valer a máxima: aconteça o que acontecer, o espetáculo continua.
Atualmente, talvez as pessoas comecem a enxergar Dercy de modo um pouco mais justo. Pelo que tenho visto nas declarações de Maria Adelaide Amaral, a minissérie escrita por ela para a Globo quer mostrar um outro lado de Dercy. Estou ansiosa para ver no que vai resultar. Maria Adelaide a conhecia bem; é a biógrafa autorizada por ela. Mas o melhor registro que encontrei sobre Dercy ainda foi a longa e inteligentíssima entrevista que Simon Khoury fez com ela e publicou num dos tomos da série Teatro Brasileiro da coleção Bastidores.





GU – Você escreveu um artigo intitulado “Dercy Gonçalves: Teatro ou Teatralidade Brasileira?”, em que afirma que a atriz mantém-se em um ‘interstício entre representação e atualidade’. Pode nos explicar um pouco mais sobre este artigo?
VMN - Eu teria que ler de novo todo o artigo para saber como e porque disse isso. Mas nesse artigo, eu me lembro, defendia exatamente a teoria de que aquilo que Dercy fazia e escandalizava a toda gente pertencia a uma muito antiga tradição popular. Embora diluída no tempo e domesticada pelo bom gosto burguês, essa tradição ainda influenciava todo teatro popular, inclusive o brasileiro. Como no Brasil o único teatro verdadeiramente de sucesso é o popular ou respeita e cultua matrizes dionisíacas populares, Dercy era um dos grandes exemplos de teatralidade brasileira. Era uma teoria mais ou menos provocadora, para chacoalhar um pouco o meio acadêmico. Mas eu acredito realmente nisso. Que Dercy é um excelente exemplo porque leva a extremos certos procedimentos que só podem ser entendidos dentro da herança da cultura cômico-popular. O personagem maior de Dercy é herdeiro do bufão medieval, insolente e boca suja, que não tem medo da realidade. Não nega sua corporalidade, nem teme as miseráveis instâncias da matéria. Antes, as celebra, rindo prazerosamente delas. E incomoda porque diz e mostra verdades que todos preferem ignorar. Pode provocar o riso, mas quanto mais houver repressão, ideológica ou moral, sua acintosa liberdade provocará também desordem. E olhe que esse descendente de bufão ousou fazer teatro em palco italiano, que sempre foi o lugar sagrado do teatro alto e sublime, de preferência dos eruditos.




GU – Ainda no artigo, você fala sobre a paródia. Como relacionar este conceito a Dercy Gonçalves?
VMN - Falo de paródia no sentido etimológico da palavra, ou seja, canto paralelo, discurso dialógico com outros discursos, aos quais se dá novo sentido. A paródia, ao mesmo tempo, critica e cultua o discurso que deforma. Em geral é usada de forma cômica, mas não necessariamente precisa provocar o riso, pois também há paródias sérias, como Mikhail Bakhtin, um clássico no assunto, já nos mostrou. Mas toda paródia revela um conflito ideológico com o discurso parodiado e é uma resposta paralela ou contrária às suas ideias originais. No caso de Dercy, essa resposta era efetivamente avessa e sempre muito bem humorada. Nisso Dercy era mestra. Quando fazia revista com Walter Pinto, dirigindo disciplinadamente o elenco, era também a cômica da trupe. E como seu trabalho era não se levar a sério, quando comandava as vedetes pela passarela, era capaz de rebolar de forma paródica, exagerando na imitação das poses das belas. Com isso, divertia a plateia e ainda chamava a atenção para a atração da revista, que já então eram as vedetes. Alguma coisa dessa estratégia aparece no final de A Grande Vedete, filme no qual ela faz uma homenagem à revista já em momento de declínio. Na comédia, gênero para o qual migrou justamente por causa desse declínio, quando a revista se transformou em mero show-business, também fazia paródia. E mostrando o que era ser realmente popular, ou seja, capaz de atingir a todas as classes. O sucesso também atingia a classe média e alta, tanto que chegou a virar moda, em São Paulo, assistir às estreias de Dercy no Teatro Cultura Artística, a melhor e mais moderna sala de espetáculos da época. Nesse período, uma de suas peças mais comentadas foi A Dama das Camélias, numa adaptação da obra de Alexandre Dumas Filho. Logo, o discurso oficial a par do qual Dercy construía o dela pertencia ao recatado e muitas vezes piegas bom-gosto burguês. E nesse diálogo, Dercy o distorcia comicamente, a ponto de transformar em estilização paródica até a tosse tísica de Marguerite, a heroína romântica da história. A cada crise da moça, tossia em “cofó-cofó” e transformava em bordão cômico o que deveria ser um dos pontos mais altos do melodrama. Já centenária, Dercy participou de um desfile carioca de vestidos de noiva, junto com outras atrizes famosas e, para variar, roubou a cena. Sua noiva carregava um buquê de arruda, sentava no chão e fazia tudo o que uma noiva que se sonha princesa jamais faria no dia do casamento. Para falar a verdade, nem mesmo a Noiva Cadáver, de Tim Burton, com a qual nem tanto assim ao acaso Dercy acabou se parecendo. Tim Burton trabalha com certa influência do Expressionismo alemão; o Expressionismo alemão é expressão de um mundo em crise; o nosso mundo está mesmo em crise e mudança; e por aí vamos longe, pois Dercy em suas representações irreverentes e em suas declarações de grande amor à vida, mas também de destemor à morte; em seu realismo grotesco, porém comemorativo, acabou por se tornar na velhice a própria imagem de um mundo em transfiguração, em morte e renascimento. Colocar tudo de pernas para o ar e relativizar tudo é uma forma de zerar para poder começar novamente. Esse é o modo como a arte de Dercy foi paródica: construindo discursos paralelos e nos fazendo ver outras possibilidades, mais livres e prazerosas de encarar o mundo.




GU – O gênero feminino e a dramaturgia também são temas presentes em seus artigos e pesquisas. Que temas você gostaria de abordar no futuro?
VMN - Não me importo muito com questões de gênero. Contribuí para o livro A mulher e o teatro brasileiro do século XX porque este me deu oportunidade de falar de Dercy. Como mulher independente, que enfrentou preconceitos, inclusive porque era atriz em maus tempos para essa profissão, e bem pior, porque era atriz de teatro popular, ela coube bem no livro. Mas o que me interessa mesmo é o teatro popular, são os seus artistas, grandes heróis da sobrevivência, homens ou mulheres. Por isso, continuo minhas pesquisas sobre esse teatro, do qual Dercy talvez seja um dos casos mais extremados, mas do qual é só um caso possível de estudo. Estou preocupada no momento com o que há de popular não só no teatro cômico brasileiro, mas também no teatro brasileiro tido como mais sério.




GU - Como você se sente sendo uma das responsáveis pelo fato de Dercy Gonçalves ter conquistado a academia, no sentido de render premiações para pesquisadores como você, que ganhou o Prêmio Capes 2010 com uma tese sobre a atriz? O que pode mudar daqui para a frente nesta relação?
VMN - Não creio que vá mudar nada em relação a como o público vê Dercy. Nesse sentido, a minissérie da Globo é muito mais poderosa e espero que faça justiça à atriz. O que pode mudar é com relação ao modo como a academia sempre viu a comediante e a cena popular da qual ela é uma muito digna representante. É também a primeira vez que esse prêmio de pesquisa é dado, na área das Artes, às Artes Cênicas. Mostra que a pesquisa cênica está crescendo em quantidade e qualidade no país. Mostra que muito em breve talvez possamos ter uma História do Teatro Brasileiro mais completa e mais realista. E isso é ótimo, pois compreendendo melhor nosso teatro e o aceitando por inteiro, também nos compreendemos melhor e nos aceitamos mais.






Dossiê EDUCAÇÃO E ENSINO DE HISTÓRIA - Lançamento da Revista História & Luta de Classes 13




Lançamento do número 13 da Revista História & Luta de Classes, com o dossiê EDUCAÇÃO E ENSINO DE HISTÓRIA. Segue abaixo a relação dos textos desta edição.

 A revista é produzida por um coletivo de associados e pode ser adquirida diretamente com seus integrantes ou através do endereço eletrônico historiaelutadeclasses@uol.com.br, mediante depósito bancário no valor de R$ 15,00 por exemplar (acrescido de R$ 5,00 para postagem nacional, independentemente do número de exemplares). Para informações sobre dados da conta, favor escrever para historiaelutadeclasses@uol,com.br.


HISTÓRIA & LUTA DE CLASSES – NÚMERO 13
Educação e Ensino de História
 Organizadores: Enrique Serra Padrós, Kênia Miranda e Vera Barroso

DOSSIÊ EDUCAÇÃO E ENSINO DE HISTÓRIA
Empresários da educação, sociedade civil e ditadura militar no Brasil
Alexandre Tavares do Nascimento Lira
A organização docente no Rio de Janeiro e as greves de 1979
Kênia Miranda
História e Formação Humana
Rafael de Oliveira
Trabalho e Educação: da dimensão humanizante à relação alienante
Cezar Ricardo de Freitas
As CEBs e a educação libertador: a formação popular no Bairro Mathias Velho ? Canoas / RS (1978-1988)
Odilon Kieling Machado
Cirandas Infantis: da proposta inovadora de educação às possibilidades de (re)arranjos de gênero na luta pela terra do MST
Renata Gonçalves
A construção do saber histórico e conflito social nos Simpósios dos Professores Universitários de História (APUH) nos anos de 1961 e 1962
Ludmila Gama Pereira
História e Análise midiática: uma abordagem metodológica sobre consumo, publicidade e revistas de comportamento
Carla Luciana Silva
Ensino de história da África
Marisa Antunes Laureano
A Nakba e a "nova história" em Israel: memória, história e política
Fábio Bacila Sahd

ARTIGOS
Da crise estrutural do capitalismo e da unidade entre socialismo e movimento operário. Uma questão candente
João Valente Aguiar
Isaac Deutscher: O profeta esquecido
Agamenon R. E. Oliveira
Os operários gonçalenses e seus espaços de atuação no segundo pós-guerra(1945-1951)
Marcelo Belarmino Fernandes

RESENHAS
Lorene Figueiredo
Relações intercapitalistas e Estado no Brasil recente: novas pesquisas, antigos receituários
André Pereira Guiot
O SPHAN como "braço" do Estado brasileiro
Alexandre Blankl Batista

Exposição "Olga" no Palácio Rio Negro (em Petrópolis)



EXPOSIÇÃO "OLGA"

14 painéis fotográficos sobre a história e a trajetória de vida de Olga Benário Prestes.

De 26 de junho a 11 de julho de 2012

3a. a Sábado de 10h às 17h

Entrada franca





FONTE: Blog do Palácio Rio Negro